Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Alquimia Esotérica Chinesa

Posted by adi em outubro 17, 2012

É uma raridade encontrar textos sobre alquimia chinesa na internet, raridade maior ainda é encontrar bons textos como esse aqui de uns dos maiores mitólogos, historiadores e filósofos das religiões, Mircea Elíade. Apesar de textos sobre alquimia usarem de uma linguagem simbólica e de difícil compreensão, o texto em questão é como uma pérola trazendo muita clareza sobre o trabalho interno de desenvolvimento espiritual, simplesmente imperdível a leitura.

” Até estes últimos anos, os cientistas europeus consideravam a “alquimia externa” ou iatroquímica (wai-tan) como sendo “exotérica”, e a “alquimia interna” ou da ioga (nei-tan) como “esotérica”. Se essa dicotomia é verdadeira na opinião de certos autores tardios (cf. p. 94), na origem o wai-tan “era tão esotérico quanto a sua réplica ioga” (Sivin, p. 15, nota 18). Efetivamente, como acabamos de ver, Sun Ssu-mo, ilustre representante da “alquimia externa”, situa-se por inteiro na tradição esotérica taoísta.

O alquimista transforma em coisa sua a homologação tradicional entre o microcosmo e o macrocosmo, tão familiar ao pensamento chinês. O quinteto universal, wu-hsing (água, fogo, madeira, ouro, terra) é assimilado aos órgãos do corpo humano: o coração à essência do fogo, o fígado à essência da madeira, os pulmões à essência do metal, os rins à essência da água, o estômago à essência da terra (textos em Johnson, p. 102). O microcosmo que é o corpo humano acha-se por sua vez interpretado em termos alquímicos. “O fogo do coração é vermelho como o cinábrio e a água dos rins é negra como o chumbo”, escreve um biógrafo do famoso alquimista Lii Teu (século VIII A.D.).[11] Homologado ao macrocosmo, o homem possui, no seu próprio corpo, todos os elementos que constituem o Cosmo e todas as forças vitais que asseguram a sua renovação periódica. Trata-se apenas de reforçar certas essências. Daí a importância do cinábrio, que se deve menos à sua cor vermelha (cor do sangue, princípio vital) do que ao fato de que, exposto ao fogo, produz o mercúrio. Ele encerra, portanto, o mistério da regeneração pela morte (pois a combustão simboliza a morte). Disso resulta que ele pode assegurar a regeneração perpétua do corpo humano, e, conseqüentemente, a imortalidade.

Pao P’u-tzu escreve que, se misturarmos três libras de cinábrio com uma libra de mel e pusermos tudo para secar ao sol a fim de, em seguida, fazermos da mistura pílulas do tamanho de um grão de cânhamo, dez dessas pílulas tomadas durante um ano restituirão a cor negra aos cabelos brancos e farão com que os dentes caídos tornem a crescer. Se continuarmos a ingeri-Ias por período superior a um ano, alcançaremos a imortalidade (texto em Johnson, p. 63; cf. Ware, The Nei P’ien, pp. 74 s.).

A coletânea de biografias lendárias dos Imortais taoístas, Lie-sien Tchuan – atribuída a Lieu Hiang (77-6 a.C.), mas certamente reescrita no primeiro século de nossa era – é um dos mais antigos textos que mencionam o cinábrio como droga de longevidade. “No tempo dos primeiros Han, os alquimistas serviam-se do cinábrio para obter ouro (o qual já não se consumia, mas era ainda transformado em baixeIa mágica: etapa intermediária). Contudo, desde os primeiros séculos da nossa era, acreditava-se que a absorção do cinábrio podia avermelhar todo o corpo.” (Max Kaltenmark”Le Lie-sien Tchuan, pp. 18-19.) Segundo o Lie-sien Tchuan, um governador “absorveu cinábrio durante três anos e veio a obter a neve sutil do divino cinábrio. Depois de tê-lo consumido durante cinco anos, foi capaz de deslocar-se voando” (KaItenmark, pp. 146-147). Tch’e-fu “sabia produzir mercúrio e purificar: o cinábrio, que ele absorvia com salitre: depois de trinta anos (desse regime), tomara-se semelhante a um adolescente, e os seus pêlos e cabelos estavam completamente rubros” (ibid., p. 271).

