Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Filme Perfume – A História de um Assassino

Posted by adi em outubro 26, 2012

Alguém já assistiu o filme Perfume? Confesso que eu não conhecia, nem tinha lido nada a respeito na mídia, até essa semana. Olhando assim para a capinha do dvd, a gente nem dá muita atenção e até não parece ser lá, digamos, um filme interessante. O que é um engano, porque Perfume é um filme muito bom e surpreende com a qualidade e poesia que possui.

Perfume é um filme de 2006 dirigido pelo alemão Tom Tykwer, que conta no elenco com talentos como Dustin Hoffman, Alan Rickman e Ben Whishaw, não deixando de lado, a agradável e mágica narrativa feita pelo ator britânico Jonh Hurt. Baseado no romance de mesmo nome, do escritor alemão Patrick Süskind, Perfume, apesar de parecer um trhiller de época ao estilo Jack o estripador, engana mais uma vez. O filme é mais como um poema que fala da alma, em toda a sua abrangência humana e contraditória. Podemos dizer que o diretor Tom Tykwer realizou um ótimo trabalho, já que seria muito difícil imprimir em forma visual e sonora  “aromas”. Mas o filme consegue essa façanha através de jogos de câmera e super close que quase torna possível ver o ar/odor entrando pelas narinas, sem falar na belíssima fotografia que nos conduz realisticamente para a França daquela época, além da ótima trilha sonora.

Perfume não é um filme comercial, razão esta, do filme ter passado despercebido pelo público. Adianto que esse post não é uma análise simbólica, ou coisa do gênero, é mais uma dica, uma narrativa com algumas observações que, no meu ponto de vista, valem a pena notar no filme, e claro, está cheio de spoilers, ok?

O filme é praticamente todo ambientado na  Paris do século XVIII, o qual, reza a lenda, era uma das cidades mais mau cheirosas do mundo. E é lá que em 1738, no mercado de peixes, nasce Jean-Baptiste Grenouille (Ben Whishaw). Se Paris já era mau cheirosa como um todo, o mercado de peixes era um lugar muito pior. Jean-Baptiste nasce embaixo da barraca de peixes de sua mãe em meio a lama e dejetos de peixe podre, não bastasse isso, ele ainda foi rejeitado e seria descartado no rio juntamente com todo o lixo e dejetos da barraca. Mas Jean-Baptiste nasceu com um dom, o de ter o olfato mais apurado do mundo, e foi por esse mesmo dom salvo, ao ser despertado pelos odores e encher os pulmões de ar e chorar o mais alto que pode. Depois disso, sua mãe foi sentenciada à morte.

Jean-Baptiste cresceu num orfanato, ignorado e isolado por todos, começou a falar somente aos 5 anos de idade. Sozinho, ele percebeu que era diferente e que possuía o dom de sentir todos os cheiros. Ele conhecia e distinguia o cheiro das coisas, e cada coisa podia ser conhecida pelo seu cheiro próprio, como uma identidade.

O filósofo Jean-Jacques Rousseau, no século XIX, afirmou: “O olfato é o sentido da imaginação”. De fato, os cheiros ou odores, aromas, tem o poder de despertarem memórias, emoções, sabores, amores, repulsas…

Já adolescente, Jean-Baptiste foi vendido pela dona do orfanato ao cortume da cidade e, curiosamente logo após, ela é roubada e assassinada.

No cortume, poucos sobreviviam ao pesado trabalho, mas Jean-Baptiste era forte e resistente, e desempenhava seu trabalho sempre concentrado em sentir e conhecer novos cheiros. Para Jean-Baptiste, não havia cheiro bom ou ruim, em sua solidão e simplicidade, ele se relacionava com o mundo ao seu redor através de seu nariz, mas sem distinguir qualidades ou dar nomes aos cheiros.

Um dia, seu senhor do cortume o envia para fazer uma entrega no centro da cidade, e lá, Jean-Baptiste sente um aroma insuportavelmente irresistível, era o de uma linda jovem, e ele a segue por não conseguir resistir a tamanho fascínio, e em sua inocência, acidentalmente comete seu primeiro assassinato. O que o fascinou foi o cheiro da moça, sua alma, que ele desesperadamente tenta capturar, manter, e para sua frustração, com a morte da moça, parece que o perfume se esvai.

Não é por acaso que nós dizemos que o perfume é também essência, também, não é por acaso que nós dizemos de nossa alma ser nossa essência. Para Jean-Baptiste a alma dos seres é seu odor.

Sem culpas e sem sentimento, somente o que restou para Jean-Baptiste era a memória do perfume, a memória da essência da moça. Depois desse ocorrido, ele se torna obcecado em aprender como manter, conservar, capturar a essência das coisas.

Então, Jean-Baptiste conhece o perfumista decadente Giuseppe Baldini (Dustin Hoffman), o qual irá lhe ensinar o segredo da arte de fazer perfume, tal qual um alquimista, que combina de forma precisa e exata as várias notas e tons dos aromas buscando a sublimação. Mas Jean-Baptiste não estava satisfeito, isso ele já sabia fazer por si mesmo, ele queria descobrir como capturar e conservar a essência não só das flores e árvores, mas de todas as coisas, inclusive a dos seres vivos, e isso Baldini não podia ensinar-lhe.

Todas as pessoas que se relacionaram com Jean-Baptiste, após a ruptura dessa convivência vieram a falecer, como se Jean-Baptiste ao partir levasse suas almas. Quando Baldini diz para ele que não é possível capturar a essência das pessoas, Jean-Baptiste fica muito doente e só retorna a vida quando Baldini diz que talvez na região de Grasse, a capital dos perfumes, eles conheçam esse mistério.

Jean-Baptiste parte para a região de Grasse em busca desse conhecimento. Em sua jornada, num dia de chuva, ele descobre que ele próprio não tinha cheiro algum. Ele não tinha cheiro, por consequência, ele não possuía alma. Por esse motivo Jean-Baptiste foi tão ignorado e insignificante em sua vida toda, era como se ele fosse invisível, além de que não possuía sentimentos.

Em busca do perfume ideal, Jean-Baptiste descobriu como retirar a essência das pessoas, e assim começam os assassinatos. Apesar dele os cometer friamente, Jean-Baptiste é um anti-herói que cativa, talvez por ele não possuir maldade, ou bondade. Por ele não possuir alma, como se ele não pudesse ter conhecimento dos opostos, ele é neutro, ingênuo, sem julgamentos. Mas ele não consegue sentir a vida, nem o amor, somente o cheiro.

Depois dos vários assassinatos, Jean-Baptiste consegue criar o perfume sublime com a essência das almas que ele capturou, sendo que logo após ele é preso e condenado a morte, e então, num momento muito especial do filme, quando ele no meio da praça, diante do carrasco e da multidão, usa o perfume, e desloca o aroma pelo ar levando todos a um tipo de transe e êxtase, com esse perfume ele desperta o mais puro sentimento e a mais pura e sublime sensação que é o retrato da alma, o amor. E todos os veem como um anjo radiante, como um salvador, um ser iluminado por ele estar cheio de alma, e todos inebriados fazem amor uns com os outros, sem distinção de gênero, raça ou classe social. Apesar do perfume que lhe dava poderes sobre todos os humanos e o tornava como um super-homem, interiormente Jean-Baptiste não se transformou, ele continuou sem alma, e sem sentimentos.

O final do filme é bem interessante, com uma simbologia bem arquetípica e até um pouco complicado de compreender. Jean-Baptiste retorna para Paris, andando sem rumo, meio que instintivamente pela memória olfativa, termina sua jornada no mercado de peixes onde nasceu. Já que ele não podia sentir ou viver o amor, ele concluiu que não valia a pena viver e diante de vários andarilhos despeja todo o frasco de perfume sobre sua cabeça, novamente levando as pessoas ao êxtase somente em vê-lo, e de tão extasiadas vão em sua direção para consumi-lo, como carência e fome de alma, como uma maneira de participar do sublime, como no dogma da Transubstanciação, onde o corpo e sangue de Cristo são consumidos como forma de união, e dessa forma Jean-Baptista desaparece.

Curiosidades: – Considerado um livro impossível de ser filmado, já havia passado pelas mãos de diretores como Stanley Kubrick e Martin Scorcese.

– Perfume era o livro preferido de Kurt Cobain, vocalista da banda Nirvana, e a música “Scentless Apprentice” foi inspirada no livro.

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9 Respostas to “Filme Perfume – A História de um Assassino”

  1. Sem said

    Adi,

    Vim aqui comentar… 🙂 adorei!

    Eu vi o filme e li o livro, 🙂 ambos maravilhosos, partilho do seu entusiasmo… aparentemente é uma história simples, mas singular, de um jovem pobre como tantos outros em uma Paris pré revolução francesa e que nunca ninguém amou, talvez por ele não ter nenhum cheiro pessoal (que vc definiu muito bem como ausência de alma)… em troca ele nunca amou ninguém tampouco, a não ser um cheiro… que algumas jovens ruivas possuíam…

    Em xadrez existe um axioma que diz, acho que até já disse isso aqui, mas vou repetir: “é melhor um plano errado do que plano nenhum”… relembro disso, porque acho que foi isso o que aconteceu com Grenouille…

    É bem interessante, ao passo que muitas pessoas com cheiro e alma passam pela vida sem entusiasmo, sem nenhum brilho duradouro no olhar, o que equivale dizer, sem nenhuma grande meta na vida ou algum plano pessoal que as signifique, Grenouille, mesmo sem cheiro e sem alma, teve esse brilho, e esse entusiasmo direcionado… ele não “passou em brancas nuvens” e nem foi como uma folha ao vento… o que faz sua personalidade ser a mais encantadora da história, mesmo que em dado momento ele se transforme num assassino, talvez, até inclusive por isso…

    E toda a vida de Grenouille pode ser resumida nisso, na descoberta e na busca de transformar em perfume o cheiro das meninas ruivas de 15 anos que o encantava… o perturbador era de que Grenouille justo queria o cheiro, a “essência” dessas moças, não as moças… desafortunadamente para elas, diga-se de passagem, e para quem com elas se importasse, de que tivessem que morrer para a extração do Perfume…

    Claro que a história toda é uma grande metáfora fantasiosa pela busca da alma, pelo perfume da vida… uma história de inesgotáveis interpretações…

    Essa metáfora do perfume suscita mesmo ao romance, nos lembra da alma e da poesia… mas eu pessoalmente tenho lá as minhas desconfianças e explico… é que o meu pai tinha uma fábrica de perfumes… 🙂 digo fábrica de perfumes, mas eram mais produtos para cabeleireiras e barbeiros, na época que ainda existiam os barbeiros, quando os homens costumavam cortar a barba com navalha, antes dos barbeadores elétricos e das lâminas descartáveis, coisa que durou até o final da década de 70, mais ou menos… então, eu cresci vendo esse lado mais prático e comercial dos produtos de beleza e menos o lado romântico…

    Sabia que a gente fica insensível aos cheiros que sente sempre? por exemplo, ninguém na minha família sentia mais o cheiro da fábrica, que era bem evidente a qualquer visitante que chegasse de fora… o meu pai acabou praticamente perdendo o seu olfato, lembro dele cheirando direto nos vidros das essências, diretamente do gargalo com uma grande aspiração, o que para qualquer pessoa com olfato normal chega a ser doloroso… bem diferente da imagem que o filme sugere, não é? de lenços de seda volatilizando suaves fragrâncias no ar… rs esse é papel do filme, nos encantar, nos tirar do chão… mas voltando pro chão, um dado curioso, a respeito do qual não sei o que pensar, é que o meu filho tb, tem pouco olfato, no entanto ele nem chegou a conhecer a fábrica – qd ele nasceu, ela não mais existia…

    Bom, pra resumir, na vida real até hoje sempre que compro um perfume, um creme, um shampoo, eu leio no rótulo os componentes da fórmula, neles eu acredito e não na descrição do produto, que é sempre um texto romanceado e mais direcionado a propagandear uma fantasia de benefício, tantas vezes ilusória… às vezes nem aos componentes da fórmula podemos acreditar 100%…

    Mas a sua crítica está 100% perfeita! e esse filme é uma sugestão maravilhosa a quem ainda não viu, e boa lembrança aos que viram, rever…

  2. adi said

    Sem, obrigada por ter gostado e pelo comentário.

    Se vê, o filme é antigo até, e eu não conhecia, realmente muito bom. Acho que gostei justamente por se tratar da “alma”, tratar um pouco do significado disso, inclusive como seria uma pessoa sem alma, ou com muita alma, e claro, porque alma sempre nos induz ao amor, mas não é só isso, claro. Alma pra mim é a expressão dos 5 sentidos atuando juntos como meio de conexão com o mundo, e dessa forma podemos conhecer e sermos conhecidos. Mas alma também é o que dá significado pra vida, e torna ela muito mais profunda e lhe confere sentido de que vale a pena estarmos aqui

    E de fato, mesmo sem alma, Grenouille foi alguém de extremo objetivo, como uma missão de vida (coisa de alma) e mesmo em toda a sua dificuldade, ele realizou seu objetivo, apesar de não sentir amor ele tinha uma enorme motivação.

    Dizem que o livro é muito melhor que o filme, mas de fato, o filme não perdeu muito e consegue cativar bastante.

    Muito interessante você ter um pouco dessa história dos perfumes em sua família, que bacana isso. Eu me lembro bem dessa época das barbearias, acho que teve até o começo dos anos 80, e acho que ainda restaram umas poucas. O bom é que vcs tinham acesso muito fácil a todos esses produtos, e tem um conhecimento profundo dessa linha de produtos, e bem mais fácil não cair em ciladas do mercado propagandista. 🙂

    Agora sobre essa insensibilidade aos cheiros, é verdade. Tem dias que a gente está meio sem olfato e parece até que a gente perde também o sabor/paladar. Por ex., só uma analogia, eu perdi um pouco a sensibilidade por pimenta, eu sinto o ardor, mas o que seria intolerante pra determinadas pessoas, pra mim é normal até. Também dizem o mesmo sobre a dose do perfume que usamos, como já não sentimos o aroma porque nos acostumamos ao usarmos diariamente, aumentamos a dose, algumas vezes chegando até a incomodar quem está próximo, rs.

    Ah!! obrigado pelo “sua crítica está 100% perfeita”, vc é sempre muito generosa em seus comentários. 😉

  3. foi um dos melhores filmes que ja assisti , uma historia perfeita…

  4. adi said

    Olá Jurema, seja bem vinda aqui.

    Concordo com você, um dos melhores pra mim também. 🙂

  5. rsls said

    Sou fã d nirvana e até ontem, qdo assisti Perfume, ñ sabia ond Kobain teria se inspirado para compor “scentless”, pois ñ conhecia a obra d Süskind. Dai, por acaso (+ por ser apreciador d drama/supense), vi o filme e eureka! A composiçao vertiginosa d Kobain casou com a quase q palpável adaptaçao d Tykwer (repetiu a genialidad d Corra Lola, corra!). Sobre o final do film, acrescento q ha uma critica à hipocrisia da sociedad, capaz d condenar e aclamar com a volatidad d um perfume.

  6. adi said

    Oi Rsls, bem vindo ao Anoitan,

    Achei Tykwer de uma sensibilidade ao dirigir esse filme.

    Sobre o final, muito bem colocado por você sobre a critica à hipocrisia da sociedade e muito obrigado por contribuir com seu comentário. 🙂

    Abs

  7. Gabi said

    Eu quase chorei no final. Apesar dele ter matado, sei lá, eu fiquei triste por ele. Esse foi o único sentimento após ver o fim: pena. 😦

  8. adi said

    Olá Gabi,

    De fato é um “vilão” que cativa… também senti pena!.

    Obrigada pelo comentário. 😉

    adi

  9. maria jose berti said

    Mostra-me os costumes da comunidade francesa que muito se parece com os dias de hoje nas sociedades capitalistas como a nossa.
    O descaso das mães com as crianças, a falta de entendimento da importância da educação infantil DADA PELOS PAIS,
    A ambição das pessoas. O aproveitamento das dificuldades dos mais pobres em beneficio próprio com uso e abuso dessa forca de trabalho.
    O desrespeito dos governantes, clero e elite para com seus subalternos.
    Sim tivemos avanços nas ciências e tecnologias. Não evolução no pensamento das pessoas comuns. Querem o “pão e circo”, não refletem sobre a possibilidade de evolução, isto é, que existem meios de divertimento e alegria além desses costumes que cultivam de maneira exagerada estrelas da mídia, o futebol, o carnaval, etc.
    Então o que há para “divertir” além do que o “povão” tem nos dias de hoje?
    O aprendizado, a pesquisa cientifica, as artes, a música, a medicina, a biologia, ou seja, tudo que envolve a intelectualidade.
    Diz-se comumente que por dentro da pele não se sabe a origem de uma pessoa. Assim somos iguais e a capacidade intelectual, também é igual.
    Sim todos nós somos gênios, todos nós temos capacidade intelectual alta. Tais capacidades não são aproveitadas!!!!!
    O filme nos mostra seres humanos maltrapilhos, supersticiosos, com baixo nível intelectual. Seres humanos que não sabem aproveitar seu potencial porque não há pré-requisito para tal, tudo que se lhes oferece é renegado.
    Então o que se pode fazer para que as pessoas de hoje, em todos os lugares do mundo, que são os mesmos do filme tenham uma vida ótima?
    Darmos atenção ao aspecto mais importante do inicio da vida de um ser humano: os pais. Para tanto recomendo: CURSOS DE FORMACAO DE PAIS EM TODAS AS ESCOLAS, IGREJAS, ASSOCIACOES, EMPRESAS, ETC. A partir dos 15 anos.
    Os pais precisam tomar conhecimento do que há de mais atual na psicologia e ciências afins, de maneira didática para se aplicar na pratica.
    Teremos assim pessoas conscientes da importância de educar bem uma criança e tudo que a envolve.
    Teremos jovens que agirão com cuidado na sua sexualidade, que toda relação sexual é passível de engravidar.
    O nosso mundo tornar-se-á o PARAISO NA TERRA.
    SIMPLES ASSIM. Cursos de formação de pais é a solução.

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