Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

As três provas de Ofélia

Posted by adi em março 9, 2010

Seguindo a boa dica da Luiza sobre o filme “O Labirinto do Fauno”,  me interessou ler novamente o post do Saindo da Matrix e os comentários, todos  bons por sinal, onde praticamente todos os aspectos interessantes e simbólicos do filme foram discutidos, com exceção das três provas de Ofélia, que foram citadas mas não muito aprofundadas, por isso trouxe aqui pra gente “esmiuçar” um pouco mais.

Acho que já assisti ao filme mais de 3 vezes, há algum tempo atrás e já não me lembrava mais de todos os detalhes. Como sou curiosa, lá fui eu pesquisar no Youtube cenas do filme, particularmente com relação a essas etapas, e o filme ainda continua mexendo comigo, não sei se a música ajuda no clima, mas é inevitável  não se emocionar, principalmente nas cenas finais…  ainda acho um filme muito triste…

Além dos elementos arquetípicos do feminino, da Grande Mãe, do aspecto negativo masculino que se apresenta no personagem do capitão, e do conflito interior de Ofélia na passagem do infantil para a puberdade; Ofélia como que necessitava se refugiar  num outro mundo,  num mundo mágico e perfeito.  Nada mais natural em meio a guerra civil, onde se vê tanta violência e crueldade tão próximos e reais para ela.

No início do filme, ouvimos a narração do conto da Princesa que foge do reino subterrâneo  para o mundo dos humanos, porque sonhava com o céu azul e com o brilho do sol, e que diante  da luz se esqueceu de seu passado, de sua origem. Esse conto nos lembra muito a jornada de nossa alma, o mito da queda de Sophia, a diferenciação do espaço/tempo, do inconsciente/consciente, e esse é o destino de Ofélia, o retorno ao reino e ser uma princesa novamente.

Dentro do carro, a caminho do encontro com o Capitão, Ofélia está entretida com um livro de contos de fadas, de princesa, de um reino encantado, então ali naquele bosque e novo lugar tem início seu destino, voltada interiormente, num mundo imaginativo e mágico, esse mundo de sonho começa a tomar forma.

Dentro do labirinto, todo em espiral, há como uma fonte em seu centro, lá Ofélia  encontra e conhece  o Fauno, que lhe conta sua verdadeira origem, ela é uma princesa, filha do Rei do mundo subterrâneo e filha da lua, e que ali naquela fonte há um portal para o reino, mas pra retornar precisa passar por três tarefas para provar que sua alma não está corrompida, que sua essência está intacta e que é imortal.

Três é um número sagrado que costuma estar simbolizando o princípio divino. Epiral é um símbolo feminino, de fecundidade, que evoca o caráter cíclico de evolução, qual seja, a viagem da alma depois da morte.

Fonte simboliza o acesso ao inconsciente que pode ser simbolizado através da imagem do mundo subterrâneo, cujo portal de entrada é a fonte, um símbolo materno. Existe ainda uma conexão entre a fonte, a juventude e a imortalidade sendo que  sua água é equiparada ao elixir da vida dos alquimistas. A fonte é um símbolo feminino, materno, de origem da vida. É uma imagem da alma, da gnose, do centro, da individuação. Percebemos aqui que é o próprio inconsciente, a própria alma de Ofélia quem a está conduzindo através da “imaginação”.

A PRIMEIRA TAREFA:  “… os animais, os homens e as criaturas mágicas dormiam juntos embaixo da sombra de uma enorme árvore (Figueira) que cresce na colina perto do moinho, mas agora a árvore está morrendo, seus ramos estão secos e seu tronco preto e torcido. Debaixo de suas raízes há um enorme sapo albino que retira a força da árvore…”

Nesta primeira prova, Ofélia tem que entrar  na Figueira que estava quase morta, em suas raízes havia um grande sapo que tem que comer três pedras para que este libere uma chave e também liberte a árvore.

Figueira é uma árvore que simboliza a abundância, e também a imortalidade. Ao adentrar a fenda da árvore como se ela estivesse adentrando o útero da terra, úmido, cheio de barro, como representando a matéria ainda indiferenciada, portanto inconsciente. Pedra na alquimia tem essa simbologia de prima-matéria, representa a pedra Filosofal em estado bruto, o início, para posteriormente transformar-se no Lápis.

