Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

O demônio são os outros

Posted by adi em abril 26, 2011

Antes de mais nada,  minha intenção com esse post não é uma crítica sobre a crítica, nem aos blogs que escrevem posts criticando outras posturas, críticas sempre fizeram parte do amadurecimento e crescimento do ser, mas é uma crítica à forma como a própria crítica é expressada nos “comentários” principalmente, de forma “agressiva e violenta” gratuitamente e sem necessidade.

Há vários debates e diálogos na internet, onde todos podem expor suas opiniões, e o que mais percebemos nos comentários são principalmente muitas críticas pejorativas. Nos blogs que participo normalmente as críticas  são sobre espiritualidade e religião, mas em outros blogs as críticas se estendem pelos mais diversos assuntos, desde que haja essa possibilidade de se comentar sobre alguma coisa ou sobre alguma pessoa.

E eu acho muito natural que cada um dialogue sobre os próprios conceitos e também sobre outros conceitos, como uma forma de autoconhecimento até.  É uma forma bacana de rever, de expandir horizontes, limites e fronteiras. Acho que muitas pessoas gostam bastante de conversar sobre esses assuntos metafísicos e espirituais, e mais ainda, apreciam um bom diálogo, não necessariamente uma concordância, na verdade  acho muito mais proveitoso quando surgem pontos divergentes e podemos expor essas questões, sem a necessidade de certezas absolutas e tentar compreender que se o seu conceito ou conceito do outro servir ótimo e obrigado, se não servir, a amizade é a mesma.

Mas o que eu acho totalmente desnecessário num debate ou diálogo, ou na maneira de expor uma opinião, é a forma como as pessoas acabam tentando impor sua própria realidade como se fosse “a verdade unica e absoluta” com agressividade até, algumas vezes com violência totalmente gratuita. E eu não acho que violência física é diferente de violência verbal, porque não é. Muitas vezes uma agressão verbal pode ser mais violenta que uma agressão física, porque não temos acesso direto ao “outro”  interlocutor, não o conhecemos, muito menos conhecemos seus limites.

Esse tipo de violência tem se tornado muito comum na internet, já desde bastante tempo e, basta alguém levantar uma questão contra outra pessoa, contra uma religião, contra um conceito, que vários outros cheios de razão se juntam e despejam sua parte de julgamentos, e o ponto aqui não é sobre o que está certo ou errado, se há fundamento nas críticas ou não, mas na forma agressiva como vêm sendo expostas. E é o que mais dá ibope e audiência nos blogs. Escreva um post sobre o amor universal, ninguém quase se interessa; escreva um post criticando de forma pejorativa alguém, ou alguma coisa, que vai render muitos comentários.

Pra mim, deixar a agressividade de lado, não se trata de uma questão falsa de moralismo e bons costumes, de quais palavras são certas e quais são erradas, quais podem ser ditas ou não, quais palavras são más e quais são boas, nem de conservadorismo, mas de coerência  com nós mesmos e por tabela com o próximo, de sermos consequentes e totalmente responsáveis por nossos atos e ações. Não há necessidade alguma de subjugo pra tornar uma opinião  convincente, muito pelo contrário, se o indivíduo já chega chutando o pau da barraca o outro vai se fechar todo e se proteger em suas próprias opiniões defendendo seu território de crenças, e nesse caso não há diálogo, não há abertura, só fica guerrinha de opiniões.

O mundo é violento e continua violento porque o ser humano é violento, está intrínseco no homem ser violento. Todo o mundo sonha com a paz, mas ninguém quer se responsabilizar pela paz de seu pequeno meio ambiente, muito menos pela que lhe cabe e lhe pertence, a interior. Cuidar desses assuntos pertence aos governos, escolas, instituições religiosas, filosofias e até mesmo as ongs.

E aí o assunto sempre volta nas rodas dos blogs espiritualistas, como no eterno retorno, e qualquer evento envolvendo deus, conceitos e religião, já dá pano pra manga, e tem sempre que ter um culpado, um errado, um bode expiatório pra todo mundo malhar, e aquilo que a gente assiste nas guerras lá fora, no eterno combate entre os fundamentalistas das várias facções religiosas, de forma semelhante continua a se repetir no mundo virtual.

Mês passado eu assisti o filme “The experiment”,  muito interessante por sinal, onde cidadãos comuns da sociedade como voluntários “pagos”, claro, participam de uma experiência dentro de uma prisão, o grupo dos escolhidos são divididos em dois, uma parte como guardas, e a outra parte como prisioneiros. A trama se desenvolve em cima disso, e dá pra perceber direitinho que “o sistema” de aprisionamento, de controle através da humilhação, subjugo, de fazer o outro se sentir um ninguém, do controle pela imposição através da força e violência, está bem imbuído “dentro de cada ser humano”; exatamente, não vem só de fora pra dentro, está dentro de nós e por isso se estende por toda a sociedade, ele se perpetua e se fortalece pela repressão, violência e constante luta .

Esse é o ponto, o ser humano “se esforça muito”  pra modificar os outros e por isso a luta externa, mas não pra modificar a si mesmo. Fica lutando contra o sistema de aprisionamento dentro dos outros, e esquece que primeiro tem que se libertar ele próprio do sistema bem intrínseco em si. O combate e a luta com o dragão devorador e insaciável de poder  se dá dentro de cada ser e somente cada um pode vencer a si mesmo.

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10 Respostas to “O demônio são os outros”

  1. adi said

    Nossa, eu acabei de escrever esse post e lembrei muito no Felipi Wells, de uma dica que ele me deu faz tempo lá no F.A., e foi de uma forma tão bacana e amigável que eu nunca mais esqueci, me marcou muito positivamente. Também me lembrei do post dele aqui no Anoitan sobre o Sarney, porque é bem por aí, o sistema que a gente vê todinho espalhado pelo mundo afora, não vai mudar de fora pra dentro, mas só vai mudando com a mudança interior de cada um…

  2. é complicado!

    tambem nao gosto muito desse lance de blogs metidos a formadores de opinião com discussões secas e unilaterais, mas confesso que muitas vezes é dificil fugir disso. =S

    mas, vamos tentando neah o/

    essa semana eu vi uma manchete (manchete pq não era se quer uma reportagem) de uma mulher que salvo um bebe de uma queda do quarto andar e fiquei admirado sabe com a coragem e tal. Pra ela ninguem quiz perguntar se sofreu trauma ou não o por que sabe? agora pro mano de Realengo se pá vai ter livro, documentário etc.. é só esperar…

    sobre as dicussões sobre religiões eu escrevi um post muito relacionado ao tema e gostaria de te convidar para ler

    Luminária =]

    segue o link: http://inconscienteflutuante.blogspot.com/2011/04/luminaria.html

    abraços

    End Fernandes

    =]

  3. adi said

    Oi End,

    Eu vou ler seu post com o maior prazer, agora estou de saida “urgente”, mas depois vou lá correndo, obrigado pelo convite.

    Fiz um adendo ao post pra ficar mais claro minha intençãO.

    abs

  4. Sem said

    Caindo de pára-quedas aqui, Adi… certamente tudo já foi dito pelos grandes sábios e mestres da humanidade, mas, disse o André Gide, “como ninguém escuta é preciso sempre dizer de novo”…

    Claro por mais que se diga e se repita os ensinamentos dos mestres iluminados da humanidade, a coisa toda é interna, é onde cada um primeiro precisa se resolver… essa divisão é a verdadeira angústia do homem (“o inferno são os outros”) e que se sente tal qual uma ferida de carne expulsa do paraíso, essa é a dimensão da dor, sentir que algo foi “roubado” de nós… daí a se buscar um culpado e o que se fará com essa dor de falta, alguns se matam e outros saem matando…

    Por isso o amor é a força maior do mundo e sem amor nem a “língua dos anjos” tem valor… só que em nome do amor se faz coisas que definitivamente não são amor… como então saber o que é o amor? volta-se aos mestres, que não se escuta…

    Aqui no Brasil vai estrear essa semana um filme do João Jardim, o mesmo diretor do documentário “Lixo Extraordinário” e que concorreu ao Oscar desse ano… se o filme ficar disponível na Internet, procura assistir… chama-se “Amor?”, baseado em depoimentos de pessoas iguais a nós, em busca de amor, e de como vivendo o grande amor de suas vidas, de repente, esse sentimento vira ciúme, ódio, agressão verbal, física, possessão… sendo desse diretor não é um filme imaturo, então, no filme não vai haver vítimas nem carrascos, vão existir cúmplices… acho que faz um reflexão aqui ao seu texto, e eu, que estou esperando pelo filme, vou aqui pensando na “enantiodromia” do sentimento… esse fenômeno que já Heráclito dizia de a coisa se transformar em seu oposto – como uma linha móvel no I Ching… e que quanto mais inconscientes somos de nós e da situação, mais nos pega de surpresa…

    E não é que tudo pode começar na relação com nossos pais?

    Lembrei de pedaços de uma música dos anos 80, de Renato Russo, Pais e Filhos…

    (…)
    Dorme agora.
    É só o vento lá fora.
    (…)
    Me diz porque que o céu é azul.
    Explica a grande fúria do mundo.
    (…)
    É preciso amar as pessoas como se
    Não houvesse amanhã.
    Porque se você parar para pensar,
    Na verdade não há.
    (…)
    Você me diz que seus pais não lhe entendem.
    Mas você não entende seus pais.

    Você culpa seus pais por tudo.
    E isso é absurdo.
    São crianças como você
    O que você vai ser, quando você crescer?

    …….

    Aqui o clip com a música inteira… tem cenas fortes, mas, nenhuma surpresa, todos nós já fomos expostos a essas e outras semelhantes nesses últimos anos… o áudio tá ótimo…

  5. adi said

    Olá again End,

    Li seu post e gostei muito, muito bom e muito sensível e é assim que entendo também. Parabéns!

    De fato, há uma necessidade de depreciação grande, gigante, que vai engolindo a massa como um meme, uma necessidade de espalhar notícias desagradáveis, como se aquele jornalzinho barato e sensacionalista se espalhasse pra dentro da cabeça das pessoas. E é o que vende, é o que mais vende ou dá audiência, já sobre a mulher que se arriscou pra salvar o bebê, bem não tem tanto valor assim em nossa sociedade.

    Pois é! é complicadíssimo, esse jogo na net, e é uma coisa que venho observando faz tempo até.

    E dá pra gente perceber que mesmo nesse meio dito espiritualista e de pessoas teoricamente de mente aberta, como ainda existe pré conceito com os de outra fé. Eu não sou a favor nem contra instituições, cada um sabe por si, cada um tem que se responsabilizar por suas escolhas…

    Abraços

  6. Sem said

    Um pouco de filosofia

    “Todo poder é triste, mesmo se aqueles que o detêm se alegrem em tê-lo.” Gilles Deleuze

  7. adi said

    Oi Sem,

    “Claro por mais que se diga e se repita os ensinamentos dos mestres iluminados da humanidade, a coisa toda é interna, é onde cada um primeiro precisa se resolver… essa divisão é a verdadeira angústia do homem (“o inferno são os outros”) e que se sente tal qual uma ferida de carne expulsa do paraíso, essa é a dimensão da dor, sentir que algo foi “roubado” de nós… daí a se buscar um culpado e o que se fará com essa dor de falta, alguns se matam e outros saem matando…”

    É isso mesmo Sem, exatamente dessa forma, por mais que seja um bordão desgastado até por tantas vezes repetidos, da coisa toda ser interna, há uma resistência muito grande em se olhar pra dentro e ter que mudar. Seria tão fácil reconhecer que o pior inimigo e o melhor amigo estão bem “ali dentro” de cada um, mas o fácil é sempre o mais difícil, como já disseram também. A projeção é um eficiente meio de autodefesa e autoproteção, é o primeiro contato com a realidade interior,

    bjs

  8. Sem said

    Adi, as coisas lindas que vc disse… vou falar de beleza… ver a composição do todo é ver a beleza do mundo… uma experiência de Tiphareth não é assim? e que será a Beleza: uma deusa; um deus; um número; um vitral caleidoscópico; um Ser; uma experiência de amor; de filosofia; religião? mesmo que essa beleza esteja longe dos padrões estéticos considerados os mais perfeitos em sociedade, seja até monstruoso para esses padrões, é a maior epifania estética que podemos experimentar em vida – a beleza que vemos com os olhos da alma…

    Lembro em “O Mito da Análise” o Hillman (olha, se um dia vc quiser começar por um livro do Hillman, começa por esse, vc não vai se arrepender… :)) bom, eu lembro dele comparar a beleza de Afrodite a de Psiqué e justificar a da última como ainda mais arrebatadora que a própria visão da deusa e mãe do Amor, simplesmente pq Psiqué junto a Eros é a deusa mito do nosso psiquismo – a própria história da nossa alma, e é desse tipo de beleza muito particular que estamos falando aqui…

    Agora outra e a mesma coisa, um presente que vou repassar, irá certamente te emocionar e fazer rir como me fez rir e sentir tanta ternura por todos nós, tão carentes nós todos de carinho e de atenção – e de reconhecimento amoroso (vou juntar um poema do Mario Quintana)…

    É o vídeo de um comercial premiado de alguns anos atrás e que eu recebi hoje… e ter acontecido hoje encaro como um daqueles eventos sincronísticos da rede do Ser em que estamos todos até a medula enroscados… assista e depois me diga se não é exatamente isso… 🙂

    ……………………

    O único da casa que enxerga o vento é o cachorro. Detém-se à porta da cozinha, rosnando para o pátio ventado, cheio de latas inquietas e papéis decididamente malucos.
    E nos seus olhos fixos e rancorosos vê-se o desvario do vento, a incurabilidade do vento, os seus cabelos em corrupio, os seus braços que parecem mil, os seus trapos flutuantes de espantalho, toda aquela agitação sem causa que é ainda menos instável, no entretanto, que a terrível desordem da sua cabeça: pois o vento nunca pode assentar as idéias…

    Mario Quintana

    ……………………

  9. adi said

    Oi Sem,

    Agora que consegui assistir até o fim o vídeo de Deleuze, muito interessante. Gostei bastante da comparação que ele faz entre o poder e potência, de suas diferenças. Sobre o impedimento de se realizar a potência, e como o menor grau da potência, “o poder”, é mau por natureza. Potência é alegria de ser.

    ” Regozijar-se é estar alegre pelo que somos, por ter chegado onde estamos ”

    Muito bom. 🙂

  10. adi said

    “ver a composição do todo é ver a beleza do mundo… uma experiência de Tiphareth não é assim? ”

    Eu tenho comigo que sim, é sim, beleza e harmonia uma experiência de Tiphareth. Eu tenho um post começado sobre Tiphareth, vou ver se termino essa semana. Há muita mistificação sobre a “tal conversação com o Anjo”, o que confunde muito quem está procurando esse objetivo.

    “e que será a Beleza: uma deusa; um deus; um número; um vitral caleidoscópico; um Ser; uma experiência de amor; de filosofia; religião? mesmo que essa beleza esteja longe dos padrões estéticos considerados os mais perfeitos em sociedade, seja até monstruoso para esses padrões, é a maior epifania estética que podemos experimentar em vida – a beleza que vemos com os olhos da alma…”

    Você que é poetisa deve ter como fonte de inspiração essa eterna beleza da alma que balbucia as palavras. E é bem isso mesmo Sem, é ver com os olhos da alma. Que é como dito por D. Juan a Castaneda (eu sempre me lembro disso): Ver é diferente de olhar, porque Ver é o que leva um homem de conhecimento a perceber a essência das coisas do mundo.

    “a própria história da nossa alma, e é desse tipo de beleza muito particular que estamos falando aqui… ”

    E alma é amor e é a consciência dentro de cada homem, porque é a consciência que torna a unir as nossas partes perdidas.

    Bacana o poema e o vídeo, tão desajeitado com os outros, no fundo só queria chamar atenção, queria carinho, uma amizade… é de emocionar :). Será que no fundo também usamos de agressividade no sentido do post, pra ganhar “amor”? Talvez, mesmo que não seja percebido, ao menos pra tirar energia do outro, porque a satisfação que sente ao ofender o outro, é como um ópio. Vendo o Deleuze falando, a sensação do poder é a corrupção do homem, porque leva a tanta outras coisas ou formas de controle pra se obter poder, é um assunto que rende bastante. 🙂

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