Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Budismo e Psicologia: os seis reinos de renascimento e as disposições da psique na vida presente

Posted by Sem em maio 2, 2012

Eu manisfestei um corpo de sonho

para o benefício de seres de sonho

imersos em sofrimento de sonho;

eu não vim e eu não vou.

Estas foram as últimas palavras atribuidas a Buda antes de morrer. Uma leitura ocidental precipitada destas palavras poderia classificar o budismo como uma religião niilista, mas, para quem mergulhar até o fim nas águas profundas dos ensinamentos de Buda, vai encontrar, justo o contrário, o significado da existência.

Introdução:

Nesse texto se descreverá os seis reinos do renascimento cíclico dos seres, como de modo geral estão descritos na doutrina budista, e, sem se ater a nenhuma escola em específico, seu objetivo será comparar a descrição dos reinos com as disposições da psique – os complexos mentais e emocionais conscientes e inconscientes dos indivíduos, de acordo a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.

Embora o texto não tenha a intenção de ser um ensinamento budista, e nem um tratado de PA, tenciona trazer a sabedoria do budismo para nos auxiliar na compreensão de nossas vidas, de como em nossos relacionamentos dispomos dos nossos estados emocionais interiores e de como eles são determinantes ao próprio modo de nos relacionar – conosco mesmos, inclusive, – produzindo felicidade ou infelicidade a nós e aos outros seres.

Uma última advertência à leitura do texto, se o que se propõe é transpor os reinos do renascimento a uma interpretação psicológica, todos os seis reinos possíveis devem ser entendidos como metafóricos, todos servem como metáforas para a vida presente que temos – a única possível para a existência de uma psique individual –, sem nos referir a uma reencarnação futura ou passada, mas de que já vivemos todas as vidas aqui, agora, e colhemos os frutos imediatamente aqui e agora, de nossa paz ou agonia interior. Assim é que dispomos a nossa psique no mundo, considerando todas as variáveis internas e externas a que estamos sujeitos.

 

 

Os mestres budistas, a partir do próprio Buda Shakyamuni (o buda histórico Sidarta Gautama), parecem ser apaixonados por números, ou, pelo menos, muitos de seus valiosos ensinamentos se dão através de: “as quatro nobres verdades“; “o nobre caminho óctuplo”; “as seis paramitas“; “os três venenos da mente“; “os doze elos da originação dependente“; “os seis reinos de renascimento dos seres“…

O nosso interesse irá concentrar-se agora nos Seis Reinos, que, grosso modo, assim podem ser descritos:

 

 

1. O reino dos infernos: seres que experimentam raiva e ódio constantes; vivem no temor de serem agredidos e mortos pelos outros seres; eles próprios agressores, ferem e matam outros seres.

2. O reino dos seres famintos: seres que sentem fome e sede constantes, e, sempre cobiçando algo que nunca conseguem obter, vivem num sentimento de miséria sem cura.

3. O reino animal: constam deste reino todos os animais, desde os domésticos aos selvagens, todos entretanto incapazes de obedecer outra coisa que não aos próprios instintos; do nascimento a morte, quando não sofrem ao se verem escravizados por outros seres, são dedicados integralmente à subsistência do corpo.

4. O reino humano: os maiores sofrimentos do homem são o nascimento, a doença, a velhice e a morte; isso em meio ao apego, no temor de perder os seres que amam e os bens que possuem, ou de não conseguirem obter o afeto e bens de que necessitam ou julgam necessitar.

5. O reino dos semideuses: são seres guerreiros de poderes extraordinários, contudo, aspiram um dia tornarem-se deuses, de quem invejam as qualidades maiores de perfeição, por isso tramam incessantemente contra estes para alçar até a plenitude dos deuses.

6. O reino dos deuses: seres benfazejos que experimentam todos os níveis de felicidade possível, desde o estado mais sutil de beatitude ao êxtase; são seres extremamente longevos, sem serem contudo imortais, onde o inevitável renascimento em algum reino inferior – pela extinção do carma positivo, é a maior causa de sofrimento.

 

 

O conjunto desses seis reinos forma o samsara budista, que não é o equivalente ao inferno cristão, propriamente, a não ser pela descrição dos seres infernais e famintos.

A essência do samsara é a impermanência,  seus reinos de renascimento são, portanto, todos, de natureza cíclica, de sofrimentos passageiros e de alegrias também passageiras, como podemos observar pelas alegorias clássicas da Roda da Vida.

 

 

A Roda da Vida: a figura assustadora que segura a roda é Maharaja, o Senhor do Destino. Equivalente ao demônio Yama da mitologia hindu, e, no ocidente, com as Deusas Moiras gregas e as Três Parcas romanas.

 

 

Na experiência do samsara tudo é, então, impermanência, mas não apenas as coisas e as pessoas são transitórias, a própria experiência é transitória, entre experimentarmos o mesmo objeto de formas diferentes, conforme dado momento se encontre a nossa disposição interior. Isso tanto é verdade quanto pelo senso comum um copo com água pela metade, do ponto de vista de um olhar otimista, está “quase” cheio, e do olhar pessimista “quase” vazio.

Assim, sensivelmente, o olhar faz parte da experiência e modula a qualidade dos seres que participam daquela experiência. Essa é uma realidade que parece valer a qualquer mundo que possamos conceber, dentro do samsara. Inclusive para a Ciência, que se propõe a ser uma leitura objetiva da realidade, mas é sempre de um ponto de vista – nunca isento de subjetividade – que se observa a realidade, e é da própria observação que se a constrói. Até a nível quântico a importância do observador na definição do observado parece se comprovar, se nos lembrarmos e nos remetermos ao experimento da Física Quântica da onda e partícula. Em nosso mundo mundano, também, podemos pegar qualquer exemplo, como um simples cão, uma raquete comum e uma partida de futebol: para um ser que está nos infernos o cão pode ser treinado para a luta e usado para intimidar e agredir outros seres, a raquete será uma arma, assim como a partida de futebol, e os eventos públicos, em geral, são lugares para o embate contra adversários; no outro extremo, para os deuses, com algum humor, podemos imaginar o cão sendo a companhia de Anúbis e a raquete e o futebol sendo instrumentos e a própria arte de  se mover uma bola.

  • Nessa altura eu pergunto: em que mundo nós vivemos?
  • Ou essa pergunta deveria ser feita menos no coletivo e mais no pessoal: em que mundo você vive?

Seja qual for a sua resposta, uma vida de plenitude existencial, bem vivida, conterá tantos e tão variados acontecimentos que, por si só, são capazes de proporcionar experiências de todos os seis reinos. E é por isso que nós podemos compreender todos os seis reinos, daqui, de onde estamos, sem precisar recordarmos de nenhuma vida passada e de esperar para renascer numa futura. No entanto, será sempre com algum dos reinos que vamos nos identificar e focar como sendo o nosso referente. E será por esse, que tomamos como o nosso referente – não esquecendo da natureza cíclica do samsara –, que vamos filtrar as nossas experiências e dar o nosso colorido idiossincrático para a existência.

  • Nesse sentido, renovo a pergunta: em qual reino ou com quais cores você pinta a sua vida?

Seja qual for a sua resposta definitiva, reflita como todas as cores do samsara são impermanentes…

 

 

Algumas escolas contam cinco reinos, ao invés de seis, consideram que, no reino dos semideuses, parte dele pertence ao dos seres famintos e outra parte aos próprios deuses.

 

 

Os seis reinos parecem sustentar uma escala hierárquica do pior para o melhor, mas, para embaralhar esse aspecto de dualidade, próprio dos seres imersos em samsara, é importante refletir igualmente que, dos seis reinos, o mais propício, ou o único verdadeiramente propício à prática do Dharma (os preceitos budistas), é o reino humano. Visto que nos demais os seres estão tão ocupados com a luta aguerrida pela sobrevivência ou obscurecidos pela ignorância – que o sofrimento e a felicidade extremadas proporcionam, que não dispõem de tempo, vontade ou paz de espírito para a prática espiritual.

A maior lição que o budismo pode nos ensinar a partir dos seus seis reinos de renascimento é de que já os experimentamos todos aqui, em nossas vidas presentes, em nosso mundo e em nossos relacionamentos, da maneira como nós nos construímos mentalmente, em princípio. É em nosso interior que guardamos as chaves de como reagimos aos outros . Carmicamente para o budismo e subjetivamente para a psicologia, não faz diferença, pois é para ambos os saberes de onde, desde dentro, vamos semeando nossa vida futura.

Não é questão de ser otimista sem motivos reais, usando óculos cor-de-rosa para examinar a realidade do mundo, ou de simplificar as nossas relações à questões subjetivas,  reduzindo as tensões sociais que nos discriminam à questão psicológica, mas de enxergar o quanto essa disposição interna em nós é importante na equação do mundo, exatamente do modo como nós temos o mundo, ele é o fruto de como nós o estamos construindo.

 

 

Buda flutua no céu e aponta a lua cheia, o que significa a saída do ciclo de renascimentos e o caminho para a liberação.

 

 

Daí para construir ambientes melhores, precisamos gerar méritos – o bom carma para o budismo, para assim acender a níveis mais elevados. No entanto, por mais benigno que tal atitude possa nos conduzir a encarnar em mundos melhores, o que equivale dizer, construir um ambiente de paz no aqui e agora conturbado, esse “tempo pós-moderno de degenerescência relativista” que vivemos, o objetivo não á atingir o reino dos deuses para descansar sob os louros da vitória. Pois, a essência desses reinos é como foi dito, de que todos eles são de natureza cíclica, e estar dentro deles é estar dentro da Roda da Vida, dentro do mundo samsárico, nem mais, nem menos. O objetivo do budismo é mais profundo, reside além de samsara e da Roda da Vida, e, o que deveria ser o de todos nós, é a liberação desse ciclo. A iluminação budista está então para além destes reinos, no reconhecimento de que a nossa natureza verdadeira é transcendente a tudo o que é impermanente, é a natureza primordial dos budas.

Toda a luta por acender a um nível mais elevado, se não é vã, será, ao longo do tempo, pela própria impermanência. Ainda mais vã é a luta se for exclusivamente para nós que almejamos tal meta, por orgulho ou desejo de um eu que deseja ser glorificado num “eu”, que já pressupõe um ser em separado dos demais, um eu que vive na ignorância da natureza interconectada de todos os seres e, portanto, distante da verdadeira natureza de buda. Tudo o que não for de natureza primordial, sobe para depois cair, e quando cai logo mais levanta, observar esse ciclo com a sabedoria primordial é livrar-se do renascimento em ignorância, o que deveria ser a nossa meta.

 

 

O mantra de seis sílabas do Bodisatva da compaixão: Avalokiteshvara. OM MANI PADME HUM. OM fecha a porta para o sofrimento de renascer no reino dos deuses; MA fecha a porta para o sofrimento de renascer no reino dos semideuses; NI fecha a porta para o sofrimento de renascer no reino humano; PAD fecha a porta para o sofrimento de renascer no reino animal; ME fecha a porta para o sofrimento de renascer no reino dos seres famintos; HUM fecha a porta para o sofrimento de renascer no reino do inferno.

 

 

  • Agora a questão, isso somente seria possível através de meditação, como prega a doutrina budista?
  • E Jesus que nunca meditou e não era budista?
  • E Krishnamurti que meditou sem a técnica e os preceitos budistas?
  • E os sufis que dançam?
  • E se a natureza primordial é o arquétipo vivo, incognoscível para Jung, de onde incessante tudo se irradia, como vamos travar contato com ela, a não ser através de suas representações, como prega a própria teoria dos arquétipos de Jung?

 

Encerro com essas perguntas. São minhas as perguntas e são minhas as dúvidas, profundas e sinceras. Elas – as perguntas – estão no meio do meu caminho e aqui eu as coloco para reverberá-las, na esperança de um dia poder respondê-las, com sinceridade. Não para encontrar respostas definitivas a elas, mas sim novas perguntas, mais profundas do que estas, que brotarão das respostas que puder dar.

Eu não espero por respostas definitivas porque reconheço que a natureza em que estou vivendo é a natureza do samsara, que ilusiona seus mundos fixos, mas, tudo o que o mundo não é, é fixo.

Se alguém me acompanhou até aqui, gostou do que foi dito e entendeu, prometo voltar outra hora, sem tempo marcado, mas voltar para contar uma história, de um homem comum, em nada especial, uma história simples e maravilhosa, que não é minha, é uma das histórias de Buda. Ali ele acena uma resposta de como podemos nos livrar dessa roda – que não é a roda da mandala dos budas –, encontrando a nossa verdadeira natureza livre.

Assim, esse texto vai encerrar-se aqui, com uma promessa e sem nenhuma conclusão, porque estou no meio do meu caminho e não poderia ser de outra forma.

