Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Mais um pouco sobre o Tao

Posted by adi em fevereiro 17, 2010

O Taoísmo é uma filosofia que trata da essência e natureza da condição humana. O Tao pode ser descrito como o princípio de não-ser, que dá origem a todas as coisas. É o vazio — presente em tudo que é. Difícil de entender? Pois é, não é fácil mesmo. Mas hoje esse conceito abstrato já pode ser cientificamente comprovado.

Nossas células são compostas por milhões e milhões de átomos e, segundo a física quântica, mais de 99,9% deles são formados por espaços vazios. Isto é, nosso corpo físico tem uma imensa porcentagem de vazio. É um monte de nada. O vazio cria a energia, a matéria e o corpo físico que percebemos por intermédio de nossos órgãos sensoriais. Esse corpo físico é repleto de partículas subatômicas e estas só podem ser entendidas por meio de suas interconexões, das relações e dos movimentos que estabelecem entre si. Para a física quântica, o universo é um processo harmonioso, unificado, um entrelaçamento dinâmico de elementos inter-relacionados — precisamente o pensamento fundamental da filosofia taoísta e também da budista.

E, se para o taoísmo a origem de tudo é o vazio, o não-ser, esse é também o estado ao qual retorna tudo o que é. Pois aquilo que existe, morre. Do vazio surge a forma e da forma, o vazio. Esta milenar observação chinesa é análoga à teoria da relatividade da física moderna que criou dois conceitos opostos: de matéria e energia, uma transformando-se incessantemente na outra.

Esse fenômeno de transformação não implica em julgamento de valor — nem a forma é boa, nem o vazio ruim, ou vice-versa. O que se revela é uma relação de harmonia e equilíbrio entre todas as coisas.

Isso é a natureza: equilíbrio harmonioso. E nós somos parte dela. O que ocorre no meio ambiente pode ocorrer com o ser humano. Conhecendo a natureza, você aprende a conviver em equilíbrio consigo mesmoo e com o meio. Equilíbrio significa vida e morte, fraqueza e força, saúde e doença, pois o Tao é responsável por todos os lados desse balanço.

Um, dois, três e dez mil

O Tao, uno, dá origem a dois, o Yin e o Yang, que por sua vez geram três, Ch’i, Jing, e Shen — os quais seguem para formar as dez mil coisas, forma poética de dizer tudo o mais que existe no universo. Esses são conceitos básicos da medicina tradicional chinesa:

– o de matéria, substrato essencial ou Jing;

– o de energia ou Ch’i, substância que dá vida à matéria, movimenta-a e a transforma;

– e finalmente o conceito de mente, ou Shen, que, segundo os chineses, é a fração pensante da matéria.

O Tao ensina que todos os acontecimentos se inter-relacionam. Isso não quer dizer que o bater das asas de uma borboleta no Brasil cause tormentas na Austrália, mas, sim, que tanto a borboleta como a tormenta são regidas pelo mesmo princípio da essência Ch’i, dos opostos Yin e Yang, e dos cinco movimentos. Esses princípios regem a existência de todas as coisas, fazendo com que elas se correspondam e se complementem dentro do cenário da vida.


O chamado livro das mutações, o I Ching, é uma das bases do pensamento oriental. “I” quer dizer “mutações” – conceito que ocupa o centro da concepção chinesa de mundo. De acordo com essa visão, objetos e seres não são coisas estabelecidas na natureza —  de certo mesmo só existe a mudança, o movimento , o fluxo contínuo.

Você nasce, cresce, envelhece, morre. Adora abacaxi até que um dia descobre preferir pêssego. Se apaixona, se desapaixona, muda de emprego, troca de carro. Das coisas mais profundas às mais banais, o mundo é  movimento. Não existe algo ou alguém que mude, pois quando pensamos assim, estamos imaginando esse algo ou alguém fora do movimento de mutação; o que não é o caso. Nós e tudo o que existe somos parte do movimento de mudança.

Ch’i: crer pra ver, sentir para saber


A palavra Ch’i é a junção de ar ou respirar, com arroz, ou seja, os dois elementos essenciais para a vida, assim Ch’i pode ser traduzido como a emanação ou energia vital, essência da vida, o que dá vida a tudo o que existe. Essa é a definição de Ch’i. Para a medicina tradicional chinesa, Ch’i é o suporte da vida: invisível, contínuo e indivisível. Até hoje nada corresponde a esse conceito na medicina ocidental, nenhum elemento, sistema ou noção. Até porque o Ch’i “é”, mas não pode ser observado, medido, pesado, manipulado, Para compreendê-lo é necessário crer que ele existe. No entanto, para usufruir o bem que ele faz, basta você se orientar pelos conhecimentos da Medicina Tradicional Chinesa.

continua no próximo post.

Fonte: Dr. Jou Eel Jia, professor titular de Medicina Chinesa, Lien Ch’i e Meditação.


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8 Respostas to “Mais um pouco sobre o Tao”

  1. Livio said

    “O Tao, uno, dá origem a dois, o Yin e o Yang, que por sua vez geram três, os quais seguem para formar as dez mil coisas”
    道生一
    一生二
    二生三
    三生萬物

    Diretamente do capítulo 42 do Tao Te King

    A beleza do Chinês, é que ele não encarcera o significado em uma única leitura.

    O Tao gera o um (continuidade). O Um gera o dois (diferença), e a diferença gera o três (a pluralidade), que vai gerar a tudo o que está acontecendo (wàn wù, as dez mil coisas, a multiplicidade).

    Além de permitir leituras diversas, como realmente a da noção cíclica de tudo o que existe. Por isso, a aparência dinâmica do símbolo do Tao, pois o Yin e Yang estão contínua e ininterruptamente em transformação, sem deixar de serem o que são (como o próprio capítulo 42 explicita melhor nos versos restantes)

  2. adi said

    Oi Livio,

    ” A beleza do Chinês, é que ele não encarcera o significado em uma única leitura.”

    De fato, parece que os caracteres expressam “uma ideia”, uma imagem; estas que são interpretadas por cada um, e nisso é muito rico; não é fixo, nem rígido…
    E sim, como você bem mencionou, o próprio símbolo do Tao tem movimento, é fluido.
    Foi este aspecto que achei bem interessante no texto, “o movimento”, a constante transformação de tudo que há. No outro post sobre “ego, na ótica budista” – percebemos o mesmo movimento de tudo, dos pensamentos que continuamente estão a passar, e passar; e assim é, nós é que nos apegamos a “algumas coisas” e queremos mantê-la fixa, e não observamos as mudanças continuas que se sucedem.

  3. Livio said

    Eu acho até uma certa contradição em se tentar definir o Tao (道) como “Não ser”, é meio arriscado, pois a própria definição é limitante, estatizante. Por isso existem essas parábolas, essas imagens, e é dentro delas que se encontra o significado.

    Até por que, para nós no ocidente, o “não ser” é o contrário de Ser.
    Enquanto que no chinês, não é tão metafísico assim, pois o verbo existencial You “ser” é usado no sentido de “presença”, ou “estar nas cercanias”, e o não ser é simplesmente “ausente”, não estando em oposição ou contradição com o ser.
    Uma dicotomia entre presente e ausente, a ausência que permite o desenvolvimento pleno de situações ainda embrionárias, e por isso, invisiveis.

  4. adi said

    “Enquanto que no chinês, não é tão metafísico assim, pois o verbo existencial You “ser” é usado no sentido de “presença”, ou “estar nas cercanias”, e o não ser é simplesmente “ausente”, não estando em oposição ou contradição com o ser.”

    Livio, não sei se entendi direito, mas você citou “you” como o verbo “ser” em Mandarim?

    Estranhei, porque aprendi o básico de Mandarim quando morei lá, e aprendi que o verbo “ser/estar”
    em pinyin é “shì”, e o verbo “you” com circunflexo ao contrário no “o” é “ter/há/existir”, e não tinha me atinado a esse fato do verbo como “existir”, sempre usei “you” como ter/há. Não que fizesse diferença, a princípio, no meu entendimento ao texto, pois sou leiga sobre o Taoísmo; e estranhei também porque o texto é de um chinês.

    Nesse sentido, faz diferença na interpretação, já que pra representar o “ser” do Tao, eles não usam o “shì”, mas “yöu”. Ficou mais coerente.

    Olha, têm sido muito esclarecedor sua participação aqui, por favor, continue acrescentando sobre o Tao quando quiser.

    Obrigado

  5. guto novo said

    oguaco@gmail.com

    ei livio! eu comecei mas tive de parar de estudar lingua chingling pra entender melhor o daoismo, faltou verba! 😀 e sei lá, véio, se quiser/puder me ajudar no processo, não de aprender chines, mas no de tradução dos ideogramas do daodejing, eu agradeço! 🙂 meu email é seu amigo! 😀

    pratico pequeno universo e chi kung q é associado a essa linhagem aqui:
    http://www.qigongmaster.com/zhangbio.html

    e se tiver um tempo algum dia pra ajudar um analfabeto funcional taoísta, eu agradeço!

    posso “pagar” com a parte musical do taoísmo! 😀 se vc já nÃo a dominar 100% tb! 😀

  6. Livio said

    Oi Adi!
    Que ótimo que voce já tem familiaridade com os ideogramas – as vezes, ficava queimando a cabeça para tentar ser o mais claro possível. É isso mesmo, 有 ou yǒu (desculpe não deixar o ideograma anterior)

    Além das dificuldades dos verbos e significados convergentes, mas diferentes, muitas vezes, e a maior parte das traduções não vem diretamente para o português, mas faz uma etapa em inglês, e daí para o português, já sem o referencial original.

    Não acho que esteja errado, até por que, cabe muito bem sim todos os significados citados no artigo, mas por que existem também outras possibilidades.
    E é claro, eu tenho uma visão dentro da minha época de vida, e estou me dirigindo diretamente para voces, diferente do contexto provável que originou o artigo acima (dirigido para leigos e sem nenhum contato prévio com o Tao).

    Guto, graças a internet, hoje dá para tanto encontrar os ideogramas, quanto também a “versão original” de todos os versos do Tao Te King.
    E acho também muito gratificante discutir, até para melhorar a compreensão e aprofundar, expandindo mais os potenciais.

    Eu recomendaria MUITO o autor François Jullien, um filosofo e sinólogo que soube entender muito bem as diferenças do pensamento chinês e ocidental: Figuras da Imanência (sobre o I Ching), Tratado da Eficácia (A Arte da Guerra, entre outros), Um Sábio Não Tem Idéia (sobre essa aparente contradição do sabio do Taoismo), Fundar a Moral (confrontando um pensador clássico com Mencio) – Todos em português.

  7. adi said

    Oi Livio,

    “Que ótimo que voce já tem familiaridade com os ideogramas – as vezes, ficava queimando a cabeça para tentar ser o mais claro possível. É isso mesmo, 有 ou yǒu (desculpe não deixar o ideograma anterior)”

    Tenho sim; apesar que primeiro aprendi em pinyin, porque minha prioridade era somente conversar, poder me comunicar, sair e poder me virar em qualquer situação, então eu conversava bastante, me virava super bem até, mas me sentia analfabeta. Mas quando faltava uns 4 meses pra retornar pro Brasil, senti necessidade de aprender os caracteres, foi então que comecei aprender os ideogramas. Já estava escrevendo e lendo em ideogramas frases bem simples como: – eu estou feliz por morar na China :), – minha filha está na escola agora. – Somos brasileiros vivendo na China, – etc, etc – igual criança 😀 … Mas já esqueci um pouco, faz tempo que não pratico nada.

    ” Além das dificuldades dos verbos e significados convergentes, mas diferentes, muitas vezes, e a maior parte das traduções não vem diretamente para o português, mas faz uma etapa em inglês, e daí para o português, já sem o referencial original.”

    Exato, essa é a dificuldade das traduções, porque normalmente é tradução de tradução, e aí não têm jeito mesmo, se perde bastante do real significado, e acaba mais limitado mesmo.

    “Não acho que esteja errado, até por que, cabe muito bem sim todos os significados citados no artigo, mas por que existem também outras possibilidades.”

    Também acho isso; porque o que é acrescentado não exclui o significado anterior, apenas enriquece o texto.

    Apesar de eu estar um pouco familiarizada com Mandarim, há muitas pessoas que lêem o Anoitan e que não são familiarizadas, portanto você vai ter que continuar esquentando a “cachola” pra ser claro, pra nós entendermos o Tao. 😀

  8. […] https://anoitan.wordpress.com/2010/02/17/mais-um-pouco-sobre-o-tao/#more-1328 […]

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