Quando o sapo engole as pedras, ele vomita uma gosma e junto a chave. Sapo é considerado em todas as mitologias um elemento masculino. E também na alquimia, tem o mesmo simbolismo da pedra, ou seja, representa a prima-matéria. O sapo quando morre, fica negro e entra em estado de putrefacão, enchendo-se de seu próprio veneno. O alquimista submetia então essa carcaça ao fogo do processo alquímico até transformá-lo num elixir capaz de matar ou salvar o indivíduo.

Vômito representa a coagulatio. A Coagulatio é o estágio alquímico que produz o ouro e por isso, as fezes/vômitos/escrementos representam o início do processo de transformar o chumbo em ouro, matéria bruta em pedra lapidada.

Esta é a primeira prova iniciática, o começo da transformação do corruptível ao incorruptível, como um nascimento, um adentrar ao reino mágico.

O iniciado é o possuidor da chave, o conhecedor dos segredos e o único capaz de ter a chave para que possa abrir as portas que dão acesso aos mistérios da iniciação.

A SEGUNDA TAREFA:  Entrar no mundo do devorador, usar a chave para pegar uma faca/punhal, não tocar de forma alguma na farta mesa de comida, não comer nem beber nada. Teria que cumprir esta tarefa em tempo determinado, caso contrário a passagem se fecharia.

Esta prova é de natureza diferente, Ofélia têm de vencer o desejo, não sucumbir ao proibido, vencer a tentação e as distrações momentâneas; uma prova de concentração e domínio da mente, dos pensamentos que vivem a nos distrair .

Ao mesmo tempo o ato de comer alguma coisa tem o significado de incorporá-lo, de torná-lo corpo, e por conseguinte os sonhos em que algo é oferecido ao sonhador para ser comido indicam que um conteúdo inconsciente está pronto para ser assimilado pelo ego. Então essa segunda tarefa é de natureza dual.

Ofélia cumpre essa tarefa parcialmente, visto que pega a faca, mas sucumbe ao desejo ao proibido e se distrai desperdiçando tempo, e por causa de sua falha duas fadinhas que lhe protegiam são devoradas pelo monstro.

A faca/punhal é considerada um instrumento de sacrifício, além de poder ser considerada como sendo um símbolo da mente que repele qualquer convicção tida como tradicional. É o emblema da lua cheia na China.

A TERCEIRA TAREFA:  A terceira e última prova é também a mais difícil. Ofélia tem que levar o irmão recém nascido ao centro do labirinto quando a lua estivesse cheia, para regressarem ao reino.

Em meio a muito tumulto externo, Ofélia consegue pegar seu irmãozinho e corre para o labirinto, sendo seguida pelo Capitão. Lá ela encontra o Fauno que lhe diz que para adentrar ao reino é necessário que gotas de sangue de um inocente sejam derramadas no centro do labirinto, para que o portal se abra. Segundo o Fauno, seria um pequeno corte feito com o punhal, mas Ofélia não concorda, mesmo que para isso perca a oportunidade de entrar no reino e se tornar uma princesa. Ofélia sacrifica seu sonho de retorno, sacrifica seu direito sagrado e desiste de retornar e ser princesa. Então o Capitão chega, lhe tira o menino e atira em Ofélia. Ela esta ali caída, seu próprio sangue escorrendo pela mão, a morte se aproxima, ela vê a lua cheia refletida na água da fonte.

Sangue é sempre o símbolo da parte emocional da alma humana, simboliza também o pacto entre o indivíduo e os poderes divinos ou demoníacos. Elemento extremamente precioso e potente, corresponde a própria vida da alma, assim como a poção da imortalidade.

Seu sangue escorrendo e gotejando na água da fonte, abre o portal, Ofélia ouve a voz de seu pai que lhe diz pra levantar-se, e quando se levanta está no reino e é convidada a se sentar no trono ao lado de seu pai e de sua mãe.

