Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Só de sacanagem…

Posted by Fy em agosto 8, 2009

Anúncios

2 Respostas to “Só de sacanagem…”

  1. Sem said

    Fy,

    “Que País É Este?” estava eu aqui pensando nos poemas engajados do Affonso Romano lá dos idos 80, do quanto absurdamente continuam atuais, e eis que me deparo com isso, do próprio poeta, que se “explica” e “republica” (rimas bem ao seu estilo):

    http://www.affonsoromano.com.br/blog/

    Mas o “Que País É Este?” é o que mais gosto dentre os daquela época. Divido com vcs, alguns excertos:

    Uma coisa é um país
    outra um ajuntamento.

    Uma coisa é um país,
    outra um fingimento.

    Uma coisa é um país,
    outra o aviltamento.

    Há 500 anos caçamos índios e operários,
    Há 500 anos queimamos árvores e hereges,
    Há 500 anos estupramos livros e mulheres,
    Há 500 anos sugamos negras e aluguéis.

    Há 500 anos dizemos:
    que o futuro a Deus pertence,
    que Deus nasceu na Bahia,
    que São Jorge é guerreiro,
    que do amanhã ninguém sabe,
    que conosco ninguém pode,
    que quem não pode sacode.

    Há 500 anos somos pretos de alma branca,
    não somos nada violentos,
    quem espera sempre alcança
    e quem não chora não mama
    ou quem tem padrinho vivo
    não morre nunca pagão.

    Há 500 anos propalamos:
    este é o país do futuro,
    antes tarde do que nunca,
    mais vale quem Deus ajuda
    e a Europa ainda se curva.

    Há 500 anos
    somos raposas verdes
    colhendo uvas com os olhos,

    semeamos promessa e vento
    com tempestades na boca,

    sonhamos a paz na Suécia
    com suiças militares,

    vendemos siris na estrada
    e papagaios em Haia,

    senzalamos casas-grandes
    e sobradamos mocambos,

    bebemos cachaça e brahma
    joaquim silvério e derrama,

    a polícia nos dispersa
    e o futebol nos conclama,

    cantamos salve-rainhas
    e salve-se quem puder,

    pois Jesus Cristo nos mata
    num carnaval de mulatas

    Este é um país de síndicos em geral,
    Este é um país de cínicos em geral,
    Este é um país de civis e generais.

    Este é o país do descontínuo
    onde nada congemina,

    e somos índios perdidos
    na eletrônica oficina.

    Nada nada congemina:
    a mão leve do político
    com nossa dura rotina,

    o salário que nos come
    e nossa sede canina,

    a esperança que emparedam
    e a nossa fé em ruína,

    nada nada congemina:

    a placidez desses santos
    e nossa dor peregrina,

    e nesse mundo às avessas
    – a cor da noite é obsclara
    e a claridez vespertina.

    Sei que há outras pátrias. Mas
    mato o touro nesta Espanha,
    planto o lodo neste Nilo,
    caço o almoço nesta Zâmbia,
    me batizo neste Ganges,
    vivo eterno em meu Nepal.

    Esta é a rua em que brinquei,
    a bola de meia que chutei,
    a cabra-cega que encontrei,
    o passa-anel que repassei,
    a carniça que pulei.

    Este é o país que pude
    que me deram
    e ao que me dei,
    e é possível que por ele, imerecido,
    – ainda morrerei.

    Minha geração se fez de terços e rosários:
    – um terço se exilou
    – um terço se fuzilou
    – um terço desesperou

    e nessa missa enganosa
    – houve sangue e desamor. Por isto,
    canto-o-chão mais áspero e cato-me
    ao nível da emoção.

    Caí de quatro
    animal
    sem compaixão.

    Uma coisa é um país,
    outra uma cicatriz.

    Uma coisa é um país,
    outra é abatida cerviz.

    Uma coisa é um país,
    outra esses duros perfis.

    Deveria eu catar os que sobraram
    os que se arrependeram,
    os que sobreviveram em suas tocas
    e num seminário de erradios ratos
    suplicar:
    – expliquem-me a mim
    e ao meu país?

    Leio, releio os exegetas.
    Quanto mais leio, descreio. Insisto?
    Deve ser um mal do século
    – se não for um mal de vista.

    Já pensei: – é erro meu. Não nasci no
    tempo certo.
    Em vez de um poeta crente
    sou um profeta ateu.
    Em vez da epopéia nobre,
    os de meu tempo me legam
    como tema
    – a farsa
    e o amargo riso plebeu.

    Mas sigo o meu trilho. Falo o que sinto
    e sinto muito o que falo
    – pois morro sempre que calo.
    Minha geração se fez de lições mal-aprendidas
    – e classes despreparadas
    Olhávamos ávidos o calendário. Éramos jovens.
    Tínhamos a “história” ao nosso lado. Muitos
    maduravam um rubro outubro
    outros iam ardendo um torpe agosto.
    Mas nem sempre ao verde abril
    se segue a flor de maio.
    Às vezes se segue o fosso
    – e o roer do magro osso.
    E o que era revolução outrora
    agora passa à convulsão inglória.

    Os mais afoitos e desesperados
    em vez de regressarem como eu
    sobre os covardes passos,
    e em vez de abrirem suas tendas para a fome dos
    desertos,
    seguiram no horizonte uma miragem
    e logo da luta
    passaram
    ao luto.

    Vi-os lubrificando suas armas
    e os vi tombados pelas ruas e grutas.
    Vi-os arrebatando louros e mulheres
    e serem sepultados às ocultas.

    Vi-os pisando o palco da tropical tragédia
    e por mais que os advertisse do inevitável final
    não pude lhes poupar o sangue e o ritual.

    Hoje
    os que sobraram vivem em escuras
    e européias alamedas, em subterrâneos
    de saudade, aspurando a um chão-de-
    estrelas,
    plangendo um violão com seu violado
    desejo
    a colher flores em suecos cemitérios.

    Talvez
    todo o país seja apenas um ajuntamento
    e o conseqüente aviltamento
    – e uma insolvente cicatriz.

    Mas este é o que me deram,
    e este é o que eu lamento,
    e é neste que espero
    – livrar-me do meu tormento.

    Meu problema, parece, é mesmo de princípio:
    – do prazer e da realidade
    – que eu pensava
    com o tempo resolver
    – mas só agrava com a idade.

    Há quem se ajuste
    engolindo seu fel com mel.
    Eu escrevo o desajuste
    vomitando no papel.

    Mas este é um povo bom
    me pedem que repita
    como um monge cenobita
    enquanto me dão porrada
    e me vigiam a escrita.

    Sim. Este é um povo bom. Mas isto também
    diziam os faraós
    enquanto amassavam o barro da carne escrava.
    Isso digo toda noite
    enquanto me assaltam a casa,
    isso digo
    aos montes em desalento
    enquanto recolho meu sermão ao vento.

    Povo. Como cicatrizar nas faces sua imagem
    perversa e una?
    Desconfio muito do povo. O povo, com razão,
    – desconfia muito de mim.

    Estivemos juntos na praça, na trapaça e na desgraça,
    mas ele não me entende
    – nem eu posso convertê-lo.
    A menos que suba estádios, antenas, montanhas
    e com três mentiras eternas
    o seduza para além da ordem moral.
    Quando cruzamos pelas ruas
    não vejo nenhum carinho ou especial predileção
    nos seus olhos.
    Há antes incômoda suspeita.

    Daí vejo as manchetes:

    – o poeta que matou o povo
    – o povo que só/çobrou ao poeta
    – (ou o poeta apesar do povo?)

    – Eles não vão te perdoar
    – me adverte o exegeta.
    Mas como um país não é a soma de rios, leis,
    nomes de ruas, questionários e geladeiras,
    e a cidade do interior não é apenas gás neon,
    quermesse e fonte luminosa,
    uma mulher também não é só capa de revista,
    bundas e peitos fingindo que é coisa nossa.

    Povo
    também são os falsários
    e não apenas os operários,

    povo
    também são os sifilíticos
    não só atletas e políticos,

    povo
    são as bichas, putas e artistas
    e não só os escoteiros
    e heróis de falsas lutas,
    são as costureiras e dondocas
    e os carcereiros
    e os que estão nos eitos e docas.

    Assim como uma religião não se faz só de missas
    na matriz,
    mas de mártires e esmolas, muito sangue e cicatriz,
    a escravidão
    para resgatar os ferros de seus ombros
    requer
    poetas negros que refaçam seus palmares e
    quilombos.

    Um país não pode ser só a soma
    de censuras redondas e quilômetros
    quadrados de aventura, e o povo
    não é nada novo
    – é um ovo
    que ora gera e degenera
    que pode ser coisa viva
    – ou ave torta

    depende de quem o põe
    – ou quem o gala.

    Percebo
    que não sou um poeta brasileiro. Sequer
    um poeta mineiro. Não há fazendas, morros,
    casas velhas, barroquismos nos meus versos.

    O povo, no entando, é o cão
    e o patrão
    – o lobo. Ambos são povo.
    E o povo sendo ambíguo
    é o seu próprio cão e lobo.

    Uma coisa é o povo, outra a fome.
    Se chamais povo à malta de famintos,
    se chamais povo à marcha regular das armas,
    se chamais povo aos urros e silvos no esporte
    popular

    então mais amo uma manada de búfalos em
    Marajó e diferença já não há
    entre as formigas que devastam minha horta
    e as hordas de gafanhoto de 1948
    – que em carnaval de fome
    o próprio povo celebrou.

    Povo
    não pode ser sempre o coletivo de fome.
    Povo
    não pode ser um séquito sem nome.
    Povo
    não pode ser o diminutivo de homem.
    O povo, aliás,
    deve estar cansado desse nome,
    embora seu instinto o leve à agressão
    e embora
    o aumentativo de fome
    possa ser
    revolução.

  2. Fy said

    Sem,

    Bravo!

    Kd o Brasil?

    Bjs

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: