Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

A Fuga da Sombra

Posted by Sem em dezembro 6, 2011

 

Havia um homem que ficava tão perturbado ao contemplar sua sombra e tão mal-humorado com as suas próprias pegadas que achou melhor livrar-se de ambas. O método encontrado por ele foi o da fuga, tanto de uma, como de outra.

Levantou-se e pôs-se a correr. Mas, sempre que colocava  o  pé  no  chão, aparecia  outro  pé, enquanto a sua sombra o acompanhava, sem  a menor dificuldade.

Atribuiu o seu erro ao fato de que não estava correndo como devia. Então, pôs-se a correr, cada vez mais, sem parar, até que caiu morto por terra.

O erro  dele  foi o de não ter percebido que, se apenas pisasse num lugar sombrio, a sua sombra desapareceria e, se se sentasse ficando imóvel, não apareceriam mais as suas pegadas.

(Chuang Tzu)

 

Retirado de A Via de Chuang Tzu, Thomas Merton; 5ª Edição; Editora Vozes; Petrópolis, 1989.

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7 Respostas to “A Fuga da Sombra”

  1. adi said

    Que linda essa parábola taoista. Esse assunto da sombra é muito complicado pra quase todo mundo, difícil se assumir e se aceitar do jeito que é. Todo mundo dissimula muito, pouca gente aceita ir visitar sua sombra no lugar sombrio…

    Adorei !!

  2. Sem said

    Adi,

    Complicado… e inevitável e necessário. E aqui estamos nós nos repetindo outra vez, mas o que fazemos nessa vida senão nos repetirmos sempre com outras palavras?

    Então, com outras palavras, vou reafirmar a inevitabilidade desse encontro com a sombra: encontro-choque; encontro-mergulho; encontro-aniquilação; encontro-descoberta; encontro-iluminação. Pode ser tudo isso, e é mesmo propositivo disso tudo. A Sombra, o arquétipo universal do desconhecido, que deita em tudo o que é vivo (ironicamente apenas no que está vivo) um fragmento… e é por esse “filamento de fractal” que nos descobrimos (e somos) parte com o todo – afinal onde mais pode estar Deus, e a descoberta do nosso livre-arbítrio, senão nesse inominável e desconhecido não-lugar chamado Sombra?

    Esse é o único caminho possível que eu conheço para afirmar a vida, que passa e está nesse inevitável encontro com nossos demônios interiores, que são anjos de outra feita…

    Pois é, anjos e demônios, o modo como as pessoas entendem-nos pode ser bastante diverso, mas são determinantes da relação (ou da ausência de relação) que se terá com eles.

    Para além da visão puritana e caricata de serem os anjos agentes passivos do bem e os demônios do mal, anjos e demônios são, antes de qualquer coisa, “daimons”, são entes espirituais que contém essa dualidade permanente consigo, são os representantes mais íntimos que temos de Deus, que tudo contém… Anjos e demônios a mim são então esses “daimons”, que podem ser agentes inspiradores para nós de bons ou de maus encontros [spinozistas], tudo depende de como a “nossa alma” vai lidar com a “nossa sombra”…

    Atenção para essas últimas aspas, não as coloquei ali ‘pro forma’, têm uma razão justificada importante – é que personificamos os arquétipos indevidamente muitas vezes e, quase sem querer, dizemos que é nosso o que na verdade não é. Dizemos “minha alma”, “minha sombra”, “meu daimon”… quando o que existe em realidade é um modo particular de nossa individualidade se relacionar a esses arquétipos ou representantes de arquétipos universais…

    Os demônios e anjos, dizemos que são nossos quando não o são… quando nem isso, dizemos que são nossas invenções, e com isso queremos imaginar alguma ascendência ou controle sobre eles. É humano, é “natural”, é que sentimos tudo tão “nosso”, temos tão íntima relação com deuses, almas, anjos, falamos deles como se fossem nossos, os seus senhores e sabedores, dizemos “meu”, “teu”, “nosso”, quando em verdade é da alma do mundo que se trata… nós estamos no mundo, não o mundo em nós.

    Naturalmente o que eu digo é a minha visão de espiritualidade. E tão mais incompreensível ou em desacordo estarei com aquele segue uma doutrina já fechada e não tem efetivamente a liberdade para questionar os seus dogmas, de fazer a sua própria prática espiritual… com a sua razão pode dizer que prática religiosa é um ato de fé, de compromisso, e que nada se iguala ao poder da egrégora, blá-blá-blá, mas a minha prática espiritual é a minha ética…

    Não acho que o que eu penso entra em contradição com a essência da Cabala, do Zen, do Taoísmo, da mística cristã, da psicologia de Jung, da espiritualidade de Krishnamurti… agora isso tudo, ser religião, ser ciência, ser a prática mágica ou mística, do diabo a quatro que for, nos termos aqui colocados, são as experiências dos outros – e são palavras, são conceitos, são teorias, de fé alheia, de prática alheia, de testemunho alheio – porque a verdade é essa, o encontro e o caminho verdadeiro é solitário, sempre… e quem sou eu para negar instituições seculares assim dessa forma, sou uma escrava miserável de outras verdades que não consigo negar. Ultimamente ando mesmo é desconfiada de que mais contribuímos e somos agraciados pelo todo quanto mais singulares formos…

  3. adi said

    Sem,

    Eu fiquei lendo seu comentário e lembrei dos meus rascunhos sobre – depois de tiphareth – eu tenho minhas conclusões com relação a essas polaridades arquetípicas, anjos e demônios de forma muito bem colocada por você, como agentes inspiradores de bons e maus encontros, e nesse sentido, somente através disso é que eles podem ser reconhecidos, ou se manifestar, se fazer, realizar como existência.

    Indo ainda além e acredito não fugindo do que você colocou acima sobre “daimons”, essas polaridades só são percebidas em nossa psiquê como polaridades, justo porque só podemos captar um só lado da moeda de cada vez. Por um momento percebemos a luz, em um outro a escuridão, mas nunca o arquétipo “todo”, completo e pleno. Vemos por partes.

    O que entendo, e posso estar errada, e também como dito por você, somos equivocados ao falar “minha sombra”, minha anima, meu animus, meu Self, etc. As estruturas arquetípicas são universais e coletivas, no sentido que são totalmente de caráter impessoal. O que não deve ser confundido com estruturas do coletivo já estabelecidas e que portanto podam e cerceiam a liberdade. A priori essa função das estruturas arquetípicas como alma do mundo é de atualizar e renovar o que está congelado, muito embora, logo que se estabelece e se faz no mundo não tarda a se congelar também, sendo incorporada ao sistema.

    Mas voltando, na minha opinião há duas funções do arquétipo, ou das estruturas arquetípicas, a luz torna visível ou como que dá forma a algum conteúdo, ou traz a manifestação, a parte da sombra é o que destrói ou desconstrói o que precisa ser atualizado novamente. É como se o novo precisasse de espaço pra vir a manifestação, e o que está lá pronto e que já foi novo um dia como que impedisse, e a parte da sombra, escuridão é o que destrói, desfaz, pra que haja espaço pra novas formas vir a ser.

    É esse jogo de luz e sombras, de construção e desconstrução, um manifesto a outra polaridade imanifesta. O que não pode ser visto e que vive a sombra e a margem é o que destrói a forma, o que pode ser visto. Mas ambos são um e mesma coisa e que sendo sem polaridades não é coisa alguma, é tão somente o arquétipo, a plenitude, as potencias.

    “Ultimamente ando mesmo é desconfiada de que mais contribuímos e somos agraciados pelo todo quanto mais singulares formos…”

    É o que acredito também, porque quanto mais singulares menos congelados somos e mais o arquétipo pode atuar livremente em nós. A sombra não assombra mais :), quando compreendemos que parte do ciclo natural é a morte e renovação, seja de conceitos, estruturas gastas e vazias da nossa psiquê, é mais fácil não temer e aceitar a “escuridão” que se manifesta em nós, e quando aceitamos assim, a escuridão não é a expressão do mal, não é o demônio, é o necessário que abre espaço pro novo. É o não aceitar que nos limita e nos restringe e não deixa a coisa acontecer.

    Nossa!!! é isso aí, que gostoso esse papo, porque me traz aquela alegria interior, aquele sentimento de alguma coisa assim como o de estar na hora certa e no lugar certo, e que por isso tudo está em acordo com o que deve ser… 🙂

  4. Sem said

    Adi,

    Eu tenho que sair daqui a pouco, vamos ver se vai dar tempo de falar tudo o que gostaria…

    Bom, seu comentário, é isso, nem preciso dizer que concordo em linhas gerais com o que disse, que nós duas estamos ultimamente quase que nos correspondendo por telepatia rsrsrs… é que nós temos uma compreensão semelhante de mundo e que a meu ver é derivada dessa mesma compreensão do arquétipo, depois, compartilhamos da mesma sensibilidade feminina, nos esforçamos pela compreensão uma a outra… o que corrobora com a característica muita humana descrita pelo Girard na sua teoria mimética, pois os grupos tendem a se adequar por imitação, tanto que faz muito sentido aquele ditado “diz-me com com andas que dir-te-ei quem és”… que no nosso caso aqui é ao pensamento uma da outra que vamos nos “adequando”… claro que isso, como tudo, é dual, cabe somente a nós cuidar para que nossa troca de ideias não descambe para a mesmice, ou nos leve, por inconsciência de “nossa sombra”, a uma competição desagregadora, tantas vezes fingida de falsa colaboração… acho bem difícil que isso aconteça conosco, que somos “antenadas” com isso, mas o perigo é o mesmo para qualquer grupo que faça relações de troca… e tudo faz troca.

    Nessa linha, divagando um pouco, ando pensando em grupos que se correspondem com um mesmo vocabulário e no perigo que é, ao se adequarem ao mesmo discurso, pararem de pensar… mais especificamente ainda, estou pensando em alguns cursos de faculdade cuja formação se dá mais pela conquista de um vocabulário específico do que a capacidade de pensar a própria área. São uma minoria realmente os que se formam como pensadores de sua área, que se valem do vocabulário apreendido com compreensão, a maioria se deixa mesmo usar pelas palavras, como cascas vazias, sem conexão a outros saberes, aprendem até a elaborar discursos sofisticados, mas onde o pensamento realmente passa longe… bom, essa é uma pequena crítica e reflexão que faço da educação universitária hoje em nosso país, da área de humanas, principalmente, que é do meu conhecimento e cujo instrumento de trabalho são ideias… mas as palavras como cascas vazias acontecem em todos os lugares, de Igrejas a estádios de futebol.

    No seu pensamento Adi, percebo que tem uma influência gnóstica com a qual não sei se estou bem de acordo – que eu não conheço bem a explicação gnóstica de criação do mundo, mas sei que o Jung se deixou permear por ela em suas teorias… há algo, no entanto, como um pessimismo inerente com as coisas da natureza, que teimo em aceitar… isso é papo comprido, no qual tenho interesse, mas vamos deixar pra outra hora…

    Tou indo pros finalmentes agora…

    Qd eu vim aqui pro Anoitan, já tinha uma teoria a respeito das relações em que pressupunha a polaridade arquetípica, mas foi conversando aqui que muita coisa ganhou forma… preciso te dizer, existe um artigo do Hillman, tema de uma conferência sua, está compilado junto a outros no seu “O Livro do Puer”, em que ele fala dessa relação Puer X Senex, e foi nesse artigo, ao ele tentar dar conta dessa dualidade, em tentar escapar da armadilha polar do arquétipo, que eu tive a visão do arquétipo na sua completude – foi o que nomeei como o encontro agregador, quando a equação do encontro se faz para a afirmação do “outro”, que é a espiral agregadora do &; e do “mau” encontro, no movimento de desagregação, quando se vê ao “outro” como inimigo… o Hillman não disse isso, é claro, mas do que ele disse ali foi a conclusão que tirei, e que aqui vai muito mal explicado, mas vc sabe exatamente do que estou falando… pois nessas minhas teorias, o Hillman, o Anoitan e os meus alunos foram definitivos para que elas ganhassem a forma que tem, por enquanto….

    E não é à toa que vc pensou no post que vai escrever depois do abismo de Daath, eu quase citei isso novamente no meu comentário anterior, no qt eu espero por ele – ainda não sei qual é a chave disso, mas penso que será fundamental nesse grande quebra-cabeça que já nem sei se sou só eu mesma que estou montando… rs mas claro que vc tem toda a liberdade do mundo para amadurecer esse e outros posts que só vão vir qd forem pra vir mesmo…

    Agora eu vou 🙂

  5. Elielson said

    Imersão total na sombra…
    Entendo isso da seguinte maneira: Existe a opção de se iludir, mas somente até certo ponto, após um tempo, quando tudo é observado como é, quando as ideias perdem seu sentido, ainda assim você sabe como colocá-las para fora, como uma ordem que se segue por responsabilidades perante o imprevisivel, perante o invisivel. A realidade aparenta convidar aos posicionamentos, só que acabou, pra quem vê (ou não vê) acabou, o engraçado é que continua acontecendo, então a gente simula ( o que não quer dizer criar) os posicionamentos, mas as posições se tornam um jogo em que se perdeu o interesse REAL (junto com a perda da antiga realidade), e que, olhando-se os interesses que o “outro” aparenta ter, começamos a aparentar os nossos interesses ao “outro” também, permanecendo nas sensações agradaveis, pelo menos tentando em vão permanecer nas sensações agradaveis, e é risivel, até que se note que este “outro” perdeu a noção do invisivel, então não é mais risivel, pois sem o propósito lúdico que seja, opta-se pela paciência, que exercerá essa participação quimica observando a destruição do tempo, ou apressará esse caminho, se submetendo as leis do Criador. Por que só se tem a vontade, já o que atende nossa vontade. é tão desconhecido como nós mesmos.

  6. adi said

    “Orunmilá era calmo, e Exu quente como o fogo.
    (…)Orunmilá aplainava os caminhos para os humanos,
    enquanto Exu os emboscava na estrada
    e fazia incertas todas as coisas.
    O caráter de Orunmilá era o destino, o de Exu, o acidente.
    Mesmo assim ficaram amigos íntimos.”

    Tem um texto muito interessante na Rubedo que fala sobre Exu. Exu é idêntico ao puer, e Exu também pode ser identificado a Satanás. Na cultura brasileira Exu é utilizado como bode expiatório servindo como tela de projeção para a sombra do inconsciente coletivo brasileiro. Exu pode ser identificado um panteão de deuses, e também a Priapo, com o falo grande e sempre ereto, simbolizando as energias fertilizadoras da natureza.

    Bom, é assunto que não acaba sobre o puer… pena que ando realmente sem tempo, mas enfim, hoje já estou usando meu computador finalmente, e tenho algum material guardado sobre os posts. 🙂

  7. adi said

    Elielson, e é vivendo essa ilusão, ao menos tentando em vão se manter na ilusão de viver somente as coisas agradáveis, que o ser humano projeta sua sombra… muito embora, segundo a psicologia, é o inconsciente que se projeta a priori. 😉

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