Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Archive for novembro \25\UTC 2008

Carma e Linearidade

Posted by Andrei Puntel em novembro 25, 2008

Um dos problemas centrais na busca espiritualista é a conciliação entre a crença intuitiva em uma Criação perfeita e o oceano de dúvida e dor que existe em nossa realidade cotidiana. Filosoficamente isso resulta em dezenas de especulações e interpretações que chegam até mesmo a negar a relação direta entre Criador e Criação (supondo que exista tal diferenciação) através de um personagem intermediário, o demiurgo gnóstico, que teria gerado o mundo corrupto que observamos.

Outra maneira de tentar conciliar essas percepções opostas é a concepção de um processo de causa e efeito tão natural e impessoal quanto a gravidade, que ajusta essas realidades aparentemente díspares. Enquanto a tradição ocidental, de raízes egípcias, fala em um julgamento final da alma humana, o oriente imagina um processo dinâmico e cotidiano, que dispensa júri e juiz (embora algumas linhas, como a teosofia, citem a figura dos Senhores do carma, essa personificação da lei não é a mais comum, mantendo seu caráter natural).

O quanto desse conceito é útil e o quanto é apenas uma fantasia egóica? Dando um passo atrás, pensemos a reencarnação e veremos o mesmo comportamento. De uma hipótese sistêmica muito interessante, ela passa a ser uma simples maneira de afagar o ego. Quantas princesas e generais não se redescobrem em centros espíritas e terapias de vidas passadas? Nunca a humanidade foi tão nobre quanto em suas pretensões…

Em sua interpretação tradicional, todo o mecanismo reencarnatório/cármico é tradicionalmente respaldado por um interpretação linear do tempo. Mas essa interpretação faz sentido de um ponto de vista do Self (vamos chamar assim uma possível dimensão maior do Ser) ou é apenas um ponto de vista raso do ego? A argentina Zulma Reyo, em seu livro Karma e Sexualidade faz uma representação interessante entre o que ela chama de tempo linear e o tempo concêntrico, a realidade vivida pelo Self. Ela considera a existência egóica, linear, como uma experiência do Self projetado na tridimensionalidade, a partir de condições absolutamente aleatórias. O mecanismo cármico existe apenas como elemento de aprendizagem dentro dessa única existência linear, não atuando como elemento de ajuste entre consecutivas experiências lineares. Do ponto de vista de uma Criação una, essa visão é absolutamente harmônica. Mas do ponto de vista do ego individualizado, a perspectiva de uma vida iniciada em condições aleatórias não difere em nada de uma visão absolutamente materialista.

A autora também define como elemento chave para entender o processo cármico aquilo que chamamos de forma-pensamento. É através dessas estruturas mentais/emocionais geradas e mantidas por nossos pensamentos e ações que se dá a atração das condições externas que caracterizam a relação de causa e efeito. E essas formas-pensamento seriam visíveis a médiuns treinados como aderências no campo causal. É praticamente a mesma interpretação, dita em termos atuais, do processo cármico tal como compreendido no Jainismo, uma das religiões mais antigas da India. Os janistas crêem que o carma é uma substância que se adere à alma, e essa quantidade e qualidade de substância aderida que define as condições atuais da vida do individuo. Essa substância pode ser eliminada através de jejuns e meditações.

Fica então a questão. É possível conciliar reencarnação, causa e efeito e uma existência não linear?

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Um Sonho Durante a Noite Escura

Posted by aldhabaran2 em novembro 24, 2008

Você pode achar piegas. Você pode não dar a mínima. Você pode lutar contra.

Mas ele vai estar lá.

O Sonho vem te revelar.

O Sonho vem te revelar.

Ouça com calma. Apreenda.

Morpheus tem algo para te dizer.

