Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

O tambor no xamanismo e o efeito do som

Posted by adi em setembro 14, 2010

Um dos principais intrumentos na prática de magia e ritualística dos xamãs é o tambor. Segundo Mircea Elíade, o simbolismo do tambor é complexo e suas funções mágicas são múltiplas. O tambor é indispensável durante o ritual, seja por levar o xamã para o “centro do mundo”, por permitir que ele voe pelos ares, por chamar e aprisionar os espíritos, seja, enfim, porque a tomborilada permite que o xamã se concentre e restabeleça o contato com o mundo espiritual que está prestes a percorrer.

Tanto a caixa quanto a pele do tambor constituem instrumento mágico-religiosos, pois a escolha da madeira/árvore com a qual será fabricada a caixa do tambor depende dos “espíritos”, ou de uma vontade trans-humana. Esse costume da árvore ser escolhida pelos espíritos sugere que a árvore concreta foi transformada pela revelação espiritual e que, na realidade, deixou de ser uma árvore profana e passou a representar a própria Árvore do Mundo. A membrana de pele do tambor dos xamãs siberianos normalmente é de rena, alce ou cavalo e representa o espírito do animal primordial que é a origem de sua tribo, portanto, é seu espírito auxiliar mais poderoso e quando penetra no xamã, este se transforma no animal mítico teriomórfico.

Em diversas tradições, o ancestral mítico teriomórfico vive no mundo subterrâneo, perto da raiz da Árvore Cósmica, cujo topo atinge o céu. Por um lado, o xamã ao tocar seu tambor, voa em direção à Árvore Cósmica, e devido a isso, o tambor contém muitos símbolos ascencionais. Também, devido suas relações místicas com a pele do tambor, o xamã consegue compartilhar da natureza do ancestral teriomórfico, ou seja, consegue abolir o tempo e recuperar a condição original de que falam os mitos.Tanto num caso como no outro, estamos diante de uma experiência mística que permiter ao xamã transcender o tempo e o espaço. A metamorfose em animal ancestral e o êxtase ascensional são expressões diferentes, porém equiparáveis, de uma mesma experiência, a transcendência da condição profana, a recuperação de uma existência paradisíaca perdida no final dos tempos míticos.

A imagística dos tambores é dominada pelo simbolismo da viagem extática, isto é, das viagens que implicam uma ruptura de nível, e portanto, um “Centro do Mundo”.

Mas além da imagística, não podemos esquecer que o som ritmado do tambor é um meio eficiente de indução de transe.  Sabe-se que o estado de transe pode ocorrer facilmente quando padrões rítmicos repetidos são ouvidos por tempo suficientemente prolongado.

O ritmo dos tambores facilita os estado alterado de consciência e a viagem do xamã, através de vários mecanismos. Primeiro age como dispositivo de concentração que lembra continuamente o xamã de seu propósito e reduz a incessante necessidade de divagação da mente. Os tambores também fazem submergir outros possíveis estímulos geradores de distração, permitindo ao xamã que sua atenção seja centrada no interior. A concentração intensificada parece ser um elemento chave em todas as disciplinas espirituais eficientes, e os xamãs parecem ter encontrado um dos meios mais rápidos e fáceis de alcançá-la. Eles sempre souberam, e sempre se utilizaram desse valoroso instrumento.

Só atualmente é que os cientistas vem pesquisando e descobrindo os efeitos desse tipo de som em nosso cérebro.

Nosso cérebro circula através dos quatro tipos de ondas cerebrais, referidas como delta, theta, alfa e beta. Cada tipo de onda cerebral representa uma velocidade diferente de oscilação de voltagens elétricas no cérebro, e estão relacionadas com as mudanças dos estados de consciência.

Ondas Beta: São as ondas mais rápidas, 13 a 30 Hz. Este é o padrão que obtemos ao monitorizar o nosso cérebro durante o estado de vigília. Nessa frequência estamos bem despertos e alertas. A mente está concentrada e preparada para a execução de trabalhos que requerem atenção, concentração e cognição. Corresponde a tudo o que é ligado à lógica, ao raciocínio e ao pensamento, é a consciência que temos do mundo material percebida através dos nossos cinco sentidos.

Ondas Alfa: Mais lentas que as Beta, 7 a 13 Hz. Estão normalmente associadas a um estado de maior tranquilidade e relaxamento, paz e bem estar. Podem ser encontradas durante os estados meditativos mais comuns. É o estado de relaxamento profundo, corresponde ao pré-sono ou adormecimento. É a frequência do campo eletromagnético da Terra – Schumann Ressonance.

Ondas Theta: 3 a 7 Hz. Estão associadas a um estado de grande capacidade de reminiscência, criatividade e visualização, inspiração e conceitos holistas. É o padrão cerebral representativo do sono REM, ou seja, do sonho. É onde temos acesso ao inconsciente e onde podemos reviver cenas que causaram traumas no passado e nos curarmos das sequelas que foram deixadas por eles. Theta também é o estado ideal  para desfazer condicionamentos e crenças.

Ondas Delta: São as mais lentas dos 4 padrões principais, 1 a 3 Hz. Estão associadas ao sono profundo sem sonho, ao estado de coma, e de anestesia geral. É em Delta que é liberado o hormônio GH, hormônio do crescimento, e que em adultos atua como regeneração celular, portanto o hormônio da juventude.

Citando só um exemplo de como é fundamental uma mente calma e tranquila: Quando estamos sob stress,  ansiedade e tensão, nosso cérebro reage liberando um hormônio chamado adrenocorticotrófico, entre outros que controlam o metabolismo e o equilíbrio de líquidos no corpo. Esse hormônio estimula as glândulas supra-renais a produzir adrenalina, noradrenalina e cortizol em nossa circulação, acelerando nosso ritmo respiratório e batimento cardíaco, elevando nossa pressão sanguínea, os músculos e o cérebro recebem mais sangue, em consequência o aparelho digestivo diminui a capacidade e a pele recebe menos sangue. Nosso estado mental fica em extremo alerta. Os pesquisadores acreditam que é uma reação que existe desde o tempo em que o homem precisava de uma resposta corporal aos perigos existentes. Em nossos dias, esse estado contínuo de stress é a causa de inúmeros problemas de saúde, desde insônia, mal funcionamento do aparelho digestivo, sobrecarga cardíaca, etc. Não conseguimos relaxar sob stress, nosso estado cerebral está sempre em alerta total. Quanto mais elevadas nossas ondas cerebrais, menor nossa consciência e capacidade de aprendizado, e mais instintivos e menos intuitivos nos tornamos.

De outro lado, já as práticas e técnicas de expansão da consciência, têm o poder de baixar as ondas cerebrais, liberar hormônios do bem estar e trazer equilíbrio ao organismo.

Compreendemos que, nossos estados de consciência estão vinculados a nossa frequência de ondas cerebrais, e que nos dias atuais,  essas técnicas e práticas milenares que visam estados alterados de consciência, estão acessíveis e disponíveis à todos aqueles que se interessarem. Além do tambor, a meditação, yoga, mantras e danças rítmicas, e também, porque não, os sons binaurais, são técnicas seguras de se obter estados alterados de consciência, e consequente paz, equilíbrio, saúde física, espiritual e mental.

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Fontes e ref.: Mircea Elíade, Técnicas Arcaicas do Êxtase; Holosonic.

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10 Respostas to “O tambor no xamanismo e o efeito do som”

  1. Muito bom esse texto, “o sooom do meu tambor nao faz mal a ninguem naaaooo” =D O som dos tambores me encanta!

  2. adi said

    Oi End,

    Bacana a tamborilada, né? e é bom saber que é esse ritmo que auxilia em muito o estado alterado de consciência dos xamãs, propiciando o encontro com o sagrado.

    Tenho escutado os binaurais do youtube mesmo, que tem o mesmo efeito do tambor, e tem surtido bom efeito junto com a meditação, a concentração ocorre muito mais rápido. O único problema é que a duração é pequena, em torno de 10 minutos.

    Este aqui é bem legal:

    abs

  3. Sem said

    Esse assunto é muito bom, mas eu só sei que os tambores vieram da África, se espalharam pelo mundo e em nenhum outro lugar parece que tocam como aqui, no Brasil… Samba, Olodum, Timbalada… Como eu sou do sul, não sou muito de “axé” não, mas gosto de samba desde pequena e quem resiste Timbalada, Daniela Mercury e Carlinhos Brown… Beija-Flor…

    Quem lembra dos chineses na abertura dos jogos em Pequim há 2 anos atrás? E alguém já ouviu (e viu) a dança folclórica irlandesa?

    Por outro lado, ou até por conta do ritmo ancestral, existe um preconceito contra tambor na Europa e na cultura do Atlântico Norte em geral, que privilegiam as cordas, o piano, a harpa, o violino, a flauta mesmo…

    Mas e o sapateado e o blues que nasceu com os negros de New Orleans? e não é o jazz pai do rock? entendo muito pouco de música…

    Abs

  4. adi said

    Oi Sem,

    Eu também não entendo muito de música, mas dá pra perceber que a música surte um efeito bem bacana nos estados de humor, potencializando.

    Sabe aqueles dias quando já estamos de bem com a vida, toca uma música que você gosta, e esse bem estar até sai pelos poros… pois é, e quando muitas vezes estamos um pouco tristes, então certas músicas acabam intensificando essa tristeza ao ponto de extravasá-la.

    O que eu achei muito interessante com relação ao uso do tambor na ritualística, é justamente o efeito que causa nas ondas cerebrais, que ao que tudo indica, nos casos dos xamãs ficam na faixa Theta, que é o padrão da visualização e imagística no transe ou êxtase. O xamã de fato tem acesso a essa camada do inconsciente coletivo ou psiquê objetiva, onde se tem acesso a Alma de tudo, e assim pode realizar a cura no outro.

    “Por outro lado, ou até por conta do ritmo ancestral, existe um preconceito contra tambor na Europa e na cultura do Atlântico Norte em geral, que privilegiam as cordas, o piano, a harpa, o violino, a flauta mesmo… ”

    Talvez por esse motivo nós perdemos a capacidade de nos curarmos, talvez por isso nós perdemos o contato com o sagrado dentro de nós, projetando-o pra fora.

    Eu havia me esquecido dos tambores na abertura dos jogos em Pequim, foi emocionante, como um chamado de guerra e de união. E o tambor tem essa magia mesmo de chamar/despertar a “força instintiva” e conduzi-la pra um objetivo, quer seja alegrar, dançar, correr, lutar, etc…
    muito interessante.

    bjs

  5. Claudia said

    Muito bom! seu texto foi muito útil! amei!!!
    Acabei de ver uma máteria do History sobre Stonehenge que fala sobre sons de tambores e a acústica do local que favorece os estados de transe,etc…..deu vontade de ouvir tambores….

  6. adi said

    Oi Claudia, seja bem vinda aqui no Anoitan.

    “Muito bom! seu texto foi muito útil! amei!!!”

    Que bom que você gostou. O som do tambor é mesmo “encantador”…

    🙂

  7. Regina Maria Barbosa de Carvlho Goerlich said

    Oi gente, eu também assití a matéria no history e me deu também vontade de escutar o som dos tambores e por isso aqui estou. O som dos tambores e dos anseios do meu coração me levaram até voçês que tem a mesma inclinação e linguagem. Estou feliz por encontrar esse ‘espaçoplanetário no anoitan.wordpress.com. Muito prazer, Regina.

  8. adi said

    Oi Regina,

    Seja muito bem vinda aqui no Anoitan.

    Estou também feliz de você nos encontrar, obrigada por participar.

    Abs
    adi

  9. daniel othechar ferreira said

    lindo post,sou musico terapeuta e trabalho c tambores,sinto a força deles,no momento estou peskisando sobre meditação c tambores atraves d harmonias e melodias ritmicas e mantricas,em breve compartilharei aki algun video sobre o assunto…saudações…

  10. adi said

    Olá Daniel, seja muito bem vindo aqui.

    Muito obrigada pela participação. Será um prazer assistir ao vídeo sobre esse assunto. 🙂

    Saudações.

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