Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

A religião verdadeira

Posted by Sem em fevereiro 2, 2010

Ao longo dos anos vamos acumulando tantos documentos no computador quanto livros pelas estantes, roupas nos armários, móveis pela casa… Mudamos de computador, mudamos de casa, mudam as estações e com elas as nossas necessidades, mas as tralhas continuam, só porque um dia ali estiveram e em algum ponto foram úteis, ali permanecem, como que em estado de inércia vegetativa existencial, ou pior, a nos prestar o desserviço de agora nos distrair das coisas hoje mais importantes…

Sendo assim, conselho de virginiana, bom é se desfazer para fazer melhor circular o Chi, não ter dó nem piedade de jogar fora o que não nos serve mais – se é que algum dia serviu, ou de passar adiante se por ventura tiver alguém interessado naquela tralha. Afinal, ser tralha é só uma questão de ponto de vista… Mas claro que para separar o que [nos] presta do que não [nos] presta [mais], precisamos de um certo discernimento, ou amadurecimento, porque saber daquilo que necessitamos é, de repente, descobrir quem somos ou do momento que estamos vivendo, e essa tarefa é a mais impossível entre todas.

Mas guardar tralhas serve tão somente para nos distrair das outras coisas que realmente merecem os nossos cuidados. Faz mal ter guardado o que não nos serve mais, melhor é deletar o imprestável no oco do vazio que a tudo absorve e nunca se preenche, assim criar o espaço para que outros sentidos possam nos preencher e nos organizar numa outra dinâmica… Melhor um espaço vazio, cheio de significado, do que um espaço cheio de significados vazios…

No meio de documentos que nem sabia que tinha, alguns até sem saber o porquê os tinha guardado, encontrei essa pérola que vou guardar pelos próximos computadores que ainda tiver vida afora. Não passo adiante no sentido de me desvencilhar do texto, mas de dividi-lo com quem aqui me lê para amplificar o seu sentido. Quando eu comecei a ler – A religião verdadeira – só para saber do que se tratava, pensei que tinha sido eu que o tinha escrito há algum tempo – me pareceu familiar, mas é assim mesmo quando nos identificamos com um texto, ele primeiro nos lê, antes que nós o possamos ler… No entanto logo no segundo parágrafo percebi que não tinha sido eu a autora, é que eu sei que não sou um monge budista, sequer sou budista, só a minha alma é que segue insistindo em ser…

Falar em uma religião verdadeira talvez possa ser interpretado da seguinte forma: se há uma verdadeira outras são falsas. Claro, sempre a minha em relação às outras. Neste caso, existe um centro irradiador de verdade em detrimento às zonas periféricas. Pode ser que a maior fraqueza das tradições monoteístas seja justamente neste ponto. Existe uma verdade. Esta verdade é única. Portanto, desconsidero todas as demais como falsas. Assim forma-se uma dialética negativa como maneira de afirmar o meu ponto de vista. Também existe nesta situação um recorte dual: o meu e o do outro. Inclusive, estendemos a dualidade no campo da relação com o sagrado: eu e a verdade.

Certa vez, acompanhando o então Superior Miyoshi à Paraíba, a fim de participar de um encontro multireligioso um estudante fez a seguinte pergunta: “Qual é a religião verdadeira?”. Sem muito pensar, a resposta foi enfática: “Aquela que promova o bem estar para a maioria”. Entendi esta colocação de uma maneira mais prática frente às adversidades. De que uma religião deveria atender as necessidades humanas em primeiro lugar e depois às querelas metafísicas dos dogmas. E neste mundo há idéias demais e pouca ação. Aliás, existe também uma espécie curiosa de “budistas” que se dizem como tais navegando nas ondas da internet e discutindo idéias apenas. Encontrei certa vez um amigo, que treinara zazen mas depois se afastou mas continua “praticando” ao ler os textos budistas. Muito estranho isso. Me parece aquele “entendido” na culinária mundial apenas lendo os livros de receita. Sem provar da comida, nada pode-se falar a respeito dela.

Então estudante de História, em algum momento do curso veio como rajada aquele refrão provocatico: “a religião é ópio do povo”. Pensei naquele momento que realmente a religião fosse isso. Não mudei de opinião. O que mudou foi a amplitude da minha reflexão a respeito desta colocação. Há muitas religiões que oferecem ópio, não porque elas assim querem. Existem pessoas que precisam de ópio para continuar vivendo. Quer dizer, o mundo é cruel: os homens são maus, o capitalismo é injusto, a política é corrupta, a justiça é falha, a educação é insuficiente. E ao apegar-se à ideologia salvítica dos profetas milagreiros, como ópio, uma multidão de necessitados fazem fila.

E o budismo também é ópio? Pode-se tornar caso houver praticantes que necessitem desta droga. Se a prática budista consistir na idolatria, sejam das imagens, da alegoria, das cantorias, ou de seu líder. Este é o ópio. Assim, o budismo pode ser tudo aquilo que o praticante desejar que ele seja. Pode-se acreditar no poder de Buda e de seus avatares. E no poder dos mestres? Penso que o pior ópio budista seja quando o mestre se torna idolatrado. Caso isto ocorrer, na minha singela opinião, ele deve ser destruído. Todas as imagens de adoração devem ser destruídas. Quando a destruição se estender a todo ópio budista, então encerra-se o período da ilusão.

Inversamente ao ópio da religião, o budismo se presta a ser a libertação. Por isso, fazer zazen não se ganha nada. Faço tanto reverência a Buda quanto para o mendigo que mora nas ruas. Na verdade, aquele mendigo também é um Buda. Faço zazen nas salas do templo, quanto nas favelas, prostíbulos e prisões. Me parece que os que fazem zazen apenas em lugares tranqüilos como as montanhas são egoístas. Este zazen exclusivista, protótipo da pequena burguesia, é também ópio. Tudo aquilo que estimula a ilusão é ópio. É ópio também os que lêem as frases de efeito do budismo “auto-ajuda” e não fazem nada para transformar o mundo. É cínico praticar o budismo e continuar na inércia do “faço de conta que não vejo nada”. Lembrando do exemplo de Sidhartha, o Caminho requer renúncia. Renúncia inclusive da ópio das religiões.

O entendimento do Dharma é como estar navegando num único barco em que todos os outros também se abrigam. Lá se abrigam os cristãos e muçulmanos, judeus e palestinos, sábios e alienados, homens e homossexuais, cachorros e gatos. Caso o barco sofrer uma avaria, todos morrem. Há a necessidade de todos colaborarem para o bem de todos, assim, quem sabe, o barco não afunda. Pensar que apenas os gatos e os homossexuais vão afundar é uma grande ignorância.

Entendo o budismo como uma religião da libertação, que ao invés de ópio, deve lidar com a iluminação. Ajudar a todos, sem discriminação é um ato de iluminação.

http://sanghamargha.blogspot.com/2006/11/religio-verdadeira.html

Anúncios

16 Respostas to “A religião verdadeira”

  1. Sem said

    Oi Adi,

    Vou te responder por aqui…

    Como vê, acatei sua sugestão de postar o texto no Anoitan. Nem tinha me dado conta de que era mais assunto para espiritualidade do que para poesia…
    Esse texto é fóóoo….. go mesmo. =) Inteiramente verdadeiro, apenas isso.

    Ao som dessa letra perfeita do Gil fica, se possível, ainda melhor. Zen na voz do próprio Gil ou com mais paixão na da Elis:

    Se eu quiser falar com Deus
    Tenho que ficar a sós
    Tenho que apagar a luz
    Tenho que calar a voz
    Tenho que encontrar a paz
    Tenho que folgar os nós
    Dos sapatos, da gravata
    Dos desejos, dos receios
    Tenho que esquecer a data
    Tenho que perder a conta
    Tenho que ter mãos vazias
    Ter a alma e o corpo nus

    Se eu quiser falar com Deus
    Tenho que aceitar a dor
    Tenho que comer o pão
    Que o diabo amassou
    Tenho que virar um cão
    Tenho que lamber o chão
    Dos palácios, dos castelos
    Suntuosos do meu sonho
    Tenho que me ver tristonho
    Tenho que me achar medonho
    E apesar de um mal tamanho
    Alegrar meu coração

    Se eu quiser falar com Deus
    Tenho que me aventurar
    Tenho que subir aos céus
    Sem cordas pra segurar
    Tenho que dizer adeus
    Dar as costas, caminhar
    Decidido, pela estrada
    Que ao findar vai dar em nada
    Nada, nada, nada, nada
    Nada, nada, nada, nada
    Nada, nada, nada, nada
    Do que eu pensava encontrar
    Se eu quiser falar com Deus

  2. Sem said

    Falando em documentos, perdidos e achados, coisas velhas que guardamos…. achei ainda essa velha e sábia histórinha, acho tem tudo a ver tb… mesmo assunto, outra abordagem. É uma espécie de fábula, com a mensagem final e tudo, só que no lugar dos animais, entram dois vasos, um rachado e outro inteiro:

    Uma velha senhora chinesa possuía dois grandes vasos, cada um suspenso na extremidade de uma vara que ela carregava nas costas.

    Um dos vasos era rachado e o outro era perfeito. Este último estava sempre cheio de água ao fim da longa caminhada do rio até casa, enquanto o rachado chegava meio vazio.

    Durante muito tempo a coisa foi andando assim, com a senhora chegando a casa somente com um vaso e meio de água.

    Naturalmente o vaso perfeito era muito orgulhoso do próprio resultado e o pobre vaso rachado tinha vergonha do seu defeito, de conseguir fazer só a metade daquilo que deveria fazer.

    Depois de dois anos, refletindo sobre a amarga derrota de nunca realizar por inteiro o seu trabalho, o vaso falou com a senhora durante o caminho: “Tenho vergonha de mim mesmo, porque esta rachadura que eu tenho faz-me perder metade da água durante o caminho até a sua casa…”

    A velhinha sorriu:

    “Reparaste que lindas flores há somente do teu lado do caminho? Eu sempre soube do teu defeito e portanto plantei sementes de flores na beira da estrada do teu lado. E todos os dia, enquanto a gente voltava, tu as regou… Durante dois anos pude recolher aquelas belíssimas flores para enfeitar a mesa. Se tu não fosses como és, eu não teria tido aquelas maravilhas na minha casa.”

    Cada um de nós tem o seu próprio defeito. Mas é o defeito que cada um de nós tem, que faz com que nossa convivência seja interessante e gratificante.

    É preciso aceitar cada um pelo que é… E descobrir o que há de bom em cada um.

  3. adi said

    Sem,

    Gostei muito do texto, foi muito bom você ter trazido pra cá; quando eu leio sobre o Budismo, eu logo penso, eu sou budista de coração, não praticante do dogma, porque nada pratico como disciplina espiritual no sentido de seguir um só caminho; meu caminho é sinuoso; como uma comida feita com vários temperos e iguarias que enriquecem o sabor. Só a meditação pratico como forma de conexão, e na pratica no dia-a-dia e como penso, acho que tende pra linha do Budismo Tibetano (rsrs), porque é muito parecido comigo. Ah!! e você já tinha me falado isso. 🙂

    Ainda hoje, tive que esperar bastante, e como já sabia, levei o livro “Vazio Luminoso”, e é como você escreveu, tem coisas que vale a pena guardar, reler, relembrar, trazer pra nossa vivência diária mesmo. Esse livro tem “preciosidades” pra quem sabe apreciar, é muito rico e profundo e acho que o Budismo Tibetano sintetiza a “essência” dos valores espirituais, ou da verdade. E nesse ponto, não desmerece nenhuma outra religião ou tradição, não se elege como verdade unica, nem é de forma alguma excludente, mas explica de maneira clara os nossos humores e estados mentais que tornam a realidade da maneria que percebemos. E nesse sentido, eu vejo tanta similaridade entre todas as filosofias e religiões, olha, é impressionante como dizem as mesmas coisas; cada qual a sua maneira, usando de metáforas diferentes, tentam explicar as mesmas coisas.
    Tem várias partes do livro que é similar a Psicologia de Jung também.

    Por isso Sem, é sim aquele dito: Todos os caminhos levam a Roma. Nemhum sistema filosófico, religioso ou espiritual é por si só “limitador”, não é. Todos visam a libertação. E nisso o texto fala muito bem, pois se torna ópio e limites de acordo com a necessidade que as “pessoas” tem por esses limites e drogas de alienação. Podemos endeuzar e idolatrar um vaso de ouro, e ali depositar toda a nossa fé. Isso é projeção, e um dos fundamentos de como a magia funciona.

    A magia está dentro de nós; mas a principio tudo é projetado no mundo, o bom e o mal, o feio e o belo. E os sistemas ou caminhos traz a pessoa de volta ao centro interior, e o que é projetado tanto as qualidades como os defeitos retornam a fonte, a pessoa se descobre sendo a fonte. E então a necessidade de tornar as religiões e ou sistemas/conceitos como ópio ou limites se desfaz. Os deuses e mestres morrem, a forma antiga de perceber o mundo desvanece, tudo se renova “na mente” que não separa nem divide, mas une matéria/corpo com o espírito/mente, e essa união é essa nova maneira de ver, é o resultado duma terceira “coisa”, poderíamos dizer o Unus Mundus.

    Essa música do Gil é linda, pura poesia, sem comentários, nada a acrescentar, fala por si-mesma.

    “Cada um de nós tem o seu próprio defeito. Mas é o defeito que cada um de nós tem, que faz com que nossa convivência seja interessante e gratificante.
    É preciso aceitar cada um pelo que é… E descobrir o que há de bom em cada um.”

    E é tão difícil as pessoas entenderem isso, elas distorcem tanto o significado do “resgatar a sombra”, das descidas às áreas infernais de nossa psiquê, do significado da “depressão” quando a causa é uma mudança interna profunda da psiquê, porque “iniciação” simboliza um novo inicio, uma mudança interna da nossa maneira de ser. Claro, nem todas as depressões significam um processo iniciático, mas no geral é isso sim, “mudança”, e autoaceitação, ficar “nu” mesmo, aceitar que literalmente o que nos incomoda nos outros é o que não aceitamos em nós, isso também é “ver” o real e retirar as projeções. Eu já tive forte depressão aos 26 anos, sarei sozinha, nunca mais tive, e no meu caso foi “mudança” emocional, mental, auto-aceitação em vários sentidos, e depois uma certa liberdade espiritual. Eu sei que sou meio “abilolada” na maneira que tento me expressar (rsrs), que tento dizer o que são minhas certezas do momento (rsrs), é assim que sou, e aceito isso, aceito meus limites; não culpo o mundo nem as religiões (rsrs), nem os católicos, nem o Lula (rsrs)- não mais, nem os burgueses (rsrs), nem os limitados, nem os esquizos, nem os loucos, nem os gatos e muito menos os homossexuais :)) , como o texto diz, estamos todos no mesmo barco.
    Mas aceitar isso em si-mesmo é dolorido demais, é preferível continuar firme e forte na ilusão de que o mundo é mal e de que os limites estão nos outros… 🙂

  4. Renato said

    essa música do Gil, essa fábula chinesa…muito boas

    todo mundo acaba caindo na de usar o “fazer” como escudo para se proteger do mundo… o ópio do mundo não é a religião… o ópio do mundo é a própria vida que escolhemos viver… viver sem o ópio pode ser uma barra pra quem não ta preparado, porém o preço que se paga pela entorpecimento é alto demais.

    abraçs

  5. Elielson said

    Sobre religião verdadeira, bem, acho que meditando ou não, estamos lidando com informações, agora, o que fazemos com essas informações é o que vai nos aproximar da verdade ( de nossa própria verdade, digamos), ou, pelo menos, nos afastar das mentiras, ou, na pior das hipóteses, nos ensinar a mentir.
    2010, mais um ano de magia rústica perpetuada através de nomes mágicos, caixas mágicas, dedos magicos, e pessoas que tiram o poder de seu centro para trocar por gozo ( ou nem isso ).
    Mais uma vez rituais de deletação e ufanação vão enfileirar essências na direção de idolos, e religá-los, ou redesliga-los 😀
    Não admito certos aspectos do que a psicologia apontaria como minha sombra, sendo assim, tolero até onde se pode conviver e não para aceitar sê-la em virtude de uma possivel redenção ou de um processo evolutivo de valorização espiritual. Não se trata de viver a sombra, se trata de entendê-la ou não, e entendendo-a vemos a motivação lógica humana, correndo os riscos de entendê-la de acordo com a lógica de uma crença especifica opositora de luz e sombra que luta pra justificar a eterna luta, já que movimento circular é o melhor pra girar produção. Agora, vendo, de modo simples, que algumas coisas são incabiveis, porque a projeção de certas atitudes tendem lógicamente a serem destrutivas, não podendo ser complementadas num plano de convivio posterior… podem sim, lógicamente tbm, agrupar o que mais querer se eliminar no desenvolvimento e nitida fatalidade de certas atitudes. As contraprovas ou o desfoque, levam aspectos de realidade a desistência. Mas muitas coisas não analisadas crescem como erva-daninhas mesmo…, e o pior, são focadas cada vez mais, e não no intuito de decifrar ou desvendar o ser, e sim perdê-lo de si, enquanto alguns gatos pingados acham pelos que não se propoem a achar, e há até quem implore para ser achado por outro quando a busca pessoal foi insuficiente, daí acontece que quem lida com o fluxo de informações rende-se a achar ouro de tolo pra distribuir.
    Novas crias signatárias, em sua maioria, famintas.
    O budismo faz sentido talvez pq não se limite.
    Mas para um religião, conhecer-se falsa a torna verdadeira.
    Mas para o homem é diferente, pois tudo se cria em seu coração, a partir do que quer e de acordo com a sua sinceridade, pois se ele é verdadeiro com os outros mesmo na revelação do anti-padrão, põe-se ao julgo do mundo, o que lhe dará aval de ser ou não.

  6. adi said

    Oi Elielson,

    “Sobre religião verdadeira, bem, acho que meditando ou não, estamos lidando com informações, agora, o que fazemos com essas informações é o que vai nos aproximar da verdade ( de nossa própria verdade, digamos), ou, pelo menos, nos afastar das mentiras, ou, na pior das hipóteses, nos ensinar a mentir.”

    Essa é a parte mais difícil, é como transformar chumbo em ouro, ou seja, como colocar em prática ou vivenciar de fato o amor, paz, fraternidade, tolerância, etc, dentro do coração? Não digo para com os outros, mas antes de tudo consigo mesmo. Por ex., quando se está em paz no coração, tudo o mais é paz, você é a expressão da paz, ninguém pode abalar essa paz interior… e assim com as outras coisas também.

