Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

O meio entre os opostos

Posted by adi em agosto 27, 2009

Desde sempre as mais variadas tradições falam sobre a trindade divina, e sobre aquele aspecto que vem resolver o problema da dualidade. Há um meio, moderador entre os opostos, queiramos ou não, entendamos isso ou não.

De certa forma, esse tema sobre os opostos, sobre as dualidades, sobre as parcialidades é ainda muito complicado por causa do tema em si mesmo, ou seja, é sobre parcialidades, opostos e dualidades, e a tendência é sempre estar em um dos lados de cada situação da vida, e quando estamos em um lado da questão, automaticamente excluímos o outro lado, nos agarramos as nossas convicções, e já partimos do pré-suposto que o outro lado está errado, não é o correto, é falho.

A realidade da vida é muito mais que isso, é muito mais que apenas uma possibilidade possível na dualidade, é muito mais que um ponto de vista na díade, é muito mais que certo ou errado, é muito maior que os opostos; e por isso o conflito, pois temos que lidar com esses opostos o tempo todo, diariamente na própria vida em que vivemos.

androsEssa questão dos opostos assombra o homem desde sempre, e com certeza, é um dos motivos ou impulsos principais na busca por resolver esse conflito que dói na Alma humana, e muito provavelmente, a partir dessa busca, as mais variadas tradições se dedicam a essa questão.

Segundo a psicologia, a psique, como a maioria dos sistemas naturais, tais como o corpo, luta para se manter em equilíbrio. Fará isso, mesmo quando suscita sintomas desagradáveis, sonhos assustadores ou problemas da vida aparentemente insolúveis. Se o desenvolvimento de uma pessoa foi unilateral, a psique contém em si todo o necessário para retificar essa condição.

A função compensatória empiricamente demonstrável operando em processos psicológicos correspondia a funções auto-reguladoras do organismo, observáveis na esfera fisiológica. Compensar significa equilibrar, ajustar, suplementar. Considerava a atividade compensatória do Inconsciente como equilíbrio de qualquer tendência para a unilateralidade por parte da consciência.

O objetivo do processo compensatório parece ser o de ligar, como uma ponte, dois mundos psicológicos. Essa ponte é o símbolo; embora os símbolos, para serem eficazes, devam ser reconhecidos e compreendidos pela mente consciente, isto é, assimilados e integrados.caminho_dati-rubia

A essa integração é o que se pode chamar de função transcendente, e que conecta opostos. Exprimindo-se por meio do símbolo, ela facilita a transição de uma atitude ou condição psicológica para uma outra.

A função transcendente representa um vínculo entre dados reais e imaginários, ou racionais e irracionais, preenchendo assim a lacuna entre a consciência e o inconsciente. “É um processo natural”, escreve Jung, “uma manifestação da energia que se origina da tensão dos opostos e consiste em uma série de ocorrências de fantasias que surgem espontaneamente em sonhos e visões”.

Mantendo-se em um relacionamento compensatório com ambos, a função transcendente possibilita que a tese e a antítese se confrontem uma com a outra em termos iguais. O que é capaz de unir estas duas é uma afirmação “metafórica (o símbolo)” que, ele próprio, transcende o tempo e o conflito, nem aderindo nem participando de um ou de outro lado, mas de alguma forma comum aos dois e oferecendo a possibilidade de uma nova síntese. A palavra transcendente é expressiva da presença de uma capacidade de transcender a tendência destrutiva de empurrar (ou ser empurrado) para um ou para outro lado.

Jung argumentava firmemente que a função transcendente não atua sem objetivo e propósito. De qualquer forma, possibilita a uma pessoa ir além de um conflito insípido e evitar a parcialidade. Seu papel na estimulação da consciência é significante. Fornece uma perspectiva diferente de uma puramente pessoal. Surpreende apontando, muitas vezes como que de uma posição mais objetiva, uma solução possível.

As especulações de Jung sobre a natureza da psique levaram-no a considerá-la uma força no universo, psique como um campo separado além das dimensões biológicas e espirituais da existência. Psique como “relacionamento” entre o corpo e o espírito, porque é na psique onde o relacionamento dessas dimensões ganha existência.

A superposição conceitual entre a psique e o self pode ser resolvida da seguinte forma: Embora o Self se refira à totalidade da personalidade, como um conceito transcendente, ele também possui a capacidade paradoxal de se relacionar com seus vários componentes, por exemplo, o ego. A psique abrange esses relacionamentos e pode-se mesmo dizer que é formada desses dinamismos.

6372Na tradição esotérica, Israel Regardie, diz que o método de elevação da Kundalini, ou de conscientização da Essência, se dá através da “conciliação”  das energias “opostas” na Árvore, essa conciliação se efetua no pilar central, ou pilar do meio/equilíbrio, e é nesse equilíbrio onde nasce o Filho em Tiphereth, ou seja, o diálogo com o Sagrado Anjo, o Self.

Todas as sephiroth, como são chamadas essas emanações, abaixo daquela que é chamada Coroa, recebem atribuições masculinas e femininas (opostas), e a atividade entre sephiroth masculinas e femininas em “reconciliação” é um “filho” por assim dizer, uma sephirah “neutra” atuando em equilíbrio. Assim a Árvore da Vida, compreendendo essas dez emanações, se desenvolve a partir da mais elevada abstração até o mais concreto material em várias tríades de potências e forças espirituais. Masculino, feminino e criança; positivo, negativo e sua resultante mescla num terceiro fator reconciliador.

“A corda de um instrumento musical não pode ser retesada demais, pois assim ela rompe, e nem pode ser frouxa demais, pois assim ela não toca.”

Foi assim que Siddhartha Gautama (Buda Shakyamuni) teve o grande insight do caminho do meio.

