Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Um pouco sobre a simbologia de Cloud Atlas, o filme

Posted by adi em fevereiro 12, 2013

Cloud Atlas, ultimo filme dos irmãos Wachowski (trilogia Matrix) e Tom Tykwer, no Brasil lançado como A Viagem, foi eleito o pior filme do ano de 2012 pela revista Time, muito embora, o critério de avaliação usado parece ter sido o de arrecadação nas bilheterias, de fato, a primeira impressão que o filme nos dá, é que os diretores perderam a mão nessa receita e o filme desandou, mas não de todo, sem tirar leite de pedra, eu diria que  ainda dá um bom caldo :).  Cloud Atlas não é um filme emocionante e de ação eletrizante como foi Matrix, também não dá para classificá-lo como um blockbuster. Apesar das muitas críticas negativas, classificá-lo como o pior filme do ano achei um exagero, até mesmo uma injustiça com os diretores.

cloud atlas 2

O filme é daquele tipo que ou se ama, ou digamos, não se gosta nenhum pouco, e isso acabou gerando muito mais opiniões negativas do que positivas sobre o mesmo. Por abordar uma temática filosófica recheada de simbologia, acabou agradando mais aos espiritualistas, já familiarizados com esses temas. Muito embora, há de se convir, que pelo próprio ritmo do filme de narrar seis histórias como em recortes, no qual, se mistura todos os gêneros, e quando quase depois de três horas esperando o final pra entendê-lo, ainda por cima, tem que montar o quebra cabeça filosófico; é muito compreensível que não é pra todos os gostos mesmo. Sem esse tipo de interesse (filosófico-espiritual), na certa que o filme se mostra tedioso. O diferencial de Matrix que capturou o público de imediato, foi que antes da filosofia do filme, o que se percebe e chama a atenção é toda a ação e luta, e depois é que vem o motivo da luta que retrata o mito do herói em busca de si mesmo, que, montado numa longa trilogia, teve tempo de sobra pra ser digerida sua parte filosófica pelo público.

Não pelos mesmos motivos acima, confesso que fiquei na dúvida se deveria escrever um post sobre a simbologia do filme ou não, porque, apesar da proposta que o filme apresenta se relacionar com os assuntos daqui, quando eu assisti ao filme, ele não me empolgou, não prendeu totalmente minha atenção, parece que ficou faltando alguma coisa, como liga, química, ou magia mesmo. Também não gostei da maquiagem que transformou os atores ocidentais em orientais, ficou cômica, para não dizer de mau gosto. Afora isso, tem sim aspectos bem interessantes, mesmo com algumas frases clichês, o filme passa uma mensagem que vale a pena pensar, e por isso trago alguns pontos que me chamaram a atenção.

Pra quem não leu o livro, como eu, perde-se alguns detalhes importantes, o que compromete um pouco na compreensão do filme quando assistido uma única vez. Tudo bem que a proposta principal do filme, que gira em torno da conexão da vida como um todo está óbvia desde o trailer oficial, mesmo assim, o roteiro adaptado pelos irmãos Wachowski do livro de David Mitchell, não conseguiu juntar totalmente as histórias, o que nos dá a ideia de uma certa superficialidade.

Assim como em Matrix, a primeira vista, só percebemos os significados mais superficiais, mas Cloud Atlas tem uma camada mais profunda de significados e de interpretação, nesse sentido os diretores foram geniais em instigar e plantar uma sementinha, o que de certa forma, vai depender de cada telespectador até onde ele quer chegar.

Cloud Atlas narra seis histórias em diferentes épocas, com igualmente diferentes contextos históricos, sociais e políticos. Apesar disso, como fica claro no próprio trailer, são histórias com um mesmo padrão em comum, os quais conectadas umas com as outras, ecoa seus efeitos ao longo do tempo, onde passado, presente e futuro de certa forma se misturam.

Nós vemos duas formas de narrativas, a visual do próprio filme nas situações de cada história em si, o qual nós podemos concebe-lo como um microcosmo e dentro dessas pequenas histórias o “elo de conexão” entre elas que se utiliza da “narrativa literária” e também da visual de um “outro filme dentro do próprio filme”, no qual podemos relacionar estas conexões além do tempo, ao macrocosmo.