A imagem da morte simboliza uma situação arquetípica da mais alta numinosidade. É quando o inconsciente invade a vida e nos arrasta de tal maneira que nós não conseguimos nos subtrair ao seu poder. Normalmente, as imagens de morte em sonhos, fazem alusão à morte iniciática que nada mais é do que morrer para um estilo de vida profano, acompanhado de um renascimento espiritual.

Palácio/reino possui a simbólica de ligação com o centro, com o SELF, o centro ordenador da psique. É possível que esta simbólica relacione-se ao fato de que o palácio era o ponto central do reino, para o qual os interesses deveriam convergir. O simbolismo do trono é de entronização ou de tornar-se uno com deus.

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Fontes e Ref.: Dicionário de simbologia; Youtube.

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17 Respostas to “As três provas de Ofélia”

  1. ilham said

    Achei a análise simplesmente brilhante. Estou grata por ter tido oportunidade de lê-la. Vou pensar muito sobre toda esta simbologia e como ela atua na nossa vida sem nos darmos conta.

  2. adi said

    Oi Ilham,

    “Achei a análise simplesmente brilhante.”

    Puxa, muito obrigado por ter gostado.

    “Vou pensar muito sobre toda esta simbologia e como ela atua na nossa vida sem nos darmos conta.”

    Tem muito da simbólica iniciática, do inconsciente arquetípico que emergi no consciente e que de certa forma amplia nossos horizontes. Está sempre se manifestando, principalmente em nossos sonhos, por isso em algumas vertentes iniciáticas se utiliza também análise de sonhos para ajudar no trabalho interno de transformação.

    abs

  3. timóteo pinto - o papa pateta said

    melhor q ler critica de filme em frances! 🙂

  4. adi said

    “melhor q ler critica de filme em frances!”

    Ok, Timóteo; vou tomar isso como um elogio, tá!!! 🙂 🙂 🙂

  5. timóteo pinto - o papa pateta said

    mas foi elogio, oras! 😀 😀

  6. adi said

    “mas foi elogio, oras!”

    Ahh, que bom; então eu fiz muito bem em tomar o certo pelo certo. 😉

  7. timóteo pinto - o papa pateta said

    pois é. é q adoro quando frances escreve sobre cinema. Ele pensa o filme ao contrario do padrão de critica americano, q infelizmente, nossos “criticos” nacionais adotam. o q eles fazem é mais pre-release a favor ou contra filmes! 😀 😀 Até filmes “ruins” como os do Ed wood ou do daniel filho 😀 😀 podem trazer novas conexões neurais e levar a reflexões de coisas da vida, além do espelho da tela, ao meu ver, claro.

  8. Sem said

    Adi, preparada? =) sua análise simbólica é muito viva em detalhes, eu gostei, mas como toda análise acontece dentro de um contexto, é só dentro desse contexto que ela faz sentido…. Nem sempre o contexto é claro para todo mundo, então, qual o contexto aqui?

    Acontece o mesmo com a interpretação das analistas junguianas… Acho ambas as análises (a sua e a das analistas) muito ricas de simbolismos, dá para fundar “mundos” com elas, mas elas delimitam um feminino (e por contraste o masculino) dentro de um espaço prévio já bastante desgastado – a meu ver pouca liberdade de locomoção existe para ser ou fazer diferente. Tanto para o homem quanto para a mulher o feminino é apagado, brilha apenas no escuro – é claro que estou fazendo referência direta ao patriarcado e ao reino todo da Grande Mãe, como citado por vc e pelas analistas junguianas inclusive. Pois é, Grande Mãe (=matriarcado) faz invariável e inevitavelmente essa “dobradinha” com o patriarcado. Esse é o contexto, no qual tanto o feminino quanto o masculino tem papéis praticamente impossíveis de se fugir – são determinantes e, sem dúvida, construídos de fora para dentro. O “homem” e a “mulher” agem então dentro de um padrão, quase como para concluir que o homem e a mulher são “naturalmente” daquele modo… só que todo o simbolismo nesse contexto é antes dependente dessa construção cultural de gênero. Por isso os aportes a Saturno, Perséfone, Hades, encaixam como uma luva, todos pertencem organicamente ao mesmo mundo mítico. Acontece que dentro da própria teoria junguiana, papel tem a ver com ‘persona’, com “representação”, a algo que se não for relativizado, como o ego, jamais se chegará ao Self, o arquétipo maior…