A fim de esclarecer a verdadeira natureza da vida, os budistas formularam o conceito do Caminho do Meio, que implica em uma abordagem equilibrada da vida e no controle dos impulsos e do comportamento das pessoas.
O conceito deriva de um princípio, fundamental para a filosofia budista, conhecido como “unificação das três verdades”, exposto por Tient’ai com base no Sutra de Lótus. As três verdades são: a verdade da não-substancialidade (ku), a verdade da existência temporária (ke) e a verdade do Caminho do Meio (tyu). Embora a vida seja vista com base nesses três aspectos, estes não podem ser separados. Um contém o outro e são fases inseparáveis de todos os fenômenos. Por essa razão, são chamados também de verdade tríplices.samsara
Embora a palavra “meio” denote moderação, o termo não deve ser interpretado como uma atitude passiva, comodista e relapsa. Tampouco significa que as pessoas devam seguir um curso médio entre dois pontos extremos, mas sim, unificar e transcender a dualidade.
Em um sentido mais amplo, Caminho do Meio refere-se à visão correta da vida ensinada pelo Buda, e às ações ou atitudes que geram felicidade para si próprio e para os outros. Por essa razão, o budismo é também referido como “Caminho do Meio”, indicando uma transcendência e conciliação dos extremos de visões opostas.
Esse conceito é exemplificado pela própria vida de Shakyamuni.

Tient’ai na China, afirmava que todos os fenômenos são manifestações de uma única entidade. A essa entidade ele chamou de Caminho do Meio. Ele revela dois aspectos: um físico e o outro não-substancial. Ao negar ou enfatizar apenas um deles, as pessoas estariam distorcendo a visão correta da vida. Não se pode, por exemplo, conceituar uma pessoa sem um aspecto físico e sem um aspecto mental ou espiritual. Tient’ai esclareceu, portanto, a inter-relação indivisível entre ambos os aspectos. Dessa visão derivam os conceitos budistas de inseparabilidade do corpo e da mente, do ser e seu ambiente, da vida e da morte, do bem e do mal e muitos outros.

Nitiren Daishonin (uma vertente do budismo no Japão) esclarece: “A vida é, de fato, uma realidade que transcende tanto as palavras como os conceitos de existência e inexistência. Ela não é nem existência nem inexistência, no entanto, mostra características de ambas. É a entidade mística do Caminho do Meio, ou seja, a realidade fundamental. Myo é o nome dado à natureza mística da vida, e ho, a suas manifestações. Rengue, que significa flor de lótus, simboliza as maravilhas da Lei. Se compreendermos que nossa vida neste momento é myo, então também compreenderemos que nossa vida em outros momentos é a Lei Mística”.
Dessa perspectiva, a vida — a energia vital e a sabedoria que permeiam o cosmos e manifestam-se em todos os fenômenos — é uma entidade que transcende e harmoniza as contradições aparentes entre os aspectos físico e espiritual e entre a vida e a morte.bela-imagem-de-buda
As pessoas em geral tendem a uma visão predominantemente materialista ou então espiritualista da vida.

No Dhammapáda, escritura clássica do budismo, é atribuída ao Buda a seguinte frase: “Aquele que venceu as cadeias do mal, mas também venceu as cadeias do bem, lhe chamo eu, Brahmane.” Assim, essas duas obras, de tradições diferentes, dizem respeito à transcendência dos opostos, na qual o indivíduo deve ser, simplesmente, como a Natureza o criou.

Segundo nosso amigo Lúcio/Malprg: “A consciência Jesus é a consciência do homem Jesus, na qual Cristo repousa como um potencial adormecido. Poderíamos chamá-la de “tese”. A consciência Jesus-Cristo brota quando esse potencial desperta (o despertar da Kundalini no  chacra básico), criando uma dualidade entre a consciência individual e o Self cósmico – é a antítese. Finalmente, a consciência Cristo é o resultado final desse conflito dialético, quando os elementos individuais, humanos e egóicos são transmutados pelo contato com o Self e resta apenas a consciência cósmica. Seria a “síntese”. É uma descrição que poderia se aplicar perfeitamente à trajetória histórica de Jesus Cristo, mas que também se aplica à trajetória ideal de cada um de nós, não ficássemos enredados eternamente no estágio intermediário da dualidade.”

Também no Taoísmo temos o trio Jing – Chi – Shen essência/substancia/energia espiritual.

E ainda no Taoísmo, Yin significa turvo, nebuloso, escuro, e Yang significa claro, luminoso, ensolarado. Como todos os opostos o Yin e o Yang são as duas faces de uma mesma moeda, são as polaridades que provocam uma tensão que engendram todo movimento. Deste modo, tudo está dividido ou repartido  em características Yin e Yang. O Yin é passividade, feminino, a água, a terra, é o movimento para baixo e para dentro, que pode ser comparado a Lua, é força centrípeta ou taoconstritiva. Já Yang é o oposto, é atividade, masculino, é fogo ascendente, é o céu, tudo que ascende, e pode ser comparado ao Sol, é força centrífuga ou expansiva. Todo o Universo é formado de Yin e de Yang, do mesmo modo que toda a matéria é formada de prótons positivos e elétrons negativos.

No equilíbrio destes opostos, está à base do correto sincronismo com o TAO. Como os opostos não podem unir-se, exigem um “mediador”, que neste caso resulta ser o TAO.

Como podemos ver, as mais variadas tradições enfocam a mesma dualidade, bem como um princípio moderador e unificador destes opostos, resultando no TAO Chinês, Unus Mundus dos Alquimistas e Psicologia, no Cristos do cristianismo, na consciência Budica, etc, etc, etc, assim, esta terceira coisa, que junto forma uma trindade, é que vem solucionar essa questão dos opostos.

Ref. Rubedo, O Franco-Atirador, Wikipedia, Buda na Web (Budismo de Nitiren Daishonin)

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12 Respostas to “O meio entre os opostos”

  1. Elielson said

    Tanto faz o arco iris que atravessa o céu, ou a nuvem negra.
    E até mesmo o céu bloqueado não é um lugar seguro para a fé.
    Como algo pode nascer sem dois desejos?
    E isso que é nascido, feito e criado por todos os desejos e indiferenças, também encontra um equilibrio automatico, que faz o tempo ficar dividido em duas bocas abertas.

    Nossos pequenos brinquedos, que brincam conosco.
    Nossas estimas e nosso asco, e vidas que não abrem a boca junto com as bocas do tempo.

    O que é dividido continua ocupando o mesmo espaço.
    O olho que é real, não sabe… e quando usa a idéia, devolve a mesma coisa, conhecendo e reconhecendo, e assim não há verdade nenhuma no que é, pois estamos conhecendo pelos outros.
    Conhecido por mim, é só o que é reconhecido como eu, então não há nada mais estranho que esse eu.
    Tão estranho que faz pensar que algo tem que me conhecer, e não eu quem devo conhecê-lo, já que há tantos que em imagem se dizem da minha estirpe.
    Ou será que antes mesmo de aceitar ser parte de uma imagem especifica, não foi essa imagem que me adotou, ou me dividiu de si?

    Pode ser eu que estou dividindo ela a todo instante.

    Como?

    Sendo mal comigo mesmo, tentando me agredir, e usando como arma a proteção.
    Então as fontes jorram a minha vontade.
    A gente muda a cor do liquido e inventamos também seus reservatórios.
    Mas se um só diz algo sobre um reservatório, ele terá que fazer outros acreditarem.
    Pode também entender o reservatório do mundo, e aproximar-se dele.

    Aqui estou eu na beira de um lago que vai pra debaixo da superficie, se juntar com todas as aguas. Gotas de sangue que caem no lago só aumentam a sede de quem aguarda no poço, e agua tem sabor de identidade.

    Indo embora com sua sede não precisará mais voltar.
    Por que quando vc vai embora com sua sede, é sua sede quem vai embora.

    É muito tempo perdido entre o QUAL.

    Mas o poço se apaga da mente.
    Quando vc se torna um poço que seca e enche conforme ama.

    Abraços.
    Saudades de todo mundo aqui.
    😀

  2. adi said

    Quanto tempo Elielson, seu sumido!! 🙂 bem vindo de novo. 😉

    “Conhecido por mim, é só o que é reconhecido como eu, então não há nada mais estranho que esse eu.”

    Exato, essa noção equivocada que temos de ser “eu” , e que nos é muito familiar, é tudo que temos e nosso apoio, estranhamente não é “o indivíduo” ou o verdadeiro ser.

    “Tão estranho que faz pensar que algo tem que me conhecer, e não eu quem devo conhecê-lo, já que há tantos que em imagem se dizem da minha estirpe.”

    Mais estranho ainda é saber que essa dicotomia, ou essa divisão é a base da existência, sem essa divisão não haveria a vida, nem movimento, nem criação…
    … muito embora essa divisão é somente uma ilusão de percepção.

    “Ou será que antes mesmo de aceitar ser parte de uma imagem especifica, não foi essa imagem que me adotou, ou me dividiu de si?”

    Com certeza, o Self existe muito antes do “eu” existir. O “eu” é como um reflexo ou projeção do Self; “eu” que se desfaz a cada morte do corpo físico.

    “É muito tempo perdido entre o QUAL.”

    Temos que estar aqui em algum lugar…

    “Saudades de todo mundo aqui.”

    Apareça sempre que quiser. 🙂

    Abs

  3. Sem said

    Adi,

    F-a-n-t-á-s-t-i-c-o. Dizer que eu concordo com cada palavra sua é chover no molhado. Ou pelo menos essa é a base do meu entendimento todo da vida. E, se vc me perdoar, porque eu não tenho tempo para desenvolver melhor agora, mas penso que posso contribuir ainda com duas ideias para complicar ainda mais assunto já tão complicado.

    A primeira delas é que existem duas forças básicas no universo: da agregação e a da desagregação. (lembrando o amor/philia e o ódio/neikos de Empédocles). O que eu quero dizer exatamente é que esse terceiro elemento – até ele, veja só – é bi-partido, ou pelo menos do modo como eu penso podem ser desdobrados: num ‘et’ (&), e/ou, num ‘versus’ (X). Sem querer entrar em juízos de valor, vamos só perceber que ambas as forças existem e ambas são necessárias. E quando nós falamos em trindade cristã, função transcendente, caminho do meio, Deus, Tao – nós estamos basicamente falando do reino do terceiro agregador (&), ou seja, estamos no campo de eros. Mas o ‘x’ da questão, o “terceiro desagregador” – não sei quais nomes receberiam, de diabo e ilusão a tanatus, o fato é que mesmo a força mais “benigna” do universo parece ter a sua função compensadora “maligna”. Independente do nome que lhe demos, cumpre a ele (à função desagregadora) ser o avesso do direito, o espelho do real, a fragmentação do Uno, a morte da vida… A coisa toda parece funcionar como dois sistemas completamente distintos, contrários, excludentes… porém, dependentes… mútuos. Toda religião, excluindo sistemas exotéricos de auto-ajuda, têm essa combinação. Deus pode ser tanto amor, quanto pode ser terrível também. Olha que interessante, dos 7 pecados capitais, teve um deles que tanto Jesus quanto Deus (cristão) cometeram, o da Ira. Existe uma ira divina… não é interessante? Do meu lado confesso que tenho uma certa dificuldade em lidar com o lado negro da força, digamos, tendo a transformar tudo em Amor, mas é preciso ter olhos pra ver o outro lado da moeda, até para fazer dela uma força benigna para o conjunto.

