Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Uma resposta para o Bem X Mal

Posted by Sem em setembro 1, 2010

Como o meu comentário em resposta ao post Bem X Mal excedeu em tamanho e avolumou-se nas questões imbricadas em decorrência ao tema, resolvi abrir um post comentário-resposta às questões inicialmente lá levantadas pela Adi, a autora do post, e depois desenvolvidas nos comentários.

Adi, reconheço a minha incapacidade em sintetizar num único comentário uma resposta cabível a tema que no meu entender alavanca o mundo, a questão das dualidades. Conto com a sua compreensão, sempre tão generosa, e aproveito para agradecer a oportunidade que você nos trouxe, a mim e aos leitores do Anoitan – eu particularmente encaro a oportunidade como um desafio em dar continuidade àquelas minhas especulações e teorias a respeito das relações… Por todos os lados, minha cara Adi, muito obrigada!

No entanto eu temo que em meio a assunto com tantas imbricações, arrisque me perder por esses labirínticos espaços do céu e do inferno, do autoconhecimento e da construção da moral do homem pelo homem. Devo tornar brevemente ao assunto da luta que vem se arrastando por séculos e conta com o tempo da história da nossa civilização, a luta entre o monismo de Parmênides e o atomismo de Demócrito. Este assunto, especificamente, foi pauta de outro post meu, pode ser lido por aqui. Neste de cá pretendo me demorar nas abordagens competitivas e/ou colaborativas que as pessoas estabelecem em suas relações – válido para todas as pessoas e todas as relações, sem exceções. E pretendo justificar por qual motivo avalio positivas ou negativas, não as ações em si do competir ou colaborar, mas o modo pelo qual os sujeitos são afirmados ou negados, que eu entendo como os princípios agregadores ou desagregadores que transparecem nas relações. Vou falar também de como me nasceu esta ideia através do meu trabalho em educação com jogos…

Vamos lá, começar do começo, que de outro lugar seria impossível, e estender um fio pelos tortuosos corredores das regras e das leis que os homens inventam para regular sua convivência, para chegar ao ambicionado centro, não de uma moralidade única, perfeita, eterna, mas, de uma ética permeada ao viver humano. É muita coisa, estou com medo de me perder…

Há muitos anos trabalho com educação, é um campo de muitos interesses, a saber, filosóficos, políticos, econômicos, sociais, humanos… A educação envolve muitas searas, mas em nenhuma delas vou me deter – são em geral complicadas essas análises que exigem contexto político e histórico e, cá entre nós, são chatas até para quem é da área. A questão é que entre as inúmeras possibilidades que o campo educativo nos acena, aos seus estudiosos e profissionais, eu escolhi ficar com o último filão, com a parte humana da coisa digamos… Sempre quis entender o inextricável campo das relações humanas, para responder, por exemplo, o que faz as pessoas se procurarem em outros e porque elegem umas como próximas e outras como estranhas… Minha busca por conhecimento do que vai na alma do homem me fez uma eterna pesquisadora da psicologia. É ela – a psicologia – que fornece as melhores respostas para as perguntas que faço. Mas como as perguntas são sempre outras e as respostas nunca conclusivas, continuo pesquisando.

Dentro da educação acabei me especializando em jogos, me refiro em parte às dinâmicas de grupo, que são da minha formação em orientação educacional, e mais especificamente ainda aos jogos de passatempo, os de raciocínio principalmente, esses em que as pessoas se põem em manifesto ao jogar. Na verdade, em tudo o que as pessoas fazem, revelam um aspecto do interior delas mesmas, mas é nos jogos que a ação dos jogadores acontece de modo indisfarçável e sem tantos intermediários.

Numa das premissas – da linha comportamental – do Eric Berne, com a qual estou de acordo (com a premissa, não com a linha), as pessoas consomem a maioria do seu tempo de vida em jogos, sociais e íntimos, desde os construtivos até os assassinos e suicidas.

Na educação, jogos estão longe de serem meros passatempos lúdicos, são ferramentas altamente pedagógicas e de autoconhecimento para seus jogadores. Jogos são, enfim, meios divertidos e também dolorosos para alguém descobrir seus talentos e limites…

Eu faço projetos conjuntos em jogos com professores de diversas áreas, professores de Educação Física, de Matemática, de Artes, entre outras… Obviamente que não concorro com o talento dos meus colegas em suas respectivas áreas, o meu quinhão nos projetos fica com a parte da cognição intelectual, que a dinâmica dos jogos de raciocínio pressupõe.  Acresce que desde jovem tenho envolvimento com competições de xadrez. Portanto, sei diferenciar, na pele e não apenas em tese, a parte competitiva da parte colaborativa de um jogo. E é com convicção que afirmo que ambas as facetas nos jogos são necessárias.

O jogo de xadrez, por suas regras simples e de poucos elementos, mas com desenvolvimento complexo – comparável à música e à matemática –, se não é o melhor, é um dos melhores jogos para se trabalhar no ambiente escolar. Mas a contribuição maior do xadrez não credito aos decantados desafios intelectuais – é sempre uma minoria que se beneficia com eles, a meu ver, a principal contribuição do xadrez escolar é a socialização… Eu até hoje pelo menos não testemunhei outro jogo que proporcione maior dinâmica pedagógica do que este.

Vale o esclarecimento que eu não realizo e não incentivo o trabalho em educação com o xadrez competitivo. Pois a natureza do jogo já contém em si elementos de competição que não precisam ser exacerbados. O mérito do xadrez escolar – que se popularizou bastante no Brasil nos últimos anos, principalmente nas regiões Sul e Sudeste do país –, é a de um instrumento base para o seu praticante, de autoconhecimento, de relação, de alteridade, é enfim uma ferramenta de lazer que o estudante levará para a sua vida. Ou seja, mais importante que jogar para ganhar, é extrair prazer em jogar. E a cada jogador existe uma descoberta esperando, ela não é igual para ninguém, são diversas, como diversos são os desafios pessoais a que cada qual se propõe ou mesmo necessita enfrentar.

Analogias entre o jogo de xadrez e a vida não faltam, Jorge Luis Borges que o diga – ele disse, profundamente, num poema chamado Ajedrez (Xadrez). Aqui uma versão deste clássico borginiano traduzido por Renato Suttana:

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I

Em seu grave rincão, os jogadores

as peças vão movendo. O tabuleiro

retarda-os até a aurora em seu severo

âmbito, em que se odeiam duas cores.

Dentro irradiam mágicos rigores

as formas: torre homérica, ligeiro

cavalo, armada rainha, rei postreiro,

oblíquo bispo e peões agressores.

Quando esses jogadores tenham ido,

quando o amplo tempo os haja consumido,

por certo não terá cessado o rito.

Foi no Oriente que se armou tal guerra,

cujo anfiteatro é hoje toda a terra.

Como aquele outro, este jogo é infinito.

II

Rei tênue, torto bispo, encarniçada

rainha, torre direta e peão ladino

por sobre o negro e o branco do caminho

buscam e libram a batalha armada.

Desconhecem que a mão assinalada

do jogador governa seu destino,

não sabem que um rigor adamantino

sujeita seu arbítrio e sua jornada.

Também o jogador é prisioneiro

(diz-nos Omar) de um outro tabuleiro

de negras noites e de brancos dias.

Deus move o jogador, e este a peleja.

Que deus por trás de Deus a trama enseja

de poeira e tempo e sonho e agonias?

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Adentrando na questão do Bem e do Mal…

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Foi do meu conhecimento prático e teórico em pedagogia e xadrez que nasceu o meu postulado de que todo indivíduo, ao entrar numa relação, se aproxima do outro por competição ou colaboração com ele. A proposição básica inicial á essa, bastante simples, mas, no seu desdobramento, sofrerá implicações que tornam a abordagem bastante complexa. Seguem pontuadas algumas, as que considero principais:

• Não existe uma intenção ou ação humana que seja propriamente e apenas competitiva ou colaborativa. Tanto o competir quanto o colaborar se contaminam mutuamente – existe uma gama entre, ou, uma competição que colabora e uma colaboração que compete. Supondo, no entanto, uma faixa estendida que iria de um hipotético competir absoluto até um colaborar absoluto, a maioria das aproximações humanas corresponderia às regiões intermediárias. Na prática, os casos extremos são tanto mais raros quanto mais extremos forem.

