Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Archive for março \31\UTC 2009

Poema para a sensação

Posted by Kingmob em março 31, 2009

Posted in Musica, Poemas | 3 Comments »

Acabou o leite

Posted by Kingmob em março 28, 2009

É, acabou. Acabaram as tardes aos bancos na praça , a poesia vindo meio sem graça num sinal no rosto leitoso, acabou essa segurança que a gente acha que tem mas nunca nos pertenceu.Não há paz no exílio. A paz que encontrava no amor se foi, paloma etérea do espírito santo que não me pertence. Não me pertence como: a escrivaninha onde o Sanjo Anjo de Deus vomita as escrituras do tempo que escoa livre de maneirismos particulares da consciência. Acabou a maneira como eu me via refletido no espelho -lindo, lindo, lindo da sua forma de ser. É difícil expor assim aos quatro ventos indefinidos que sem o que não restou é difícil saber para onde ir. O lar não mais contém o açúcar e o leite. Minhas pupilas não medram uma realidade fausta como outrora. Seria avareza chamar o sonho que morre de morte. Nesta aridez, só, eu vivo, vivo sim. Mas a solidão é tanta que não resta a quem dizer, não resta ser porque não resta você. Meus familiares, os fantasmas fulgurantes, estão de volta, figuras informes de placenta esverdeada. Querida, não mais restam os portos estelares nos quais aportar meu navio de bandeira pirata. A vida é derivar e ciscar qual galo faminto aqui e ali sem alcançar nunca a paz dos teus olhos de musa de mangá, até que algumas canções de flautas sorrateiras,que restam num ou noutro lábio abençoado façam-me recordar que eu já fui muitos outros e outras. Já tive seios como tu, e já fui matador de almas caridosas, e ódio e amor corroentes são a herança da minha matéria. Resta-me alguma luz. Aposento-me destas bobeiras etéreas como o mar e o luar e faço o que me resta: chorar até que se desfaçam os laços irremediáveis dessa roda que gira e gira e gira.

Posted in Amor, Textos | 64 Comments »

Seja o Imperador Absoluto de Tudo

Posted by luramos em março 25, 2009

 Entre tantas mudanças na minha vida, uma delas é a volta ao Anoitan e finalmente um computador que me permite acentuar as palavras em português  🙂

Eu traduzi este texto do livro chamado ” The Secret Teachings of All Ages” de Manly P. Hall.

É uma transcrição livre de “A Visão”, o mais famoso de todos os fragmentos herméticos, segundo o autor.

http://www.myplick.com/view/5HD0Fi1khYp – aumente o volume no site,se necessário. Numa egotrip, gravei na minha voz! Depois clique na seta à esquerda do navegador para voltar ao Anoitan.

Dá pra ouvir e imaginar e se conseguir, ficar nu, o único caminho para unir-se a Deus, segundo Hermes aprendeu de Poimandres…

hermesnu

E que cada um de nós permaneça no caminho de sua Glória.

Posted in A Experiência Mística, Hermetismo | Etiquetado: , | 65 Comments »

Magia e Imaginacao Ativa

Posted by adi em março 25, 2009

Muito se fala sobre a pratica da magia, mas, sobretudo, do ritual e de seus efeitos. Mas se fala muito pouco sobre “o que é magia de fato” e, de como ela funciona na nossa psique. Não vou especificar os rituais de magia das tradições como Golden Dawn, O.T.O, Rosa Cruz, etc, mesmo porque não conheço bem. O que aprendi a respeito dessas tradições é o que está disponível na net, e claro que incluindo nesse pacote, e principalmente o que aprendi no FRANCO ATIRADOR. Aliás, foi um assunto bem abordado pelo Malprg, mas sempre é bom uma re-leitura.

Agora, magia sempre pratiquei, e acho que a maioria já praticou pelo menos uma vez na vida. Quem nunca jogou cartas de taro pra se direcionar? Ou incensou a casa e junto rezando alguma oração pra limpeza do ambiente? ou se utilizou de um patuá onde se condensou a energia de proteção? sal grosso pra limpeza e descarrego(relaxamento) do corpo? Enfim de magia caseira, ou mesmo ao estilo wicca sempre pratiquei no cotidiano. Mas o tipo de magia que estou me enfocando, é aquela mais elaborada, com um ritual mais complexo, embora creio, não há distinção alguma entre elas e, já, já explico porque. Leia o resto deste post »

Posted in A Experiência Mística, Filosofia, Psicologia | 19 Comments »

Espada e Pedra

Posted by Kingmob em março 19, 2009

olhei o seio da pedra
e a espada fincada
em seu meio, no meio
do lago.
Leia o resto deste post »

Posted in Poemas | Etiquetado: | 6 Comments »

Instinto, Mitos e Arquetipos

Posted by adi em março 17, 2009

Atendendo solicitação da Fy, achei melhor escrever um post sobre a “energia” da própria vida que chamo instinto, também lendo os comentários da Fy e da Sem, me lembrei de dois posts excelentes feitos pelo Lucio lá no Franco-Atirador que usei como referências. E pra começar a falar de instinto, não tem como não falar sobre arquétipo e também sobre mitos, e sabem de uma coisa, não tem como não falar de Jung, e não citar Jung e sua obra, é que uma coisa puxa a outra e …

Direto do dicionário Crítico de análise Junguiana, arquétipo =

http://www.rubedo.psc.br/dicjung/verbetes/arquetip.htm

Como foi visto, Jung foi elaborando o conceito de arquétipo ao longo de sua obra, mas o conceito final é de que o arquétipo é visto como fator estrutural de toda a realidade, manifestando-se sob diversos aspectos em diferentes níveis. Arquétipo em si é incognoscível, só pode ser visto por meio dos efeitos que causa em nossa realidade, é impessoal. No campo específico do ser humano, é como se o arquétipo fosse uma linha contínua, em um dos extremos se manifesta como instinto, e no outro como espírito no sentido de mente-razão. Arquétipo está como raiz ou matriz tanto de fenômenos instintivos como também dos espirituais. Leia o resto deste post »

Posted in A Experiência Mística, Filosofia, Mito, Não-dualidade, Psicologia | 81 Comments »

Neruda

Posted by Kingmob em março 12, 2009

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe”.
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Posted in Amor, Poemas | Etiquetado: , , | 3 Comments »

Duas pepitas de ouro

Posted by Kingmob em março 10, 2009

 

Antigamente o conhecimento não era fácil de ser disseminado. Alguns poucos tinham acesso a ele. Hoje, com a internet e a crescente multiplicação de pesquisas em todas áreas o problema não é tanto ter acesso ao conhecimento, mas selecionar o que é relevante do que não é. O lado sombra da internet se propaga como uma grande revista “Capricho” e outras fofuras para adolescentes que distraem mais do que informam. O conhecimento e as formas de acessá-lo se multiplicam, mas a quantidade de tempo para digerir estas informações continua o mesmo. É imprenscidível portanto, hoje mais do que nunca, selecionar o que ler, o que buscar, com quem se relacionar.

Os dois documentos abaixo foram encontrados em sítios da internet. Representam de alguma forma pontos culminantes. O primeiro são exercícios chineses leves que harmonizam e dinamizam  a energia (chi) do corpo. Mas por trás da simplicidade reside um imenso poder de cura e serenidade, é imprescindível  experimentar. O segundo são transcrições de aulas do pensador Gilles Deleuze sobre a obra do príncipe dos filósofos: Baruch Spinoza. A Ética,  por ele escrita representa uma das obras máximas que o espírito humano é capaz de conceber. Estas palestra de Deleuze servem muito bem como leitura preliminar, já que a linguagem da Ética é bastante técnica e própria.

Chi Kung (em inglês): aqui.

Deleuze: aqui.

Posted in Filosofia, Taoísmo | Etiquetado: , , , , , , | 11 Comments »

Get Your Head Out

Posted by Fy em março 6, 2009

Get Your Head of the Dark Clouds – Parte 2

II. DA VÍTIMA E SEU VAMPIRO

Por ter se tornado imprescindível à existência da vítima, a figura do

senhor é uma construção da própria vítima. Talvez esteja fundada aí sua representação vampírica, como aquele que está para além da morte, que emerge da escuridão e carrega consigo o mal. Longe de ser o maior terror, é esse mal seu maior pólo de atração. Destruidor, em primeiro lugar, possibilidade de ultrapassagem dos limites estreitos da vítima, em segundo, ele é figurado como a mais temida e a mais desejada de todas as forças.

