Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

A Invenção do Cuidado

Posted by Sem em fevereiro 2, 2013

 

 

Domingo assisti ao As Aventuras de Pi: um filme com imagens impressionantes, entre as mais belas já produzidas pelo cinema; imagens que em muito transcendem ao que é narrado e é como se descrevessem outra história, de imagens soltas, correndo em paralelo…

 

Quando acabou o filme, fiquei pensando: quantas vidas nós podemos viver, aqui, nessa única que temos…

 

Ou, talvez, o filme não seja sobre nada disso, e “isso” tenha mais a ver com as poesias que estava escrevendo na semana passada, e que em muito se complicaram, após eu ver o filme, por perceber as implicações envolvidas…

Essa será uma história não fictícia de um filme que se imiscuiu numa poesia lírica e quase a matou, acabando por transformá-la em poesia épica ou qualquer coisa assim; não sei se a fez melhor, creio deu um significado mais amplo e profundo a algo que considerava pessoal e em verdade é questão coletiva…

 

 

Acabei descobrindo ainda, em meio a semana complicada, que o canadense Yann Martel, autor do Life of Pi, o premiado livro em que o filme foi baseado, foi acusado de plágio por alguns jornalistas da imprensa brasileira e internacional, por remontar ao mesmo enredo de Max e os Felinos, do gaúcho Moacyr Scliar. Aqui um vídeo com detalhes do próprio Scliar falando a respeito. E aqui uma reportagem da Folha, em que Scliar era colunista.

 

Qual a fronteira na criação de uma obra entre a sincronicidade e a picaretagem?

 

No caso presente não acho que tenha havia uma real picaretagem – a não ser o ignorante e proposital desconhecimento do Outro; o que acredito mais provável é de que uma memória adormecida tenha sido despertada por algum evento sincronístico, e que talvez nenhum dos envolvidos saibam direito como explicar os acontecimentos que se sucederam, mas, eu explico…

Nenhuma grande obra, em tempo algum, poderá existir sem responder aos anseios ou captar a vida que flui em segredo abaixo dos seres – e dos entes e das coisas, simplesmente porque uma obra que não fale dessa vida, ou que não responda a esses anseios, sequer será compreendida por seus pares… Esse espaço, nós o compartilhamos todos no subterrâneo de nossos psiquismos, e é o que nos dá os subsídios (simbólicos, mitológicos, como bem asseverou em “O Poder do Mito” o mitólogo Joseph Campbell) para que na superfície possamos nos entender, mesmo que tempo e culturas nos distingam. E, “isso” (mesmo que não se admita a existência de uma in-consciência coletiva), poderá explodir ao mesmo tempo numa ideia para um livro no Canadá, num verso para uma poesia em Portugal e afogar-se com um rato num navio naufragado entre a costa africana e a asiática… Pois, em se tratando de um evento sincronístico, tudo acontecerá ao mesmo tempo, para unificar esses elementos, aparentemente aleatórios, numa explosão única de significados comuns. Lembrando ainda que “ao mesmo tempo”, trata-se de um tempo sincronístico e que poderá comportar – ou não, o espaçamento de milênios de nosso tempo linear… Para saber mais: aqui.

No entanto, nenhuma dessas reflexões e o enredo político por detrás das obras anulam o impacto que as belas imagens nos causam…

 

 

E me lembrei de outro filme: Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas. As mesmas imagens parabólicas e impactantes, mas, neste filme, mais verbais do que visuais…

O que une “Peixe Grande” e “Pi” é esse espaço reservado e privilegiado para a imaginação. O que aponta ao expectador, que faz a ligação entre os filmes, para a possibilidade de viver (narrar) a sua própria história feito uma aventura encantada, de que é sua a escolha de como vai narrar (viver) o que lhe acontece, pois, o caminho da verdade, nesse espaço da imaginação (e da sincronicidade), alia fantasia e realidade.

E se há algum segredo nas histórias narradas pelos olhos da imaginação, é o mesmo da poesia…

 

 

Fundamentalmente, o que vivemos/imaginamos/contamos, deve-se mais ao nosso olhar sobre os acontecimentos do que aos próprios acontecimentos. Não que o nosso olhar tenha a capacidade de mudar os fatos – não muda, mas muda a forma como vamos guardar e reviver o que nos acontece, e, consequentemente, muda a forma como encaramos os fenômenos.