Segue a imagem.

• Não se faz juízos de valor a uma ou outra abordagem – competição ou colaboração, esquerdo ou direito, branco ou negro, acima ou abaixo, são polaridades para o movimento da vida e não categorias morais numa escala de valores. Uma atitude equilibrada – próxima ao meio – nesse caso, não significaria ausência de energia ou libido, apenas liberdade para adentrar noutra faixa, supondo outras polaridades mais agudas e mais urgentes de serem trabalhadas.

Assim…

Embaralhei de propósito os pares de opostos com a intenção de desmistificar a lição vulgarmente aprendida em atribuir como “certo” tudo o que encontramos à direita e “errado” o que encontramos à esquerda. A moral construída em nossa cultura pode ser assim, mas a realidade anímica nunca – para a alma tudo o que existe É, merece existir. A alma sofre não com os dilemas morais entre o certo e o errado, entre o bom e o mau, mas goza na reunião do espírito com a carne e padece da sua desunião. A questão moral para a alma só se coloca enquanto “Bem” nesse movimento para o interior da agregação, sentido como Vida, e enquanto “Mal” no movimento para fora da desagregação, sentido como Vazio ou Nada.

Reitero meu pedido de sugestões de como ilustrar melhor o movimento interpenetrante da agregação, que eu vejo como espiral ao interior, e o movimento de desagregação que é o de afastamento deste “centro”. Além, é claro, das sobreposições entre as polaridades em jogo.

Abrindo um parêntese, numa tentativa de especular por terrenos holográficos, a possibilidade de uma ilustração mais fiel da realidade multifacetada poderia ser imaginada através de fitas de moebius inseridas umas nas outras.

A imagem é bela, caótica ao se movimentar e, certamente, não é gráfica. É o que seres tridimensionais como nós podemos perceber das 11 ou mais dimensões postuladas pela Teoria das Cordas – teoria quântica unificadora ainda em busca de comprovação científica e que, ao contrário do que se diz, não nega as partículas (nega apenas a teoria das partículas da física tradicional), pode vir um dia a comprovar que as partículas estão unidas por cordas, ou que as cordas são partículas, ou o contrário, as duas dependem do momento e do observador para se apresentarem como se apresentam, seja como for, elas são comunicantes

O postulado da teoria das cordas, de que tudo vibra no universo, está interligado e é comunicante, me parece a melhor teoria da física do momento. Assim, Demócrito, sempre esteve certo ao dizer, “por convenção existe o doce e existe o amargo; por convenção há o quente e o frio; mas na verdade há somente átomos e vazio”. E Parmênides também: “o Ser é; e o não-ser não é”. Eu encaro a controvérsia na física entre “partículas” versus “cordas” como a controvérsia entre o “atomismo” versus o “monismo” na filosofia. Há que se exercitar o & dessas relações como alternativa para criar novas histórias e não apenas de roupa nova recontar a velha história de sempre…

Apenas para constar, a figura é de um Calabi-Yau, ou o que seria um holograma baseado nessa imagem, derivado o nome dos matemáticos Eugenio Calabi e Shing-Tung Yau, que por cálculos geométricos, a mim verdadeiras monstruosidades, tentam demonstrar a existência da realidade multidimensional. E fecho o parêntese para voltar ao chão seguro. Seguro? Chão?

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• Quando se pensa numa teoria das relações, a primeira coisa que nos vem à mente são seres humanos se relacionando, mas, como já foi dito de passagem, as relações acontecem entre quaisquer elementos que entrem em interação. Não apenas os seres interagem entre si e com os objetos, os próprios objetos entre si, já que a teoria pretende dar conta de uma realidade anímica que foge do exclusivo liame racionalista e antropocêntrico de explicação.

Voltando um passo atrás – até o chão flutuante, onde tudo vibra e se comunica –, os movimentos acontecem ou para realizar a agregação do universo ou a sua desagregação… Não há dubiedade nessa questão, pois se trata de movimento e a direção só pode ser realizada num sentido de cada vez.

Nosso psiquismo funciona – assim parece – em conluio com a realidade do universo – melhor dizendo, do multiverso. Então, literalmente, tudo o que existe pode ser relacionado, é relacionável, pode competir e/ou colaborar, com ou contra, aquilo ou aqueles, seres e objetos, do seu entorno.

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• Dentro desse campo de vetores e energias que interagem como possibilidades, tomando do modelo taoísta, a competição é tanto mais comparável ao Yang quanto a colaboração é ao Yin. Poderíamos comparar também o lado esquerdo do cérebro, que lida com habilidades lógicas e finalistas, com as atitudes competitivas nos jogos, e, o lado direito, das percepções holísticas, com as atitudes colaborativas.

Por essa abordagem, neurológica, das dualidades, – e que já foram trazidas, discutidas, “retrazidas” e rediscutidas aqui mesmo no Anoitan, e também no antigo Franco-Atirador, fica evidente – e creio foi por essa razão que o assunto voltou à baila tantas vezes – de que o modo como o homem percebe o mundo é que vai caracterizar a sua forma de atuar nesse mesmo mundo. – Ou seria o mundo, como ele é organizado, que torna irresistível ao homem atuar de acordo?

Pelos exemplos trazidos, energia yin e yang, lado direito e esquerdo do cérebro, interior e exterior, se ainda não ficou claro, gostaria de tornar esclarecido de vez o quão fora da realidade é supor o homem sendo apenas o seu lado da “moeda” visível… A neurologia é didática ao separar o cérebro em partes – assim como fez o Lobo-Mau da Chapeuzinho, “para melhor te estudar”, e nos mostra que as divisões existem para otimizar as funções, não que elas funcionem em separado. Ao contrário, tudo aponta a um sistema interligado, ou mesmo, aos sistemas interligados…

Um modo de atar as emoções e tornar todas as relações de uma pessoa inócuas é fazer a “lobotomia” das suas percepções… Como é do conhecimento de quase todos, lobotomia era um procedimento cirúrgico da psiquiatria do pós-guerra para tratar casos graves de esquizofrenia, seccionava-se o tálamo da região pós-frontal do cérebro e com isso se pretendia controlar as “alucinações”. No livro salingeriano de Ken Kesey, “Um Estranho no Ninho”, em que foi baseado o filme, com o Jack Nicholson numa de suas atuações mais inesquecíveis, percebemos que a questão era realmente de “controle”, mas não exatamente das alucinações dos pacientes…

Assim é o homem, todas as suas intervenções e invenções têm ou podem ter um duplo caráter.

Obviamente, e com razão, a psiquiatria abandonou tais procedimentos por considerá-los bárbaros. A psiquiatria “evoluiu” e, hoje, com a ajuda da indústria farmacêutica, controla o comportamento dos seus pacientes com poderosas drogas neuroquímicas… Seria engraçado se não fosse trágico. No entanto, não estou dizendo que os medicamentos psicotrópicos sejam ruins, ou que eles não tenham a sua prescrição, ou que eles não sejam um avanço no tratamento de alguns distúrbios que antes eram incapacitadores, ou que a psiquiatria esteja pior hoje do que ontem, ou… que se faça atualmente lobotomia com remédios… Mas, da forma indiscriminada como são prescritos os remédios psiquiátricos, muitas vezes, se faz… Lobotomia medicamentosa em crianças, inclusive.

Uma lobotomia comportamental que pais e professores podem fazer em suas crianças, não importa o quão dedicados e amorosos sejam, é incentivar ou fazer com que elas valorizem e atuem apenas por um dos lados dos pares de contato. Essa era a regra na criação de meninos e meninas de há não muitos anos atrás – uma educação acentuadamente diferenciada para cada um dos sexos, em que os meninos não podiam “sentir” nem colaborar e as meninas eram desestimuladas de pensar e competir… Todos sabem do que eu estou falando, pois não se trata de nenhum passado remoto, em muitos lugares sequer é passado, ainda é a prática vigente. Só um adendo, não é minha proposta a homogeneização entre os gêneros – sou contrária a qualquer tipo de educação homogênea, por princípio –, até mesmo porque as diferenças de natureza entre o feminino e o masculino jamais vão deixar de existir, o que é muito bom, são elas o motor do mundo – um mundo sem diferenças seria mesmo muito mais aterrador do que um mundo de desentendimentos.

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• Último tópico da lista e esse é o momento de tocar no ponto mais controverso da minha abordagem. Vamos a ele…

Assim como há diferenças que são agregadoras, há igualdades que não são e, assim como há competidores que agregam, há colaboradores que desagregam. Para avaliar o que agrega é necessário antes observar na ação de competir e/ou na de colaborar das pessoas se elas estão – na prática das relações – sendo negadas ou positivadas. O discurso pode ser controverso, a ação pode ser mista, mas a direção do movimento para a vida nunca. Trabalha-se sempre com as polaridades no vetor espiral agregador ou desagregador, um ou outro vetor por vez, e apenas a esse movimento, considerando a realidade anímica, é que podemos atribuir algum valor moral – para a alma um leva ao bem, engendrando mais vida, e o outro leva ao mal, restringindo ou anulando a vida.

Quer dizer que precisamos observar se é garantido o direito de vida das pessoas para avaliar se a ação é agregadora. E por direito à vida se estenda um espectro que abrigue desde a existência subjetiva até a existência fisiológica – observar então se há espaço para as individualidades se manifestarem e até mesmo efetivamente existirem. Não é então ao discurso do direito à vida que devemos observar, pois a defesa da vida pode estar presente na retórica e ser contrário na sua prática. Basta que liguemos a TV no horário de propaganda eleitoral gratuita do momento para colhermos dezenas de casos de contradição entre intenção, fala e ação.

É de causar espanto que comunidades do mundo ocidental dito desenvolvido e civilizado deem direito de vida no “papel” e na prática o neguem – se não há garantia de vida, que dirá à educação, à saúde… Diz-se “todos os animais são iguais”, mas emendam logo, “alguns são mais iguais do que outros”. Todo candidato a revolucionário que pretenda mudar o mundo através de um ideário deveria antes ler George Orwell…

A questão dos bodes expiatórios é exemplar. A tênue e abismal polaridade entre mito e fato, forma o que aqui está sendo chamado de Realidade – é uma mistura composta em uma parte de profano e outra de sagrado, vista linearmente essa polaridade pode ser historicamente registrada. Nessa linha, no meu entender, o que põe em movimento a escolha, o banimento ou sacrifício de um bode expiatório, são as forças atuantes da desagregação no interior de uma comunidade – espelho de um movimento que começa em algum ponto no interior de alguém – ou algo – e por ressonância se propaga, de interior em interior, até se manifestar no exterior como fato explosivo e partilhado. É um processo lento e gradual, e que pode ser interrompido por forças agregadoras atuando no sentido inverso. Contudo, se as forças da desagregação “vencerem”, quer dizer, se o movimento de agregação for débil perante o da desagregação, tudo indica que haverá um afastamento dos seres em todas as direções, o movimento é de afastamento interior inclusive, até a vida se tornar distendida ao máximo e, insustentável, explodir em desagregação. Os que sobreviverem a esse movimento podem retornar pacificados, porque o vetor muda de direção, agora caminha para dentro, a vida continua…

Os casos grotescos de comunidades divididas e apenas pacificadas e reagrupadas pelo advento do bode expiatório, há de se considerar onde os integrantes estão divididos, primeiro interiormente – quer dizer, desagregados, onde os jogos servem invariavelmente como válvula de escape, onde demonstram através deles uma ação unilateral, exclusiva no competir ou no colaborar, em qualquer nível, em qualquer situação e com quer que seja – quem está ali perdeu o contato com o seu centro, reage de modo mecânico e aparentemente “sem alma”. Bem, se percebermos que há alguma coisa errada acontecendo com alguma pessoa ou comunidade sofrendo com essas características, é por que há mesmo, estamos diante de uma meia pessoa em ação e diante de uma comunidade dividida – a alma aflita.

Para quem tiver interesse em se aprofundar nesse assunto, recomendo três autores contemporâneos ainda em esclarecimento de suas teorias. Dois filósofos – um francês e outro italiano, e um analista junguiano alemão. O analista junguiano é Wolfgang Giegerich, seu conceito de alma relacional e em busca de Logos colabora ao conceito de alma da realidade que proponho. Dos filósofos, três obras perturbadoras, contextualizando num só mundo, mito, história, política, realidade: de René Girard “A violência e o sagrado” e “O bode expiatório”; de Giorgio Agamben “Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua”. Pretendo tornar a esse assunto num futuro post…

Por fim, um alerta, em não sermos apressados no julgamento de ninguém. Assim como existe uma parte maleável, flexível em cada ser, que se deixa moldar pelo entorno e pelas circunstâncias, existe também outra mais obscura e inexpugnável, que podemos entender como o núcleo do ser, que por nenhum meio ou pressão se deixará atingir, deformar. Quando se depara com esse cerne resistente, é preciso cuidado, muito respeito, pode ser a parte de Deus no sujeito que lhe esteja está falando…

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Mergulhando na questão do Bem X Mal…

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Deus é maior do que o Bem X Mal simplesmente porque em Deus não existe dicotomia. Deus é Um. Mas o que sabemos nós de Deus, se todos os deuses que conhecemos saíram, não do interior de Deus, mas de dentro do homem… Dos deuses, a melhor definição em duas palavras não foi nenhuma religião que nos deu, foi Jung, com a sua teoria dos Arquétipos, ao dizer que eles são representações arquetípicas. Já Deus é o próprio Arquétipo, incognoscível, insondável, o para sempre desconhecido e além do homem, do qual só podemos ter acesso por espelhos – as tais das representações.

Os deuses foram inventados por uma razão necessária ao homem, para que através deles tivéssemos contato com o Sagrado sem sermos destruídos por ele. Nós humanos somos como a mortal Sêmele na imagem trágica e poética da mulher fulminada num encontro sem disfarces com o seu amante, para o seu ou o nosso azar ele era Zeus e, tal como ela, não suportaríamos a magnitude desse encontro direto com o Deus por não termos a mesma natureza. Como Sêmele, pertencemos ao que é finito e mortal, com o infinito e eterno nós só podemos sonhar, imaginar… A única forma segura de nos relacionarmos com o Sagrado é indiretamente – por metáforas. Por isso precisamos dos deuses, dos mitos, da Arte, da Fantasia, da Religião, que de outro modo não teríamos acesso ao Campo do Sagrado. Quem compreende esses significados, sabe que a vida sem eles é preferível vir a morte. Por isso devemos respeitar as crenças, não digo as que nos são próximas, que estas respeitamos sem esforço, mas as que do nosso ponto de vista são estranhas, crenças que nos soam como crendices, invencionices, “babaquices” – as construções da alma alheia podem bem nos parecer tudo isso… Mas como julgar o que é da alma ou dos costumes desgastados do oco da cultura sem estar na pele do outro? E como saber em nós o que é dos deuses e o que é o do vazio se os dois provocam o mesmo tipo de arrepio?

A forma como nos relacionamos com o companheiro, com os filhos, com o vizinho, com os amigos, com os colegas de trabalho, com o bichinho de estimação, com os meninos de rua, com a praça, com a cidade que moramos, com a humanidade abstrata, com o governo real e imaginário, com a comida, com o computador, todos esses relacionamentos são reflexos de como a nossa consciência lida com o Sagrado. A Sombra (Jung) que carregamos tem muito a nos dizer a esse respeito, o que é o sagrado e o que ele não é – a Sombra é um portal para, um campo de… Então, como nos relacionamos com esse desconhecido potencial que envolve, não apenas o mais numinoso, mas também o mais abjeto em nós? Cada um que dê a sua resposta, mas não custa dar ouvidos aos que se dedicaram a vida nesse trabalho: os alquimistas – eles sabiam que o chumbo podia se transformar em ouro e o que antes era ouro virar pó…

A consciência humana – não entender ego – usa do mecanismo da separação, bem e mal, etc., porque é necessário… A dualidade advém de termos consciência da mortalidade e da imortalidade, da finitude e da infinitude, de ser homem e não Universo. Para o animal, que é inconsciente – não entender Id – do tempo/espaço eterno/infinito, a questão do bem e do mal sequer é colocada. Pois sem consciência não existe a dualidade. O que não quer dizer que o animal dito irracional tenha encontrado o “paraíso”, apesar de não sofrerem com os dilemas morais humanos, ainda assim existe o sofrimento, porque tudo o que tem alma sofre, e, tudo tem alma… Quem duvidar, recomendo Cem Anos de Psicoterapia… e o mundo está cada vez pior, James Hillman, ou qualquer obra deste junguiano outro contemporâneo nosso, em todas ele fala da alma com propriedade de quem sabe o que está falando.

Assim, a dualidade humana provém do seu – do nosso – conhecimento do bem e do mal. Torna-se inevitável essa referência ao Gênesis, ao simbolismo bíblico, pois ao comermos da maçã do conhecimento nos separamos do Éden, quer dizer, não somos mais Unidade.

Dual é a nossa natureza, mas, se essa é a nossa natureza, não temos outra com que nos realizar. Essa é a realidade com a qual precisamos ter como nos for possível. Toda a filosofia mais achegada ao materialismo dá conta de que nunca houve um paraíso original e de que sonhar com o esse retorno é uma grande ilusão, utopia… Já no outro extremo, no idealismo mais exacerbado, o paraíso não apenas existiu, como dá o endereço do Éden, o número do telefone e o que ele vai fazer no final de semana… Ambas as teorias querem resolver o problema da dualidade negando a existência do polo oposto. O problema é que sem equilíbrio corremos o risco de ver tudo pela metade e, ao negar o Outro, cada vez nos afastamos um pouco mais dele e com isso entramos no que chamo de movimento de desagregação.

As catequeses religiosas, as convenções políticas, os tratados filosóficos, os sistemas educativos, todos têm a mesma natureza, ditam o que deve ser feito e o que nos é proibido, nos ensinam a separar o “verdadeiro” do “falso”, mas, dependem da anuência dos seus membros para se tornarem experiências de fato e não apenas “papel” que se rasga. É a acolhida do grupo que garante que aquela regra, e não outra, será a nossa verdade. Há mudanças nas regras dos jogos o tempo todo, a esse movimento chamamos História. Mas lá no fundo sabemos que os Arcontes e todos os demônios símbolos do Vazio são nossas invenções tanto quanto os deuses o são… Os demônios do mal são as nossas outras criações para lidar com o avesso de Deus, com o insuportável Vazio Absoluto, com a falta de sentido que a desagregação provoca e que pode nos enlouquecer de dor moral. Não apenas Deus tem a capacidade de nos pulverizar, o Vazio igualmente, ambos do mesmo modo estão além da nossa capacidade de compreensão humana. Por isso inventamos contra-deuses, são necessários também.

As instituições não são os demônios do mal. Apenas elas assim ficam associadas quando entendemos que as convenções estabelecidas são contrárias aos nossos interesses. Nesse caso planejamos guerrilhas, levantes, criamos bodes expiatórios, somos capazes de declarar guerra ao Outro só para acabar com o “Mal” que ele nos provoca e restituir o “Bem”, que mora em nosso interior. Atenção aos grifos: ele/s versus eu/nosso. No fundo, bem lá no fundo, sabemos que é apenas para colocar ali interesses que nos sejam mais satisfatórios. Enquanto as instituições nos “servirem”, tratamos de conservá-las, caso contrário… Viver no mundo profano é árido, todo aquele que aqui está e me lê sabe como é, todos conhecem intimamente essa experiência, já sofreram por ela, com ela, vivem nesse mundo… Alguém não?

É preciso que não haja ilusões quanto à educação. O objetivo de todo ato educativo é formar, e isto quer dizer moldar, adequar, ajustar, uma suposta “massa” maleável de acordo a um formato prévio. Toda educação tem objetivos, intenções prévias. Claro, variam muito, mas toda proposta, se tem fins educativos, pretende modificar os sujeitos ao final de um processo que pode durar uma existência, alguns meses ou o tempo de uma hora-aula. A educação tradicional era bastante ríspida quanto a isso, cortava fora o que não coubesse dentro de sua forma quadrada ao cubo. Reclusão, penas, castigos, banimentos, eram normais e aceitos por uma comunidade que comungava daqueles valores. Houve um tempo em que violência e constrangimentos, físicos e morais, eram aceitos como a rotina da “verdade natural” ou das leis divinas se impondo aos fracos de “espírito”… Graças a Deus não é mais assim, ainda bem, hoje a gente vive outro tempo. Será que o nosso tempo é de mais liberdade, mais justiça, mais oportunidades iguais e respeito mútuo, um tempo mais “democrático”? Com voto obrigatório? Como assim, um direito obrigatório não estaria melhor sendo chamado de dever cívico?

Mas é claro que sempre vão existir pessoas refratárias ao tempo e à educação que receberem. É a vida que não cansa de se testar, para garantir talvez que todos os modelos possíveis estejam presentes, tal como num mecanismo de seleção natural darwinista, pensando no que seria melhor para a preservação da espécie e não em indivíduos em particular…

Obviamente toda a superfície tem o limite no raso, se quisermos entrar no interior dos seres e ver ali a razão submersa que os faz mover, precisamos de outros parâmetros, que apenas psicologias do comportamento e filosofias materialistas jamais vão adentrar, simplesmente porque propõe o mundo como a película que envolve o embrião. Precisamos de pensadores que saibam mergulhar no profundo e, de preferência, saibam voltar, precisamos de Freud, de Hillman, de Nietzsche, de Spinoza, de Platão, de Deleuze, precisamos de reuniões inusitadas de pessoas para ousar alternativas antes não ousadas… No entanto, é certo, todos os conhecimentos que existem, se existem, fornecem meios para lidarmos com a realidade. De outro modo seriam teorias em desuso. A cruciante escolha de uma teoria pode ser bem questão de conveniência de momento, apenas isso…

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Considerações finais

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Entendo o Mal como a desagregação total, a morte da vida, porque eu só posso falar do ponto de vista de quem está vivo e assim deseja permanecer. O ser nada mais deseja do que “perseverar no seu ser”, no seu esforço por “conatus”, atribuições do ser de Spinoza, que eu, no meu modo imensamente mais empobrecido de entender, dou pelo movimento de agregação, o Bem levado à ação.

O objetivo final de todos os seres é serem animados pelo sopro do espírito para perceberem que são (somos nós) um único Ser. Apenas a experiência da totalidade nos conduz a não-dualidade. O que levará a esse entendimento é o movimento ora de agregação, ora de desagregação. Esse movimento torna os seres conscientes de si (de nós). Mas a realização do Um, a vivência do Um, vejo tão somente como a pura afirmação de todos os seres, quer dizer, é o movimento de agregação levado ao seu extremo.

Obrigada pela sua atenção.

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10 Respostas to “Uma resposta para o Bem X Mal”

  1. Elielson said

    Entendo parte da atitude humana como um pedido gestual, seja por melhor entendimento, seja por conforto, seja por vaidade, seja por carência, seja por covardia… coisa também muito comum no bicho humano, porém o que me intriga é que ao invés da finalidade lúdica do “a banca ganha”, acontece que “a banca perde”, pq digo isso? Vejo além de toda a necessidade de explicação uma sublimação impossivel ao que se antes não se reconhecer entre a própria raça a imagem e semelhança e desse reconhecer admitir que é de onde tira todos os ingredientes para tudo, pra até mesmo a idéia do nada, e dane-se a canalização, pois é da nossa espécie que vem até mesmo uma palavra que lembra cano, que lembra canalizar e no humor que espalha as idéias esse poder de reconjunção tbm consulta algo que sabemos mediar a comunicação pra evitar os riscos de estar se excedendo nos sensos.
    O fato é que a mentira está instalada de um modo que é dificil a descrição que a justifique ou a descrição que dedicando um pouquinho de tempo pra ela não veja que é isso que sustenta todo o poder de humano para com humano, e o que mantém a ordem é ainda a violência onde se usa a comunicação apenas como um estágio alternativo dela e não alternativo A ELA. A necessidade estrutural não digo ser má, mas, há uma boa nova a ser espalhada, e não uma boa nova que diz que tudo vai viver pra sempre ou mesmo se potencializar até depois que a idéia de potência no minimo dê umas férias pra alma. Tudo bem que tem pessoas que querem ouvir isso, tem horas que eu quero tbm, tipo, ai! como essa idéia é bonitinha…, como o mundo pode ser bonitinho…, (pq ao mesmo tempo que o humano almeja o melhor que não chega, usa como base o pior que está chegando), que tal espalhá-la por aí e sentar nesse meu trono imaginário da verdade, mas bah, não há fuga nem conforto no que vai nos tirar TALVEZ desse conceito de fuga e conforto, então é claro, obvio, que quem aceita a mentira mente a si, e sabemos que a teoria se baseia em como as coisas funcionam nas nossa relações, internas e externas, daí a imaginatividade tira muita coisa da fisica, isso me faz ficar de cara com esse lance de universo mental, tipo, a descrição de nossas relações sendo metaforizada e coincidindo com a melhor descrição individual, mas que não é tão individual assim, afinal o assinante do espaço em branco na folha onde publica a teoria, não sabe que quando o faz, assina em nome da linha que conquistou a realidade, não digo a realidade né, mas a fé das pessoas, ou sei lá, a descrição que convém a fé, ou, não conquistou nada, apenas tá dando certo pra maioria e o negócio é que a maioria viva é o time que está ganhando, ou pelo menos essa maioria viva não sabendo que está ganhando tá otimo pra que os trabalhos dessa linha continuem e assim por diante…
    Convém o que ao mantimento desse controle que trabalha com fascismo e porrada? Fazer outdoors de 3 metros de altura com a foto do cara que ganha aspecto irreal e entra em desacordo com a perspectiva real do homem, homem que fica contente ao lado de outro que diga que é importante ou sábio, mas que na verdade mesmo só ganhou o suficiente pra se cercar de segurança (seja por guarda-costas ou por técnica de controle mental) por que ele mesmo é um cara inseguro, um bebê perdido enganando o corpo com sensações que servem como cocegas adultas e adulteras, porém já grandinho tem que adaptar seus mimos ao meio, meio que só é feliz quando em sua teimosia de verdade.
    O humano não quer ver o humano nem pintado de ouro, mas vendo o ouro muda de idéia e se joga no espelho do poderoso, coisa booooa. A natureza e suas técnicas premeditadas não estão urgindo essa ordem ao humano que com o poder pra qualquer coisa lógica, usa esse poder pra transformar as possibilidades lógicas em ilógicas mirando nas possibilidades ilógicas como as unicas lógicas, é, confuso assim mesmo, incrivel, e pra deixar mais confuso ainda, digo que a lógica que permita o ilógico como opção é a única lógica possivel por enquanto. Terra prometida é corpo que vive, afinal é terra e você leva pra onde quiser, e o mundo é grandão, há espaço pra todos, só não há espaço pra dor, que é onde o corpo desiste e começa essa coisa toda de voltar aos guturais, e convenhamos, assim o mundo pode até abrigar os animais, mas não abriga aventureiros no espaço sideral.

    Sem, show.

  2. adi said

    Oi Sem,

    Adorei “o post resposta” 🙂 , parabéns!
    É um assunto bem complexo mesmo, assunto que não se esgotaria nem em um livro inteiro a esse respeito. Você soube expor a dualidade nos vários pontos de vista, desde o psicológico, filosófico e até nos jogos, ficou bem abrangente e muito bom. Estou de pleno acordo com as idéias colocadas no post.

    = Deus é maior do que o Bem X Mal simplesmente porque em Deus não existe dicotomia. Deus é Um. Mas o que sabemos nós de Deus, se todos os deuses que conhecemos saíram, não do interior de Deus, mas de dentro do homem… =

    Exato, é assim que entendo também, em Deus nada está separado. Mas, do ponto de vista de nossas percepções ainda limitadas, o que compreendemos pela razão e intelecto, não é compartilhada por nossos sentimentos, ou seja, ainda não passamos além dessa compreensão intelectual e ainda sentimos na pele o medo do mal que nos rodeia. E qual é esse mal que nos rodeia nos dias atuais? Nosso medo é da violência extrema, dos vários métodos de violência inventada contra o próprio homem como meio de se obter algum benefício próprio; e se mata muito por “posse, possuir, empossar” o que ao outro pertence, seja território, objeto, pessoa, dinheiro, sexo, droga; e se mata pra defender a própria vida, defender seus valores, sejam eles materias ou morais. E é nesse sentido que o homem ainda age por aquele instinto animal e territorialista; inclusive, e, citando o Deus do velho testamento, cidades e pessoas foram dizimadas, sob a benção de Jehovah, para conquista do povo de Israel. Sempre houveram guerras por posses. No reino animal, o macho que possui melhor área/campo de alimentação, têm maior harém de fêmeas. Os outros machos estão sempre desafiando o líder a luta, pra ocupar seu território e acasalar com as fêmeas. É a lei do mais forte.
    E nós humanos, ainda seguimos esse padrão; os homens mais ricos e poderosos tem as mulheres aos seus pés. Estamos sempre lutando pra obter melhor lugar/espaço ao sol, é o motivo de nosso trabalho, e aqueles que não querem se dar ao trabalho, tomam pela força, pela violência mesmo.

    Esse lado da realidade caminha próximo de nós, vemos como o “mal” e causa pânico em nossa sociedade. Ficamos chocados com o que ocorre diariamente, casos iguais ao do goleiro Bruno, das Elizas da vida, dos maníacos do parque, dos pedófilos, estupradores, dos milhares de latrocínios, etc; enfim, por mais que o indivíduo compreenda intelectualmente essa questão dos opostos como sendo de certa forma ilusória, o sentimento de insegurança e medo continua com relação ao mal.

    Além disso, as várias tradições religiosas, principalmente as baseadas na bíblia, sempre enfatizaram essa dicotomia. Na oração “Pai Nosso” está escrito “… e não nos deixeis cair em tentação; mas livrai-nos do mal…” – passando a idéia de que o mal está separado do Deus que é só o bem absoluto; pois assim como esse Deus é saído da psiquê do homem, assim é a psiquê do homem, dividida, onde a parte luz é projetada em Deus e a parte sombria projetada no Diabo.

    = Entendo o Mal como a desagregação total, a morte da vida, porque eu só posso falar do ponto de vista de quem está vivo e assim deseja permanecer.=

    Exato, e é desse mal que queremos nos livrar diariamente. Nós pedimos por proteção divina em preservação da própria vida. Nós pedimos por comida, dinheiro, conforto, sexo, em preservação da própria vida. Nós matamos outros seres vivos em preservação da própria vida. Porque nosso maior medo é o da “morte”. E nossa vida nesse sentido é ainda urobórica.