O vampiro é a maneira como a vítima representa sua possibilidade de liberação, sua possibilidade de consciência, sua paixão de tornar-se outro. Mas, como toda paixão, ela não lhe é consciente.  Emerge de um fundo que a excede, daí a força da sedução que a captura.Representação romântica do século XIX (resgatada de arquétipos anteriores, transculturais), quando o desejo foi poderosamente submergido sob a ordem disciplinar do universo da razão masculina, em particular o desejo do outro sexo – que é sempre a mulher – a figura do Vampiro foi convocada a responder ao apelo da feminidade negada, tanto no homem como na mulher, como aquele que invade, que se apropria, que destrói ou que transforma sua vítima em seu semelhante, por assimilação da vítima a ele. Transgressor, fazedor da própria lei, o Vampiro abre a possibilidade, no imaginário da vítima, de escapar à lei do desejo que a conforma. Tornar-se também fazedora da própria lei, eis o projeto da vítima, seu sonho, sua utopia. Sua perversão.

De uma demanda de amor à própria afirmação de si como amante, pode a vítima realizar esse passe?

Ora, se a vítima não ama, se não tem a potência de amar, poderia ela construir para si um senhor capaz de amá-la? Como poderia, o que não ama, conceber um amante para si? O que a vítima pode conceber, em sua posição de vítima, é aquele que irá se “apropriar dela”, de sua vida, seduzindo-a, “não” o que irá amá-la. E, por essa limitação, ali onde ela sonha sua Liberdade, acaba por eleger, no outro, seu Tirano. Protegendo-se de se reconhecer enquanto desejante, canta a “glória” de seu suposto libertador, delegando a ele seu sentido, sua ação, que só seriam efetivos se lhe fossem próprios.

Eis o risco de todas as revoluções, individuais ou coletivas, postas no porvir e nas imagens ideais de poder e potência de um líder: a emergência de microfascismos. A cristalização da vítima, o aprisionamento do imaginário e não sua liberação.

O senhor sonhado pela vítima não é, assim, aquele que a afeta e a contamina com sua potência. Ele está, antes, contaminado dela, de suademanda, de sua impossibilidade. Como pensá-lo, então, senão como Tirano, senão como “modelizado” pelos referentes que a vítima retira do mundo como ela o vê [o mundo]?

Por isso, um mundo aderido às figuras e estratos de poder a que os sujeitos devem aceder – e neles permanecer – para realizarem sua condição de potência é um mundo onde só há vítimas, pois aquele que ocupa o lugar do poder, o de senhor, está permanentemente ameaçado de ter revertida sua posição, perdendo sua potência de ação. Daí sua aderência ao que pode significá-lo. E a aderência da vítima ao que lhe permite reconhecê-lo. Essa é a ameaça totalitária dos desejos de ultrapassagem e de superação do si-mesmo que concebem um pólo de convergência/referência “fora de si” para sua realização.

Seria ingênuo, entretanto, conceber um mundo “sem” vítimas, logo, “sem” senhores?

Ou um outro, em que “todos” seriam senhores?

Uma comunidade, enfim, em que todos seriam livres? Um mundo de Seres Humanos, de homens integrais?

Esse mundo, reiteram as razões e as evidências do mundo, é utópico.

Mas é necessário AFIRMAR , Sempre e Sempre, essa utopia como Virtualidade, não do amanhã, mas do Agora, pois é nela que afirmamos nossa potência e encontramos o motor de nossas ações. Paradoxal, talvez, desejante do impossível, por que não?

A verdadeira democracia, um coletivo de múltiplos, afinal, é também uma virtualidade pela qual e para a qual somos convocados a trabalhar (e não a lutar por).

Jamais um porvir (daí a inutilidade da luta), SEMPRE um devir (daí o trabalho permanente por sua efetividade).

Um mundo de senhores, um mundo de iguais, cada um em sua diferença e com a própria potência como seu único poder, para ser concebido em sua virtualidade,         … exige um outro olhar, uma outra Positividade, de forma que a apreensão das relações não seja dada só por oposição ou por complementaridade ou disjunção (senhor/escravo,ativo/passivo, masculino/feminino, forte/fraco, escuro/luminoso,bem/mal…), por composição unitária, mas principalemente por Simetria, por Mutação, por Processualidade, por Diversidade, por Diferença, por Multiplicidade, por Conectividade.

Uma Revolução dos Espíritos, cujo motor ético exige, por se significar pelo olhar, uma nova assunção estética. Um novo coletivo, o da multidão.

III. DA ARTE COMO DESTRUIÇÃO DA VÍTIMA

Dos modos expressivos do contemporâneo, a arte é a que melhor consegue transformar em positividade o discurso da vítima.

Daí, talvez, o poder de atração que ela exerce para aqueles que, em sua precariedade perante os poderes, não encontram lugar para sua voz.

A essa voz sem lugar, desterritorializada, a arte da língua. Uma língua que, em relação aos poderes, está em posição continuada de extraterritorialidade.

O poder, enquanto garantidor não de uma diferença, mas de uma desigualdade, é sempre conservador de si mesmo, jamais criador de um campo novo. Contrariamente ao que poderíamos supor, o poder não cria língua. Toma para si uma língua já dada, fazendo dela seu universal, pois, por sua condição de “instituído”, ele jamais poderá ser “instituinte” sem o risco de dissolver-se enquanto poder. Assim, onde algo pode ser reconhecido como instituído, manifesta-se o poder em seu caráter conservador.

Daí o fracasso das ideologias em seus esforços de criar mundo, fazendo fracassar junto as utopias nelas e por elas sustentadas.

A arte, ao criar formas de apresentação e expressão do mundo, abre, com sua permanente reinvenção estética, as possibilidades de o imaginário exercer-se, significar-se, reconhecer-se, criar mundo.

Daí que, consistentemente, ela invista a “destruição da vítima” no homem-artista (que não é só o criador, mas também o que se coloca perante a obra em afetação com seus fluxos, suas linhas, seus campos abertos à imaginação criadora, ao próprio devir de uma subjetividade-artista). Como nos indica Deleuze, uma continuada guerra de guerrilha, não contra os poderes que nos são externos (contra eles o artista é impotente no confronto, embora possa ser lúdico nas negociações), mas… contra os poderes em SI MESMO.

Valter A. Rodrigues

A idéia é mais ou menos assim: de que todos falam em paz e da necessidade de parar com as guerras, mas ele não, e diz que a guerra está no “coração do homem” e enquanto “ali permanecer”, o homem deve guerrear, se for necessário até o último homem, se isto for o seu destino… é forte e profundo como todos os poemas dele.

Gibran by Sem

>>O inimigo sou eu, mais ninguém. Eu tenho que me resolver é comigo mesmo na batalha mais ingrata de todas. Ficar colocando a culpa nos outros é só adiar o confronto.>>

By  Kingmob

Leia o resto deste post »

Posted in Filosofia | 57 Comments »

Posted by Fy em março 4, 2009

Get Your Head Out of the Dark Clouds

Este texto surgiu-me em novembro de 1996, após assistir à peça Drácula e outros Vampiros, de Antunes Filho (montagem pelo CPT, Sesc-Consolação, São Paulo). No dia seguinte à apresentação, encontrei-me com o polêmico diretor e conversamos durante horas sobre seu trabalho de formação de atores, que visa, sobretudo, formar seres humanos integrais, plenos em sua expressividade. No decorrer dos anos, voltei várias vezes a este texto, fiz pequenas alterações e aproximações a Espinosa, Sade, Nietzsche, Deleuze, até chegar à forma atual.

Valter A. Rodrigues

Parte 1: DA VÍTIMA E SEU SENHOR …ou senhores

Vítimas não falam. Não é que lhes falte a voz: sua fala não se efetiva senão numa débil demanda ao senhor. Demanda que é sempre de reconhecimento, que é sempre um frágil pedido de amor.

Pois vítimas não amam.

Falta-lhes a potência de fazerem-se amantes, falta-lhes o movimento, a expressividade que transmitiria ao outro um corpo que se vitaliza ao se “apresentar”.

Por não poderem dar materialidade à sua expressão, esperam do outro, suposto seu senhor, essa materialidade. É então desde o corpo do outro que buscam, passiva e demandantemente, sua via. Daí permanecerem em seu desejo de ser amadas, buscando figurar a si mesmas como objeto desse desejo que sempre lhes falta, que sempre lhes escapa.

Quando falam, sempre entre iguais, isto é, sempre entre outras vítimas, jamais perante o senhor, sua fala busca nomear isso que lhes falta, e as estratégias que permitiriam, finalmente, sua conquista de um contorno.

Entre si, chegam a reconhecer-se fortes, uma força que inevitavelmente fracassa ao se encontrarem em uma nova “presentação” ao senhor, com seu suposto fortalecimento antecipado. O que parecia sólido se desfaz, por mais pensados tenham sido os gestos, por mais medidas as palavras. Tropeçam em si mesmas, fazem de si mesmas sua própria armadilha, a inevitável armadilha de todo aquele que, em sua impotência, só demanda.

Não potencializando seu desejo, a vítima é sempre capturada em uma sedução, da qual sua demanda é suporte. O que a faz capturável é uma esperança e uma promessa: a de transmissão, pelo outro, de uma potência, o que jamais se realiza, salvo como efêmero, salvo como ilusão, salvo como alegria fugaz.