Então, no final das contas, contra toda a lógica, o nosso olhar imaginativo muda sim os acontecimentos…

 

 

Para concluir com essa afirmação, que defendo ser verdadeira, vou me valer de um terceiro filme (o que menos me agrada entre os três): A Vida é Bela, do Roberto Benigni. Trago esse filme porque talvez seja o exemplo mais perfeito de como um olhar subjetivo pode alterar a objetividade dos fatos. Neste filme um pai escolhe o caminho da imaginação para preservar ao filho (e a si) do horror da guerra e da sua impotência perante a terrível realidade ao redor. Escolhe a narrativa lúdica ao holocausto, e quem poderá dizer que a sua narrativa é menos real? O filho certamente que não, que confirmará a versão do pai, a qual guardou como a herança mais preciosa recebida do seu pai. A vida é bela quando não nos tornarmos vítimas, mesmo que tenhamos sido verdadeiras vítimas de acontecimentos trágicos…

 

O que engrandece um contador de histórias?

O que faz grande uma história?

 

São perguntas que podem comportar inúmeras respostas…

O que não varia é o profundo significado, que algumas pessoas iluminadas conseguem dar às suas vidas, narrando-as por meio de imagens (verbais, visuais, olfativas, gustativas…) e acrescidas de atitudes, decisões que tomam e justificam os caminhos que escolhem; por mais banais sejam as suas vidas – nunca são realmente banais, angariam em volta de si um núcleo de valor, em que outras pessoas, reconhecendo o valor, neles se espelham e quando assim o fazem, se engrandecem. Pessoas assim são capazes de mudar o curso de outras vidas…

Eu penso que esse espelho é a alma…

E aqui estamos nós, em muitos graus de nitidez variada…

 

 

E penso também que as pessoas que melhor espelham esse mundo subterrâneo são os artistas…

Voltando ao início de nossa história, para fechar: Pi não é uma incógnita matemática, é o nome de batismo do protagonista Piscine Molitor Patel. Esse nome estranho e bizarro foi sugerido pelo tio, excelente nadador, ao constatar certa vez a pureza da água de um piscina pública em Paris e que tinha esse nome. O que o tio ensejou ao sobrinho, e que foi acatado pelos pais de Pi, foi uma alma pura, como a água limpa daquela piscina, que refletisse o céu…

 

 

E esse é o segredo de tudo, da vida às obras de arte: olhar para o céu através de uma alma limpa e serena:

Tão serena que o céu pode se refletir na sua superfície…

E limpa, o suficiente, para que do fundo transpareça o céu…

 

 

E eu fiquei pensando no lótus, símbolo da alma, se apenas floresça de um ângulo por onde se olhe…

 

O que existe além do céu azul?

Quando o espírito atravessa uma alma purificada o que vê?

 

 

 

A Invenção do Cuidado

 

Existe uma vida secreta que os homens vivem

Que os pássaros denunciam no seu voo e os homens chamam Liberdade

Que as abelhas operam quando fabricam o mel e os homens traduzem Poesia

Que as aranhas inoculam nas suas presas e os homens anunciam Mal

 

Existe um rio subterrâneo, corrente, abaixo da superfície de todas as coisas

Abaixo dos mapas, correndo em paralelo pelos rios da terra e nas galáxias do universo

Abaixo dos seres, circulando entre os homens e na corrente sanguínea dos animais

Abaixo dos entes, subindo pela seiva das árvores e nos veios das pedras

E nem tudo o que existe se dá conta desse rio que governa as direções

 

Um rio além da liberdade (e o homem se exaspera: o que pode haver além da liberdade?)

Além do bem e do mal (e o homem se fecha, temendo perverter seu coração)

Um rio de escuridão (e o homem se tranca por fora, achando que está em casa seguro numa sala iluminada)

Que se por acaso aflora (e sempre, em algum momento, em algum lugar, o subterrâneo atravessa a superfície)

Perde em força e volume e passa a sereno regato, que se o homem não cuida

Com o seu olhar

E planta em suas margens com as próprias mãos

A nascente, descuidada, seca…

E o que era rio vira charco

E o que era revelação estagna: uma nascente podre

Aonde não se pode mais beber nem banhar

 

Um rio, ou seria o oceano?

Um oceano, ou espaço?