    “Não admito certos aspectos do que a psicologia apontaria como minha sombra, sendo assim, tolero até onde se pode conviver e não para aceitar sê-la em virtude de uma possivel redenção ou de um processo evolutivo de valorização espiritual. Não se trata de viver a sombra, se trata de entendê-la ou não, e entendendo-a vemos a motivação lógica humana, correndo os riscos de entendê-la de acordo com a lógica de uma crença especifica opositora de luz e sombra que luta pra justificar a eterna luta, já que movimento circular é o melhor pra girar produção.”

    Sabe Elielson, um desabafo aqui, me desculpe tá? eu sei que sou repetitiva, chata até, muitas vezes falo besteiras (rsrs), com respeito a esse processo de individuação, ou busca espiritual, caminho, enfim, o que se queira chamar. Muitas coisas, não falo da boca pra fora, não falo porque somente li em algum livro, mas porque tive o privilégio de vivenciar, e então, depois, confirmar e entender pelos livros o que aconteceu comigo. Foi sempre assim comigo, porque sinto uma necessidade de assimilar, compreender e integrar à consciência coisas estranhas que me aconteciam. Até então, quando do confronto com a sombra, nenhuma religião que eu conhecia pode dar suporte nesse sentido, e o que eu conhecia, dava a entender que esses assuntos ou conteúdos devem ser “reprimidos, evitados, enviados de volta ao lugar de onde vieram”, ou seja, ao inconsciente. A psicologia de Jung, que eu vim a conhecer melhor através do Franco Atirador, não só dá suporte a entender esse processo, como a aceitar e integrar esses conteúdos, que “não devem” ser reprimidos novamente. A sombra tem enorme poder, ou seja, muita energia presa e separada do ser consciente, e essa energia é liberada quando ocorre a integração. Nunca fui em busca da minha sombra, nem especular meu inconsciente, as coisas sempre emergiram espontâneamente, e ainda mais, na ordem que a psicologia nos mostra, ou seja, primeiro o contato com conteúdos Arquetípicos e numinosos, muito tempo depois com a sombra, depois contatos com o animus e lá um dia com o Ser livre, e é um processo natural do ser humano se integrar ao estado original, mas agora com consciência. É como o Guaco diz, o intuito é ser totalmente livre 24hs por dia, não somente momentos de epifania, mas momentos de epifania, ou esses contatos é o começo, é conhecer “é isso mesmo, como já disseram”, é ter experimentado.
    Eu fico chateada, quando as pessoas não compreendem essa busca, e “categorizam”, enquadram, e limitam o outro, os chamando de “adoradores” de Jung ou de Campbell, só porque esses mui respeitados autores são citados aqui no Anoitan, e eu falo sempre deles, porque na minha experiência serviu como uma chave que abriu um monte de portas dentro da minha mente, da minha psiquê. Qual o problema disso??

    E cada vez eu fico mais certa de que os limites com relação a visão do mundo, estão dentro de nossa psiquê, somos nós que vemos os limites nas filosofias, nas religiões, na política, etc. Somos nós que colocamos os limites no mundo. A vida é um grande reflexo daquele inconsciente coletivo rejeitado e negado pela sociedade, mas que está dentro de nós também. Não significa que ao perceber tudo isso, devemos ficar de mãos cruzadas, mas sendo reflexo do interior coletivo, nada mais certo que cada um fazer o trabalho interno de auto-conhecimento, pois se cada um mudar um pouco o interior, o mundo já será melhor, não?

    Essa é a questão, do começo do comentário, como trazer isso pra vivência cotidiana, como mudar o interior? Bem, pra mim, é através da aceitação, da integração do desconhecido de nós mesmos.

    Mas a maioria das pessoas, inclusive aquelas que se dizem livres, separam mais do que juntam as pessoas, quando o que se vê são críticas e mais críticas, julgamentos ao invés de compreensão, intolerância ao diferente, categorizando e classificando pessoas. Oras! que raio de liberdade é essa, que está sempre enquadrando pessoas??

    Já disse e é bom repetir, os limites estão dentro da gente, não no mundo.

  7. adi said

    “A vida é um grande reflexo daquele inconsciente coletivo rejeitado e negado pela sociedade, mas que está dentro de nós também.”

    Ficou estranho, deixa eu colocar melhor: A vida é um grande reflexo daquele inconsciente coletivo, como uma somatória dos conteúdos negados por cada indivíduo. Se a sociedade compreende/abrange a soma dos indivíduos de determinado grupo, o inconsciente coletivo de determinado grupo compreende/abrange a soma do inconsciente individual daquele grupo. É assim que entendo, e posso estar errada, ok. Mas vendo por esse lado, como fazemos parte desse grupo, por ex. somos brasileiros e fazemos parte do povo brasileiro, de certa forma, tudo o que vemos sendo exteriorizado nesse grupo, é o reflexo do interior de cada, rejeitado de certa forma, aquilo que não suportamos ver em nós, portanto vemos somente no próximo, pois somos como reflexos uns dos outros.
    Eu creio, que na medida que trabalhamos isso em nós, (porque ninguém é perfeito, livre, sem limites, etc. ;), se não, não estaríamos aqui) aceitamos ao mundo, aos outros, sem julgamentos e criticas, porque somos assim também em menor ou maior medida, e fazemos parte disso, mesmo para aqueles que não se “identificam mais” com as aparências, pois agora se identifica ao que está por trás da imagem…

  8. adi said

    Oh, meu Jesuszinho Cristinho, eu cada vez me enrolo mais com as palavras (rsrsrs).

    ” mesmo para aqueles que não se “identificam mais” com as aparências, pois agora se identifica ao que está por trás da imagem… ”

    Não se identificar com as aparências, ok.
    Mas, não por isso se “identificar” com o que está por trás da imagem. Identificar nesse caso usei mal. Seria mais como um lembrar de quem se é, ou do verdadeiro Ser. Porque nesse caso não há identidade, e só podemos nos identificar por identidade. É diferente, o Grande Ser é impessoal, e está em você e está no mundo, e é você e é o mundo…

  9. Sem said

    Elielson, algumas vezes vc é claro como água límpida e em outras obscuro como as águas negras dos abismos mais insondáveis. Foi o caso agora, mas nem se explique, ser obscuro é bom, vide Heráclito com a mesma alcunha… Em todos os casos seu discurso é pra mim sempre inspirador.

