Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

LIberdade

Posted by adi em abril 27, 2010

Os grandes mestres  ensinam  que nossa natureza parece estreita devido a uma “construção”, e chamam esse  processo de “aprendizagem”;  a “desconstrução”, de remoção de obstáculos. Esta é uma abordagem geral. No treinamento budista, quando este aspecto é compreendido, quando é vivenciado, mesmo que parcialmente, há uma decorrência, um resultado. Este resultado é confiança, não propriamente cognitiva. Uma confiança nessa natureza que então se percebe está além de todas as histórias particulares que podem surgir para a identidade estreita construída. Mas isto não é teoria, é um aspecto vivenciado sensorial, cognitiva e emocionalmente.

Como este tipo de perspectiva pode manifestar-se na prática? Essencialmente, se isso tem valor, algum resultado prático deve ocorrer. Qual o resultado prático desta abordagem?

Podemos dizer que há uma vastidão de resultados práticos e precisaríamos de tempo para analisar todos. Especificamente em relação às comunidades humanas e ao benefício que os seres podem receber individualmente a partir disso, surgem a liberdade e a amplidão de visão que caracteriza esta liberdade. A liberdade manifesta-se através da amplitude de visão – coisas que os seres em geral vêem como obstáculos são vistas pelos grandes seres como situações com grande potencial de benefício.

É uma visão múltipla, é como se houvesse mais dimensões. Dito assim parece esotérico, místico. Estes aspectos podem estar incluídos, mas não necessariamente. Se nos defrontamos diretamente com um adversário ou inimigo no local de trabalho, as alternativas não são boas para nenhum dos dois. De acordo com estes ensinamentos, tudo que surge externamente é inseparável do que parece ser o mundo interno. Se percebemos apenas o exterior, estamos presos dentro de paredes concretas e constantes. Por outro lado, se percebemos a conexão entre os dois níveis, ganhamos liberdades inesperadas pelas mudanças externas ou internas. Podemos transformar os inimigos unilateralmente.

Existe uma classe de ensinamento que explica como transformar obstáculos em vantagens. Não se trata de usar uma visão idealista, mas de termos o poder de transformar unilateralmente as coisas que são obstáculos para nós e para os outros seres. Existe uma vastidão de conseqüências relacionadas com essa percepção da inseparatividade de um mundo externo e um interno. Perdemos muito quando congelamos um mundo externo em relação ao qual podemos apenas manobrar.

Todas as situações cármicas são impermanentes. Um exemplo disto é a diferença entre o reino dos deuses e o reino dos infernos. Vejamos uma situação em que os seres dos infernos estejam em uma mesa cheia de comida, mas seus braços sejam grandes demais e não possam ser dobrados. A mesma situação se repete no reino dos deuses, mas eles têm o discernimento de se alimentarem uns aos outros. Eis um exemplo típico de mudança de perspectiva. No inferno a comida está ali, a mesa está ali, a fome está ali, e o braço realmente não alcança a boca. Se aqueles seres pudessem apenas ampliar suas percepções e pensar nos outros e usufruir de sua liberdade, estariam saciados. É assim mesmo: quando usufruímos dessa liberdade, aparecem seres por todos os lados querendo ajudar. O deus se vangloria: “Que lugar maravilhoso, estou oferecendo comida a um, e 99 me oferecem comida!” No inferno o ser também está objetivamente certo: “Somos cem seres miseráveis.”

Todos os problemas estão nesta categoria. Ou seja, temos graus de liberdade adicionais, mas será necessário nos transferirmos para outras paisagens mentais, ampliar nossas perspectivas, antes de que possamos usufruir de nossas liberdades.

A educação no budismo está voltada a oferecer liberdades que não percebemos usualmente. Liberdades em relação àquilo que chamamos de roda da vida. Estas liberdades só podem ser acessadas removendo-se os obstáculos construídos.

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Texto do Lama Padma Santem –  Centro de Estudos Budistas Bodisatva

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4 Respostas to “LIberdade”

  1. Sem said

    Adi,

    Que foto, linda, linda! E que assunto! 🙂

    Sabe que me botei de “férias” daqui, né? :p mas acabei de publicar uma poesia lá no Sopoesia e veja se tem ou não tudo a ver com aqui:

    http://sopoesia.wordpress.com/2010/04/27/mandala-de-areia-e-cecilia-meireles/

    Lama Padma Santem é o máximo!

    “Todas as situações cármicas são impermanentes. Um exemplo disto é a diferença entre o reino dos deuses e o reino dos infernos. Vejamos uma situação em que os seres dos infernos estejam em uma mesa cheia de comida, mas seus braços sejam grandes demais e não possam ser dobrados. A mesma situação se repete no reino dos deuses, mas eles têm o discernimento de se alimentarem uns aos outros. (…)”

    Essa historinha eu conhecia com talhares e fiz até uma poesia com essa imagem um tempo atrás. Taqui:

    Caminho para o céu

    Vivemos na escuridão
    cegos do nosso destino
    tateando os espaços
    pintamos olhos nas mãos e
    – arrogantes do que não vemos
    descrevemos paisagens

    além disso,
    nem tudo o que os olhos da cara enxergam é real
    nem tudo o que os ouvidos em concha escutam é verdadeiro

    estamos – além dos nossos sentidos
    mergulhados num mar de gente de todos os tipos – como no inferno de Dante

    muito ligados às nossas emoções
    sentimos muito, mas
    cegos para tudo o que não seja nosso
    falta-nos ver além

    – dizem que o inferno é um banquete perfeito regado aos vinhos e iguarias as mais raras, apenas os talheres são de tal forma mais compridos que os braços, que impedem os convidados servirem-se a si próprios –

    nesse estado de fome cada um faz o que pode:
    uns gritam outros choram
    uns brigam outros calam
    uns riem outros xingam
    uns anoréxicos outros canibais

    ninguém tem razão – se não existe razoabilidade na vida que dirá na morte

    piores são os que acreditam serem melhores que os outros e por isso sobem por cima de ombros
    ou talvez piores sejam os melancólicos que afundam servindo de tábua de sustentação aos primeiros
    o certo é que na maldade ninguém vence os demônios que acreditam e agem como se não houvesse outra vida – como se o mundo fosse somente um eterno cortiço de danação, usura e injustiça

    esta é a vida – que a vida afinal é só uma
    eia que vida é esta – que prefiro a marítima pessoana
    ou então quisera por estes mares de Dante nunca navegar
    mas, se este é o mar
    – resta a navegação

    caminho para o céu: se a paisagem não muda, mudemos os olhos da paisagem

    – que mistério, magia, koan, enigma de esfinge ou segredo de pirâmide existe em alimentar o outro e confiar de que serei por ele também alimentado?

    não existe nenhum mistério tão certo como certa é a cura no sal
    não existe nenhum enigma tão claro como clara é a dança do sol
    não existe nenhum segredo tão líquido como líquido é o peixe no mar

    precisamos de pontes que nos levem para longe do eu nos tragam o tu e realizem a magia dos nós
    – com os despojos do Aqueronte vamos montar os barcos da nossa navegação
    – que os portões do inferno sempre se abrem com a chave que os habitantes ali não consideram – motivo das permanências – e há uma grande desconsideração com a realidade

    barcos descrevem melhor a realidade que trens
    – embora eu prefira qualquer trem a qualquer avião,
    automóvel, canoa, bicicleta, escada rolante, patins,
    os meus amados trens só andam mesmo é nos trilhos –
    já barcos vivem descarrilados e
    desenham caminhos singulares
    contornando os erradios ventos
    e muito embora rotas sejam estabelecidas
    do ponto A até o ponto Z, mora um alfabeto onde tudo pode ser escrito
    barcos também procuram e necessitam de um porto seguro onde atracar
    mas realizam-se mesmo é no alto-mar
    além do mais, sofrem avarias,
    criam limos, cracas,
    periodicamente passam por reparados, limpezas,
    há também o risco permanente de um possível naufrágio
    – o que torna a vida maruja mais interessante e ainda mais aprazível

    sim, é preciso construir os barcos da nossa navegação
    com palavras mansas
    feito um discurso amoroso que – mudo – tudo ouça
    feito uma escuta eloquente. . .

    Saturno nos guiará
    Júpiter nos salvaguardará
    Marte nos dará a vontade
    Plutão a pertinência
    Netuno o sentido
    a Lua é um farol
    – assim os deuses conspiram nas estrelas a nossa saída para o céu.

    ………………..

    Fique bem, Adi, vc está em cia. dos leitores daqui e não são poucos… 🙂

  2. Elielson said

    A fuga da castração, quando bem sucedida, nos leva ao território de eterna fuga, pois sempre haverá o problema seguinte, principalmente quando as conquistas ficam indivisíveis. Como se para dar, fosse preciso enfiar a árvore na semente, como se isso também não fosse podar. Porém nem o estado de árvore, nem o de semente são de fato realizados, já que em nenhum momento a duvida nos abandona. Movimento não é nada mais que o amorfo e polimorfo que nos assombra com base no que achamos ser. É nesse pensamento de aceitar forma, dar forma, que penso: quantas vidas estão sobrepostas, entrepostas, paralelas, cruzadas, e acima de tudo… quantas vidas estão nisso que eu chamo de lugar, quantas vidas de fato estão na terra, na terra em que eu piso, sinto e vejo a mesma perseguição de nós em outro? Vidas que tornam úteis as neurotransmissões, que tornam úteis a moldagem do formato, sem ligar pro lugar entre os papéis mais intensos que são representados entre a nossa mente daqui e a nossa mente dali. Com a liberdade vemos que a própria idéia de estar sendo coerente e auto-controlado já se torna motivo de gratidão eterna, gratidão que se mostra quando reconhece na mente de lá o mesmo direito de achar que se é sólido por algum instante que seja. A liberdade não está na falta de juizo sobre o que se sente. A liberdade por agora está no juizo e na afirmação do juizo. O que é o juizo? O juizo não vê melhor que ninguém , mas vê, assume estar vendo, assume a responsabilidade de não só questionar a forma, como estudar a causa da forma e por ai vai…
    Mas, a partir do momento que tem-se na memória a forma e a causa dela, qual o motivo de não estar aplicando a causa que leva a outra forma? Bem, então é sinal que existe uma forma que delimita os extremos das formas que influenciamos. E a ilusão de um corpo maior pra enfrentar uma forma maior talvez seja a causa dos efeitos nocivos de uma consciência coletiva, exatamente por isso existe esse fenômeno, ao meu ver, de um mecanismo regular estar inserido em todo grupo, seja massivo ou familiar. Pra se conseguir liberdade em relação a um determinado percebimento de uma coesão ou de um movimento com formas maiores que nossa solidez possa dissolver ou se tornar mais rija pra que haja um enfrentamento, enfim, pra se conseguir liberdade, deve-se ver o núcleo leve de uma idéia que me precede, ou a densidade suficiente em cada ser vivo pra reter o universo mental nos limites da sanidade.
    O principal problema a partir de então é através da leveza da idéia que nos precedeu, saber que lidar com a liberdade, é difícil, pois a escravidão deixa vícios, o principal vicio é a abstinência da escravidão, e abstinência da escravidão é medo.
    O medo é quem conduz ao movimento-reflexo na maioria das vezes, e quanto mais cedo alguém tem medo, melhor para o grupo de escravos que se libertou dos tiranos precedentes, mas que agora, só e pelo simples fato de ainda serem um grupo, sustentam o mecanismo. O mecanismo que sustenta o medo que nos faz, digamos assim, sucumbir a escravidão, é a simples possibilidade de vingança que se faz para o escravo que subverte e assume o comando, porém o ex-escravo, agora sem idéias leves, é afetado pelo peso das decisões, e quase sempre tomam as mesmas decisões que garantiram sua ex-condição. Isso é só pra se ter um exemplo do que um passo do ódio pode fazer com todo um segmento de vidas. Uma das manifestações mais comuns no procedimento de um ex-escravo é ver a educação como submissão, ver cuidado como fraqueza, ver atenção como a malicia que o levará novamente a dependência, ver com baixos preconceitos auto-escravizantes e dispostas como segunda opção a arrogância e agressão como um veiculo glorioso.

    Abraço aí Adi.

  3. adi said

    “Que foto, linda, linda! E que assunto! ”

    Eu também achei linda, expressa bem liberdade.

    ” Sabe que me botei de “férias” daqui, né? :p mas acabei de publicar uma poesia lá no Sopoesia e veja se tem ou não tudo a ver com aqui: ”

    Férias é muito bom, mas confesso que fiquei super feliz de vc postar, eu li a poesia, linda mesmo, e tem sim tudo a ver com esse post daqui, como diria a nossa amiga Luiza (beijão Lu), “santa sincronicidade”.

    O Lama Padma Santem é o máximo mesmo, eu estava pesquisando sobre liberdade no budismo porque tinha começado a esboçar um post sobre isso, mas encontrei esse belíssimo texto, e achei que retratava tão bem o que entendo também por liberdade, não tive dúvida em trazê-lo pro Anoitan. 😉

    Inferno e céu é bem isso que foi colocado, e as pessoas convivem o tempo todo com isso nas situações da vida, e tem muito da forma como percebemos e lidamos com essas situações, podemos aprender a viver melhor, a mudar valores, a ser mais leves, não se importar com pequenas coisas, ou podemos continuar rigídos, querendo mudar apenas as outras pessoas, querendo mudar apenas o mundo a nossa volta, e se todos pensarem assim, tudo continua sendo o que sempre foi, estagnado…

    “– que mistério, magia, koan, enigma de esfinge ou segredo de pirâmide existe em alimentar o outro e confiar de que serei por ele também alimentado?
    precisamos de pontes que nos levem para longe do eu nos tragam o tu e realizem a magia dos nós ”

    Pois o mistério é extamente esse, sair um pouco do eu/meu,meu/eu,eu,eu – e nem precisaria tanto ao ponto de transcender totalmente o “eu”, apenas de vez em quando tentar se colocar no lugar do outro, antes de qualquer julgamento…

    Barcos navegam em oceanos e mares, em rios e lagoas, lagos e riachos, te levam pra qualquer lugar onde se queira ir, e ao cortar as águas seu próprio caminho…

    Ficou tão simpático você escrever em forma poética seu comentário, trouxe muita leveza… 🙂

    bjs

  4. adi said

    Oi Elielson,

    “É nesse pensamento de aceitar forma, dar forma, que penso: quantas vidas estão sobrepostas, entrepostas, paralelas, cruzadas, e acima de tudo… quantas vidas estão nisso que eu chamo de lugar, quantas vidas de fato estão na terra, na terra em que eu piso, sinto e vejo a mesma perseguição de nós em outro? Vidas que tornam úteis as neurotransmissões, que tornam úteis a moldagem do formato, sem ligar pro lugar entre os papéis mais intensos que são representados entre a nossa mente daqui e a nossa mente dali.”

    Eu gosto de te ler Elielson, e gosto mais ainda de tentar te entender, seu estilo quebra a rigidez de linguagem de outra mente. Eu penso sobre essas vidas como sendo cada uma delas um ponto de uma rede de conexões de neurônios de uma grande mente que não podemos conceber, mas que se concebe ela própria em cada um de nós, seu pontos de conexões.

    ” Mas, a partir do momento que tem-se na memória a forma e a causa dela, qual o motivo de não estar aplicando a causa que leva a outra forma? Bem, então é sinal que existe uma forma que delimita os extremos das formas que influenciamos. E a ilusão de um corpo maior pra enfrentar uma forma maior talvez seja a causa dos efeitos nocivos de uma consciência coletiva, exatamente por isso existe esse fenômeno, ao meu ver, de um mecanismo regular estar inserido em todo grupo, seja massivo ou familiar.”

    É, o “sistema” e ou sístase que limita a consciência dentro desse padrão cognitivo que chamamos realidade.

    ” Pra se conseguir liberdade em relação a um determinado percebimento de uma coesão ou de um movimento com formas maiores que nossa solidez possa dissolver ou se tornar mais rija pra que haja um enfrentamento, enfim, pra se conseguir liberdade, deve-se ver o núcleo leve de uma idéia que me precede, ou a densidade suficiente em cada ser vivo pra reter o universo mental nos limites da sanidade. ”

    Exatamente, dissolver nossas próprias paredes que limitam as percepções, é a mesma coisa que sugere a psicologia de Jung, primeiro o resgate de nossas partes não aceitas/negadas pelo eu, por ex. a sombra, segundo um outro aspecto do coletivo, e essa é a parte mais difícil, porque pra abarcar essa totalidade há um enorme risco de se romper os limites da sanidade e a mente se perder em loucura.

    “O mecanismo que sustenta o medo que nos faz, digamos assim, sucumbir a escravidão, é a simples possibilidade de vingança que se faz para o escravo que subverte e assume o comando, porém o ex-escravo, agora sem idéias leves, é afetado pelo peso das decisões, e quase sempre tomam as mesmas decisões que garantiram sua ex-condição.”

    O sistema está sempre se ajustando, se dobrando e distorcendo novamente a forma “do novo, ou liberdade” em cadeias e grilhões. Haja visto as religiões que transformam “ensinamentos de liberdade” em sistemas rígidos de opressão, principalmente porque se ensina tudo ao “pé da letra”, se esquece das metáforas, se esquece que a forma contém a “verdade”, mas não é a verdade em si, todas as manifestações são como símbolos que velam a “causa real”.

    ” Isso é só pra se ter um exemplo do que um passo do ódio pode fazer com todo um segmento de vidas. Uma das manifestações mais comuns no procedimento de um ex-escravo é ver a educação como submissão, ver cuidado como fraqueza, ver atenção como a malicia que o levará novamente a dependência, ver com baixos preconceitos auto-escravizantes e dispostas como segunda opção a arrogância e agressão como um veiculo glorioso.”

    Perfeito em sua colocação, nada a acrescentar. 😉

    Abs pro cê também.

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