    Outra coisa que acho decorre de se pensar no três, é gerar o quatro. (lembrando que números são arquétipos e que geram disposições que nos movem). O quatro, no esquema do três, é sempre o elemento excluído, muitas vezes identificado como a força desagregadora, mas ele é muito mais do que isso… O quatro é o elemento obscuro que dá a substancial profundidade ao conjunto, para que o mistério permaneça sempre mistério. Na trindade cristã, o quarto elemento é tradicionalmente identificado na figura de Maria – o feminino excluído desse universo das divindades judaico-cristãs… Podemos muito falar do quatro, o Jung gostava do quatro, achava esse número mais preciso para descrever a psique do que o três (Freud baseou-se no três) – e não foi por acaso que baseou sua tipologia em quatro funções de personalidade básicas, sendo a função inferior de cada um a porta de entrada para o inconsciente profundo…
    A astrologia baseia-se em quatro elementos, a alquimia tem quatro fases, até o tempo pode ser dividido em quatro estações… O quatro é tb outro número interessante para se pensar sistemas completos.
    Enfim, tanto o 3 quanto o 4 se relacionam maravilhosamente com o 1: ou a trindade que é Um, e a quadratura do círculo… Partindo pras imagens: o triângulo, o quadrado e o círculo – representantes do 3, do 4 e do 1 – combinam-se e geram o mundo. Esse assunto é sem fim.

    Ah, eu adorei as figuras, achei-as super apropriadas.

    Elielson,

    >Indo embora com sua sede não precisará mais voltar.
    Por que quando vc vai embora com sua sede, é sua sede quem vai embora.

    Um achado isso. Muito bom. Vc e suas frases-pérolas. 🙂

  4. adi said

    Oi Sem,

    “F-a-n-t-á-s-t-i-c-o. Dizer que eu concordo com cada palavra sua é chover no molhado.”

    Eu imaginava que vinha bem ao encontro do que vc concorda, porque pela nossa conversa no outro post, é bem por aí também onde acredito que é por essa via que se resolve essa questão “dualidade”.

    “E, se vc me perdoar, porque eu não tenho tempo para desenvolver melhor agora, mas penso que posso contribuir ainda com duas ideias para complicar ainda mais assunto já tão complicado.”

    Perdoar?? Só tenho que agradecer a contribuição de todos que aqui participam.

    “A primeira delas é que existem duas forças básicas no universo: da agregação e a da desagregação. (lembrando o amor/philia e o ódio/neikos de Empédocles). O que eu quero dizer exatamente é que esse terceiro elemento – até ele, veja só – é bi-partido, ou pelo menos do modo como eu penso podem ser desdobrados: num ‘et’ (&), e/ou, num ‘versus’ (X). Sem querer entrar em juízos de valor, vamos só perceber que ambas as forças existem e ambas são necessárias. E quando nós falamos em trindade cristã, função transcendente, caminho do meio, Deus, Tao – nós estamos basicamente falando do reino do terceiro agregador (&), ou seja, estamos no campo de eros. Mas o ‘x’ da questão, o “terceiro desagregador” – não sei quais nomes receberiam, de diabo e ilusão a tanatus, o fato é que mesmo a força mais “benigna” do universo parece ter a sua função compensadora “maligna”.”

    Excelente questão Sem. Exato, essas forças contrárias na natureza, claro, fazem parte da dualidade intrínseca de todas as coisas. Do modo como entendo, as forças agregadoras, são como o Yin, ou seja, aquilo que puxa para dentro, que prende, centrípeta ou constritiva, é negativa como polaridade, tem como símbolo a Lua, e é essa natureza da Força, ou seja, “que prende” é a que é chamada nos meios esotéricos como a “raiz” do mal no universo. Em oposição estão as forças Yang, como o calor, o fogo, como o Sol, expansiva, que busca sempre a expansão, essas forças são equivalentes ao polo positivo, ou ao bem no universo. Toda a vida contém em si-mesma os dois pólos, e ainda, até mesmo essa terceira coisa mediadora, contém em si ambos os aspectos, só que no mediador, os aspectos contrários, deixam de ser contrários, não são mais opostos. No terceiro fator mediador, bem e mal se anulam, e tudo se torna somente uma única força, que é simultaneamente ambas as coisas…. ou seja, no terceiro elemento neutro, ou do equilíbrio, ou mediador, que também é o TAO, ou consciência Cristos, o Self, Unus Mundus, enfim, a energia de acima do abismo; não há divisão, nessa consciência, bem e mal são um só, com a excessão que não há bem, não há mal, mas somente como o Arquétipo, uma força em POTÊNCIA.

    Quando é dito que Jesus, na frente do templo, ficou com raiva-ira; ainda, naquele momento, ele não havia transcendido totalmente a consciência dual, o que só acontece depois da sua morte (símbolo da morte do ego) na cruz. Já com relação a Javé-Jeova, Deus do antigo testamento, tem a mesma simbologia do Demiurgo dos gnósticos, ou seja, é o próprio sistema de aprisionamento, ou do ego.

  5. adi said

    Nossa, bati nas teclas erradas, e postou o comentário antes da hora (rsrsrs), ainda bem que não deletou, pq quando sumiu do quadradinho rosa, pensei, perdi tudo, oh god…

    Continuando então:

    “Outra coisa que acho decorre de se pensar no três, é gerar o quatro. (lembrando que números são arquétipos e que geram disposições que nos movem). O quatro, no esquema do três, é sempre o elemento excluído, muitas vezes identificado como a força desagregadora, mas ele é muito mais do que isso… O quatro é o elemento obscuro que dá a substancial profundidade ao conjunto, para que o mistério permaneça sempre mistério. Na trindade cristã, o quarto elemento é tradicionalmente identificado na figura de Maria – o feminino excluído desse universo das divindades judaico-cristãs…”

    Primeiro de tudo, temos o quatro como os quatro elementos da natureza, também podemos associá-lo ao nome divino cabalístico, ou o Tetragramaton, e então dá pra entender toda essa simbologia. Foi comentado no post sobre a Árvore da Vida. Então, “YHVH” ou o Tetragramaton como simbologia dos quatro elementos, representa a totalidade da vida e do homen formado abaixo do abismo. Verificamos ainda que YHVH é identificado com Binah na Árvore da Vida, na verdade YHVH é Elohim, ou seja, feminino, e não podemos esquecer que é de Binah (A Grande Mãe) que engendra todas as coisas.
    Podemos dizer que o quatro representa a totalidade abaixo do abismo, abaixo de Binah, mais que no retorno ele se recolhe no Triangulo Divino (Kether, Chokmah e Binah).

    bjs

  6. adi said

    Sem,

    ” O quatro, no esquema do três, é sempre o elemento excluído, muitas vezes identificado como a força desagregadora, mas ele é muito mais do que isso… O quatro é o elemento obscuro que dá a substancial profundidade ao conjunto, para que o mistério permaneça sempre mistério. Na trindade cristã, o quarto elemento é tradicionalmente identificado na figura de Maria – o feminino excluído desse universo das divindades judaico-cristãs… ”

    Voltando novamente a essa questão do quatro, é que tem uma estória mitológica que acho bem apropriada, e que também escrevi bem resumidamente nos comentários ao Ed sobre Cabala:

    “Binah estah associada a Saturno e Ísis, ao feminino, sao forças cósmicas acima do abismo. Abaixo do abismo, a deusa Hathor (Egito), bem como Afrodite e Deméter estão associadas a sephirah Netzach. Nos remotos tempos do Egito, Hathor a deusa-vaca era tida como uma deusa cósmica, e era atribuida a ela o poder gerador da natureza, e está em conexao com Ísis. Há uma lenda onde Hórus matava Ísis cuja cabeça é transformada por Thoth na cabeça de uma vaca, a cabeça de Hathor. Isso sugere a transformação das forças geradoras cósmicas de acima do abismo, para uma esfera mais mundana de manifestação abaixo do abismo.”

    Bom, fica claro nesse mito, que quando o Arquétipo se manifesta na vida, é como uma “contração” de sua potência infinita de vir-a-ser, num único ponto, numa única realidade, numa possibilidade. Esse é o símbolo da queda na geração e na existência, esse é o símbolo onde se diz que os anjos foram expulsos do paraíso. Muito embora, o arquétipo infinito como é, se manifesta na natureza através das centelhas, ou de sua divisão, também daí surge outro mito cósmico, do despedaçamento do Deus Osíris e da criação do mundo. Essa contração da potência do Arquétipo também é o símbolo dos eons se transformarem em arcontes.

    Sem, eu amo essas associações, a simbologia que o mito carrega… é de fato muito bonito…

    bjs

  7. Sem said

    Adi,

    Essa questão é tão complexa que podemos analisá-la de diversos ângulos e todos serem verdadeiros. É o caminho do entendimento de cada um. E cada um tem ou faz o seu possível.

    >>>Do modo como entendo, as forças agregadoras, são como o Yin, ou seja, aquilo que puxa para dentro, que prende, centrípeta ou constritiva, é negativa como polaridade, tem como símbolo a Lua, e é essa natureza da Força, ou seja, “que prende” é a que é chamada nos meios esotéricos como a “raiz” do mal no universo. Em oposição estão as forças Yang, como o calor, o fogo, como o Sol, expansiva, que busca sempre a expansão, essas forças são equivalentes ao polo positivo, ou ao bem no universo.

    Eu compreendo, só não foi bem isso o que eu disse, vinculo impulsos centrípetos e expansivos tanto para Yin quanto para Yang. Só espero não estar discordando do taoísmo, acho que não, quem sou eu… mas é que minhas convicções se baseiam em imagens espontâneas e eu não tenho como negá-las, pois elas são para mim tão ou mais reais do que a vida. Vou então me estender um pouco mais no que penso a respeito das polaridades, de outro ângulo e que talvez desse lado ainda não tenha exposto suficiente essa questão…

    O que eu vejo é que não existe positividade ou negatividade a priore nos polos, nem no Yin, nem no Yang, como estava dizendo, creio que o próprio taoísmo não faz essa inferência, tanto que os coloca como forças iguais em tamanho e com mútua qualidade complementar. Ambos vão e voltam do centro, sobem e descem, trocam de lugar sem nunca no entanto se descaracterizarem. Assim como não existe nenhuma inferência de valor que podemos fazer a priore em qualquer das polaridades arquetípicas – nenhuma dessas infindas polaridades que existem, e algumas dezenas já mencionadas e debatidas por nós em outras oportunidades aqui no Anoitan. Só para exemplificar, vamos pegar então a representação do arquétipo masculino por excelência, o puer-senex, este que temos debatido mais nos últimos tópicos. Pois então, embora nossa cultura tenda a considerar a juventude (o puer) um bem a ser louvado e a velhice (o senex) um mal a ser evitado, não é exatamente assim; não existe positividade no puer a priore, tanto que ele pode se manifestar como positivo, sendo o impulso motriz da criatividade, a força alegre e esperançosa de olhos voltados para o futuro que é, quanto pode ser negativo, força desagregadora se não estiver imbuído de constância no labor concreto na vida; do mesmo modo, em contraponto, não existe uma negatividade a priore no senex, pois ele tanto pode ser negativo quando destituído da esperança no amanhã, quanto muito positivo e necessário como aquele que é o portador da história da humanidade, da experiência, compromissado com a memória enfim. Creio que puer-senex são tanto mais complementares positivos quanto mais se relacionam respeitosamente um com o outro, e mais desagregadores negativos quanto neguem vida ao outro. Do lado positivo o que existe é sempre uma complementaridade e do lado negativo sempre a exclusão de um e de outro.

    Mas aqui já estou evidentemente fazendo inferências de valor… É meio inevitável quando adentramos no campo do subjetivo que tal aconteça, pois é na vida, na prática da vida, que sentimos uma ou outra força agindo em nós, sendo reveladoras do modo como lidamos com elas, ou o próprio modo como mantemos nossos relacionamentos, não apenas com os outros, mas como somos como nos sentimos interiormente também. E aqui vou me remeter mais uma vez ao Espinosa, acho importante essa inferência que deve ser creditada a este filósofo, que pensou com tanta clareza essa questão. Espinosa afirma que não existe o bem e o mal a priore, existe é o modo positivo ou negativo como somos afetados pelos encontros que temos… São os encontros então que determinam se os objetos/sujeitos com quem nos relacionamos são bons ou maus, conforme aumentem ou diminuam nossa potência de existir. O que eu acho de mais fundamental nessa abordagem é que saímos do campo da moralidade secular para ingressar no campo da ética de fato, que para se chamar ética, a moral tem de necessariamente passar pelo crivo humano do livre-arbítrio…. Por outro lado, é claro que é possível que “nossa” ética coincida ou tome emprestado alguns valores que pertençam a quadros morais já estabelecidos, institucionais de toda ordem, mas, se o fazemos sem um mínimo de crivo subjetivo de nossa parte, isto é, sem liberdade interior, é menos ética e mais coação moral impingida, e se trata menos de moral e muito mais de moralidade…

    Outro exemplo de como não vejo positividade ou negatividade a priore nos complexos, quer dizer, vários polos arquetípicos e afetos interagindo, formando uma mandala, vou usar um sentimento que a princípio todos concordam ser negativo: a raiva. É um sentimento desagregador sem dúvida, claro que é, se nos entregamos a uma raiva cega, fatalmente vamos nos afastar de tudo, de todos, inclusive de nosso próprio centro, é a pura desintegração… No entanto, até a raiva pode ter o seu aspecto positivo, se for entendida como um movimento para a agregação, para a positivação do sujeito e da vida, ou seja, se estiver a serviço de eros. Sim, mas como será possível, não será contraditório? A raiva não é em si positiva ou negativa, como nenhum sentimento é positivo ou negativo, os sentimentos em verdade apenas existem e são o termômetro de nossa existência ou do modo como somos afetados pelo mundo; já como os sentimentos são externados sim é que podem ser fonte de afirmação ou de negação da vida, fazer o bem o e o mal a si e aos outros. Uma raiva bem empregada, como a de Jesus contra os vendilhões do templo, pode ser melhor do que a indiferença perante a algo muito errado e que sabemos que está errado, pois existe o bom combate e para empreendê-lo há que se ter alguma gana, um bom planeta marte. Do outro lado, até o sentimento mais positivo de amor pode atuar como força desagregadora se for inoportuno, se desconsiderar o momento do outro, quando externado na hora errada, no lugar errado, como uma mãe intrometendo-se fora de hora na vida social ou íntima do filho não faz nenhum bem. Sei lá, não quero radicalizar, mas para ser positivo, mais vale a ação oportuna e responsável que pesa o momento em sintonia com o ambiente que a intenção positiva centrada na pessoa sem considerar o entorno, pois não tem aquele ditado que diz que de boas intenções o inferno esta cheio? [ né, Adi. =) ] Mas talvez só possa realmente compreender o papel positivo da raiva quem já passou por maus bocados nessa vida, quem já sofreu alguma perda profunda, enfrentou algum luto, teve uma depressão ou algo assim… Nesses momentos, se negamos e reprimimos sentimentos negativos, só nos afastamos do nosso centro e vamos portanto negar também nosso direito de existir. Esses momentos difíceis, pelos quais cedo ou tarde todos passamos, são exemplares de como cada um lida com seus demônios interiores, e talvez o único sentimento que uma pessoa tenha nessas ocasiões, ou a única emoção capaz de manter a pessoa em contato com a sua alma profunda, seja de repente a raiva… Complicado falar do aspecto positivo da raiva sem correr o risco de alguma deturpação, mas, o que apenas quero dizer, é que em determinados momentos possa ser ela, ou qualquer outro sentimento dito “negativo”, a única força de vida possível de um sujeito para sair do buraco. Sentimentos não devem nunca ser reprimidos, devem antes ser sentidos, mas, é claro, não necessariamente externados… Devemos conviver com nossos demônios intimamente, até para saber qual força têm cada um, mas conviver não é soltar os bichos para fora, que o mundo não carece de mais demônios dos que os já estão soltos, e até bem pelo contrário, necessita é de gente capaz de suportar a própria carga negativa sem precisar descarregá-la no mundo… Precisamos nos responsabilizar pelos nossos sentimentos e isso inclui acolhe-los, deixar um espaço interior para que eles aconteçam dentro de nós e possam inclusive se modificar em contato uns com os outros, e finalmente precisamos nos responsabilizar em não por para fora o desnecessário, principalmente o que sabemos fará mal ao outro, até por uma questão de egoísmo, pois o mal-estar do outro fatalmente nos atingirá depois também.

    Quando falo do aspecto positivo de sentimentos negativos, quero dizer que todos os sentimentos são a priore impulsos para a preservação da vida, são todos termômetros de nosso estado interior, sinal de saúde psíquica, e por isso mesmo não devem ser negados. Só o modo como os expressamos é que pode transformá-los em negativos e virar “doença”, se forem despejados sem filtro nenhum de nossa parte. No caso de nossa atuação no mundo, todo cuidado é pouco, pois os sentimentos assim chamados negativos são peritos nessa tarefa de desagregação.