Um espaço

Mas, tão secreto, onde bem poucos se dão conta

E mesmo aqueles que o pressentem sabem medir o quanto dele dependem

Esse espaço, onde as raízes de todas as matérias se deitam

Esse oceano, onde vigoram outras leis

Esse rio subterrâneo…

 

E o homem teme esse oceano como a loucura, sem saber que o oceano é a vida e nada mais

Teme nele perder o seu curso, sem saber que se nele não embarca, perde a viagem toda

Lá no escuro, onde brotam as fosforescências, onde está a nascente, esperando…

Lá onde nada mais há, senão reflexos…

 

Mas, observe: esse espaço não é a reconstrução do passado

Nem chamamento para o futuro

É o agora: o que ocorre agora mesmo abaixo dos nossos pés

E o que vemos depende mais dos nossos olhos do que do próprio chão

Porque são os olhos que constroem o chão…

 

Observe, agora

Na imaginação desse rio: o buraco negro que suga as ideias…

Suga e revira os sentimentos a elas ligados

Vira tudo ao contrário, tornando-as outras

Essas pequenas novas ideias que brotam à superfície

Feito iluminuras que desatam em novas afeições

Esses afetos que nos levam a agir desse e não daquele modo

As ações que nos resultam em consequências, estas e não aquelas

Consequências que nos levam a determinado destino, este e não aquele

 

E as coisas da superfície voltam para o subterrâneo como pássaros ao ninho

E a aranha suga a carne líquida da presa envolvida na teia

No exato momento, em que em algum lugar do universo, duas galáxias se encontram e passam a ser uma

 

E tudo o que foi se esquece

E se deixa ficar de outro modo: o mesmo Sempre, mas transformado

 

Na superfície, um buraco negro é algo que nada contém

Nada, além da possibilidade infinita das coisas secretas

E de todas as vidas em segredo

Buraco que o homem teme e chama Morte

 

 
Todas as fotos de lótus são de Bahman Farzad

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3 Respostas to “A Invenção do Cuidado”

  1. adi said

    Sem,

    Que post bacana, e que linda a poesia no final… poesia que emudece pela beleza, honestidade, realidade do indizível traduzida em letras e palavras que só o coração pode ler.

    Eu assisti ao filme PI, muito poético e bonito, de imagens oníricas… é; mais parece um sonho, daqueles que não entendemos bem o porque, mas simplesmente sabemos que foi daquela forma que aconteceu no sonho. O filme PI é mais ou menos desse jeito, onde a razão não alcança e não faz a menor diferença nesse caso, porque desde o início percebemos que é a linguagem da imaginação que se expressa.

    “Fundamentalmente, o que vivemos/imaginamos/contamos, deve-se mais ao nosso olhar sobre os acontecimentos do que aos próprios acontecimentos. Não que o nosso olhar tenha a capacidade de mudar os fatos – não muda, mas muda a forma como vamos guardar e reviver o que nos acontece, e, consequentemente, muda a forma como encaramos os fenômenos.”

    Concordo. De fato nossa compreensão/interpretação dos acontecimentos não mudam os fatos em si, mas muito significativamente muda cada vez mais nosso próprio olhar e assim nossa própria narrativa ou lembrança, e por consequência, muda o principal, que é nossa participação ou reação aos fenômenos presentes. A cada dia já não somos os mesmos, já não vemos como antes… as coisas continuam iguais, nós é que vemos diferente.

    Abs

  2. Sem said

    Adi,

    Obrigada. 🙂

    …..

    …e digamos que a imaginação seja, assim, algo neutro… como a natureza é neutra e nós valoramos, como boa ou má, conforme nos afete…

    e a alma que pode se sujar e filtrar como a água… é neutra? o que é a alma? é a mente budista? quando serena, se ilumina?

    O que não é neutro é o céu…
    o que simboliza o céu? o vazio budista? o Deus cristão?

    Bjos

  3. adi said

    Cada vez mais alma pra mim significa essa energia de ligação que no budismo é retratada como “fala” ou num ser desperto como o sambhogakaya. Pra mim isso tudo é a consciência e imaginação dela, mas também não me refiro a consciência normal cotidiana, nem a imaginação superficial sem emoção. Alma pra mim é a própria energia psíquica que dá realidade as coisas, tanto do espírito como da matéria. Então, nesse caso, é o que capta e torna as potencialidades sem forma do mundo espiritual em imagem e as traz para se materializar em algo concreto.

    Céu, na minha opinião do momento (porque a coisa amadurece, rs), é esse mundo de “potencialidade sem forma”, é o vazio budista, que como vimos, Dharmakaya não é vazio propriamente, é potencialidade, por isso descrito como vazio grávido por Trungpa Rinpochê. É como o “Pleroma” termo que Jung tomou emprestado dos gnósticos pra designar como “lugar além das fronteiras da categoria tempo-espaço e onde toda tensão entre os opostos é extinguida ou resolvida”. Na Árvore da Vida da cabala este nível de percepção tem como representação nas sephiroth de acima de daath, na tríade superior Kether-Chokmah-binah.

    Antes disso, ou os céus imagéticos são ilusórios, assim eu acho.

    bjs

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