Esses padrões que se repetem em cada história, nós os percebemos como sendo padrões arquetípicos e mitológicos. Isto fica claro no sentido micro, onde contém os arquétipos da sombra, da anima/animus, ego, persona, etc. No sentido macro, nós temos as representações   mitológicas como a do herói, do velho sábio, do oráculo, do salvador, da deusa, etc.

Em cada pequena história esses padrões, que sendo internos, apenas se tornam observáveis através dos relacionamentos dos personagens, ou seja, são através dos relacionamentos que esses comportamentos se exteriorizam; essas são as pequenas conexões da vida diária, onde as ações boas ou não das personagens, traçam o futuro de cada um. Esses padrões arquetípicos e mitológicos é que dão o suporte e são a estrutura psicológica de um indivíduo. No sentido além do indivíduo, ou seja, macro, essas ações ecoam no tempo agindo em épocas diferentes, muitas vezes inspirando ou levando à reflexão, mas muito mais, o que sobra do passado são como cascas vazias.

Timothy Cavendish: ” Não serei submetido a esse crime abusivo”

Desta forma, Cloud Atlas enfatiza como é a atuação do karma (ação) na vida das personagens, dos padrões de comportamentos que todos insistem em continuar a repetir. E aqui entra o “sistema de aprisionamento” (são as cascas) que limita o indivíduo, impedindo-o de ser quem realmente é. Em um sentido micro, é simbolizado pela sombra individual retratado como o Velho Georgie na mente de Zachry. Já  em um sentido macro tem como símbolo os condicionamentos, convenções, normas e regras estabelecidos pela sociedade e cultura, ou seja, os limites que são impostos de fora pra dentro vindo do coletivo. Ambos são retratados em todas as histórias.

cloud_atlas_35

Percebemos que os limites de fora estão intrinsecamente ligados com a sombra interior, de certa forma eles reforçam continuamente os limites internos de cada indivíduo, e estes através de suas crenças e ações limitadas e de controle, reforçam o exterior; mas não só isso, em Cloud Atlas os diretores inovaram ao nos trazer uma nova ideia de como o sistema atua ao retirar sua “energia/força” dos mais fracos; se em Matrix os mais fracos eram pilhas, em Cloud Atlas os diretores retratam cruamente a fome do sistema opressor, e os mais fracos são devorados literalmente.

Esse é todo o sentido de “canibalismo” que existe no filme. Na primeira história já dentro do barco, o advogado Adam Ewing  traz comida para o escravo Autua e diz que trouxe porque estava como medo de ser devorado, quando Autua diz, não se preocupe, eu não como carne (Autua é o oprimido, o que é consumido). Na história do editor Cavendish, quando o mesmo tenta fugir do asilo, ele sai gritando “Soylent Green é gente, Soylent Green é feito de pessoas”; na história de Sonmi, os clones são reciclados (elas pensam que estão indo para a “exaltação”, um rito de passagem como uma espécie de transcendência)  mas na verdade elas são executadas para virarem “sabão”,  que é o alimento que elas próprias bebem. E na história do povo de Zachry, há literalmente os canibais que se alimentam dos mais fracos.

Velho Georgie diz: ” Os fracos viram carne, os fortes a devoram”

Outra ideia recorrente no filme é sobre a reencarnação, o que, numa interpretação mais superficial, se apresenta como a reencarnação do indivíduo, ou melhor, do ego/persona, e assim nos pareceu devido os mesmos atores interpretarem vários papéis ao longo do filme, dando a impressão de continuidade de uma vida após a outra. Mas essa teoria não bate direito, especialmente em se tratando das histórias que se passam no período de 1936, 1973 e 2012. Vamos citar a atriz  Halle Berry como exemplo, que só nesse curto espaço de tempo interpreta três personagens  (Jocasta em 36, Luisa Rey em 73; e uma moça na festa de premiação de autores de livros em 2012): nesse período,  não houve tempo suficiente entre um nascimento-morte e outro, sem contar que as personagens que ela interpreta sempre estão na casa dos trinta e poucos anos. Outro exemplo é o ator  Hugh Grant que em 73 interpreta o Lloyd Hooks, que é o responsável geral pela construção da usina nuclear e em 2012 interpreta o irmão mais velho do editor Timothy Cavendish. Fica totalmente sem sentido se considerarmos que entre uma história e outra, há somente uma diferença de 37 e 39 anos respectivamente.

Não descartando a ideia de reencarnação, o que se apresenta no meu entendimento, é a reencarnação da “alma do mundo” (psiquê objetiva), e então percebemos novamente, o sentido macro do filme e as palavras gravadas por Sonmi em 2144, e lidas pela Oráculo (personagem de S. Sarandon) da tribo de Zachry 106 anos depois da “Queda” ocorrida em 2321:

Nossas vidas não são realmente nossas. Do útero ao túmulo estamos conectados a outros no passado e no presente … e com cada crime e cada boa ação, traçamos nosso futuro.”

CLOUD ATLAS

E pra finalizar, um ponto não menos importante no filme, é sobre a atuação do mal percebido ou visto no sentido maior ou macro das histórias. Antes da personagem se tornar o herói ou heroína, ocorre um evento terrível na vida deste. Um grande risco de morte caminha lado a lado com as ações deles, eles não têm mais nada a perder, pois eles já perderam praticamente tudo em suas vidas, e diante da morte iminente, eles são renovados com grande coragem de reagir contra o opressor tanto interno como externamente. Em todas as histórias nós percebemos isso, o que nos faz refletir que o indivíduo só reage e sai da sua inércia quando em grande crise. Quando uma pessoa já não suporta mais a opressão, os limites, o autoritarismo, o controle, ela é impelida por um novo impulso de renovação a se transformar e romper barreiras internas e externas e se conectar a uma força maior. Sem dúvida esse é o simbolismo de uma travessia, ou de uma transformação muito profunda. Me parece ser esta umas das causas que move os seres em direção ao cumprimento de um destino maior e impessoal.

Robert Frobisher: “Minha vida se estende muito além da minha pessoa.”

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8 Respostas to “Um pouco sobre a simbologia de Cloud Atlas, o filme”

  1. Sem said

    Oi Adi,

    Bom dia!

    Gostei muitíssimo de Cloud Atlas e de sua análise aqui.
    Concordo com tudo, o que digamos não é pouca coisa… 🙂

    Não sabia que o filme tinha sido baseado em um livro e de que ao lado dos irmãos Wachowski está o Tom Tykwer, mesmo diretor de “O Perfume”…

    Mas isso é muito interessante, porque tanto em “Matrix” qt em “O Perfume” as histórias acabam com os protagonistas no ápice de suas jornadas se dissolvendo no entorno, isto é, no meio, isto é, no cosmos… significando, num sentido bem místico, a perda do ego e a entrada no sétimo corpo astral – que na cabala mística, como aliás vc tantas vezes mencionou aqui, compreende as três sephitots acima do abismo de Daath…

    Interessante tb que nos 3 filmes de Matrix, qt n’O Perfume, os roteiros são bem enxutos, diria mesmo são até precisos… ao passo que em Cloud Atlas há uma certa imprecisão no ar… o que nos dá a impressão de um roteiro mal amarrado… mas, nada disso… creio que a dificuldade maior em Cloud Atlas é de que esse filme aborda o mesmo tema, mas, de um ponto de vista realmente inovador, com outro método de abordagem, a meu ver, bastante mais apropriado…

    Vou me explicar melhor…

    Ao passo que os filmes anteriores são lineares, histórias com começo, meio e fim, seguindo aos passos do “herói”, roteiro já bastante assimilado e esperado pelo público expectador – o que facilita bastante a construção e a compreensão da história, em Cloud Atlas há uma desconstrução desse tempo (de lógica ocidental) e uma não-linearidade (mais próxima da lógica oriental), mais próxima da acausalidade sincronística, tanto que acho a cena final não expressa necessariamente um “happy end”, mas, uma das possibilidades, ou, entreato a ser desenvolvido… acho que qualquer outra cena do filme poderia estar ali e “estar bem”, ser uma boa substituta…