Trata-se, no entanto, menos de uma recusa ou de uma falha daquele que é demandado (embora isso possa também acontecer), e mais de uma impossibilidade da vítima. Referida ao senhor, e só a ele, a vítima compõe seus gestos e suas palavras a partir de um sistema de equivalências das quais só pode reconhecer efeitos, jamais causas.

Obedece, mas não serve.

E o que supõe ser ação é, em toda sua extensão, pura resposta previsível, pura reação.

Por não possuir os códigos, os assimila, assim, por espelhamento, por estereotipia, sendo sempre em um exterior que irá buscar, nos códigos a que recorre, sua própria eficácia. A especularidade é sua sina. E ali onde ela pensa ter realizado uma conquista, o que encontra é sempre uma anterioridade, uma assimilação, a evidência de uma inocente artimanha destinada a fracassar.

O senhor, suposto portador do código, só pode divertir-se e, pacientemente, demonstrar, com sua ação, a ineficácia da estratégia, que irá reverter a seu favor, devolvendo a vítima à sua própria condição.  O fracasso da vítima é, assim, sempre a Prevalência (e em alguns casos, também a exasperação) do senhor. É sempre ela que “o confirma” na posição da qual supunha poder

deslocá-lo, e o exige enquanto tal.

O fracasso da vítima no confronto direto com o senhor produz para este seu regojizo; [também algumas vezes desconfortável, amargo regojizo]. Assim, mesmo quando não deseja ameaçar, o senhor simula sua presença como uma ameaça, exatamente o que a vítima deseja. É assim que o senhor dispensa seu amor: jogando o jogo da vítima e fazendo-a jogar o seu jogo. Nesse jogo o senhor só faz fortalecer-se, jogando sua vítima no remoinho das repetições que a cristalizam em sua posição e garantem-lhe sua discursividade reiterativa.

É essa discursividade, que lhe escapa – ela jamais fala, é antes falada –, que a leva a supor-se conquistando um conhecimento que a retiraria para uma outra posição: a de senhor. Mas essa posição, efetivamente, ela não a deseja, por supor que perderia a única terra em que pode representar-se enquanto sendo.

Ser vítima é seu destino.

Se não há saída para a vítima, senão sua própria reiteração enquanto vítima, até a morte, essa não-saída resulta, entretanto, de um Duplo Equívoco:

Amarrada definitivamente à figura do senhor, todo seu projeto e seu movimento apontam para um porvir: um dever-ser, um vir-a-ser que só pode figurar-se como sua mais cara utopia: – tornar-se, um dia, o senhor. É por projetar-se para um futuro impossível e irrealizável que ela se sujeita.

Faz, enfim, a única coisa que aprendeu a ser, “não se apreendendo” em seus próprios devires. Alheia ao acontecimento, não reconhece em si os próprios gestos que espera que o outro reconheça. Mais: não reconhece do outro os gestos, senão enquanto sujeitadores dos seus. Assim, aspira a uma soberania, sem fazer de si mesma um corpo-língua soberano.

Aparentemente está voltada para o exterior, mas não o faz numa conexão com esse exterior, mas tão-somente enquanto certeza antecipada daquilo que “lhe vem” do

exterior. É no medo, é no horror – e na atração – a isso que pode tomá-la, que ela “se dá” forma. Este é o gozo da vítima.

Na fragilidade de quem demanda, a vítima, portanto, continuamente supõe um senhor. Mas exatamente por não reconhecer senão

suas formas de captura, o que se indiferencia para ela é o próprio senhor.

No extremo, o senhor, para a vítima, é, enquanto possibilidade, todo e qualquer outro.

E quem, afinal, é o senhor? Com certeza, não é um sujeito, um sujeito específico. Não se trata, para reconhecermos um senhor, de buscarmos aquele que detém o poder.

O verdadeiro senhor, o senhor real e efetivo, seria aquele que recusa e ao mesmo tempo joga ludicamente com o poder, não o que se faz ávido ou escravo dele, pois

o senhor escravo do próprio poder é, também, uma vítima.

O verdadeiro senhor, para ser senhor, deve ser livre. Se ele precisa do poder que lhe é externo, que lhe vem do reconhecimento que a vítima faz dele, precisará sempre da vítima para confirmar-se, e acaba se tornando escravo do que comanda.

Um mundo sem vítimas… seria sua derrocada.

O Texto tem 3 partes; vou publicando uma de cada vez.

Posted in Filosofia | 26 Comments »