    Adi, inspirada e inspiradora, eu sempre te entendo – até qd é o caso de reentender.

    Renato que eu não conheço, mas gostei de conhecer o blog…

    Vejam só…

    Eu não tenho religião nenhuma, só um sentimento de unidade religiosa com o cosmos.

    Assim, eu não respeito religiosos, só o sentimento religioso nas pessoas – que se manifesta de modo muito variado, como todos aqui parecem concordar.

    Mesmo que eu ache que seja pura ladainha o sentimento religioso de alguns, respeito ainda assim, compreendo que para essas pessoas é aquela ladainha a sua maior ou talvez a única possibilidade de conexão que tenham com o cosmos. Mas o que eu respeito é a CONEXÃO nas pessoas, não as suas ladainhas…

    Pra mim as pessoas NÃO são livres, elas estão condenadas – no linguajar sartriano – ou condicionadas – no linguajar budista – a ser aquilo que são. Isso pra mim não configura liberdade nenhuma, ou pelo menos não no sentido amplo dessa palavra. A única liberdade humana que existe, a meu ver, é a determinada de um espaço prévio em que ali sim, pode o homem livremente transitar. Quer dizer, o homem é livre para fazer suas escolhas apenas dentro daquele espaço restrito…

    E as pessoas se repetem naquilo que são, até se exaurirem, pois não podem repetir outra coisa, em existência, que não o desabrochar da essência daquilo que são. Só que SER humano é bastante amplo… Se por um lado sabemos que quem condena/condiciona o homem é em parte sua biologia e em parte a cultura, tendo por pano de fundo o tempo/lugar em que vive, por outro lado, o homem está sempre inventando um para-além dele mesmo, e com isso modifica as próprias circunstâncias em que vive… Ou seja, a existência do homem é construída tanto pelo seu caminhar quanto pelo caminho dado a ele ‘a priore’… (esclarecimento: minha ideia de uma realidade apriorística não entra em choque com meu existencialismo prático porque não carrega nenhuma conotação racionalista metafísica de estilo kantiano, carrega antes o sentido de imanência [de Deus] em Spinoza, é enfim o sentido de uma realidade arquetípica – anímica – embasando a vida e apenas nesse sentido é determinante…)

    Ou seja, sintetizando, caminho + caminhante = paradoxo.

    O paradoxo é agregador, e, no meu entender, é a chave para qualquer realidade anímica… Diferente de uma contradição lógica, que poderia ser desestruturante, mas não necessariamente…

    Então é isso, parte o homem faz o caminho ao caminhar, mas a outra parte do caminho é realizada por motivações que estão além dele… Julgar que é só pelo “caminhar”, que acontece a vida, é desconsiderar o Universo e todo o seu Grande Mistério; mas julgar que é só pelo “caminho”, no outro extremo, é desconsiderar a potência do existir… É as duas coisas, é as duas coisas sempre! Nunca vou acatar nenhuma espiritualidade que não respeite o caminhante e o caminho.
    Quando eu digo que minha alma é Zen, é nesse sentido que o Zen faz do caminho e do caminhante uma coisa só…

    Vou finalizar contando uma historinha que é a minha ladainha. Vivo repetindo a mesma história, sempre com novas palavras e outras imagens.. É o resumo de tudo o que eu entendo de cultivo da espiritualidade. Mas como eu não estou seguindo nenhuma religião instituída, pode ser que seja difícil para algumas pessoas compreenderem que isso é a minha religião… Talvez alguns sequer entendam do que falo, já que não me baseio em esquemas conhecidos, foge à categorização que algumas pessoas estão acostumadas a compreender espiritualidade… Mas não é um esquema alienígena, é super humano, retira um pouco de tudo o que conheço e faz sentido… E se eu me repito na história é em parte pq estou tentando a todo custo arranjar uma saída para além do “infinito” que me é familiar. Eu sei o que eu busco, queria uma tangente para a “eternidade”, que fica ressoando ao longe como um desejo que nunca se cumpre – caro e inalcansável… Eternidade pra mim é desejo, não realidade.

    Quem quiser me acompanhar, terá de usar sua imaginação:

    Começando por imaginar uma fita, comum, normal. Opa, não tão normal assim… Imagine que ela contém enfileiradas todas as letras conhecidas: A B C D… De todos os alfabetos existentes. Mas não apenas isso, contém também todos os alfabetos já extintos, e todos os alfabetos por inventar… Imagine mais: as letras organizadas em palavras, em todas as palavras do mundo, todas as línguas, as que existem nos dicionários e as que existem apenas na fala de alguns, ou só na cabeça de outros. Mais, todas as histórias já escritas com essas palavras, em todas as linguagens de todos os tempos passados e do tempo futuro ainda por contar, até nos idiomas ainda por inventar… Deu pra ter uma ideia de4 como seria essa fita? Agora amplie a imagem, se possível, nem só com letras, mas com números, e façam o mesmo com os números… O quanto puder pensar no infinito dos números e em sistemas diversos de organização, mais diversa e infinita será a nossa fita. Faça o mesmo com as cores, do espectro visível ao invisível, do infravermelho ao ultravioleta, passando por todas as cores e tons possíveis, como a representar as mais variadas emoções em todas as intensidades possíveis, desde a mais tênue a mais persistente… Tudo o que é possível de imaginar, a nossa fita conterá: objetos, pessoas, ideias, teorias, relacionamentos, costumes… Agora, ela está esticada diante dos nossos olhos, um dos lados – aquele voltado para a nossa direção, está iluminado pelo entendimento que pudemos dar para ela… Nosso entendimento da fita é a consciência que temos dela… Como conseqüência natural desse processo de imaginar – alguns podem perceber o processo como magia e outros como ciência – deduzimos que exista um outro lado obscuro que contraste ao luminoso conhecido, aliás, por nós “construído”. O que “aqui” é luz, “lá” é escuridão. Nesse ponto, a nossa imaginação está para dar um grande salto, de uma realidade em duas dimensões, um tanto chapada, estamos para embarcar em outras dimensões e profundidades… Quer dizer, não temos apenas altura e largura agora na fita; temos tb o “avesso” insondável. É isso que o desconhecido faz com a nossa fita, confere-lhe uma realidade que deixa de ser apenas a aparente e nós começamos a considerar a realidade para além do imediato sensível e lógico… Não, a realidade não deixa de ser lógica e aparente, continua sendo, mas pelo domínio do irracional que temos agora, consideramos o aspecto ilusório do concreto aos sentidos… E é como se nós agora, de um posto privilegiado da nossa imaginação, pudéssemos avistar o lado branco e o negro da fita ao mesmo tempo. A partir desse momento a realidade nunca mais poderá operar para nós apenas em 2 dimensões…
    A realidade torna-se mais flexível, profunda, misteriosa. Os nossos sentidos estão além dos olhos, ouvidos, pele e lógica… Ao ponto de tornar a nossa fita, maleável, um complexo etéreo. Em alguns pontos ela já começa a “dançar”, conforme as vibrações do espaço onde está… Ah, não sabemos exatamente o que seja este “espaço”, mas sabemos que “ele” existe, supomos que exista por suas vibrações… O lado negro da fita confunde-se, para uns, com o espaço… Outros vão supor que o espaço etéreo seja independente do lado negro da fita… Isso não tem muita importância, pois seja qual for a teoria adotada, todos atribuem ao lado escuro da fita uma certa confusão ou sintonia com a realidade total fluída… Nesse ponto, a nossa imaginação torna-se mais poderosa ainda, se possível. O “poder” advém do nosso conhecimento, da nossa capacidade de “interpretar” a realidade… Temos força o suficiente para fazer esticar a fita entre os dedos da nossa imaginação. Seguramos com a mão direita uma ponta e com a mão esquerda a outra. Como a realidade agora é flexível, quase sem esforço, conseguimos dobrar a fita… O nosso objetivo é juntar os extremos e formar uma espécie de anel… Nosso desejo é formar um só conjunto, pois temos esse sentimento de unidade quando os nossos olhos alcançam a realidade integral a um só golpe de vista: branco & negro.. O circulo é assim a figura mais poderosa de magia para evocar a unidade; o círculo evoca o que queremos; é feito de uma única linha simples e que qualquer criança pode traçar para indicar seu “serexistência”… Ou, ‘enso’, o começo se reunindo ao fim: símbolo da iluminação zen budista. Há um perigo: ficarmos presos no nosso destino em moto-contínuo: como na teoria do eterno-retorno… Uma tentativa de escapar dessa prisão perpétua é darmos uma única torção numa das pontas da fita pouco antes do fim e do começo se fundirem… Não teremos então o anel branco só de um lado e negro do outro, mas uma continuidade do branco no negro e do negro voltando ao branco, numa só face, num caminho infito. A nova imagem que evocamos de infinito é mais poderosa que o círculo – por ser mais complexa – é a fita de moebius. Aquele oito mal ajambrado e que efetivamente é o símbolo matemático para o infinito… O nosso conhecimento pode assim agora vagar sem fim ao percorrer essa fita, até os confins do universo…

    Mas ser infinito não é o mesmo que ser eterno…

    Infinito é a capacidade do ESPAÇO elevada à sua potência máxima.
    A eternidade é o TEMPO na sua enésima potência….

    Minha historinha acaba aqui. Com vários problemas…
    Dá conta do espaço e não do tempo, mas como, se espaço e tempo são indistintos na física moderna?
    Não sei, sempre estive muito cônscia do espaço e por isso é fácil eu construir historinhas desse tipo. Mas o tempo, não o vejo presente na minha história quanto o espaço. Na faixa de moebius, só se ele estiver no avesso, que nem existe…
    Preciso acordar minha história para a física quântica. Para uma realidade menos linear e mais fractal, que trafegue mais para o macro e o micro e não tanto no mesmo plano. Fugir do plano para os emaranhados quânticos e ressonantes, mas o tempo continua importando ainda pouco nesse caso… Soa como presente eterno, eu não consigo visualizar o tempo ainda…
    Alguém visualiza? Alguém faz ideia do que estou falando? =)))

  10. adi said

    Sem,

    “Se por um lado sabemos que quem condena/condiciona o homem é em parte sua biologia e em parte a cultura, tendo por pano de fundo o tempo/lugar em que vive, por outro lado, o homem está sempre inventando um para-além dele mesmo, e com isso modifica as próprias circunstâncias em que vive… Ou seja, a existência do homem é construída tanto pelo seu caminhar quanto pelo caminho dado a ele ‘a priore’… ”

    Eu achei bem interessante isso que você escreveu, e da maneira colocada por você, me ajudou a ordenar os pensamentos sobre outro assunto, Carma. Eu estou juntando um material de alguns autores, sobre o “Carma”, pra descrever, ou esmiuçar esse conceito, da maneira que hoje eu entendo, e que é um pouco diferente do que costumamos chamar “causa e efeito”, “ação e reação”. Sobre a ótica do tempo linear, aqui na nossa realidade mesmo, acho, que o Carma se relaciona com a parte biológica da herança genética que proporciona um corpo de acordo com o Carma, inserido num contexto familiar/cultural, essa é a parte “condicionada”, se relaciona com as emoções/afetos e ideais/crenças.
    Já no contexto atemporal, ou seja, do ponto de vista do Self, esse padrão carmico, é o “teatro”, ou a via por onde o Arquétipo se atualiza no mundo, se manifesta incessantemente diferente a cada vez, em cada um, a cada momento. Ele, o Self, é o elemento apriorístico da existência e das coisas manifestas.
    Bom, ainda estou juntando esse material.

    “Vou finalizar contando uma historinha que é a minha ladainha. Vivo repetindo a mesma história, sempre com novas palavras e outras imagens.. É o resumo de tudo o que eu entendo de cultivo da espiritualidade.”

    De fato sua historinha é diferente de tudo que já vi (rsrs), claro, é unica como você. Cada um tem sua historinha unica e diferente. Tentei te acompanhar; bem abstrato. Você já pensou em pintar ou desenhar essas etapas? exatamente como foi narrado, a fita solta numa infinitude, suas pontas, letras, números e símbolos coloridos os mais diversos, depois o círculo, depois o oito com um torção, i.e, a fita de moebios, sua parte branca representando a luz e a consciência, sua parte negra representando o inconsciente, o desconhecido, mas eu imagino essa fita curvada, e na minha imaginação ela não só encontra e se emenda com suas pontas, como se encontra em sua parte longitudinal, ou seja em sua extensão, formando assim um túnel, o por dentro e o por fora do moebios, mas de tal forma, que na mesma torção, onde os contrários se encontram, o por dentro e o por fora também se encontram. Claro, neste caso, já não seria mais a fita de moebios, mas uma coisa diferente. Ficaria bacana esses quadros… 😀

    “Dá conta do espaço e não do tempo, mas como, se espaço e tempo são indistintos na física moderna?
    Não sei, sempre estive muito cônscia do espaço e por isso é fácil eu construir historinhas desse tipo. Mas o tempo, não o vejo presente na minha história quanto o espaço. Na faixa de moebius, só se ele estiver no avesso, que nem existe…”

    Essa parte do abstrato é super complicado. Porque aí está a questão da unidade de nossas percepções. Segundo a física, como vc mesma falou, o espaço/tempo é um contínuo, tempo e espaço são um só. É a nossa parte conciente que incapaz de absorver o “todo” de onde surgiu, quebra o contínuo, e divide em dois, e pra complicar ainda mais, dá aquela sensação do tempo ser linear.
    O “tempo” é uma ilusão de percepção…

  11. Elielson said

    Sem,
    É, eu tenho um problemão com colocação, e hoje em dia com esse randevu informativo da era digital, a má-interpretação vem até de quem não interpreta, é uma teimosia sem fim se expressar sem sentido e imprecisamente 😀
    Gostei do seu ensaio, tipo exercicio-visualização.

    Adi,
    Bem, conheço pouca coisa, Campbell mesmo, fiquei conhecendo no post da Sem. Jung parecia ser um cara legal, já tive a oportunidade de ler alguma coisa, mas pouca coisa, raramente (muuuuito raramente) abro um livro para terminá-lo, continue citando tudo isso, é demais, e no mais a gente sempre tem que se ater a discutir idéias e não mentores, pois as motivações diferem sempre do resultado, mesmo que o resultado por um instante pareça corresponder a motivação, não é legal cair na ilusão de que uma idéia exposta é pessoal e que sempre vai se assemelhar a idéia original enquanto circula no mundo, podemos sim dizer que uma idéia exposta, foi pessoal um dia, quando não estava exposta, pois da realização interior até a expressão da idéia, a idéia já é outra. Mas tudo pode ser ao contrário do que to dizendo, realmente é assim que as impressões devem ser tratadas.

    Quanto a repreender… bem, as gravidades estão no comando de muitas coisas, os impulsos e tal. E referindo-me agora ao equilibrio da saude, a influência é nossa tbm, esse é nosso fardo na verdade. Pq enquanto a deriva analisamos os impulsos com base em sectarismos, mesmo sectarismos que atribuam todos os movimentos a alma, não é obrigação estar imerso em uma suposição definitiva de realidade, ou conjunto de conceitos que mesmo sendo cientificos são medidas humanas para necessidades humanas. É como se na vida tivessemos que estar dentro da realidade, sem necessariamente estar petrificados em algum ponto dela.

    Abração.

  12. adi said

    Oi Elielson,

    “…continue citando tudo isso, é demais, e no mais a gente sempre tem que se ater a discutir idéias e não mentores, pois as motivações diferem sempre do resultado, mesmo que o resultado por um instante pareça corresponder a motivação, não é legal cair na ilusão de que uma idéia exposta é pessoal ”

    Ah, eu vou continuar sim citando idéias (rsrs), concordo contigo, o certo é discutir idéias e não pessoas, idéias que quando são manifestas via escrita, fala/som, desenho, pintura, poesia, praticamente não pertence mais ao autor, pertence ao mundo. E é errado confundir idéias com pessoas, as pessoas são muito mais complexas, compreendem um universo rico, onde desejos, emoções, vontade, pensamentos, etc, se mesclam inseparáveis. Dizer que determinada pessoa é a idéia que exterioriza é reducionismo, mesmo porque, idéias mudam o tempo todo.

    “Quanto a repreender… bem, as gravidades estão no comando de muitas coisas, os impulsos e tal. E referindo-me agora ao equilibrio da saude, a influência é nossa tbm, esse é nosso fardo na verdade. Pq enquanto a deriva analisamos os impulsos com base em sectarismos, mesmo sectarismos que atribuam todos os movimentos a alma, não é obrigação estar imerso em uma suposição definitiva de realidade, ou conjunto de conceitos que mesmo sendo cientificos são medidas humanas para necessidades humanas. É como se na vida tivessemos que estar dentro da realidade, sem necessariamente estar petrificados em algum ponto dela.”

    Exatamente como acho também, parece que a parte consciente reprimi partes de si-mesma, como que selecionando o “que é necessário para aquele momento” da vida, os demais como que ficam a espera, como uma semente a germinar ainda. Acho que na época certa, aquilo emerge novamente pra ser integrado, e é quando o problema começa, porque a parte que sectariza a realidade de certa forma está estagnada/petrificada/congelada num ponto, numa idéia, uma crença (não importa), porque o conflito se dá quando da parte do conteúdo que emerge há a necessidade do movimento, e da parte do que está fixo há a resistência. A resolução é que entre a tese e a antítese há a “síntese”.

    Abração também.

  13. Elielson said

    Alguém visualiza? Alguém faz ideia do que estou falando? =)))

    Sem.

    E lá vamos nós 😀

    A matematica para lidar com unidades e duração, é uma espiral racional que materializa realidade (realiza, ou, que fabrica a fita) 🙂 .

    Um incentivo no avanço da medicina e em outras seções cientificas é uma intenção de tirar a autoridade do tempo, autoridade que assalta a percepção ao revelar a constância no movimento celular ou atômico, e a impotência do observador perante esse movimento. O que podemos fazer contra a linearidade? Descobrir a arvore da vida, metaforicamente falando.

    Porém suponhamos que congelassemos o movimento, mas a observação não parasse, daí fica dificil… Bem, muito mais facil pra imaginar, seria supor a parada da observação, pra que ai sim, pela lógica, o movimento alheio fosse aos poucos perdendo o sentido, conforme ia se perdendo as bases para observação, conforme ia se perdendo as medidas referenciais. Nesse aspecto podemos até voltar ao que a Adi disse em relação a um ponto fixo de resistência, que ao que me parece pode ser o auto-concebimento, como ser sensivel, e frente a uma cadeia de eventos já em andamento. Tendo esse centro psicológico, digamos assim, disposto a participar e reconhecer as aparentes semelhanças, forma-se não só a própria noção do individuo como o que vier pela frente, inclusive a adequação a sensibilidade comum em relação ao tempo. As expectativas comuns são expectativas regulares entre todos os que se percebem comuns.
    A aceleração ou desaceleração da velocidade com a qual os fenomenos acontecem, ao meu ver, vem da integração das expectativas. E isso não cabe somente ao tempo, como também ao espaço, pois a velocidade é medida em graus espaciais, e já que nossos graus espaciais estão baseados praticamente nas refrações visiveis e que nos chegam aos sentidos, segundo essa escala, uma molecula difere da outra pelo seu numero de componentes. E seja por saltos percepcionais causados por algum estimulo dissociativo ou estudo de algo percebido fora do comum, as novas partes de uma escala ou a perca de sentido de alguma parte, pode acelerar ou desacelerar a percepção.

    Assim a infinitude algarismal nos dá uma (confiavel) idéia de expansão.

    Mas isso é só um palpite vindo de um atomo de hélio, que pode facilmente ser derrubado por um atomo de carbono 😀
    Mas o que nem um e nem outro pode derrubar é a alteração de forma e estado, já que mesmo se querer evitar, a causará.
    Dai que observar o observador se torna proveitoso.
    😀

  14. Sem said

    Elielson e Adi,

    É estranho se pensar em um universo regido por leis diferentes daquelas que estamos acostumados a pensar, ou daquelas que fomos ensinados a pensar e acreditar, e que nós próprios comprovamos ser daquela forma muitas vezes. Mas o trabalho é todo esse: desacreditar, desconstruir, reorganizar…

    O mundo, tal como eu concebo hoje, não se sustenta mais sendo parte, a não ser por artificialismos… Teorias são espécies de artificialismos, ou de congelamentos de um momento da matéria no tempo-espaço – retratos, como vc mesmo disse Elielson. Mas totalmente irreal esse retrato, a realidade mesmo insiste em se comprovar sendo sempre outra… é assim que ela se comprova diferente do retrato, sendo outra… pois é outra, e outra, e outra a cada momento…
    Mas precisamos de teorias, sem elas, sequer estaríamos aqui falando uns com os outros… Não haveria linguagem, civilização, homem…

    Adi, como representar um fractal? eu tenho mais facilidade para imaginar do que desenhar isso, sabe? É que eu sou uma “artista” de araque, não tenho muita técnica para desenho, nunca fiz e, sinceramente, nem quero fazer, nenhum curso. Desenho melhor o corpo humano e rostos… mas não sou artista de verdade, só retratista de final de semana, ou, melhor ainda, só desenho no inverno e qd tem eclipse… hoje está mais fácil fazer poesia. =)

  15. guto novo said

    sem, experimente desenhar um triangulo de sierpinski, é um fractal, dos mais fáceis, de se desenhar (a mão).

  16. Sem said

    Guto,

    Muito legal esse “triângulo fractal”, já tinha visto a figura, mas não sabia que tinha esse nome. =)

    O que eu gostaria de ter mais claro, isto é, visualizar a figura, e quem sabe até desenhar, seria “moebius” dentro de “moebius”… Seria possivelmente algo mais semelhante aos quadros do Escher e menos arte abstrata… Eu que admiro ambos esses estilos, acredito que ambos seriam possibilidades de quadros, mas para nenhum dos dois estilos tenho talento.

    Esher eu acho o máximo, vc deve conhecer… Pra mim não existe nenhum desenho dele que não seja interessante e uma ponte para essa concepção de universo fractal… Escher é matemático, simétrico, caótico, surreal, todas essas qualidades o definem mas não esgotam, ele é tudo isso e mais um pouco ainda…

    Do site oficial dele, retirei essa gravura, que possivelmente nenhuma outra ilustraria melhor o que digo a seguir:

    Uma coisa é o que a gente pensa/imagina/sente da realidade e outra é a realidade. Parece óbvio que todos cheguem um dia a essa conclusão, que símbolos escritos, verbalizados ou desenhados sejam apenas representações da realidade… será no entanto óbvio que até o que nós pensamos da realidade faz parte do quadro da realidade e igualmente acaba em algum ponto distorcendo a realidade? Pois eu acho que essa nossa capacidade de “pensar” e “criar” símbolos que interpretem a “realidade”, tem, de algum modo, capacidade de “distorcer” a realidade… Há limites, é claro, mas a nossa imaginação/percepção/pensamento/sentimento é a conexão que temos com o lado escuro da fita e o que pode distorcer o lado iluminado… é que eu chamo de espiritualidade, a “conexão”; espiritualidade não é estar “lá”, nem “cá”, é a conexão entre os mundos…

    O lado escuro da fita é possivelmente “Deus”, tempo-espaço, inconsciente, eternidade, ou ainda o que podemos projetar na matéria-energia escura. Tudo isso é mais pelo desconhecimento que temos desses aspectos do que os aspectos em si…
    O lado visível é matéria-energia, ciência e magias conhecidas, infinitude sim, mas consciência…
    A espiritualidade perpassa a unidade. Por isso muito nos engrandece como seres, acrescenta o “desconhecido” ao “conhecido”…

    Claro, tudo o que digo são palavras e modo de descrever a realidade. Da realidade mesmo só podemos “estar” e nada “falar” sobre ela…

    Uma vez eu tinha dito para a Adi, não lembro em qual tópico, mas discutindo a respeito de Cabala, ao que me lembre, que o tempo-espaço está parado e o que se desloca apenas é a matéria-energia… O que damos por tempo, não é o tempo “real”, de fato, o tempo real não vemos, mas o registro da matéria no tempo é o que “vemos” e chamamos de “tempo”…

    Preciso reler Leibnitz… e volto aqui com mais “tempo” pra falar desse assunto…. =)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: