Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Mysterium Coniunctionis (Casamento Sagrado) – primeira parte

Posted by adi em dezembro 4, 2008

Fiquei pensando sobre o que escrever na minha estréia aqui no Anoitan, e como estou relendo o livro de Jung – Mysterium Coniunctionis – um livro que acho muito difícil e denso, ao mesmo tempo fascinante pelo tema que aborda, isto é, o casamento sagrado ou a união dos pares de opostos em seu processo alquímico, e que em seu aspecto psicológico, o casamento alquímico significa o processo de individuação, então resolvi fazer um apanhado, como um resumo de algumas partes bem interessantes do livro. Pra não ficar muito longo, dividi em 3 partes, assim como são 3 as etapas da conjunção.

Jung cita 3 etapas principais dessa uniáo:

– primeiro grau da coniunctio = união mental

– segundo grau da coniunctio = união corporal

– terceiro grau da coniunctio = unus mundus

A primeira etapa da união, começa com a nigredo. A inconsciência original, ainda meio animal, era conhecida ao adepto como nigredo (negrura), caos, massa confusa, e como um entrelaçamento difícil de desfazer entre a alma e o corpo, com o qual ele forma uma unidade sombria (união natural). Justamente dessas cadeias queria ele liberta-la pela separação e estabelecer uma posição contrária, de natureza psíquico-anímica, i.é., uma compreensão consciente e conforme à razão, que se apresentasse como superior às influências do corpo. Mas tal compreensão, somente é possível quando se pode retirar as projeções enganosas, que encobre como um véu a realidade das coisas. Com isso se suprime a identidade inconsciente com o objeto, e a alma é libertada de suas cadeias.

As projeções somente podem ser retiradas dentro do alcance da consciência. Onde esta não atinge, também nada pode ser corrigido.

A confrontação com a sombra causa primeiro um equilíbrio morto ou uma parada que impede decisões morais, e torna ineficazes as convicções, e mesmo as impossibilita. Tudo se torna duvidoso, e por isso os alquimistas denominam adequadamente esse estado inicial como nigredo (negrura), escuridão, caos e melancolia. É com razão que a grande obra principia aqui.

Não podemos conhecer a psique inconsciente, senão ela seria de fato consciente. Uma parte dos conteúdos inconscientes está projetada, mas a projeção como tal não é reconhecida. Para comprovar a existência de projeções requer-se então de uma parte a introspecção crítica e de outra parte o conhecimento mais objetivo possível do objeto, é indispensável ver as projeções como tais, pois elas falsificam a natureza do objeto, e além disso encerram pedaços pertencentes à própria personalidade e que deveriam ser integrados a ela, e isso se dá através do autoconhecimento.

A unio mentalis (união mental) representa tanto na linguagem alquímica como na psicológica o conhecimento de si mesmo, a integração com a sombra e retirada das projeções.

Dá pra perceber claramente que essas projeções são análogas as mesmas estruturas que o Lucio falou em seu post “Os senhores do Karma” no F-A http://malprg.blogs.com/francoatirador/2008/02/os-senhores-do.html#more, i.é, a mesma malha de esquemas sensório-motores que determinam todas as nossas percepções e ações, e que corresponde tanto à sístase quanto a sombra”.

A união mental significa um alargamento da consciência e um domínio sobre os movimentos da alma pelo espírito da verdade. Como porém é a alma que vivifica o corpo, e com isso representa o principio de toda realização, então os filósofos não podiam deixar de observar que nesse caso o corpo e o mundo deles estavam mortos. Por isso eles designaram esse estado como sepulcro, putrefação e mortificação.

E aqui surge o problema da reanimação, de tornar a unir a alma ao corpo desprovido dela, ou seja, ao segundo grau da coniunctio, ou união corporal.

C.G.Jung – Mysterium Coniunctionis

Continua na segunda parte

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11 Respostas to “Mysterium Coniunctionis (Casamento Sagrado) – primeira parte”

  1. andreisc said

    Começando muio bem…
    Só não demore para colocar as outras partes.
    Nós, o povo em nigredo, somos muito ansiosos 🙂
    Abraço,
    Andrei.

  2. adriret said

    Oi Andrei, obrigado.

    Jah estah em andamento a segunda e terceira parte. Na verdade tem muita coisa boa no livro, e fica difícil fazer um resumo sem sacrificar coisas importantes.

    Estou colocando a parte mais psicológica do livro, onde Jung explica o processo alquimico sobre essa perspectiva.

    Abracos,
    Adi

  3. sem mais said

    O povo em nigredo clama pelas outras partes! 🙂
    Maior expectativa, eu que ainda nem li esse livro do Jung.

  4. adi said

    Ola sem mais,

    Eh um livro que recomendo, vale a pena ler e estudar, porque eh um livro bem complexo, denso… uma simples leitura nao eh suficiente…

    Vou ver se termino a segunda parte ainda este final de semana e jah postar. Tambem estou ansiosa.

    Abs
    Adi

  5. adi said

    Ola Kingmob,

    “Nigredo indeed.”

    eu também

    …. a propósito, também gosto mais de Kingmob pra voce, nao sei se eh o costume.