    O filme todo é lindo de doer, e trabalha bem essas questões todas, mas eu acho que devemos ser críticos na construção dos gêneros que o filme carrega, – o próprio filme nos convida a fazer isso, e não nos deixar envolver pela fantasia de um mundo que se provou insuficiente tanto para homens quanto para mulheres. Talvez o Guillermo del Toro tenha escolhido justamente um final trágico por isso, para significar o fim desse mundo que não tem mais encaixe na realidade atual. Ou não, não sei, parece que a ideia toda do filme lhe brotou de um sonho que teve, de um pesadelo, melhor dizendo…

    Pois é, sonho e analise: analisar um filme é semelhante a analisar um sonho. Em ambos os casos o simbolismo é variável de pessoa para pessoa, e mesmo o sonho de uma única pessoa, interpretado em diferentes momentos de sua vida, trará outras significações. Idem para os filmes, tanto varia o impacto de cada um que assiste ao mesmo filme, como visto pela mesma pessoa em diferentes momentos verá outras coisas… O mais bacana de um sonho e de uma obra de arte a meu ver é quando podem permanecer como obras em aberto… pelo menos eu acredito que é só assim que as mensagens permanecem frescas, ou vivas, com possibilidade de outros fazeres…

    Afinal não é o final triste desse filme que me faz sentir desconfortável com ele, mas o modo como o feminino e o masculino são construídos em franca dependência mórbida. Essa diferenciação toda, embora excitante e geradora de paixões (ah, é), engendra o tal do contraste desagregador que em outras ocasiões já conversamos, e faz dos dois gêneros habitantes de mundos completamente distintos. No caso do filme, feminino e masculino são inimigos declarados, e se flagelam num jogo por poder. Oras, mas se o complexo paterno do filme é negativo, como disseram as analistas junguianas, o complexo materno tb o será, necessariamente… depois eu não acho legal que a relação mãe-filha se estreite por desconsideração ou insuficiência do papel do homem como marido e pai para elas.

    Então é assim, no patriarcado o homem domina o espaço público, usa as cartas em aberto, pois detém o mando, a força, os recursos, já à mulher cabe o papel da submissão, por não poder agir no aberto, por isso é sub-reptícia e diz o que não pensa ou o que pensa não diz, se faz de frágil, de vítima – muitas vezes será de fato. Mas, tire a vítima e não terá mais o algoz… Eu realmente não acho legal que o feminino se construa “bonito”, “doce”, “frágil”, porém “forte por dentro”, ao tornar o masculino “feio”, “agressor”, “duro” e “forte só por fora”, é preciso mais liberdade para ser (humano apenas) e quem sabe assim nasça uma real aproximação entre os sexos, ainda hoje muito ‘construídos’ nas órbitas de Marte e Vênus.

    Vale dizer ainda que aonde se tem “jogo” não se tem “intimidade”. A intimidade, segundo o Eric Berne, é espontânea apenas nas relações não programadas por um script prévio – jogos obedecem roteiros prévios de comportamento e por isso são tb previsíveis. E vale lembrar igualmente que quando se busca poder, não é de amor que se trata. Muita coisa mesmo que a gente chama “amor” é simplesmente exercício de poder de um ser sobre outro. Caso do capitão (é capitão?) para com a mãe de Ofélia e caso da mãe da Ofélia para com o capitão. Afinal não existe jogo só de um lado, a coisa toda é sempre mútua.

    Pensando num outro possível paralelo, sabe que adoro astrologia e até gostaria de abrir um tópico de debates só para isso aqui no Anoitan, tal qual o aberto em cinema, mas o simbolismo todo da astrologia é bem arcaico e… uma coisa que reparei e queria colocar em debate, é que não tem nenhuma figura feminina independente na simbologia astrológica. Cadê o feminino com o qual hoje possamos nos sentir honradas? Dos 10 planetas da astrologia atual, só 2 são femininos e nos representam – a lua “sentimento” e vida interior ou lar, e Vênus “amor”, estética de atração e poder femininos. Pelo menos na astrologia antiga os 7 planetas conhecidos tinham o seu feminino e o seu masculino, com exceção do Sol e da Lua que sempre representaram exclusivamente cada qual um único gênero… Tudo é muito bonito, significativo e de fato verdadeiro, como no filme Labirinto do Fauno, mas hoje insuficiente para expressar (mitologizar!) as transformações pelas quais passamos… está faltando alguma coisa que ainda não existe, é esse o meu sentimento.

