Anima e animus são os princípios do feminino e do masculino próprios à dinâmica da psicologia de arquétipos de Carl Gustav Jung.
Como pertencentes ao nosso mais profundo psiquismo inconsciente, pessoal e coletivo, são a ponte de ligação de cada ser humano até o mais recôndito meneio de alma.
Não há individuação ou opus alquímica sem esse encontro com a “função” anima-animus.
- Já começou mal. O titulo por princípio já semeia a dicotomia dos contrários entre a alma e o espírito, o que levará ambos até a inevitável cisão final. Mas, uma coisa esse título tem de verdadeiro: o espírito não dialoga, declara.
- Eu só estou aqui porque quero saber da sua verdade.
- A minha verdade? [um pouco irritado] Busque a etimologia da palavra diálogo, examine o quanto ela pode ser diabólica, um instrumento do diabo, constituída que é pelo princípio da oposição, a oposição que faz nascer a ideia do Dois a partir da ideia do Um, o “ser segundo” que surge como elemento intruso à origem e planta a dúvida no nascedouro da ideia.
- Ideia?
- Ideia ou acontecimento. Qualquer coisa.
- Mas isso não é bom. Quer dizer, ter um segundo olhar sob Tudo?
- Nem sempre. Algumas coisas devem ser ditas, e ditas de modo inequívoco. Algumas coisas não podem ser negociadas.
[a alma não diz nada, mas sorri]
- O que eu tenho é um absoluto respeito pelo ser humano e nenhum respeito por Deus. A tal ponto que posso afirmar que a minha religião, se eu tenho alguma, é o homem. Sim, o homem com as suas mazelas e não Deus ou os deuses são a minha religião.
- Você é o seu próprio Deus?
- Não. De onde foi que você tirou essa ideia? Uma coisa é Deus e outra muito diferente é a religião, que é a forma de se relacionar com o Sagrado, e eu não sou nenhuma dessas duas coisas. O que eu disse é que tenho o homem como a minha religião e, complemento agora, nem faço parte disso, não sou homem que está no mundo.
- Quem é você?
- Alguém que busca. Alguém que vê o que busca e diz o que vê.
- E o que você vê?
- O que você vê?
- Algo muito diferente de você. Você não vê Deus?
- Vejo Deus nos homens e somente isso é real e faz sentido para mim. Assim, eu não respeito Deus e nem os deuses do mesmo modo que não respeito a literatura e os livros. A não ser os livros e a literatura se pensados como representantes do leitor e do escritor, que estão por trás desses engenhosos instrumentos de se fazer arte com a capacidade humana de pensar e refletir a vida. E é só isso, o que merece e o que não merece o meu respeito, os homens são a minha religião e não os seus fictícios inventos. A saber: os livros, os poemas, as letras, os símbolos, a literatura, os deuses, a própria religião e os rituais religiosos.
- São reflexos…
- Sim, são reflexos. Não são o homem, que é outra coisa, bem diferente e real. E, sabe, a maior invenção do homem nem foi a literatura mesmo, foi Deus. Deus é que é a maior ficção do homem. Por isso a minha religião é o homem, e com isso quero afirmar a minha ética, que é também a minha conduta moral de respeito pelo próximo, o próximo que muitas vezes sou eu travestido de outro, um outro que vem do desconhecimento que tenho de mim, porque, afinal, também eu tenho em algum ponto desconhecimento de mim próprio.
[sorri]
- Deus não precisa dos meus cuidados, Ele a si se basta, isto é, se é que Ele existe, se existe, se basta, não precisa de mim para existir. Já o homem…
- Mas nesse ponto, de todo, não sei se concordo…
- Mas é assim, quem precisa que eu seja justo, fiel, harmônico, bondoso, é o meu próximo humano e não o meu próximo divino; é o homem que necessita da minha justiça, da minha lealdade e da minha caridade; Deus não precisa da minha justiça, a sua linguagem é a da Natureza, que é justa e exata por si.
- Você tem tantas verdades. Como podem tão contrários se amar?
- Precisam se entender.
- Nem entender, antes existir.
- Precisam se complementar.
- Tantos “precisam”.
- Precisam ser.
- Tantos “ses“…
- Então, amor…
- Quem disse isso…
- Se importa. Isso.
- Se vem de você.
- Vem de você.
- Sim.
- É. Sim.