    Abs
    Adi

  6. sem mais said

    Pois é, o Carlos Gustavo (rs!) em outra parte diz que todo esse processo é contra a natureza…

    Isso de retirar as projeções, a maior dificuldade é ter de havermo-nos sozinhos, afinal, é tão “mais fácil” quando existe um outro em quem colocar a culpa, quando arranjamos um bode expiatório qualquer para imolar e nos imaginar alheios a todo o horror… Quantos não enlouqeceriam se vissem em si mesmos todo o mal e ignorância que imputam aos outros, seus supostos adversários? Mas parece que essa “guerra” que travamos é sempre de nós para conosco…
    O problema em não “vencer” essa fase de projeções é que paramos com o processo todo, ou melhor, nós paramos, mas, a vida é dinâmica e não pára..
    Na verdade, para quem o processo é estaque, seja por qual motivo for, não existe encontro real possível com ninguém (que dirá então casamento sagrado), a não ser com os próprios fantasmas. É uma vida muito solitária essa de projeção em projeção…
    Um outro problema é que assim como todo horror é visto fora, toda a maravilha também nos será alheia, seremos sempre cópias de alguém, de algo, nunca os protagonistas…
    Por outro lado, ver sem espelhos total e não enlouquecer, só para os santos… ou loucos.
    “Estamos acordados e todos dormem, todos dormem… Agora vemos por espelhos, mas então veremos face-a-face”

  7. Adi said

    Então Kingmob, pelo que pude perceber lendo o livro, Jung fala que nossas projecoes sao sempre “inconscientes”, e que eh o próprio inconsciente quem faz as tais projecoes, a parte consciente nao reconhece isso como sendo seu, e o conflito se instala. Eh esse conflito, essa luta, que vai tornar o problema ou “a projecao” consciente. Eh nesse conflito que a parte consciente vai compreender e assimilar a parte inconsciente, vai tomar para si, vai ter consciencia de que “eh seu” esse inconsciente que se projeta…

    Quando a pessoa toma para si e se torna consciente, ela para de projetar nos outros e no mundo, tanto as partes boas como as ruins. E assim as projecoes, uma a uma vao sendo integradas a consciencia.

    Acho que eh assim que estou entendendo.

    Adi

  8. Adi said

    >>Mas parece que essa “guerra” que travamos é sempre de nós para conosco…
    Na verdade, para quem o processo é estaque, seja por qual motivo for, não existe encontro real possível com ninguém (que dirá então casamento sagrado)<<

    Exato Semmais, tambem penso assim, eh sempre conosco mesmo, com nossa tacanha visao do mundo, um processo de crescimento atraves da dor de assimilar as partes inconscientes, negadas, abandonadas de nohs mesmos… e com certeza na medida que nao participamos de nos mesmos, que nao nos conhecemos o suficiente, tambem nao conhecemos o mundo, e nao participamos com o proximo, nao estamos de todo em lugar algum.

    Abs
    Adi

  9. adriret said

    >>Todos a energia que projetamos no mundo na verdade é nosso próprio espírito, não é? Isto ressoa muito bem

    Tudo indica que é nosso próprio espírito, o próprio Self inconsciente de si-mesmo. Vendo por essa perspectiva é um processo táo lindo o de se tornar consciente do invisível, vemos que por espelhos; ao olharmos pro outro vemos a nós mesmos em nossas projecoes…

    abs
    Adi

  10. luramos said

    duas consideracoes bem simples:

    voce nao pode enxergar a si mesmo como enxerga as outras pessoas. Estou falando sobre ver, usar a visao. Voce pode ver as costas ou o calcanhar de outra pessoa por angulos em que voce realmente nao tem como se enxergar. Voce pode ateh usar um jogo de espelhos, pedir para alguem filma-lo, mas nao serah a mesma coisa.

    Nao podemos nos enxergar como enxergamos a outras pessoas.

    Alem disso tem aquele pequeno detalhe que eh como parecemos diferentes a nohs mesmo em diferentes espelhos ou em diferentes situacoes. Como o espelho do elevador pode ser cruel ou amigo, dependendo do seu estado de espirito. E como geralmente sao sinceros os espelhos dos provadores de biquini, quando estamos quase nus(as)…

    Assim entendo as projecoes, nao tao densa como o Lamed recomenda, mas me ajuda bastante. A projecao de nossa imagem em “espelhos” – outras pessoas, nos devolve a imagem do que somos. Despersonificar nossa imagem em outros diminui conflitos interpessoais e nos traz alguma consicencia sobre o que somos e estamos vendo. Aih tem que trabalhar, magicamente pra mim, pra clarificar e colocar junto mais um pedaco do total que somos.

    E, KingMob, quem perdeu a ilusao do amor romantico foi soh quem teve a graca de vive-lo um dia. Passou pela intoxicacao que acredito foi a mesma que Rumi e poucos outros sentiram por Deus. Eh uma bencao, eh a experiencia sensorial mais intensa no estado de consciencia regular em que vivemos.
    Eh uma experiencia divina, nao a perca jamais. Soh nao espere que ela dure para sempre (como eu mesma sempre espero…rs). O amor romantico, esforco-me pra acreditar, eh uma linda semente, que vai brotar ou nao, depende do que voce, intoxicado de Amor, consegue fazer dela.

  11. adriret said

    Eh verdade Luiza, visualmente temos outra percepção dos outros e de nós mesmos.

    E realmente, principalmente com relação a nós mesmas, como nos vemos diferentes num mesmo dia.

    De fato, tudo depende de nosso estado de espírito.

    A questão que eu acho mais difícil, eh reconhecer a nossa projeção, ou quando estamos projetando nosso inconsciente, nossa sombra no outro… feito isso, ai eh como voce disse, trabalhar magicamente, pegar aquela sua parte pra voce, ir juntando as partes…

    Pelo que Jung diz, soh o fato de se tornar consciente (reconhecer a projeção) jah eh mais de meio caminho andado.

    Abs
    Adi

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