Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Grandes são os desertos, e tudo é deserto – Álvaro de Campos

Posted by Sem em agosto 14, 2009

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Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida.

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.
Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ter que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.
Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.
Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.

Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim.

Álvaro de Campos
4-9-1930

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43 Respostas to “Grandes são os desertos, e tudo é deserto – Álvaro de Campos”

  1. adi said

    Minha querida Sem, saudades de todos aqui…

    Ai que poema lindo…

    Olha num momento que tô meio assim querendo arrumar a mala só de ida…

    É tanta coisa “feia” que se vê; políticos corruptos muito, muito além da conta, doenças fabricadas, lixo “comprado” do primeiro mundo (essa é de doer muito na alma), queimadas;… que mundo feio esse o do nosso tempo…

    E o pior ainda, não estamos aqui por acaso… estamos atolados até o pescoço…. está doendo aqui dentro do peito…

    ” Meu Deus, Meu Deus, porque nos abandonas-te”

  2. Luiz Fernando said

    Lendo o comentário da Adi, logo me veio à mente a frase de são Bernardo – “Habet mundus iste noctes suas et non paucas” (“Este mundo tem as suas noites, e não são poucas”).

    Att!

  3. Sem said

    Sob todos os sentidos, mundo doido, Adi. Eu aqui muito solidária aos teus sentimentos….

    Sou de uma geração em que as coisas eram mais fáceis – nunca foram fáceis na verdade, mas é só um modo de dizer que era mais fácil localizar o “inimigo”. A política era maniqueísta, no Brasil só existiam dois partidos e o mundo era dividido em dois. O inimigo estava sempre lá, nos militares, no capitalista, no reacionário… E não se tinha muita opção, ou se ficava de um lado ou do outro. Hoje tudo é mais complexo, colorido, confuso, sem fronteiras, desterritoriarizado, o alvo “eppur si muove”. Modernidade líquida que nos escorre entre os dedos. O mundo virou uma sala de espelhos onde perdemos nossa inocência. Já vimos de todas as formas, cansamos o nosso olhar e finalmente descobrimos por fim que o que vimos são apenas imagens bizarras de nós mesmos. Ou a perversão do nosso tempo é que hoje o “inimigo” se disfarça em “nós”. Mas isso é uma coisa boa hoje, se a humanidade caminhar para esse enfrentamento dos próprios demônios sem precisar demonizar tanto assim o “outro”. Psicanaliticamente falando, antes o mundo era neurótico, hoje ele parece ser mais perverso. Antes estávamos divididos e hoje estamos lutando numa sala de espelhos numa casa de horrores… feito Dom Quixotes contra moinhos de vento. Tudo isso é de uma pateticidade e beleza comoventes, afinal Dom Quixote é um grande herói. Mas é isso, o tempo passa e a gente vai perdendo as ilusões. E quando se cultua a criança, muito do que se cultua é a capacidade dela acreditar no futuro, a criança é só futuro, no entanto, creio que a verdadeira esperança ou inocência seria o velho acreditar no jovem, só que isso é processo contra naturam: senex et puer. É disso que precisamos hoje.

    Bom o poema, né? como dizer, Álvaro de Campos é um demônio inspirador. O dia que nos faltar a verdade, ou o dia que acharmos que sabemos de toda ela, é só ler Álvaro de Campos para nos curar desses dois enganos, que nem saber tudo e nem saber nada são realidades absolutas.

    Olha, reuni vários fragmentos de várias obras dele – só do Campos, acabou que deu num outro poema, uma outra coisa, mas, há força ainda e eu acredito que é da palavra do gênio, que nem os versos fragmentados conseguiram anular:

    …………………

    Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.

    Sentir tudo de todas as maneiras,
    Viver tudo de todos os lados,
    Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
    Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
    Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

    Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
    Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei,
    Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
    A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
    A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
    Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
    E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
    Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
    E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que penso,
    Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.

    Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei…
    Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos…
    Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
    Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
    E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.

    Sim, o mistério do tempo.

    Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
    Mas acordamos e ele é opaco,
    Levantamo-nos e ele é alheio,
    Saímos de casa e ele é a terra inteira,
    Mais o sistema solar e a Via Láctea e o indefinido.

    Houve um dia em que subi esta rua pensando alegremente no futuro,
    Pois Deus dá licença que o que não existe seja fortemente iluminado,
    Hoje, descendo esta rua, nem no passado penso alegremente.

    (Come chocolates, pequena;
    Come chocolates!
    Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
    Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
    Come, pequena suja, come!
    Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
    Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
    Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

    Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
    Não: vou existir. Arre! Vou existir.
    E-xis-tir…
    E–xis–tir …

    E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.

    Ah seja como for, seja por onde for, partir!
    Largar por aí fora, pelas ondas, pelo perigo, pelo mar.

    Ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-yyyy…
    Schooner ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó- yyyy…

    Chamam por mim as águas,
    Chamam por mim os mares.

    Toda a vida marítima! tudo na vida marítima!
    Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina
    E eu cismo indeterminadamente as viagens.

    Ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-yyyy…
    Schooner ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó- yyyy…

    No mar, no mar, no mar, no mar,
    Eh! pôr no mar, ao vento, às vagas,
    A minha vida!
    Salgar de espuma arremessada pelos ventos
    Meu paladar das grandes viagens.
    Fustigar de água chicoteante as carnes da minha aventura,
    Repassar de frios oceânicos os ossos da minha existência,
    Flagelar, cortar, engelhar de ventos, de espumas, de sóis,
    Meu ser ciclônico e atlântico,
    Meus nervos postos como enxárcias,
    Lira nas mãos dos ventos!

    Mas isto no mar, isto no ma-a-a-ar, isto no MA-A-A-AR!
    Eh-eh-eh-eh-eh! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! EH-EH-EH-EH-EH-EH! No MA-A-AA-AR!

    Quilhas partidas, navios ao fundo, sangue nos mares!

    Yeh eh-eh-eh-eh-eh! Yeh-eh-eh-eh-eh-eh! Yeh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
    Grita tudo! tudo a gritar! ventos, vagas, barcos,
    Marés, gáveas, piratas, a minha alma, o sangue, e o ar, e o ar!
    Eh-eh-eh-eh! Yeh-eh-eh-eh-eh! Yeh-eh-eh-eh-eh-eh! Tudo canta a gritar!

    FIFTEEN MEN ON THE DEAD MAN’S CHEST.
    YO-HO-HO AND A BOTTLE OF RUM!

    EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH!

    Ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-yyyy…
    Schooner ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó- yyyy…

    O meu passado ressurge, como se esse grito marítimo
    Fosse um aroma, uma voz, o eco duma canção
    Que fosse chamar ao meu passado
    Por aquela felicidade que nunca mais tornarei a ter.

    Boa viagem! Boa viagem! A vida é isto…

    Eia, que vida essa! essa era a vida, eia!
    Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
    Eh-lahô-lahô-laHO-lahá-á-á-à-à!
    Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!

    Ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò – yy…
    Schooner ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò – yy……

    Parte-se em mim qualquer coisa. O vermelho anoiteceu.
    Senti demais para poder continuar a sentir.
    Esgotou-se-me a alma, ficou só um eco dentro de mim.
    Decresce sensivelmente a velocidade do volante.
    Tiram-me um pouco as mãos dos olhos os meus sonhos.
    Dentro de mim há um só vácuo, um deserto, um mar noturno.
    E logo que sinto que, há um mar noturno dentro de mim,
    Sabe dos longes dele, nasce do seu silêncio,
    Outra vez, outra vez o vasto grito antiquíssimo.
    De repente, como um relâmpago de som, que não faz barulho mas ternura,
    Subitamente abrangendo todo o horizonte marítimo
    Úmido e sombrio marulho humano noturno,
    Voz de sereia longínqua chorando, chamando,
    Vem do fundo do Longe, do fundo do Mar, da alma dos Abismos,
    E à tona dele, como algas, bóiam meus sonhos desfeitos…

    Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
    Será essa, se alguém a escrever,
    A verdadeira história da humanidade.

    Mas quem repara na lua senão para achar
    Bela a luz que ela espalha, e não bem ela?

    Onde tenho o meu pensamento que me dói estar sem ele?

    E minha dor é silenciosa e triste
    Como a parte da praia onde o mar não chega.

    Dói-me a imaginação não sei como, mas é ela que dói,

    Fui educado pela Imaginação,
    Viajei pela mão dela sempre,
    Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso,

    Eu, sinto que ficou fora do que imaginei tudo o que quis,
    Que embora eu quisesse tudo, tudo me faltou.

    Quando é que despertarei de estar acordado?
    Não sei. O sol brilha alto,
    Impossível de fitar.
    As estrelas pestanejam frio,
    Impossíveis de contar.
    O coração pulsa alheio,
    Impossível de escutar.

    O que hei-de eu fazer da vida? O que hei-de eu fazer da vida?

    As palavras de episódio trocadas
    Com o viajante episódico
    Na episódica viagem …

    A vida a bordo é uma coisa triste,
    Embora a gente se divirta às vezes.

    Eu acho que não vale a pena ter
    Ido ao Oriente e visto a índia e a China.
    A terra é semelhante e pequenina
    E há só uma maneira de viver.

    Por isso eu tomo ópio. É um remédio

    Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

    Deste desassossego que há em mim
    E não há forma de se resolver.

    Pertenço a um gênero de portugueses
    Que depois de estar a Índia descoberta
    Ficaram sem trabalho.

    Meu Deus, que fiz eu da vida?

    Nada me prende a nada, a nada me ligo, a nada pertenço.
    Todas as sensações me tomam e nenhuma fica

    Quero partir e encontrar-me,
    Quero voltar a saber de mim,
    Como quem volta ao lar, como quem torna a ser recebido,
    Como quem ainda é amado na aldeia antiga,
    Como quem roça pela infância morta em cada pedra de muro,
    E vê abertos em frente os eternos campos de outrora

    Merda pra vida!

    Meu coração, algema partida…

  4. Fy said

    Verdade, Sem.

    Cruzar desertos , tempestades, montanhas, corredeiras…. noites e dias assustadores….

    – Ah; eles existem, acontecem, nas mais variadas formas; sim;
    Existem desde… que estamos aqui, neste lugar tão lindo:

    Mas é preciso um algo mais no coração pra vencer estes desafios.

    – E com certeza, este algo mais existe, e é a razão pelas qual o homem vem enfrentando tudo o que se opõem à vida, e vencendo; afinal….: – cá estamos nós.

    – Lembrar que este algo mais, nos trouxe até aqui, e que é verdadeiramente superior à nossa compreensão; é entender que temos escolhas, sempre tivemos e sempre teremos.

    Mesmo que sejam assim, tão vazias: [- incrível, isto!]

    A mala.

    Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.

    Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.

    Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
    A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

    Grandes são os desertos e tudo é deserto,
    Salvo erro, naturalmente.

    Dizem que cada um escolhe seus mestres. Também dizem que os mestres certos se apresentam quando estamos prontos ou mesmo naquele momento estranho, outoflife, em que muito precisamos deles.

    Mestres, não no sentido de gurus que a gente segue babando atrás, mas pessoas que tem sabedoria e generosidade para compartilhar, nos encorajar e nos alertar, sobretudo.

    São também, algumas vezes, aquelas pessoas que nos vem lembrar os valores, as emoções e o sentido das coisas em que cremos, as coisas com as quais fomos feitos, nossas historias de vida, nossas origens; as forças que nos trouxeram aqui, enfim: o que já sabemos.

    Outro dia, um amigo querido , mestre sim, nos meus momentos confusos , me lembrou desta poesia e deste convite – um convite ousado, certeiro, que muitas vezes é feito a nós, por nossa própria alma. Foi um bom momento. Um bom mestre. Um bom abraço. E mais uma vez agradeço a vida, por estas canções – porque a amigos não se agradece: – se permanece,

    – Amigos, que são mesmo canções, que me fazem ouvir, sentir, – Lembrar; ….que seja cruzando desertos, alturas, ou tempestades, sentindo frio ou calor, há sempre uma maneira nobre, forte, decidida, e desta forma: um lindo vôo, lindo, e capaz de alcançar destino,

    – mas… é preciso ter um Sonho no coração, os olhos do Condor e as asas da Águia …

    – …é ter cá dentro um astro que flameja, – lembra?

    [- a simplicidade desta apresentação faz juz à criação original.]

    Bjs

  5. Fy said

    – esqueci a poesia….:

    Oriah Mountain Dreamer é escritora e mora no Canadá.

    Teve a oportunidade de estar, conviver e estudar com índios norte americanos os fundamentos da medicina e filosofia xamânica. Oriah Mountain Dreamer, ou Sonhadora das Montanhas, significa aquela que gosta de expandir os limites.

    A poesia Invitation foi traduzida em mais de 15 linguagens e idiomas e, Oriah, em sua nota abaixo, faz uma ressalva tentando preservar algumas palavras, cujo sentido foi alterado nas diversas traduções. Por esta razão coloquei o original em inglês e a mais fiel tradução.

    – As the poem changed hands a few individuals took it upon themselves to add or change some words. “Faithless” was changed by some to “faithful,” “beauty” to “God” and-as I later found out-a man in Chicago, sure that I was an aged or deceased Native American man, put “Indian elder” after my name. Where possible I made requests for folks to share the poem as it was written and tried to correct the misrepresentation of myself as an “Indian elder.” Although there are stories of Native American ancestors in my family history (along with stories of German and Scottish descent) I am neither old enough nor wise enough to claim to be an elder of any people.
    Oriah Mountain Dreamer

    – Invitation

    It doesn’t interest me what you do for a living.
    I want to know what you ache for
    and if you dare to dream of meeting your heart’s longing.

    It doesn’t interest me how old you are.
    I want to know if you will risk looking like a fool
    for love
    for your dream
    for the adventure of being alive.

    It doesn’t interest me what planets are squaring your moon…
    I want to know if you have touched the centre of your own sorrow
    if you have been opened by life’s betrayals
    or have become shrivelled and closed
    from fear of further pain.

    I want to know if you can sit with pain
    mine or your own
    without moving to hide it
    or fade it
    or fix it.

    I want to know if you can be with joy
    mine or your own
    if you can dance with wildness
    and let the ecstasy fill you to the tips of your fingers and toes
    without cautioning us
    to be careful
    to be realistic
    to remember the limitations of being human.

    It doesn’t interest me if the story you are telling me
    is true.
    I want to know if you can
    disappoint another
    to be true to yourself.
    If you can bear the accusation of betrayal
    and not betray your own soul.
    If you can be faithless
    and therefore trustworthy.

    I want to know if you can see Beauty
    even when it is not pretty
    every day.
    And if you can source your own life
    from its presence.

    I want to know if you can live with failure
    yours and mine
    and still stand at the edge of the lake
    and shout to the silver of the full moon,
    “YES !” [ Yes I Will !!! ]

    It doesn’t interest me
    to know where you live or how much money you have.
    I want to know if you can get up
    after the night of grief and despair
    weary and bruised to the bone
    and do what needs to be done
    to feed the children.

    It doesn’t interest me who you know
    or how you came to be here.
    I want to know if you will stand
    in the centre of the fire
    with me
    and not shrink back.

    It doesn’t interest me where or what or with whom
    you have studied.
    I want to know what sustains you
    from the inside
    when all else falls away.

    I want to know if you can be alone
    with yourself
    and if you truly like the company you keep
    in the empty moments.

    O Convite

    “Não me importa saber como você ganha a vida.

    Quero saber o que mais deseja e se ousa sonhar em

    satisfazer os anseios do seu coração.

    Não me interessa saber sua idade.

    Quero saber se você correria o risco de parecer tolo por amor,

    pelo seu sonho, pela aventura de estar vivo.

    Não me interessa saber que planetas estão em quadratura com sua lua.

    O que eu quero saber é se você já foi até o fundo de sua própria tristeza,

    se as traições da vida o enriqueceram ou se você se retraiu e se fechou,

    com medo de mais dor.

    Quero saber se você consegue conviver com a dor,

    a minha ou a sua, sem tentar escondê-la,

    disfarçá-la ou remediá-la.

    Quero saber se você é capaz de conviver com a alegria,

    a minha ou a sua, de dançar com total abandono

    e deixar o êxtase penetrar até a ponta dos seus dedos,

    sem nos advertir que sejamos cuidadosos,

    que sejamos realistas,

    que nos lembremos das limitações da condição humana.

    Não me interessa se a história que você me conta é verdadeira.

    Quero saber se é capaz de desapontar o outro para se manter fiel a si mesmo.

    Se é capaz de suportar uma acusação de traição

    e não trair sua própria alma,

    ou ser infiel e, mesmo assim, ser digno de confiança.

    Quero saber se você é capaz de enxergar a beleza no dia-a-dia,

    ainda que ela não seja bonita,

    e fazer dela a fonte da sua vida.

    Quero saber se você consegue viver com o fracasso,

    o seu e o meu, e ainda assim pôr-se de pé na beira do lago

    e gritar para o reflexo prateado da lua cheia: “Sim!”

    Não me interessa saber onde você mora ou quanto dinheiro tem.

    Quero saber se, após uma noite de tristeza e desespero,

    exausto e ferido até os ossos,

    é capaz de fazer o que precisa ser feito para alimentar seus filhos.

    Não me interessa quem você conhece ou como chegou até aqui.

    Quero saber se vai permanecer no centro do fogo comigo: sem recuar.

    Não me interessa onde, o que ou com quem estudou.

    Quero saber o que o sustenta, no seu íntimo,

    quando tudo mais desmorona.

    Quero saber se é capaz de ficar só consigo mesmo

    e se nos momentos vazios realmente gosta da sua companhia.”

    Oriah Mountain Dreamer

    “Se nossa intenção for modificar quem realmente somos, não teremos sucesso.
    Se nossa intenção for nos tornar quem essencialmente somos, não poderemos deixar de ser verdadeiros diante dos mais profundos anseios da nossa alma.”

    Oriah Mountain Dreamer

    Bjs

  6. adi said

    Luiz,

    Poderíamos dizer, segundo os preceitos católicos, que estamos expiando a um só tempo todos os pecados da humanidade.

    Em Psicologia diríamos que a Sombra está se tornando consciente, a duras penas somos obrigados a reconhecê-la no mundo.

    E sim, parece a travessia do abismo, a longa noite escura da Alma da humanidade.

    ===================================

    Sem,

    Obrigado pelos poemas, muito bonitos

    Eu sou da mesma geração, e quando adolescente eu tinha uma esperança nos novos pensadores, na UNE (união dos estudantes), no voto, em tudo que era contra o governo, contra o sistema opressor…
    Minha decepção hoje é saber que tudo o que “é contra” o sistema, quando está no poder onde pode fazer diferença, vira “o sistema”, vira opressor igual ao que era contrário….
    Minha desilusão é saber que estou nisso, não venci nem a mim mesma, não saberia dizer se faria diferente… afinal, de boas intenções o inferno está cheio… sou humana como todos o são, não somos diferentes…

    E então é onde o poema que a Fy colocou se encaixa bem, será que importa os meios quando os fins são justificados por amor.

    Ai, ai…. que viagem longa… e só sei que nada sei, cada dia menos…

    bjs

  7. Sem said

    Fy,

    >>>Dizem que cada um escolhe seus mestres.

    Sabe que eu acho que todos nós aqui somos meio mestres uns dos outros? Pelo menos eu faço vcs meus mestres, se é que eu entendo o significado dessa palavra, tenho e já tive centenas de mestres: faço de todos com quem encontro lições a serem aprendidas, pelo bom ou pelo mau exemplo. Mas uma coisa precisa ser dita, mestre não é aquele que nos acumula de conselhos ou de advertências, mestre não é o que faz discursos, isto é, pode até discursar, mas é pelo exemplo de vida que as pessoas se fazem mestres.

    Sabe quem o Álvaro de Campos considerava seu mestre? O Alberto Caeiro. 🙂
    Disto eu concluo duas coisas, primeiro que alma grandiosa foi o Fernando Pessoa para ter de transbordar-se em personagens e, depois, merecidamente, o Caeiro foi o mestre de todos eles.
    Esse poema aqui creio demonstra a razão:

    ***

    Sou um guardador de rebanhos.
    O rebanho é os meus pensamentos
    E os meus pensamentos são todos sensações.
    Penso com os olhos e com os ouvidos
    E com as mãos e os pés
    E com o nariz e a boca.
    Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
    E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
    Por isso quando num dia de calor
    Me sinto triste de gozá-lo tanto.
    E me deito ao comprido na erva,
    E fecho os olhos quentes,
    Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
    Sei a verdade e sou feliz.

    ***

    Vou deixar um link muito, muito bom, para quem quiser conhecer o Fernando Pessoa, não apenas o poeta, mas tb o pensador, o ocultista…

    http://multipessoa.net/labirinto

    Seguindo o caminho de “Heteronímia” e clicando depois em “Alberto Caeiro”, colhi essas impressões do Campos quando ele conheceu o Caeiro e dá a medida de sua admiração. Acho que vale a pena ir na página para ler a continuação, onde terá inclusive um curto e alucinante diálogo entre os dois, a respeito de infinito. É o Campos quem fala:

    NOTAS PARA A RECORDAÇÃO DO MEU MESTRE CAEIRO (algumas delas)

    Conheci o meu mestre Caeiro em circunstâncias excepcionais — como todas as circunstâncias da vida, e sobretudo as que, não sendo nada em si mesmas, hão-de vir a ser tudo nos resultados.

    Deixei em quase três quartos o meu curso escocês de engenharia naval; parti numa viagem ao Oriente; no regresso, desembarcando em Marselha, e sentindo um grande tédio de seguir, vim por terra até Lisboa. Um primo meu levou-me um dia de passeio ao Ribatejo; conhecia um primo de Caeiro, e tinha com ele negócios; encontrei-me com o que havia de ser meu mestre em casa desse primo. Não há mais que contar, porque isto é pequeno, como toda a fecundação.

    Vejo ainda, com claridade da alma, que as lágrimas da lembrança não empanam, porque a visão não é externa… Vejo-o diante de mim, vê-lo-ei talvez eternamente como primeiro o vi. Primeiro, os olhos azuis de criança que não têm medo; depois, os malares já um pouco salientes, a cor um pouco pálida, e o estranho ar grego, que vinha de dentro e era uma calma, e não de fora, porque não era expressão nem feições. O cabelo, quase abundante, era louro, mas, se faltava luz, acastanhava-se. A estatura era média, tendendo para mais alta, mas curvada, sem ombros altos. O gesto era branco, o sorriso era como era, a voz era igual, lançada num tom de quem não procura senão dizer o que está dizendo-nem alta, nem baixa, clara, livre de intenções, de hesitações, de timidezas. O olhar azul não sabia deixar de fitar. Se a nossa observação estranhava qualquer coisa, encontrava-a: a testa, sem ser alta, era poderosamente branca. Repito: era pela sua brancura, que parecia maior que a da cara pálida, que tinha majestade. As mãos um pouco delgadas, mas não muito; a palma era larga. A expressão da boca, a última coisa em que se reparava — como se falar fosse, para este homem, menos que existir — era a de um sorriso como o que se atribui em verso às coisas inanimadas belas, só porque nos agradam — flores, campos largos, águas com sol — um sorriso de existir, e não de nos falar.

    Meu mestre, meu mestre, perdido tão cedo! Revejo-o na sombra que sou em mim, na memória que conservo do que sou de morto…

    Foi durante a nossa primeira conversa. Como foi não sei, e ele disse: «Está aqui um rapaz Ricardo Reis que há-de gostar de conhecer: ele é muito diferente de si». E depois acrescentou, «tudo é diferente de nós, e por isso é que tudo existe».

    Esta frase, dita como se fosse um axioma da terra, seduziu-me com um abalo, como o de todas as primeiras posses, que me entrou nos alicerces da alma. Mas, ao contrário da sedução material, o efeito em mim foi de receber de repente, em todas as minhas sensações, uma virgindade que não tinha tido.

  8. Sem said

    Adi,

    Opa se não te entendo, logo que eu entrei na faculdade me envolvi com política estudantil, participei do movimento pró-anistia e toda a construção do pluripartidarismo que se seguiu e da campanha pelas “Diretas Já”. Tanto que DAAT só vim a descobrir aqui com vcs era uma sefirot, para mim significava Diretório Acadêmico Anísio Teixeira. 😀 Mas foi justamente ter presenciado a estrutura interna dos jogos pelo poder, do quanto ninguém está imune de fazer absurdos, em nome dos tais fins que justificam os meios, que bem antes do muro de Berlim vir abaixo, eu já tinha abandonado a revolução social para me dedicar a outra de caráter mais interno. Foi quando comecei a me dedicar a valer pela psicologia e estou nesse “luta” até hoje. Mas, ao contrário da outra, essa tem valido a pena.

    Lembra que uma vez eu falei de um livro do Francesco Alberoni “Gênese: Como se criam os mitos, os valores e as instituições da civilização ocidental”? Esse livro fala justamente disso, do impulso do ‘puer’ revolucionário se transformando em ‘senex’ institucional após conquistados os objetivos… não sei até que ponto podemos traçar paralelos entre arquétipos X arcontes nessa dicotomia puer-senex. Minha ideia continua a mesma, de que quando os polos arquetípicos se voltam um para o outro funcionam bem, mas quando se afastam e perigosamente perdem a consciência um do outro, podem se transformar em arcontes… Mas vc já sabe de tudo isso, socrática amiga:

    >>>só sei que nada sei, cada dia menos… 🙂

  9. Fy said

    Sem,

    Fy,
    Dizem que cada um escolhe seus mestres.

    >>> Sabe que eu acho que todos nós aqui somos meio mestres uns dos outros?
    Pelo menos eu faço vcs meus mestres, se é que eu entendo o significado dessa palavra, tenho e já tive centenas de mestres: faço de todos com quem encontro lições a serem aprendidas, pelo bom ou pelo mau exemplo.

    – Sem, eu acredito que todas as pessoas em busca de esclarecimentos, abertas a pontos de vista diversificados, visões e interpretações, agem desta forma.

    >>> Mas uma coisa precisa ser dita, mestre não é aquele que nos acumula de conselhos ou de advertências, mestre não é o que faz discursos, isto é, pode até discursar, mas é pelo exemplo de vida que as pessoas se fazem mestres.

    – Já neste parágrafo, a mim, cabem questionamentos: Cada pessoa é diferente das outras, não existindo um só indivíduo igual a outro.
    Indo além, cada um tem seu próprio mundo interno e suas próprias percepções, não havendo uma Realidade Última de percepção da própria realidade ou de qualquer realidade , ou seja lá do que for, que seja comum a duas pessoas de maneira total e inequívoca.

    Desta forma, nunca haverá de ter uma realidade comum ou uma mesma interpretação para duas pessoas diferentes.

    Nisto incluo a diversidade de julgamentos possível em relação à mensagens dos mestres e a seus exemplos de vida; pois independente ou além da mensagem, ou do discurso, ou da forma como cada um expressa sua verdade, a opinião sobre exemplos ou estilos de vida também pode ser variada. De Cristo a Lennon, – Platão a Deleuze , da Vinci a Van Gogh, passando por todos os nomes e, no caso heterônimos, q eu possa lembrar.

    Eu adoro Fernando Pessoa; oh lord! – e todos sabemos que seu exemplo de vida é discutível, meu ideal de exemplo não é morrer de cirrose hepática aos 47 anos, e inegavelmente, é um mestre em sua arte, para mim. Podemos inclusive levantar este tópico, – pq as neuroses que o acometiam, são bastante interessantes. Sugiro este post do Rubedo como possível assunto:

    http://www.rubedo.psc.br/Artigos/histneur.html

    Qto à relevância da minha observação, não houve a menor intenção de definir o que seja mestre ou – mestre para cada um de nós – ; e sim uma impressão sobre o que significam certas pessoas que possuem uma delicadeza de espírito especial e, cujo discurso, seja qual for, me afete de uma forma positiva num momento de maior sensibilidade. Pra mim, atuam como mestres. E talvez seja este meu parâmetro para escolhê-los.

    – Não fiz uma análise do poema, apenas coloquei a impressão ou a lembrança que sua leitura possa ter me provocado. Acredito que a Adi, tenha feito o mesmo, com a diferença de que ele a tenha afetado de uma forma mais similar à sua. E como isto é uma questão de sensibilidade, não posso me desculpar pelo fato da minha ser diferente da dela. E, sim agradecê-la.

    Creio q a variedade de personagens existentes em Fernando Pessoa, item tão bem discutido no Anothering, ou sua biografia, não me seja desconhecida não; mas agradeço, sim a sugestão do site; – em se tratando dele, qualquer detalhe que possa ter me escapado, é enriquecedor.

    Bjs

  10. Mob said

    Fy,
    >Invitation
    I want to know if you can see Beauty
    even when it is not pretty
    every day.
    And if you can source your own life
    from its presence.

    Maravilhoso esse poema. É uma ética completa. É um privilégio único quando a nossa alma, ou a nossa alma na figura de outra alma nos faz esse convite, essa proposta.

    Li, li, reli, rezei e trabalhei em cima do poema. Roubei para mim.

    =P

    Bjos,
    Mob.

  11. Eliane said

    Do Desassosego que ainda não li…”Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até chegue a diligência do abismo.»
    “Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido — sem saber porquê. E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem vêem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como ele, nem aceitei nunca a Humanidade. ”
    Quando perscultamos a proximidade do abismo, nos perguntamos…”Oh, Deus por que me abandonaste?”
    E esquecemos a criança que come chocolate…
    Há um conto chinês, de um monge pendurado nas beiras de um abismo, com uma grande fera a lhe esperar abaixo e com o galho a lhe segurar, prestes a se partir… O que ele faz ? Salta e enfrenta a fera? Procura outro galho para se sustentar? Só Saboreia naquele momento uma fruta que ali se apresenta …
    o momento… só o momento… O que mais há? Só fica no desassossego quem vive cada presente como Presente e aprende sabore- á-lo…
    Nós é que dicotomizamos entre senex-puer… No mínimo somos todas trinas ( a Lua que o diga) (crianças- jovens damas – senhoras)…Meu pai desassossegado com seus 75 anos, esses dias vibrava por ter carteirinha de vacinação como qualquer bebê…
    No deserto o oásis é bem ali, ao lado…
    E
    Quando as sombras sairem das sombras, não serão mais sombras senão reflexos…
    E poderemos ver muito … muito vermelho sangue, de paixões descontroladas, violência, perversidade, ódio, etc…
    E estarão com cor, não mais Sombra… um vulto, um sem forma, indistinto conteúdo inconsciente. Serão conteúdos manifestos, e aí poderão ser tratados ou, catolicamente expiados… Minha Leitura do Pessoa(s).. rsrss continua stand by… Beijos

  12. Fy said

    Eliane:

    E esquecemos a criança que come chocolate…

    No deserto o oásis é bem ali, ao lado…

    Seja bem vinda,

    Bjs

  13. adi said

    Oohh my….

    Não têm ninguém em casa…. saiu todo mundo de férias e a casa está vazia…

    A criança que come chocolate
    Meu amante esposo, amor bandido escondido
    Meus demônios (eu gosto deles)
    Deus e o diabo
    e até os sonhos e as miragens

    Nada assim tão dramático 🙂 🙂 porque tudo passa, e isso também vai passar…

    Uma música que quando ouço tenho vontade de voar, voar, voar… ou correr, correr, correr sem olhar pra trás, sentindo o vento nos cabelos… é assim que me sinto livre…

    bjs

  14. Fy said

    Tão lindo:

    feather to fire – fire to blood – blood to bone – bone to marrow – marrow to ashes –
    ashes to snow

    If you come to me at this moment
    Your minutes will become hours
    Your hours will become days
    And your days will become a lifetime

    Bjs

  15. Fy said

    Adi

    Que linda!

    Adi e Sem,

    – e mais esta, …..e mais vento nos cabelos:

    Bjs

  16. adi said

    Fy,
    bonitas as vozes, o som, as músicas a integração…

    ===============================

    Sem,

    Eu me lembro sim do livro.

    Bem lembrado sobre o puer x senex. Interessante porque tô numa fase de novo reconhecimento, de um novo entendimento, e é difícil essa transição do velho pro novo.
    Eu entendo que, assim como na alquimia, o velho precisa sempre ser atualizado… tem que rejuvenescer com o novo, ou tem que deixar o novo entrar novamente…
    E é dolorido porque se sente a dor de algo que lhe é querido e que se foi… e o novo que vem chegando lhe é estranho ainda.

    Eu concordo contigo no seu comentário pra Fy, o tanto que tenho aprendido aqui na net, desde o F-A. até o Anoitan é impressionante… como um constante toque, como se o Arquétipo se utilizasse de todos como instrumento de sinais em simultâneo, naquela rede ou malha que você já falou aqui igual ao “apanhador de sonhos”, é assim que vejo.

    É porque te relendo hoje eu compreendi meus últimos sonhos… ficou claro, muito claro essa renovação…

    Na Alquimia o velho Rei morre e então nasce o filho, o renovador, o novo….

    🙂 🙂 🙂 🙂 🙂 🙂 🙂 🙂 🙂 🙂 🙂 🙂 🙂 🙂 🙂 🙂 🙂 🙂 🙂 🙂 🙂 🙂 🙂 🙂 🙂 🙂

    obrigado

    bjs a todos

  17. Sem said

    Fy, amigos,

    As pessoas são diferentes e isso é tudo. Embora os anseios humanos sejam semelhantes e poucos – como ser feliz, amar e ser amado, temos modos muito diferentes de lidar com eles. Pessoas reais são contraditórias, e não existe um modo certo de existir, apenas modos diferentes de se estar no mundo.

    Eu não tenho a segurança -e nem nunca tive, por mais que passe o tempo -, a segurança de dizer com todas as letras “isso está absoluto e definitivamente certo”. Vida é fluxo como queria Heráclito e o que hoje nos serve, amanhã, cumprida a meta, já será passado. O que hoje é a melhor regra, amanhã pode ser um grande estorvo que nos prenderá a condições de vida ultrapassadas. É claro que alguma coisa de essência sempre permanece, senão é isso a própria pessoa . Não é, portanto, o modo como ela leva ou levou sua vida que é a pessoa – bom, o meu modo de entender a existência é sempre circunstancial, dependente do tempo, das experiências, das oportunidades… Mas o que é a essência senão o próprio Destino? Existem existencialistas radicais, e materialistas radicais tb, que não acreditam em essência, não acreditam em destino. Eu me sinto muito solitária no pensamento, porque eu sou uma existencialista e vejo com bons olhos o materialismo que mantém nossos pés no chão, mas acredito em destino e, acima de qualquer coisa, em essência.

    Deserto é uma metáfora para Destino, esse encontro com a própria essência, e é sempre solitário: é individuação. Então, no deserto, não tem esse negócio de passeio turístico até o oásis mais próximo. Uma noite escura da alma é escura porque contém demônios e se atravessa por ela sozinho. “Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes”. Mas acho que dá para partilhar sim Anoitans, fazer convites, e tanto melhores quando celebram as diferenças sem acusar muito o outro com isso é certo, isso é bom, isso pode – embora cada um tenha sempre o seu circunstancial certo e errado, bom e mau, permitido e proibido.

    O que eu respeito é aquele que cumpre o seu destino, sou solidária em silêncio com o caminho das pessoas, que elas cumprem, voluntariamente ou não, indo retos ou tortuosos. Mas uma coisa que eu acho que vc não entendeu do que disse, ou entendeu e discordou, e tudo bem… Uma coisa é falar e outra muito diferente é fazer, por isso eu disse que os mestres são pelo exemplo e não pelo discurso. Às vezes existem pessoas, como Fernando Pessoa, que reclamam e falam em adiar o destino, mas são esses que efetivamente vão com os mínimos desvios cumprir lá a voz do seu daimon. Outras vezes tem gente que diz que faz tudo certinho e sempre tem uma resposta pra tudo e fórmulas de ser feliz, mas eu penso, e invariavelmente vejo pelo exemplo de vida dessas pessoas, que a única coisa que elas fazem é levar uma existência vazia de essência. São em geral pessoas que precisam ser preenchidas por pílulas, por máquinas, vícios, regras rígidas vindas de fora, tudo vindo de fora porque são vazias de alma por dentro. Sendo o mais realista possível, creio que esses dois são estados extremos e nós, todos nós, com exceção dos raríssimos mais evoluídos, vivemos entre esses dois extremos – só os santos parecem ser preenchidos do todo e não precisam de nada de fora. Eu me incluo, como imagino todos nós aqui, na categoria dos mortais, e por isso precisamos uns dos outros. Mas não acuso quem morre jovem, numa espécie de suicídio às avessas, por cumprir com o seu destino. Ninguém é perfeito, temos idiossincrasias e cada um vai como pode ou como pôde ser. Olha que para todos não pode estar escrito morrerem velhos, mas no tempo exato de terem queimado a chama da vida que lhes coube. Ah, se a gente pudesse escolher nosso destino, é claro que seríamos equilibrados, só faríamos o bem, felicidade para nós e os outros, morreríamos com 90 anos de idade cercado por entes queridos. Mas, está no Sermão da Montanha, “nem um côvado aumentarás à tua estatura”. Existe mesmo quem tenha esse idílico destino, vai ver por merecimento de vidas passadas, mas pra quem tem, como eu, Plutâo em conjunção no MC, fica difícil, infelizmente. A única coisa que a gente pode fazer nessa vida é descobrir que semente nós somos e florescer nisso. Da Oriah Mountain Dreamer: “Se nossa intenção for modificar quem realmente somos, não teremos sucesso.” Se é roseira, que lindo! se é ervilha, um dia servirá de alimento e será bom, se é carvalho servirá sombra e abrigo para passarinhos, quer destino melhor? Mas existem ervas daninhas… Não adianta querer ser o que não se é, e como disse o mestre do Código do Ser, Hillman, a gente só sabe a que veio quando olhamos em retrospectiva para a vida pregressa de alguém, pois desde criança o daimon desta pessoa esteve presente, sussurrando, criando situações, falando mas nem sempre ouvido, só depois da vida acabada é que temos perspectiva para saber da missão de cada um e se a pessoa regou a sua planta ou a deixou fenecer à míngua.

    Conheci o site da Rubedo lendo a tese do Carlos Bernardi e ao que me lembre até já tinha comentado a respeito dela por aqui. Tudo o que estou dizendo concorda com o que ele diz e está lá com todas as letras do destino dionisíaco de Fernando Pessoa – fosse ele um pacato cidadão português, já não seria mais o poeta dramático que conhecemos. Lembra o meu post Eros e Psiqué? Tem a ver com realizar dionísio… Penso que alguns morrem para que outros possam viver… Fernando pessoa foi um exemplo nesse sentido e a última coisa que eu faria seria acusá-lo de que ele poderia ter feito melhor. Arrisco dizer que se ele estivesse hoje aqui, nos vendo falar a seu respeito, diria algo bastante semelhante ao seu poema Lisboa Revisitada de 1923: “Se têm a verdade, guardem-na!… Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. Assim, como sou, tenham paciência!” 🙂
    Nessa discussão o que eu acho fundamental é saber se estamos falando de essência ou de existência, ou como bem pontuou a Eliane, citando o Pessoa, a questão é de Deus ou de Humanidade?

    São duas perspectivas completamente diferentes. Pois para mim deserto é um movimento de recuo e de introspecção para depois tornar à superfície e poder estar com os outros mais uma vez. Até o dia em que não seja mais possível e tudo se acabe. Não acredito que se vá-fique-esteja no deserto porque se queira, nem acredito que seja a meta suprema permanecer lá-ali-aqui para sempre. Mas acredito que ninguém que não tenha feito esse caminho de profunda introversão, caminho místico/mágico/religioso/psíquico, possa estar um dia verdadeiramente com alguém, porque bem lá no fundo dessa pessoa, ela ainda não é alguém, antes é uma casca vazia que se preenche com conteúdos alheios. É normal que sejamos assim em parte, pois não somos auto-suficientes. Mas completamente? (Bah, esse papo é circular, desculpem) Por outro lado, creio que o deserto é só uma passagem para outro movimento: para a extroversão… Quem vive e não está morto oscila entre esses dois extremos, e amarrando toda essa questão, para encerrar, de minha parte é claro, não acho que oscilar nos torna diferentes, é o modo como oscilamos que faz isso.

  18. Sem said

    Adi, qtas carinhas! 🙂

    Eliane, adorei tudo o que disse e tem razão quanto a questão arquetípica ser muito mais do que uma dicotomia entre puer-senex. Uma mandala imagética rica é composta por inúmeros polos, além disso a lua tripartida (ou quatri) tb representa melhor o feminino do que apenas dois polos circumambulando.

    Só queria fazer um comentário

    >Há um conto chinês, de um monge pendurado nas beiras de um abismo, com uma grande fera a lhe esperar abaixo e com o galho a lhe segurar, prestes a se partir… O que ele faz ? Salta e enfrenta a fera? Procura outro galho para se sustentar? Só Saboreia naquele momento uma fruta que ali se apresenta …
    o momento… só o momento… O que mais há? Só fica no desassossego quem vive cada presente como Presente e aprende sabore- á-lo…

    Essa história eu aprendi como uma das parábolas do buda Saquiamuni em que ele revelava a verdadeira essência do homem… Mas não é a essência o homem se deliciar com o fruto presente, agradecendo e vivendo o presente, essa é a maior sabedoria da existência… A verdadeira essência é o homem saltar no abismo (minha histórinha é um pouco diferente, tem um abismo com dragões embaixo). Será Daath? E a iluminação é ele, contra toda a lógica, flutuar…. 🙂

  19. Fy said

    Sem,

    – Sinceramente eu não estou conseguindo justificar nenhum dos comentários que você dirigiu a mim.

  20. Sem said

    Fy,

    Não entendi o justificar… não é preciso justificar nada. 🙂
    Só meu último comentário longo está dirigido a vc porque foi vc que levantou essa questão do mestre.. depois trouxe até a tese do Carlos Bernardi, que eu acho conclui pela sanidade do Fernando Pessoa e de modo algum pela “doença”, foi uma resposta aos seus comentários a respeito (que eu acho tem mesmo uma divergência com o seu e o meu modo de pensar, mas, e daí? tudo bem, né?). além disso aproveitei para elaborar melhor essa distinção entre deserto e oásis, que de forma alguma são experiências místicas ou psicológicas semelhantes. Acho importante essa distinção, pela clareza dos nossos entendimentos.

  21. Fy said

    Mob,

    Ah, Poeta, você não precisa roubar poesias.

    E esta é apenas uma canção.

    Mas é mesmo a canção da minha alma. Que bom a sua ter ouvido.

    O privilégio é meu; …e a canção é sua.

    Bjs

    – Em relação à abismos e iluminação, gosto muito desta passagem do Jodorowsky :

    “Algumas pessoas ingênuas pensam que chegar a esse estado espiritual (que elas denominam de iluminação) é como obter um anel de ouro para exibí-lo , como uma aura, flutuando por cima da cabeça.

    Na verdade, o nível de consciência divina não é um objeto. Quando nossas idéias cristalizadas se fazem fluidas, obtemos a primeira explosão de Consciência, e no começo cremos que será para sempre. Nos enganamos.

    O único que permanece neste mundo é a impermanência.

    O que se transforma não se cristaliza.

    A aquisição da fluidez se assemelha a uma pedra que cai no centro de um lago.

    De seu choque contra a água surge uma onda circular que dá origem a outra maior.

    Ondas que continuam expandindo-se até cobrir a superfície inteira desse lago.

    Assim acontece com a expansão da Consciência, ainda que com a diferença de que o lago espiritual é infinito.

    Uma vez iniciado o processo, vamos de iluminação em iluminação, de surpresa menor para surpresa maior, sem que o assombro feliz ante aos novos aspectos da realidade termine.

    Onde havíamos buscado um objeto imóvel, encontramos um acontecer incessante.

    Cabare Místico.”

    Alejandro Jodorowsky

    Bjs

  22. adi said

    Sem,

    ” Adi, qtas carinhas! 🙂 ”

    É que fiquei feliz porque meus sonhos ficaram claros pra mim, talvez nada a ver com o assunto do post, mas vc ter falado de puer x senex, me fez lembrar do significado alquímico pra isso e entender uma questão minha.

    “Minha ideia continua a mesma, de que quando os polos arquetípicos se voltam um para o outro funcionam bem, mas quando se afastam e perigosamente perdem a consciência um do outro, podem se transformar em arcontes…”

    Concordo com esse ponto, de fato o x da questão das dualidades é esse difícil equilíbrio, o caminho do meio entre os opostos, tudo o que é radical e excludente mata, aprisiona, limita o ser.

    Eu estou tentando escrever um post sobre como os Arquétipos se transformam em arcontes, ou como a consciência se encapsula, vive a fase do ego pra posterior ampliação. Mas está difícil de sair, porque gostaria de colocar Karma pro meio, bem como a Luz Astral (que é a mesma coisa que energia psíquica).

    … enfim, vamos ver se desencanta. (rsrsrs)

    bjs

  23. adi said

    Fy,

    Adorei isso que vc escreveu de Jodorowsky, é bem por aí que entendo também, uma ampliação sem fim…

    No meu ponto de vista, talvez a consciência transcender o ego é apenas o começo de uma outra grande jornada, uma outra compreensão que vai se desenvolvendo dentro do plano arquetípico, porque me parece impossível abarcar o inconsciente duma só vez, a mente explodiria, pior que loucura….
    mas num passo a passo me parece muito sensato.

    Não sei se vc conhece as músicas de Oliver Shanti, mas sempre que ouço essa, me lembro de vc.

    bjs

  24. Fy said

    Lindo Adi,
    Eu conhecia sim.
    Mas, com certeza, temos tudo isto em nós: todos nós.
    Bjs

    Sem,

    Com certeza nós não precisamos de justificativas, não. Basta que nossos argumentos justifiquem nossas divergências, quando acontecem.

    O que eu não entendi, foi a ênfase dos seus em relação a meus critérios na escolha do que considero mestres; visto se tratar de uma inclinação absolutamente pessoal inerente a cada um de nós.

    Tb não entendi sua colocação em relação à sanidade do Pessoa, tendo participado do meu post Anothering, onde claramente expus minha posição à respeito. A dúvida, em relação à própria sanidade era do próprio Fernando Pessoa, como esclarece o link que coloquei – e não minha. Estamos falando de exemplos de vidas; e reafirmo que nem o dele e nem o de Tesla e mts mais, me parecem saudáveis; – a mim – o que não me impede de considerá-los admiráveis mestres.

    Nunca me passaria pela cabeça que vc considerasse o deserto – este deserto – um local de permanência. Mas respeitaria se fosse o caso; mesmo expondo qualquer opinião contrária e minha.

    O meu comentário, que gerou toda esta divergência; teve como única intenção prestigiar e participar de seu post, movida por uma admiração legível em todo o blog.

    O poema da Oriah, na minha opinião, além de realmente muito bonito, retrata um fantástico equilíbrio entre as forças Puer e Senex, senão o ideal; para que se tenha uma vida de completude e sabedoria.

    É um chamado ao movimento, ao entusiasmo, à coragem, à transformação e ao fluir; próprios do Puer saudável ; equilibrados pela fibra, caráter, força e perseverança próprios do Senex; – tb: qdo saudável.

    É uma forma de encarar a vida que muito me atrai, uma postura saudável frente às situações que estamos enfrentando como humanos, e minha intenção não foi além do sugerir.

    Sua observação – da Oriah – sobre a essência do ser-humano é sem dúvida mais profunda e complexa do que vc interpretou; vale realmente a pena familiarizar-se com sua obra.

    Talvez tenhamos divergências de interpretação realmente; pois considero extremamente “puer” negativo expressões como: ó pai pq me abandonaste? – a mim soa como : ô mãe, e agora? : típicas do Eterno Garotão Puer.

    Adi: sem maldade: falo coisas parecidas, mto embora meu temperamento seja exigente comigo mesma neste sentido e, como ser-humano que tb sou; preciso destas injeções de coragem como qq um de nós; é apenas uma observação tanto em relação a vc qto a mim.

    E, extremamente adolescente senil, como enfatiza o próprio A de Campos: “Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
    A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis,” – : típica paralização – Senex.

    Os dois aspectos são uma questão de temperamento, mentalidade e não de idade.

    Adoro vcs, mas entrei meio como que linha cruzada num telefonema .

    Sorry for this,

    Bjs

    Fy

  25. adi said

    Fy,

    Não esquenta não! aqui nós somos diferentes uns dos outros, e isso é encantador. Eu adoro esses contra-pontos, opiniões diferentes e divergentes sempre aumentam nossa capacidade de compreensão.

    Todos aqui sabem que eu tenho uma base cristã como formação de caráter e personalidade, é natural usar de termos cristãos para designar estados de consciência, ou de fase, quando me sinto só e abandonada de mim mesma… onde o contato com o Self, com aquele que é o Mestre interior e guia se torna raro, quase como a vida perder o encanto, é como estar num deserto de si…. e neste momento exclamamos: Meu Deus (em referência ao Self, a Essência) porque me abandonaste?

    Talvez, pra você que não têm essa formação cristã, fica difícil entender o cristianismo. Temos a tendência a interpretá-lo “sem alma” como diria Hillmann, tanto os cristãos como os não cristão. Interpretá-lo sem alma é torná-lo em “arconte”. O que quero dizer com interpretá-lo sem alma, quero dizer interpretá-lo ao pé da letra, sem ser no sentido metafórico ou simbólico.
    Isso é letra morta, casca vazia, sem “alma”.

    Quando você olha para o cristianismo, (para as verdadeiras palavras de Cristo antes das instituições) com “alma” você percebe o quanto ele também é verdadeiro e preciso, tanto quanto o Budismo, tanto quanto o hinduísmo e outros… Não são excludentes, não invalida o outro, não é melhor que o outro…. são somente maneiras diferentes de dizer a mesma coisa, são maneiras de alcançar corações diferentes, pois somos todos diferentes uns dos outros… mas as verdades são eternas, são as mesmas em essência, em “essência”. Mas quando perdem a essência são ocas, são vazias, são arcontes, são letra morta.

    Depende a cada um de nós por essência na vida, por mágica no olhar, preencher novamente o símbolo de essência, recuperar a plenitude do mundo, transformar os arcontes em eons novamente, o Unus Mundus em linguagem alquímica e psicológica, ou no Cristianismo os demônios se tornam em anjos, e o diabo em Deus. Eu fico admirada com isso, encantada, é um processo magnífico e lindo… porque tudo é como deve ser, tudo é o que é, tudo já possui o seu encanto, tudo é verdadeiro… só temos que ver com essência, com alma…

    É por isso que gosto dos contra-pontos, a-d-o-r-o mesmo… sei lá, me dá uma coisa aqui dentro, me trás uma nova compreensão, as coisas fazem sentido aqui na cachola… 🙂 🙂 🙂

    beijão no coração de todos
    adi

  26. Sem said

    Adi, vc está vivendo um momento iluminado: nos ilumine! 🙂

    Agora sem tempo, mas volto assim que puder para contar uma espécie de insight que vc e a Fy me proporcionaram.

    Bjs, abs, muito afeto!

  27. Fy said

    Adi,

    Let’s go:

    ….Talvez, pra você que não têm essa formação cristã, fica difícil entender o cristianismo. Temos a tendência a interpretá-lo “sem alma” como diria Hillmann,…

    Verdade, Adi; não fui mesmo educada dentro de nenhum ismo. Mas, tenho uma outra visão sobre isto; acho que Educar, não é Condicionar. Ismos condicionam. Taí o mundo nos provando e nossa historia também.

    E, interpretar isto como ateísmo, é uma interpretação equivocada.

    Jung foi brilhante quando afirmou que deus só se manifesta através da psique. Ou seja, é uma manifestação psíquica. Eu, particularmente lamento as psiques condicionadas em ismos, porque devem perder uma boa parte do espetáculo, ao formatar a imaginação capaz desta percepção nas tão elaboradas ilhas dos tais ismos.

    Mas, como não fui criada dentro de nenhum sistema religioso estruturado por nenhuma fronteira etnológica , e me foi oferecida a oportunidade do conhecimento livre sem mecanismos arcaicos e julgamentos condicionados , minha visão sobre a religiosidade teve sim a oportunidade de se tornar uma atitude particular de consciência; uma vez que já estamos carecas de saber que a imaginação é o que que dá forma ao nosso mundo, molda nossa maneira de percepção tanto externa como interna, e já concluímos que podemos dizer que estamos fazendo magia o tempo todo e que a própria Vida é um grande espetáculo mágico.

    Principalmente quando podemos ter uma visão despreconceituosa e viajar por ela sem nos condicionar aos caminhos estabelecidos, gastos, viciados e que só nos levam aonde alguém já foi, – é preciso poder conhecer muitas linguagens, diversos idiomas, sem que seja preciso concluir que apenas algum deles expresse nossa natureza. E, na minha opinião, a função dos ismos é um treinamento pra que isto não ocorra. São muros; e muros coíbem.

    Realmente, não vejo e não sinto necessidade de caminhar nestes cercados pra que minha experiência espiritual ou minha alma se “faça” – ; basta conhecê-los; – mais: em relação ao tal cristianismo, eu adoraria um “about” with Jesus – eu creio, que ele, que assim como eu, não foi criado neste sistema, se sentiria tão perplexo diante desta codificação qto se sentiu qdo arrebentou as cercas do ismo em que foi criado. Ele, e outros mais.

    – As confissões de fé nada mais são que formas codificadas e dogmatizadas de experiências religiosas originárias. – Jung
    [ e a as dele [ Jesus ], foram mesmo: a bel-prazer]

    – Taí: o exemplo de Jesus, justamente dropar o estabelecido e surfar a onda que sua alma escolheu. – o que fizeram com seus samadis ou com suas viagens, é outra historia: não a dele. – a interpretação varia com a liberdade da alma de cada um. Mas, tem algumas coisas dele – talvez originais – em algum material, claro, out – cristianismo.

    – os conteúdos da experiência foram “sacralizados” e, via de regra, enrijeceram dentro de uma construção [ construções] mental [ mentais ] inflexível [ inflexíveis ] e, frenquentemente, complexa [ complexas ].
    – Jung em Psicologia e Religião. Pg 11

    – Já Hillman – inicia um de seus ensaios sobre fazer alma, colocando estes parágrafos brilhantes:

    Há muito tempo e à grande distancia da Califórnia e de sua atividade, interesse e engajamento, realizou-se em Bizâncio, na cidade de Constantinopla, no ano de 869, um Concílio de Bispos da Santa Igreja Católica1 e pôr causa daquela sessão e de outras quase um século antes ( em Nicéia, 787), estamos todos reunidos nesta sala, esta noite.

    Pôr causa daquele Concílio em Constantinopla a alma perdeu seu reino.

    Nossa antropologia, nossa concepção da natureza humana, passou de um tripartido cosmo de espírito, alma e corpo (ou matéria) ao dualismo de espírito (ou mente) e corpo (ou matéria) . Isto porque, naquele outro Concílio, o de Nicéia em 787, as imagens foram privadas de sua inerente autenticidade.

    Estamos nesta sala, esta noite, porque somos modernos a procura de uma alma, conforme afirmou Jung certa vez. Ainda estamos procurando reconstituir aquela terceira instancia, aquele reino intermediário da psique_ que é também o reino das imagens e o poder da imaginação_ da qual fomos exilados pêlos teólogos há mais de mil anos : muito antes de Decartes e das dicotomias a ele atribuídas , muito antes do Iluminismo e do moderno positivismo e cientificismo.

    Estes remotos fatos históricos são responsáveis pela mal nutrida raiz de nossa cultura psicológica no Ocidente e da cultura de cada uma de nossas almas.

    O que o Concílio de Constantinopla fez a nossa alma foi só a culminação de um longo processo, iniciado com Paulo “o Santo”, de substituir e mascarar, e de para sempre confundir, alma e espírito.

    Paulo usou psyque, apenas quatro vezes nas Epístolas. Psyque aparece em todo o Novo testamento apenas cinqüenta e sete vezes, comparando-se com as duzentas e setenta e quatro ocorrências de pneuma.2 Que derrota! Destas cinqüenta e sete ocorrências da palavra psyque, mais da metade encontra-se nos Evangelhos e nos Atos.

    As Epístolas, a apresentação da doutrina, os ensinamentos da escola exporiam sua teologia e psicologia sem demasiada necessidade da palavra alma. Para Paulo, quatro vezes foi suficiente.

    O mesmo acontece em referencia a sonhos e mitos.3 O verbo sonhar não aparece no Novo Testamento; sonho (onar) aparece em três capítulos de Mateus (1, 2 e 27). Mytos aparece cinco vezes apenas, pejorativamente. Deu-se ênfase, pôr outro lado, a fenômenos espirituais: milagres, poliglotismo, visões, revelações, êxtase, profecia, fé.

    Em virtude de nossa tradição voltar-se sistematicamente contra alma, cada um de nós desconhece as diferenças entre alma e espírito _ confundindo, pôr isso, psicoterapia com disciplinas espirituais, tornando obscuro onde é que elas confluem e onde diferem.

    Esta tradicional negação da alma persiste em nossas atitudes, sejamos cristaõs ou não, pois cada um de nós é inconscientemente atingido pela tradição de nossa cultura, aspecto inconsciente de nossa vida coletiva.

    Desde que Tertuliano declarou ser a alma (anima ) naturalmente cristã, tem havido um cristianismo latente, uma espiritualidade antialma, em nossa alma ocidental. Isto levou pôr fim a uma desorientação psicológica e fomos obrigados a nos voltar para o Oriente.

    No Oriente, nós colocamos, deslocamos, ou projetamos nossa desorientação ocidental. Minha tarefa nesta conferência é reabilitar a alma. Parte desta missão , pôr ser de justiça ritualmente’ consiste em assinalar o papel de C. G. Jung em soltar à força os dedos mortos daqueles dignitários na velha Turquia, restaurando a alma como experiência fundamental e como campo de trabalho, e simultaneamente, seu papel em mostrarmos os caminhos _ particularmente através de imagens _ a fim de nos conscientizarmos dessa alma.

    E, devido à minha criação, e à liberdade de acessos que isto me proporcionou, talvez eu não tenha que fazer mesmo tanta força pra me soltar destes dedos mortos a que Hillman se refere;- e não me influencio ou me limito ao estudá-los: outro acesso possível na forma como fui educada, e desta forma, posso permitir q minha alma faça-se e divirta-se como sua magia preferir . Mágicos, somos todos nós: anjos, demônios ou deuses. Seja em desertos, ou em Wall Street. Mal ou bem: we survive.

    – And Religion is not Tradition.
    Tradition belongs to Time; Religion belongs to Eternity. –
    Osho.

    Bjs

  28. adi said

    Fy,

    “Eu, particularmente lamento as psiques condicionadas em ismos, porque devem perder uma boa parte do espetáculo, ao formatar a imaginação capaz desta percepção nas tão elaboradas ilhas dos tais ismos.”

    Tudo é condicionamento, a cultura como um todo é condicionamento seja ela baseada nos “ismos” ou não.
    A “ideologia” de um povo é condicionamento, só está livre de condicionamentos aquele que realiza o Si-mesmo.

    “Mas, como não fui criada dentro de nenhum sistema religioso estruturado por nenhuma fronteira etnológica , e me foi oferecida a oportunidade do conhecimento livre sem mecanismos arcaicos e julgamentos condicionados , minha visão sobre a religiosidade teve sim a oportunidade de se tornar uma atitude particular de consciência; ”

    Sorry Fy, aí é que vc se engana. O “catolicismo” e todos os “ismos” estão tão arraigados nas profundezas da sua psiquê, que se tornou uma enorme sombra que limita e distorce a sua visão ao ponto de vc ler “catolicismo” onde escrevi “cristianismo”, ao ponto de vc interpretar cristianismo como “instituição” quaisquer que seja. Cristo simbólicamente representa o estado de consciência de estar “ligado” a essência, significa o verdadeiro sentido de “religião” que é o “religar-se”, é o verdadeiro sentido de “Alma” que é o terceiro aspecto da trindade, ou aquilo que liga corpo e espírito, aquela terceira coisa que liga e restitui a magia da vida. Cristo
    é o símbolo da Alma humana, da consciência que se une ao lado divino estando na forma. Não tem nada a ver com a instituição religião sejam elas quais forem.

    “O que o Concílio de Constantinopla fez a nossa alma foi só a culminação de um longo processo, iniciado com Paulo “o Santo”, de substituir e mascarar, e de para sempre confundir, alma e espírito.”

    O que ninguém entende Fy, nem mesmo Hillmann entendeu, pois ele pode ter sido um ótimo psicólogo, mas não deve ter vivenciado as angustias da Alma em si-mesmo; é que a Alma se faz a cada contato com o espírito, só pode compreender Alma aquele que vivencia em si-mesmo a experiência mística desse contato; quando falo em espírito me refiro a “Potência do Arquétipo”, sim ao sopro ou pnêuma que insufla de uma nova “força” a consciência que vai a cada contato se transformando, que vai se tornando uma terceira coisa, ou Alma. Paulo “o santo” como queiram menosprezar, foi sim um grande iniciado, humano como todos nós, que começou o caminho com uma consciência limitada, cheia de pré-conceito contra mulheres inclusive, mas que foi se transformando, foi se tornando a própria Alma, ou essência no aqui-agora da matéria.

    O que é difícil de entender é que tudo é “símbolo”, Paulo foi o próprio símbolo da Alma, ou da essência em si-mesmo. Jesus também foi, Buda também foi, todos os iluminados são o símbolo da Alma; Alma representa essa “consciência una” entre matéria e espírito. Alma é essa terceira coisa que está entre a dualidade e que resolve essa questão dos opostos.

    Sendo assim, não há Alma no mundo mesmo, como podemos ver e perceber, porque não é uma questão de dizer:
    -Óh! vamos crer na Alma novamente e restituí-la ao mundo, vamos reescrever a história bíblica, os verdadeiros culpados pela falta de Alma no mundo, vamos colocar mais palavras Alma escritas em todos os livros dos “ismos” que têm por aí, e assim tudo ficará certo.-
    Não é assim que funciona, tem que estar dentro da gente essa “doçura” que encanta o olhar; têm que se fazer Alma no coração pra poder a vida ser mágica.
    Alma não exclui nada, muito menos julga ou condena, pelo contrário, Alma une todas as coisas.

    O dedo só é morto porque lhe falta Alma, os muros só existem dentro da nossa cabeça…

    Mas que isso não seja motivos de desavenças por favor, pois prezo muito, muito mesmo nossa amizade.

    bjs

  29. Fy said

    Adi,

    Claaaaaaaro que não;
    pontos de vista diferentes podem ser enriquecedores, e complementam sempre,

    Mas, aí – entre nossos pontos de vista diferentes – é que se instala uma confusão; – eu sou Hillman total, e, ele tb tem um segmento magnífico a partir desta sua premissa que expus ; ele não para ou se restringe a isto.

    Mas, neste parágrafo:

    Esta tradicional negação da alma persiste em nossas atitudes, sejamos cristaõs ou não, pois cada um de nós é inconscientemente atingido pela tradição de nossa cultura, aspecto inconsciente de nossa vida coletiva.

    Eu enxergo claramente a “sombra” – os memes – e aspectos condicionadores, justamente nestes “ismos” que estão tão arraigados nas profundezas não da minha psique, mas nas dos povos , cada um em seu tempo, “no” seu tempo.

    Jung faz uma observação que eu gosto em relação ao inconsciente:

    – O Inconsciente não é, de forma alguma, um saco vazio no qual o lixo da consciência é coletado… ele é toda a outra metade da Psique Viva.
    – Jung – e, desta forma: percebe-se Movimento.

    E adoro estas suas afirmações, em seus últimos anos, após sua brilhante atuação e experiência , em relação ao destino:

    – “ Eu poderia formulá-lo [ o destino ] como uma afirmação das coisas tal qual elas são: um Sim Incondicional ao que É, – sem objeções “subjetivas” numa aceitação das condições da existência como as vejo e compreendo; aceitação do meu ser como ele é, simplesmente…..

    Porque assim, há: – um Eu – que não recua quando surge o incompreensível;

    Um Eu – que resiste, que suporta a verdade e que está a altura do mundo e do destino.

    Jung – 1961

    Logo em seguida:

    “- Eu só posso esperar e desejar que ninguém se torne “junguiano”. Eu não defendo uma doutrina, mas descrevo fatos e chamo a atenção para certas opiniões que considero dignas de discussão. Eu deixo qualquer pessoa livre para lidar com os fatos a seu próprio modo, uma vez que eu também reclamo esta liberdade para mim. Jung – 1973”

    – sabe Adi, boa parte de minha admiração, sincera por esta pensador, é esta visão.

    Eu não considero que esta postura do Jung – e que pra mim, é uma recomendação bastante saudável – tenha deformado algum conceito que ele tenha formulado; distorcido sua visão ou influenciado suas conclusões,
    Por isto não concordo qdo vc diz:

    – Sorry Fy, aí é que vc se engana. O “catolicismo” e todos os “ismos” estão tão arraigados nas profundezas da sua psiquê, que se tornou uma enorme sombra que limita e distorce a sua visão ao ponto de vc ler “catolicismo” onde escrevi “cristianismo”, –

    Não é sombra, não Adi, é uma forma de analisar os ismos. Hillman tb faz esta ligação entre Catolicismo – suas derivações e cristianismo, etc – Islamismo, judaísmo: são ismos pra mim tb.

    São interessantes, inspiradores mts vzs, horríveis e terríveis em outras,– como em todas as mitologias, e, desde o sempre, transformamos o que existe no que quizermos, ou no que formos capazes: distorções ou limites ou inspirações.. É a nossa historia.

    Mas só reconhecendo este fator e me isentando de pré-conceitos é que acredito em algum tipo de equilíbrio entre processos conscientes e inconscientes – em algum tipo de intercâmbio dinâmico e livre e alguma interação . Aí é que poderemos falar em Magia.
    E, claro, cada um a seu próprio modo, com sua própria e eterna elaboração de Verdades, com sua própria magia, sem doutrinas limitadoras, conceitos prontos, como tão bem reivindicou Jung e Hillman.

    – Siga aquela vontade e aquele caminho que a experiência atesta ser o “seu” próprio, isto é, a verdadeira expressão de sua individualidade. – Jung 1966

    Parece até o Castañeda nas inúmeras e incríveis sacadas do Don Juan.

    Não existe uma única verdade. Se existisse, com certeza seria uma perigosa sombra. A pretensão a ela já é uma ameaça monstruosa: todas as infames guerras religiosas [ ou supostamente ] e seus horrores – entre outros absurdos – o atestam.

    Bjs

  30. Sem said

    Meninas, que viagem, da dupla puer-senex saltamos agora para eros-psique e olha que no fundo, bem lá no fundo, é tudo é uma coisa só: Ser.

    Fy, vc citou o Hillman, mas sabe o que simboliza o deserto dentro da linguagem psicológica ou metafórica do inconsciente? Justamente a experiência do espírito em busca da alma. O espírito vai até o deserto para encontrar-se com a alma, “o tal solo que é tudo”. A alma sempre se encontra no chão… Quando se quer conversar com o “Pai”, vai-se à montanha…

    Não Adi, Hillman não tem esse ponto de vista de renegar o espírito não. O que ele estava criticando ali no início do seu texto “Picos e Vales” era a misoginia da qual foram constituídas as religiões dentro de toda cultura patriarcal. Não que venha ao caso, mas o Hillman mesmo, até onde sei, é cristão. O que ele está criticando ali é essa supressão do feminino, que do ponto de vista psicológico impede uma coniunctio equilibrada (falo a esse respeito no post Eros e Psiqué); essa negação do feminino a qual Dionísio tem por função resgatar, e está ainda melhor detalhada no seu ensaio “Sobre a feminilidade psicológica”, 3ª parte do seu livro “O Mito da Análise”. A função dionisíaca é muito essa, de devolver o valor do feminino numa cultura unilateralmente apolínea. Mas a psicologia e a religião não precisam se excluir, nunca ele disse isso e justo ao contrário é o que diz no seu “Uma busca interior em psicologia e religião”.
    Psicologia e religião são aspectos integrados à própria estrutura humana, ou como Jung dizia eram ambas manifestações da psique. E para James Hillman, enfim, o espírito é o verdadeiro par da alma, sem o qual inclusive ela morreria… Que seria de Psiqué sem Eros?

    RIO ZAYANDE, O QUE DÁ VIDA

    Há no Irã um rio
    que descendo das montanhas
    não tem desejo algum
    de lançar-se no mar.

    Prefere ir ir ir
    a lugar nenhum
    se é que assim se pode
    definir seu passar.

    É que ao passar
    faz do passar
    seu passageiro
    chegar.

    É como um trem que passa
    mas em cada estação que chega
    chega para ficar.

    Assim ele passa
    e está sempre lá.
    Assim transitivo
    ele é
    – e ele está.

    Amantes
    famílias
    crianças
    flores
    podem testemunhar
    que esse rio passante
    ficou em suas vidas
    sem pretender ficar.

    Ele sabe
    de onde veio
    e aonde vai chegar.

    Desceu das neves
    mas o deserto
    é seu mar
    esperam-no
    ondas de areia
    cardumes de pedras
    frutos de terra dentro
    do agreste mar.

    E para que o encontro
    com seu destino
    seja exemplar
    esse rio
    como um santo
    vem se adaptando
    à circunstante aspereza
    vem se despindo
    das ânsias
    de outros rios
    que devaneiam com o mar
    vem abrindo mão de tudo
    para no fogo do deserto
    se purificar.

    Quando estranham seu trajeto
    e lhe contam
    das maravilhas do mar
    com seus peixes considera:
    -Não sabem que o deserto
    é meu complementar
    não quero ser apenas
    um rio a mais
    se diluindo no mar
    essa é forma banal
    de um rio se gloriar.
    O mar, eu sei
    me aceitaria
    mas minha sina
    em meu nome inscrita
    é essa:
    ir vivendo em minhas margens
    e o deserto
    fecundar.

    Affonso Romano Sant’Anna

    ………………….

    «O mistério/ dos rios/ é que eles passam/ por dentro/ de nós/ e só depois/ deságuam no mar.» (Francisco Carvalho)

    “Mas em alguns de vós esse desejo é uma corrente que se dirige para o mar,
    levando os segredos das encostas e as canções da floresta.
    E noutros é um ribeiro sereno que se perde nos ângulos e nas curvas antes de
    chegar à costa.” (Khalil Gibran)

  31. Fy said

    “Mas em alguns de vós esse desejo é uma corrente que se dirige para o mar,
    levando os segredos das encostas e as canções da floresta.
    E noutros é um ribeiro sereno que se perde nos ângulos e nas curvas antes de
    chegar à costa.” (Khalil Gibran)

    Que lindo, Sem.

    e o mais bonito é que tanto um quanto o outro sejam plenos em seus desígnios e em sua busca.
    Bjs

    – em relação aos desertos; não consegui ainda entender de que forma vc interpretou minhas observações; mas reescrevo as primeiras linhas do meu primeiro comentário:

    Cruzar desertos , tempestades, montanhas, corredeiras…. noites e dias assustadores….

    – Ah; eles existem, acontecem, nas mais variadas formas; sim;
    Existem desde… que estamos aqui, neste lugar tão lindo:

    Bjs

  32. adi said

    Sabe Fy ,

    Independente de “ismos” e eu havia entendido que eram referentes a todas as instituições e “ismos” de todos os povos, e também nem é porque já participei da instituição “igreja”, e não é uma crítica a elas, nem elogios, muito menos defesa.

    Nem uma crítica a mentalidade de uma humanidade condicionada, não importa de qual forma, porque condicionados todos somos, e porque não é a “crítica” ou ser “contra” isso ou aquilo que nos libertará dos condicionamentos.

    Portanto, o que algumas vezes me chateia é a “parcialidade” com que as coisas são colocadas, é a leitura ao pé-da-letra de termos metafóricos independente de quais “ismos” pertençam, matando o real significado do símbolo.

    “E, claro, cada um a seu próprio modo, com sua própria e eterna elaboração de Verdades, com sua própria magia, sem doutrinas limitadoras, conceitos prontos, como tão bem reivindicou Jung e Hillman.”

    Vou escrever como entendo esse processo:
    O Arquétipo quando se manifesta preenche o símbolo de vida, vivifica o ser, renova o antigo e velho. Portanto quando Jesus realizou o Si-mesmo, trouxe novas verdades, foi como um sopro de esperança, muito provavelmente suas palavras continham poder, seus ensinamentos pura magia de transformação e renovação. Bom Ele se foi, mas ainda por algum tempo o seu símbolo continuou vivo na psiquê coletiva, continuou atuando na transformação psíquica do coletivo, mas com o passar do tempo essa força se esvazia do símbolo, e o mesmo se torna como casca e se presta ao sistema, ou seja, vazio de força o símbolo se torna encadeamento, ou limitação.

    Meu ponto, ao qual acho que foi mal compreendido, ou distorcido, é que; o que nos parece “prisão”, o que nos parece limitações; somente nos parece assim porque lhes falta a “essência” Arquetípica que um dia lhe coube. Ver com Alma é ver o “âmago” das coisas nelas mesmas. É preencher novamente o símbolo com a força da magia da vida.

    Até mesmo nos “ismos” da vida, até mesmo num ser vil e cruel há essência, há vida, há propósito e destino.
    O que eu quis dizer com os “arcontes” se transformarem em “eons”, é porque quando dentro de nosso ser restituímos a “força” ou “poder” do arquétipo, todo o mundo se transforma, a nossa visão se altera, a nossa compreensão muda, e a vida se torna mágica, todas as coisas se tornam divinas, porque se vê e sente a “essência” das coisas.
    Essa é a renovação do Arquétipo que se faz em nós, mesmo quando estamos dentro de alguma doutrina, mesmo seguindo caminhos trilhados por outros.

    Eu não estou falando isso porque sigo algo pré estabelecido, sigo meu caminho, sigo aquela voz interior, o meu alento e entusiasmo e também meu ardor, mas não descarto nenhuma possibilidade de ajuda daqueles que já trilharam o caminho, portanto me utilizo sim do Budismo, do Cristianismo, Psicologia, Hinduísmo, e outros “ismos” desde que me sejam úteis na minha jornada. Mas não sou contra nenhuma religião ou dogma, filosofias institucionalizadas… quer saber, nesse momento não sou contra nem mesmo ao sistema… sistema? qual sistema mesmo??? 🙂 🙂 🙂 🙂

    Jung: “os conteúdos da experiência foram “sacralizados” e, via de regra, enrijeceram dentro de uma construção [ construções] mental [ mentais ] inflexível [ inflexíveis ] e, frenquentemente, complexa [ complexas ].”

    Exatamente, e é assim porque foi esvaziado de essência arquetípica; ou força divina ou espiritual na linguagem dos “ismos”.

    Ai Fy, nem mesmo sei porque estou te respondendo, não que vc não mereça resposta, minha querida amiga, mas porque são somente palavras de um pequeno ponto de vista nesta imensidão oceânica de um mar de possibilidades.

    bjs

  33. adi said

    Sem : “Mas a psicologia e a religião não precisam se excluir, nunca ele disse isso e justo ao contrário é o que diz no seu “Uma busca interior em psicologia e religião”.

    Hillman: “Em virtude de nossa tradição voltar-se sistematicamente contra alma, cada um de nós desconhece as diferenças entre alma e espírito _ confundindo, pôr isso, psicoterapia com disciplinas espirituais, tornando obscuro onde é que elas confluem e onde diferem.”

    adi: Então tá, interpretei mal. A bem da verdade, conheço muito pouco sobre Hillman, somente o que li nos artigos da Rubedo pra fazer o post sobre Alma, e talvez nessa rápida leitura sobre o que foi colocado hoje, tenha entendido de maneira errada.

    bjs

  34. Fy said

    Sem,

    Talvez nossa interpretação de Hillman também esteja sofrendo a influência de nossas identificações ou inclinações religiosas.

    Eu, insistindo na minha independência de ismos, tenho uma visão bem parecida com a desta historiadora [ das religiões ], excelente crítica e escritora sobre a obra de Hillman. – Claro que ela pode estar enganada, mas é o ponto de vista que mais se familiarizou com minha forma de entender a proposta do Hillman, até aqui.

    Separei alguns parágrafos em que ela focaliza o ponto de vista religioso, cristão; por ser o ponto por nós discutido, – mas o artigo é francamente rico em relação ao vale – deserto, etc e à cura através de sua ideologia. Talvez vc já tenha lido; mas de qq forma, fica a sugestão.

    – Primeiro uma prévia, pra que não haja confusão entre a minha forma de entender e qualquer ponto de vista religioso:

    V. Quatro diferenças

    Deixo agora a perspectiva entusiástica do puer para voltar de novo à alma. Desejo sugerir três qualidades fundamentais para a elaboração da alma, em contraste com as disciplinas do espírito. As três são:

    1) Interesse pela Patologia – uma solicitude pela psicologia de nossas vidas, ou seja, uma atenta curiosidade pelo logos do pathos psíquico. Conservando um ouvido sintonizado para as patologias da alma, mantendo um estrito elo entre a alma e a mortalidade, a limitação e a morte.

    2) Anima – uma lealdade à nebulosa disposição do humor em suas fontes aquáticas, às voltas e reviravoltas das figura femininas interiores que personificam o caminho labiríntico da vida psíquica, aquelas ninfas, bruxas negras, cinderelas perdidas, perséfones destrutivas e fantasias passageiras, ilusórias, que a anima cria, as imagens da lama na alma.

    3) Politeísmo – sincero compromisso com a discórdia e a cacofonia, com a variedade (e não com a uniformização), com a fragmentação, a multiplicidade de dez mil coisas, com as periferias e suas tangentes (preferíveis aos centros) , com o episódico, ocasional, o movimento vagabundo da alma (como esta conferência) e sua compulsão a repetir-se nos vales dos eros, e a necessidade de ser errático e errado para descobrir os muitos caminhos dos muitos deuses.

    ——————————————-

    Todavia, deve ser enfatizado que Hillman parte de uma perspectiva fundamentalmente laica e anti-cristã.

    Antes de mais nada, se a depressão, como se dizia anteriormente, em vez de ser um afeto a se curar, é vista como a normal condição humana e o ponto de partida da tomada de consciência curadora, como um estado já em si quase divino, a primeira etapa necessária para o restabelecimento psíquico é a consciência da falência de cada vida, além de qualquer convenção social ou convicção moralista, especificamente protestante ou genericamente cristã, pelo que diz respeito à obrigatória bondade e construtividade da vida humana.

    Com este propósito, a polêmica de Hillman contra o cristianismo, contra o seu antropocentrismo destrutivo da natureza, contra o seu otimismo que projeta a salus – saúde ou salvação – no além, está mais que decidida e está acesa e sulfúrea nesta entrevista até o paradoxo.

    Na visão “religiosa” de Hillman qualquer idéia de transcendência é banida, e os deuses não são tomados – como nada deve ser tomado – no sentido literal, como “credo”, mas resultam “modalidade de experiência, pessoas numinosas ao limite, perspectivas cósmicas das quais a alma participa”.

    Em Hillman a crítica da religião é ainda mais radical do que em Freud e em Jung. Não só cada credo é uma ameaça, um perigo, enfatiza Hillman nesta sua entrevista, mas, como escreveu:

    “não estamos ressuscitando uma fé morta, porque a nós não interessa a fé”.

    Deve-se sempre ter presente que no sistema de Hillman, tão aparentemente fervilhante de deuses, a religião é compreendida como fenômeno que nasce e morre na psique humana e também na mais vasta das acepções difere do: imanentismo ou do panteísmo indiferenciado mesoafricano ou do extremo oriente, por exemplo o politeísmo xintoísta ou o vitalismo sacro das religiões xamânicas.

    A politeia grega é um mundo onde a palavra religião não existe e o único termo que de algum modo designa o âmbito é eusebeia, noção que é entendida como atitude ou modo de vida intrinsecamente respeitoso de cada forma distinta do vivente.

    Como Hillman esclarece no texto, o que serve recuperar, de uma tal religiosidade, é a “psique diferenciada”, a capacidade tipicamente ocidental de distinguir res de res, coisa de coisa no interior do vivente e do real, também através e em função de uma alma polimorfa.

    Neste sentido os deuses de Hillman são compreendidos como “inteligibilidade formal do mundo fenomenal, que consente a cada coisa de ser distinta pela própria inteligibilidade intrínseca e pelo próprio lugar específico de pertença”.

    Os deuses são “lugares”, e os mitos criam um lugar para os acontecimentos psíquicos que de outro modo seriam vistos como patológicos.

    Oferecendo “asilo e altar”, tudo se pode ordenar e todos os fenômenos vêm salvos dando a eles uma colocação.

    Escreve Hillman:

    – “Caso se saiba o lugar de pertença de um acontecimento e a qual deus ele pode se referir, se está em condições de prosseguir”.

    Como declara na entrevista:

    – “Se sei a qual mito pertenço, compreendo a necessidade da minha perturbação e a minha luta cessa, funde-se em visão e escuta”.

    A capacidade de viver a própria vida na companhia de fantasmas, de demônios familiares, de antepassados, de espíritos guias é objetivo de uma terapia arquetípica, e é este, se quisermos, o lado terapêutico que faz de Hillman o filósofo mais amado das ampliações mais conscientes do movimento New Age.

    Por assim dizer, o conceito hillmaniano de saúde psíquica democratiza e sugere universalmente desfrutável forma de terapia ou catarse da neurose na arte que no século dezenove, no qual a psicologia analítica tem raízes, era reservada a uma elite.

    O único tratamento do mal absoluto arranjado à psique pela vida no mundo é estético e poético. Por assim dizer, a proposta terapêutica de Hillman ao largo público do fim do século vinte é alargar indefinidamente o perfil psicológico do artista romântico, com as suas aflições e os seus privilégios, a sua sensibilidade e associalidade, a sua melancolia e anarquia, a sua compaixão e irônica lucidez.

    “A ironia, o humorismo e a compaixão serão os seus sinais… A personalidade “sã” não será imaginada sobre o modelo de um homem natural, ou político-social, ou racional-burguês, mas sobre o modelo do homem artístico, para o qual imaginar é um estilo de vida e cuja moralidade é dedicação à modelação da alma, sensibilidade às continuidades tradicionais, importância do “viver ao limite”, sensibilidade estética.”

    É um perfil por sua vez derivado do Renascimento esotérico, dos Neoplatônicos e da Antiga Moral Pagã.

    Silvia Ronchey

    É autora de dois livros de entrevistas com James Hillman em italiano: ” L`Anima del Mondo” e ” Il piacere di pensare”, ambos da editora Rizzoli

    http://www.rubedo.psc.br/artigosb/paixaohm.htm

    Bjs

  35. Fy said

    Adi,

    Meu ponto, ao qual acho que foi mal compreendido, ou distorcido, é que; o que nos parece “prisão”, o que nos parece limitações; somente nos parece assim porque lhes falta a “essência” Arquetípica que um dia lhe coube. Ver com Alma é ver o “âmago” das coisas nelas mesmas. É preencher novamente o símbolo com a força da magia da vida.

    – Vc sabe que neste parágrafo – ainda estou lendo os outros – penso exatamente como vc.

    “Exatamente, e é assim porque foi esvaziado de essência arquetípica; ou força divina ou espiritual na linguagem dos “ismos”.”

    – Oh Adi: e é só isto o que eu afirmei: a mesma coisa que vc acabou de dizer. E, é esta a minha prevenção contra ismos.

    – depois falo mais,

    Bjs

  36. Fy said

    Adi,

    Eu acho que toda esta nossa conversa, derivou um pouco o sentido qdo passamos a integrar o fator religião às nossas argumentações. Eu acho que minha colocação deste fator, não foi igual a sua; então me explico:

    A mim, não interessa a religião do Hillman ou a de Jung e [ nem a de Einstein ou a de Jesus, etc ]. Creio eu que, em seus estudos ou elaboração de teses ou elaboração de tratamentos, o fator religião existiu como um fator psicológico pertinente ao ser humano e não no sentido de validar alguma expressão de fé – ou mesmo da fé ou credo – que, por ventura algum dos dois possa ter tido ou seguido.
    E creio que seja lá qual for a expressão religiosa de cada um, o conteúdo de seus trabalhos é que deve ser levado em consideração.

    Tentar analisar a vida – o intelecto – os valores ou a opinião de cada um através de um determinado ponto de vista religioso, ou das peculiaridades específicas de um determinado credo, é bastante limitativo , pra não dizer preconceituoso. E não é minha intenção. Talvez eu não me encaixe em algum tipo de credo específico; e, minha linguagem tenha sido mal interpretada. Isto porque não me preocupei em respeitar crenças; não entendi ser este o fator abordado em nosso papo.

    Quando me utilizo de expressões como numinoso, iluminação, espirito, alma, etc – não estou me referindo a nenhuma mitologia ou a algum segmento religioso específico.
    E sim a uma postura ou realização ou proposta pessoal, humana, não me importando o ideal relacionado a algum fator religioso ou via particular de cada um como finalidade. Qq observação ou crítica , inclusive, tem um valor e uma perspectiva humana e não pessoal. Nem poderia, uma vez colocada minha posição em relação à religiosidade.

    Em relação aos desertos ou vales do Hillman, ou ao casamento do Puer e da alma, o apelo à dramaturgia – fantástico – que ele elabora como proposta de cura psíquica, me afeta simplesmente pela genialidade; – não por qq tipo de valores tradicionais cristãos ou budistas.

    Em relação à interpretação da Oriah; que nada mais é que um apelo à potencialidade do ser humano, minha intenção foi passar alguma coisa em que acredito, e não acredito que tenha algum tipo de conotação inválida.

    Vou deixar pra vc, uma previazinha deleuziana que mto tem a ver com minha forma de pensar. Porque acho isto importante, pela mesma razão que vc me respondeu.

    É apenas uma tentativa de me fazer compreender; e esclarecer que não houve nenhuma intenção particular em afetar a crença específica de cada uma de nós. Apenas uma exposição generalizada e formas de abordagem sem esta preocupação. Talvez, minha indelicadeza tenha sido pensar q isto fosse possível.

    Mas, por favor entenda que minha intenção passou longe de uma discussão religiosa ou específica.

    Bjs

  37. Fy said

    É uma entrevista realizada com Orlandi sobre a filosofia Deleuzeana:

    [ e minha alma se identifica mto com Deleuze]

    – Deleuze afirma que “não há obra que não indique uma saída para a vida, que não trace um caminho entre as pedras”. Como podemos interpretar essa afirmação? Esta não seria uma atitude de correção da vida?

    Deleuze diz isso recorrendo não simplesmente à relação entre as obras e certas engrenagens da vida empírica, mas é que as obras têm um poder de criar na própria vida empírica os entretempos que elevam esta vida empírica a dimensões nem mesmo sonhadas.

    – Como Deleuze distingue vontade de poder e vontade de potência?

    Isso é muito importante, porque a vontade de potência implica uma forma superior de entrega a obra que se está fazendo e ela indaga a respeito daquilo que efetivamente está querendo em nós, ou seja, quando eu digo: eu quero tal coisa, ou tenho isso ainda é um projeto da consciência ao passo que, a vontade de potência diz respeito a algo que em mim está querendo e desse algo eu não tenho plena consciência. É algo que remete a forças que eu não estou controlando. Ora, a vontade de poder está nesse nível de uma consciência que põe sua vontade psicológica subjetiva acima de outras coisas, ou então tem consciência de uma correlação de forças e quer impor-se nessa correlação de forças sem, uma intenção, sem algo intenso nela que leve a constituir um estado superior a minha vontade psicológica.

    – O que existe no pensamento de Deleuze que atrai tantas atenções no mundo contemporâneo?

    Existem dois níveis a serem considerados. Existem aqueles que transformam o pensamento filosófico em ‘megas-opiniões’, em jogos variados, de interesses até mesquinhos, individualistas e narcisistas; e existem aqueles que fazem da obra de um filósofo, no caso de Deleuze, um árduo trabalho de atenção conceitual. E por outro lado, existe uma coisa importante que é o contato da não-filosofia com o pensamento filosófico, que é um contato estranho e extremamente importante. Como nós mesmos encontramos na música, por exemplo, uma atração intensa e não somos músicos, esse tipo de atração é importante para a vida de cada um, assim como a atração que muitos têm por um pensamento novo. Embora não haja em mim, por exemplo, um domínio da música e, todavia, sou tomado por ela e isso produz em minha vida entretempos importantes, assim também há todo um interesse por Deleuze que não é um fingimento intelectual, mas mesmo vital, já que se encontra ali um pensamento autenticamente voltado para uma dramaturgia conceitual não estranha às dramaturgias vividas.

    – Como Deleuze pensa o mundo a partir da lógica da mudança, do devir?

    Em Deleuze é difícil encontrar uma visão do mundo. O mundo é um cruzamento, é um ovo. Ora, no mundo você tem as estruturas duras, você sistemas fortes, um capital financeiro dominante… Mas há pulsações, há uma variabilidade permanente. É essa complexidade que impede que você impinja a ela uma visão de mundo que seja ou catastrófica ou conservadora, seja lá o que for. Deleuze tem o mundo como uma indagação permanente a ser levada a cabo a cada encontro. É preciso, apesar de tudo, ter fé para que isso seja possível. Essa crença Deleuziana é um dos tópicos mais difíceis de se desvendar, pois não é uma crença simplesmente caudatária das crenças religiosas, é uma crença que leva você a perguntar pelas próprias razões e ainda ser possível acreditar no mundo, tendo sempre a mesma consciência que ele tinha quando desenvolveu as análises a respeito da obra de Akira Kurosawa – o mundo é uma problemática que vale a pena ser cuidada.

    – Como Deleuze une os afetos e a razão em sua filosofia?

    Vamos puxar o termo razão para a idéia de pensar. Ora, os afetos é que nos obrigam a pensar. Essa é a grande contribuição de Deleuze para a filosofia: o sujeito já não é tido como origem voluntária do ato de pensar. Pensar é algo que se impõe ao pensador, ele é um pensador paciente daquilo que força o a criar. Por isso existe a idéia de um recomeço permanente em busca da inovação e que você precisa retomar este ato criativo, mas sempre sabendo, sempre tendo a experiência, de que é como se fosse o chicote inicial da problemática que te toma.

    – Durante a palestra, você cita a frase: “não podemos deixar a palavra criação ser um monopólio de Deus”. Qual era o pensamento Deleuziano sobre o teísmo?

    Ele captura, prolonga e ‘vivifica’ uma filosofia da imanência absoluta, então não há porque recorrer a um Deus transcendente em Deleuze. A palavra criação fica nesse jogo difícil, pois ela foi ligada a uma iniciativa de vida. Ora, essa potencialidade criativa já existe, cabe a gente fazer o esforço de recomeçar o novo, sabendo que esse novo não é um monopólio do sujeito.

    – Qual é a singularidade da ética em Deleuze?

    Isso é uma coisa importante. Vamos voltar um pouco e pensar que a ética, em última instância, pelo menos do ponto de vista de uma das dimensões constitutivas do individuo, é um cuidado permanente com sua essência singular. Eu preciso fazer um esforço permanente para que os encontros elevem a minha potência de viver ao ponto que eu possa transformar as paixões, porque eu vivo no mundo das paixões, dos encontros casuais, e pelo menos criar as condições para que eu viva paixões alegres, porque elas me dão um sinal de que minha singularidade, minha essência singular, ou, vamos dizer, meu grau de potência se engrene com o aumento do meu poder de ser afetado. Quanto mais alegres forem esses encontros, mais eu tenho oportunidade de acionar uma paixão no sentido de uma atividade. Então, eu recupero aquilo que é importante, que é a potência de agir e não apenas de ser paciente. Essa potência de agir se espalha como potência de pensar, como potência de sentir e de me engrenar com virtualizações que me levem a compor, nesses encontros, um terceiro indivíduo que seja mais potente que eu mesmo.

    Bjs

  38. Sem said

    Fy e Adi,

    Fy, eu concordo bastante com a sua concepção de psicologia.

    Adi, eu concordo bastante com a sua concepção de religião.

    Mas sabem o que pode fazer com que nos desentendamos, apesar de termos tantos pontos em comum e estarmos aqui falando das mesmas coisas? são as opiniões formadas. Quando a gente já chega para o debate com certezas prévias, seja lá por qual motivo ou razão for… É duro isso, pois as “verdades” de cada um são conquistadas sempre a duras penas, pela experiência, e é enfim a própria história da vida de cada um. É muito humano nos identificarmos com as opiniões que temos, a ponto de acharmos que somos o que pensamos e o mundo estaria melhor se concordasse conosco. Mas nós somos sempre mais do que aquilo que formulamos e o mundo é sempre maior do que a nossa pequena história de vida pessoal. Nossa maior parte, inclusive, está além daquilo que temos consciência nesse momento… Por outro lado, é claro que não estou defendendo nos descaracterizarmos quando entrando em qualquer debate rico de controvérsias. Estou apenas propondo uma maior maleabilidade, uma espécie de exercício de esquecimento de tudo aquilo que achamos somos, do que achamos que somos constituídos, para abrir a possibilidade de sermos sensibilizados pela experiência do Outro. Sim, outro em maiúsculo, como o absoluto da alteridade. Até a psicanálise, que é a vertente materialista da psicologia profunda, concorda que a chave do autoconhecimento está no outro… O outro que não é o nosso inferno existencial, nem astral, mas simplesmente a porta para o desconhecido em nós mesmos… Vamos então ser mais maleáveis com a experiência do outro, mas, não de uma maleabilidade pró-forma, cortesia civilizada, mas, sinceramente, de dentro para fora. Especificando ainda mais o que quero dizer com essa maleabilidade desejável, para quem conhece e consulta o I Ching, é aquela advertência que eu já vi várias vezes, de bons augúrios para quem é destituído de intenções e desgraça para quem chega cheio delas – e eu interpreto essa advertência como chegar numa situação nova esvaziado de opiniões e de objetivos prévios. Isso eu sei que é bom e meio que sei que vcs sabem tb, que não estou aqui falando nenhuma novidade, mas temos de aproveitar a empatia que temos para praticar. Acho muito desejável essa prática. E é sempre mais fácil entre amigos e nas relações virtuais, que em geral são mais descompromissadas, pela própria natureza livre de maiores obrigações que esse meio nos proporciona.

    Bom, pra nós, e aproveitando que nesse tópico lembramos algumas parábolas budistas, tem um conto Zen, que com certeza vcs já conhecem tb, e, claro, como todo conto Zen é curtinho e fulminante, é aquele dos amigos que vão tomar chá, mas que precisam ter suas xícaras esvaziadas para aproveitarem do encontro…
    Segue o link com o conto, só que aqui é o filósofo que vai tomar chá com o monge.
    O blog é de filosofia e é muito bom, recomendo:

    http://projetophronesis.wordpress.com/2009/05/09/a-xicara-de-cha/

  39. Sem said

    Adi,

    Antes de qualquer coisa quero que saiba que estou aqui na torcida para que desencante o seu novo post, fiquei especialmente curiosa com o que vai dizer a respeito de Luz Astral; sei praticamente zero desse assunto e aguardarei ansiosa.

    Alguns insights que tive lendo vcs:

    Função transcendente, Adi. É ela que trabalha e conjuga os opostos. Mas para ela ser constelada, é preciso respeito, amplo respeito; e acho mesmo que não existe melhor palavra do que essa; respeito não apenas de um indivíduo para com sua galeria de personagens, fantasias, possibilidades, respeito tb para com todas as pessoas do seu convívio e afora, pois uma coisa é o espelho da outra. Em última instância, essa atitude respeitosa para com tudo e com todos, vai envolver o cosmos inteiro numa espécie de devoção religiosa – se não é o respeito que “fabrica” o cosmos em contraposição ao caos – e sendo essa instância lugar seria identificado como o Universo, sendo ente seria a personificação de Deus.

    E ainda da função transcendente, sabe essa coisa que eu e vc convencionamos indicar o meio como o espaço da alma, ali onde ela faz liga de opostos arquetípicos verticais, gerando imagens, sentidos, amor? isso só vale quando a função transcendente foi constelada, pois do contrário a alma é rejeitada , ou expulsa mesmo desse meio como algo no mínimo indigno de estar ali. O mais correto nesses casos é dizer que a alma habita o mais profundo dos vales, o mais baixo do embaixo, e de que lá ela está sozinha, sem existir… vc sabe, existem mesmo pessoas, que não é que não tenham alma, mas na prática vivem sem alma… e tb não é que seja da alçada da função transcendente ir ao Hades resgatar a alma de sua noite escura, pois a função transcendente é um conceito e somente arquétipos têm tal poder, mas é a função transcendente que possibilita que os arquétipos “certos” sejam acionados, pois é ela que valoriza a psique e imbui o ego de eros e de respeito pela alma…. sim, o ego é fundamental nesse processo todo, embora não seja um ego qualquer, mas um ego amasiado ao cosmo o grande maestro de tudo, que propriamente nem é mais ego, mas ego-self.

    Mas eu não quero falar de conceitos… função transcendente é um conceito formulado pelo Jung e válido apenas enquanto uma abstração para quem pensa em fazer da psicologia uma ciência, isto é, forjar uma linguagem comum que seja útil e que ajude as pessoas. Super nobre, é claro, e necessário, e a psicologia é mesmo uma ciência, mas estou querendo falar de outra coisa agora, da coisa real e não da coisa teórica… Ou, como disse o Hillman em “O Mito da Análise”, onde ele faz um balanço de como tem sido a atuação da psicologia e dos seus métodos: o inconsciente para a psicologia é sempre um conceito, embora seja mesmo fonte de metáforas… Quero então falar da coisa Real, se possível… O que é o inconsciente Real? é tudo o que desconhecemos, apenas isto. E, evidentemente, temos de admitir, diante da grandiosidade dos eventos universais, desconhecemos quase tudo, sabemos menos do que a metade da metade do pó do pó. Outro fato concreto, nossa natureza não nos permite entrar em contato direto como o Desconhecido – esse inconsciente real – pois seríamos aniquilados por ele tal qual um balões que estouram por receberem mais ar do que suportam. Está em Gênesis, a mulher de Ló foi transformada em estátua de sal ao olhar para trás quando da destruição de Sodoma e Gomorra. E na mitologia grega, a mortal Sêmele, quando grávida de Dionísio, de uma das aventuras de Júpiter, pediu ao amante para vê-lo sem disfarces; Júpiter sabia com pesar o que significaria realizar tal desejo, mas, como tinha prometido, foi obrigado a cumprir; e Sêmele morreu em chamas, fulminada por não conseguir suportar a visão gloriosa do deus; para salvar Dionísio Júpiter retirou-o do fogo e o pôs dentro de suas coxas, para completar a gestação. Os paralelos que podemos traçar entre Sêmele/Júpiter/Dionísio e Maria/Jeová/Jesus são evidentes e desconcertantes… Por isso só podemos nos aproximar por metáforas do inconsciente real, por isso devemos invocar a linguagem poética se queremos esse contato pelo lado benigno, por isso a mitologia e as representações arquetípicas, o teatro, a arte, por isso as parábolas religiosas – são modos de nos relacionarmos com o inconsciente real e falarmos das verdades do além sem nos desintegrarmos.

    “Temos a arte para que a verdade não nos destrua” Nietzsche, em Além do Bem e do Mal; e o Riobaldo em Grande Sertão Veredas, “tudo é real porque tudo é inventado”. Sabedoria pura, saber que tudo é inventado do real, sem literalizar… Mas, como o homem é esse ser contraditório que só ele, e um pouco de loucura e muito de mistério sejam sempre necessários, porque o homem precisa constantemente ampliar seus horizontes, paira sempre no ar aquela esperança do Paulo de Tarso em Coríntios “agora vemos por espelhos, em enigmas, mas então veremos face a face”. Um dia, quem sabe…

  40. adi said

    Sem,

    “Quando a gente já chega para o debate com certezas prévias, seja lá por qual motivo ou razão for… É duro isso, pois as “verdades” de cada um são conquistadas sempre…. — (….) Acho muito desejável essa prática. E é sempre mais fácil entre amigos e nas relações virtuais, que em geral são mais descompromissadas, pela própria natureza livre de maiores obrigações que esse meio nos proporciona.”

    Eu concordo com cada palavra de tudo que vc escreveu lá acima.

    Fy,

    Também concordo com tudo que vc escreveu, é bem por aí mesmo, é desse jeito também, com certeza também é desse jeito.

    Minhas queridas, vocês sabem que são nota 1000 né? se não sabem ainda, podem crer.

    bjs

  41. adi said

    Oi Sem,

    “respeito não apenas de um indivíduo para com sua galeria de personagens, fantasias, possibilidades, respeito tb para com todas as pessoas do seu convívio e afora, pois uma coisa é o espelho da outra.”

    Exatamente. Respeito consigo mesmo, no sentido de se “permitir” ser quem realmente “é”, respeito é aceitação. Respeito com o jeito “diferente” de ser do outro, isso também é aceitação. É aquela coisa da inclusão, da não separatividade, muito menos rejeição.

    “O mais correto nesses casos é dizer que a alma habita o mais profundo dos vales, o mais baixo do embaixo, e de que lá ela está sozinha, sem existir… vc sabe, existem mesmo pessoas, que não é que não tenham alma, mas na prática vivem sem alma”

    Eu comparo isso com o mito de Perséfone presa nas áreas infernais; ou Alma como a kundalini adormecida na base da coluna. Ela está aqui, sempre esteve no mais íntimo do ser, mas adormecida.

    “. Os paralelos que podemos traçar entre Sêmele/Júpiter/Dionísio e Maria/Jeová/Jesus são evidentes e desconcertantes… ”

    Os paralelos são muitos Sem; Ísis-Osíris-Thot; Brahma-Shiva-Vishnu; a mitologia está cheia dessas trindades, comprovando assim a universalidade do Arquétipo; comprovando que a essência das coisas é uma coisa só.

    “Por isso só podemos nos aproximar por metáforas do inconsciente real, por isso devemos invocar a linguagem poética se queremos esse contato pelo lado benigno, por isso a mitologia e as representações arquetípicas, o teatro, a arte, por isso as parábolas religiosas – são modos de nos relacionarmos com o inconsciente real e falarmos das verdades do além sem nos desintegrarmos.”

    Sim, são formas de humanizar o inconsciente, humanizar o divino; e fazemos isso através do símbolo, o Arquétipo vive em nós através dos mitos.

    Sabe, eu por agora (porque é bom mudar 🙂 ), entendo essa questão de abarcar o inconsciente, mais ou menos como primeiro vc abarca o seu inconsciente pessoal (sombra, animus, Self), o Self sendo impessoal, como que está conectado a Fonte, Fonte esta que abarca tudo; mais ou menos como estar conectado a um grande computador que a tudo sabe e conhece, então vc é uma consciência impessoal ligada a fonte da vida, mas que não necessariamente abarca toda a consciência; somente como que pergunta pro inconsciente e as respostas chegam naturalmente, como um reconhecimento dessa grandiosidade em tudo sem excessão…
    É isso! não têm como falar do abstrato concretamente; mas podemos compará-lo, podemos vivê-lo na vida; podemos dar uma imagem; e sim usamos de linguagem poética e metafórica ou simbólica para humanizá-lo. Essa é a funçao transcendente, juntar o concreto e o abstrato, o racional e o intuitivo numa terceira coisa que é ao mesmo tempo ambas as coisas, e então depois de juntado essa terceira coisa é a Alma…

    … questões surreais … 🙂 🙂 🙂

    Ah! o post vai sair, por enquanto é somente um esboço de idéias, mas estou organizando-as.

    bjs

  42. Fy said

    Sem,

    “E ainda da função transcendente, sabe essa coisa que eu e vc convencionamos indicar o meio como o espaço da alma, ali onde ela faz liga de opostos arquetípicos verticais, gerando imagens, sentidos, amor?

    isso só vale quando a função transcendente foi constelada, pois do contrário a alma é rejeitada , ou expulsa mesmo desse meio como algo no mínimo indigno de estar ali.

    O mais correto nesses casos é dizer que a alma habita o mais profundo dos vales, o mais baixo do embaixo, e de que lá ela está sozinha, sem existir…

    vc sabe, existem mesmo pessoas, que não é que não tenham alma, mas na prática vivem sem alma…
    e tb não é que seja da alçada da função transcendente ir ao Hades resgatar a alma de sua noite escura, pois a função transcendente é um conceito e somente arquétipos têm tal poder, mas é a função transcendente que possibilita que os arquétipos “certos” sejam acionados,”

    Me perdoe, Sem; – esta elaboração não foi convencionada por vc ou pela Adi; ela é beeeem mais velha. Vcs me perdoem novamente , mas não entendo isto como transcedência, nem disfarçada em termos junguianos, Hillmanianos ou mitologicos- E isto Jamais gerou Amor, e “acionou” sim, os mais terríveis Arquétipos.

    Este “meio” foi convencionado aqui: [e a humanidade tá careca de conhecer:]

    O cristianismo foi oficializado em 390 d.C, e o recém nomeado chefe religioso de Alexandria, o bispo Cirilo, dispôs-se a destruir todos os pagãos assim como seus monumentos e escritos.

    Os “banimentos” de almas “indignas” começaram muiiiiito antes deste seu discurso, Sem:

    E volto a citar o parágrafo do Hillman:

    – realizou-se em Bizâncio, na cidade de Constantinopla, no ano de 869, um Concílio de Bispos da Santa Igreja Católica e pôr causa daquela sessão e de outras quase um século antes ( em Nicéia, 787), estamos todos reunidos nesta sala, esta noite. – Pôr causa daquele Concílio em Constantinopla a alma perdeu seu reino. – E o ódio se instalou, fantasiado de religião.

    “- isso só vale quando a função transcendente foi constelada, pois do contrário a alma é “rejeitada , ou expulsa” mesmo “desse meio” como algo no mínimo “indigno” de estar ali.” –

    …e a partir de então; negros, índios, pagãos em geral, cidades, culturas, Galileos, Hipácias, etc… ciganos, judeus, etc…. se tornaram almas indignas, rejeitadas ; – expulsas sei lá eu daonde: – e os maiores massacres, as maiores fogueiras, genocídios, crimes da humanidade foram e são justificados. Eram, e continuam sendo, almas “bobas”: sem valor: – pois outro dia o tal do “ismíssimo” Pondé não afirmou isto?

    Transcedência? Não: eu não me identifico não com este seu ponto de vista em relação à transcedência, . Não há uma forma exclusiva de “constelar transcedência” . e nem “meio exclusivo” onde almas passem por algum teste e exclusão.

    Vc conhece alguem que “constelou transcedência”? Ou tem opiniões sobre isto?

    Eu apenas considero pareceres, neste assunto.

    Este lance de almas “banidas e indignas” é meio complicado; – já foi útil em outras épocas e ainda é; – lembra o caso tão recente da menininha estuprada pelo padrasto? : mal ou bem: foi “banida” : excomungada: sua alma virou indigna – esta “sempre” foi uma linguagem passível de distorções, e me lembrou passagens do Mein Kampf Adolf Hitler onde ele usa exatamente esta dialética ;

    E 6 milhões de “almas rejeitadas” foram exterminadas, banidas: O extermínio, assim sendo, podia ser feito sem dor na consciência uma vez que ele estava apenas agindo como a mão vingadora de DEUS. John Toland – vencedor do Premio Pulitzer
    – Tão velho……

    – Sabe Sem, minha opinião é que não existe roteiro religioso pra transcedência ou feitura de alma. E que cada um escolha seu caminho, sem tentar estabelecer superioridades que sempre terminam – como sempre terminaram – em distorções. – distorções sérias.

    Qto a este tal “meio” que vc “convencionou”; ou vc e a Adi, : literalmente é um “componente ou qq coisa assim” da sua transcedência . Mas, não é novidade não: a humanidade já conhece faz tempo. E eu, orgulhosamente jamais acreditei neste DEUS ou neste tipo de Transcedência que dignifica ou não dignifica.

    Fico como o meu deus que não necessita deste triatlon entre o vale, montanha, e nem normas de transcedência. – O meu existe em tudo o que me rodeia: natureza, animais e “humanos” – picos e vales e em qualquer momento independente de suas características, e com ele, falo no silencio da “minha alma” : banida e indigna com “todo o orgulho” deste “tal” meio.

    Respeito sua opinião; mas, não me sinto atraída por ela. Até mesmo por uma questão espiritual.

    Um link que é um banho de cachoeira:

    http://malprg.blogs.com/francoatirador/2008/03/todos-os-caminh.html

    Bjs

  43. Sem said

    Fy, acho que vc está falando de uma coisa e eu de outra, prefiro então não mais prosseguir para não aumentar ainda mais essa distância. Mas tudo bem, discordâncias podem ser frutiferas, só vamos deixar isso para outra hora e com outro tema em que seja possível debatermos nos mesmos pressupostos. Aqui eu não sei bem como isso aconteceu, mas parece virou o samba do crioulo doido. 🙂

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