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Tudo é mito

Posted by Lúcio em novembro 19, 2008

Mitos são uma expressão das estruturas cognitivas fundamentais que usamos para apreender e moldar a nossa experiência do mundo – ou, o que dá no mesmo, para construir a nossa percepção da realidade. Kant chamou essas estruturas de “categorias apriorísticas do conhecimento” e Jung denominou-as de estruturas arquetípicas (que não devem ser confundidas com o arquétipo em si, que é outra coisa, mais próxima da Ding an sich kantiana).

A psicologia cognitiva e as neurociências vêm de demonstrar as bases neurobiológicas dessas estruturas, que estão enraizadas em nossos esquemas corporais. Embora a atualização concreta das estruturas arquetípicas dependa do contexto social, histórico e cultural, as estruturas propriamente ditas são inatas e universais.

Nas mitologias tradicionais, as estruturas arquetípicas são personificadas sob a forma de deuses e heróis, cujos feitos representam (de forma simbólica e/ou alegórica) as interações dessas estruturas entre si, com a consciência individual e com o mundo. Mas qualquer tradução das estruturas cognitivas fundamentais sob uma forma narrativa pode ser considerada um mito. Uma vez que toda a nossa experiência da realidade é necessariamente mediada por nossas estruturas cognitivas  e que o processo cognitivo elementar da nossa mente, da qual todos os outros derivam, é a organização da experiência sob a forma de narrativa, é fácil concluir pela ubiquidade do mito. Do Gênesis ao Apocalipse, da Odisséia de Homero ao Ulysses de Joyce, dos romances de Sidney Sheldon às narrativas abstratas da ciência – tudo é mito. Como poderia ser de outra forma? olhamos com os olhos que temos, com estes olhos que a terra há de comer.

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Em poucos segundos

Posted by Kingmob em novembro 14, 2008

I

E muito embora haja candores e o que dizer
neste vidro moído no cérebro
há fumaça demais na genética mutacional
e enquanto não se decide o que se é ou não é
neste intervalo o eu desfaz-se em sexos transvestidos
e papa assombroso faz em ouro e santidade
a porralouquice apenas pressentida
que os antros e cascas tornem-se, com ou sem sombras
o sanctum sanctorum da realidade,
esta é a gratidão e o alento e o mistério
ritual valoroso cuja testemunha
de momento a momento faz-se libertação.

II

o acontecer limpo e raro dos milímetros de segundo
a solenidade grave e rascante do tordo mergulhando
e por trás, amando, o regente, o devasso, o puto, o traveco cósmico,
o cara que fez essa porra toda
e mostrou: – Filho agora tu te vira,
brinca com a massa, mas não engole
confia, que o mundo é você, mas nada além disso.
Pode doer mas passa, pode cantar mas passa,
e o véu é você que põe.

III

E em cada pequeno rancho, um canto
e em cada pequeno canto, a casa,
de cujo paradeiro, o dono, nunca soubemos.
Talvez um marulhar de asas ao relento
ou as goteiras delirantes da primeira primavera,
mas não, nunca soubemos.

IV

Estas manchas e migalhas de eternidade
que vez ou outra vislumbra-se (que susto)
no macro e no microponto fútil do perceber

celebram cavalinhos coloridos de carrossel,
e os algodões doces do firmamento e do palito
e uma vez mais aqui estamos
para doer e criar, tirar e colocar.
      Será tão importante assim?

O quinhão de tudo e nada
e a matemática das estações
a lascívia virulenta (amém) do núcleo celular
não há quem acrescente uma parte de sangue à natureza
– derramar, mais fácil.
     Será tão importante assim?

Afirmar o inafirmável, o evanescente, o irreal
seguir a rota, o norte, o porto
modelar a massa informe
da vida, da escuridão,
em forma, em gládio, em ser humano
      Será tão importante assim?

Fazer da existência um eu
e do eu uma alma imortal
a super identidade indestrutível
um mesmo espelho, a mesma imagem
na miríade indefinível de universos possíveis e impossíveis
-nem Sísifo nem Tântalo gozaram
pesadelos tão desastrosos
      Será tão importante assim?

