Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

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Revoluções de Eros: de dentro para fora e de fora para dentro

Posted by Sem em junho 6, 2012

“É impossível exagerar a importância dos receptáculos criativos viáveis para a promoção da conexão da alma. Esses receptáculos são as formas e estruturas sociais básicas da sociedade. Eles influenciam e determinam os padrões e o estilo de vida da sociedade. Atualmente há grande necessidade de novas formas de casamento, amizade e comunidade que promovam o desenvolvimento de Eros e dos sentimentos de afinidade de conexão. Mas provavelmente será preciso longo tempo para que haja qualquer mudança criativa nas unidades básicas estruturais da nossa sociedade. O que devemos fazer, nesse ínterim, em relação à grande disparidade entre a realidade de viver um mundo doente e fragmentado e nossa visão de vida melhor? O que o paciente que concluiu a análise fará agora que se religou à visão criativa de sua alma? Agora que vivenciou a realidade concreta da conexão aberta e contínua com outra pessoa?

A troca de substância da alma que ocorre quando duas almas se encontram e se tocam é fundamental para a vida e para a saúde do corpo e do espírito. A totalidade interior logo se tornará fria, rígida e mortífera se a alma não for continuamente re-humanizada e renovada através das ligações humanas. Ainda assim, exatamente porque é tão difícil encontrar conexões da alma na nossa cultura e que a cura interior da cisão mente/corpo e a totalidade interior são tão essenciais. Este é outro paradoxo que não podemos evitar.

A necessidade de mantermos nossa alma cuidadosamente oculta e protegida desaparece quando não dependemos mais da ligação com outra pessoa para sermos completos. Não existe mais o medo de vivenciarmos e expressarmos nossos sentimentos, nossa reação diante de outra pessoa, simplesmente porque a integridade e a totalidade do nosso ser não dependem de relacionamento particular. Isso aumenta a possibilidade de termos estreitas ligações humanas e diminui nossas expectativas e exigências em relação às pessoas de quem gostamos. Além disso, a alma revelada geralmente evoca a emoção do amor, especialmente quando nada exige do outro. Assim, a totalidade interior abre a porta a número muito maior de possibilidades de conexão de alma, apesar da falta de receptáculos fomentadores de Eros na nossa cultura.

Mas ainda há outra dificuldade que continuamente ameaça debilitar a totalidade interna: a visão de um mundo novo e melhor. Independentemente das inúmeras formas que essa visão possa assumir, tem suas origens no arquétipo da união, expresso em imagens como a do Incesto entre Irmão e Irmã, a do Matrimônio Celeste ou Divino, a da Quaternalidade e da Mandala. Como já vimos, uma conexão com esse arquétipo, e a crença de que um dia ela será satisfeita, confere direção, significado e equilíbrio à vida. A realização e a satisfação podem ocorrer internamente em muitos níveis, como harmonia e união interior; externamente, como união e unidade com outra pessoa, com a comunidade, com o mundo, com o cosmo. As imagens do mundo ideal através do qual o arquétipo se expressa possuem certas características em comum, a saber: mundo no qual a paz, a harmonia e o amor fraternal são a norma; comunidade baseada na afinidade na qual cada homem se desloca com orgulho e dignidade, protegido da invasão de forças estranhas; comunidade governada pelo princípio de Eros, na qual os instintos agressivos e o princípio do poder trabalham criativamente em prol da verdade, da beleza e de valores estéticos. Esses elementos são o terreno comum no qual se baseiam todas as visões utópicas e um paraíso terreno, uma Nova Jerusalém.

Talvez na Era do Ouro, ou antes da Queda, o homem tenha realizado e satisfeito essa visão; talvez tenham existido comunidades através da história que tenham se aproximado dela. Estamos agora vivendo num período que parece o exato oposto da visão utópica, apesar de toda a nossa abundância material. A convicção de que um dia a visão utópica será realizada é, mais do que nunca, fundamental para manter nosso equilíbrio e nossa sanidade. Qualquer avaliação realista das condições existentes e das forças atuantes, contudo, só nos pode encher de profundo desespero quanto ao futuro. Como podemos nos agarrar à crença de que um mundo melhor é possível diante desses fatos calamitosos? Como podemos extrair alegria e significado da vida cotidiana vivendo neste mundo fragmentado e fragmentador? Afastar e tentar criar uma comunidade nova e exequível não parece dar certo por muito tempo. Confrontados com a impossibilidade de escapar do destino de todos os homens modernos, é extremamente difícil para nós sustentar nossa fé e conexão com a visão utópica. A harmonia interior e a totalidade do ser começam a desmoronar sempre que perdemos a fé nessa visão. A análise precisa ser capaz de mostrar ao indivíduo a maneira eficaz de manter sua fé na suprema realização dessa visão utópica, apesar dos fatos duros e cruéis da realidade; caso contrário, ela deixará de cumprir sua promessa de guiar o indivíduo ao longo do caminho da auto-realização e da totalidade.”

 

 

Retirado de Incesto e Amor Humano: a traição da alma na psicoterapia – Robert Stein. Tradução de Cláudia Gerpe Duarte,  Editora Paulus, 1999.

Arte fotográfica de Arno Rafael Minkkinen, da coleção Man and Woman, aqui a foto poderá ser localizada em Portfólios, junto a outras coleções.

Esse post foi motivado por uma resposta a Adi, a respeito de sonhos e sobre a questão de Eros, em como realizar o nosso trabalho interno de integração alma-espírito-corpo e de como vamos nos colocar no mundo de modo igualmente integrado. Aqui a minha resposta.

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