Ao longo dos anos vamos acumulando tantos documentos no computador quanto livros pelas estantes, roupas nos armários, móveis pela casa… Mudamos de computador, mudamos de casa, mudam as estações e com elas as nossas necessidades, mas as tralhas continuam, só porque um dia ali estiveram e em algum ponto foram úteis, ali permanecem, como que em estado de inércia vegetativa existencial, ou pior, a nos prestar o desserviço de agora nos distrair das coisas hoje mais importantes…
Sendo assim, conselho de virginiana, bom é se desfazer para fazer melhor circular o Chi, não ter dó nem piedade de jogar fora o que não nos serve mais – se é que algum dia serviu, ou de passar adiante se por ventura tiver alguém interessado naquela tralha. Afinal, ser tralha é só uma questão de ponto de vista… Mas claro que para separar o que [nos] presta do que não [nos] presta [mais], precisamos de um certo discernimento, ou amadurecimento, porque saber daquilo que necessitamos é, de repente, descobrir quem somos ou do momento que estamos vivendo, e essa tarefa é a mais impossível entre todas.
Mas guardar tralhas serve tão somente para nos distrair das outras coisas que realmente merecem os nossos cuidados. Faz mal ter guardado o que não nos serve mais, melhor é deletar o imprestável no oco do vazio que a tudo absorve e nunca se preenche, assim criar o espaço para que outros sentidos possam nos preencher e nos organizar numa outra dinâmica… Melhor um espaço vazio, cheio de significado, do que um espaço cheio de significados vazios…
No meio de documentos que nem sabia que tinha, alguns até sem saber o porquê os tinha guardado, encontrei essa pérola que vou guardar pelos próximos computadores que ainda tiver vida afora. Não passo adiante no sentido de me desvencilhar do texto, mas de dividi-lo com quem aqui me lê para amplificar o seu sentido. Quando eu comecei a ler – A religião verdadeira – só para saber do que se tratava, pensei que tinha sido eu que o tinha escrito há algum tempo – me pareceu familiar, mas é assim mesmo quando nos identificamos com um texto, ele primeiro nos lê, antes que nós o possamos ler… No entanto logo no segundo parágrafo percebi que não tinha sido eu a autora, é que eu sei que não sou um monge budista, sequer sou budista, só a minha alma é que segue insistindo em ser…
Falar em uma religião verdadeira talvez possa ser interpretado da seguinte forma: se há uma verdadeira outras são falsas. Claro, sempre a minha em relação às outras. Neste caso, existe um centro irradiador de verdade em detrimento às zonas periféricas. Pode ser que a maior fraqueza das tradições monoteístas seja justamente neste ponto. Existe uma verdade. Esta verdade é única. Portanto, desconsidero todas as demais como falsas. Assim forma-se uma dialética negativa como maneira de afirmar o meu ponto de vista. Também existe nesta situação um recorte dual: o meu e o do outro. Inclusive, estendemos a dualidade no campo da relação com o sagrado: eu e a verdade.
Certa vez, acompanhando o então Superior Miyoshi à Paraíba, a fim de participar de um encontro multireligioso um estudante fez a seguinte pergunta: “Qual é a religião verdadeira?”. Sem muito pensar, a resposta foi enfática: “Aquela que promova o bem estar para a maioria”. Entendi esta colocação de uma maneira mais prática frente às adversidades. De que uma religião deveria atender as necessidades humanas em primeiro lugar e depois às querelas metafísicas dos dogmas. E neste mundo há idéias demais e pouca ação. Aliás, existe também uma espécie curiosa de “budistas” que se dizem como tais navegando nas ondas da internet e discutindo idéias apenas. Encontrei certa vez um amigo, que treinara zazen mas depois se afastou mas continua “praticando” ao ler os textos budistas. Muito estranho isso. Me parece aquele “entendido” na culinária mundial apenas lendo os livros de receita. Sem provar da comida, nada pode-se falar a respeito dela.
Então estudante de História, em algum momento do curso veio como rajada aquele refrão provocatico: “a religião é ópio do povo”. Pensei naquele momento que realmente a religião fosse isso. Não mudei de opinião. O que mudou foi a amplitude da minha reflexão a respeito desta colocação. Há muitas religiões que oferecem ópio, não porque elas assim querem. Existem pessoas que precisam de ópio para continuar vivendo. Quer dizer, o mundo é cruel: os homens são maus, o capitalismo é injusto, a política é corrupta, a justiça é falha, a educação é insuficiente. E ao apegar-se à ideologia salvítica dos profetas milagreiros, como ópio, uma multidão de necessitados fazem fila.
E o budismo também é ópio? Pode-se tornar caso houver praticantes que necessitem desta droga. Se a prática budista consistir na idolatria, sejam das imagens, da alegoria, das cantorias, ou de seu líder. Este é o ópio. Assim, o budismo pode ser tudo aquilo que o praticante desejar que ele seja. Pode-se acreditar no poder de Buda e de seus avatares. E no poder dos mestres? Penso que o pior ópio budista seja quando o mestre se torna idolatrado. Caso isto ocorrer, na minha singela opinião, ele deve ser destruído. Todas as imagens de adoração devem ser destruídas. Quando a destruição se estender a todo ópio budista, então encerra-se o período da ilusão.
Inversamente ao ópio da religião, o budismo se presta a ser a libertação. Por isso, fazer zazen não se ganha nada. Faço tanto reverência a Buda quanto para o mendigo que mora nas ruas. Na verdade, aquele mendigo também é um Buda. Faço zazen nas salas do templo, quanto nas favelas, prostíbulos e prisões. Me parece que os que fazem zazen apenas em lugares tranqüilos como as montanhas são egoístas. Este zazen exclusivista, protótipo da pequena burguesia, é também ópio. Tudo aquilo que estimula a ilusão é ópio. É ópio também os que lêem as frases de efeito do budismo “auto-ajuda” e não fazem nada para transformar o mundo. É cínico praticar o budismo e continuar na inércia do “faço de conta que não vejo nada”. Lembrando do exemplo de Sidhartha, o Caminho requer renúncia. Renúncia inclusive da ópio das religiões.
O entendimento do Dharma é como estar navegando num único barco em que todos os outros também se abrigam. Lá se abrigam os cristãos e muçulmanos, judeus e palestinos, sábios e alienados, homens e homossexuais, cachorros e gatos. Caso o barco sofrer uma avaria, todos morrem. Há a necessidade de todos colaborarem para o bem de todos, assim, quem sabe, o barco não afunda. Pensar que apenas os gatos e os homossexuais vão afundar é uma grande ignorância.
Entendo o budismo como uma religião da libertação, que ao invés de ópio, deve lidar com a iluminação. Ajudar a todos, sem discriminação é um ato de iluminação.
http://sanghamargha.blogspot.com/2006/11/religio-verdadeira.html