Mas o cinábrio também pode ser criado no interior do corpo humano, através sobretudo da destilação do esperma. “O taoísta, imitando os animais e os vegetais, põe-se de cabeça para baixo, fazendo com que a essência do seu esperma tome a subir para o cérebro”.[12] Os tan-t’ien, os célebres “campos de cinábrio”, encontram-se nas partes mais secretas do cérebro e do ventre: é neles que se prepara alquimicamente o embrião da imortalidade. Esses “campos de cinábrio” são também chamados de K’uen-luen. O K’uen-luen é ao mesmo tempo uma Montanha do mar do Ocidente, morada dos Imortais, e uma região secreta do cérebro, que compreende um “aposento semelhante a uma gruta” (tong-fang, termo que designa ainda o quarto nupcial) e o “nirvana” (ni-wan). “A fim de que nele se possa penetrar pela meditação mística, entra-se num estado ‘caótico’ (chuen) semelhante ao estado primordial, paradisíaco, “inconsciente do mundo incriado”. (R. Stein, op. cit., p. 54.)

Há, sobretudo, dois elementos que merecem a nossa atenção: 1) a homologação da Montanha mítica K’uen-Luen às regiões secretas do cérebro e do ventre; 2) o papel atribuído ao estado “caótico”, que, uma vez realizado pela meditação, permite o ingresso nas regiões secretas dos “campos de cinábrio”, tomando assim possível a preparação alquímica do embrião da imortalidade. A identificação da Montanha mítica K’uen-luen com uma parte do corpo humano confirma o que já sublinhamos diversas vezes: o alquimista taoísta assume e prolonga uma tradição imemorial, que comporta receitas de longevidade e técnicas de fisiologia mística. Efetivamente, a Montanha do mar do Ocidente, morada dos Imortais, é uma imagem tradicional e muito antiga do “Mundo em ponto pequeno”, de um Universo em miniatura. A Montanha K ‘uen-luen possui dois andares, formados por um cone reto sobre o qual se ergue um cone invertido,[13] tal como o forno do alquimista.

Mas também a cabaça se compõe de duas esferas superpostas; ora, a cabaça representa o Cosmo em miniatura e desempenha um papel considerável na ideologia e no folclore taoístas. Nesse microcosmo em forma de cuia reside a fonte da Vida e da Juventude. O tema do Universo em forma de cabaça é incontestavelmente antigo.[14] É, portanto, significativo que um texto alquímico proclame: “Aquele que cultiva o cinábrio (isto é, a pílula da imortalidade) toma por modelo o Céu e representa a Terra. Procura-os voltando-se para si mesmo e descobre então que existe no seu próprio corpo, de maneira espontânea, um Céu em forma de Cuia”.[15] Na verdade, quando o alquimista alcança o estado “caótico” de inconsciência, ingressa “na morada mais secreta do ser, num espaço de uma polegada de forma quadrada e redonda” (R. Stein, p. 59). Por outro lado, esse espaço interior possui a forma de uma cuia.

Quanto ao estado “caótico” obtido pela meditação e indispensável à operação alquímica, muitos são os motivos por que interessa à nossa investigação. O primeiro deles é a semelhança entre esse estado “inconsciente” (comparável ao do embrião ou do ovo) e a matéria prima, a massa confusa da alquimia ocidental, em que vamos insistir mais adiante (pp. 118 s.). A matéria prima não deve ser compreendida unicamente como uma situação primordial da substância, mas também como uma experiência interior do alquimista. A redução da matéria à sua condição primeira de absoluta indiferenciação corresponde, no plano da experiência interior, à regressão ao estágio pré-natal, embrionário. O tema do rejuvenescimento e da longevidade pelo regressus ad uterum constitui um Leitmotiv do taoísmo. O método mais empregado é a “respiração embrionária” (t’ai-si). Mas o alquimista alcança também essa volta ao estágio embrionário através da fusão dos ingredientes no seu forno. Um texto do moderno taoísmo sincretista exprime-se nestes termos: “Eis por que o (Buda) Ju-lai (= Tathâgata), em sua grande misericórdia, revelou o método do trabalho (alquímico) do Fogo e ensinou os homens a penetrar de novo no útero para refazerem a sua natureza (verdadeira) e (a plenitude do) seu quinhão de vida” (citado por R. Stein, p. 97).

Acrescentemos que essa “volta ao útero”, exaltada tanto pelos autores taoístas quanto pelos alquimistas ocidentais (pp. 119 s.) nada mais é do que o desenvolvimento de uma concepção mais antiga e difundida, já atestada em níveis arcaicos de cultura: a cura obtida através de um retomo simbólico às origens do Mundo, ou seja, pela reatualização da cosmogonia.[16] Muitas terapias arcaicas comportam uma reiteração ritual da Criação do Mundo, que permite ao doente nascer de novo e assim recomeçar a existência com uma reserva intacta de forças vitais. Os taoístas e os alquimistas chineses retomaram e aperfeiçoaram esse método tradicional: em vez de reservá-lo para a cura de diversas doenças particulares, aplicaram-no antes de tudo para curar o homem do desgaste provocado pelo Tempo, vale dizer, da velhice e da morte.

A partir de determinada época, a alquimia externa (wai-tan) passa a ser considerada “exotérica” e opõe-se à alquimia interna de tipo ioga (nei-tan), que, só ela, é declarada “esotérica”. A nei-tan toma-se esotérica porque o elixir é preparado no próprio corpo do alquimista, por métodos de fisiologia mística, e sem o auxilio de substâncias vegetais ou minerais. Pêng Hsiao, que viveu no fim do século IX e na primeira metade do século X, faz no seu comentário sobre o tratado Ts ‘an T’ung Ch ‘i uma distinção clara entre a alquimia exotérica, que se ocupa de substâncias concretas, e a alquimia esotérica, que só utiliza as “almas” dessas substâncias (Waley, op. cit., p. 15). A distinção tinha sido feita muito tempo antes por Hui-ssu (515-577 A.D.). A alquimia “esotérica” está claramente exposta no Tratado sobre o Dragão e o Tigre, de Su Tung-P’o, escrito em 1110 A.D. Os metais “puros”, transcendentais, são identificados com as diversas partes do corpo, e os processos alquímicos, em vez de serem realizados em laboratório, desenrolam-se no corpo e na consciência do experimentador. Su Tung-P’o diz: “O dragão é o mercúrio. É sêmen e sangue. Vem do rim e se conserva no fígado […]. O tigre é o chumbo. e sopro e força corporal. Sai do espírito e é conservado pelos pulmões […]. Quando o espírito morre, o sopro e a força agem ao mesmo tempo que ele. Quando os rins se enchem, o sêmen e o sangue fluem simultaneamente com eles”.[17]

A conversão da alquimia em técnica ascética e contemplativa alcança a sua plenitude no século XIII, quando se desenvolvem as escolas zen. O principal representante da alquimia taoísta-zen é Ko Ch’ang-Kêng, também conhecido como Po Yü-chuan. Eis como ele define os três métodos da alquimia esotérica (Waley, Notes, pp. 16 s.): no primeiro, o corpo executa o papel do elemento chumbo, e o coração o do elemento mercúrio; a “meditação” (dhyâna) fornece o líquido necessário (à operação alquímica), e as centelhas da inteligência, o fogo necessário. Ko Ch’ang-Kêng acrescenta: “Por esse método, uma gestação que exige habitualmente dez meses pode consumar-se num piscar de olhos”. São palavras reveladoras; como observa Waley, o alquimista chinês pensa que o processo pelo qual se gera uma criança é capaz de produzir a Pedra Filosofal. A analogia entre o parto e a fabricação da Pedra está explícita nos escritos dos alquimistas ocidentais (diz-se, por exemplo, que o fogo deve arder continuamente sob o recipiente durante quarenta semanas, espaço de tempo necessário à gestação do embrião humano).

O método preconizado por Ko Ch’ang-Kêng assinala o encontro de diversas concepções tradicionais, algumas das quais de grande Antigüidade: há, antes de tudo, a homologação de minerais e de metais aos organismos que “crescem” na Terra como um embrião no seio materno; há, em seguida, a idéia de que o Elixir (= a Pedra Filosofal) participa ao mesmo tempo da natureza de um metal e da natureza de um embrião; finalmente, a idéia de que os respectivos processos de crescimento (do metal e do embrião) podem ser acelerados de maneira prodigiosa, efetivando dessa forma a maturidade e perfeição não só no nível mineral da existência (isto é, produzindo o Ouro), mas também, e sobretudo, no nível humano, produzindo o Elixir da imortalidade, porque, como vimos, graças à homologia microcosmo-macrocosmo, os dois níveis – mineral e humano – se correspondem. Uma vez que os processos alquímicos se desenvolvem no próprio corpo do adepto, a “perfectibilidade” e a transmutação dos metais correspondem, na realidade, à perfeição e à transmutação do homem. Essa aplicação prática da alquimia esotérica estava aliás subentendida no sistema tradicional chinês de homologação Homem-Universo: ao se trabalhar sobre determinado nível, obtinham-se resultados em todos os níveis correspondentes.

Os outros dois métodos da alquimia esotérica recomendados por Ko Ch’ang-Kêng representam variantes de um processo análogo. Se, no primeiro método, o corpo era assimilado ao chumbo e o coração ao mercúrio, e os principais elementos alquímicos eram despertados e ativados aos níveis físico e anatômico do ser humano, no segundo eles o são aos níveis fisiológico e psíquico: na verdade, o sopro é que agora ocupa o lugar do elemento chumbo e a alma o do elemento mercúrio.

O que equivale a dizer que a obra alquímica se opera trabalhando sobre a respiração e os estados psíquicos, praticando, portanto, uma espécie de ioga (retenção da respiração, controle e imobilização do fluxo psicomental). Finalmente, no terceiro método, o esperma corresponde ao elemento chumbo e o sangue ao elemento mercúrio, enquanto os rins ocupam o lugar do elemento água e o espírito o do elemento fogo.
Como não reconhecer nesses últimos métodos da alquimia esotérica chinesa certas semelhanças notáveis com as técnicas indianas ioga-tântricas? Ko Ch’ang, aliás, o reconhece implicitamente: “Se nos objetam que esse método é exatamente o dos budistas zen, respondemos que, sob o Céu, não há dois Caminhos e que os Sábios são sempre do mesmo Coração” (Waley, p. 16). Pode-se suspeitar que sobretudo o elemento sexual seja de origem indiana. Acrescentemos que a osmose entre os métodos alquímicos e as técnicas ioga-tântricas (que compreendem tanto a retenção da respiração como a “imobilidade do sêmen”) efetuou-se nas duas direções: enquanto os alquimistas chineses vão buscar métodos específicos às escolas taoístas de matiz tântrico, estas últimas utilizam por seu turno o simbolismo alquímico (assimilando, por exemplo, a mulher ao crisol dos alquimistas etc.).[18]

Quanto às técnicas de ritimização que levam à retenção respiratória, já faziam parte da disciplina do alquimista chinês há muitos séculos. Pao P’u-tzu escreve que o rejuvenescimento é obtido quando se consegue prender a respiração por um tempo correspondente a mil batimentos cardíacos: “Se um velho alcançar esse estágio, transformar-se-á num jovem”.[19] Sob a influência indiana, certas seitas neotaoístas, tal como as tântricas da “mão esquerda”, consideravam a retenção da respiração como um meio de imobilizar o sêmen e o fluxo psicomental; para os chineses, a retenção simultânea da respiração e do sêmen assegurava a longevidade.[20] Mas como Lao-tsé e Tchuang-tsé já conheciam a “respiração metódica”, e como a “respiração embrionária” é exaltada por outros autores taoístas,[21] temos o direito de concluir pela autoctonia das técnicas respiratórias: derivavam, tal como tantas outras técnicas espirituais chinesas, da tradição proto-histórica a que antes aludimos, e que comportava, entre outras coisas, receitas e exercícios que tinham por objetivo alcançar a perfeita espontaneidade e beatitude vital. A finalidade da “respiração embrionária” era imitar a respiração do feto no ventre materno. “Ao voltar à base, ao retomar à origem, expulsa-se a velhice e retoma-se ao estado de feto”, lê-se no prefácio ao T’ai-si K’eu Kiue (“Fórmulas Orais da Respiração Embrionária”).[22] Ora, essa “volta à origem”, o alquimista procurava alcançá-la, conforme acabamos de ver, também por outros meios.”

Fonte: blog China Imperial

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3 Respostas to “Alquimia Esotérica Chinesa”

  1. A busca pela imortalidade sempre foi e sempre será questionada ,pensada ,repensada e arquitetada…….! só vai demorar um pouquinho enquanto o homem descobre a sua verdadeira inteligência e segurança..Sol ,lua se misturam e se fundem..!

  2. e ainda precisa de resposta ,assim como tudo evolui ,o ser humano também está em constante evolução …e o corpo também ,ou seja a matéria..

  3. adi said

    Olá Renata, seja bem vinda aqui na casa. 🙂

    Pois é isso mesmo. E em nossos dias, nós vemos essa busca desesperada em manter a eterna juventude. Nunca corpos foram tão cultuados, e a aparência jovial tão valorizada. Mas as pessoas continuam tentando suprir essa necessidade por fora e exteriormente, como aparência mesmo, por isso academias lotadas e os cirurgiões plásticos tão ocupados. Só que ainda não perceberam que o elixir da juventude, num sentido simbólico, mas efetivo e de real de transformação é cultivado interiormente e é espiritual.

    abs

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