Bem, para não ficar completamente insatisfatório, concluo com uma poesia que fiz na intenção de não ser engolida por Maharaja, pensando nisso tudo, e que foi escrito nesse texto.

Sim. A poesia. O mais próximo da realidade arquetípica que chego tem sido através da poesia, e isso me faz relembrar da advetência do grande poeta gaúcho, mágico e herói das palavras, Mario Quintana, que ao que me consta nunca se iludiu com Maharaja. “Cuidado! A poesia não se entrega a quem a define.”

 

 

 

Bardo Thodol

Eu estou envelhecendo

Eu estou morrendo

Já não tenho paciência para escutar os formuladores de respostas

Sei que todas as suas respostas são falhas, incompletas, falsas

A natureza verdadeira nada explica, simplesmente existe

Verdadeira e plena do seu vazio interior

Vou dedicar os dias que me restam às perguntas

Perguntas que nascem das respostas insuficientes

As próprias perguntas insuficientes

Mas serão perguntas e não respostas

E todo o mundo formulado de explicações será miragem

E tudo será poesia…

 

 

 

O que farei das horas?

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10 Respostas to “Budismo e Psicologia: os seis reinos de renascimento e as disposições da psique na vida presente”

  1. adi said

    Sem,

    Parabéns pelo excelente post, muito profundo, simples e claro, além de muito reflexivo.

    Eu acho que num mesmo dia nós podemos experienciar os 6 reinos como estados de consciência. Nossa mente é muito turbulenta e agitada, e nessa dança da impermanência a mente está sempre se modificando de acordo com o ritmo externo. Ainda somos muito influenciáveis pelo ambiente ao nosso redor e numa dessa é o ambiente quem dita nosso comportamento e não o indivíduo quem imprime ou cria seu próprio ambiente. Sair fora do que nos é imposto não é nada fácil.

    Pois é, essa história de bom carma pra nascer melhor é complicado, né? e acaba todo mundo fingindo muito, se vê muito isso no meio esotérico, todo mundo se intitula de “luz” e não percebe que continua chafurdado na dualidade, numa repressão tremenda e recusa em aceitar e trabalhar o mal carma – que no que creio carma seja bom ou ruim não passa dos próprios condicionamentos – e são esses condicionamentos que nos levam nessa dança samsárica. Concordo plenamente com o post, é através da observação e do reconhecimento que podemos nos desvencilhar desse emaranhado cármico.

    Eu também não tenho respostas, nem as procuro mais como antes, me parece muito melhor ultimamente não ter expectativas sobre as coisas e o mais sensato é tentar viver ou se conscientizar dessa força interior além de nós mesmos.

    Adorei o texto. 🙂

  2. Sem said

    Oi Adi,

    Bom dia! 🙂

    Sabia que vc iria gostar, que esse assunto é tudo…

    Pois é, entre ateus, crentes, intelectuais, ocultistas, espiritualistas, místicos, vegans, fisiculturistas, enfim, não importa muito, humanos consumidores da vida, em geral, realmente pouco importa o que a pessoa compre ou venda de si, a grande maioria da humanidade está imersa, entontecida – e adorando estar entontecida – pelo girar da Roda da Vida, porque entende-se esse girar de samsara como a própria essência da vida. Os “piores”, quer dizer, os que estão “por baixo”, lá pelos reinos infernais, querem a qualquer custo “se dar bem”, e não importa a qual custo ou por qual método, o importante é vencer e isso significa manter a sua cabeça fora da lama, os mais conscientes desse quadro, mas ainda nos infernos, sabem que isso significa pisar na cabeça do outro para se sustentar à tona, num mar de seres gemendo. A chave da saída do inferno é só uma, de repente, amarem alguém – sim, o amor por um filho, um namorado, um amigo, e não precisa ser nenhum amor sublime, e normalmente nem o é, um amor de muito apego mesmo, é o suficiente para não se querer pisar mais na cabeça dessa pessoa que se ama, e por ela se começa a sentir outra coisa, começa-se a navegar em outra paisagem, de “florezinhas no campo”, quem sabe, ou de qualquer imagem que agrade a pessoa – alguns podem achar infernal o campo ter flores. Só que o tempo todo se está em samsara, com as armadilhas de “amor” e de “felicidade” – a roda vais girar… Sustento as aspas em amor e felicidade pq são estados relativos ao quadro mental interior das pessoas, significam coisas diferentes por qual reino se trafega…

    Pois é II. rs
    Sair desse quadro. Só é possível sair tendo a compreensão das paisagens todas, é o único modo de não sermos enganadas mais e novamente pela sucessão de quadros. Pensamos que somos os consumidores dos quadros, quando na verdade são os quadros que nos consomem.

    Tem uma coisa que eu não falei nesse texto, mas que para mim está presente nesse quadro de saída da Roda. O Lama Samten fala disso, num dos seus vídeos, em “Lung” – creio que vc já deve ter ouvido falar, que é do vocabulário dos tibetanos… para quem não sabe, como eu não sabia até então, é uma palavra equivalente a “energia”, e ela é reveladora, tanto qt as “palavras” amor e compaixão – quer dizer, não são as palavras, e sim a sua prática que revelam… bem, o que todas as pessoas que estão na roda (nós) querem é a felicidade, na verdade o que elas realmente querem é o Lung das coisas, querem ter os seus olhos brilhando da energia lung, como diz o Lama Samten, e isso é a felicidade, realmente. É o que entendemos como o brilho da alma, todos intuem isso como a felicidade: querem, cobiçam, invejam, temem, tramam, ou, praticam para obter lung, para ter esse brilho, cada um “no seu quadrado”, os seres famintos gemem no seu quadrado a sua falta de lung, e assim por diante…

    Para quem só vê a roda girando, entende-se que essa energia – o lung – vem do seu girar. Mas, para Buda que sob a figueira iluminou-se inteiramente de lung, compreendeu que o brilho não vem do girar da roda, e nem vem de si ou a si lhe pertence, vem da natureza primordial – é da energia do arquétipo puro que estamos aqui falando…

    Ai, Adi, falando tudo do mesmo. rs

    Lung é a fonte de toda a inspiração, todas as obras de arte imortais estão impregnadas delas, senão, não seriam imortais, e todas as religiões falam dessa energia… ela não é de ninguém, não pertence a nenhuma pessoa, e é de todos, ela está aí, para quem a quiser tomar… pegue. 🙂

    Falar é fácil, ou não…
    Meditar pode ser muito difícil, ou não…
    Fazer é ainda mais difícil, ou não…

    A gente vai aqui tentando compreender pelas beiradas, pq se medita e fala e faz para compreender a natureza da vida – e só a compreendemos qd podemos ter uma visão global do panorama da “Roda da Vida”, quando descobrimos que a vida verdadeira está é por trás disso tudo.

  3. adi said

    Sem,

    “a grande maioria da humanidade está imersa, entontecida – e adorando estar entontecida”

    Porque ninguém consegue ver além do próprio umbigo, é estar totalmente longe do eixo da roda, e quanto mais longe menor a noção da conectividade da vida como um todo, é estar no inferno descrito por vc onde todo mundo pisa na cabeça do outro.

    “Sair desse quadro. Só é possível sair tendo a compreensão das paisagens todas, é o único modo de não sermos enganadas mais e novamente pela sucessão de quadros. Pensamos que somos os consumidores dos quadros, quando na verdade são os quadros que nos consomem.”

    Eu ando meio estranha ultimamente, não é que tenha perdido a fé ou a crença e, ao mesmo tempo, como se há muito não a tivesse mais comigo, mas num sentido diferente, talvez seja uma desrealização mesmo com a vida e também com as pessoas. Eu acredito ou sinto que faz sentido as coisas que já li dos vários entendidos que trouxemos aqui, e das coisas que escrevemos e comentamos aqui no Anoitan, só que… ultimamente parece que não faz tanto sentido pra mim tentar “explicar” ou juntar peças como eu fazia antes nos posts que escrevia. Acho que por isso ando sem inspiração pra escrever. Estou bem em Malkuth, aterrada, percebendo os vários tons e nuances do “mundo dos sonhos” – como o Budismo descreve e plano astral em outras filosofias – e algumas raras vezes, a gente vê e percebe o “céu” em união com a terra, é o tal do “lung” das coisas, aqui mesmo e agora dentro das coisas vivas e não vivas. É como vc disse no post, é no samsara que podemos perceber a própria ignorância, é de dentro do sonho que podemos despertar, parece não haver outro espaço, que não nesse samsara, que no mais de tudo e principalmente está em nossa mente e percepção.
    O problema maior ainda é como manter a compreensão das paisagens todas, como transcender toda maya na visão e ver com os olhos cheios de “Lung” e ver só Lung na vida, ou seja, a plenitude de todas as coisas.

