Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Quem sou eu ???

Posted by adi em maio 12, 2010

Nesta altura da vida já não sei mais quem sou….. Vejam só que dilema!!!

Na ficha da loja sou CLIENTE, no restaurante FREGUÊS, quando alugo uma casa INQUILINO, na condução PASSAGEIRO, nos correios REMETENTE, no supermercado CONSUMIDOR.

Para a Receita Federal CONTRIBUINTE, se vendo algo importado CONTRABANDISTA. Se revendo algo, sou MUAMBEIRO, se o carnê ta com o prazo vencido INADIMPLENTE, se não pago imposto SONEGADOR.

Para votar ELEITOR, mas em comícios MASSA , em viagens TURISTA , na rua caminhando PEDESTRE, se sou atropelado ACIDENTADO, no hospital PACIENTE.  Nos jornais viro VÍTIMA, se compro um livro LEITOR, se ouço rádio OUVINTE.

Para o Ibope ESPECTADOR, para apresentador de televisão TELESPECTADOR, no campo de futebol TORCEDOR.
Se sou
CORINTHIANO, SOFREDOR. Se sou SÃO PAULINO, BAMBI, palmeirense, PORCOSantista, Baleia.

Agora, já virei GALERA. Se trabalho na ANATEL , sou COLABORADOR e, quando morrer… uns dirão…. FINADO, outros ….. DEFUNTO, para outros … EXTINTO, para o povão ….PRESUNTO. Em certos círculos espiritualistas serei … DESENCARNADO, evangélicos dirão que fui ..ARREBATADO.

E o pior de tudo é que para todo governante sou apenas um IMBECIL, SEM MEMÓRIA !!! E pensar que um dia já fui mais EU. Fica no ar… Quem sou eu realmente ?

(Luis Fernando Veríssimo)

Anúncios

6 Respostas to “Quem sou eu ???”

  1. Sem said

    Adi,

    Persona….

    Os tais dos rótulos, das etiquetas, simplificam a vida… se etiquetamos as “coisas”, seja lá o que for, fica mais fácil de se organizar na vida e de encontrar o que se precisa na hora que se precisar – bibliotecários que o digam… se pomos rótulos nos frascos, nas caixas, identificamos logo de cara seus conteúdos sem precisar abrir – o que é muito bom ou até mesmo necessário..

    ‘Personas’ ajudam no convívio social, melhor, qq convívio, mesmo nos mais íntimos… são fundamentais, são arquetípicos… quando vestimos uma ‘persona’ – pode ser uma brincadeira ou muito sério, seja como for, o outro já sabe de cara o que esperar de nós, sem precisar que falemos… Assim, existem todas essas que o Luís Fernando Veríssimo listou com aquela graça que é só dele – ele é um “humorista”… e existem mais centenas, milhares, que vestimos ao longo da vida, querendo ou não, que os outros nos põe, queiramos ou não, que usamos para nos relacionar…

    Mas fica mesmo essa sensação de superficialidade, parece que se nos relacionarmos só a nível de ‘persona’, com “máscaras”, é, no mínimo, insatisfatório… Mas será que tem como se relacionar sem pele? não seria nos descaracterizarmos e abrir mão do papel que como indivíduos temos a cumprir? não seria romper com a membrana que nos separa dos outros, em última instância do Todo, e… surtar, morrer?

    Ah, mas se eu entendi a reflexão que vc quer trazer com o post, concordo que o ser humano é muito mais complicado que qq explicação… Como nas vezes em que o “rótulo” diz uma coisa e o conteúdo não condiz… algumas pessoas deliberadamente nos enganam, tendo intenções deliberadas de má-fé, mas às vezes de uma má-fé inocente… quem nunca se engana, nem se enganou? pessoas que acham que são o que não são… algumas vezes essas pessoas somos nós, achamos que podemos, quando não podemos… quem nunca se enganou, nem enganou alguém?

    Tudo isso é muito normal e demasiado humano, não é? O problema é quando se gruda num só rótulo, quer representar na vida só aquilo, vira “doença”… ou quando os outros nos grudam um rótulo e querem que nós representemos para eles só aquilo… Daí surge a tal “Mãe”, com letra maiúscula, deixou de ser mulher, de ser mortal, talvez combine um ser “cozinheira” junto ou ser “motorista”, ser “lavadeira”, mas são apenas apêndices do papel principal… claro que uma hora esse mundo vai desabar… porque sempre se é mais do que uma máscara apenas – uma ‘persona’ que acreditamos ser ou na qual nos apegamos, ou que os outros nos põe, por conveniência ou não, para se relacionar conosco a nível de objeto…

    Bulling nada mais é do que isso, formas de pechas que algumas pessoas impõe a outras, e sabemos que algumas vezes acabam com vida dessas “outras”… jovens são sempre as principais vítimas do bulling, pois ainda estão se descobrindo e são vulneráveis ao ataque de suas personas… tudo isso é muito triste, é fabricado pelo medo, quando alguém precisa fabricar um “inimigo” de fora por ainda não poder se relacionar o “inimigo” de dentro, com a “sua” sombra, aquele outro arquétipo que compõe nossa personalidade, mais assustador, por isso é ‘sombra’…. triste que sempre vai desembocar na desagregação dos relacionamentos, triste mesmo porque desagrega o interior das pessoas.

    Vou começar a ler “O Bode Expiatório e Deus”, do René Girard, volto aqui para comentar se achar algo “comentável”… 🙂

    PS: Oi Adi, não libera o comentário que eu fiz como Sopoesia, se não vai ficar repetido… estava logada, por isso… mas estou colando aqui ‘ipsis litteris’ para ficar como Sem, para não gerar profusão de nicks…

  2. adi said

    Oi Sem,

    Primeiro porque achei essa graça mesmo que o Luiz Fernando Veríssimo tem e colocou no texto, depois porque tem ainda determinadas pessoas que se confundem com suas personas. Por ex. uma pessoa que ocupa um alto cargo numa empresa (principalmente nesses casos que lidam com poder), inevitavelmente a pessoa se confundi com o cargo que ocupa. Não que ela não tenha méritos, mas ela ocupa o cargo, e não é o cargo.

    Outros parecem que se utilizam de seus títulos como escudo pra se protegerem de seus próprios
    julgamentos, precisam dessa auto-afirmação o tempo todo, pra dissimular o sentimento de inferioridade que sentem.

    Já outros só se sentem bem quando categorizam pejorativamente outros…

    E assim parece que os relacionamentos se constituem somente de projeções e máscaras, o indivíduo real fica determinado a viver somente os papéis impostos pela sociedade; se ele se encaixa bem nesse padrão, não há mal algum.

    Só é triste, quando as pessoas ficam mais velhas e não tem mais onde se apegarem, todas as máscaras não servem mais, tudo o que resta é o passado, porque não houve nenhuma transformação no indivíduo.

    “Mas será que tem como se relacionar sem pele? não seria nos descaracterizarmos e abrir mão do papel que como indivíduos temos a cumprir? não seria romper com a membrana que nos separa dos outros, em última instância do Todo, e… surtar, morrer?”

    Eu acredito na transformação do ser. Uma pergunta que sempre quis entender, e que não era qual o papel que tenho que cumprir, mas qual é o propósito afinal de tudo isso? qual o propósito de minha existência? evidentemente cada pessoa têm seu próprio incentivo interior, têm como uma aspiração que o impulsiona; a mim foi sempre como um “entusiasmo”, e sempre quando eu sentia isso ao realizar algo eu sabia que estava de acordo com esse propósito desconhecido. E creio que quando seguimos esse entusiasmo em nossa vivência, nós não descaracterizamos, mas nos transformamos. Essa transformação inevitavelmente exige que se troque de pele, várias vezes ao longo do processo, talvez até encontrar uma que não tenha as características exigidas pela sociedade, mas a sua própria e unica, somatória da sua experiência pessoal com relação a vida como um todo, nos vários papéis que desempenhamos, como se fôssemos adquirindo nossa própria pele, que não é nenhum desses papéis, mas o que ele te “dá” através da vivência.

    Parece ser interessante esse livro “O Bode Expiatório e Deus”, se for bom, você poderia até fazer um post sobre. 🙂

  3. Sem said

    Adi,

    No meu apressado primeiro comentário posso ter formulado sem querer alguns equívocos e que a minha resposta de agora pretende desfazer.

    >>> “E assim parece que os relacionamentos se constituem somente de projeções e máscaras, o indivíduo real fica determinado a viver somente os papéis impostos pela sociedade”

    Ooo tristeza sem fim. Essa é a descrição do inferno, não?

    >>> “Eu acredito na transformação do ser. Uma pergunta que sempre quis entender, e que não era qual o papel que tenho que cumprir, mas qual é o propósito afinal de tudo isso? qual o propósito de minha existência?”

    Veja que nós estamos falando a mesma língua. Quando eu disse cumprir o nosso papel enquanto indivíduos, não estava me referindo a um suposto cidadão exemplar, que cumpre com presteza o que a sociedade lhe determina. Leia no que eu disse “indivíduos” e não “cidadãos”. Eu estava me referindo a indivíduos que têm um papel a desempenhar no tempo que lhe é dado, que passa pelo autoconhecimento, pela descoberta pessoal do/de si-mesmo, pela individuação enfim. Alguns chamam a isso de “jornada da alma”, outros de descoberta da “Verdadeira Vontade”, e eu acredito piamente que temos um papel a cumprir perante o cosmos… mas, veja, pode ser – e invariavelmente é – contrário ao que é determinado para nós pela sociedade. Em todos os meus textos aqui no Anoitan vc encontrará referências a esse papel que como seres individuados eu acredito que temos. Do ser envolve a consciência, convoca a responsabilidade e exige realização… na verdade o que seria isto que não o próprio chamado da vida? alguns podem chamar “missão”, eu chamo “viver na Realidade” e vc está chamando de “propósito da existência”.

    >>> “E creio que quando seguimos esse entusiasmo em nossa vivência, nós não descaracterizamos, mas nos transformamos. Essa transformação inevitavelmente exige que se troque de pele, várias vezes ao longo do processo, talvez até encontrar uma que não tenha as características exigidas pela sociedade, mas a sua própria e unica, somatória da sua experiência pessoal com relação a vida como um todo, nos vários papéis que desempenhamos, como se fôssemos adquirindo nossa própria pele, que não é nenhum desses papéis, mas o que ele te “dá” através da vivência.

    É isso aí, mas atente que trocamos de pele e não que ficamos sem pele nenhuma… Pele aqui é uma metáfora para a individualidade. Como seria a morte do indivíduo a ausência desse invólucro que delimita justamente sua identidade das de outrem – foi isso que eu quis dizer com “descaracterização”. Como a mais perfumosa das essências se volatizaria no ar ou se perderia no chão sem um frasco que a contivesse. Na verdade, as essências mais raras, para se conservarem enquanto tais, necessitam ficar herméticas e longe da luz… isso a mim assinala o valor da individualidade de um ser e da solidão na composição de uma obra…. mas, claro, conserva-se para acentuar o valor e um dia vir a ter o propósito – no caso do perfume – de perfumar alguém e tornar o mundo mais belo, de outra forma seria como se nunca tivesse existido… Assim somos nós, realizar um propósito é vida de um lado e morte de outro.

    E é claro que vc tem razão nas suas objeções… alguém recusar trocar de pele é o mesmo que querer estancar o fluxo da vida. Por ser contra a natureza, adoece a pessoa e o entorno de quem assim intentar. Mas sempre se terá que ter uma “pele” para se relacionar, sem a qual não se poderá dizer “estou aqui”, “estou vivo”, “olha, sou eu mesmo, apenas renovado”… Lembra a Cecília Meireles: “a vida só é possível reinventada”?