    Bom, “qualquer cena” é forçar um pouco a barra, mas, tenho uma razão para afirmar isso: mesmo na cena final se está em samsara – para usar de um termo budista, e comum a nós duas e aqui ao blog… nesse caso, do ponto de vista da liberação final (budista), tanto faz se se está no inferno ou no reino dos deuses, continua sendo samsara de qualquer forma… ah, mas deixa eu ser mais justa e menos radical: é claro que existem reinos mais próximos e propícios à liberação, justamente como o ambiente feliz e harmonioso da cena final… rs

    Opa, nem de longe quero sugerir que a cena final é ruim, só que ela passa uma certa impressão ao expectador típico do gênero Matrix, que espera ação e protagonismo, de que é uma historinha água com açúcar e de fundo moralista, o que não é…

    É uma amarração de um enredo acausal e o mergulho num mar de possibilidades, que me lembra muito a mão do Tom Tykwer, como no seu “Corra Lola, Corra…”

    Eu acho que esse filme promete não uma continuidade, que não faria o menor sentido, mas a continuidade da ideia, sim… vamos ver, o que esses diretores ainda nos aprontam, eu acho que os seus melhores ainda estão por vir… tomara!

    Adi, se a maioria do mundo não compreende a dissolução do ego, o que só acontecerá a partir do quinto corpo astral, em teoria, aliás, se a maioria sequer consegue sair da animalidade da primeira camada do corpo físico e desenvolver o sentimento, a mente, a imaginação… a educação, por exemplo, eu que sou educadora, tenho horrorizada me dado conta de que os nossos planejamentos só pretendem alcançar (qd mt bem planejam alcançar) às três primeiras camadas de nossas possibilidades humanas… se a grande maioria da humanidade está presa na primeira camada física, só irá aplaudir a filmes que reforcem a essa sua compreensão, com fortes antagonismos e disputas pelo poder, onde grassa violência, sexo, drogas e rock in roll, rsrs

    Tou brincando… porque nada disso é ruim – poderá apenas ser, como num mau sonho, se se estiver manuseando essas coisas dentro do reino dos infernos (budista)… mas, o corpo, e tudo o que a ele é inerente, é um grande instrumento, aliás, é a única catapulta que temos para nos lançar nessa grande “viagem” – maravilhosa aventura que é a vida…

    O corpo é maleável e no fim das contas expressa exatamente o que a alma está passando, e serve morada e de ensinagem ao espírito…

    Isso eu repito, pq julgo MUITO importante: louvar e cuidar do corpo é fundamental, é o nosso grande e único instrumento para estar aqui presente e fazer alguma diferença…

    Sabe o que mais é fantástico? hoje eu tenho a compreensão dessas coisas todas como não tinha há três anos – corpos astrais, energias, eu hein? rs vê como é importante escrever claramente sobre essas coisas? e tenho a certeza de que além de mim (que me expresso bastante) muitos outros (mais calados) usam de seus textos como trampolim para a compreensão desses mundos além do corpo físico… e que “além” não é estar aquém ou sem, nem é desprezar o corpo físico… tudo se dá nesse samsara mesmo…

    Voltando pro filme, “A Viagem”, acho essa tradução péssima, tanto que adotei o “Cloud Atlas”… uma tradução melhor seria “O Eterno Retorno”… rs

    E o Quintana que disse: “A única coisa eterna são as nuvens.”

    Agora a música é algo do outro mundo, vc não achou? como sentir a vida de um ponto de vista mais elevado e desse filme é o que me ficará “para sempre”…

  2. luramos said

    Acho que o filme foi feito complexo e sem se restringir às convenções habituais de espaço e tempo porque assim é a rede da Vida, a teia que nos une.

    “Nossas vidas não são realmente nossas. Do útero ao túmulo estamos conectados a outros no passado e no presente … e com cada crime e cada boa ação, traçamos nosso futuro.”

    Amei, chorei copiosamente quando acabou (sem novidades), porque a genialidade dos que conceberam e realizaram o filme trouxe algo vagamento conhecido e abstrato ao meu mundo concreto: eu estou ligado a você – que fica lindinho nessa música do AA.

    http://letras.mus.br/arnaldo-antunes/ligado-a-voce/

    Saudades de todos aqui do Anoitan ♥

  3. mcnaught said

    Oi Adi. O filme é ótimo. A maioria das vezes que as pessoas falam mal de um filme é porque elas não entenderam o mesmo rs. Filme que necessita utilizar o raciocínio e trabalhar com a lógica perde “pontos´´ com as pessoas. E como disse o Osho baseando em ensinamentos do budismo: – Você aproveita melhor a vida quando deixa de criar expectativas. Imagina o número de pessoas que esperavam uma nova “Matrix´´ por conta da propaganda rs.

    Vou analisar algumas coisas baseadas no filme e depois volto para compartilhar.

    []´s

  4. adi said

    Oi Sem,

    Há tanto a se comentar sobre o filme, mas o post ficaria gigantesco. Eu tenho percebido que o pessoal da net não tem mais tanto tempo sobrando pra ler textos grandes, acho por isso até o sucesso do facebook, que eu não tenho mais, e do tweeter – que nunca tive. Parei porque o facebook acabou virando um grande circo de aparências. 🙂

    Enfim, voltando ao filme, o bom também é deixar pra completar o post com os comentários e ir desenvolvendo o assunto melhor.:)

    “em Cloud Atlas há uma desconstrução desse tempo (de lógica ocidental) e uma não-linearidade (mais próxima da lógica oriental), mais próxima da acausalidade sincronística, tanto que acho a cena final não expressa necessariamente um “happy end”, mas, uma das possibilidades, ou, entreato a ser desenvolvido”

    É verdade, eu não tinha notado exatamente por esse prisma, mas concordo plenamente. Eu notei que havia a intenção, através de um roteiro, digamos “confuso”, de quebrar paradigmas da mente já acostumada com a mesmice de sempre. Nesse sentido os diretores conseguiram uma façanha nunca vista antes na história do cinema, porque mataram vários coelhos com uma cajadada só, rsrs. Eles conseguiram a um só tempo, retratar o indivíduo preso e limitado em sua visão de mundo, onde as coisas parecem pequenas, indivíduais, separadas, onde se percebe justamente o oposto de uma situação acausal – como um ser não desperto (como se diz no budismo), vivenciamos extamente a causalidade, onde cada ação causa um efeito subsequente (karma);
    De outro lado, do ponto de vista de um “ser realizado”, ou se a gente “levantar o helicóptero” e ver as coisas de fora do pequeno mundo, há toda uma vida diferente, acontecendo em simultâneo, onde presente, passado e futuro não tem essa conexão causal. Um exemplo no filme, é quando o grande compositor Vyvyan descreve um sonho pra Frobisher, onde ele escuta uma música nova, num café horrível e as garçonetes tem todas os mesmos rostos – ou seja, ela capta através do sonho, o futuro de Sonmi.
    E nessa visão macro, que retrata a expressão da “psiquê objetiva” se dá também através dos sonhos, assim como Jung sempre enfatizou, a importância da análise dos sonhos, pois este é a linguagem do inconsciente, tanto pessoal como impessoal.

    ” mesmo na cena final se está em samsara – para usar de um termo budista, e comum a nós duas e aqui ao blog… nesse caso, do ponto de vista da liberação final (budista), tanto faz se se está no inferno ou no reino dos deuses, continua sendo samsara de qualquer forma”

    E o interessante é saber que a transformação final se dá dentro do indivíduo, em sua percepção. O indivíduo realizado continua sim na vida, mas com uma grande diferença, o que para nós parece samsara, para o realizado é visto e vivenciado como nirvana. Por isso o ditado: samsara é nirvana e nirvana é samsara; por isso também se diz em cabala : kether está em malkuth mas de forma diferente. Na verdade kether é malkuth em estado de sístase (usando do termo gnóstico), mas quando há a desconstrução das amarras, o iniciado vivencia o céu na terra.
    E no Evangelho de Tomé: “Os discípulos perguntaram-lhe: Em que dia vem o Reino?
    Jesus respondeu: Não vem pelo fato de alguém esperar por ele; nem se pode dizer ei-lo aqui! Ei-lo acolá! O Reino está presente no mundo inteiro, mas os homens não o enxergam.”

    Tem outro ponto que agora me atinei sobre o filme, exatamente no sentido de desconstrução das crenças vazias, é quando Maryam ( que lembra dos nomes simbólicos Maria, Miriam, Maya) revela a Zachry que Sonmi não era deusa. Ele fica desconcertado. E nesse sentido, no caminho de individuação ou iniciático, há um momento necessário, descrito simbolicamente como “morte do mestre”. Representa a desconstrução de crenças profundas e consequente retirada da projeção do Si-mesmo do exterior. A partir desse momento o iniciado caminha completamente sozinho, e assume a total responsabilidade do seu caminho. Esse acontecimento se dá em tiphareth.

    “e tenho a certeza de que além de mim (que me expresso bastante) muitos outros (mais calados) usam de seus textos como trampolim para a compreensão desses mundos além do corpo físico… e que “além” não é estar aquém ou sem, nem é desprezar o corpo físico… tudo se dá nesse samsara mesmo…”

    Aqui eu sou meio papagaio de pirata, rsrs. Tô sempre repetindo os “entendidos” literalmente, algumas vezes da maneira que os compreendo. Mas é muito bom saber, que de alguma forma, a gente pode ser útil, né? 😉

    Ah!! também gostei muito da música, é sim coisa de outro mundo.

  5. adi said

    Oi Luiza, muito bom te ver.

    É verdade, eles conseguiram a façanha de dar uma ideia dessa complexidade toda que é a vida, tanto do ponto de vista limitado o qual só percebemos uma pontinha do iceberg, como de uma grandeza maior que atua como rede de conexões e é atemporal. E claro, quem conseguiu captar o sentido do filme, saiu renovado.

    “Amei, chorei copiosamente quando acabou (sem novidades)”

    Puxa vida, acho que porque assisti na telinha, eu perdi essa emoção. My fault. Também aqui na Rússia ir ao cinema é inviável, rsrs.

    Linda a musica do Arnaldo Antunes. E nessas e outras a gente vê com alegria como tem gente além do nosso tempo.

    “Saudades de todos aqui do Anoitan ♥

    Também tenho essa saudade.

    Abs

  6. adi said

    Oi Mcnaught, seja muito bem vindo aqui na casa.

    “A maioria das vezes que as pessoas falam mal de um filme é porque elas não entenderam o mesmo rs. Filme que necessita utilizar o raciocínio e trabalhar com a lógica perde “pontos´´ com as pessoas.”

    O filme é uma martelada na realidade normativa individual e como a soma das gotinhas num oceano (parodiando o filme, rs), porque não dizer, numa pequena parte da sociedade também. Com relação a isso, e não generalizando, algumas pessoas fecham bem os olhos e a mente, é difícil mudar, dá muito trabalho. Tem um ditado que meu marido sempre diz: “Todo mundo quer ir pro céu, mas ninguém quer morrer”

    E talvez por isso, a dificuldade de se abrir ao novo. É desagradável a desconstrução dos “castelinhos de areia” onde algumas pessoas se sentem confortáveis. E é isso mesmo que vc falou, o pessoal quer tudo prontinho. A grande maioria busca entretenimento vazio e satisfação rápida. Aí vai ao cinema assistir Cloud Atlas e sai com questionamentos, como assim? por isso aconteceu de haver uma rejeição grande, principalmente pela sociedade americana que na aparência se mostra mais aberta, mas por dentro é extremamente conservadora.

    “Vou analisar algumas coisas baseadas no filme e depois volto para compartilhar.”

    Volta sim. 🙂

    Abs

  7. mcnaught said

    Olá Adi:

    Gostei muito de ler o seu comentário em: fevereiro 14, 2013 às 5:46 am. Muito Bom.

    Também gostei de ler esse material que encontrei em outro canto da Web:

    “Telos versus eterno-retorno.´´

    ““Lemos no slogan do pôster promocional de “Cloud Atlas”: “Tudo Está Conectado”. Isso faz lembrar clichês new age como, por exemplo, “somos todos um”. Mas seria uma injustiça reduzir as quase três horas de “Cloud Atlas” a uma aborrecida e incompreensível saga new age, como estão deduzindo muitos críticos especializados.

