Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

A passagem do herói pelo limiar do retorno

Posted by adi em janeiro 18, 2010

Os dois mundos, divino e humano, só podem ser descritos como distintos entre si, diferentes como a vida e a morte, o dia e a noite. As aventuras do herói se passam fora da terra nossa conhecida, na região das trevas; ali ele completa sua jornada, ou apenas se perde para nós, aprisionado ou em perigo; e seu retorno é descrito como uma volta do além. Não obstante, e temos diante de nós uma grande chave da compreensão do mito e do símbolo, os dois reinos são, na realidade, um só e único reino. O reino dos deuses é uma dimensão esquecida do mundo que conhecemos. E a exploração dessa dimensão, voluntária ou relutante, resume todo o sentido da façanha do herói. Os valores e distinções que parecem importantes na vida real desaparecem com a terrificante assimilação do eu daquilo que antes não passava de alteridade. Tais como na história das ogresas canibais, o temor dessa perda da individualidade pessoal pode configurar-se, para as almas não qualificadas, como todo o ônus da experiência transcendental. Mas a alma do herói avança com ousadia, e descobre as bruxas convertidas em deusas e os dragões  em guardiães dos deuses.

Todavia, sempre deve restar, do ponto de vista da consciência vígil normal, uma certa inconsistência enigmática entre a sabedoria trazida das profundezas e a prudência que costuma ser eficaz no mundo da luz. Daí decorre o divórcio comum entre o oportunismo e a virtude, e a resultante degenerescência da existência humana. O martírio é para os santos, mas as pessoas comuns têm suas instituições, que não podem deixar que cresçam como lírios nos campos; Pedro continua a sacar da espada, tal como no jardim, para defender o criador e mantenedor do mundo. A bênção trazida das profundezas transcendentes torna-se racionalizada, rapidamente, em não-existência, e aumenta em muito a necessidade de outro herói para renovar a palavra.

Como ensinar de novo, contudo, o que havia sido ensinado corretamente e aprendido de modo errôneo um milhão de vezes, ao longo dos milênios da mansa loucura da humanidade? Eis a última e difícil tarefa do herói. Como retraduzir, na leve linguagem do mundo, os pronunciamentos das trevas, que desafiam a fala? Como representar, numa superfície bidimensional, ou numa imagem tridimensional, um sentido multidimensional? Como expressar, em termos de “sim” e “não”, revelações que conduzem à falta de sentido toda tentativa de definir pares de opostos? Como comunicar, a pessoas que insistem na evidência exclusiva dos próprios sentidos, a mensagem do vazio gerador de todas as coisas?

Muitos fracassos comprovam as dificuldades presentes nesse limiar que afirma a vida. O primeiro problema do herói que retorna consiste em aceitar como real, depois de ter passado por uma experiência da visão de completeza  que traz satisfação à alma, as alegrias e tristezas passageiras, as  banalidades e ruidosas obscenidades da vida.

Por que voltar a um mundo desses?  Porque tentar tornar plausível, ou mesmo interessante, a homens e mulheres consumidos pela paixão, a experiência da bem-aventurança transcendental?  Assim como sonhos que se afiguram importantes durante a noite podem parecer, à luz do dia, meras tolices, assim também o poeta e o profeta podem descobrir-se bancando os idiotas diante de um júri de sóbrios olh0s.

O mais fácil é entregar a comunidade inteira ao demônio e partir outra vez para a celeste habitação rochosa, fechar a porta e ali se deixar ficar. Mas, então o trabalho de representar a eternidade no plano temporal, e de perceber, neste, a eternidade, não pode ser evitado.

do livro “O herói de mil faces” – Joseph Campbell

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3 Respostas to “A passagem do herói pelo limiar do retorno”

  1. Elielson said

    A primeira imagem tem uma obviedade, mas ainda assim pode ser novamente abstraida e resignificada. Adorei Adi.
    Esse Joseph Campbell realmente parece ter feito um mergulho profundo com a mente dele na situação mundana. Se bem que a idéia de mito criado para satisfazer a vida comum perante a insuficiência cientifica sempre foi a melhor jogada para quem flertava com o vazio de sentido dos movimentos desde o inicio dos tempos, tanto que as considerações atuais mesmo não admitindo a ilusão do padrão, admitem uma inalcançabilidade no surgimento e termino do que existe pra ser analisado com base em padrões.
    O que acontece é que o choque informacional vem quase desenfreadamente derrubando as conteções do sensivel.
    De Sócrates até Heinsenberg, as cartas na manga do monstro sistêmico foram se acabando, agora creio eu (mudei muito minha visão de uns tempos pra cá :D) que basta que as informações certas cheguem na hora certa para cada corpo sensivel, pra que as pessoas sejam obrigadas por elas mesmas a encararem-se no espelho de suas invisibilidades, incluindo a invisibilidade dos habitos, talvez assim perceberiamos que o que se faz visivel sendo valvular é a resposta ao que não queremos ver por opção, ou pela simples teimosia em fixar nossa imagem no que tem se provado cada dia mais irreal e suscetivel de variação, que não nos permite uma fixação. Causando a euforia ou a depressão.
    Sendo assim a confiança no repasse de realidade entre os tempos passado-presente e assim por diante, tem nos enraizado numa realidade que começa na escolha individual e logo se coloca a disposição de um movimento que de tão frenético e incontrolavel parece que é mal. Pois, dado o dominio, será dominador… devido a inadmissão da falta de reflexo dele, e não necessariamente pelo que pode se chamar de um reflexo negativo, assim buscamos a realização entre a ordem que dá essa nuance ao caos, sendo que essa sim, é totalmente ocasional, daí é um pulo pra esperança tornar-se nociva, pq assim como eu premedito o choque informacional baseado num padrão que vem aos sentidos, todas as pessoas veem no que creem ou no que conhecem, um padrão. Um item aconselhavel na progressão desse mecanismo (digamos assim) é a pré-decepção. Pra ser mais claro… é mais ou menos assim… O mundo que conheço tende a tornar-se algo que não conheço, assim como o mundo que não conheço, tende a tornar-se algo que eu conheço, mas tanto o mundo que eu conheço quanto o que eu não conheço estão transitando. Os padrões sempre vão estar entre o transito, para explicar os padrões, o individuo faz uso da consciência criativa e se couber explicações miticas nessa consciência criativa, o individuo fará uso da formação mitica/arquetipica. A ciência em si só é um mito efetivo (meme?), suponho assim que o primeiro mito tenha se instalado pq era efetivo, dança-se e chove, ora e cai do céu, coisas do tipo, ou foi algo interdimensional nos termos mundanos, ou uma organização provedora se fez presente nas primeiras comunidades, porém legando ao fator externo o mérito de TODO o movimento, seja a natureza, seja os intermediarios representativos que eram também a natureza, seja a má-intenção de algum grupo que se aproveitou da ignorância e manipulou a natureza de modo a fazê-la parecer um ente com quem não se brinca, com excessão de quem brincou primeiro. Então a questão do heroismo é saber que se pondo a trabalhar a coisa fica fifty/fifty, só que sempre vai ter uma galera querendo dizer que tem instituição majoritária na parada, pra que assim o seu fifty vá pros fifty deles 😀 Daí lute pelo seu fifty, pq a parte fifty da natureza começa a ser mal aplicada se for bancar o sonho do ladrão. Complicado também quando vemos algo almejando ser o mito efetivo exclusivo, porém dos os outros e não dele mesmo.

    Bjo.

  2. adi said

    “A primeira imagem tem uma obviedade, mas ainda assim pode ser novamente abstraida e resignificada. Adorei Adi.”

    Eu também adorei essa imagem pra representar o consciente/inconsciente, os dois mundos que na verdade são um só. Pra mim aquele limiar, aquela luz no meio da escuridão que conecta os dois mundos é como Daath, não ao pé da letra, mas como o link que une os dois mundos… E você percebeu que o mundo inconsciente ( a árvore de baixo) contém frutos? é, como o mundo criativo cheio de possibilidades a serem colhidas. Também o tronco da árvore, me lembra uma pessoa de cócoras abraçando seus joelhos a meditar o outro mundo… e ainda assim, como você disse, pode ser abstraída novamente, e novamente…

    “Esse Joseph Campbell realmente parece ter feito um mergulho profundo com a mente dele na situação mundana.”

    É sim, e ainda acho que ele fez essa jornada do herói; ele foi e voltou, por isso conta suas histórias de uma forma tão viva, têm uma força que prende nossa atenção, que desperta algo em nós…

    ” De Sócrates até Heinsenberg, as cartas na manga do monstro sistêmico foram se acabando, agora creio eu (mudei muito minha visão de uns tempos pra cá ) que basta que as informações certas cheguem na hora certa para cada corpo sensivel, pra que as pessoas sejam obrigadas por elas mesmas a encararem-se no espelho de suas invisibilidades, incluindo a invisibilidade dos habitos, talvez assim perceberiamos que o que se faz visivel sendo valvular é a resposta ao que não queremos ver por opção, ou pela simples teimosia em fixar nossa imagem no que tem se provado cada dia mais irreal e suscetivel de variação, que não nos permite uma fixação. Causando a euforia ou a depressão.”

    Mudar é sempre bom :), e brilhante sua colocação Elielson; Foi como a Sem colocou lá no post do Avatar, estamos num limiar mesmo, onde percebemos o arquétipo da mudança de paradigma emergindo no consciente coletivo, é devagar eu sei, mas já podemos perceber essa ressonância surgindo… o novo está nascendo. E como você falou, já não dá pra fugir de se olhar no espelho, de repensar nossos atos. E a principio isso nos parece perturbador, oscilar entre duas formas de ser, ou de perceber a realidade. Está aí, um surto de bipolares (transtorno bipolar), nunca visto antes 🙂

    “O mundo que conheço tende a tornar-se algo que não conheço, assim como o mundo que não conheço, tende a tornar-se algo que eu conheço, mas tanto o mundo que eu conheço quanto o que eu não conheço estão transitando. Os padrões sempre vão estar entre o transito, para explicar os padrões, o individuo faz uso da consciência criativa e se couber explicações miticas nessa consciência criativa, o individuo fará uso da formação mitica/arquetipica.”

    Você está inspirado hein!! Você descreveu um dos mecanismos de atualização do Arquétipo em nosso mundo. Porque o Arquétipo, sendo “infinito”, quando manifesto em nosso mundo, se reduz numa unica possibilidade de manifestação, sendo assim, há um contínuo movimento por trás da realidade que percebemos, mas não acompanhamos, não percebemos no nosso cotidiano, congelamos nossa percepção no fragmento, mas pelo próprio movimento, de vez em quando isso se atualiza. Os mitos traduzem essa atualização, no momento, o filme Avatar está contando essa mesma história arquetípica de uma forma “atualizada”, por isso têm atingido tantas pessoas, ou seja, o coletivo. Por outro lado, do ponto de vista do coletivo, como se o próprio arquétipo interior, solicitasse essa renovação, pois segundo Jung, só há ressonância com aquilo que há dentro de si.

    “A ciência em si só é um mito efetivo (meme?), suponho assim que o primeiro mito tenha se instalado pq era efetivo, dança-se e chove, ora e cai do céu, coisas do tipo, ou foi algo interdimensional nos termos mundanos, ou uma organização provedora se fez presente nas primeiras comunidades, porém legando ao fator externo o mérito de TODO o movimento, seja a natureza, seja os intermediarios representativos que eram também a natureza, seja a má-intenção de algum grupo que se aproveitou da ignorância e manipulou a natureza de modo a fazê-la parecer um ente com quem não se brinca, com excessão de quem brincou primeiro.”

    Eu acho que não só a ciência, mas tudo que está desprovido do movimento arquetípico, ou defasado,
    desatualizado… e praticamente tudo está (rsrs). Mas quanto ao mito, não só porque foi efetivo a princípio, mas porque contém um fundo “arquetípico”, ou mágico, sobrenatural até. E o que não podemos esquecer, é que o componente “arquetípico” não fica só no lado psicológico do ser, isso seria reducionismo até, mas ele está intimamente ligado com a forma que assume, ou seja, se consegue manipular a natureza quando se está em conexão com ela, através do arquétipo…

    ” Complicado também quando vemos algo almejando ser o mito efetivo exclusivo, porém dos os outros e não dele mesmo.”

    Demais de complicado, e é sempre assim com relação a quase tudo, desde religião, até a parte filosófica, ou qualquer crença que se tenha, mesmo na “não-crença”, pois se acha assim: “a minha é sempre melhor que a sua” (rsrs), ou “a sua crença é limitada demais, a minha é livre”; mas se fosse mesmo, não julgaria a crença alheia; se há completude mesmo, liberdade mesmo, se compreende a grandeza de toda a forma de ser e existir, todas as possibilidades num só tempo, sem certo e errado, sem julgamentos ou superioridades, pois uma coisa é certa: “os limites estão em nossa mente”.

    Bjo

  3. adi said

    Ahh! as outras duas imagens abaixo, é do retorno de Jasão com o Velocino de Ouro (o prêmio ou conquista do herói que cruzou o limiar) em seus braços.

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