    >>> “Parece ser interessante esse livro “O Bode Expiatório e Deus”, se for bom, você poderia até fazer um post sobre.”

    Será, sim. Mas o assunto é nitroglicerina pura. Por enquanto estou aguardando a encomenda do livro chegar. O que li até agora do Girard foram alguns textos, pela internet a maioria, onde parece sustentar a tese – meio semelhante à de Jung – de que o cristianismo (na figura de Jesus Cristo) é a religião mais elaborada a que o ser humano até hoje na história vivenciou… Não me agrada essa noção de que os mitos antigos são meras projeções grotescas de Deus enquanto o cristianismo seria a versão mais sofisticada… Para Girard, ao que pude constar até agora, o cristianismo seria essa suposta aproximação a um Deus real. Jung sabiamente nunca entrou no mérito desse debate religioso ou filosófico de Deus, o que o compelia e cabia como psicólogo era a verdade religiosa como organizadora da psique… Nesse aspecto, Deus foi real para Jung, como sempre considerou o Self o arquétipo-mor representante de Deus e o organizador maior da psique. A figura de Cristo simbolizava para Jung o exemplo da ‘coniunctio’ mais completa, quer dizer, da mais elevada possível ao homem até o presente momento…

    Mas o que me interessou n’ “O Bode Expiatório” do Girard é o que ele vai dizer sobre “mimetismo”. Conceito que parece vem a lapidar em várias de suas obras, sendo um dos seus fundamentos. O que em psicanálise talvez seja análogo ao mecanismo de identificação. Mas por estas sendas que envolvem inconsciente – sagrado, Deus – nada é simples…

    As pessoas tentam negar Freud… mas, mesmo negando, o que elas fazem é confirmar a obra do velho vienense… Por isso não consigo prever o tempo que deixaremos de falar de Freud ou do seu legado. O velhinho do charuto e dos tapetes persas continua ainda sendo um autor indispensável. Tanto que continuamente é referendado por filósofos e no próprio debate do conhecimento constituído, de fato, o conhecimento que temos hoje, para se constituir enquanto tal, carece de se confirmar ou refutar a teoria psicanalítica…

  4. Sem said

    Nossa, Adi, eu tive que voltar. Quase inacreditável o que eu acabei de ler e o mais incrível é que foi numa comunidade de astrologia… encaixa como uma luva aqui e no que se está discutindo nos seus últimos posts…

    O nome disso? Sincronicidade. 🙂

    Olha o autor! Ah, os grifos são meus, para reforçar o que conversamos…

    …………………………………

    LIBERTAÇÃO DO CONDICIONAMENTO

    Uma das coisas mais difíceis – parece-me – é a correta comunicação entre pessoas. Se desejo dizer algo, tenho de usar certas palavras, e AS PALAVRAS TENDEM NATURALMENTE A TER SIGNIFICADO OU VALOR DIFERENTE PARA CADA UM DOS OUVINTES. Uma reunião silenciosa de pessoas produz seus benefícios próprios; mas, para nos comunicarmos uns com outros, torna-se necessária a “verbalização”, e é muito difícil comunicar devidamente o que desejamos transmitir de maneira que o ouvinte compreenda sua inteira significação, principalmente em se tratando de matéria complexa, como é agora o caso. Requer-se uma certa facilidade de comunicação, para que todos compreendam o que se está falando.

    Desejo versar um assunto que considero bastante importante: se é possível, vivendo neste mundo, libertarmo-nos de todo condicionamento, A FIM DE QUE CADA UM SE TORNE UM VERDADEIRO INDIVÍDUO E, CONSEQUENTEMENTE, CAPAZ DE DESCOBRIR O QUE SIGNIFICA SER CRIADOR. POR CERTO, AQUILO QUE SE PODE CHAMAR A REALIDADE, DEUS, A VERDADE, OU COMO QUISERDES, É UM ESTADO DE RENOVAÇÃO CONSTANTE, UM ESTADO DE CRIAÇÃO; E ESSE ESTADO CRIADOR NÃO PODE SER REALIZADO, EXPERIMENTADO OU CONHECIDO, SE NÃO HÁ A VERDADEIRA INDIVIDUALIDADE; e para se alcançar essa verdadeira individualidade torna-se necessária a libertação do condicionamento.

    NOSSA MENTE ESTÁ CONDICIONADA PELA SOCIEDADE EM QUE VIVEMOS, PELOS LIVROS QUE LEMOS, PELA RELIGIÃO, PELOS VALORES SOCIAIS E MORAIS, POR NOSSOS TEMORES E AMBIÇÕES, NOSSA INVEJA, ETC.; todas essas coisas concorrem para criar um condicionamento mental. Isso me parece bem óbvio.

    E é possível libertarmos a mente desse condicionamento – não com o procurar de um condicionamento melhor e mais nobre, porém libertando efetivamente o espírito de todo o seu condicionamento? ENQUANTO NÃO O FIZERMOS, NÃO SEREMOS INDIVÍDUOS; SEREMOS MERO RESULTADO DA COLETIVIDADE – e isso também é muito óbvio, embora seja provável que nunca tenhamos refletido a seu respeito.

    Ao nos examinarmos com um pouco mais de atenção, torna-se evidente que, pela maior parte, O NOSSO PENSAR, OS VALORES, AS EXPERIÊNCIAS, OS CONHECIMENTOS, AS CRENÇAS QUE POSSUÍMOS, SÃO RESULTADO DE NOSSA EDUCAÇÃO, DE INÚMERAS INFLUÊNCIAS; O CLIMA EM QUE VIVEMOS, OS ALIMENTOS QUE INGERIMOS, A LITERATURA E OS JORNAIS QUE LEMOS, TODOS OS ELEMENTOS AMBIENTES – tudo isso condiciona a mente. Pode-se ver que nosso pensar está sempre de acordo com UM PADRÃO, e esse padrão já está BEM FIRMADO. Quanto mais altamente ORGANIZADA, quanto mais EFICIENTE E CRUEL é a sociedade, TANTO MAIS RIGOROSAMENTE O PADRÃO É CULTIVADO E IMPLANTADO NA MENTE. E é possível ser-se livre desse condicionamento, de modo que a mente não pense de acordo com um padrão, porém transcenda completamente a esfera do pensamento? Isso, porém, não significa um vago misticismo, um estado sonhador, pois esse estado, pelo contrário, é muito positivo.

    Assim sendo, pode a mente libertar-se de seu condicionamento? Sei que há gente que diz que isso é impossível, uma vez que os entes humanos são, totalmente, um resultado de influências ambientes. O HOMEM EDUCADO COMO CRISTÃO CRÊ NOS DOGMAS DO CRISTIANISMO, ENQUANTO O QUE FOI EDUCADO COMO COMUNISTA NÃO CRÊ EM NADA DISSO – e isso, mais uma vez, DEMONSTRA COMO A MENTE É INFLUENCIADA E POSTA A FUNCIONAR DENTRO DE UM PADRÃO, UMA ROTINA, AÍ PERMANECENDO.

    Ao observar isso, qual a nossa reação? Quer sejamos cristãos, quer hinduístas, budistas ou o que mais seja, já nos deve ter ocorrido, se investigamos seriamente, que cada um de nós é moldado, condicionado, por um certo padrão – NÃO APENAS O PADRÃO IMPOSTO PELA SOCIEDADE, pela cultura, pelas influências econômicas, pela religião em que fomos educados, MAS TAMBÉM POR UM PADRÃO INTERIORMENTE IMPOSTO.

    E devemos nos ter interrogado se é possível à mente que se habituou a pensar dentro de uma certa rotina libertar-se dessa rotina. POR CERTO, SÓ A MENTE LIVRE PODE DESCOBRIR ALGO NOVO.

    O HOMEM QUE PURAMENTE CRÊ, OU NÃO CRÊ EM DEUS, CONTINUA PRISIONEIRO DO PADRÃO DE DETERMINADO AMBIENTE; pela ação do medo, da compulsão, de toda sorte de influências, continua ele a fazer parte do todo coletivo. Nessas condições, pode a mente assim agrilhoada, libertar-se?

    A CAPACIDADE DE NOS LIBERTARMOS NÃO DEPENDE, POR CERTO, DE OUTRA PESSOA. Percebo que minha mente é o resultado de inumeráveis influências, que suas reações são determinadas por um estado já condicionado; e se me interessa descobrir se minha mente pode libertar-se, não parcial porém TOTALMENTE, tanto no nível inconsciente como no consciente, não tenho necessidade de perguntá-lo a outro; posso observar a mim mesmo. Posso libertar-me da idéia de “minha pátria”, do estúpido nacionalismo, das crenças em que fui criado; mas, no próprio processo de me libertar posso cair noutro conjunto de padrões. Em vez de hinduísta, posso tornar-me cristão, budista, comunista, etc. – o que é sempre um padrão.

    Assim sendo, é possível libertarmo-nos de um padrão sem cairmos noutro?

    Se uma pessoa está muito vigilante e observando bem o processo mental formador dos hábitos, é possível, superficialmente, libertar a mente da formação de hábitos. Mas, o problema não é tão simples assim, PORQUE TEMOS O INCONSCIENTE TOTAL, TAMBÉM CONDICIONADO, E ESSE CONDICIONAMENTO É MUITO MAIS DIFÍCIL DE PERCEBER. É bem de ver que, pelo falar, pelo raciocinar, mediante várias formas de observação, posso libertar a minha mente do condicionamento superficial consistente em ser hinduísta ou católico – e isso, evidentemente, é necessário. SE DESEJO DESCOBRIR O REAL, DEVO TER, EM PRIMEIRO LUGAR, UMA MENTE NÃO CONDICIONADA. A mente condicionada pode “projetar” suas próprias ideias e, a seguir, experimentar essas ideias. O cristão muito devoto e fartamente condicionado pode experimentar uma visão do Cristo; mas, o que ele está experimentando é sua própria “projeção”, procedente de seu fundo educativo, e tal experiência, portanto, nenhuma validade tem.

    Já se pudermos transcender todas as razões superficiais da mente, talvez então sejamos capazes de penetrar muito mais profundamente no inconsciente, que está incessantemente “projetando” o seu próprio condicionamento.

    Assim, é possível PENETRARMOS CONSCIENTEMENTE O NOSSO INCONSCIENTE, para descobrirmos as várias formas de seu condicionamento? Não sei se já pensastes em tal coisa. Podeis ter vossas opiniões a esse respeito, podeis declarar que é possível ou impossível; mas, penso que o estudante realmente interessado em investigar cabalmente a questão não fará declarações dessa natureza. Ele estará no “estado de investigação”. Não pode investigar em REFERÊNCIA A OUTRA PESSOA, mas, tão só, em referência À SUA PRÓPRIA MENTE.

    A investigação parece-me, deve ser SEM MOTIVO, SEM NENHUMA COMPULSÃO em dada direção. SE TENHO UM MOTIVO PARA MINHA INDAGAÇÃO, ESSE MOTIVO DETERMINARÁ O QUE ACHAREI. Por conseguinte, não há verdadeira investigação enquanto houver um motivo qualquer. E quase todos nós temos variados motivos, não é verdade? Queremos ser felizes, queremos ser interiormente ricos, encontrar Deus, alcançar isto ou aquilo. E pode a mente despojar-se de todos os motivos e pôr-se no “estado de investigação”? Esta me parece, verdadeiramente, uma questão fundamental; PORQUE É SÓ QUANDO ESTAMOS LIVRES DE MOTIVOS QUE SEREMOS CAPAZES DE INVESTIGAR A TOTALIDADE DO INCONSCIENTE.

    Em verdade, o inconsciente é um depósito de numerosos motivos de que não nos damos conta – temores, ânsias, e o resíduo racial. Para investigar tudo isso, a mente consciente, pelo menos, deve estar livre de qualquer motivo. E para se limpar, mesmo a mente consciente, de todo e qualquer motivo, requer-se muita vigilância, observação de nós mesmos. Isso SIGNIFICA ESTAR CÔNSCIO DO INTEIRO PROCESSO DO PENSAR, verificar como o pensamento desponta na mente, e se esta pode mesmo libertar-se; ou, também, se o pensamento não passa de uma reação de determinado fundo, através da memória, não podendo, por conseguinte, ser livre.

    Mas, se formos capazes dessa constante investigação, que é UMA VERDADEIRA FORMA DE MEDITAÇÃO, não deixaremos de atingir o ponto em que perceberemos que todo o nosso pensar está condicionado e que nossas crenças e dogmas nenhum valor têm. E ao percebermos que são SEM VALOR, ESSAS COISAS CAIRÃO POR SI, SEM TERMOS DE LUTAR CONTRA ELAS. A totalidade de nosso condicionamento pode ser quebrada, não aos pedacinhos, o que leva tempo, porém IMEDIATAMENTE, pelo direto percebimento da verdade a seu respeito. A VERDADE É QUE LIBERTA, E NÃO O TEMPO OU NOSSA INTENÇÃO DE SERMOS LIVRES. Eis porque é necessário termos a mente aberta, EXTRAORDINARIAMENTE RECEPTIVA. PORQUE NÃO SE PODE PERSEGUIR E PEGAR A VERDADE; ELA VEM POR SI.

    Releva, pois, investigar profundamente a questão do condicionamento, sem nos limitarmos a aceitar a asserção de outro sobre se a mente pode, ou não, libertar-se. CABE A CADA UM INVESTIGAR E LIBERTAR A SI PRÓPRIO.

    Penso que então algo se descobrirá ALÉM DE TODAS AS PALAVRAS, ALGO VERDADEIRAMENTE INCOMUNICÁVEL. O homem que realizou, que experimentou, por si mesmo, essa coisa, é um homem verdadeiramente religioso, porque já não está sob a influência da sociedade, essa estrutura de ambição, aquisição, inveja, atividade egocêntrica.

    Krishnamurti

  5. adi said

    Sem,

    É verdade, acho complicado viver sem pele alguma, talvez uma pele neutra, que não haja identificação…

    E olha que interessante, você vai ler esse livro do Girard, que é sobre “mimetismo”, ou meme, cópia, que é igual a “condicionamentos” também.

    Muito interessante esse texto que lhe apareceu, tudo a ver com esses últimos posts daqui. Só pode ser “sincronicidade” mesmo.

    Eu estava pesquisando sobre plano astral, que pra mim tem tudo a ver com o “psíquico” e claro com os chacras, que são nossos centros de percepção, que de certa forma molda nossa visão de mundo, porque os “condicionamentos/bloqueios” que temos, dependendo da emoção/sentimento que envolve, se
    localiza numa parte do corpo, obstruindo os chacras relacionados, que distorcem nossa percepção do real.

    É bem interessante essa “desconstrução” das crenças, citado pelo Krishnamurti, eu gosto muito dos escritos dele.

    E é muita sincronicidade mesmo Sem, porque nisso que eu estava pesquisando pra um post, porque eu acho que primeiro a gente acaba sendo condicionado mesmo, e depois há como uma necessidade de liberdade, e então de “desconstrução”.

  6. adi said

    Pra alegrar esse final de Domingo.

    Viva a diversidade, porque é tudo muito lindo… Vamos dançar??

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: