Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Sonhos – a voz e imagem do inconsciente

Posted by adi em outubro 4, 2011

Todas as noites quando dormimos nós temos acesso direto ao inconsciente, mas raramente damos a devida atenção ao que ele nos fala.

Muitas culturas antigas já sabiam disso, por isso nas tribos indíginas quando alguém tinha um sonho significativo devia contar pra toda a tribo.

A importância dos sonhos como elo de ligação entre o sagrado e a realidade sempre foi retratado em muitas culturas antigas. Nas narrativas bíblicas são descritos os sonhos do patriarca Jacó, e de José seu filho, bem como dos vários profetas indo até José pai de Jesus, como sendo mensagens do próprio deus. Nas culturas xamânicas da sibéria, Tibet, Mongólia e mesmo entre os índios americanos, o processo iniciático do xamã se dá através dos sonhos, das doenças e dos êxtases. A Epopéia de Gilgamesh, antigo poema épico da Mesopotâmia, que descreve a jornada do rei em busca da imortalidade, começa depois de um sonho do rei.

Mesmo entre cientistas muitas questões foram resolvidas através de sonhos. Foi um sonho que ajudou o químico alemão Kekule elaborar sua teoria sobre a estrutura física do benzeno. Outro caso de sonho, foi do químico russo Dimitri Mendeleiev, pai da tabela periódica dos elementos químicos: “Vi num sonho uma tabela em que todos os elementos se encaixavam como requerido. Ao despertar, escrevi-a imediatamente numa folha de papel.”

Para Jung, eventos interiores como visões e sonhos eram a “realidade”, tão real quanto aquela que denominamos realidade exterior.

Em seu livro O Caminho dos Sonhos, V. Franz nos trás de forma bem interessante como o sonho atua em nossa psiquê, a seguir tomei a liberdade de trazer pequenas partes do livro que achei de muita importância e que nos dará uma ideia geral sobre os sonhos.

Segundo V.Franz, essa matriz que engendra os sonhos em nós tem sido denominada guia espiritual interior, ou centro da psiquê. A maioria dos povos primitivos simplesmente a chama de deus, ou usa o nome de um deus específico. O deus supremo dos astecas, por exemplo, era o artífice dos sonhos e guiava as pessoas através de seus sonhos. Com toda probabilidade, um cristão diria que essa matriz é o Cristo interior em nossa alma. Um budista reconheceria esse mesmo centro. Segundo um velho mestre zen, Buda certa vez disse que quem segue o caminho interior certo tem sonhos bons. Parece, portanto, haver em nós uma inteligencia superior que poderíamos denominar guia interior ou centro divino que produz os sonhos, cujo objetivo parece ser tornar a vida do indivíduo a melhor possível.

A mente humana dividi-se em duas partes, consciente e inconsciente, sendo esta ultima mais ampla. Para Jung, a consciência é a relação entre os conteúdos psíquicos e o ego, na medida em que essa relação é percebida pelo ego.

A grande descoberta da psicologia profunda é que cinco ou seis vezes por noite, a parte inconsciente da psique é retratada nos sonhos; ao relembrá-los, nossa mente consciente tem a oportunidade de observar conteúdos da mente inconsciente. No entanto, mesmo que o sonho seja lembrado, via de regra a informação não faz o menor sentido para a mente consciente e não é fácil de decifrar, pois o inconsciente não se expressa através de uma linguagem racional prontamente acessível à mente consciente. Pelo contrário, o sonho revela o inconsciente sob a forma de imagem, metáfora e símbolo, numa linguagem intimamente associada à arte.

 

 

Longe de ser preposições objetivas e prosaicas, os sonhos costumam ser confrontos altamente subjetivos e pessoais, nos quais o ego, ou eu, sente emoções que vão do medo e hilaridade, à sensação de sublime paz e beleza.

Para Jung, os sonhos enquanto manifestações dos processos inconscientes, traçam um movimento de rotação ou de circumambulação em torno do centro, dele se aproximando mediante amplificações cada vez mais nítidas e vastas. Devido à diversidade do material simbólico é difícil a princípio reconhecer qualquer tipo de ordem. A uma observação mais acurada, porém, o processo de desenvolvimento revela-se cíclico ou em espiral.

V. Franz diz que os sonhos nos indicam onde se encontra nossa energia e para onde ela quer ir. Todo sonho é uma mensagem útil que propícia um insight sobre o sentido específico de um situação também específica de nossa vida. Noite após noite essas mensagens se repetem, chegando a mais de cem mil num período de uma vida. Se estudarmos nossos sonhos por um certo tempo, começamos a perceber conexões significativas entre eles. Parece haver uma força diretriz que nos guia até o nosso próprio destino individual.

Segundo ela, é como se a natureza lentamente chocasse os problemas, desenvolvendo-os devagar. Esse desenvolvimento lento pode ser observado na interpretação de sonhos. Nossa observação consciente pode acelerar esse processo de maturação, cooperando com a natureza na resolução dos problemas. A análise não é mais que a concentração da nossa atenção consciente no processo natural de maturação com vistas a apressá-lo. É como por mais fogo, para que o processo ande mais rápido.

De início deve-se então tomar como regra absoluta que todo sonho ou fragmento onírico seja considerado como algo desconhecido, além disso, deve-se fazer uma tentativa de interpretação apenas depois de captar o contexto. Possivelmente e até com frequência o sonho diz algo espantosamente diverso daquilo que se espera. Pois o ponto de vista do inconsciente é complementar ou compensatório em relação à consciência, sendo portanto algo diverso e inesperado.

E por isso ela diz que trabalhar com os sonhos é algo excitante porque nada se repete. Você nunca pode prever com precisão, pois a natureza sempre dá a resposta criativa.

Os sonhos são a voz da nossa natureza instintiva e animal ou, em última análise, a voz da matéria cósmica em nós (psique objetiva). Por isso os sonhos atuam como um meio de compensação, como se o sonho dissesse: “Você está desequilibrado em relação à sua totalidade”. Essa é a sabedoria essencial dos sonhos, preservar um equilíbrio entre todos os opostos psíquicos e estabelecer uma espécie de via intermediária.

O inconsciente parece ser a favor da filosofia chinesa yin/yang, ou da ideia de TAO enquanto equilíbrio sutil dos opostos.

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Fontes: V. Franz em O CAMINHO DOS SONHOS, e Jung em PSICOLOGIA E ALQUIMIA.

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