    Tykwer e os Wachowski fizeram algo mais complexamente elaborado: tentaram encontrar um ponto de equilíbrio e ambiguidade entre tradições filosóficas orientais e ocidentais, entre telos (a ideia ocidental e socrática de que a existência seria dotada de um propósito ou finalidade que se desdobraria ao longo do tempo) e a crença oriental da “metempsicose” ou transmigração de almas – de origem hindu e egípcia que será a base dos mistérios órficos da antiguidade de que vida e morte vivem numa eterna batalha formando um círculo de recorrentes encarnações e uma espécie de eterno-retorno. Tempo linear de telos versus eterno-retorno da metempsicose.

    A jornada da alma se consistiria em uma alternância entre a liberdade momentânea da matéria pela morte e a posterior reencarnação e o retorno à prisão da matéria, criando um círculo de necessidade. A mensagem da lenda de Orfeu clamaria pela possibilidade de libertação dessa espécie de eterno-retorno através de uma autopurificação para que possamos retornar aos deuses (a Dionísio, em particular), transformando esse círculo em uma espiral ascendente.

    Esse misticismo órfico da Grécia do século VI A.C. vai inspirar Platão e o Gnosticismo do início da era cristã que via a reencarnação como uma forma de prisão em um cosmos essencialmente dominado pelo Mal.´´´´

    Ultimamente tenho gasto um maior tempo refletindo sobre o corpo realmente ser uma Prisão. E caso exista a reencanação, me parece que a explicação para muitas dúvidas estão relacionadas a vida em outros planetas. Não com criaturas alienigenas do tipo hollywoodianas, e sim como algo que foi mostrado no Filme.

    []´s

  8. adi said

    Olá Mcnaught,

    Muito bacana esse texto que vc nos trouxe. Faz sentido essa colocação também em Cloud Atlas. E é verdade!! quando se fala em “somos todos um”, imediatamente remete a esses vários clichês new age, que já cheguei a ser simpatizante uns 15 anos atrás, é eu já acreditei nisso. Aí a gente amadurece a ideia e muitas coisas passam a não fazer mais sentido. A gente muda, e nossas crenças mudam também ou se transformam, algumas vezes muitas das nossas crenças se desfazem e nos libertam.

    “Telos versus eterno-retorno”

    Eu gosto muito da teoria oriental da reencarnação, e eu entendo hoje, num sentido diferente, não como sendo a reencarnação da pequena alma, ou do ego, mas no sentido da alma impessoal; ao mesmo tempo que também acredito que em simultâneo há um propósito da existência, portanto, eu não vejo como dois lados opostos. Não entendo como telos versus eterno-retorno. Mesmo porque sendo a reencarnação da alma em busca de total consciência (propósito), o eterno-retorno só é eterno até a obtenção da plena consciência, essa é a necessidade.
    Também por esse mesmo motivo, não entendo como prisão a alma estar na matéria. O problema não está na matéria, mas o que nos aprisiona está em nossas percepções limitadas e ilusórias.

    “Ultimamente tenho gasto um maior tempo refletindo sobre o corpo realmente ser uma Prisão. E caso exista a reencanação, me parece que a explicação para muitas dúvidas estão relacionadas a vida em outros planetas. Não com criaturas alienigenas do tipo hollywoodianas, e sim como algo que foi mostrado no Filme.”

    É complicado essa oposição corpo – espírito, porque é como água e fogo, como pode opostos tão graves se reconciliarem em nossa mente racional? E é complicado saber que só nos libertaremos quando percebermos com todo o nosso ser que esta distinção é totalmente ilusória.
    Há várias teorias sobre uma humanidade que veio de “Capela”. Mesmo nas representações de escolas esotéricas tipo Golden Dawn há muitas referências ao sol Sirius. É uma hipótese sim, muito embora, muitas dessas referências diz respeito ao aspecto simbólico de representações daquilo que palavras não alcançam pra descrever. Mas pode ser literal também, pois seria impossível não haver mais nada nessa imensidão cósmica além de nossa insignificância. A verdade é que o mistério é muito grande, e nos cabe especular aqui e ali. 🙂

    []’s

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