Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Archive for the ‘Literatura’ Category

Fernando Pessoa na Flip 2013 – organizado por Clarice Berardinelli e declamado por Maria Bethânia

Posted by Sem em julho 4, 2013

A abertura da 11ª Flip foi ontem, sendo o homenageado deste ano o escritor nordestino Graciliano Ramos, autor de Vidas Secas, importante marco da literatura modernista brasileira.

A programação da festa literária segue com encontros até domingo. Confira aqui.

Destaco na programação o encontro de amanhã entre a cantora Maria Bethânia e a crítica literária Clarice Berardinelli, sensível conhecedora da obra poética de Fernando Pessoa.

 

19h30 | mesa 9
 Lendo Pessoa
 à beira-mar
 Maria Bethânia
 Cleonice Berardinelli

 

Quem gostaria de ouvir?

Para assistir ao vivo: aqui.

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Filme Perfume – A História de um Assassino

Posted by adi em outubro 26, 2012

Alguém já assistiu o filme Perfume? Confesso que eu não conhecia, nem tinha lido nada a respeito na mídia, até essa semana. Olhando assim para a capinha do dvd, a gente nem dá muita atenção e até não parece ser lá, digamos, um filme interessante. O que é um engano, porque Perfume é um filme muito bom e surpreende com a qualidade e poesia que possui.

Perfume é um filme de 2006 dirigido pelo alemão Tom Tykwer, que conta no elenco com talentos como Dustin Hoffman, Alan Rickman e Ben Whishaw, não deixando de lado, a agradável e mágica narrativa feita pelo ator britânico Jonh Hurt. Baseado no romance de mesmo nome, do escritor alemão Patrick Süskind, Perfume, apesar de parecer um trhiller de época ao estilo Jack o estripador, engana mais uma vez. O filme é mais como um poema que fala da alma, em toda a sua abrangência humana e contraditória. Podemos dizer que o diretor Tom Tykwer realizou um ótimo trabalho, já que seria muito difícil imprimir em forma visual e sonora  “aromas”. Mas o filme consegue essa façanha através de jogos de câmera e super close que quase torna possível ver o ar/odor entrando pelas narinas, sem falar na belíssima fotografia que nos conduz realisticamente para a França daquela época, além da ótima trilha sonora.

Perfume não é um filme comercial, razão esta, do filme ter passado despercebido pelo público. Adianto que esse post não é uma análise simbólica, ou coisa do gênero, é mais uma dica, uma narrativa com algumas observações que, no meu ponto de vista, valem a pena notar no filme, e claro, está cheio de spoilers, ok?

O filme é praticamente todo ambientado na  Paris do século XVIII, o qual, reza a lenda, era uma das cidades mais mau cheirosas do mundo. E é lá que em 1738, no mercado de peixes, nasce Jean-Baptiste Grenouille (Ben Whishaw). Se Paris já era mau cheirosa como um todo, o mercado de peixes era um lugar muito pior. Jean-Baptiste nasce embaixo da barraca de peixes de sua mãe em meio a lama e dejetos de peixe podre, não bastasse isso, ele ainda foi rejeitado e seria descartado no rio juntamente com todo o lixo e dejetos da barraca. Mas Jean-Baptiste nasceu com um dom, o de ter o olfato mais apurado do mundo, e foi por esse mesmo dom salvo, ao ser despertado pelos odores e encher os pulmões de ar e chorar o mais alto que pode. Depois disso, sua mãe foi sentenciada à morte.

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A Fonte da Juventude

Posted by Filipe Wels em junho 28, 2009

 

O destino de nós todos (exceto, claro, os que por algum motivo em especial morram jovens) é envelhecer e morrer. A velhice e a morte estão  reservados para todos, certo? Errado. Pelo menos na opinião de Peter Kelder, que escreveu o livro A Fonte da Juventude. Para ele, a isso de que a velhice seja  inevitável não passa de uma ilusão criada pelo pensamento humano. Ter 130 anos e aparência e vigor de 25 é totalmente possível.

Kelder conta que conheceu um coronal de reserva do exército britânico chamado (nome fictício) Bradford. Era um homem velho, de aparência curvada e cabelos grisalhos que rapidamente se tornou seu amigo. Conto-lhe que servira em missões em diversos lugares da Ásia, aprendendo a se comunicar com seus habitantes, e tinha ouvido falar a respeito da existência da fonte de juventude. Até que ele resolveu sair em busca de tal fonte.

Uns 2 anos depois, um homem aparentando 40 anos bateu na porta de sua casa. Para seu espanto, era o coronel. Disse que havia encontrado a tal Fonte, que consistia numa sequencia de 5 ritos praticados em algum lugar no Tibete. Os lamas praticavam aqueles ritos há anos, e todos eles tinham aparência muito jovem. Tanto que quando o coronel achou o lugar, era conhecido como “o antigo” – apelido que caiu em desuso quando recuperou a forma jovem. E muitos desses monges passavam longe dos 100 anos.

O envelhecimento ocorreria por causa dos chacras. A anatomia oculta do homem diz que temos 7 centros de energia ou chakras principais ( fala-se em centenas de chakras, na verdade, sendo apenas 7 os principais) que, devido ao tempo, deixam de girar efetivamente, causando desiquilíbrio energético e, portanto, envelhecimento. O segredo da juventude perene é manter os chakras girando adequadamente, impedindo que surja o desequilíbrio energético que leverá ao envelhecimento. E o segredo para isso é praticar os 5 ritos.

Os ritos devem ser praticados todos os dias, podendo-se saltar, no máximo, um dia por semana. Começamos fazendo cada exercício 3 vezes,  aumentando duas por semana, até chegar a 21. Pode-se fazer de manhã ou de tarde. Deve-se também cuidar a alimentação: diminuir ao máximo a quantidade ingerida e a variedade de comida na mesma refeição (nao comer proteínas – carnes- junto com amido, pois esses alimentos têm propriedades opostas e acabam entrando em conflito no estômago) e mastigar o máximo possível para facilitar a digestão.

Outra coisa essencial , segundo o livro, é a castidade. A energia sexual deve ser transmutada. Sintindo vontade de quebrar a castidade, há o rito 6, que serve para transmutar a energia sexual. Só assim podemos, de fato, convertermo-nos em super-homens ou super-mulheres.

Vamos aos ritos: (essa parte eu peguei da internet)

 

Rito 1: Fique em pé, com os braços na horizontal, e gire, num círculo completo, todo o corpo no sentido horário [sentido dos ponteiros de um relógio que estivesse nos seus pés]. Para diminuir a tontura, procure fixar o olhar em um ponto fixo, o máximo que puder, durante o giro. Diminuir a velocidade de giro do corpo também ajuda a diminuir a tontura. Descançe até sumir a tontura, antes de ir para o Rito 2.

Rito 2: Deite de costas no chão, estenda os braços ao longo do corpo e vire as palmas das mãos para baixo, mantendo os dedos fechados. Então, erga a cabeça do chão, encostando o queixo no peito. Ao mesmo tempo, vá levantando as pernas, com os joelhos retos, até ficarem na vertical. Se possível, deixe as pernas descerem um pouco para trás, ficando sobre a cabeça, mas não dobre os joelhos. Depois, vagarosamente, abaixe a cabeça e as pernas, mantendo os joelhos firmes e retos, até voltar à posição inicial. Deixe os músculos relaxarem um pouco e depois repita o rito. Ao repeti-lo, vá estabelecendo um ritmo mais lento para sua respiração. Inspire profundamente quando estiver levantando as pernas e a cabeça, e exale ao descê-las. Inspire e exale sempre pelo nariz. Entre as repetições, no relaxamento, continue respirando no mesmo ritmo. Quanto mais profundas as respirações, melhor.

Rito 3: Ajoelhe-se no chão com o corpo ereto e os braços estendidos paralelamente ao corpo. As palmas das mãos devem ficar encostadas na lateral das coxas. Incline a cabeça para a frente, até o queixo tocar o peito. Depois, atire a cabeça para trás, o máximo possível e, ao mesmo tempo, incline-se para trás, arqueando o corpo. Nesse movimento você se escorará nas mãos que se apóiam nas coxas. Feito isso, volte à posição original e comece de novo o rito. Como no Rito 2, você deve estabelecer uma respiração ritmada. Inspire profundamente quando arquear a espinha para trás e exale ao voltar à posição ereta. A respiração profunda é extremamente benéfica, porisso encha os pulmões o máximo que conseguir.

Rito 4: Primeiro, sente-se no chão com as pernas estendidas para a frente, deixando uma distância de uns quarenta centímetros entre os pés. Mantendo o corpo ereto, coloque as palmas das mãos no chão, voltadas para frente, ao lado das nádegas. Depois, incline a cabeça, fazendo o queixo tocar o peito. Em seguida, incline a cabeça para trás o máximo possível. Ao mesmo tempo, erga o corpo de modo que os joelhos dobrem enquanto os braços permanecem retos. O tronco e as coxas deverão ficar retos e alinhados horizontalmente em relação ao chão; os braços e as canelas estarão em posição perpendicular ao chão. Então, tensione todos os músculos do corpo que puder. Por fim, relaxe ao voltar à posição inicial e descanse antes de repetir este rito. Uma vez mais, a respiração é importante. Inspire profundamente ao elevar o corpo, segure a respiração durante o tensionamento dos músculos e exale completamente enquanto volta à posição inicial. Continue respirando no mesmo ritmo no intervalo entre as repetições.

Rito 5: Deite-se de bruços no chão. Em seguida, erga o corpo, apoiando-se nas palmas das mãos e dedos dos pés, que deverão ficar flexionados. Durante todo o rito, mantenha uma distância de cerca de 40 centímetros entre os pés e entre as mãos. Mantendo pernas e braços retos, arqueie a espinha e leve a cabeça para trás o máximo possível. Depois, dobrando-se nos quadris, erga o corpo até ele ficar como um ‘V’ invertido. Ao mesmo tempo, encoste o queixo no peito. Volte à posiçao inicial e repita o rito. Tensione os músculos por um instante, tanto no ponto mais alto como no mais baixo. Siga o mesmo padrão de respirações profundas e lentas que usou nos outros ritos. Inspire ao erguer o corpo, em V, e exale quando o abaixar. Lembre-se de que você só volta à posição inicial – deitado de bruços no chão – quando tiver completado todo o ciclo de repetições.

Terminada a exposição, vamos à minha opinião pessoal:

Não há provas que a história do coronel Bradford seja de fato real. Onde estará tal coronel? Suas narrativas também me parecem um tanto fantasiosas.  Agora, os ritos funcionam e isso é fato. Há, no livro, relatos de várias pessoas que os praticaram – eu, inclusivo, pratico há algum tempo e sinto vários resultados. Agora, não se conhece nenhum caso de pessoa com 130 anos e aparência de 25 -mas ausência de evidência não é evidência da ausência, e não podemos assegurar que tais pessoas de fato inexistam.

Aprendi a duvidar de tudo o que julgamos ser verdadeiro, até das verdades mais óbvias. A realidade física desta cadeira que você sentado é tido por praticamente a totalidade das pessoas como uma realidade objetiva e independente do observador. Mas sabemos que tal realidade é subjetiva, pois apenas reflete a percepção de cada indivíduo – e o fato de eu você vermos a mesma cadeira apenas prova que eu e você somos tão parecidos a ponto de vermos a mesma coisa, e não que haja uma cadeira real, independente da nossa psique. Se podemos questionar tais coisas, tidas como certas, porque também não podemos questionar isso de que todos nós envelheceremos e morremos?

De fato não há evidência de que os ritos tenham ESSE efeito. O que há são inúmeros relatos de pessoas que estao se sentindo melhor, sem dor, cansaço, etc. Quem quiser acreditar nos ritos, deve entao tentar descobrir isso por si mesmo ( no que tange a mim, vou levar umas boas décadas ainda para confirmar ou desconfirmar esse resultado 🙂 ).

Quanto ao sexo, discordo do autor, porque o que ele aparentemente defende no livro é uma abstinência  com o rito de transmutacao,  o vajori mudra.  Isso, ao meu ver, é mais adequado para solteiros. Mas nada impede que casados possam e devem praticar o sahajma maithuna, que não é citado no livro, mas também é uma forma de transmutação.

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Não há Margens no Mapa do Céu

Posted by Fy em abril 28, 2009

Não há margens no Mapa do Céu.

Recriemos o ilimitado, desconstruindo o limite.
Não há margens no Mapa do Céu.
Elielson

Lendo o excelente e imperdível ensaio sobre Anarquismo no blog Saindo da Matrix, me lembrei imediatamente de homenagear este escritor querido, Monteiro Lobato, que criou esta figurinha, cheia de soluções e idéias, possíveis impossíveis, de coração completamente Brasileiro e cuja alma é a própria Anarquia. [ e, enquanto a Sem não vem…., enjoy yourself, my people]

– Mas, afinal de contas, Emília, “o que” você é? Perguntou o Visconde…

– Sou “a” Independência ou Morte!

Emília, uma boneca de pano de quarenta centímetros costurada pelas mãos de Tia Anastácia, e “que evoluiu e virou gente”.
Emília nasceu boneca de pano, de trapo e macela, e ficou sendo a companheira preferida de Narizinho.

“ nasci de uma saia velha da Tia Anastácia.
E nasci vazia…
Nasci , fui enchida de macela e “fiquei no mundo feito uma boba, de olhos parados como qualquer boneca”. Feia…
– Dizem que fui feia que nem uma bruxa.
Meus olhos… Tia Anastácia os fez de linha preta”

…e “ Narizinho vivia a conversar com ela”…

Apenas esta menção não faz de Emília, até então, nenhuma boneca especial, afinal, é fato comum, sempre foi e sempre será , as crianças conversarem com seus brinquedos.
Ao pesquisarmos o imaginário da literatura infantil, percebemos que Monteiro Lobato não inovou ao fazer de uma boneca, um personagem.

A excepcionalidade de Emília tem dia e tem hora marcada.

Ela começa quando Emília começa a falar “de Verdade”.
O episódio da conquista da fala é fundamental na biografia e no decorrente fascínio que a boneca exerce sobre nós.

De boneca de pano como nasceu, o percurso da boneca sofre alterações significativas a partir do momento em que aprende a falar graças a uma pílula falante do Dr. Caramujo. Vamos salientar que a solução “pílula” foi sugerida depois de Narizinho recusar, por razões nobres e humanitárias, um transplante de língua de papagaio.
Imperdível é a consulta da boneca com o médico da corte do Princípe Escamado, Dr. Caramujo, um dos habitantes do Reino das Águas Claras:

“ Veio a boneca. O doutor escolheu uma pílula falante e pôs-lhe na boca – Engula de uma vez! Disse Narizinho ensinando à Emília como se engole pílula. E não faça tanta careta que arrebenta o outro olho.
Emília engoliu a pílula muito bem engolida, e começou a falar no mesmo instante. A primeira coisa que disse foi: Estou com um horrível gosto de sapo na boca.
E falou, falou, falou e… falou.
Falou tanto que Narizinho , atordoada, disse ao Doutor que era melhor fazê-la vomitar aquela pílula e engolir outra mais fraca.
Não é preciso – explicou o grande médico.
Ela que fale até cansar! Depois de algumas horas de falação, sossega e fica como toda gente .
Isso é fala recolhida que tem de ser botada para fora!

. Aqui lanço uma pergunta: Como, [como analistas], podemos nos debruçar sobre esta pérola literária descrita por Lobato e não nos deixarmos ser arrebatados por ela?
Sim, esta é a minha proposta, Dr. Caramujo como imagem de uma analista trabalhando a favor da fala.
Libertando a fala de seu silêncio neurótico.
E como Dr. Caramujo opera esta proposta? Com sua indicação de uma pílula falante.

Palavras e pílulas, pílulas e palavras.

Pílulas que matam as palavras e pílulas que libertam as palavras.

Em tempos atuais de circulação excessiva de pílulas como Prozac, Ritalina, Viagra, Rivotril, Zoloft, [ entre outros tipos de entorpecimentos cerebrais] pílulas estas que nos conduzem para a nova mitologia dominante sobre o universo psíquico: a mitologia do cérebro com suas dopaminas, serotoninas, neurotransmissores, sinapses, desequilíbrios químicos, enfim a criação do homem neuronal, modelo onde as palavras sucumbem à força das pílulas, reencontrar a sabedoria e proposição ética do Dr. Caramujo se faz um alívio.