V

Por que não sonhar junto aos
nossos deuses suicidas com
a redenção cômica na tragédia
do nascimento recorrente?

Que a maquiagem dos tontos
e dos belos cadáveres de ocasião
destilada a quarenta por cento
vire-se em mel delícia
e massagem derradeira
que noite não é
senão bordel.
      Será tão importante assim?

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O Poder do Agora

Posted by luramos em novembro 14, 2008

Para infelicidade dos intelectuais de plantao, acabo de abolir os sinais graficos da lingua portuguesa por motivos tecnicos. Alem disso trago uma musica cantada por Maria Bethania composta por Arnaldo Antunes, cuja letra segue abaixo. Compartilho isso com voces porque acho bonito, e (soh) agora aprendi que a Beleza deve ser exaltada. Eh uma tecnica para nos aproximarmos do que temos de Belo.( A falta de sinais graficos acho feio, e por isso peco – com e sem cedilha- desculpas).

A musica fala sobre a consciencia de que temos (ou que nao temos) de nohs mesmos no decorrer do tempo. Tempo cujo conceito descobri recentemente ser uma invencao humana. Entao o Arnaldo Antunes descreveu  a historia da consciencia em nossas vidas de tras para frente, soh para desconstruir o Tempo, muito sabido ele. Serah que esquecemos o que jah fomos? Serah que nao tinhamos consciencia? Serah que vale a pena dispender o Tempo discutindo essas questoes? Quando eh o Agora? Ou serah melhor apenas constatar, todo dia, que tenho que sair da barriga e respirar, sair do mar da inconsciencia e despertar, e lembrar todo dia, que agora ainda estou, AQUI.
CLIQUE NESTE LINK SE QUISER OUVIR A MUSICA.
listen.php?v=24703deA
e neste aqui se quiser a letra Leia o resto deste post »

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Uma Pequena Poesia Noturna

Posted by aldhabaran2 em novembro 12, 2008

Enquanto as próximas partes de A Noite Escura da Alma fermentam, deixo-vos um poema muito interessante do poeta William Ashbless. Ashbless é um personagem de Tim Powers no livro Os Portais de Anúbis. É bom lembrar que Tim foi grande amigo de Philip K. Dick, e a ele dedicou uma dupla de personagens em uma de suas obras – a saber, Phil e Jane, esta última a falecida irmã gêmea de Dick.  Especulo (porque não fui tirar a limpo) que A Transmigração de Timothy Archer possa ter sido uma homenagem de PKD ao amigo Tim também.

As Doze Horas da Noite

“… Percorrem os antigos, obscuros desvãos do mundo, À feição de marinheiros, antes sóbrios e sensatos, Que a um rombo em seu barco não admitem A derrota e a fuga, preferindo, em vez disso, Agarrados aos seus preciosos destroços, Com eles afundar na escuridão – onde não afundam de todo, E continuam eternamente manobrando as velas Contra as noturnas correntes das profundezas, Movendo-se de um fosso ao outro, daí ao penhasco obscuro, Buscando em desespero um caminho que os leve até a praia; E nessa viagem lenta e corrompida Terminam por perder o desejo de luz, De ar, de companhia – passando então A buscar apenas os recantos mais profundos, Aqueles mais distantes do sol quase esquecido…”

– de “As Doze Horas da Noite”

William Ashbless

“…They move in dark, old places of the world:/ Like mariners, once healthy and clear-eyed,/ Who, when their ship was holed, could not admit/ Ruin and the necessity of flight,/ But chose instead to ride their cherished wreck/ Down into darkness; there not quite to drown,/ But ever on continue plying sails/ Against the midnight currents of the dephts,/ Moving for pit to pit to lightless crag/ In hopeless search for some ascent to shore;/ And who, in their decayed, slow voyaging/ Do presently lose all desire for light/ And air and living company – from here/ Their search is only for the deepest groves,/ Those farthest from the nigh-forgotten sun…”

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