Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Archive for outubro \31\UTC 2008

Deus, de novo (Once more, with feeling)

Posted by Lúcio em outubro 31, 2008

 

Quando você afirma que Deus existe, o que você quer dizer com “Deus” e o que entende por “existir”?

Quando você afirma que Deus não existe, o que você entende por “Deus” e o que quer dizer com “não existir”?

Não é uma filigrana semântica sem importância. Como se pode afirmar ou negar alguma coisa quando não se sabe o que está sendo afirmado ou negado?

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A Noite Escura da Alma (Primeira parte)

Posted by aldhabaran2 em outubro 28, 2008


Há algum tempo quero postar alguma coisa sobre o Caminho das Trevas. Fico um pouco receoso de ser mal compreendido: afinal, existe toda uma simbologia negativa associada às trevas que acaba por obnubilar o raciocínio e leva a conclusões errôneas sobre o objetivo de analisar tal Caminho.

San Juan de La Cruz já falava sobre a “noite escura da alma”, numa poesia que achei lindamente musicada por Lorenna McKennitt (há vários anos ouço-a para inspirar-me em certos momentos). Jung nos fala sobre o trabalho com a sombra, e na alquimia um dos processos mais importantes na obtenção da pedra filosofal é justamente o nigredo. Nada mais justo então e condizente com esse blog – que, não por acaso, mas por uma série de sincronicidades se chama Anoitan – do que falar sobre esse Caminho das Trevas que já mencionei. Leia o resto deste post »

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Notas sobre aula de Cláudio Ulpiano

Posted by Kingmob em outubro 26, 2008

Anotações pessoais sobre aula do filósofo fluminense Cláudio Ulpiano disponível em áudio aqui.

“Nexus 6 nos ensinou um estilo de morrer, em que o sonho de vidas superiores se mistura com lágrimas e gotas de chuva. É como se o cinema, em sua obsessão de amor e morte, repusesse a filosofia pelos afetos – e como se esta, a filosofia, já não fosse mais a voz de Deus, muito menos do homem. Já não devemos morrer como Guilherme, o Marechal, mas como uma proteína que se deixa quebrar: como os velhos poemas que sacrificam sílabas, em favor da ordem da beleza; ainda que não a alcancem. E assim desaparecem os temores pelo cadáver ultrajado”.
Cláudio Ulpiano – citação extraída do sítio Caosmos.

A prática do artista é um confronto que o artista faz consigo próprio, quebra do pessoal em nós, romper com a personalidade, com a pessoa para poder produzir a obra de arte. Todo homem que queira fazer obra de arte ou filosofia tem que se confrontar consigo mesmo, um confronto terrível, única maneira que poderia produzir o sujeito artista, histérico.[Os artistas] marcariam-se pelo deslocamento que eles fariam em relação à vida pessoal, rompimento com a estrutura psicológica, rompimento com a história pessoal, rompimento com o passado ([ver o filme] “Glória” do Cassavetes).

As atitudes e posturas não se originam numa história pessoal e começam a gerar mundos novos. Rompe-se com o passado pessoal para poder-se gerar atitudes e posturas que são conjunto de gestos. Isto marca o grande adversário do pensamento, do corpo e do tempo, o sujeito pessoal psicológico, a história pessoal. Proust rompe com tudo aquilo que gera o medo da morte, no sentido de que o medo da morte é o que produz Deus, que é o que nos paraliza, e ao nos paralizar nos impediria de produzir uma obra de arte. [Isto] é de uma radicalidade excessiva, é como se de repente o pensamento estivesse afirmando que a única saída que ele tem é um ateísmo radical, que revelaria novos mundos, mundo que não se revelaria se não houvesse o sujeito artista.

Produção de mundos possíveis, estes mundos pertenceriam ao nosso espírito, não à nossa história pessoal, e nossa função seria colocar no mundo estes mundos possíveis. Se não houvesse o artista nós seríamos forçados a viver num só mundo, sempre no mesmo mundo, quem produz os novos mundos é exatamente a arte, o que se torna primeiro para a vida de cada um de nós é a liberação das forças da psicologia para o exercicio da liberdade de pensamento. É fazer do pensamento a busca de novos mundos e a produção destes novos mundos gerando o que é inteiramente impossível fora da arte, a comunicação entre as almas. Nós todos estaríamos encerrados nas mônadas, num solipsismo, e a comunicação não seria possível nem pela amizade nem pelo amor, isto aconteceria na obra de arte, haveria a comunhão das almas na obra de arte. Proust é de uma agressividade assustadora, a aula é teórica mas é também um quadro existencial de figuras práticas, no sentido de que ouvir a aula e deixar de lado não tem sentido, a aula objetiva a modificação das subjetividades. É nós sairmos deste modelo de dominação que existe sobre nós, uma subjetividade material, construída em hábitos e sentimentos para uma subjetividade espiritual capaz de lidar com o pensamento, corpo e tempo.