    = O objetivo final de todos os seres é serem animados pelo sopro do espírito para perceberem que são (somos nós) um único Ser. Apenas a experiência da totalidade nos conduz a não-dualidade. O que levará a esse entendimento é o movimento ora de agregação, ora de desagregação. Esse movimento torna os seres conscientes de si (de nós). Mas a realização do Um, a vivência do Um, vejo tão somente como a pura afirmação de todos os seres, quer dizer, é o movimento de agregação levado ao seu extremo. =

    De pleno acordo. E falarei exatamente isso que vc escreveu, só que do meu modo 🙂 – como entendo, o sopro do espírito já está animando todos os seres, é o próprio sopro da vida. Só que este sopro está como que adormecido, só operante plenamente na parte correspondente aos nossos instintos; como sentimento e razão, está em desenvolvimento, só opera no modo parcial, limitado, que apercebe-se somente na parte que anima, ou seja, o próprio corpo, e de acordo com os chacras. Na medida desse movimento de fricção, como dito por vc de agregação-desagregação, e no meu modo energia masculina/solar-feminina/lunar, se dá o autoconhecimento, ou seja, o ir despertando da ilusão de que se está separado, de que se é somente uma parte. Nesse despertar, há a fusão das energias contrárias no próprio corpo, chamado na alquimia como o casamento alquímico, onde se percebe que tudo provém da mesma fonte, como o prisma de um raio de luz. E de fato, a vivência do Um é impessoal.

    prossigamos… 🙂

  3. Elielson said

    Impondo ao caos as analogias de nossa raça, esquecemos que a justiça, misericórdia e fidelidade existem como opções de vivência que dependem mais do acreditar em manter-se nelas do que na utilidade além do discurso e da vontade que temos de que nos tratem assim. Não precisamos ir lá no começo do calendário cristão para entender que não existe de fato algo a ser chamado de conversão, existem conversas, conversas que gandhi teve com o povo, luther king teve com o povo, pois quando surge um profeta, logo pervertem suas palavras ao ponto de que o respeito e tolerância para com o crime é a verdade, é lógico que não vão dizer isso diretamente, mas no final é só isso que sobra.
    Fica após a morte de alguém que faz bem feito, um ar de que tudo é agua a se beber, mas isso advém do fato de que esquecem que merda não é agua, e que merda não se come, então um dito popular de “nunca diga dessa agua não beberei”, não serve para dizer que o contrário não existe enquanto opção, po, o desbravamento das opiniões cristalizadas e da total dispersão do que se sabe enquanto se vê não apaga o fluxo analitico, é só a gente que sacrifica nosso pensamento em diferentes altares. Pode-se nascer num mundo em que irmão mate a irmão e ainda assim ter a opção de não matar irmãos, ou o contrário, e é isso, o ordem divina é a consciência apontando o que se faz como verdade irreversivel e efeito do ato, se nisso estiver atuando no apontamento de novas possibilidades já se é uma nova possibilidade, boa ou ruim. Assim, as crianças são messias, e se alguém se nega a ver isso vai ser obrigado a ficar olhando pro céu esperando o sinal que quer ver por ter a opção de querer ver esse e não querer ver o sinal vivo. O senso de eternidade é temporal, ponto. Agora, pode ser que eternidade seja descender e nisso esteja qualquer extremo metafisico, mas o lance do egoismo é justamente esse, se esconder da vida se refugiando no céu (cai-se pra cima tbm!), negar guiar para procurar um guia, e não estou dizendo que apascentar cordeiros seja algo além de criar filhos, ou orfãos no que será TALVEZ um dia um reino dos céus condescendente principalmente e basicamente com o descendente ( condescendente, com descendente, a lingua portuguesa é um criptograma esquizofrênico :D).
    – Ah se eu pudesse escolher!, ora, e quem disse que não está escolhendo dizer – ah se eu pudesse escolher… E curtissimamente chegamos ao final do primeiro ato, segundo ato, cadê os verdadeiros guias? Daí a via é perdição ou pegar o cajado de suas próprias leis e auto-sistema, e se conduzir, e se conduzindo não negar saber que os guias que se apresentavam somente para impedir que afirmassemos nossas escolhas na verdade estão exercendo tais papéis por que é como se guiam a si próprios no mercado, mercado ideológico que é perdição, pq idéia é de graça e em vez de cobrá-la pode no minimo não dá-la, assim os simoniacos se iludem no que, volto a dizer, tem o ponto de analogia determinado, e por incrivel que pareça a barreira da analogia é a mente humana, o que temos que concordar, existem muitas, e todas com igual capacidade de questionamento, porém algumas mais empenhadas em praticar o crime e não se responsabilizar, ou até mesmo em não responsabilizar o crime, que é talvez o que dê margem pra esses empenhos do mal, pois é assim ou não, são muitas mentes, e levando fatos a minha são muitas poucas resoluções a se evidenciarem.

  4. Sem said

    Oi pessoal,

    Meio que a discussão morreu sem conclusão, não é? bom, em parte é da natureza inconclusiva desse assunto, mas, por outro lado, vcs me desculpem, eu ando sem pique para discussões, eu li o que vcs escreveram, mas nem voltei aqui para alimentar o post…

    Aqui vai minha resposta, outra resposta, mais genérica ou sintética dessa questão Bem X Mal: penso que enquanto se lide com ela no campo dos absolutos, é difícil se chegar a alguma conclusão, tanto quanto seria naquela outra questão da existência ou não de Deus… Afinal, parece que essas questões, enquanto permanecem no campo dos Valores Absolutos, só podem se resolver pela fé, ou seja, naquilo que cada qual “preferir” acreditar. Como disse certa vez a Adélia Prado, a respeito do amor, uma vez encontrado – o amor feinho para ela, “é igual fé, não teologa mais”. Ciente que a fé é questão de livre-arbítrio, e livre-arbítrio é questão de delicadíssimo equilíbrio entre variantes biológicas, culturais, históricas e etc. – todos os et ceteras de nossas “naturezas” constituintes, até se chegar a alguma espécie de essência espiritual, que grosso modo entendemos como sendo o nosso psiquismo… Vale a menção de que a Razão, os que a tomam como um valor absoluto, vão pelos mesmos caminhos de quem toma o Sentimento ou a Fé, chegam pela mesma crença inabalável de suas premissas a conclusões completamente dispares, é curioso…

    Mas se a existência do Bem e do Mal é discutível, já não é o caso da maldade. Essa existe, se faz visível em todos os aspectos da vida humana. A maldade acompanha o homem desde o seu primeiro passo até o derradeiro. A maldade atinge a todos, sem exceção, desde o mais humilde humano ao mais poderoso, desde a vida mais íntima até a mais pública. Está em todos os lugares e épocas porque é o próprio homem quem a pratica, de um para com o outro e dele para com ele mesmo. Claro, existem maldades e “maldades”. Em todas porém há cargas eróticas correndo – assim dizem os psicanalistas, são elas o alimento básico sem o qual não haveria… bem, não haveria vida. Cargas energéticas – libidinais – que vão de um caráter perverso, de uma constituinte perversa considerada “normal” até outra mais “patológica”, quer dizer, já adentrando no campo dos jogos assassinos e da maldade quase pura ou sem disfarces. E cargas libidinais componentes das neuroses que variam de um hipotético neurótico “normal” – ser humano “básico”, e aqui passando pelo modelo engessador (as sístases, a “couraça”) até o desestruturante (as psicoses, os vulgarmente conhecidos “surtos” episódicos).

    Eu acho que para falar com propriedade a respeito da maldade, a psicanálise ajuda mais do que a Psicologia Analítica. Freud não condescendeu com a humanidade, ele manteve a visão nua da alma e atribuiu a maldade ao homem, a ninguém mais… Todos os da escola de Freud que se seguiram mantiveram esse fio condutor do seu fundador, sem “metafísicas”… Assim eu digo porque a escola de Jung, e principalmente a linha “clássica” dos primeiros junguianos – Neumann, von Franz, e mesmo na linha de mitólogos como Joseph Campbell, eles tendem a atribuir a arquétipos, aos “deuses”, toda a maldade possível ao homem. Com isso, na prática, acabam por relativizar a maldade, elevando-a mais a uma componente do inconsciente coletivo do que pertencente ao particular de um único homem. Assim como o Amor, a Maldade, por essa visão junguiana, é algo de que o sujeito sofre, menos um atributo seu, mas algo que lhe “acontece”… Duas consequências ocorrem, por um lado, torna mais fácil ao homem lidar com a questão – as projeções são processos naturais afinal, por outro e ao mesmo tempo torna mais difícil ele se responsabilizar por ela, como resultante dos seus atos – as projeções podem finalmente alienar o homem da sua própria vida… A dificuldade será proporcional à projeção, mas há que se considerar que alguns talvez só tenham esse caminho para lidar com a questão – isso eu acho isso muito triste, que sejam poucos os que possam assumir seu quinhão aqui nessa terra e no tempo que lhe é devido…

    Bom, na essência, no final das contas, o Jung é que esta certo, porque talvez o homem seja mesmo apenas uma “ilusão”, um “sonho”, uma fantasia da mente de “Alguém”…

    Já a psicanálise, ao atribuir a maldade como intrínseca ao homem – pulsão de morte – faz ele se responsabilizar por ela a partir do momento que toma “consciência” de si, e se vê de um modo muito mais objetivo nessa questão. É a psicanálise que analisa a inveja, a raiva, o ciúme, a cobiça, a agressividade sem freios como os motores da desagregação, melhor do que Hades faria… Claro, o inferno é apenas um lugar, é uma atmosfera e não uma pessoa, então, para descrever o espírito ou a “atmosfera”, melhor se valer do Jung, mas se for falar da alma ligada no corpo, da prática desse corpo, eu penso que a psicanálise ainda fala mais diretamente. Contudo, se as duas linhas puderem se complementar, como se complementam dentro do meu entendimento do homem, mesmo que alguns possivelmente considerem a junção caótica e sem sustentação, bem, eu acho que é isso: Freud & Jung.

    Adi, vamos trocar figurinhas, sei que vc é uma estudiosa desse assunto, eu ao meu modo tb, no entanto todas as minhas referências vêm da psicanálise, sejam elas inclusive literárias… Há vários autores e teóricos de outras áreas que podem nos ajudar, mas especialmente vou indicar um livro que pra mim foi um divisor de águas nesse assunto… Talvez um “pouquinho” pesado, tanto na densidade de conteúdo quanto no volume de páginas, mas acho que vale a pena, seguinte, minha compreensão foi outra depois de ler “A Tirania da Malícia, explorando o lado sombrio do caráter e da cultura”, do Joseph H. Berke. Acho que no momento esse livro só é “encontrável” em sebo. Mesmo assim deixo a indicação, pq vai que num dia desses vc topa com ele numa biblioteca qualquer, só pra saber de antemão que ele é bom… 🙂

    Bjos, bom domingo e boa semana…

  5. adi said

    Oi Sem,

    Pois é! meio que esse assunto não tem conclusão mesmo, nunca vai ter, e se tiver será algo dentro de cada um mesmo, como algo que não tem como ser explicado racionalmente.

    Eu ainda creio que está relacionado com nossa parte instintiva (a libido descrita por você), e são muitas dicas que tem me indicado seguir por essa linha.

    Quanto ao livro, valeu pela dica, mas eu acho que não vai dar tempo de topar com ele por aí 🙂 – talvez pela internet… sei que tem sebos na internet também.

    bjs e boa semana.

  6. adi said

    Sem, bom dia!

    Só um adendo,

    Sobre os instintos, eu os relaciono nessa questão do mal e por conseguinte com a maldade, não com relação as polaridades ou gêneros, muito embora, num aprofundamento esteja relacionado com a divisão primordial.

    bjs

  7. Sopoesia said

    Oi Adi, boa tarde. Gostei tanto do seu post sobre os tambores no xamanismo. Vou lá depois colocar um vídeo.

    Aqui eu não sei se eu entendi o que vc disse com relacionar a maldade com os instintos. Eu não faço isso. Bom, só para vc perceber como eu entendo a questão, e cometendo a temeridade de relacionar psicanálise com taoísmo, a libido eu comparo ao Tao, a pulsão de morte (= thanatos) ao Yin, e Eros = pulsão de vida, ao Yang. Partindo disso seria impossível mesmo moralizar os componentes dessa “engrenagem”, nem dá para descartar nenhum lado, pois não dá para ficar só com uma parte e ter um organismo operante e saudável.

    Agora sim, relaciono a pulsão de morte mais com a corporeidade, com os instintos, mas que isso não seja mal interpretado, pois essas energias todas são duais, e assim como existe o instinto que afunda o ser, brutaliza, existe exatamente ali a porção ouro, que ilumina… é a base do tantrismo, não?

    Onde está o mal então? vejo que a malevolência é um processo de morte – mas não exatamente movido pelo “instinto”. Da malevolência participa tudo no homem, sua inteligência, seu sentimento, toda a sua consciência e até o seu eros… Quando um homem é (ou está) movido por forças daquilo que chamo desagregação, tudo nele se volta para a morte… Vamos pegar um exemplo caricato, Hitler, tinha carisma, persuasão, milhões o amaram, e ele era um todo, mas só que para a “desagregação”…

    Os tambores quando tocam, tocam o quê em nós? as entranhas, não é assim? e despertam em nós os “instintos”, lembramos que somos corpo, e a alma vai junto, e tudo vai junto, por isso o enlevo, nos sentimos um todo… qual um feto se sente ouvindo o ribombar incessante e compassado do coração da mãe. Apenas vida.

  8. adi said

    Oi Sem,

    “Agora sim, relaciono a pulsão de morte mais com a corporeidade, com os instintos, mas que isso não seja mal interpretado, pois essas energias todas são duais, e assim como existe o instinto que afunda o ser, brutaliza, existe exatamente ali a porção ouro, que ilumina… é a base do tantrismo, não? ”

    Exato, eu entendo o instinto não como dual, mas como uma força “cega”, bruta, e como você disse também, como a força que impulsiona a própria vida, como uma pedra preciosa bruta que precisa ser lapidada e transformada em diamante/ouro. Existe sim a “potencialidade” de ser ouro, mas enquanto instinto, somente relacionada com a corporeidade e matéria, compreendo como causa do mal.
    Eu compreendo “os instintos” mais como uma “programação inconsciente” do próprio corpo como defesas de sobrevivência, numa época onde o homem tinha uma inteligência, sentimento, e consciência muito rudimentares, em processo de desenvolvimento. Então ainda hoje, mesmo no homem mais desenvolvido, o instinto atua inconscientemente em nós, causando reações físicas e sentimentais antes mesmo que pensemos a respeito. A “força” bruta atua e somos inconsciente; as pessoas dizem: “eu não queria sentir raiva, eu não queria sentir inveja, etc, mas não consigo controlar, é mais forte”. A “força” é automaticamente dirigida junto com o sentimento e a reação impulsiva normalmente causa alguns estragos. Quantos casos de assassinatos por brigas banais, no trânsito, quantos casos de espancamento e violência simplesmente porque não se consegue conter a força.

    Eu entendo que o homem atualmente, na medida que desenvolveu o racional (e não estou dizendo que o racional seja a salvação do homem) obrigatoriamente uma parte dessa “força/energia” foi direcionada pra mente, pro racional, trazendo um pouco de equilíbrio na natureza humana, mas ainda assim, somos seres com conflitos internos relacionados a essa força, que ora está pendente pro racional, mas muito mais pro instintivo, porque ainda há sim uma forte programação cerebral/química que direciona essa força. Eu entendo ainda que, na medida que o homem obtém o “controle” dessa força através do autoconhecimento mesmo, ou que quando começa a usar o cérebro, a consciência, não só de forma racional, mas como questionamento, então a Alma no homem começa a despertar. Através de sua conscientização, o homem descobre que a força cega e instintiva quando tirada da escuridão do inconsciente, porque ainda não havia entendimento, é na verdade o próprio ouro em transformação, é energia espiritual, é a própria Alma retirada do vale das sombras rumo ao seu potencial no homem, como no processo Alquimico.

    “Da malevolência participa tudo no homem, sua inteligência, seu sentimento, toda a sua consciência e até o seu eros… Quando um homem é (ou está) movido por forças daquilo que chamo desagregação, tudo nele se volta para a morte… Vamos pegar um exemplo caricato, Hitler, tinha carisma, persuasão, milhões o amaram, e ele era um todo, mas só que para a “desagregação”… ”

    Então, Hitler queria conquistar o mundo, conquistar território usando de sua força armamentista. E de onde vem essa necessidade de conquistar território? – Mas além disso Hitler era um megalomaníaco, um ególatra que achava que o mundo foi criado para servir as necessidades de uma unica raça, a deles, claro. Agora, se voltarmos ao velho testamento, está lá relatado que o Deus de Israel dizimava cidades e povos que não eram dos seus claro, pra conquistar a tão sonhada terra prometida. Lógico que este era o argumento que os israelitas usaram pra defender a sua “moralidade”, bem ao contrário do que já constava nas Tábuas da Aliança, onde um dos mandamentos era, “Não matarás”. Territorialidade/posse – o querer possuir, gera inveja, ciúme, ódio, cobiça. O homem ainda está voltado pro “ter” ao invés do “ser”.
    Não podemos esquecer que o maior motivo pelo qual os animais brigam e até matam entre os da sua própria raça é por território.

    Sobre Hitler ainda é um assunto mais complicado…

    bjs

  9. Sem said

    Ai, Adi, não sei, o problema de atribuir o mal aos instintos é separar a carne do espírito e essa é que é a raiz do mal nas religiões – esse é o motivo pelo qual não me vinculo a nenhuma… Fico com o Pierre Weil, que diz que no controle da sexualidade está o poder – um impondo ao outro a sua moralidade. Outro autor que conheço menos, mas que vai nessa mesma linha direta de identificar o controle através da sexualidade é o Foucault.

    Na filosofia o problema é da ontologia, a questão é que ao separarmos o homem, como se ele pudesse ser separado ou valorado em partes, esquecemos que é no todo atuante que está o homem verdadeiro, que é indissoluto… assim, ao separarmos e identificarmos as partes boas das ruins, fica tentador escolher as primeiras e descartar as segundas… e faz sentido nisso tudo identificar algum processo evolutivo para defender a ideia de “progresso” a ser alcançado… as consequências são nefastas, como vc bem sabe, primeiro que o ruim é identificado sempre no “outro” – no menos “evoluído” – e aqui já estamos no processo de “desagregação” e o que o Girard vai dizer sendo as marcas da vitimária que vão dar no “bode expiatório”… a ideia de eliminar o mau pelo sacrifício do outro é tentadora mesmo, mas, esse é o caminho mais fácil – alguns chamam esse de o caminho “””natural”””, claro, é a porta larga e não a estreita de que Jesus falou… o próprio Jesus foi exemplo do maior bode expiatório que a humanidade já fez, um bode expiatório singular, consciente que era, perdoou aqueles que o condenaram…

    Mas sabe outra coisa que acho terrível, ao atribuir o mal aos instintos esquecemos de que ele está no todo do homem, está na parte visível e mais desenvolvida inclusive – opa, até na sua “espiritualidade”!, o mal não está apenas na “sombra” e no mais animalesco do homem. Por isso ainda somos – estou falando em sentido de humanidade – presas de novos “hitleres”, pois não identificamos o mal em alguém que se nos apresenta simpático, com elogios, alguém belo ou que exponha seus argumentos de modo inteligente, pois não imaginamos que o mal tenha essa forma, esperamos que o mal tenha a face de um monstro deformado, mas, não é assim… Vou ter de recorrer a Jesus novamente, que disse para olharmos os frutos para identificarmos de qual árvore eles vieram…

    Pois então que eu fico, se a “coisa” engendra vida ou morte, nisso é que está o bem ou o mal, e não se é da carne ou do espírito – pelo menos até segundo aviso, sei bem que as minhas teorias estão ainda em construção.

    Bjos!

  10. adi said

    Oi Sem,

    Olha, pra ser honesta, eu também não sei, pode ser que eu esteja totalmente equivocada. Sobre essa questão, é um feeling que me indica ser dessa maneira, mas, nada mais que isso.
    Eu também acho que estou com problema de linguagem :), eu não estou conseguindo me expressar claramente e passar a idéia que sinto.

    “Fico com o Pierre Weil, que diz que no controle da sexualidade está o poder – um impondo ao outro a sua moralidade. Outro autor que conheço menos, mas que vai nessa mesma linha direta de identificar o controle através da sexualidade é o Foucault.”

    Que interessante e que coincidência, porque minha última resposta pra vc me levou a começar um post sobre magia sexual. E é exatamente nesse sentido que eu acho que há de se “controlar” (na verdade direcionar) os instintos, não é abolí-lo, não é negá-lo de forma alguma, mas sublinhá-lo. Ainda acima eu coloquei que o instinto na minha visão é como a pedra bruta a ser lapidada. Mas não podemos negar que enquanto essa força agir no homem como age em um animal, ou seja, sem consciência, ela atua no homem como forma de mal. Mas ela em si não é nem bem e nem mal, é somente força e poder.

    “Mas sabe outra coisa que acho terrível, ao atribuir o mal aos instintos esquecemos de que ele está no todo do homem, está na parte visível e mais desenvolvida inclusive – opa, até na sua “espiritualidade”!, o mal não está apenas na “sombra” e no mais animalesco do homem. Por isso ainda somos – estou falando em sentido de humanidade – presas de novos “hitleres”, pois não identificamos o mal em alguém que se nos apresenta simpático, com elogios, alguém belo ou que exponha seus argumentos de modo inteligente, pois não imaginamos que o mal tenha essa forma, esperamos que o mal tenha a face de um monstro deformado, mas, não é assim… Vou ter de recorrer a Jesus novamente, que disse para olharmos os frutos para identificarmos de qual árvore eles vieram…”

    O instinto está mesmo no todo do homem, esse trecho abaixo eu retirei do post BemXMal, e deixa claro que essa herança instintiva que se situa no nosso cérebro reptiliano, é responsável também pela formação de hierarquias sociais e inclusive pela seleção de líderes.

    = Os elementos comportamentais comuns entre seres humanos e répteis, supostamente relacionados a essas estruturas primitivas, seriam a seleção do lugar, a territorialidade, o envolvimento na caça, o acasalamento, cuidar da cria, a formação de hierarquias sociais e seleção de líderes. Já com relação ao cérebro intermediário, é muito importante saber que as expressões da fúria, gerenciadas pelo Sistema Límbico, são notavelmente similares entre um gato, um cão e um ser humano submetidos à mesma situação. Isto significa que esse tipo de reação não sofreu mudanças na escala filogenética evolutiva dos mamíferos. =

    E nós sabemos que o acasalamento/sexo, bem como cuidar da cria/filhos mesmo como instintos é do âmbito do emocional em nós, ou aquilo que confundimos com amor; já as hierarquias sociais (a sociedade/cultura), bem como a escolha de líderes (o bando tem líder, nós também temos líderes) também como instintos nos parece ser do âmbito da razão, da lógica e do racional – mas todos esses aspectos estão relacionados àquela programação/construção cerebral dos primórdios dos tempos, ou seja, é instintiva. O que eu gostaria de passar é que ainda obedecemos essa programação sistemica e nem sabemos porque.
    O mal não está de fato vestido com a máscara do monstro, nem só da sombra, mas naqueles que se utilizam ainda dessa “força” vinculada mesmo que inconscientemente ou com resquícios dessa programação instintiva. Lá no fundinho do ser humano ainda resta muito dessa programação dirigindo nossas energias.

    Mas é um assunto bem complexo, e talvez eu esteja sendo muito reducionista… 🙂

    bjs

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