    Sei lá? os métodos ajudam, a meditação e as várias práticas ajudam, mas as situações da própria vida é o maior ensinamento, a maior prova momento a momento é de como lidamos com isso a todo instante nas menores coisas. Aí eu fico pensando em tudo isso, e isso aqui não vai ter fim… é uma grande ilusão achar que o mundo vai melhorar, não que eu seja pessimista a esse ponto, mas simplesmente é da natureza da vida ilusória o sofrimento, ao mesmo tempo, tudo já é a própria manifestação do Buda, então é isso, só nos resta mesmo esse “caminho” e esse é o propósito da coisa toda. 🙂

  4. Sem said

    Oi Adi,

    No final das contas, esse sentimento de “desilusão” com as coisas e as pessoas que vc relata talvez seja uma coisa muito boa e não simplesmente um sentimento de tristeza e de impotência frente ao mundo. Vc diz que é como se estivesse em Malkuth, mas Malkuth não é a Kether de uma árvore inferior? e por inferior entenda-se, uma árvore de COMPREENSÃO inferior. Depois o Lung e o percebimento do casamento do céu com a terra, talvez seja a saudade da Kether extinta, isso e já as brumas de Yesod, de uma nova árvore que será o seu novo desafio agora…

    Parece que esse caminho é sem volta mesmo, sem fim – sem volta no sentido de ser sem retorno ao tempo “perdido”, o tempo que se gastou para percorrê-lo, pq é cheio de voltas no sentido das curvas, das linhas sinuosas que esse caminho parece desenhar. Essas linhas bem podem ser as cobras do caduceu de Hermes subindo pela árvore. Subindo e descendo?

    ……………………………………….

    Vivia-se confortavelmente
    numa casa de sonho

    em frente, uma floresta
    onde era preciso penetrar

    migalhas de pão
    sementes de girassol
    fios de linhas
    pedregulhos
    galhos
    marcaram caminhos

    em vão

    o passarinho comeu
    a chuva caiu
    o gado pastou
    o vento levou
    o tempo desfez

    a vida, uma aventura
    numa estrada de curvas sem volta

    até o dia em que se morre
    e para a casa se torna.

    ……………………………………….

    Tá lembrada dessa poesia? 🙂

    Vê? Meu mundo não anda muito distante do seu. E por aqui eu tive tri-sonhos arquetípicos essa noite, muitas revelações, e revelações que fecham uma cadeia de sonhos que tenho desde pequena com o mar. Seria muito complicado relatar e explicar de modo a não haver incompreensões disso tudo agora, mas, como os meus sonhos têm relação com o que estamos conversando, de certa forma, então, mesmo que eu não fale diretamente sobre eles, devo falar de modo indireto, de uma maneira ou de outra.

    Quanto a estar “centrada”, não sei se estar centrada seja uma coisa boa por si só… No centro da Roda da Vida mesmo estão os “Três Venenos da Mente”: a cobra, o galo e o javali; o desejo, o orgulho e a ignorância, respectivamente. Assim, ser positivo ou negativo, depende mais da mandala em torno da qual giramos do que ao fato de girarmos, simplesmente. Narciso está centrado em si, e isso será a sua ruína, e de todo aquele que se aproximar acreditando nas imagens refletidas desse espelho sem outro ponto de referência…

    Vou puxar pela sua memória outra vez: “uma esfera espantosa, cujo centro está em todas as partes e a circunferência em nenhuma.” É a descrição de como é a natureza do Universo de Pascal naquele conto de Borges – e é, no meu entender, a compreensão mais magnífica que possamos ter do ponto de vista do arquétipo [de Deus], a mais poética do Cosmos, ou, o mais próximo que podemos intuir da natureza do arquétipo puro de Jung – todas essas coisas são meio sinônimos para mim. Um centro sem centro em torno do qual giramos e é a antítese de Narciso, cuja referência é o seu centro único e mortal.

    Uma outra coisa, que andei pensando desse assunto complicado que é a “reencarnação”, é de que não podemos provar com a razão que ela exista, não, jamais, mas, podemos intuir que ela exista, sim, desde que se tenha aquele ponto de vista da espiral de Deus…

    Tudo é uma questão de ponto de vista, então, de por onde se olhe. A vida do ponto de vista de uma única pessoa só tem real significado para aquele ponto de vista individual, cria-se assim, de um único ponto de referência, um centro. Do ponto de vista da espiral de Deus não há centro.

    Realmente, a nossa existência individual – de Adi e de Juçana – está condenada a deixar de existir quando morrermos e o último de nossos traços se apagar dessa terra, quando ninguém fale mais de nós ou nos lembre. Um dia até Platão há de se extinguir, quando muito no dia em que a humanidade deixar de existir. E Jesus e Sidarta Gautama também, vão morrer, estou falando da identidade de Cristo e de Buda, que existiram aqui nessa terra, isto se a humanidade não conseguir passar adiante seus nomes e ideias para uma outra cultura terrena, que porventura nos suceda, ou extra-terrena que possa nos compreender e valorizar…

    Mas existe algo em nós que é outra coisa – e que não pertence a nossa identidade, de Adi e de Juçana -, que a meditação budista, dizem, faz revelar, e que eu conheço de outros meios que não pela meditação clássica: uma mente sem mente, uma esfera sem centro, um vazio sem forma, uma plenitude sem identidade. E é essa “coisa”, que alguns chamaram de alma imortal, e está ligada ao além da nossa forma humana, inclusive. Suponho que seja isso que reencarne, suponho que seja isso parte da mente de Deus. E vou ainda mais longe, suponho que Deus não saiba bem quem Ele É, senão através dessa mente que é conjunto das almas – de tudo o que existe, não apenas d’O Homem – e que O revela…

    Ai, como é complicado colocar em palavras o que não pode ser colocado em palavras. 🙂

    Bjos,
    Bom final de semana!

  5. quenianas said

    O olhar mais completo sobre a vida não evita o cumprimento do papel, mesmo sendo Deus, o ser vivo está representado. A obrigação de se representar enquanto vivo, pressupõe a morte do irrepresentável, e se representa na esfera das paixões, mas se amanhã levantaremos pra testemunhar mais um dia, alguém, esse eu “coerente”, esse ego, vai querer que o tempo passe longe da aflição, vai querer não querer, que é o querer mais audacioso. Ao conhecimento total… ao vazio total… a um conhecimento a mais… um vazio a mais.

    Mas sorriremos, que é a melhor maneira de passar o tempo e enfrentar a tragédia, e que a piada se estenda, oxalá riremos com os inimigos em outro estado e lembraremos com humor do dia em que nos matamos, e riremos mais ainda quando as lembranças dos vacilos forem interpostas pela observação:

    Se lembra quando nos amavamos?

  6. Sem said

    Oi Elielson,

    Bom dia! Como é que vc está? 🙂

    Acho que vc tocou num ponto importante agora, e não sei se consigo me explicar direito, mas é razão pela qual eu sempre digo (ou dizia) que não podemos estar na mesma dimensão da realidade última do arquétipo, pois, somos “fazedores”, e a realidade do arquétipo é a do “não fazer”. Todas as vezes que fazemos algo – e pode ser a existência de um mero pensamento nosso -, nos fixamos. Quer dizer, mesmo sem querer, nos fixamos num ponto da realidade, que acontece e nos tira da realidade total, que subjaz, num outro nível de “existência”. Alguns dizem que essa é a dimensão do Ser, ou, que é Deus, que hoje podemos até projetar na matéria e energia escura do Universo…

    Mas dizer que não temos a mesma natureza do arquétipo não é bem verdade, somos todos “filhos” dessa realidade, estamos todos imersos aqui, ali, acolá… entre pedras, lesmas, peixes, homens, pensamentos, átomos – águas que se movem ao ritmo dessa realidade, que é Tudo. O caso é que somos os nadadores, navegantes e os escafandristas desse mar, essa é a nossa função aqui nesse mundo. Isso o que sempre pensei e entendi das religiões serem explicações congelantes dessa natureza incapturável, transcendente.

    Mas, acho que estou meio como a Adi nesse momento, num momento meio – ou muito – esquisito, algumas coisas que faziam sentido antes, agora não fazem mais… estou adentrando por um universo de novas imagens – e nem são imagens, são pensamentos – e nem são pensamentos, antes é uma maneira de existir diferente: vendo, pensando e sendo de um modo diferente.

    Afora como eu me sinto, vejo que a humanidade como um todo está se encaminhando para mudanças profundas, e tomando decisões hoje que ela não sabe bem – e nem tem condições de saber, onde vão dar amanhã.

    Crise política e econômica? É de rir e de chorar da crise econômica, quem acha que isso é o mais importante acontecendo nesse momento, sendo ela a causa das convulsões sociais que ocorrem no mundo contemporâneo. E que por isso da importância de se refletir sob esse prisma, para se encontrar as soluções – pacíficas – dos problemas estruturais e institucionais, de desigualdades a pobreza, e que a economia desbalanceada gera.

    O que eu acredito é que a crise econômica é só mais um dado, que acontece em meio a tantos outros fatores que estão “desbalanceados”, que são como a ponta de um gigante iceberg chamado humanidade, que se desprendeu de uma geleira original e que se move por cálidas e desconhecidas águas arquetípicas… por enquanto…

    Não quero ser alarmista, mas a gente – humanidade – vai se chocar contra algo, ou se derreter em águas nem tão cálidas, de um oceano tropical desconhecido, ou congelar num outro Ártico extremo. Será que tem como reverter um quadro que pensamos controlar, e que nunca controlamos de fato, será que ajuda se rezarmos para que o vento mude de direção?

    Como ficam pequenos os nossos pequenos problemas de ira, orgulho e avidez, frente ao arquétipo que se cumpre, não é?

    Uma fala comum no budismo é dizer que devemos aproveitar a breve forma humana e as condições auspiciosas que temos para a prática do Dharma – a liberação desse ciclo dos seis reinos, porque nunca se sabe quando essas condições deixarão de ser auspiciosas, já que tudo é cíclico no samsara…

    O Dalai Lama, segundo o Lama Samten, anda liberando alguns ensinamentos antes reservado a monges, e desobrigando os próprios monges da prática do(s) “segredo(s)”. Acho que nada de muito sensacional, mas, me pergunto, pq ele está fazendo isso – primeiro que o budismo que o Dalai Lama prega – e por alguns é bastante combatido – é um budismo secular, outra grande razão é que o Tibet, como era de séculos passados, está deixando de existir, para um Tibet invadido e aculturado pela invasão chinesa, então, divulgar seus conhecimentos e práticas fechadas no mundo aberto, seja uma forma de dar continuidade ao Tibet….

    O budismo tibetano antes restrito a poucas pessoas e a uma região bastante limitada do globo, agora deve se acomodar e ser corrompido pelo mundo secular. Existe uma beleza triste e uma compaixão muito grandes por trás disso tudo, é só ter olhos para ver, e da parte do Dalai Lama tomar essas graves decisões prova o quão grande e inovador líder ele está sendo…

    Bom, por enquanto é isso.
    Abs

  7. adi said

    Oi Sem,

    Minha última semana aqui, uma correria, coisinhas pra acertar mas que tomam tempo, por isso só estou respondendo hoje, :).

    Sobre Malkuth eu entendo que “ela” é a própria Kether não de uma árvore inferior, mas ainda em ignorância, sem o despertar completo, portanto em estado de sístase. Yesodh também já está aqui manifesta em Malkuth também, tudo se manifesta junto, tudo é num sentido diferente a própria Kether se manifestando em seus vários estados de sístase, e tudo se libera quando há a compreensão e percepção de que tudo já é “Buda” se manifestando ( a parte mais difícil).

    Eu me referi ao estar centrado não ao “ego”, mas exatamente nesse centro que é impessoal, ao Self, por isso está em todos os lugares exatamente como descrito por vc, e nesse sentido também é o eixo do mundo da cultura do xamã. Estamos falando da mesma coisa, bom né!! 🙂

    E é por aí mesmo, a maior dificuldade do caminho é permanecer estável e perceber o “LUNG” em tudo, ou a essência de tudo, é como ver por dentro e por fora ao mesmo tempo.

    Muito bom o papo com o Elielson, li tudinho os dois apaixonadamente, enriquece muito a alma.

    bjs

  8. […] Fonte: anoitan.wordpress.com] são dos seis reinos e dispersam o sofrimento inerente a cada um. Ao mesmo tempo ao citá-las purifica completamente os agregados do ego, as skandhas, […]

  9. Daniel Reinoso said

    Muito interessante tudo, e muito explicativo. Obrigado por compartilhar; adorei a poesia.
    Daniel Reinoso

  10. […] Link: https://anoitan.wordpress.com/2012/05/02/budismo-e-psicologia-os-seis-reinos-de-renascimento-e-as-di… […]

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