Esta é a indicação de Dr. Caramujo para Emília: Falar até cansar. Fazer uso do verbo, apropriar-se da linguagem, libertar a imaginação contida nas palavras. Não é isto senão o que Freud chamou de Método da Associação Livre?
Não é este o convite que todo analista faz a seu paciente: falar até cansar?
Não seria o espaço analítico o lugar privilegiado para a possibilidade de manifestação daquilo que Dr. Caramujo diagnostica como “fala recolhida”?
Proponho imaginar que uma análise se inicia quando um paciente consegue encontrar um analista como Dr. Caramujo, que o instiga a ir atrás, produzir, imaginar ou criar modos de dar existência às suas “falas recolhidas”.
Porém, não esqueçamos um detalhe. Outra absoluta preciosidade apontada por Narizinho: Não se trata apenas de falar, fala comum e ordinária, pois se este fosse o caso, o transplante de língua de papagaio para isto serviria.
Afinal, para onde nos aponta esta imagem “língua de papagaio”?
Repetição, Imitação, Cópia, Eco, Previsibilidade, Recorrência do mesmo.
Repetir a fala do outro, usar o discurso do outro ao invés da criação do meu discurso, indiscriminação, – serei eu um papagaio do outro?

Haverá individuação numa língua de papagaio?

Emília é o Princípio da Imaginação, onde nos mostra que Imaginação é Realidade. As atitudes e as travessuras de Emília tem como função cancelar as fronteiras entre o fictício e o real, o metafórico e o literal, o verídico e o imaginativo. Emília encarna aquilo que James Hillman denomina como uma das atividades da Alma: a reanimação das coisas em termos metafóricos onde a metáfora dá sentido e paixão aos objetos inanimados.

Com seus olhos de retrós, inaugura uma perspectiva metafórica que REVÊ os fenômenos do mundo como imagens, possíveis de encontrar sentido e paixão onde a mentalidade cartesiana vê, simplesmente, a mera extensão de objetos desalmados e inanimados. Emília é o nome dessa possibilidade imaginativa que não se restringe ou sequer se conforma com aquilo que denominamos Princípio de Realidade. Ela o subverte e busca ampliar-se para além dos seus domínios. [significa e re-significa e “diz”!]

Não é à toa que Emília é aquela que melhor faz uso da mais famosa invenção do engenhoso Visconde de Sabugosa: O famoso Pó de Pirlimpimpim!

O Pó de Pirlimpimpim torna possível o passeio a outros universos além do Reino das Águas Claras. Ele é o elo de ligação entre o real e a fantasia que permite transportar-se para outros tempos e espaços em aventuras que dialogam com a mitologia grega, com o desejo ancestral de exploração do espaço sideral,ou com famosos personagens literários como Dom Quixote e Peter Pan.
Cheirar o Pó de Pirlimpimpim se assemelha a atravessar o espelho: como ocorre com Alice nos País das Maravilhas: o atravessamento do campo das aparências, o cancelamento das fronteiras do ego: desterritorialização da consciência, sucumbir ao rumo errante da imaginação, a possibilidade de ser outro em si mesmo.
Não é esta a experiência do inconsciente?

“…a vida, Senhor Visconde, é um pisca – pisca.

A gente nasce, isto é… começa a piscar.
Quem pára de piscar, chegou ao fim: morreu.

Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso.

É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais.

A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas.

Cada pisco é um dia.
pisca e mama;
pisca e anda;
pisca e brinca;
pisca e estuda;
pisca e ama;
pisca e cria filhos;
pisca e geme os reumatismos;
por fim, pisca pela última vez e morre.

– E depois que morre? – perguntou o Visconde.

– Depois que morre, …vira hipótese. É ou não é?” (em Memórias de Emília)

Desindentificação com a Persona, atravessamento do Narcisismo, abrir-se para outras “terras” e “reinos” ainda pouco íntimos de cada um, dialogar com as figuras da imaginação ou as figuras do outro que nos habitam?

É Peter Pan que introduz as crianças no Reino das Maravilhas, transportando-as através do pó de Pirlimpimpim:

“ O Reino das Maravilhas está em toda parte… é velhíssimo.
Começou a existir quando nasceu a primeira criança e há de existir enquanto houver um velho sobre a terra.
É facil de ir lá, perguntou Pedrinho?
Facílimo ou Impossível. Depende…
Para quem possui Imaginação é facílimo”
“Reinações de Narizinho”

Aqui, somos fiéis ao método junguiano da Circumambulação: andar ao redor da imagem, traçar paralelos, buscar associações, encontrar semelhanças, tudo em torno da imagem a fim de, como Hillman diz, “aumentar o volume da imagem”.

E, se nossa imagem é Emília, aumentemos o volume!

Ao contrário de todos os outros personagens lobatianos, Emília ao exercer sua capacidade de fala de modo inventivo, crítico e irônico, ganha uma crescente trajetória de independência em relação aos demais.
Neste percurso, Emília é aquela que questiona o inquestionável, abusa frente as verdades estabelecidas, inaugura novos pontos de vista, desafia normas, condutas e padrões vigentes.

Para muitos críticos, Emília é interpretada como sendo Porta-Voz de Monteiro Lobato, também ele um intelectual crítico e participante das principais discussões políticas e culturais da primeira metade do século XX.- Um crítico feroz e arguto, e assim como a boneca , que expressava suas posições sem medo e nem papas na língua.
Se faz importante aqui falar um pouco mais da relação entre Lobato e Emília e até lançar a pergunta: Afinal quem é autor? Quem é personagem? Quem é criador, quem é criatura?

Sobre Emília, Lobato comenta:

-“ ela começou como uma feia boneca de pano, dessas que nas quitandas do interior custavam 200 réis. Mas, rapidamente foi evoluindo e adquirindo tanta independência que.. quando lhe perguntaram “mas o que você é, afinal de contas, Emília? Ela respondeu de queixinho empinado: sou a Independência ou Morte! E é tão independente que nem eu, seu pai, consigo domá-la. (…) fez de mim um “aparelho”, como se diz em linguagemespírita(…)
É Emília hoje que me governa, em vez de ser por mim governada.-”
“A barca de Gleyre.M.L.”

Monteiro Lobato se assemelha neste depoimento a algo que Jung descreve em seu texto “A relação da psicologia analítica com a obra de arte poética” como sendo o processo visionário de criação onde o objeto prevalece sobre o sujeito. Neste, o autor deixa-se levar pelo texto e seus desdobramentos, não determina qual efeito ou solução para os conflitos. Para este, a obra traz em si a sua própria forma. Tudo aquilo que gostaria de acrescentar será recusado, o que não gostaria de aceitar lhe será imposto. Ao autor: só cabe obedecer e executar, ele está submetido a sua obra, ou, pelo menos: ao lado, como uma segunda pessoa que tivesse entrado na esfera de um querer estranho. Lobato criou Emília ou Emília criou Lobato?

É esta imprevisibilidade e irreverência de Emília que a colocam num lugar diferenciado dentro do nosso imaginário. Emília é aquela que através de atitudes novas e ousadas desconstrói e renova símbolos religiosos ou culturais de determinada época.

Nisto ela cumpre sua função de Trickster como formulada por Jung: Emília é um Trickester. – Anarquista: graças a Deus! –

O arquétipo do Trickster é a um só tempo, humano e não-humano, costuma pregar peças nos outros através dos truques, ardis, da mágica, da sedução e ás vezes da violência – > é aquele a quem é permitido dizer sob a forma de bufão, clown, bobo da corte, as verdades em forma de piadas. Jung escreveu em seu artigo “ A Psicologia da figura do Trickster” – que este evolui de um indivíduo psiquicamente inconsciente até atingir a categoria de um ser socialmente desenvolvido. Não é este o caso de Emília? De boneca inanimada a uma boneca que evoluiu e virou gente?