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Dinheiro, Política e a Sístase

Posted by Filipe Wels em outubro 26, 2008

Hoje tem eleição.  Não que me animo a ir celebrar a grande festa da democracia e sair de bandeira em defesa do meu canditado para depois celebrar a vitória no comitê eleitoral . Longe disso.  A política e seu co-irmão dinheiro são dois memes  com um ser humano com um nível de consciência um pouquinho mais elevado do que temos hoje, não existiriam. Mas mesmo assim, nao considero o voto nulo a melhor opção. Ele pode vir a ser a melhor opção. Não podemos dizer que entre um segundo turno entre Fernando Gabeira e Paulo Maluf, o voto será inútil porque não faz diferença quem ganhar. Mas eu diria isso entre Paulo Maluf e Celso Pitta.
 
Falar em acabar com a política ou com o dinheiro ou se dizer “anarquista” é posar de sonhador ou defender uma ilusão, uma utopia. Não vou usar as palavras de John Lennon e dizer que não sou o único, mas sim procurar demostrar que isso não é tão utopia ou sonho como pensamos. E que essas duas coisinhas que citei acima são mais prejudiciais do que percebemos no cotidiano.

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Anjos Caídos

Posted by Lúcio em outubro 17, 2008

 

Harold Bloom às vezes é um velho ranheta, sobretudo quando se mete numa de suas frequentes diatribes spenglerianas contra a decadência da civilização ocidental ou quando veste o manto do esnobe e, confundindo gosto pessoal com juízo de valor, se recusa a ver os méritos de autores populares que o desagradam, como Stephen King e J. K. Rowling. Outras vezes, confesso que tenho mais simpatia por seu mau humor, como quando ele investe sua verve sarcástica contra a praga dos estudos culturais, um filho bastardo do pós-modernismo que dominou a crítica literária nas últimas décadas, reduzindo tudo a um documento sociopolítico.

Independente de aplaudirmos ou discordarmos, ler Bloom é sempre uma experiência enriquecedora, que nos arrasta para um turbilhão de referências, provocações e idéias instigantes, uma metralhadora giratória ágil, impelida por um impulso daimônico capaz de atravessar milênios de cultura literária em um único parágrafo, às vezes uma única linha. Não bastasse sua erudição em carne viva, ele é ainda um autoproclamado “gnóstico dos nossos dias” que, ao arsenal habitual dos críticos, junta conceitos extraídos da cabala, do sufismo e do gnosticismo como ferramentas para iluminar e amplificar a nossa compreensão da experiência.

Anjos Caídos, seu último livro lançado no Brasil, é Harold Bloom em sua melhor forma, um azougue gnóstico que, a pretexto de examinar uma figura literária, interroga a essência da condição humana: “Anjos – caídos ou não caídos – para mim só fazem sentido se representam algo que foi nosso e que temos o potencial de nos tornar de novo.”

Para mim também.

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O conto das Areias, por Idries Shah – Ensinamentos Sufis

Posted by luramos em outubro 14, 2008

Os ensinamentos sufis podem ser transmitidos em rodas sagradas, onde alguém conta uma história pra começar. São metáforas simples, como as que podemos ouvir de um caboclo, exu ou preto-velho… Têm tantos níveis de compreensão quanto formos capazes de alcançar. Ninguém replica de imediato, sempre se reflete primeiro. Quando alguém tem uma pergunta ou um comentário , qualquer coisa que acha que deva ser compartilhada, a pessoa se manifesta. Uma vez lançada a história ou o comentário, eles não pertencem mais a voce. Voce dá (doa) a sua impressão. E fica livre pra aprender o que floresce, sem precisar defender suas idéias, porque não são mais suas….

E foi assim que aprendi essa linda história:

O Conto das Areias

Um rio, vindo da sua fonte de montanhas distantes, ia passando por todas as paisagens até alcancar finalmente as areias do deserto. Assim como ele havia ultrapassado todas as outras barreiras de seu caminho, o rio tentou atravessar mais esta, mas ele descobriu que assim que ele corria pelas areias, suas águas desapareciam.

O rio no entanto, estava convencido que o seu destino era cruzar o deserto, mas ainda assim, não havia jeito. Uma voz escondida, vinda do próprio deserto, sussurou: “o Vento pode atravessar o deserto, então o rio também pode”.

O rio se opôs. Ele estava se lançando nas areias e apenas sendo absorvido: o vento podia voar, e era por isso que ele podia cruzar o deserto.

‘Empurrando-se pela maneira como você está acostumado, você não pode atravessar.  Ou você desaparecerá ou se tornará um pântano. Você deve permitir que o vento o carregue ao seu destino. ‘

Mas como isso poderia acontecer? ‘Permitindo a você mesmo que seja absorvido pelo vento.’

A idéia nao era aceitável para o rio. Além do mais ele nunca havia sido absorvido antes. Ele não queria perder sua individualidade. E uma vez a perdendo, como alguém poderia saber que ela poderia um dia ser recuperada?

‘O vento’, disse a areia, ‘faz esta função’. Ele pega a água, a carrega pelo deserto e a deixa cair de novo. Caindo como chuva, a água de novo se torna um rio.’