    Pois é, falei Adi, não sei se falei tudo o que devia ou se está na melhor ordem, mas tudo o que falei é o que eu penso.

  9. adi said

    Oi Sem,

    ” Nem sempre o contexto é claro para todo mundo, então, qual o contexto aqui? ”

    Eu esqueci de mencionar que o contexto que direcionei essa análise é do ponto de vista iniciático, místico mesmo, porque como sabemos, nestes tipos de iniciações o neófito passa por certas provas para confirmar que já está pronto pra receber/conhecer determinados “segredos/conhecimento” de poder.

    Por ex. no xamanismo o iniciado recebe poderes voltados pra cura, então ele fica sabendo quais são as plantas de poder pra determinados tipos de doença, quais os rituais, etc.

    Também é sabido no budismo tibetano, que é possível quando de nossa morte fazer o reconhecimento do puro ser, e sair da roda de nascimento e retorno.

    Na verdade, não direcionei pra essa questão do feminino/masculino ou de gêneros, porque na análise das psicólogas já havia sido bem aprofundado, e também bastante comentado no blog do Acid, de fato seria chover no molhado, 🙂 .

    Mesmo porque não percebi Ofélia tão envolvida com a mãe, desde o início do filme Ofélia está completamente envolvida em seu mundo particular e imaginativo, seu mundo de contos de fadas. Ela queria ser uma princesa, fica encantada com essa idéia, e não mede esforços pra realizar essas tarefas e poder retornar em definitivo para seu “reino”.
    Percebemos isso no começo do filme quando sua mãe lhe chama pra voltar pro carro, porque Ofélia já estava absorta em sua imaginação ao encontrar uma pedra que era o olho da estátua do fauno…
    Depois nem liga quando sua mãe entusiasmada lhe dá um vestido novo que fez para ela, e quando vai tomar banho imediatamente pega o livro e entra no mundo imaginativo de novo…

    Entendi, que independente de gêneros, Ofélia queria sair do mundo que a circundava, talvez por causa da guerra, talvez por causa de ser orfã de pai, motivos ela tinha aos montes.

    Os gêneros que se apresentam no filme, são aqueles arquetípicos no sentido de “passagem”, de transformação profunda, são uma constante nos sonhos e nas imagens iniciáticas, fazem parte do inconsciente coletivo e não necessariamente representam conflitos de gêneros masculino em oposição ao feminino. No contexto iniciático, aliás, são sempre de ordem apaziguadora, reguladora da nossa psiquê, onde trazem uma nova ordem mais abrangente com relação a vida e aos relacionamentos humanos. Os elementos simbólicos do filme, no caso a árvore como gruta, o sapo, a chave, a faca, o sangue – mesmo que a maioria deles são de ordem do feminino; não deixam de ser uma recorrente simbólica das iniciações místicas.
    É sabido, que a primeira iniciação espiritual, envolve um nascimento, um adentrar no mundo espiritual, naturalmente se nasce da “mãe”, do útero de um ser altamente numinoso, que nos parece a Deusa. Então claro que toda essa simbólica vai ser em torno do feminino arquetípico. Mas não que ele esteja em oposição ao masculino, é tão somente um aspecto que se apresenta de um ser Andrógino.

    Cada passo conduz a um outro maior e mais difícil, faz parte do processo iniciático, então a prova do meio se refere ao domínio da mente e dos desejos, e tanto facas/punhal/espada representam que se tem o domínio sobre os pensamentos, sobre os devaneios e sentimentos que te jogam de um lugar ao outro. Oras, “não somos” essa inconstante massa de pensamentos e sentimentos que se desfazem a todo momento e se constroem e se reforçam novamente; mas que a maioria não tem controle sobre isso, ao contrário isso controla nossas vidas.