Finalizando, diríamos que se pela fala , Emília transcende sua condição de ser inanimado, ao manter-se boneca, e, supera nossa liberdade como humanos, dos quais, ela é afinal, um mero simulacro.
Além de imortal por natureza, bonecas envelhecem mas não morrem, e por ser uma criatura híbrida: boneca falante: um indecidível, Emília desfruta do melhor dos dois mundos: do mundo das coisas e o do mundo dos humanos, fecundando um com o ponto de vista do outro, e vice-versa, – cancelando e apagando as diferenças, num exercício infindável e dialético de dar vertigem a qualquer leitor mal avisado.

“ Verdade é uma espécie de mentira bem pregada, das que ninguém desconfia. Só isso.”
(Memórias da Emília)

Diretamente de TAUBATÉ – SP – …e do BRASIL:

Marcus QUINTAES

PS: Foi Monteiro Lobato quem fundou a primeira Editora Nacional, a Editora Monteiro Lobato & Cia e posteriormente a Companhia Editora Nacional e a Editora Brasiliense.

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Em poucos segundos

Posted by Kingmob em novembro 14, 2008

I

E muito embora haja candores e o que dizer
neste vidro moído no cérebro
há fumaça demais na genética mutacional
e enquanto não se decide o que se é ou não é
neste intervalo o eu desfaz-se em sexos transvestidos
e papa assombroso faz em ouro e santidade
a porralouquice apenas pressentida
que os antros e cascas tornem-se, com ou sem sombras
o sanctum sanctorum da realidade,
esta é a gratidão e o alento e o mistério
ritual valoroso cuja testemunha
de momento a momento faz-se libertação.

II

o acontecer limpo e raro dos milímetros de segundo
a solenidade grave e rascante do tordo mergulhando
e por trás, amando, o regente, o devasso, o puto, o traveco cósmico,
o cara que fez essa porra toda
e mostrou: – Filho agora tu te vira,
brinca com a massa, mas não engole
confia, que o mundo é você, mas nada além disso.
Pode doer mas passa, pode cantar mas passa,
e o véu é você que põe.

III

E em cada pequeno rancho, um canto
e em cada pequeno canto, a casa,
de cujo paradeiro, o dono, nunca soubemos.
Talvez um marulhar de asas ao relento
ou as goteiras delirantes da primeira primavera,
mas não, nunca soubemos.

IV

Estas manchas e migalhas de eternidade
que vez ou outra vislumbra-se (que susto)
no macro e no microponto fútil do perceber

celebram cavalinhos coloridos de carrossel,
e os algodões doces do firmamento e do palito
e uma vez mais aqui estamos
para doer e criar, tirar e colocar.
      Será tão importante assim?

O quinhão de tudo e nada
e a matemática das estações
a lascívia virulenta (amém) do núcleo celular
não há quem acrescente uma parte de sangue à natureza
– derramar, mais fácil.
     Será tão importante assim?

Afirmar o inafirmável, o evanescente, o irreal
seguir a rota, o norte, o porto
modelar a massa informe
da vida, da escuridão,
em forma, em gládio, em ser humano
      Será tão importante assim?

Fazer da existência um eu
e do eu uma alma imortal
a super identidade indestrutível
um mesmo espelho, a mesma imagem
na miríade indefinível de universos possíveis e impossíveis
-nem Sísifo nem Tântalo gozaram
pesadelos tão desastrosos
      Será tão importante assim?

V

Por que não sonhar junto aos
nossos deuses suicidas com
a redenção cômica na tragédia
do nascimento recorrente?

Que a maquiagem dos tontos
e dos belos cadáveres de ocasião
destilada a quarenta por cento
vire-se em mel delícia
e massagem derradeira
que noite não é
senão bordel.
      Será tão importante assim?

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Uma Pequena Poesia Noturna

Posted by aldhabaran2 em novembro 12, 2008

Enquanto as próximas partes de A Noite Escura da Alma fermentam, deixo-vos um poema muito interessante do poeta William Ashbless. Ashbless é um personagem de Tim Powers no livro Os Portais de Anúbis. É bom lembrar que Tim foi grande amigo de Philip K. Dick, e a ele dedicou uma dupla de personagens em uma de suas obras – a saber, Phil e Jane, esta última a falecida irmã gêmea de Dick.  Especulo (porque não fui tirar a limpo) que A Transmigração de Timothy Archer possa ter sido uma homenagem de PKD ao amigo Tim também.

As Doze Horas da Noite

“… Percorrem os antigos, obscuros desvãos do mundo, À feição de marinheiros, antes sóbrios e sensatos, Que a um rombo em seu barco não admitem A derrota e a fuga, preferindo, em vez disso, Agarrados aos seus preciosos destroços, Com eles afundar na escuridão – onde não afundam de todo, E continuam eternamente manobrando as velas Contra as noturnas correntes das profundezas, Movendo-se de um fosso ao outro, daí ao penhasco obscuro, Buscando em desespero um caminho que os leve até a praia; E nessa viagem lenta e corrompida Terminam por perder o desejo de luz, De ar, de companhia – passando então A buscar apenas os recantos mais profundos, Aqueles mais distantes do sol quase esquecido…”

– de “As Doze Horas da Noite”

William Ashbless

“…They move in dark, old places of the world:/ Like mariners, once healthy and clear-eyed,/ Who, when their ship was holed, could not admit/ Ruin and the necessity of flight,/ But chose instead to ride their cherished wreck/ Down into darkness; there not quite to drown,/ But ever on continue plying sails/ Against the midnight currents of the dephts,/ Moving for pit to pit to lightless crag/ In hopeless search for some ascent to shore;/ And who, in their decayed, slow voyaging/ Do presently lose all desire for light/ And air and living company – from here/ Their search is only for the deepest groves,/ Those farthest from the nigh-forgotten sun…”

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A Noite Escura da Alma (Primeira parte)

Posted by aldhabaran2 em outubro 28, 2008


Há algum tempo quero postar alguma coisa sobre o Caminho das Trevas. Fico um pouco receoso de ser mal compreendido: afinal, existe toda uma simbologia negativa associada às trevas que acaba por obnubilar o raciocínio e leva a conclusões errôneas sobre o objetivo de analisar tal Caminho.

San Juan de La Cruz já falava sobre a “noite escura da alma”, numa poesia que achei lindamente musicada por Lorenna McKennitt (há vários anos ouço-a para inspirar-me em certos momentos). Jung nos fala sobre o trabalho com a sombra, e na alquimia um dos processos mais importantes na obtenção da pedra filosofal é justamente o nigredo. Nada mais justo então e condizente com esse blog – que, não por acaso, mas por uma série de sincronicidades se chama Anoitan – do que falar sobre esse Caminho das Trevas que já mencionei. Leia o resto deste post »

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Anjos Caídos

Posted by Lúcio em outubro 17, 2008

 

Harold Bloom às vezes é um velho ranheta, sobretudo quando se mete numa de suas frequentes diatribes spenglerianas contra a decadência da civilização ocidental ou quando veste o manto do esnobe e, confundindo gosto pessoal com juízo de valor, se recusa a ver os méritos de autores populares que o desagradam, como Stephen King e J. K. Rowling. Outras vezes, confesso que tenho mais simpatia por seu mau humor, como quando ele investe sua verve sarcástica contra a praga dos estudos culturais, um filho bastardo do pós-modernismo que dominou a crítica literária nas últimas décadas, reduzindo tudo a um documento sociopolítico.

Independente de aplaudirmos ou discordarmos, ler Bloom é sempre uma experiência enriquecedora, que nos arrasta para um turbilhão de referências, provocações e idéias instigantes, uma metralhadora giratória ágil, impelida por um impulso daimônico capaz de atravessar milênios de cultura literária em um único parágrafo, às vezes uma única linha. Não bastasse sua erudição em carne viva, ele é ainda um autoproclamado “gnóstico dos nossos dias” que, ao arsenal habitual dos críticos, junta conceitos extraídos da cabala, do sufismo e do gnosticismo como ferramentas para iluminar e amplificar a nossa compreensão da experiência.

Anjos Caídos, seu último livro lançado no Brasil, é Harold Bloom em sua melhor forma, um azougue gnóstico que, a pretexto de examinar uma figura literária, interroga a essência da condição humana: “Anjos – caídos ou não caídos – para mim só fazem sentido se representam algo que foi nosso e que temos o potencial de nos tornar de novo.”

Para mim também.

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