Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

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Anoitan, o Ovo e Eros

Posted by Kingmob em janeiro 21, 2009

Outra história do começo das coisas foi transmitida nos escritos sagrados preservados pelos discípulos e devotos do cantor Orfeu. Posteriormente, porém, só foi possível encontrá-las nas obras de um autor de comédias e em algumas referências feita a ela por filósofos. De início era mais comumente contada entre caçadores e habitantes de florestas do que entre os povos da costa marinha. No princípio era a Noite – assim reza a história – ou, em nossa língua Nyx. Homero também a considerava uma das grandes deusas, uma deusa que inspirava ao próprio Zeus um temor sagrado e respeitoso. De acordo com a história, ela era um pássaro de asas negras. A antiga Noite concebeu do Vegg1ento e botou o seu Ovo de prata no colo gigantesco da Escuridão. Do Ovo saltou impetuoso o filho do Vento, um deus de asas de ouro. Chama-se Eros, o deus do amor; mas este é apenas um nome, o mais lindo de todos os nomes usados pelo deus.

Os outros nomes do deus, pelo menos os que ainda conhecemos, em que pese ao seu som muito escolástico, referem-se apenas determinados pormenores da velha história. Seu nome Protógono so quer dizer que ele foi o “primogênito” de todos os deuses. Seu nome Fanes explica exatamente o que fez ao sair do Ovo: revelou e trouxe à luz tudo o que antigamente jazera escondido no Ovo de prata – em outras palavras, o mundo inteiro. Acima dele estava um vazio, o Céu. Abaixo dele, o Repouso. A nossa língua antiga tem uma palavra para o vazio, “Caos”, que significa simplesmente que ele “boceja”. No início não havia palavra que significasse tumulto ou confusão: “Caos” só adquiriu, mais tarde, o segundo significado após a introdução da doutrina dos Quatro Elementos. Assim sendo, o Repouso, bem abaixo do Ovo, não estava agitado. De acordo com outra forma da história, a terra jazia abaixo do Ovo, e o céu e a terra se casaram. Essa foi a obra do deus Eros, que os trouxe para a luz e depois os obrigou a se misturarem. Eles produziram um irmão e uma irmã, Oceano e Tétis.

A velha história, tal como é contada em nossas terras litorâneas, provavelmente continuava relatando que, a princípio, Oceano estava embaixo no Ovo, e não estava só senão acompanhado de Tétis, e que esses dois foram os primeiros a agir sob compulsão de Eros. Como está dito num poema de Orfeu: “Oceano o que flui lindamente, foi o primeiro a se casar: tomou por esposa Tétis, sua irmã por parte de mãe”. A mãe dos dois era a mesma que botara o Ovo de prata: a Noite.

(In: Os Deuses Gregos, Karl Kerenyi, Ed. Cultrix, 2004).

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