‘Como eu posso saber que isso é verdade?’ Leia o resto deste post »

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O Mistério dos Comentários Desaparecidos

Posted by Lúcio em outubro 14, 2008

Se alguém tiver deixado algum comentário no blog e depois viu que o comentário tinha desaparecido, não se espante. Ou melhor, espante-se e junte-se a nós no Clube dos Perplexos. Hoje de manhã, ao entrar no blog, constatei, estarrecido, que quase a metade dos comentários sumiu da noite para o dia. Já entrei em contato com a administração do WordPress pra tentar descobrir o que aconteceu. Nesse meio tempo, se você foi um dos deletados, os anoitans pedem mil desculpas. Se serve de consolo, boa parte dos nossos comentários também desvaneceu no ar sutil…

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A Sabedoria Errante- O Mito de Sophia

Posted by Filipe Wels em outubro 11, 2008

Stephan A. Hoeller é, até onde eu sei, um dos maiores escritores ainda vivos sobre gnosticismo- e um assunto que ele abordou com maestria foi a relação de Carl Jung com a Gnose. Um estudante do gnosticismo e também da psicolgia junguiana, assuntos muito frequentes por aqui.
Deixou como obras A Gnose de Jung e Os Sete Sermões Aos Mortos e Jung e Os Evangelhos Perdidos, entre outras.

Temos aí um texto muito interessante, retirado do capítulo 6 de Jung e Os Evangelhos Perdidos. Hope you enjoy it 🙂

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Sopa de letrinhas

Posted by Lúcio em outubro 10, 2008

Uma nuvem de letras flutua em meio a um espaço coruscante de sinapses. É possível que formem palavras. Mas também podem se dar por satisfeitas com borboletear no espaço. Abaixo delas, há o abismo negro de onde as letras chispam. Acima delas, há o abismo negro onde as letras mergulham. Entre os dois abismos, o espaço coruscante de sinapses. E, no entanto, os dois abismos são o mesmo abismo, que engloba ainda o espaço, o coruscar e as sinapses, as próprias letras não sendo senão uma breve cintilação (no/do) abissal.

Não são, que fique bem claro, as letras do alfabeto, não as nossas letras, não do nosso alfabeto. São as cifras de uma outra linguagem, que nos precede, que nos precede necessariamente, uma vez que nós mesmos, nossos corpos, nossas mentes, isso que chamamos de nós, o que chamamos de corpo, o que chamamos de mente, tudo isso são palavras, as palavras que as letras abissais eventualmente formam em seu eterno clinamênio e que definitivamente não são nossos.

O texto prossegue. As palavras vão ficando pelo caminho, se dissolvem uma vez mais na sopa de letrinhas, formam novas palavras ou não. Mas o texto prossegue porque, no limite, o texto é tudo o que existe, o texto e o abismo, o texto que é o abismo.

Ninguém o escreve, ninguém o lê. O texto é.

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O Não-Você

Posted by aldhabaran2 em outubro 9, 2008

Normalmente, falamos muito sobre nós na primeira pessoa. O interessante é analisar que essa é uma inverdade heraclitiana : ninguém pode falar sobre si mesmo, porque aquele que fala não é aquele que age. Talvez aí esteja encerrada a resposta para uma das mais candentes questões que o ser humano sempre se propôs: quem sou eu?

Ao perceber que o foco da narrativa se desloca ao longo de um eixo de observação, aquele que se propõe seriamente deslindar essa pergunta percebe que não é válido pensar em si e nas próprias ações como “eu”. O que parece ocorrer então é que uma série de personagens mais ou menos interligados entram e saem desse eixo, traçando linhas que plotam um gráfico existencial ao redor do mesmo. Se imaginarmos tal gráfico como sendo multidimensional, conseguimos uma pálida idéia do que ocorre em nossa existência a partir desse conceito.

Porém, aceitar que o Eu individual é composto por essas personas transitórias e imprecisas é passível de erro por não ser uma descrição completa do processo da existência – no caso, a existência de uma consciência que analisa a si mesma. Existe um cerne, um nível de informação que subjaz às camadas de “eus” que se manifestam nesse verdadeiro angu de caroço. A tal cerne, muitos denominam essência.

O perigo em usar esse termo (ou outro equivalente) é que a mente está acostumada a identificar-se com a miríade de “eus” do gráfico já citado. Tendemos sempre a considerar a essência como um “eu grandão”, e aí falhamos: a essência não é um “eu”.

Em uma análise mais profunda, tanto psicanaliticamente, quanto filosoficamente (e principalmente, religiosamente falando) essa essência, ou superego, ou alma, é mais um evento de consciência do que uma persona em particular. Daí a dificuldade em caracterizar em nossa mente esse “eu verdadeiro”: as personas que racionalizamos e identificamos como nós mesmos, e que exatamente por isso são aspectos dissociados de um todo, são funções específicas do hemisfério esquerdo do cérebro, enquanto que a experiência do evento de consciência que denominamos “essência” é multifacetada, holística, integrativa e específica do hemisfério direito.

Até que ponto essa análise é verdadeira ou válida, cabe a cada um que deseja saber quem realmente é vivenciar isso, integrando essas funções do hemisfério direito e esquerdo, e descobrir que realmente somos uma não-dualidade.

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