    Espero ter conseguido deixar mais claro a razão do porque no meu esquema & (et; união; colaboração) e X (versus; separação; competição), os arquétipos e os complexos que eles formam não conterem carga moral positiva ou negativa a priore, e a questão ética só ser introduzida a partir do momento como os arquétipos se relacionam entre si, atuam em nós e nos fazem atuar no mundo…

    Mas vou falar francamente, Adi, porque estou meio enrascada nessa teoria sem sair do lugar exatamente nesse ponto, tudo o que disse é o que penso, e seria “lógico” que a questão se “resolvesse” pela positivação do modo & e negativização do modo X…. lógico se resolver no sentido de dar um ponto final, de chegar a alguma conclusão, mas nada parece ser conclusivo nessa questão, muito menos é uma questão maniqueísta. Sei que tanto o modo & quanto o modo X tem cada qual o seu positivo e negativo, agregador e desagregador, como eu penso ter demonstrado. Mas será então que &-X é um arquétipo de modos de arquétipos se aproximarem? ou será que tudo é relativo: não apenas os sujeitos e os arquétipos, mas os modos de aproximação dos sujeitos, também seriam duais-unos? será que a dualidade-unidade está em tudo e o único absoluto da existência é que não existe absoluto nenhum? só Deus pode ser absoluto? quero deixar essas perguntas em aberto, porque eu estou estacionada nelas….

  8. adi said

    Oi Sem,

    Acabei de ler tudo, achei muito interessante, e amanhã vou responder com mais tempo.

    Só uma coisa que me ocorreu agora e que pra não esquecer amanhã, já vou adiantar.

    Eu acho que tudo o que é em demasia, em excesso, é de certa forma o que poderíamos chamar de lado “negativo” da coisa em si. Independente de moralidade, ou sobre a questão bem e mal, amor e ódio…etc… etc…

    Amor em excesso sufoca, ódio em excesso mata…

    Se está como uma força sob controle, pode ser bom… pode ser um impulso até mesmo pra dar uma grande virada na vida…

    Excesso gera desequilibrio em tudo…

    Mas amanhã eu continuo.

    Bjs

  9. Elielson said

    Sobre o filtro.

    Poluimos com o pudico que dá base ao impudico.
    O conhecimento tende a duplicidade e quando não participas não significa que está livre da transgressão de valores.
    Pois a opinião imprecisa erra se não houver verdade, mesmo que pareça um zelo ao bem. A exemplo uma das melhores palavras a serem divagadas… Justiça.
    Os aspectos da justiça não são definidos… Pois incluem o julgamento, e o julgamento puro abrange os dois aspectos da transformação, e a inercia está só no julgo puro. Mas então para castigar e recompensar, para elogiar e criticar, é necessário poluir. Sendo assim a justiça só existe no julgo puro. Então a manifestação do julgo puro é tudo que não se manifesta para julgar. A conduta dita iluminada se abstém do julgo, obviamente então não temos noticias delas. Então toda manifestação parte de um posicionamento, mesmo que central. Mas sendo manifestação possui julgo, e este julgo no centro trabalha pela perpetuação do que lhe faz ser o centro.
    Assim como os demais posicionamentos se centralizam.
    A pequena vontade de um transgressor alinha a realidade com seu prazer e centra com ações o molde de sua natureza artificial. A pequena vontade que busca o centro da realidade já moldada por todas as pequenas vontades transgressoras, ainda assim não está no que se pode dizer ser o equilibrio ou o estado iluminado. Existe toda uma realidade fora da lógica humana, e do formato humano, e até do alcance sensorial humano. Na fé de que essa realidade é transcendental e que cabe a poucos o conhecimento sobre tal, ou mesmo que não cabe a ninguém, reduz a influência que pode-se conseguir habitando e existindo em vida, com poder de filtragem da realidade e ajuste especifico do bem-estar, essa visão conta com a noção de risco, mas não conta com os caminhos isentos de risco. O aspecto mais forte do mal e que o torna presente nas visões que não fogem desses conhecimentos que muitos julgam tentadores, é a facilidade de sua vivência. Me impressiona o fato de que muitos que recolheram conhecimento ainda possam preferir este lado, fazendo parecer que é parte da natureza enxergar facilidade no mal e não enxergar facilidade na pratica altruista, ou mesmo na pratica de perpetuação do lado que visa a colaboração.

    As vezes também enxergo o sistema por cima, e essa visão é muito preocupante, ainda mais visto que muitos esquemas de previsão de movimento economico são muito mais sujos do que eu supunha antes de me esforçar em ver que o sistema atual é um conjunto de todas as contribuições ativas. O desuso, a obsolência, a renovação estética, o desserviço a existência, tudo, tudo isso, por muitas vezes partiu de vontades que naquele momento se julgavam boas. Então isso significa que toda a ação pode libertar anjos maus ou anjos bons, e nenhuma ação vai significar que o eu é necessariamente bom ou mal, pois querer ser mal é um risco, mas querer ser bom é igualmente um risco. Ironicamente parece que grande parte do mal existe por ter mais coragem que o bem, ou por administrar seu lado, jogando dados misticos que nos iludem para que pensemos que só este lado mal deve usufruir dos esforços conjuntos, e acabam usufruindo até mesmo da construção das melhores intenções. Ou seja, a manifestação, mesmo a manifestação do respeito e da preservação, trabalha no que é, na condição atual, o mal tbm. Então o posicionamento é uma coisa complicada quando não se tem previsto o efeito do ato. Porém, sabendo do risco, já é bom.
    A trasnformação depende de uma resposta, ativa ou passiva, a transformação depende do que é transformado, mas há algo que claramente parece não ser transformado, este algo inclui nossa percepção. Então o que pode ser chamado de transformação, transcedentalismo, transmutação, acontece dentro dos parametros responsavéis pela existência irreal/real dessa percepção.

    Mais simples do que se pode imaginar.
    Dor e prazer.

    Os moldes…, mas suponhamos que um corpo quer algo, o que ele quer é a interação com algum objeto/sujeito, seja através da dor ou do prazer, ele desconhece o o que o objeto pode causá-lo.
    Mesmo assim, tentado pela serpente que vem rondando no jardim, ele morde.
    A tendência dos veiculos de informação que se movem de acordo com a analise de mercado e consumo para divulgação pessoal, e estas paradas todas… enfim, as tendências vem correndo há muito tempo, fazendo com que a inocência que adiquirir malicia dentro da cadeia que já se alastra, ganhe vantagens, e se adapte mais rapido e usufrue da construção social… Esse sistema tendêncioso não possui capacidade de julgamento ou mesmo favorecimento ao que seria nos padrões humanos o merecedor do usufruto.

