Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Mandalas, Mandorlas e Representações da Psique

Posted by Sem em junho 1, 2011

Acabando de ler o livro Astropsicologia: o simbolismo astrológico e a psique humana, de Karen Hamaker-Zondag, onde a autora, astróloga de orientação junguiana, faz relações entre a Astrologia e a Psicologia Analítica, me deparei com a seguinte gravura, a mais representativa da psique humana que já tenha observado até hoje.

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A estrutura da psique segundo C. G. Jung

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Após a gravura fiquei pensando nessa capacidade de síntese das imagens, no quanto poucas linhas expressivas podem conter ideias complexas ou mesmo sistemas inteiros de compreensão do mundo, caso da gravura.

Talvez a razão óbvia seja que pensemos por imagens, de que antes que nossas palavras brotem e frutifiquem em ideias, alimentem-se primeiro das raízes da nossa imaginação. A palavra imagem; do latim imago; referente a íntimo, âmago, ou, espelho, retrato a semelhança de… O que implica que sentimos por imagens também, que é dessa capacidade que as imagens têm para nos emocionar, inclusive, que discernimos o belo do feio, o verdadeiro do falso, o bom do mal, – valores são relativos ao quadro mental de imagens que vamos elaborando sem cessar ao longo da vida, a partir do que recebemos e filtramos julgando ser a realidade, e que formariam figuras verdadeiramente caleidoscópicas, se pudessem ser fielmente representadas. Assim, podemos contar a nossa história pessoal e a da humanidade através de imagens, aliás, sequer nós existiríamos – enquanto indivíduos – sem antes construir uma auto-imagem, com a qual nos assemelhamos e nos apresentamos ao mundo. Por fim, toda a arte figurativa pode ser resumida em manipulação explícita ou implícita de imagens: a moda, a pintura, o cinema, o teatro, a literatura, a poesia, o desenho, a arquitetura, a fotografia, os games… Em sentido lato, para a psique, toda arte é figurativa e tudo é imagem.

Por estas razões evidentes, este será um papo sobre imagens do nosso psiquismo, e do que tais imagens podem nos suscitar e provocar no caminho da individuação – o processo da consciência de nós mesmos da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.

Trarei outras gravuras, que considero igualmente representativas da psique, mas, propositalmente mais simples, para que revelem com o mínimo de acréscimos as estruturas arquetípicas básicas que nos envolvem e determinam a todos.

Esclarecimento epistemológico: sempre que se fizer referência no texto a estruturas, estará se falando em arquétipos que são condições a priore à organização da vida; já a psique deverá ser entendida como fenômeno, como defendido por Jung, algo que, digamos, acontece a posteriore e assente a essas camadas arquetípicas.

Defendo a ideia de que o nosso funcionamento psíquico é dual – ou, polar, e de que tal característica não é passível de crítica, tão somente é uma característica, e uma das mais marcantes de nossa humanidade.

O que pode ser criticável é o desequilíbrio desse sistema orgânico. E criticável apenas no sentido de ser gerador de sofrimento – a si, ao próximo, ao entorno, já que tudo está relacionado. Nesse sentido, algumas “doenças” da alma têm a capacidade de serem reguladoras para o equilíbrio da vida, pois do ponto de vista do todo sistêmico são mesmo compreensíveis e justificáveis consideradas as conjunturas globais em que as almas se encontrem – quero dizer, nos dias que correm, alguém que não sofra com o desequilíbrio ecológico no planeta, com os problemas da sustentabilidade ambiental que a humanidade deverá enfrentar, é, no mínimo, o que se poderia chamar de alma insensível. Acima da ignorância, a verdadeira doença contemporânea é a indiferença, de seres que se justificam como eternos credores da natureza, e pouco se deixam afetar pelo desequilíbrio e injustiça no meio ecológico e social que partilhamos. Essa separação entre “eu posso” e os demais que “se virem” é sintomático de almas desconectadas de seu meio. Nada contra a busca pela felicidade pessoal, é claro, que é uma experiência maravilhosa e digna se perseguir, mas há que se considerar que hoje ser saudável contém – como, aliás, desde sempre – uma certa dose de perturbação, sentida internamente como inadequação ou talvez como o próprio desequilíbrio, algo no entanto que nos faça mover a minimizar os danos ecológicos de nossa presença pelo planeta. É do ser humano como agente co-responsável e não do eterno creditador da natureza que carecemos. E em meio a tanto hedonismo circundante, quem sabe seja também sintomático tantas crises de depressão, para compensar a superficialidade reinante com algo mais profundo, como num esforço da psique do mundo pela saúde, da anima mundi a tramar por algo que signifique realmente a vida.

Saúde é o equilíbrio entre o fora-dentro, que é a gestalt ou a sinergia entre todos os elementos do sistema, no caso, o homem e a natureza dentro de um ecossistema fechado, o nosso planeta. Ao examinar o que acontece no mundo e ao nosso redor, não vejo motivo para euforia, muito menos pelo que comemorar. Em direção ao equilíbrio muita coisa precisa ser feita, e antes de qualquer outra, se faz primordial a empatia para com a vida que acontece ao nosso redor, independente de nós, vida que merece existir, inclusive, além de nós.

O fato de observar e defender essa estrutura polar de funcionamento da vida, evidentemente que não me fez a descobridora desse assunto, mas me deu um modo muito particular de examinar as polaridades no exercício da minha própria vida, e de me aproximar ou afastar de alguns pensadores. Observando dessa perspectiva, meus verdadeiros mestres, até no sentido espiritual, foram um meio punhado de intelectuais que encontrei pelo caminho, divididos entre alguns poucos filósofos, literatos, poetas…

Agora, também, não foi Jung o descobridor das polaridades, ao contrário do que divulguem “junguianos” desinformados. O mérito de Jung foi o de na ciência da psicologia ter organizado a psique de modo a elucidar termos bem mais abrangentes do que dentro da psicanálise fez o próprio Freud. Mas já em Freud – e antes de Jung conceituar sua energia psíquica, existem as dualidades alternando a Libido de modo sofisticado entre consciente-inconsciente, ego-id, pulsão de vida-pulsão de morte, Eros-Thanatos. São conceitos que Freud veio a burilar durante toda a sua vida de criador teórico – posto que a fundação de um edifício teórico acontece invariavelmente num rasgo de brilhantismo intuitivo em um único dia, mas a construção das paredes do edifico é o que o tornará habitável, e levará anos de labor até que se reconheça nele sua característica arquitetura. Verifica-se, então, no pensamento de ambos esses autores fundadores da psicologia do inconsciente, de que há essa “dualidade”, que é a raiz de estrutura de todas as teorias por eles formuladas. Jung ao conhecer Freud, e este a ele, reconheceram-se um ao outro, a partir desse encontro nada mais natural de que se tenham influenciado mutuamente, primeiro em termos a complementar e, depois das divergências, até a negar o pensamento do outro. Mas o fato é que Freud é mais velho do que Jung, por isso atribuo a ele o pioneirismo em introduzir esse assunto das polaridades e do inconsciente em contraponto ao consciente dentro da psicologia. Freud poderá ter sido o primeiro na psicologia, mas não foi igualmente o inventor das polaridades, sequer o foi do “inconsciente”…

O assunto das polaridades é tão antigo que há pelo menos dois milênios e meio atrás já se falava dele no ocidente. Portanto, bem antes de Freud e de Jung lançarem e deixarem suas polêmicas de herança, antes da própria ciência moderna sequer sonhar em existir, a questão remonta perdida na noite dos tempos da humanidade. Eis que, na Grécia antiga, entre os anos de 500 a.C. e 400 a.C.,  os pré-socráticos Heráclito de Éfeso e Demócrito de Abdera, já estabeleciam polaridades estruturais na organização da vida. Mas, antes destes até, a ideia no ocidente já tinha sido veiculada, por um suposto “deus”, ou, “sábio”, não se sabe bem quem, se existiu ou se foi lenda, se era egípcio ou grego, se atendia pelo nome de Thoth ou de Hermes, em leis a ele atribuídas, a questão tinha sido já então explicitamente desenvolvida num princípio de polaridade a que tudo o que existe estaria sujeito. E no oriente, há pelo menos três milênios antes do ocidente, o I Ching, que veio a ser a nascente do taoísmo, já delineava a força do universo como a mutação entre Yin e Yang.

Como se vê, a ideia da polaridade aparece com a humanidade… Não será porque é assim que o arquétipo estruturador da vida se deixe entrever?

Os sistemas explicativos dessa percepção podem ser diferentes no tempo e melhor ou pior elaborados aos nossos dias, mas, a evidência da dualidade como o motor da vida e no decorrer da mesma confundindo-se a ela, a ideia em si, é patrimônio e construção da humanidade como um todo ao longo de sua história. Diria mesmo que está ao alcance de qualquer ser humano que se dê conta de si e do mundo não apenas como aparente representação. Por isso a questão da dualidade está presente em todas as religiões e sistemas esotéricos de que se têm conhecimento. Desconheço o sistema espiritual – deísta ou não deísta, mono ou politeísta, institucionalizado ou anárquico – que não tenha a dualidade como um problema central a ser resolvido ou aproveitado como manancial de oportunidades.

Voltando à gravura primeira, a motivadora do presente tópico, farei alguns comentários críticos, mas de antemão gostaria de deixar expresso de que não discordo em nada da maneira abordada da psique por Jung. Apenas que em alguns pontos a minha visão se acresce de pequenos vieses, e não quero promover o meu pensamento à custa do de Jung. Sabendo que este é embasado pelo mérito do tempo e da prática, insofismável na coerência de suas teorias, fique claro de que o que se lerá a seguir é o meu modo de entender a Psicologia Analítica e não a Psicologia Analítica, necessariamente. E que ninguém se satisfaça aqui com o que eu afirmar sem procurar beber das fontes originais.

Falando em fontes, a quem quiser saber de uma, de procedência inquestionável, termos da Psicologia Analítica, como Sombra, Self, Inconsciente Coletivo, etc., sugiro consultar ao – para lá de bom – dicionário de termos analíticos da Rubedo. Linkado aqui com a lista de verbetes e aqui com a capa de abertura onde os créditos devidos são mencionados.

Vamos então à leitura crítica da gravura, a mim ela é elucidativa ao corresponder primeiramente Ego-Sombra como a unidade arquetípica bipolar de nossa estrutura individual, depois, Persona-Animus/Anima, como a unidade arquetípica de nossa estrutura relacional. E nenhuma dessas polaridades pode ser descartada se o objetivo for chegar ao Self, porque nenhuma estrutura de totalidade seria organicamente funcional sem o reconhecimento de todas as suas partes constituintes. O processo de individuação corresponde exatamente a esse (re)conhecimento. E toda a dificuldade do processo advém justamente da complexidade da tarefa de conciliar opostos. Opus contra naturam, no dizer do próprio Jung, e podemos constatar a veracidade do dito no quanto é contra a natureza do Ego, por exemplo, incorporar/aceitar elementos tão estranhos a ele como os conteúdos da Sombra, considerados da perspectiva do Ego, a sua antítese.

Para Jung, com o que estou em plena sintonia, o centro da nossa personalidade é o Self – cujo termo Si-mesmo é sinônimo, e ao qual prefiro adotar a partir de agora, e a toda vez que se fizer referência a esse arquétipo centralizador da psique. Adoto o termo Si-mesmo porque considero-o mais adequado ao vocabulário referente da psicologia, sem a conotação de senso comum, bastante vezes ampliada, dada ao “self”, e que pela impossibilidade de uma definição mais objetiva prefiro fugir.

Assim, o Si-mesmo, nos dizeres do próprio Jung, é tanto a primeira instância de vida da psique como a última referência para o indivíduo, pois tanto desde a primeira noção (o sentimento) de um “eu”, logo substituído pelo Ego em formação, como também a última, porque é justamente para o reconhecimento e a vivência do Si-mesmo que se destina a individuação.

O Si-mesmo faz polaridade – a meu ver – com toda a estrutura psíquica da maneira como ela é dada na gravura. Ali, o Si-mesmo (Self), aparece ao centro e aparentemente sem par, é que sua polaridade se faz – para mim – a algo irrepresentável numa figura bidimensional, a saber, a função do Si-mesmo não será ligar o norte ao sul, nem o leste ao oeste, sua função primordial é a de ser um vetor que no meio entre os opostos irradia o lugar onde não há mais conflito, o centro, o meio de uma “cruz”, e a partir do qual perfura-se, como um ouroborus devorando ao próprio rabo, ou, como um buraco negro sugando toda a luz e matéria ao redor – ambas essas duas representações em sentido poético ampliado são fontes inesgotáveis de vida, ao mesmo tempo devoradoras e geradoras, são auto-sustentáveis e paradoxais, ambas propriedades do Si-mesmo. É como se de um vetor vindo de fora para dentro ou do centro interno em direção ao externo furasse o papel, tal imagem somente poderia ser entrevista numa dimensão tridimensional. O Si-mesmo é então o arquétipo que centra o “eu”, num “ser”, ou, em outras palavras, liga a consciência individual ao Cosmos.

Toda essa estrutura da psique poderia ser resumida como o Si-mesmo em busca de sua realização, o que envolve uma noção de um “eu”, mas, “no mundo”. Isso é importante, esse entendimento de “eu no mundo”, é fundamental para entender a polaridade que vem a seguir: Consciente/Inconsciente pessoal-Inconsciente coletivo.

Apenas para esclarecimento, Inconsciente coletivo é sinônimo de Psique Objetiva. Termo último ao qual também prefiro adotar. Idealmente pela razão de que todo o “complexo do eu”, do modo como até aqui está sendo entendido o Si-mesmo, pode ser estabelecido como a “psique subjetiva”. E assim chamada de subjetiva por estar à mercê de nossos julgamentos e filtros pessoais – que é o mundo visto, experimentado e sentido de nossa perspectiva pessoal. Subjetivo também em razão do espaço que ocupamos na totalidade como uma unidade psíquica inalienável, em separado do todo, pois que de outra forma nossa existência sequer seria dada como existente em realidade.

E por que Psique Objetiva? Porque esta independe de nós. Sempre esteve, está e estará, por “aí”, independente de nós. De nós como espécie humana, inclusive.

A Psique Objetiva faz polaridade com a “psique subjetiva”, ou do que ainda de modo inseguro estou nomeando “complexo do eu”, se consideramos o nosso “funcionamento” ao percebimento dela – Psique Objetiva, no sentido de como nós – psique subjetiva – a possamos entender e com ela estabelecer algum tipo de relacionamento, a esse algo tão indefinível e inalcançável, de natureza tão distinta da nossa, quanto D’us, o Tao, e, até o presente momento, a inexplicada energia escura do universo.

Vamos a outras imagens possíveis da psique.

Como a primeira, vão ser sempre imagens que nos remetem às estruturas mandálicas, por terem um centro irradiador de onde expulsam vida, do interior para onde se percorre um fluxo (vertical) de energia – Rios de Vida, aqui no post da Adi –, e do exterior representável por um campo eletromagnético, que alguns místicos chamam de aura e adeptos da magia de personalidades magnéticas. Mas não é nada do outro mundo que se está falando, é desse nosso mundo que testemunhamos, em nosso corpo/alma.

Começando pela Gaia viva imantada entre o Sul e o Norte, o único espaço onde por ora nos é dado existir dentre um universo infinito.

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E outros exemplos possíveis de campos magnéticos simples.

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De relações complementares entre alteridades que se agregam.

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E identidades que se repelem, paradoxalmente.

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O campo se altera conforme circunstâncias que podem vir de fora ou de dentro e que são determinantes, inclusive, de como e quanto iremos viver.

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Assim como a psique o planeta Terra é uma mandala viva, quebrar o seu campo eletromagnético, o que permite que haja a vida em nosso planeta da forma como nós a entendemos, seria nos expor ao extermínio. Mas este campo magnético terrestre nunca está em equilíbrio, como sugerem as primeiras gravuras, pois nada do que está vivo permanece em equilíbrio permanente, sujeitos que são (somos) de forças externas e internas atuantes sob uma camada protetora de unidade (de individualidade). A Terra é perturbada por todo o Universo, a começar pelos astros mais próximos, principalmente pela estrela mais próxima – o Sol – varrida que é constantemente por ventos solares. As primeiras gravuras não levam esse fato em consideração, projetam uma linearidade perfeita que na prática não existe. Já essa última gravura colorizada seria um espelho mais fidedigno ao real.

É bastante conhecido o trabalho terapêutico que se faz com mandalas para a estruturação do eu no campo da psicologia junguiana de transtornos graves. Aqui no Brasil o trabalho de Nise da Silveira foi até por Jung reconhecido.

Mas, em se tratando de mandalas, a espiritualidade é a meta. Não se pode esquecer as belíssimas mandalas budistas, cujo enfoque é justamente a transcendência espiritual da matéria. Existe um ritual tibetano em que elas são construídas com areia colorida e após a realização prontamente descartadas em água corrente. O ritual reflete sobre a impermanência, um tema fundamental do budismo. Para quem não conhece, ou para quem conhece e admira, aqui, do meu blog de poesia, uma sequência com fotos do ritual entremeado com o poema “Reinvenção”, de Cecília Meireles, em que parecem, poema e ritual, feitos um para o outro.

Desenhar mandalas é um exercício tanto espiritual quanto terapêutico, porque ao desenhar e dramatizar o todo a partir de um centro, o nosso imaginário pensa na totalidade e desenha-se em verdade ao Si-mesmo, longe dos conflitos insolúveis. Pois é isso o que um conflito moral e psicológico significa, quando olhamos para os acontecimentos e para nós próprios de modo parcial. Desencontrados dos nossos pares interiores, encontramos apenas a angústia que as meias soluções proporcionam, a irrealização e o desequilíbrio, porque ninguém voa com uma única asa, por mais forte, bonita, sábia ou treinada seja uma solitária asa. De Rumi, a poesia.

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Deus te joga de um sentimento ao outro
e te ensina por meio dos opostos,
de modo que terás duas asas para voar,
não uma.

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Eu mesma como desenhista amadora, antes de conhecer esses meandros da psicologia junguiana, do budismo e do sufismo, fiz desenhos em imagens que julgava serem apenas vindas do meu mais íntimo e exclusivo “instinto de artista” – o quer que isso signifique.

Ampliando as mandalas para alguns de meus arremedos de artista, e permanecendo nas figuras simples, considero as duas gravuras a seguir das minhas experiências mais minimalistas. A primeira foi feita rapidamente para ilustrar o meu primeiro escrito de próprio punho aqui mesmo para o Anoitan, Eros e Psiqué, falando justamente sobre essa mui significativa polaridade da psique, segundo James Hillman a mais significativa. Eu concordo, provam-no o que escrevo e desenho. A segunda ilustrou uma poesia de minha autoria também, aqui o link, falando, para variar, do mesmo assunto.

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E estas duas últimas gravuras me remetem a outro livro que li faz alguns anos, e é, assim me parece, o natural desdobramento das mandalas, quando se pensa bastante sobre elas, acabamos nas mandorlas.

Mandorlas são junções parciais ou completas de duas ou mais mandalas.

Voltando à gravura inicial, da psique segundo Jung, revista nesse momento, ela é em verdade uma mandorla, visto que sobrepõe uma estrutura de complexo consciente a outra inconsciente, sendo o meio composto pelo Si-mesmo. No sentido positivo o Si-mesmo realmente é o maior arquétipo da alteridade, sendo a última alteridade Deus, não o sexo oposto, cujo arquétipo mais representativo é o Animus-Anima.

O livro? Magia Interior, como dominar o lado sombrio da psique, de Robert A. Johnson, outro junguiano de carteirinha.

Nesse livro Johnson explora as mandorlas que geram figuras semelhantes a amêndoas, largamente empregadas na arte sacra e associadas a Cristo e Maria, já descobriremos os porquês.

Aqui algumas figuras áureas explodem.

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Mandorlas são a meu ver tentativas de expressão do macrocosmo assim como as mandalas mais simples são do microcosmo. Johnson afirma que as mandorlas começam tímidas, como pequenos filetes de lua que mal se entrecruzam, e que no caminho de se conciliarem chegam otimistamente até uma conjunção completa. A ideia mais significativa e que torna o livro citado memorável é de que o único poder mental capaz de conciliar opostos inconciliáveis é o paradoxo. De fato, grandes verdades iluminadoras são paradoxais.

Triângulos, estrelas, pirâmides, compõe o micro e o macro Cosmos.

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Mandalas se sobrepondo a mandalas, em todas as dimensões, a mandala final seria a do próprio Universo.

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Não quero e não conseguiria esgotar assunto que nem é do meu domínio, deixo a tarefa aos estudiosos da geometria sagrada.

Concluo apenas de que quando sobrepomos mandalas obtemos figuras consideradas sagradas, geometricamente perfeitas considerando a harmonia equidistante entre pontos e  linhas. Faz sentido serem associadas a Cristo, porque, como na Árvore da Vida, Cristo está ao centro – em Tiphereth – e em contato com todas as demais sephirots cabalísticas. Nesse sentido, Cristo é o meio entre os opostos, o conciliador, o passivo, o doador de vida e é, sem dúvida, um símbolo Yin, tanto por seu número ser par (6), como por carregar a própria imagem da amêndoa, ícone dos órgãos sexuais femininos.

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Síntese

A psique como fenômeno é a observação do modo como os sujeitos se organizam dadas as condições em que se encontrem, condições que estruturalmente são os determinantes arquetípicos.

Embora eu não entenda as estruturas arquetípicas como rígidas, compreendo seus elementos como básicos, portanto, poucos, portanto, simples. Principalmente se considerados em relação à psique, que varia a bem dizer infinitamente.

Dado este ponto de vista, o que existe de real – humanamente falando – é um jogo dual entre complementares arquetípicos que poderiam se metaforizar entre macho-fêmea, duro-maleável, arquétipo-representação, psique objetiva-psique subjetiva, todos referentes, é claro, do primordial Yang-Yin. A psique maleável adquire os contornos dos vetores arquetípicos estruturais a que está sujeita, como o par alma-espírito, parecem ser dois agentes atuantes, são dois agentes atuantes, distintos, mas de um só organismo e para uma só manifestação fenomênica, que podemos dizer seja o próprio psiquismo vivo em agência de si mesmo – o trocadilho fica em aberto…

O fenômeno psíquico, embora invariavelmente misterioso, é também indireta e largamente verificável, percebe-se ser distinto não somente entre os indivíduos como no comportamento variável destes perante uma mesma situação, e o próprio indivíduo, varia ele mesmo ao longo de sua existência, reage diferente conforme aconteçam mudanças ao seu íntimo, posto que muda seu modo de se relacionar aos vetores arquetípicos adequados às suas novas descobertas. Dizer que uma pessoa não muda é ir contra todo o processo de individuação, pois ninguém nasce consciente de si, muito menos consciente do mundo, é preciso aprender a tornar-se em si mesmo…

Ciente de que a psique é sempre subjetiva, o que ela do seu ponto de vista conseguir observar dessa estrutura global não será, jamais, o arquétipo objetivo, dada a distorção permeada pela sua subjetividade. Chamamos a essas organizações da psique, então, de representações arquetípicas.

Compreender isso e as implicações decorrentes não só nos faz entender melhor o pensamento de Jung, de sua psicologia baseada em arquétipos, como nos dá a chave para a compreensão de todo o drama da vida existente no universo, em última instância, da impermanência da matéria-energia sobre o eterno silêncio imóvel no espaço-tempo.

Assim, o fato das psiques serem únicas, mutantes, complexas, maleáveis, fenômenos incapturáveis, não nos exime o trabalho de procurar compreendê-las e de tentar explicá-las, até mesmo de tentar classificá-las; igualmente o fato dos arquétipos serem insondáveis, não deverá nos impedir de tentar vislumbrá-los de alguma maneira. Esse texto foi essa tentativa.

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11 Respostas to “Mandalas, Mandorlas e Representações da Psique”

  1. adi said

    Sem,

    Fantástico seu post, perfeito, fiquei assim “sem palavras” tal a complexidade, profundeza e coerência… ao mesmo tempo com tanto pra ser comentado, porque sintetiza muito do que eu sinto e da maneira como o sinto.

    Passei parte da manhã degustando aqui, com tudo a que tinha direito (engraçado, agora me dei conta de que minhas percepções ultimamente estão no âmbito do paladar, rsrsrs) – bem, por onde começar ? (sinto que é assunto a se desenvolver por dias) – oras!! começa pelo começo, adi 🙂

    “Após a gravura fiquei pensando nessa capacidade de síntese das imagens, no quanto poucas linhas expressivas podem conter ideias complexas ou mesmo sistemas inteiros de compreensão do mundo, caso da gravura.
    Talvez a razão óbvia seja que pensemos por imagens, de que antes que nossas palavras brotem e frutifiquem em ideias alimentem-se primeiro das raízes da nossa imaginação”

    É assim que acho também o desenvolvimento da realidade, da percepção da realidade de cada indivíduo, de como ela se altera e dá forma a vida interior e se exterioriza criando a realidade experienciada. Isso é tão profundo, porque ser consciente disso nos torna totalmente responsáveis por tudo o que nos cerca e nos ocorre, nos torna responsáveis inteiramente pela nossa vida e tudo o que pertence a ela – conflitos, dores, saúde, alegrias, felicidade, realizações, etc –

    “Assim, podemos contar a nossa história pessoal e a da humanidade através de imagens, aliás, sequer nós existiríamos – enquanto indivíduos – sem antes construir uma auto-imagem, com a qual nos identifiquemos e nos apresentemos ao mundo. Por fim, toda a arte figurativa pode ser resumida em manipulação explícita ou implícita de imagens: a moda, a pintura, o cinema, o teatro, a literatura, a poesia, o desenho, a arquitetura, a fotografia, os games… Em sentido lato para a psique toda arte é figurativa e tudo é imagem.”

    Veio em boa hora o seu post, e a maneira como foi montado/amarrado, porque tenho um post “encalhado” que me faltou inspiração pra acabar. É sobre a iniciação de tiphereth e sobre a imagem de tiphereth. Porque é exatamente da maneira que entendo e vejo, o contato e a assimilação daquilo que ainda não somos conscientes se dá por meio da imagem dentro da nossa psiquê, e é assim que através do conjunto de imagens se cria um corpo de imagens que molda e dá forma à própria psiquê, ou seja, a ALMA. Por isso Hillman diz que é preciso fazer Alma. São uma quantidade enorme de imagens experiênciadas ao longo da vida que vai montando um quadro interior que se exterioriza, primeiro através do ego, das personas, e que se desconstroi e se modifica na medida que incorpora outros aspectos do próprio inconsciente, sempre através da “imagem” – e como muito bem colocado por vc, e como está na primeira mandala, temos consciência apenas da nossa pequena parte exteriorizada, e em oposição ao ego está a sombra, seu oposto polar porque está na face desconhecida da psiquê, depois está o animus/anima, que seria o complemento masculino/feminino no âmbito de nossos relacionamentos, amoroso inclusive, e que em nossa conjunção com ele, depois de já ter assimilado a sombra, é o ingrediente ou componente necessário pra ao menos dar certa forma ( corpo de imagens ) da própria Alma, ou psiquê individual – porque é à partir desse ponto que é possível a total tomada de consciência do Si-mesmo, ou da psiquê objetiva, ou seja, dos arquétipos que fazem parte das imagens coletivas, nossos mitos.

    Vou por partes e aos poucos, pra não ficar muito extenso e poder abordar mais profundamente trocando “receitas”, 🙂

    Adorei o seu post.

  2. adi said

    Só pra concluir, antes que eu perca o fio da meada do meu raciocínio, rsrsrs

    “( corpo de imagens ) da própria Alma, ou psiquê individual – porque é à partir desse ponto que é possível a total tomada de consciência do Si-mesmo, ou da psiquê objetiva, ou seja, dos arquétipos que fazem parte das imagens coletivas, nossos mitos.”

    Continuando então, quando esse “corpo/conjunto de imagens” está razoavelmente feito, ou seja, a Alma, então a consciência se desvincula do ego, do eu, e se transfere para esse “centro provisório” a Alma individual, – ainda esse corpo é limitado se comparado a abrangência do Si-mesmo, mas é onde o próprio Si-mesmo já se faz parcialmente presente.
    É aqui o chamado contato e conversação com o “Sagrado Anjo Guardião” das escolas esotéricas, mas pode ser descrito também com a iniciação de tipheret.

  3. Sem said

    “(engraçado, agora me dei conta de que minhas percepções ultimamente estão no âmbito do paladar, rsrsrs)”

    Ô Adi, é que é primavera na “cracóvia”! rsrsrs Desculpe, eu não sei o nome da região em q vc está, sei que fica mais ao sul e ao leste de Moscou, acho, por aí… rs
    O problema é que aqui estamos indo para o inverno… e isso me faz lembrar que eu preciso trabalhar… oh, vida, acho que só posso voltar aqui no final de semana…

    Queria te dizer apenas isso antes, não sabe como eu espero esse seu post sobre Tiphereth – talvez um outro sobre aura que vc tinha comentado a meses atrás… porque desses assuntos admito uma completa ignorância e necessidade de saber, me abasteço aqui…

    Bjão!
    Nos vemos

  4. adi said

    Aqui também pelo que me sobra do dia, estarei sem tempo de comentar, já são 18hs…

    Mas gostaria de dizer que estou muito feliz, quase em êxtase com seu post, e não é exagero não…
    foi o start que faltava, o link que conectou tantos conteúdos que estavam margeando, no limiar, como à deriva num mar, e que foram resgatados.

    No seu outro comentário lá no post “Contínuo espaço-tempo”, quando li, subiu uma corrente pela espinha que arrepiou o corpo inteiro, me senti como gato quando arrepia os pelos a começar pelo meio das costas… mas foi de emoção boa, muito boa.

    Vou fazendo minhas anotações pessoais e quando vc puder, a gente volta a trocar figurinhas. 😉

  5. Kpaxx said

    Lindo e sábio post.O Anoitan é uma benção para quem deseja aprender como eu.Estou no começo.Mas sempre existe o primeiro passo para tudo,não é?

  6. Sem said

    Kpaxx,

    Obrigada pelo comentário.
    Mas participe sempre daqui… tenha liberdade para sempre comentar, sugerir, perguntar, criticar… uma grande fonte de aprendizagem é a exposição, quer dizer, como nos expomos em comentários mesmo, com o que escrevemos e depois com os feedbacks que recebemos, nos fazem repensar…

    E disse uma grande verdade: todo mundo está sempre no primeiro passo de algo. 🙂

    Adi,

    Bom. É isso. 🙂

    Ando pensando na lua, o fato de ela ter um núcleo frio, de geologicamente ela ser um astro morto, o que é bem conveniente ao nosso planeta… imagina, se só a massa da lua já é capaz de interferir nas nossas marés, se ela tivesse um campo magnético forte, sendo tão próxima, modificaria o nosso, e, claro, toda a vida aqui…

    Pensando no Sistema Solar, parece que tudo foi feito na medida para termos vida na terra… mesmo assim, num equilíbrio muito delicado, e, temporário…

  7. adi said

    Interessante, porque fiquei pensando todos esses dias na “mandala”, em princípio como está lá no primeiro quadro, ou seja, como representação da psiquê individual, do Si-mesmo, e depois, fazendo as conexões, visto que cada um é uma mandala em si-mesmo, dos relacionamentos que há entre elas.

    Mandala é esse princípio que se aplica a todas as áreas de nossas vidas. Mandala é literalmente um círculo, e dizemos e nos referimos a todo momento ao nosso círculo familiar, nossa esfera de amigos, esfera mental, e nesse sentido, mandala pode ser equivalente ao termo ocidental “egrégora”.

    Mas, o que primeiro me remeteu foi novamente àquela analogia das “teias ou malhas” de relacionamentos e conexões. Cada um de nós ocupa o centro de nossa mandala pessoal familiar, de amigos, dos relacionamentos da internet, grupos de estudos, de colegas de trabalho, enfim, todas as pessoas com quem já nos relacionamos; ao mesmo tempo que somos cada um parte de outras inumeráveis mandalas. Há um padrão enorme de relacionamentos e por onde um fluir incessante de energia, como uma comunicação, uma troca, entre o centro e à periferia das mandalas. Nós não temos plena consciência desse enorme padrão de relacionamentos, mas eles acontecem em nossa vida cotidiana, e porque não somos conscientes, eles nos parecem imprevisíveis, caóticos.

    E eu sempre me lembro daquele conto taoísta, que quando um homem está em desarmonia todo o ambiente a sua volta fica em desarmonia, mas quando o homem entra em harmonia com o centro interior, toda a sua volta se transforma, porque há sim uma influência no ambiente, é a energia fluindo e correndo pelas mandalas conectadas.

  8. adi said

    E generalizando, como que temos dois modos operantes como forma de viver, se relacionar e perceber a vida, um é dentro da ótica da energia que se exterioriza através dos nossos filtros e condicionamentos, que distorcem a realidade tanto do que manifestamos de energia como o que obtemos
    de retorno das outras mandalas com as quais nos relacionamos.
    O outro modo de experienciar é livre desses mesmos condicionamentos. Esses condicionamentos é o que dá a falsa noção de um “ser/entidade/existir” em separado das demais partes, ou seja, o ego.

    Esses condicionamentos é o que dá a forma as nossas “ações” distorcidas no mundo, ou seja, o karma.

    E toda essa malha, ou rede de relacionamentos, quando percebida de um ponto de vista mais abrangente, parece tão simples, nos parece de uma natureza tão básica, rsrsrs. Mas quando voltamos pra nossa pequena percepção, olhando pra fora através dos próprios óculos escuros, dos nossos próprios conceitos, já não parece tão simples. Por isso é sempre importante se auto observar, reconhecer aqueles padrões de comportamento que tendem a se repetir e buscar a origem do conflito interior.

  9. olavo said

    aos poucos estou começando a entender esses complexos conceitos da psicologia analítica, por meio das leituras que tenho feito (gilbert durand, contos de fadas, r.d. laing, marie louise von franz, jung, ele mesmo..).
    em termos práticos colocaria assim: a persona sou eu mesmo, como me apresento concretamente ao mundo, como me vêem. a sombra é o que não se mostra, de imediato, de mim, o que está soterrado por camadas de condicionamentos, tabus, e que, de repente, pode aflorar. o ego (superego?) é o adulto em mim, o consciente, o freio moral, digamos. a ânima, o meu princípio feminino. o self é a parte numinosa, ‘divina’ e transcendente, o meu cerne mesmo (alma, espírito). mas é muuuito mais do que isso, eu sei. será que estou lendo ( e entendendo) direito?

  10. Sem said

    Olavo,

    Bem vindo ao clube! – ao clube dos buscadores do “Si-mesmo”… 🙂
    Não há promessa de conquista, apenas de caminhada. E trabalho para uma vida inteira, mas, mais do que busca de conhecimento, individuação é vivência.

    Quanto aos termos usados pela Psicologia Analítica, eles têm uma importância relativa em nossas conversas: são importantes, sim, no sentido de nos proporcionarem uma linguagem em comum, para trocarmos ideias, experiências, estando no mesmo canal de comunicação – nesse caso, confie e consulte sempre o dicionário da Rubedo, linkado no corpo do post – mas o que faremos do autoconhecimento é o que é…

    Na verdade todos esses termos que vc citou nos remetem a partes de nós mesmos, experiências que podemos ter, ou, modos de nos perceber… Só para falar de persona poderíamos gastar um e mais outros tantos posts, e sobre ego, idem, sombra então nem se fala (já existe um da Adi especificamente sobre Sombra perdido lá atrás), e, anima – bom, anima é alma, a própria psique, nossa subjetividade…

    Eu e a Adi temos discutindo esses e outros assuntos relacionados faz uns bons três anos aqui no Anoitan, e é pouco… e todos os que eventualmente aqui tem participado, o papo é esse, e tem sido menos ainda… como disse lá no começo, bem vindo!, fico contente que tenha se reunido a nós.

    Um abraço!

  11. Léa de Andrade Dias said

    Estou na faixa dos de cérebro exercitando e preciso dizer-te,menino, que tô chegada a Yung e vou acompanhar teu conhecimento para entender melhor. Trabalho com Mandalas para iniciar avaliação diagnóstica de corpo e alma. Prazer conhecer você e seguidores. Volto.

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