Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

A Arte de Viver a Vida

Posted by Sem em outubro 10, 2012

Fui durante os meus anos de formação em Pedagogia uma leitora contumaz de Pierre Weil, psicólogo de origem francesa e “naturalizado” brasileiro, um dos fundadores da Unipaz, e a quem devo parte do meu entendimento do ser humano.

E será talvez impossível a qualquer pessoa mesmo entender a Psicologia Transpessoal sem passar por Pierre Weil…

Entre os seus livros mais conhecidos, certamente estará o popular e divertido O Corpo Fala, com a divisão da psique e corpo humanos em três animais: o boi, o leão e a águia. Complementada pela figura da cobra energética, a compor a esfinge viva que somos… É um livro ímpar, sob muitos aspectos, primeiro pelo humor inusitado em assunto “sério”, e depois pela síntese feliz, só possível àqueles que dominam o conhecimento que abordam. Embora fácil de ler, trata-se em verdade de conteúdo complexo da Psicologia Transpessoal, abordado de forma acessível… Recomendo vivamente a sua leitura, a todo aquele que ainda não o leu. Ainda mais com a facilidade dos ebooks, disponível para baixar no próprio site do autor, junto a outras de suas publicações esgotadas:

http://www.pierreweil.pro.br/Livros.htm

 

Aqui uma versão PDF para ler online:

http://bvespirita.com/O%20Corpo%20Fala%20(Ricardo%20Serravalle%20Guimar%C3%A3es).pdf

 

Depois, vejam só, é uma sincronicidade, para pegar o link do livro, acabei de descobrir na Wikipédia de que hoje completa 4 anos da morte de Pierre Weil – 10 de outubro de 2008, em Brasília. Fica aqui essa justa lembrança e homenagem a esse outro grande da Psicologia.

Qual a razão deste meu interesse renovado em Pierre Weil agora? O caso é que comecei a ler essa semana um livro seu inédito, que ainda não tinha lido, encantador no seu todo, mas que talvez contenha também alguns daqueles lugares comuns e hierarquias próprias da abordagem transpessoal. Um trabalho tardio de Pierre Weil, e que junto a outros de seus trabalhos mais emblemáticos, forma um esquema sintético em sua longeva e extensa obra. Trago aqui um pequeno trecho desse livro, A Arte de Viver a Vida, para a apreciação dos leitores do Anoitan. Acostumados que estão com termos da cabala hermética e dos 7 chakras, creio não terão maiores dificuldade em fazer suas análises, de onde se encontram nos patamares do autoconhecimento propostos por Pierre Weil.

 

Esta história eu a contava há 40 anos nos meios empresariais de recursos humanos do mundo capitalista, onde era bastante conhecida, e era usada para ajudar a resolver o problema da falta de motivação para o trabalho, que os marxistas atribuíam ao sistema capitalista. Um dia, por surpresa minha, encontro a mesma história no livro de Gorbachev, Perestrójka, para mostrar que o regime marxista soviético estava desmoronando por falta de valores espirituais nos trabalhadores da União Soviética. O livro tinha sido escrito antes da queda do Muro de Berlim, queda que ele mesmo provocou. Eis a história:

Era uma vez um muro em construção por dois pedreiros. Os dois operários tinham começado a construção do muro na mesma hora do mesmo dia. Só que o muro de um deles estava ainda baixinho, enquanto o muro do outro já estava tão alto que o pedreiro estava no último degrau de uma escada. O primeiro pedreiro, o do muro insipiente, estava com ar desanimado, com evidente má-vontade e olho de peixe morto, igual àquele funcionário público que estava sentado numa cadeira sem fazer nada. Um amigo dele, cheio de energia, perguntou: “Você não está fazendo nada?” “Não!”, respondeu o funcionário. “E você está assim o dia inteiro?” “Estou sim!” “Mas você não está às vezes sentindo vontade de fazer alguma coisa?”, perguntou o amigo. O funcionário pensou profundamente e respondeu: “É mesmo, às vezes eu sinto uma vontade assim… Mas eu reajo”.

Voltando à nossa história: o outro pedreiro estava com ar feliz e cantando quase sem parar. Um psicólogo que estava passando por ali ficou intrigado com a diferença entre os dois muros e com o comportamento dos dois pedreiros. E com a mania de entrevistar as pessoas, caravterística de muitos psicólogos, perguntou ao primeiro: “O que você está fazendo aqui?” “Uai, não ta vendo? Estou construindo um muro, colocando um tijolo em cima do outro!” “E porque está fazendo isto?” O pedreiro respondeu: “Para ganhar o meu dinheiro, uai!” O psicólogo então se dirigiu para o outro pedreiro: “E você, o que está fazendo?” O pedreiro parou de cantar, abriu um enorme sorriso e, com ar de felicidade máxima, exclamou: “Eu estou construindo uma catedral”.

E você, de que lado se sente? Ao lado do primeiro ou do segundo pedreiro?

Para responder de modo mais preciso a essa pergunta, é necessário conhecer melhor as necessidades humanas, para poder identificar quais são as que motivam você para o seu trabalho e em que degrau.

Inspirado nos chakras, ofereço a você, para identificar onde você se situa, uma classificação das principais necessidades humanas.

LISTA DAS NECESSIDADES HUMANAS

1. SEGURANÇA – Alimentação, abrigo, defesa ou proteção contra agressões ou violência, proteção contra intempéries da natureza externa.

2. PRAZER – Sensualidade, prazer sexual, prazer de comer e beber, prazeres e alegrias da vida em geral. Gosto pelo conforto.

 3. PODER – Ser admirado, sentir-se importante, sentir-se aceito e respeitado pelos outros.

 4. AMOR – Servir aos outros. Sentir-se útil. Altruísmo. Gostar de ajudar, compartilhar. Ternura. Querer bem. Viver em harmonia. Empatia. Ouvir os outros. Aliviar o sofrimento dos outros, tratar da saúde dos outros. Curar os outros.

 5. INSPIRAÇÃO – Criar, escrever poemas, inventar, fazer planos e projetos, pintar, decorar, modelar, esculpir, desenvolver atividades ligadas a estética, arte e beleza.

 6. CONHECIMENTO – Procurar a verdade, aprender, estudar, pensar, raciocinar. Descobrir, analisar, sintetizar, intuir.

 7. TRANSCENDÊNCIA ou TRANSPESSOALIDADE – Procurar a perfeição, religiosidade, santidade, espiritualidade, vida mística, evolução, abertura, entrega, o divino e o sagrado.

Agora você está em condições de descobrir quais as necessidades mais importantes de sua vida atual e quais as que são atendidas por meio do seu trabalho. Vamos começar por você mesmo.

 

E eu gostaria de concluir com algumas ressalvas ou reflexões…

Um ser humano, qualquer ser humano, é sempre maior que a leitura que porventura venha a lhe fazer alguém. Mesmo que esse alguém seja ele próprio em auto-avaliação. Isso porque todas as leituras são de natureza parcial e tem mais a ver com o leitor e o seu tempo do que com o “autor”, quer dizer, dizem mais a respeito de como se encontra a personalidade de quem interpreta do que propriamente ao ser na sua integralidade…

Assim, se essa regra for válida, ela será válida a todos. Tanto a nós em autocrítica, quanto a nós em relação aos outros e vice-versa. Válida tanto para o traficante quanto para um juiz do Supremo Tribunal Federal, válida para Jesus, para Aleister Crowley ou Karl Marx… E cito Marx porque aqui ele até é mencionado de viés na historinha dos pedreiros de Pierre Weil, e foi mesmo idolatrado como deus por gerações de trabalhadores, alguns pequeno-burgueses e muitos intelectuais de primeira grandeza. Para outros desempenhou o papel do diabo, quando foi então morto por outros tantos intelectuais e burgueses, e até pelo proletariado. O que de forma alguma parece ter encerrado a sua história, pois agora mesmo ele “ressuscita” em alguns meios acadêmicos. Tudo porque estão lhe fazendo “outra leitura”, dele e do sistema capitalista…

O que será então a verdade? A verdade é sempre construída e momentânea. Impermanente, para se usar de um termo budista.

A verdade é construída por uma pessoa e comprada por um grupo. Grupo que poderá ampliá-la, reverberá-la a grupos maiores ou encerrá-la num pequeno grupinho… O perigo das verdades que movem multidões é a banalidade e a inconsciência com que elas são tratadas ou vividas pela maioria. Já o perigo da verdade dos grupos menores é se tornarem tão específicas e seletas, que apenas são compreendidas pelos iniciados naquelas especificidades, tendendo inclusive a morrer se não se aliciarem novos adeptos.

Então, toda a verdade, aqui e em qualquer, é construída…

Aqui estou montando a verdade com metáforas, mas, como toda verdade, é uma bomba-relógio… TIC TAC…

São os grupos que igualmente tornam as verdades ou mais estúpidas ou mais inteligentes do que elas foram concebidas pelo “autor original”. Valho-me das aspas, pois na minha concepção de verdade, sem maiúscula e com metáforas, as fronteiras entre quem “cria” e quem “copia”, quem “vende” e quem “compra”, são sempre muito promíscuas. De fato, ninguém sabe exatamente como delimitar essas fronteiras, onde começa ou termina, o que um disse daquilo que o outro escutou. O que  parece existir é uma permeabilidade ampla entre os agentes na hora de se construírem as verdades de consenso num grupo…

A verdade sim é construída, às vezes com sangue, às vezes aliciada pelo dinheiro, às vezes visando um ganho pessoal, mas pode também ser altruísta. Nada disso torna uma verdade mais ou menos verdadeira, apenas, torna-a moral. Afinal, não é possível se falar em verdade sem desembocar na Ética…

Um lado bem interessante do autoconhecimento é avaliar as verdades que vendemos e as que compramos, por isso a auto-avaliação proposta pelo Pierre Weil é oportuna ou sincronística a esse momento, mais ainda se examinarmos as verdades que nos possuem, quer dizer, aquelas que inconscientemente nos movem…

Trabalhar com as verdades submersas é fundamental, numa etapa diria posterior e decisiva do processo de individuação, sem o qual, em não sendo seriamente absorvida, não haverá indivíduo com autonomia para prosseguir… Isso não quer dizer absolutamente ser do contra em tudo, pois, quem apenas nega, sistematicamente, nega o sistema ou o outro, está sendo comandado pelo antagonismo e como tal já perdeu a sua autonomia.

Quer dizer, então, simplesmente, avançar até ser autônomo nas decisões fundamentais de sua vida e consciente de suas verdades. E não é tarefa fácil nem pouca. Melhor dizendo, é tarefa permanente e inesgotável de uma longa vida.

Porque a vida é um fazer constante e nunca ninguém será completamente autônomo, já que temos essas fronteiras promíscuas entre nós e os outros, ou, para usar de outro termo budista, somos interdependentes…

 

 

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Uma resposta to “A Arte de Viver a Vida”

  1. adi said

    Muito bom o texto, bom mesmo. E se a cada vez que “o espírito da Sincronicidade baixar e disser “vá lá Sem”, e você vier…” e nos presentear com excelentes textos como esse, vai valer a pena esperar cada segundo. Oxalá esse espírito sempre se manifeste.

    “São os grupos que igualmente tornam as verdades ou mais estúpidas ou mais inteligentes do que elas foram concebidas pelo “autor original”. Valho-me das aspas, pois na minha concepção de verdade, sem maiúscula e com metáforas, as fronteiras entre quem “cria” e quem “copia”, quem “vende” e quem “compra”, são sempre muito promíscuas”

    É um perigo constante que a gente corre, perigo maior ainda é se confundir tomando as verdades alheias como sua própria, porque nesse caso se compra uma cópia, muitas vezes totalmente distorcida, sem entendimento, é uma grande armadilha e amarra.

    “Porque a vida é um fazer constante e nunca ninguém será completamente autônomo, já que temos essas fronteiras promíscuas entre nós e os outros, ou, para usar de outro termo budista, somos interdependentes…”

    Eu fico tentando imaginar essa dimensão perdida integrada em nós, o atemporal, e como seria nossa percepção de mundo. E cada vez me parece o paradoxo do paradoxo, porque justo, com essa percepção nós já somos livres e autônomos, ao mesmo tempo, que tendo essa percepção aqui agora, mesmo que toda a nossa consciência se expandisse e o mundo se mostrasse real, sem fronteiras, você pudesse sentir o oceano numa gota, de fato, o bodhisattva se voltaria para o mundo e para a vida porque só seremos completamente livres quando todos os forem. Ele se expandiu e teve a percepção do universo planetário, ele ultrapassou o eu e as fronteiras, o sujeito, o observador, aquela consciência expandida, é eu, você, e todas as pessoas, no paradoxo de não sê-las ao mesmo tempo, de não poder viver por elas, vive nelas e não vive porque não pode passar a sua visão, não pode fazer com que o outro veja com seus olhos, mas esse que observa, o agora buda, conhece o universo e ele permanece, é imortal, e contínua eternamente se manifestando como vida, até que a ultima gota desse vasto oceano se torne consciente, somos eu, você, e tudo o mais, eternamente retornando como vida, mudando a forma, nascendo de novo e de novo, até que a ultima gota deste vasto oceano…

    … é perder a ilusão do sair só, a ilusão do voltar para o seio da grande mãe, do nirvana insondável, da paraíso de mel e leite, que ainda continua distante, fora de nós, longe da terra, essa é uma ilusão que nos distancia daquela verdade, que só pode ser descoberta em cada um, que o nirvana é aqui e agora, que quando nos dissolvemos no nada nos tornamos tudo… sei lá, eu fico pensando e meio que sentindo essas coisas, e sou tão boba, a gente dá valor pra coisas tão pequenas… enfim, é o nosso papel nesse mundo e desse fazer e desfazer constante, que se interage e se transforma, está em constante construção e desconstrução…

    Aliás, divino seu poema VIDA E MORTE NOS POEMAS, lá no Sopoesia – pura desconstrução.

    bjs

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