  10. adi said

    Sem,

    Acho que entendi o que vc está querendo dizer: que ambos os polos contém em si componentes que podem agregar ou desagregar, independente dele ser positivo ou negativo.

    Segundo Regardie, sobre a Árvore da Vida, por ex. Binah no topo do pilar da severidade, embora seja considerada força feminina, contém em si mesma, ambos os aspectos, feminino e masculino. Bem como Chokmah, no topo do pilar da Misericórdia, embora seja masculino, contém em si, ambos os aspectos mesclados, também prossegue que em cada sefirah contém ambos os aspectos. O pilar do meio é neutro.

    “Creio que puer-senex são tanto mais complementares positivos quanto mais se relacionam respeitosamente um com o outro, e mais desagregadores negativos quanto neguem vida ao outro. Do lado positivo o que existe é sempre uma complementaridade e do lado negativo sempre a exclusão de um e de outro.”

    É faz muito sentido. No relacionamento saudavel entre os opostos como se eles se complementassem, na negação a desagregação.

    A visão de Espinosa também é interessante, e concordo com o que foi colocado.

    Na minha particular visão, é, talvez, um pouco mais simples.
    Eu acho que a gente vai lidando com isso, com esses opostos, na medida de nossos próprios conflitos, o que claro, não é nada simples lidar. 😉
    Mas, vou te dizer que nessa jornada da qual estou trilhando, quantos conflitos terríveis não vivi, os opostos como que rompendo-rasgando o interior, e depois vem a paz e calmaria em relação aquilo.
    E nesses conflitos, meio que independe qual parte ou de qual forma se dá a resolução, ou a integração dos conteúdos, ou a agregação. Importa a consciência que se formou depois do conflito passado, importa a compreensão.
    Porque é bem por aí mesmo, cada oposto contém em si mesmo os dois polos, e sua atuação vai depender do processo de cada indivíduo. E fica claro nisso tudo que as forças arquetípicas, muito embora estejam representando ou significando um aspecto da vasta gama de possibilidades, contém em si mesma a carga que vai atuar de acordo com a necessidade do indivíduo, ou com a necessidade do conflito que precisa ser vivenciado. Mas eu entendo que na consciência que já atravessou o abismo e se incorporou ao Self, esse conflito não mais existe, bem como as polaridades deixam de existir nessa consciência Una.

    De qualquer forma, se não entendi direito o seu ponto de vista, me desculpe, ok.

    bjs
    adi

  11. adi said

    “Sei que tanto o modo & quanto o modo X tem cada qual o seu positivo e negativo, agregador e desagregador, como eu penso ter demonstrado. Mas será então que &-X é um arquétipo de modos de arquétipos se aproximarem? ou será que tudo é relativo: não apenas os sujeitos e os arquétipos, mas os modos de aproximação dos sujeitos, também seriam duais-unos?

    Sem,

    Eu acho que cada arquétipo contém o modo & e o modo X, e cada arquétipo pode ser agregador e desagregador ao mesmo tempo, e isso vai ser relativo ao conflito, ao pessoal, ao indivíduo, as necessidades de cada um.

    “será que a dualidade-unidade está em tudo e o único absoluto da existência é que não existe absoluto nenhum? só Deus pode ser absoluto?”

    Na minha modesta opinião, eu acho que a dualidade está em nossa mente, e essa dicotomia na realidade sucede no momento em que se forma a consciência de um “eu”, então automaticamente tudo o mais se divide, se separa. Eu imagino-intuo que a unidade está em tudo, intrínseca em todas as coisas, mas não podemos percebê-la por causa dessa identificação da consciência com um “eu”. Eu sei que sou repetitiva até, sempre falando a mesma coisa, mas pra mim é esse o único motivo da experiência da dualidade. Não vejo isso como um mal, mas uma necessidade, e assim como tudo na vida, há o tempo de ir além dessa percepção… e é nesse ponto que as coisas complicam, porque não conseguimos ultrapassar essa percepção dual, não conseguimos desapegar do “eu”, de uma identidade, personalidade, tudo aquilo que nos custou uma vida pra formar…
    Mas é porque achamos que o “eu” é o que somos, mas na realidade, naquele centro, nós não somos um “eu”, nós somos esse centro que ao mesmo tempo está em todo lugar.

    bjs

  12. Sem said

    Adi,

    >Eu sei que sou repetitiva até, sempre falando a mesma coisa, mas pra mim é esse o único motivo da experiência da dualidade.

    Mais repetitiva do que eu? até parece que só tenho esse assunto e só fico voltando a ele, girando em torno. nem eu mais me aguento… 🙂 vou fazer um sincero esforço pra sair.

    >Não vejo isso como um mal, mas uma necessidade, e assim como tudo na vida, há o tempo de ir além dessa percepção…

    Ir além no meu caso é abandonar minhas imagens interiores, as que dou pelo retrato de minha vida íntima. Sempre as levei muito a sério, sempre foram meu norte, mas, estou me dando conta de que elas podem ser na verdade a minha maior ilusão. (sombras da caverna de Platão?). Não sei se posso abandonar todas de uma só vez, seria quase como deixar de existir, tb não sei se posso as impedir de existir como autônomas, mas o que eu posso fazer é me desapegar delas, isto é, não as tomar como realidade, nem como minhas, porque na verdade elas não são…
    Onde está o eu? ou ele não existe ou está em tudo.
    Resta o bom conselho do caminho do meio…

    “A corda de um instrumento musical não pode ser retesada demais, pois assim ela rompe, e nem pode ser frouxa demais, pois assim ela não toca.”

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