    Ofélia ainda é uma criança de 12 anos, nessa fase os gêneros são neutros, ou será que ela estava vivenciando esse conflito através do exterior e não dentro dela?

    ” O mais bacana de um sonho e de uma obra de arte a meu ver é quando podem permanecer como obras em aberto… pelo menos eu acredito que é só assim que as mensagens permanecem frescas, ou vivas, com possibilidade de outros fazeres…”

    Têm sonhos que até hoje não decifrei completamente, está vivo interinho, ainda um enigma, ainda guarda um segredo. Outros porém se abriram, e claramente me ajudaram a melhorar algum aspecto de mim… ainda continuam vivos também, pela alegria da solução de um conflito.

    Sabe, eu até entendo que a simbologia “pronta” é um pouco restrita, têm seus próprios limites dentro de seus horizontes, mas foi e ainda continua sendo tão útil pra mim, não acho que foi um limite, mas a chave que abre a caixa, o clic inicial, então está por sua conta desbravar a caixa, pegar todos os conteúdos e “modificar” a sua vida. Essa por sinal a parte mais difícil, mudar.

    “Cadê o feminino com o qual hoje possamos nos sentir honradas? Dos 10 planetas da astrologia atual, só 2 são femininos e nos representam – a lua “sentimento” e vida interior ou lar, e Vênus “amor”, estética de atração e poder femininos. ”

    Eu me pergunto cadê o feminino dentro de nós? o que é o feminino hoje? mudamos tão rapidamente, incorporamos tantas coisas ditas “masculinas” que ainda não nos situamos direito, estamos em transição. As mulheres foram pra guerra, pro trabalho, fazem fisioculturismo, são pilotos, astronautas, sustentam a casa, presidentes, lideres, etc. Coisas tipicamente masculinas fazemos igual e algumas vezes melhor até, nós não somos mais o feminino de antes, somos diferentes, podemos dizer que estamos ficando mescladas (rsrs). Talvez depois quando essa transição acabar, os símbolos se modifiquem pra quem sabe “andrógenos”, como era no início, cada qual com seus aspectos masculino/feminino amaziados, unidos.

    ” Tudo é muito bonito, significativo e de fato verdadeiro, como no filme Labirinto do Fauno, mas hoje insuficiente para expressar (mitologizar!) as transformações pelas quais passamos… está faltando alguma coisa que ainda não existe, é esse o meu sentimento.”

    É que a transformação ainda não está completa e não nasceu o novo. Os símbolos arcaicos já não nos servem mais, mas pode servir como a chave, depois a cada um decifrar seu enigma, seu mistério e segredo no coração. Talvez o arquétipo do momento, o novo símbolo seja o de Gaia na consciência de todos, devido ao impasse do momento, i.e, nosso problema com o meio ambiente. Talvez essa consciência maior nos una como um único povo sem distinção de raças, cor, credo; ou seja, nos faça “tolerantes” com os diferentes. Talvez nós mulheres estamos dando os passos iniciais dessa transformação da sociedade rumo a uma nova forma de se organizar além dos gêneros, visando só o “humano”. As cartas estão todas na mesa, só não sei se viverei o bastante pra ver o fim do jogo.

  10. timóteo pinto - o papa pateta said

    As cartas estão todas na mesa, só não sei se viverei o bastante pra ver o fim do jogo.
    ———

    bah! pratique o taoist yoga do charles luk e vire imortal daoísta, oras! 😛 dai vc assiste de camarote! 😀

  11. adi said

    “bah! pratique o taoist yoga do charles luk e vire imortal daoísta, oras! dai vc assiste de camarote! ”

    Ah, mas então você vai ter que passar o segredo aqui pra gente, vai ter muita gente interessada nesse assunto de imortalidade. 🙂

  12. Sem said

    Pois é, Adi, tudo o que eu escrevi e o modo como eu li sua interpretação dos trabalhos de ofélia foi sob o ponto de vista de uma análise psicológica embasada em teoria junguiana… a minha bronca fica por conta do que eu considero unilateralidade da linha mais “ortodoxa” da Psicologia Analítica, digamos, que tende a ver tudo sob o foco da Grande Mãe. Vc sabe, a bronca é minha, assumo…

    Qd vc diz que o contexto é místico, já não sei mais o que dizer. Até lendo outra vez não consigo tirar nada do texto – nada com que possa contribuir pelo menos, tal é o meu desconhecimento, nem perguntas tenho… concluo que o melhor é ficar calada e nesse assunto apenas ser leitora… eu não sei, a minha vida inteira convivi em meios céticos, muito intelectuais, essa é a minha praia e nesse meio me sinto até uma alma bastante “espiritualizada”, mas em meio aos místicos, sou é peixe fora d’água.

    Estava lendo um livro de poesias da Cecília Meireles ontem e achei essa poesia que me lembrou a Ofélia. Deixo como homenagem a menina eterna em cada uma de nós, que ao morrer, ao mesmo tempo permanece menina, jamais se transforma em mulher.

    – Não faz mal que a chuva caia!
    Aguentaremos a água nos olhos,
    depois, cobriremos a cabeça com a saia!

    – Não faz mal que no barro entremos!
    Quem tropeçar, fica ajoelhado.
    De barro fomos e seremos.

    – Mas ninguém suje o caixão de Isolina!
    Levantem bem, que o caixão é leve
    onde vai a virgem menina.

    – Não faz mal que nós nos sujemos:
    mas levantem os ramos de rosas
    e os de dálias e crisantemos!

    – Andaremos léguas de estrada,
    com léguas de chuva por cima.
    Mas que Isolina não fique cansada!

    – Esperou tanto pelo seu dia!
    Mas teve vestido de seda branca
    e manto igual ao da Virgem Maria.

    – Tão bonitinha! Preta! Preta!
    Que vai ser a alma dela, agora?
    – Ou beija-flor ou borboleta…

  13. adi said

    “a minha bronca fica por conta do que eu considero unilateralidade da linha mais “ortodoxa” da Psicologia Analítica, digamos, que tende a ver tudo sob o foco da Grande Mãe. Vc sabe, a bronca é minha, assumo… ”

    É verdade Sem, eu concordo com você, também achei a análise das psicólogas um pouco puxado pra esse lado. Também não vi tudo isso, como já disse, entendi Ofélia em seu próprio mundo de criança, independente de gêneros. Seria muito natural uma menina daquela época sonhar em ser princesa, foi essa parte que mais me chamou atenção.

    Agora na parte que toquei, sobre as provas, é muito interessante notar que as iniciações nos mistérios espirituais, sejam nas escolas esotéricas, sejam nas iniciações espontâneas, há a necessidade de alguma prova. Enfrentar um temor como a morte, ou provas de caráter, de disciplina, de confiança, são como portas que quando ultrapassadas, significam ir além de um limite psicológico e espiritual. É claro que mesmo no sentido místico e religioso envolve o psicológico, pois somos seres emocionais, racionais, espirituais e tudo num corpo com suas sensações, um atuando no outro, um influenciando o outro.

    ” a minha vida inteira convivi em meios céticos, muito intelectuais, essa é a minha praia e nesse meio me sinto até uma alma bastante “espiritualizada”, mas em meio aos místicos, sou é peixe fora d’água. ”

    Eu diria que há pessoas que mesmo céticas são muito mais espiritualizadas que pessoas que vão à missa todos os dias. Porque espiritualidade mesmo vem do coração, é um sentimento diferente perante a vida, um respeito maior com tudo e com todos, e você é sim muito espiritualizada, tanto que estamos aqui por similaridades que se atraem. O misticismo não é muito diferente disso, só têm mais paixão, sabe uma paixão que te arrebata, que colore a vida com mais cores, que faz ter música em cada olhar, enfim, é ter o coração renascido com o poder espiritual; já ocultismo é diferente ainda, mexe com o poder da mente associado com o poder espiritual, é magia forte, tem certos riscos. O ideal é ter desperto o coração pra mexer com esse poder, pois quando o coração já é de um místico ele pode se transformar num ocultista sem perigo algum.

    Fugi do assunto né? ai, ai, é que vibro em falar dessas coisas. 😀

    Linda poesia, linda, obrigado!

  14. Sem said

    Adi,

    Vezes sem conta o motivo do desentendimento entre as pessoas é que elas pensam estar falando da mesma coisa, qd na verdade não estão. As linguagens são muitas, quero dizer que o foco de interpretar um mesmo objeto, conforme a luz que se dê, muda o objeto… Isso é pq estou falando de uma realidade plástica, – anímica -, e é quase o contrário do que muitos tomam por realidade espiritual, que é mais da ordem do imutável, do permanente, do essencial…

    > “Fugi do assunto né?”

    Fuja sempre, o teu melhor me aparece desvia da rota principal. =)

    Minha luta pessoal (significado de vida) é para tornar esses dois – alma e espírito – não inimigos, não excludentes. Por isso muitas vezes posso parecer contraditória, quando na verdade estou fazendo o casamento desses dois.

    Quando eu digo “espiritualidade” pra mim tem um significado – e ao significado que eu dou, me considero “espiritualizada”… mas tenho bem ciência que o sentido das religiões institucionalizadas não é esse…

    O “meu espiritual” funda raízes na minha totalidade, o que inclui minha vivência, o que implica o que eu penso, que implica o meu conhecimento de psicologia inclusive. Nada é desligado, a realidade é “tudo”.

    Sei que vc entende o que vou dizer, mas sinto necessidade de dizer isso com todas as letras para que fique bem claro, qd faço a “crítica” da Grande Mãe, não estou fazendo a crítica do “arquétipo” – da sua representação melhor dizendo – estou criticando na verdade as pessoas que hierarquizam os arquétipos. Claro que “pai” e “mãe” são naturais e “temos” e “somos” pais e mães em muitas formas, claro que Saturno e Grande Mãe tem a sua importância e merecem de um modo ou de outro ser cultuados… minha questão mais é quanto ou que lugar ocupam no panteão entre tantas outras coisas que merecem ser vividas e cultuadas igualmente.

    “Fugi do assunto né?”

    Fuja sempre, pra mim muitas vezes o teu melhor se revela distante da rota principal. =)

  15. Sem said

    Opa, desculpa, qd a gente usa esse sinal > aqui no WordPress deve fazer parte da configuração do texto e o que era o final não sei como foi parar lá no início… desconsidere o parágrafo com “>”.

  16. adi said

    Sem,

    Fiquei pensando tanto nisso tudo que você falou, me questionando sobre isso, e foi difícil encontrar uma resposta satisfatória. Desde sábado quando te li, não consigo responder…

    Porque honestamente não sei qual é minha luta hoje, não sei qual é hoje meu significado de vida mais. Engraçado que já tive isso tão claro em minha mente, eu tinha tantas certezas ano passado…

    “Quando eu digo “espiritualidade” pra mim tem um significado – e ao significado que eu dou, me considero “espiritualizada”… mas tenho bem ciência que o sentido das religiões institucionalizadas não é esse…”

    É exatamente assim que entendo, espiritualidade não tem nada haver com o sentido das religiões institucionalizadas. Me sinto dessa forma também.

    “O “meu espiritual” funda raízes na minha totalidade, o que inclui minha vivência, o que implica o que eu penso, que implica o meu conhecimento de psicologia inclusive. Nada é desligado, a realidade é “tudo”.”

    Ultimamente sinto que o espiritual funda raízes na existência aqui, ser. Porque algumas vezes sobrevém um sentido diferente de perceber as coisas, como uma paixão que toma conta da vida… e me basta tanto, tão simples, ser alegremente, livre, sem ligar pra mais nada, sem ligar pras criticas, cobranças, poder dizer o que está no coração sem medo de ser taxada, conceituada, julgada…. É tão difícil ser, simplesmente ser, há uma pressão do mundo muito forte pra que se siga aquele padrão estabelecido…

    ” …minha questão mais é quanto ou que lugar ocupam no panteão entre tantas outras coisas que merecem ser vividas e cultuadas igualmente.”

    Sem, entendo perfeitamente, e concordo com você, está faltando espaço pra mais de tudo, pra sair da mesmice e do sempre igual. 🙂

  17. Por que ele é trizte por causa do final

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