Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Unidade & Dualidades: de como o monismo e atomismo nos pré-socráticos engendram o homo complexus de Edgar Morin

Posted by Sem em agosto 2, 2009

Terminei, enfim, esta obra, que nem a ira de Júpiter, nem o fogo,

Nem o ferro, nem o tempo devorador poderão destruir.

Quando aquele dia, que dispõe apenas do meu corpo, quiser,

Poderá pôr fim ao tempo da minha incerta vida;

Mas com a melhor parte de mim me elevarei imortal

Sobre as estrelas, e o meu nome não perecerá.

Ovídio (43 a.C. – 17 a.C.)

Com este dramático apelo de Ovídio iniciamos o nosso trabalho. Não se pretende, é claro, nenhuma imortalidade, pois em tempos pós-modernos, falar em algo que dure ou repercuta mais do que uma estação é heresia. É um trabalho humilde, de pesquisa e reflexão, um leigo exercício em filosofia, mas que tem a ambiciosa meta de chegar ao fim e revelar, se não a fórmula, pistas de como tornar real ou o que significa realizar o símbolo & do nosso título.

O trabalho poderá ser lido de duas maneiras: a primeira e mais simples é uma leitura corrida e integral do texto, e a outra é ir lendo aos poucos, em separado, pelas cores, extraído o corpo principal em azul das junções coloridas, que trazem ora reflexões, ora digressões ou ainda algumas poesias, em complemento ao tema. As cores tornam as partes independentes umas das outras, no entanto, a única coisa que se pretendeu com o estilo multifacetado, por contraste, foi enfatizar a coesão.

Um pouco de filosofia é sempre bom. Mas a filosofia é tão vasta, então, é preciso fazer escolhas.

A vida é feita de escolhas, ou melhor, não a vida, mas a existência humana – se entendermos por “vida” algo mais amplo que as condições de um único homem em seu curto período de existência biológica. Assim, a existência é mais curta que a vida e é feita de escolhas; já a vida é feita de transcendências, de devires, de renasceres.

Quando falamos em existência humana, temos de ter sempre em mente as condições relativas de sua permanência histórica. A existência humana é parcial e condicionada antes de qualquer outra coisa por essas condições limitantes de tempo e de espaço, que relativizam o ser enquanto existência.

O fato é que não podemos existir sem escolhas, sem tempo, sem lugar. Na verdade, o homem vive de suas escolhas, que é sinônimo de sua própria existência, mas nem sempre abraça a vida, que é mais ampla e está vinculada à totalidade da natureza, além de sua existência pessoal.


Curta: Ou Isto ou Aquilo – Cecília Meireles

Selecionar um filósofo e discorrer apenas sobre o seu pensamento. Embora seja inevitável que no estudo do filósofo em questão, outros nomes apareçam, pois a filosofia é a ciência que conglomera todos os conhecimentos, e os filósofos, por mais condizentes ou discordantes estejam entre si, são os agentes desta seara e afetam-se mutuamente.

Podemos de outro modo também selecionar uma linha – cética ou dogmática; ou uma escola – materialista ou idealista; ou uma abordagem – romântica ou científica; partindo destes breves exemplos, devemos não esquecer de que foi a nossa escolha, em toda sua subjetividade implícita, e, não necessariamente a “verdade”, o critério determinante de nossa escolha. Talvez a consciência deste fato seja a nossa única salvaguarda contra a ingenuidade, ou a má-fé, de supor que o nosso pensamento é puro e isento das subjetividades inerentes a qualquer decisão humana. Do mesmo modo, sem perder nunca este foco – das simpatias e das antipatias que nos constituem, fica dada a mais atenta possibilidade, e provavelmente única também, de manter respeitosa nossa escuta do outro lado, do suposto oculto dialogante, a quem vamos nos aliar ou combater, para que ele tenha espaço de também expressar seu ponto de vista.

Ciente de tudo isso, o foco do nosso trabalho estará então no filósofo, na linha, escola em questão, e será sempre a eles que retornaremos, para suas ideias e desdobramentos, como a um farol, toda vez que nos desviarmos da rota original.

Uma escolha sempre nos afasta das outras opções que não foram feitas, que passam a não existir mais a partir do momento que decidimos pela opção “z” e não “x”. Daí a importância da primeira escolha, pois todas as outras estarão diretamente condicionadas, ou podemos mesmo afirmar, serão meras consequências daquela.

Pensamento que colabora com o argumento de que mais importante que as respostas que demos na vida, são as perguntas que fazemos na vida.


interrogacao

Não existe volta na existência. Apenas novos caminhos que se delineiam a partir da estrada já percorrida, seguindo sempre em “frente”. Melhor dizendo, existem curvas, voltas e retomadas neste seguir em frente, no entanto, nunca se volta de fato no espaço e no tempo, pois o traçado é sempre novo, mesmo a volta nunca foi feita antes naquele sentido e com aquela forma, com aquele tempo, por isso nunca nenhum caminho se repete. A existência é basicamente constituída dessa rota “infinita” adiante.

Assim como o homem é feito das escolhas que faz, a realidade também contém todas as escolhas possíveis que ele não fez e das que nunca fará. Por isso, nunca um homem sozinho pode dizer que vive na realidade total de sua existência, pois que sua própria existência faz com que ele condicione suas respostas à realidade possível, e não a “ideal” – a não ser que transcenda a própria existência. Mas, será possível à vida humana transcender a existência? A verdade humana parece estar definitivamente condicionada à subjetividade do seu ponto de vista, presa à sua concretude cotidiana e parcial. Cada ponto de vista é, portanto, subordinado ao seu tempo e espaço, tanto que podemos afirmar que o homem é o lugar que ele ocupa no “seu” tempo e no “seu” espaço.

Acontece que o homem parece ter uma dupla natureza, tanto de gozar do fluxo da existência como qualquer outro animal, quanto de insatisfação e rebeldia contra o mesmo fluxo – esta última parece ser exclusiva da condição humana. Ao homem não basta viver sua existência, ele sente também necessidade de inventar outra existência e, de certa forma, só será realmente humano depois que a inventar. Assim como o homem não pode negar sua condição de animal, faz parte da sua natureza desejar, querer transcender a limitação do animal, inventando, imaginando, antevendo, planejando, idealizando, realizando sempre novos devires, tanto seguindo a correnteza como nadando contra a maré.


“Nada do que é finito, nem mesmo o mundo inteiro, pode satisfazer a alma humana, que sente necessidade do eterno.”Soren Kierkegaard

Digressão a respeito da questão da liberdade na existência:

Do romance A Idade da Razão, de Jean Paul Sartre, ambientado na Paris do pós guerra, o drama existencial de Mathieu, um intelectual angustiado cuja tônica principal era o não comprometimento de sua liberdade, procurando manter o máximo possível de opções em aberto e de não enveredar definitivamente por nenhum caminho, inviabilizando outros, mas, ao mesmo tempo, sabendo que o único caminho desejável seria a descoberta de uma causa pela qual valesse a pena abandonar-se a qualquer preço. Em meio a essa vida plena de liberdade existencial e angústia, a notícia de um amigo que decide se engajar na luta contra Franco e, a despeito da ditadura estar no auge do terror, parte para a Espanha se aliando aos rebeldes na luta armada contra o ditador. Mathieu se pergunta, em meio às suas meias decisões e meias verdades relativas, quem é afinal mais livre, ele ou o amigo?


alice

Lewis Carroll in Alice in the Wonderland: e disse-lhe o coelho

“ora, se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar servirá”.

Minha opção é principiar pelos os gregos antigos, porque neles percebo estar contido tudo o que precisamos para desenrolar o novelo disso que resultou e se convenciona chamar “civilização ocidental”: esse amálgama de sociedade em forma de pirâmide, fragmentada desde a base, em classes – uma sociedade competitiva, misógina, extrovertida, individualista. Os gregos ecoam em nós desde a nossa raiz, e, longe de os “superar”, antes temos de inúmeras vezes retornar a eles – na arte, nos mitos e na filosofia – para nos “explicar”, pois é neles que encontramos as estruturas de tudo aquilo que nos tornamos.


edipo

“Se o homem não sabe a que porto se dirige,

nenhum vento lhe será favorável.”

Sêneca

Na história da arte há o axioma de que a arte precede à ciência. Parece natural que assim seja, afinal, uma ciência não nasce do nada, é preciso antes uma vivência mítica, estética, poética, religiosa, para que a ciência venha com pujança no seu rebordo. Assim, se quisermos saber se no futuro teremos “boa ciência”, temos antes de examinar a qualidade da arte que temos hoje.

Com os gregos não foi diferente, o extraordinário nascimento da filosofia, a profícua nascente cultural, de onde se sucederam em pouco espaço de tempo pensadores que nos influenciam grandemente até hoje – o surgimento da filosofia na Grécia só foi possível porque o berço em que tudo isso se deu era de uma exuberante cultura mítica, anímica, na qual as poéticas de Homero –Odisséia e Ilíada–, e de Hesíodo –Teogonia e Os trabalhos e os dias–, foram simultaneamente decorrência e consequência deste fervilhar cultural, ou seja, da mesma forma que a arte foi engendrada por aquela cultura, ajudou-a se engendrar. Nesse caso, antes de examinarmos a nossa arte para saber qual futuro terá a nossa ciência, temos antes de verificar como anda a nossa imaginação, para saber a qualidade da criação que terá a nossa arte.


“O conhecimento é limitado; para a criação de algo novo a imaginação é mais importante que o conhecimento.” Albert Einstein


Dentre os gregos, atenho-me aos pré-socráticos, por uma razão muito simples, sopesando Nietzsche, penso que os dilemas do homem moderno cortado entre logos e eros, prosa e poesia, não se encontrava ainda dividido nestes filósofos. Então, retomar esse caminho, aos assim conceituados filósofos pré-socráticos, por serem os pensadores logo anteriores ao pensamento de Sócrates-Platão, que são tomados como marco divisor de águas na história da filosofia ocidental, é retornar aonde foi que nos perdemos de nós mesmos e nos dividimos entre corpo e espírito.

O mal-estar moderno, ou pós-moderno, pode então ser atribuído, em grande parte, a essa divisão, ou à lógica que o homem inventa – e, diga-se de passagem, com mais racionalizações do que com razão – para fugir da sensação de vazio que sua objetividade excessiva só faz intensificar, adentrando num círculo vicioso de razão auto-suficiente.

No entanto, nada a depor contra a lógica, que apenas é “má” se exclusivista, quando não se permite que outras características, igualmente humanas, possam também ter o seu espaço – como sentimentos estéticos e religiosos, instintivos animais e, até como acrescentaria com propriedade Edgar Morin – de quem mais adiante se falará bastante, o homem e a sua indispensável “loucura”.

A predominância da consciência lógica, à custa da consciência da alma, faz com que o homem moderno se posicione de costas para si mesmo, longe de suas necessidades, cindido entre o que ele pensa que é, pensa que sente, do que ele verdadeiramente é, pensa e sente. A lógica é o veneno que o homem dito moderno busca para fugir da sensação de vazio, que ela própria, por sua secura, alimenta e o mantém sequioso. Necessário ao homem contemporâneo fazer um giro nos calcanhares de sua recente história e começar a percorrer o caminho inverso do que até então tem percorrido, para realizar a necessária união com a sua não-lógica, para finalmente ser, ou voltar a ser, íntegro.

Dar vazão ao pensamento pré-socrático pode então ser encarado como um retorno à indiscriminação entre o racional e o irracional, quando as duas coisas eram vividas juntas, como na imagem da feliz conjunção entre o ser e o existir.

Neste caso, podemos questionar, o quanto não há de romantismo nessa ideia, pois existe sim sempre muito romantismo na ideia do retorno, e de que na origem não havia contradições, nem dilaceramentos, apenas essa feliz conjunção entre todas as partes envolvidas. Essa “sopa primeva”, a qual Sigmund Freud denominou “estado oceânico”, consistia para ele, no adulto, uma patologia a ser evitada. Mas para Carl Gustav Jung, ao contrário, viver o irracional era parte integrante do ato do humano se individuar, portanto, parte desejável do processo de individuação por ele conceituado. Mas, se a ideia é justamente aliar o racional com o irracional, não há como fazê-lo sem um mínimo de romantismo, ou, ainda, sem um mínimo de loucura, e perigo, audácia, fugindo aos padrões convencionais esperados – visto que vivemos numa sociedade extremamente racional. Quanto a Freud, malgrado ele ser um dos inventores da modernidade, com igual ênfase devemos considerar que foi também um de seus principais demolidores, e a sentença de que o homem não é senhor na própria casa, portanto destronando a razão de sua condição soberana, é um dos pilares máximos da psicanálise e o fim da ilusão de soberania do positivismo.

Podemos questionar ainda que a indissolução seja impossível ao complexo viver contemporâneo; quando não a qualquer viver de qualquer tempo. Mas, se a proposta pós-moderna é justamente esta – a de que sabe do naufrágio do projeto moderno, aquele que depositou na ciência e no progresso contínuo todos os seus trunfos e perdeu –, então, investir na multiplicidade atemporal de inúmeras propostas que convivem entre si, e dialogam no mesmo tempo – o tempo pós-moderno, que mais do que tempo é antes estado de espírito –, pois bem, neste entender pós-moderno, é mais do que válido, é fundamental essa troca entre o racional e o irracional. Concordar ou divergir, ou ainda selecionar e descartar, não é colocar bem essa questão, a questão é antes incluir elementos que até o momento estiveram fora desse debate.

Apesar de todas estas objeções, desde uma irracionalidade demolidora até uma patologia insidiosa, teimamos em prosseguir, e, voltando às origens da infância de nossa filosofia, lá no início, vamos encontrar, nada mais natural, o pai de nossa filosofia ocidental, Tales de Mileto (640-548 a.C.). Tales ao buscar pelo arché – princípio primeiro universal do qual todos os outros seriam compostos derivados –, afirmou que tudo provinha da água – mas entenda-se aqui a proposta do arquétipo, a metáfora e não a literalização do elemento químico H²O. E seguindo na linha de uma proposta inclusiva, Tales estava absolutamente certo, pois tudo têm a sua parte em água, quem poderá negar?

Anaximenes de Mileto (588-524 a.C.), pouco mais tarde, estava igualmente certo quando disse que tudo era ar, pneuma ápeiron, porque tudo têm efetivamente o seu componente em ar. Para Anaximenes o ar era então o arché, o espírito que abraçava o mundo e o mantinha unido.


Canção do primeiro do ano

Anjos varriam morcegos

Até jogá-los no mar.

Outros pintavam de azul,

De azul e de verde-mar,

Vassouras de feiticeiras,

Desbotadas tabuletas,

Velhos letreiros de bar.

Era uma carta amorosa?

Ou uma rosa que abrira?

Mas a mão correra ansiosa

– Ó sinos, mais devagar! –

À janela azul e rosa,

Abrindo-a de par em par.

Ó banho de luz, tão puro,marioquintana

Na paisagem familiar:

Meu chão, meu poste, meu muro,

Meu telhado e a minha nuvem,

Tudo bem no seu lugar.

E os sinos dançam no ar.

De casa a casa, os beirais,

– Para lá e para cá –

Trocam recados de asas,

Riscando sustos no ar.

Silêncios. Sinos. Apelos. Sinos.

E sinos. Sinos. E sinos. Sinos.

Pregoeiros. Sinos. Risadas. Sinos.

E levada pelos sinos,

Toda ventando de sinos,

Dança a cidade no ar!

Mario Quintana (1906-1994)


Heráclito de Éfeso (sécs.Vl-V a.C.), conhecido como o Obscuro, por muitas de suas máximas enigmáticas, algumas de cunho oracular, poderemos sentir por esses seus fragmentos: “Caráter é destino”; ” Tudo se faz por contraste; da luta dos contrários nasce a mais bela harmonia “; “Tudo flui e nada permanece; tudo se afasta e nada fica parado”; “Nenhum homem mergulha duas vezes no mesmo rio, pois outras águas e ainda outras sempre vão fluindo”; “É na mudança que as coisas acham repouso”; “Deus é dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, abundância e fome. Mas toma formas variadas, assim como o fogo, quando misturado com essências, toma o nome segundo o perfume de cada uma delas”. Para Heráclito o arché era o fogo, princípio cósmico que governava o real. E como deu pra perceber, filósofo do fluxo contínuo, do devir e do logos – leia-se aqui novamente espírito, cujo fogo é uma das principais metáforas.


Do fogo na base do nascimento da cultura, o belíssimo e tocante La Guerre Du Feau, de Jean-Jacques Annaud:

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Empédocles de Agrigento (483-430 a.C.) foi mais abrangente ainda, disse que tudo tem a sua cota de água, ar, fogo e terra, apenas em partes desiguais. E foi mais longe, disse que estes componentes, qualitativamente semelhantes e quantitativamente dessemelhantes, a todo ser e objeto, podem se agrupar por amor (atração) ou por ódio (repulsão) – resultando até mesmo o desacordo, ser o caso de um acordo entre os elementos para o equilíbrio da vida.


Fantástico, até o ódio pode ser um caso de amor. No final, a depreender do pensamento de Empédocles, tudo é amor – ou não, depende do modo como o agente vê ou relaciona os componentes de uma relação:

meiocheio-meiovazio

Mas, talvez, Demócrito de Abdera (460-370 a.C.) é que tenha a teoria mais interessante dentre todos os pré-socráticos na busca pelo arché primordial. Ele diz: “por convenção existe a cor, há o doce e o amargo, há o frio e o quente; mas na verdade há somente átomos e vazio”. A concepção de Demócrito da natureza é dita atomista, o que equivale dizer que a natureza é composta por dois únicos elementos básicos: o átomo – a menor partícula indivisível da matéria – e o vazio – o espaço que permite o movimento da matéria, pois, sem esse vazio todos os átomos seriam um único bloco amalgamado sem liberdade de locomoção, na verdade, não existiriam átomos, existiria apenas um único bloco composto de matéria inerme.

Que era o que o Zenão de Eléia (séc.V a.C.), quis contrapor e provar com seus divertidos paradoxos, ou aporias, que o movimento não existia – combatendo a ideia de fluxo contínuo em Heráclito, que foi seu contemporâneo.  Zenão conceituava a impossibilidade teórica de um homem atravessar uma ponte, pois, para atravessar a ponte, teria de percorrer o espaço entre o início e o fim dessa ponte, mas, antes de atravessar todo o comprimento da ponte, teria de percorrer primeiro a metade do caminho, e para percorrer a metade do caminho, teria antes de percorrer a metade da metade do caminho, e, assim por diante, em metades das metades das metades, até o infinito. Como os números são infinitos, matematicamente estaria provado a impossibilidade dum homem atravessar uma ponte.

Sua aporia mais famosa: a corrida de Aquiles contra a tartaruga, onde a tartaruga saiu na frente, mas, se o espaço que separa a distância entre o veloz semideus e a lerda tartaruga for constituído por infinitos pontos… a imagem diz tudo:

aquiles

Zenão de Eléia foi seguidor de Parmênides de Eléia (c.544-450 a.C.), fundador da escola eleata, em referência à cidade ao sul da Itália, hoje Vélia, na época uma colônia grega, como praticamente todo o mundo “civilizado” de então. Parmênides não acreditava no movimento e no devir de Heráclito, nem no que mais tarde veio a ser o atomismo de Demócrito, acreditava isto sim num único ser real e na imutabilidade deste ser: “O que é, é, e não pode não ser; o que não é, não é, e não pode ser”; “O que é, pode ser pensado ou conhecido, expresso ou realmente nomeado; o que não é, não o pode”. Lógica pura. Aliás, Parmênides, com alguma ascendência pitagórica, acreditava na lógica como instrumento único para averiguação da verdade, pois conjecturava que só o pensamento pode conhecer o real e a percepção seria a causa de muitas premissas ilusórias – ideia esta que mais tarde influenciou grandemente o platonismo. Existem também muitos paralelos que podemos traçar entre a filosofia monista de Parmênides com o hinduísmo, o budismo e o taoísmo, já que todos estes sistemas têm por base a não-dualidade. O Ser Uno de Parmênides e a iluminação budista, por exemplo, parecem ser ambos a capacidade de percepção imediata, ou melhor, a vivência da unidade de todos os seres a um só tempo presente.

Poderíamos continuar nessa viagem pela filosofia grega antiga, e mesmo sem adentrar nas controvérsias entre os pitagóricos-platonistas e os empiristas-aristotélicos, o caminho ainda seria longo e muitas vezes tortuoso, mas, creio que o suficiente ao objetivo do presente trabalho já foi percorrido, que era demonstrar os contrapontos básicos entre os atomistas e os eleatas, e em que contexto tais controvérsias frutificaram. Mas antes de tocar no cerne da discordância entre as duas escolas, abro um parênteses para um último pré-socrático – Epicuro de Samos (341-270 a.C.) considerado grosso modo também um atomista, afinal foi mesmo um seguidor de Demócrito, e fundou o epicurismo, famosa escola pré-socrática que afirmava que o supremo bem era o prazer e o supremo mal a dor, num hedonismo ético e estético do qual o já citado Empédocles também fazia parte. Mas não se pode confundir o hedonismo moderno com o hedonismo epicurista, pois neste o gozo era fundamentalmente espiritual e a a meta suprema era a ataraxia, que para os epicuristas significava o controle das paixões através do comedimento. De Epicuro: “O essencial para a nossa felicidade é a nossa condição íntima: e desta somos nós os amos”.

O grande poeta romano Lucrécio – séc. I a.C., foi um epicurista e divulgador do atomismo entre os romanos, estes seus poucos versos exemplares descrevem bem a sobriedade do hedonismo epicurista: “Para quem vive segundo os verdadeiros princípios, A grande riqueza seria viver com pouco, Serenamente: o que é pouco nunca é escasso.” Lucrécio de fato escreveu pouco sem contudo ser escasso, apenas os VI cantos da sua obra poético filosófica De Rerum Natura (Sobre a Natureza das Coisas) foram suficientes para o imortalizarem. Pequeno trecho do início do primeiro canto: Invocação de Vênus; princípio de toda a vida:


Mimosa Vênus, mãe de Eneide Roma,

Prazer dos homens e numes! Tu alentas

Os astros, que dos céus no âmbito giram,

As férteis terras, o naval oceano.

Por ti, todo animal recebe a vida!

Logo ao nascer, na luz do sol atenta…


A obra completa em português: Portal Agostinho da Silva


Em espanhol: Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes


O principal contendor das escolas atomista e epicurista foi evidentemente Parmênides, apesar de o próprio ter vivido e construído sua filosofia antes do surgimento destas escolas.

Agora, chegando ao escopo principal de todas as deambulações que fizemos até aqui, na cisão entre atomistas e eleatas/monistas, que no meu modo de entender contém toda a fundamental divergência entre o ocidente e o oriente. Embora aqui se pretenda analisar apenas o aspecto filosófico desta questão, são posturas distintas que repercutem outras profundas diferenças estéticas, emocionais, religiosas, psíquicas, diferenças enfim culturais que tornam o oriente mais interiorizado e idealista/realista e o ocidente mais extrovertido, materialista e individualista.

A hipótese que eu pretendo sustentar é de que Parmênides e Demócrito estavam certos, cada qual na formulação do Ser e da matéria, assim como o ocidente está certo e o oriente também, apenas valorizando possibilidades diferentes de experenciar o mundo. Assim como o dia existir não torna a noite irreal e, sem nenhum juízo de valor, um dia inteiro é composto desde a mais extrema claridade de um lado até a escuridão do outro – na verdade um dia inteiro é composto de inúmeras gradações entre um e outro extremo. Não se pretende aqui colonizar um dos lados em favor do outro, o esforço é no sentido de fazer a junção entre o monismo de Parmênides e o atomismo de Demócrito. Mas fica a questão, como combinar posições que até hoje aparecem sempre atuando em lados contrários, como forças antagônicas, ou mesmo excludentes, na sua acepção mais radical; ou como combinar as duas visões em uma terceira perspectiva de mundo, coerente ainda, apesar de paradoxal, não contraditória, e que, ao contrário de se anularem ou descaracterizarem, combinem-se numa espécie de terceiro constructo de realidade? Essa é uma questão que gostaria de deixar em aberto e exposta ao debate.

Para incrementar ainda mais essa discussão, e fazendo o fechamento do tema, trago outro filósofo, agora dando um salto adiante no tempo de quase três mil anos – encontro ecos desta terceira possibilidade no pensador francês, nosso contemporâneo, Edgar Morin. Que vem nos dizer que o homem é, mas não pode ser conclamado unicamente à sua condição material ou animal (lembrando o átomo em Demócrito), ou a sua condição racional (Aristóteles), ou social, ou psíquica (Platão e o vazio de Demócrito), ou emocional (Empédocles), ou qualquer outra possibilidade excludente de outras. O que ele quer dizer é que não se pode separar os componentes de uma unidade sem a perda da mesma unidade. E afirmar ou teorizar o homem em compartimentos estanques, como dizer o homem é 40% isso, mais 35% daquilo e ainda 25% de outra coisa qualquer, é desprezar a realidade de que o homem é antes de qualquer outra coisa um todo indissoluto (Parmênides). Morin prefere dizer – contra toda a lógica do logos consensual moderno – de que o homem é desde sempre 100% biológico, 100% racional, 100% irracional, 100% emocional, 100% cultural, 100% psique, 100% loucura. Para Morin, o homem não é a soma de suas partes, nem de seus fragmentos, é antes um todo indiviso e a vivência plena dessa unidade, e só a coesão entre tudo o que ele é, poderá descrevê-lo de modo mais fidedigno ou dimensionar sua real grandeza – que no fundo é a sua condição de pequenez, penúria e desamparo (tal como em Sartre e Kierkegaard) frente ao tempo e espaço universal infinitos.

Por esse ângulo edgarmoriniano o que se vê, e o que se deseja, é a inteireza do ser. Inteireza, diga-se, com ênfase, na multiplicidade (Demócrito e Heráclito). O que se pretende é, por fim, a sinfonia que se ouve quando da harmonia entre as partes, como notas musicais formando no conjunto uma bela composição – no entanto, notas isoladas permanecem cada qual na sua singularidade, produzindo som, assim como flocos de neve são belos isolados sem jamais perderem suas características de “neve”. Atribuo ao pensamento complexo de Morin suporte teórico para se fazer a união entre o que até hoje em nossa história esteve separado, a junção entre atomistas e monistas, ou, se quiserem, idealistas e materialistas. O que se pretende é declaradamente um ser que ainda não existe, mas que precisa ser inventado, um ser que ao mesmo tempo seja único e múltiplo, e sem querer fazer dessa hipótese panaceia para todos os graves enfrentamentos que ainda teremos pela frente diante das crises e dos agravamentos trazidos pela modernidade tardia, simplesmente essa (im)possível junção entre o ser e o existir me parece, se não a melhor, a única alternativa de um possível projeto humano para o futuro.

“Se o homo é, ao mesmo tempo sapiens e demens, afetivo, lúdico, imaginário, poético, prosaico, se é um animal histérico, possuído por seus sonhos e, contudo, capaz de objetividade, de cálculo, de racionalidade, é, portanto, homo complexus.” O Método –5– Humanidade da Humanidade; Edgar Morin

Morin nos fala, então, não de um homo sapiens, mas do homo complexus. Não que o complexus, no dizer edgarmoriniano, exclua o sapiens, ao contrário, é importante perceber que simultaneamente à porção racional, existe também um lado demens atuando e outro faber contrapondo a outro ludens. A palavra complexus deriva de trama, daquilo que é tecido junto, quer significar o homem que se apercebe integrado a uma rede de possibilidades, em harmonia – por vezes dissonantes (como nos distintos modos de ver as relações, tanto em Empédocles como em Heráclito) – ao tecido social, enfim, não separado, vivido, estudado e desenvolvido cada uma de suas possibilidades à custa de outras.

Analisando o que até agora foi dito, o homem sem dúvida é e continuará sendo sapiens, faz parte de sua natureza a sabedoria, mas nunca será apenas sapiência, pois está longe de levar aquela existência ou ser aquele ser exclusivamente racional, por mais que muitos acreditem e ainda queiram ter esse ideal como o ápice a ser alcançado no estágio supremo da evolução humana – existe “estágio supremo”? essa é apenas a noção moderna bastante próxima ainda do pensamento iluminista, e que tinha no progresso contínuo, proporcionado pela razão científica, seu ponto de referência máximo, mas  que, na prática, só nos levou e continua nos levando, a espécie humana, até o limiar de uma possível extinção. Insistir nessa proposta de ter o homem racional como medida de todas as coisas parece suicídio. Afora isso, é preciso também em algum momento contemplar o homem faber, pois é com as mãos que o inventa as ferramentas que no trabalho dignificam sua vida. Também o lado ludens, pois sem a brincadeira – o jogo e o desejo – falta-lhe o ímpeto para a própria ação transformadora, para a criação.

Agora concluindo e partindo de vez para o pensamento sintético, entre o ócio criativo e a transpiração técnica podemos dizer faz-se o homem: que o faber, então, se contraponha ao ludens, mas que ambos se combinam na multiplicidade contraditória de toda existência real. E a parte demens, irracional, enlouquecida do homem, gosto de pensar que seja esta a sua melhor parte. Creio, quando se fala em porção “demência”, é onde está contido o inconsciente (incluam-se os arquétipos) com todos os seus devires possíveis.  A loucura contém mais do que apenas a insanidade, contém também a genialidade das melhores soluções e, suponho, a própria redenção humana – o inconsciente é a unidade na multiplicidade. É deste manancial que nos sussurra o daimon (Heráclito e Sócrates), a missão do gênio, misto demônio e mensageiro dos deuses, pois é a ponte do humano com o divino num tempo sagrado. Também eu acredito que se não houvesse essa parte demens no homem, ele sequer estaria mais aqui labutando entre os seus problemas, na prática insolúveis, sofrendo da eterna angústia da incerteza e da incompletude, condenado a essa dura liberdade de se inventar e reinventar todos os dias, condenado a se individuar (Sartre), pois há muito já teria faltado ao homem competência para dar conta da complexidade que é viver no mundo – a natureza nunca foi, nem nunca será racional. Do mesmo modo eu acredito que nenhum desejo-ludens, nem labuta-faber, seriam capazes, por si só, de construírem essa ponte do homem com novos devires e transcenderes que só podem estar no impensável do homem, na sua, enfim, loucura. Na coragem de se lançar no abismo com alegria – dançando, como queria Nietzsche, pois qual outro lado seu/nosso se disporia a tamanha desfaçatez? Só o lado demens do homem é passível de conviver com o paradoxo sem se desestruturar. A afirmação da vida (em Nietzsche e Espinosa), apesar da morte ser a única certeza, ainda é o que de mais belo e de novo pode ter o projeto humano para com o futuro da humanidade e do planeta, mais adiante do Universo, para o engrandecimento – consciência – de Deus. Ou alguém acha que nós estamos aqui apenas por estar e não para o engrandecimento da consciência de Deus?

Encerro com todas as cores estando ciente que tudo está contido na insanidade que é viver:


pentaculo


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15 Respostas to “Unidade & Dualidades: de como o monismo e atomismo nos pré-socráticos engendram o homo complexus de Edgar Morin”

  1. adi said

    Ufa!! li tudo.

    Sem, parabéns pelo post, difícil e denso, mas estah muito bonito, alem da aula sobre os filosofos. Eh um assunto de fundir a cuca e delicioso ao mesmo tempo.

    Sabe, quando voce falou que estava escrevendo sobre dualidade, me veio logo que era sobre “bem e mal”, que eh um dos assuntos que mais nos afligem, e difícil de entender.
    Embora, falar da dualidade eh falar da dualidade, independente de seu aspecto filosofico, religioso, cientifico, moral, etc…

    Sem, tenho lido sobre a dualidade com especial foco em Deus/Diabo e sobre a gênese e os mitos, ha algum tempo, desde 2002, e minha opinião sobre isso ficou mais definida nos últimos 2 anos, opinião que vez ou outra expresso aqui, e vem de encontro a “essa mistura”, claro, nao ha outra maneira de solucao das diferenças.

    E nem diria que eh a mistura dos contrários, mas eh descobrir-se “algo” que eh anterior a separação; e eh este pra mim o propósito da “existência” que estah separada somente na nossa percepção…

    Amanha eu volto pra comentar com tempo.

    bjs

  2. Fy said

    Sem,

    Não está só genial: tá surpreendente.

    Eu já li um monte de vzs.
    E já volto já.

    E, parabéns por tudo: pelas cores, pela poesia, pela apresentação enfim.

    O Morin, é um cara incrível: revolucionário. Just like Hillman.

    Não é? se eu estiver embaralhando tudo, me fale.

    O Hillman propõem que façamos alma. – qdo boa parte de um aculturamento está condicionada ao fato de que ela já vem pronta.

    O Morin, Maturana, Varela, e afins, oferecem uma outra visão, [ de como fazê-la] onde não predomina um raciocínio fragmentador (o modelo mental binário do “ou/ou”: ou amigo ou inimigo; ou bem ou mal; ou certo ou errado; ou ocidente ou oriente; etc.).

    Tampouco : prevalece o utopismo da primazia do todo e nem o sistemismo reducionista.

    Uma visão de mundo abrangente deve nascer da complementaridade, do entrelaçamento — do abraço, enfim — entre esses dois modelos mentais.

    Assim Morin denomina o pensamento complexo: o pensamento do abraço.

    Eu falei um pouco sobre isto no post da Adi. Esta forma de se buscar, considerando todos os fatores que o Morin sugere, – “tudo” o que somos e também o que nos cerca: momento, geografia, cultura, realidade e enfins…[ – “Somos”: o quanto isto nos afeta também.] A “viagem exterior” ganha uma importância inegável quando nos propomos a interagir com todos estes fatores, – um abraço – como partes que se complementam, não só em nossa busca pessoal mas também como uma forma de trazer isto para a vida.

    Penso que somos a consciência de deus. Da mesma forma que somos a consciência um dos outros também. Se nós não fôssemos, quem seria deus: se nós não fôssemos quem seríamos nós?

    Bjs

    Bjs

  3. Fy said

    Adi,

    – Sem, tenho lido sobre a dualidade com especial foco em Deus/Diabo –

    Sabe Adi, cada um de nós tem uma idéia mental sobre Deus/Diabo. Ela é tão engessada dependendo do material que a constituiu, que repare: vc escreveu os 2 nomes com letra maiúscula. Isto veste os 2 com a mesma importância.

    No fundo, no fundo, eu tenho sempre a impressão de que alguns conceitos são definitivos demais, e que talvez eles nos assombrem com a mesma intensidade, mesmo que os julguemos contraditórios entre si.

    – Uma brincadeira a la Morin, mas que tem um fundo de verdade:

    Dentro de mim existe
    um deus e um demônio
    que são tão amigos
    mas tão terrivelmente amigos
    que ficam juntos
    tomando porre
    e dizendo besteira

    Bjs

  4. adi said

    “Dentro de mim existe
    um deus e um demônio
    que são tão amigos
    mas tão terrivelmente amigos
    que ficam juntos
    tomando porre
    e dizendo besteira”

    Fy,

    Eles nao sao amigos, eles sao um soh. Dois aspectos de uma mesma realidade, assim como toda a dualidade.

    Foi uma epoca da minha vida no qual esse assunto tao enigmatico eu precisa compreender e solucionar cah comigo. Minha questao era: Se Deus eh a totalidade, entao ele abarca tanto o bem como o mal, pois o mal tambem faz parte da vida. Entao como pode isso??

    Mas nao tenho mais essas duvidas, essa parte jah estah ok .

    bjs

  5. Fy said

    Do mesmo modo eu acredito que nenhum desejo-ludens, nem labuta-faber, seriam capazes, por si só, de construírem essa ponte do homem com novos devires e transcenderes que só podem estar no impensável do homem, na sua, enfim, loucura. Na coragem de se lançar no abismo com alegria – dançando, como queria Nietzsche, pois qual outro lado seu/nosso se disporia a tamanha desfaçatez? Sem

    SE puderes/Sem angústia/E sem pressa (…) vai colhendo ilusões sucessivas no pomar (…)

    Só é tua a loucura/Onde, com lucidez, te reconheças»

    excertos de “Recomeça”, Miguel Torga

    Livro de Horas

    Aqui, diante de mim,

    Eu, pecador, me confesso

    De ser assim como sou.

    Me confesso o bom e o mau

    Que vão em leme da nau

    Nesta deriva em que vou.

    Me confesso

    Possesso

    Das virtudes teologais,

    Que são três,

    E dos pecados mortais

    Que são sete,

    Quando a terra não repete

    Que são mais.

    Me confesso

    O dono das minhas horas.

    O das facadas cegas e raivosas

    E das ternuras lúcidas e mansas.

    E de ser de qualquer modo

    Andanças

    Do mesmo todo.

    Me confesso de ser charco

    E luar de charco, à mistura.

    De ser a corda do arco

    Que atira setas acima

    E abaixo da minha altura.

    Me confesso de ser tudo

    Que possa nascer em mim.

    De ter raízes no chão

    Desta minha condição.

    Me confesso de Abel e de Caim.

    Me confesso de ser Homem.

    De ser o anjo caído

    Do tal céu que Deus governa;

    De ser o monstro saído

    Do buraco mais fundo da caverna.

    Me confesso de ser eu.

    Eu, tal e qual como vim

    Para dizer que sou eu

    Aqui, diante de mim!
    Miguel Torga

    Bjs

  6. Sem said

    Oi Adi,

    Pois é, assunto difícil e fascinante ao mesmo tempo.

    Estava devendo esse texto para vcs, mas, na verdade, ele é fruto de um trabalho egoísta da minha parte: buscando fundamentos na filosofia para pensar melhor essa questão das polaridades.

    Sabe que qd falo em dualidades estou sempre pensando em polaridades. No funcionamento dos arquétipos, que vêm sempre aos pares, afinal, são relacionáveis. como nas representações: puer-senex (juventude e velhice), eros-psiquê (espírito e alma), vênus-marte (amor e combate), sol-lua (masculino e feminino), ísis-hórus (mãe e filho), apolo-dionísio (razão e loucura). Ou ainda ego-self (individual e coletivo), e brincando (mas é sério) monismo-atomismo……

    E volto na questão das mandalas, não consigo tb dissociar a ideia das polaridades da imagem delas “funcionando”. Mandalas para mim são a visualização das polaridades em relação, tendendo sempre ao centro magnético, à simetria, imagino formas, cores vivas, em constante fluxo, mudando a aparência, trocando de cor, indo e voltando ao centro, mas sem perder a luminosidade, misturando-se sem se misturar de fato. O que ainda é um mistério pra mim é porque essa mandala viva não se descaracteriza, quer dizer porque não acontece como num caldeirão de sopa, onde o cozimento e a mistura constante resultaria numa sopa cremosa homogênea, mas não, é antes uma sopa de legumes em cubos, e por mais que se misture e cozinhe, cada pedaço mantém o seu formato, sabor e cor, paradoxalmente quando mais passa o tempo e se misturam os ingredientes, mais vivas ficam as cores e distintos os formatos. Faz alguma ideia pq é assim?

    Ao falar em dualidades neste texto não abordo essas questões, mas são elas que estão na base do meu pensamento; mais do que filosóficas e racionais, pra mim são questões de cunho espiritualista. Outra coisa que deixei de lado, de propósito, foi a perspectiva psicologia da questão, psicologia que é a minha melhor ferramenta, mas seria tanta coisa de uma vez só… sabe q por incrível que pareça, esse texto multifacetado jé é desmembrado de outro maior, que contém não propriamente pesquisa, mas o que eu mesma penso do assunto e tenho desenvolvido aos poucos, com lacunas… Não sei o quanto eu sou compreensível aos outros, eu me esforço nesse sentido, mas a complexidade do tema, aliado ao fato que ainda estou em processo de entendimento, muita coisa deve ficar no ar. Eu acho, Adi, que esse é o trabalho da minha vida, envolve um lado intelectual que poderia até render uma pós em filosofia, mas temo que não seja bem esse o caminho, é mais do que isso, é um sentimento estético, e mais ainda do que só percepção, é como eu sou e vejo que todos são – a ver com essência eu creio, é como eu quero me tornar cada vez mais e viver na realidade.

    Cada uma destas representações polares são mais do que somente relacionáveis aos pares, são entre elas todas. Por exemplo, se nós pegarmos um par qualquer, vamos com ele fatalmente chegar aos outros, de tal forma que no final tudo seria, ou formaria, uma única mandala múltipla imagética. Que no fim seria a mandala do universo – a mandala como representação e o próprio universo sendo o Ser, o arquétipo total – não precisamos ir muito longe, basta dar o universo pelas galáxias conhecidas, da teoria do big bang, que afinal de contas pressupõe um sistema fechado, finito portanto. Mas teriam outros universos se relacionando com esse, de dentro, pra fora, pros lados, ad infinitum? enlouquecerdor, não é? e muito real.

    Pra coisa ficar mais concreta, vamos partir então para uma dupla, vamos pegar apolo-dionísio, por exemplo, são mais do que apenas razão e desrazão se complementando pela interação amorosa ou belicosa, são como a luz e a sombra também, a luz da razão do deus Apolo contra a dubiedade e contradições do deus Dionísio, é a ordem apolínea contra o caos dionisíaco, e não é a toa que Apolo é então considerado o patrono de nossa cultura, é a herança misógina grega da sociedade patriarcal que recebemos e que a interpretação que demos desse deus. Todo o feminino é desvalorizado e sombrio, “mau”, em contratse com a objetividade e virilidade masculina. Apolo é esse representante viril, com e contra homens e mulheres, indistintamente, a força ativa, e Dionísio sempre mais passivo e próximo ao feminino. Evidente que teria de ser, quando pensamos numa relação complementar. E o filho em Dionísio, o Jesus, o cordeiro sacrificado e dilacerado, sendo Apolo o pai, o Sol, o uno. Poderíamos continuar, mas iríamos até o fim do universo e não temos tempo nem capacidade para isso. Fica a certeza, quer dizer, eu tenho a convicção de que no fundo tudo é uma coisa só, de que partindo de um par arquetípico chegaremos a todos os outros. Uma imagem eloquente nesse sentido é o símbolo da unidade yin-yang, o círculo branco-negro em movimento, se interpenetrando, gerando a energia que faz a roda do mundo se mover, o universo se mover, sendo o Tao a unidade/vazio.

    Acredito que o homem, e sempre q eu falo homem estou me referindo à natureza humana, pois nós, pela nossas características, com esses instrumentos que a natureza nos deu, não conseguimos dar conta da complexidade que é a vida. O que eu quero dizer com isso, imagine então uma moeda, ela tem cara e tem coroa, mas nós não conseguimos visualizar com os olhos que recemos da natureza os dois lados, não conseguimos. Ou vemos cara ou vemos coroa – sem falar que existe tb uma parte interna da moeda que não vemos nunca. Certo, construímos então instrumentos para ver, raios x e o pensamento imaginativo ou racional é tb instrumento para ver o invisível. O único modo de visualizarmos a moeda completa, cara-coroa, fora-dentro, é com a imaginação, e é isso que é o mundo das ideias de Platão, e por isso o Parmênides tinha razão ao dizer que nossa percepção pode nos conduzir ao erro e só a logica seria capaz de dar conta da totalidade. Mas não é justamente isso?alargando nossa consciência, engrandecemos Deus, já que tudo é Um?

    Adi: bem & mal ou bem X mal? bem e mal relativos ou absolutos? Isso é um tema de uma vida tb… me disponho a discutir sobre o assunto se for do seu interesse. Podemos migrar essa discussão para o tópico da Sombra que vc abriu recentemente. Acho que temos uma visão semelhante, só não quero nunca colocar juízos de valor nos arquétipos, pois nesse ponto concordo 100% com Jung, que enfatizou sempre bastante esse ponto – mas nem por isso ele deixava tb de considerar o valor subjetivo que cada pessoa encontrava nos “arquétipos” – no subjetivo sim entra a moralidade pessoal de cada um e da cultura…
    Só para aquecer com o fogo de Heráclito essa nossa conversa, olha o que ele diz nesse seu fragmento que nos chega de 2500 anos atrás: “Para Deus tudo é belo e bom e justo; os homens, contudo, julgam umas coisas injustas e outras justas.” É um ponto de vista sábio, pois tira o homem do centro da questão e coloca o arquétipo no seu lugar. Em complemento a esse pensamento de Heráclito tem ainda o Espinosa, dizendo que não existe o bem e o mal, o que existe são bons e maus encontros. Quer dizer, nos afetamos de modos diferentes e o que caracteriza um bom encontro, e o chamamos bom por isso, é tão somente aquele encontro que aumenta a nossa potência de vida, o mau encontro, ao contrário, diminui.

    Tá bom, chega, ando escrevendo, escrevendo muito, preciso parar com isso e voltar ao centro da mandala, ao equilíbrio do silêncio. Depois, quem fala muito não escuta, não é assim? 🙂

    Fy,

    Estava escrevendo todas essas coisas pra Adi, quando vi o seu comentário. É isso, Fy, é o que eu acho, o problema é esse “ou” da nossa cultura, que nos condiciona, impõe a escolha de um dos lados. Na verdade, nem é liberdade para escolher um dos dois lados, mas imposição do um só lado, o da cultura, que sabemos bem a inhaca que é.

    Divagando ainda mais nessa questão, sabe que o ponto não é que estar propriamente de um lado que é ruim, pq na prática temos mesmo de tomar decisões e escolher um dos lados para viver – quem vive bem em cima do muro? Uma convicção que eu tenho desde que li o Idade da Razão do Sartre é de que só vale a pena viver por uma causa que valha a pena morrer.. colocada a questão assim em termos dramáticos, como as vezes eu sou dada a fazer, é isso. 🙂

    Mas o aspecto “ou” negativo aflora com toda força quando escolhemos um lado e nos fixamos nesse lado “para sempre”. Passamos a considerar inimigos todos os que vivem do outro lado… e passamos tb a depender desse outro para poder manter a imagem que formamos. A realidade mesmo é que nós somos muito mais parecidos uns com os outros do que diferentes. Pois então, esse mal do “ou” é progressivo e começa nessa separação > fixação em um papel > imposição do papel contrário ao outro > positivação do nosso > anulação do outro > destruição do outro > destruição de nós mesmo.
    Quando a coisa toda seria consciência – convivendo junto ao imponderável.
    O problema do “ou” é o desrespeito, primeiro com o outro e depois com a gente mesmo.

    Só queria aproveitar a oportunidade e tocar em outro ponto desse assunto, sabe que uso pessoalmente dois símbolos para significar as relações, quando digo que os seres e coisas se aproximam por colaboração ou competição. O primeiro deles é o “&” (que fiz questão de usar no título para enfatizar a importância dessa união), e uso tb o “X” (versus)…. O versus não é ruim de todo, não seria portanto sinônimo do “ou” de que falávamos. O versus tem um lado positivo (como o & tb tem o seu lado negativo), no melhor deles, tenho cá pra mim, que o versus é um grande aliado do amor – amor verdadeiro – tô querendo dizer que o versus é um fator, e talvez seja o principal, que mantém a integridade dos pares numa relação… e só existe amor quando há relação e só existe relação quando há pelo menos dois sujeitos/objetos envolvidos…. manter a integridade é fundamental portanto numa relação de amor (bom encontro espinozista). Talvez o X seja o x a questão, como naquele meu exemplo pra a Adi, de a sopa de legumes não desandar. 🙂

  7. Sem said

    Obrigada a vcs duas, viu, pelas reflexões e poesias.

    Lembrei disso aqui:

    Dois amores · de paz e desespero ·
    Eu tenho que me inspiram noite e dia:
    Meu anjo bom é um homem puro e vero;
    O mau, uma mulher de tez sombria.
    Para levar a tentação a cabo,
    O feminino atrai meu anjo e vive
    A querer transformá-lo num diabo,
    Tentando-lhe a pureza com a lascívia.
    Se há de meu anjo corromper-se em demo
    Suspeito apenas, sem dizer que seja;
    Mas sendo ambos tão meus, e amigos, temo
    Que o anjo no fogo já do outro esteja.
    Nunca sabê-lo, embora desconfie,
    Até que o meu anjo contagie.

    Two loves I have of comfort and despair,
    Which like two spirits do suggest me still;
    The better angel is a man right fair,
    The worser spirit a womam, colour·d ill.
    To win me soon to hell, my female evil
    Tempteth my better angel from my side,
    And would corrupt my saint to be a devil,
    Wooing his purity with her foul pride.
    And whether that my angel be turn·d fiend
    Suspect I may, but no directly tell;
    But being both from me, both to each friend,
    I guess one angel in another·s hell:
    Yet this shall I ne·er know, but live in doubt,
    Till my bad angel fire my good one out.

    William Shakespeare

  8. adi said

    Sem,

    “a natureza nunca foi, nem nunca será racional. Do mesmo modo eu acredito que nenhum desejo-ludens, nem labuta-faber, seriam capazes, por si só, de construírem essa ponte do homem com novos devires e transcenderes que só podem estar no impensável do homem, na sua, enfim, loucura. Na coragem de se lançar no abismo com alegria – dançando, como queria Nietzsche, pois qual outro lado seu/nosso se disporia a tamanha desfaçatez? Só o lado demens do homem é passível de conviver com o paradoxo sem se desestruturar.”

    Do meu modesto entendimento, nao eh bem por esse lado que vejo, primeiro porque o lado demens do homem, ou o inconsciente como queira, nao eh estruturado, portanto nao ha paradoxo.

    Pra mim, essa questao da dualidade, independente de “monismo” ou “atomismo” ou “homo complexus”, o que no fundo significam tudo a mesma coisa: Arquetipo como potencia infinita de existir, no entanto ainda nao-eh.
    E nesse sentido podemos dizer que a totalidade eh sim a soma entre as partes, eh a juncao de seus fragmentos e ainda tambem como sugere Morin, a inteireza na multiplicidade.
    Eu percebo que cada qual a sua maneira e entendimento tentou descrever o “mesmo processo” atraves do qual surgiu a existencia da consciencia, e consequente dualidade. Um nao exclui o outro, mas se complementam.

    O Arquetipo em si, como potencia que eh de ser o que a imaginacao moldar, eh infinito em possibilidades…. porem, a partir do momento que toma uma forma, ele se limita em apenas uma possibilidade, entao como potencia ele contem o infinito de possibilidades, mas como “manifesto” ele soh pode aqui no espaco/tempo/limite ser um objeto… porem eh ao mesmo e unico tempo cada ser vivente manifesto, e em cada ser vivente realiza um pouco da sua potencia…

    … comecei escrever isso aqui 13h, parei pra atender o fone, fui almocar, fiz outras coisa, quando voltei, abri outra pagina no anoitan e jah tinha comentario seu… 🙂 :), vou postar esse aqui incompleto… e continuar no seu outro comentario 🙂 🙂

  9. adi said

    Sem,

    Nao ha necessidade da gente falar agora especificamente sobre bem/mal, falar sobre dualidade em sua raiz e origem jah abarca todas as polaridades.

    Eh um assunto complicadissimo, as vezes me vem uma compreensao que fica tudo tao claro, tao facil, ai eu penso; eh isso, eh isso!! mas na hora de organizar e colocar claramente por escrito ou mesmo no falar, me enrosco toda. 🙂

    Eh de fato a questao ou enigma de uma vida, com certeza.

    Como eu falava agorinha, o Arquetipo como manifestacao, tem que se limitar numa unica possibilidade de existencia, eu sou entao uma possibilidade do arquetipo que se coagulou, vc eh outra, e cada ser vivo eh uma…. do ponto de vista da potencia eh uma limitacao, onde ele se limita no espaco/tempo (cada corpo), e se atualiza atraves da consciencia, quando a mesma se desvencilha dos limites egoicos, e compreende-se o Arquetipo na parte que lhe cabe… mesmo assim ainda eh uma parte na manifestacao, e somente serah o proposito realizado quando todas as partes estiverem despertas da potencia.

    Eh como a sopa que voce descreveu, soh que ela de fato nao tem que se dissolver e virar um creme, mas a cenoura tem que continuar cenoura, a batata batata; porque cada peca do quebra cabeca representa um aspecto do potencial de ser infinito, no entanto no estado de potencia latente eh uma unica forca…
    Do ponto de vista do Arquetipo, sem a limitacao do eu, consequentemente sem a limitacao temporal/espacial, todas as encarnacoes em simultaneo realizam o potencial da manifestacao – a Totalidade.

    Ai, ai! acho que to complicando mais… minha cabeca ta ardendo… vou escrever a parte, organizar minha propria concepcao e depois escrevo aqui.

    bjs

  10. Fy said

    Sem,

    Mas o aspecto “ou” negativo aflora com toda força quando escolhemos um lado e nos fixamos nesse lado “para sempre”. Passamos a considerar inimigos todos os que vivem do outro lado… e passamos tb a depender desse outro para poder manter a imagem que formamos.

    Sem

    – Um ponto de vista, só em torno deste teu parágrafo e sua observação sobre as inhacas da Cultura:

    … Maturana afirma que nossa agressividade é (ou ainda é) de origem cultural. Sustenta, além disso, que somos seres que vivem na linguagem. Se esta desaparecesse, também desapareceríamos como humanos. Em – sua – tese : as crianças já nascem sabendo amar (isto é, se são biologicamente amorosas e às vezes agressivas), e, as conversações da cultura em que vivem é que fazem com que elas desaprendam o amor. Em conseqüência, passam a comportar-se de maneira agressiva, mesmo sendo geneticamente amorosas.

    Como se vê, o raciocínio de Maturana é biológico, e vê o amor NÃO como uma dimensão excepcional ou virtude transcendente, mas como um Fenômeno da Natureza. Nesse sentido, a vida amorosa é uma forma de exercermos essa condição. É o que ele denomina de Biologia do Amor.

    Mas esse reducionismo inicial abre caminho para reampliações: – Amar o outro significa reconhecê-lo e legitimá-lo, sem que ele precise de nenhum modo “justificar” a sua Humanidade.

    Todavia, vivemos em uma cultura em que prevalecem o não-reconhecimento e a exclusão.

    E de uma eterna busca do sentido de “ser” humano no alem do humano. Diante desta dificuldade, e a partir de uma insistente procura de algo alem do alem de nós: – porque a cada alem atingido mais insatisfeitos nos tornamos, nem nós e nem o outro é aceito como humano a priori: reservamos esse e qualquer privilégio para algo inatingível: – ou que pretendemos ter atingido ou que nos é necessário atingir – para e, a partir daí, pretendamos impor ao outro os nossos delírios e valores. Isso significa que passamos a exigir dele mais e mais provas de sua humanidade e, por mais que ele as forneça, estaremos sempre prontos a desqualificá-las.

    Precisamos sempre de algo que não seja humano. Mesmo em termos de transcedência: a sua transcedência é diferente da minha: então, ….é invalida….

    Neste aspecto a proposta do Morin, além de altamente produtiva e completamente verdadeira nos convida a explorar, sob um aspecto diferente, a “verdade” de que e do “como” somos humanos, e que nossos vários aspectos humanos são relevantes, diferentes entre si e, também nos lembra que estamos : no mundo e suas características elementais e básicas nos afeta; – no fundo somos um conjunto destes diferentes fatores – e precisamos explorar melhor e mais simplesmente, esta verdade.

    O que é? ser “humano”. Como ? ser “humano”. O que há de errado – e que não vem dando certo – na compreensão do “que” significa ser – “humano”? Até agora nos enchemos de diferentes certezas que, óbviamente não devem estar nos satisfazendo e nem melhorando sequer nossas condições elementares.

    Cabem aqui mais algumas reflexões. Se estamos há tanto tempo orientados para o desamor e para a agressividade, será que ainda há possibilidade de mudança? Ou, de maneira ainda mais pessimista, será que esse ponto já não foi ultrapassado e agora malhamos em ferro frio?

    É muito difícil responder, pois qualquer resposta só poderia ser dada nos termos dos: nossos condicionamentos.

    Somos seres autopoiéticos (auto-referenciais e auto-reprodutivos) e não há como fugir deste fato.

    Entre nós e o que esta fora de nós sempre existirá nós mesmos: que nos valemos das lentes, dos instrumentos de interpretação do mundo para traduzir o que chamamos de realidade.

    Mesmo em torno de verdades impostas, existe uma gama enorme de diferentes e pessoais interpretações. Nós somos a medida do conhecimento do mundo que nos cerca. Nós somos a dimensão de nosso mundo.

    Não reconhecer, não explorar, depreciar ou interpretar errôneamente e desvalorizar este aspecto humano, é inibir a possibilidade de explorarmos nossa natureza – é nos limitar a diferentes Certezas Prontas e, funcionar através delas agrupando-nos em grupos rivais.

    Até que consigamos reduzir ao menos um pouco essa limitação que tanto nos aprisiona: que se chama Certeza, eu acredito, Sem, que quaisquer tentativas nesse sentido levarão a conclusões equivocadas. De modo que nesse caso somos levados sempre a pensar em termos excludentes, como foi até aqui a nossa historia.

    A proposta do Morin e destes pensadores afins é uma mudança de Modelo Mental.
    E, sobretudo a proposta de desconstruir certezas ou a importância que atribuímos a elas:

    Em relação ao teu comentário:

    “Nosotros tendemos a vivir un mundo de certidunbre, de solidez percpetual indisputada, donde nuestras convicciones prueban que las cosas solo son de la manera que las vemos [ através da experiência de cada um ], y lo que nos parece cierto no puede tener outra alternativa.

    Es nuestra situación cotidiana, nuestra condición cultural, nuestro modo corriente de humanos.”

    Prosseguindo, os autores afirmam escrever o livro justamente para um convite a afastar, suspender este hábito da certeza, com o qual é impossível o dialógo:

    “Pues bien, todo este libro puede ser visto como una invitación a suspender nuestro hábito de caer em la tentación de la certitumbre.”
    MATURANA, Humberto e VARELA, Francisco, ob.cit.p.5

    Bjs

  11. adi said

    “Fica a certeza, quer dizer, eu tenho a convicção de que no fundo tudo é uma coisa só, de que partindo de um par arquetípico chegaremos a todos os outros. Uma imagem eloquente nesse sentido é o símbolo da unidade yin-yang, o círculo branco-negro em movimento, se interpenetrando, gerando a energia que faz a roda do mundo se mover, o universo se mover, sendo o Tao a unidade/vazio.”

    Sem,

    Eu tambem tenho essa certeza. Sabe o que eh interessante, eh que a dualidade surge a partir do momento onde surge a consciencia, surge na separacao do inconsciente, com isso tambem surgindo a percepcao do espaco e do tempo. Na realidade essa nocao de dualidade eh assim porque ha um “eu”, quando falamos eu, consequentemente ha o outro, ha toda a separacao.

    Ha um estado de consciencia onde a percepcao de “eu” se desfaz, desfazendo desse modo toda a dualidade da existencia, percebendo-se uma outra “coisa” que eh anterior ao eu, que eh precedente a divisao, que eh a verdadeira realidade, e que estah em todas as coisas, o proprio Arquetipo.

    Eh verdade, a gente pode discutir de diversas maneiras essa questao dualidade, mas a raiz disso tudo eh que quando nos percebemos como um “eu” nos separamos de todas as coisas, vemos todas as coisas divididas e somos obrigados a escolher um lado da coisa e se apartar ferrenhamente do outro lado, dividindo ainda mais, nos apegando ainda mais a realidade do “eu”, e eh essa estrutura que se auto sustenta, numa manutencao continua dessa ilusao.

    bjs

  12. adi said

    “E de uma eterna busca do sentido de “ser” humano no alem do humano. Diante desta dificuldade, e a partir de uma insistente procura de algo alem do alem de nós: – porque a cada alem atingido mais insatisfeitos nos tornamos, nem nós e nem o outro é aceito como humano a priori: reservamos esse e qualquer privilégio para algo inatingível: –”

    Fy,

    Sabe o que eh complicado entender, eh que nohs nao somos. O que ha e que busca, que move, que eh humano e que eh alem do humano, eh esse “algo” o Arquetipo, este “algo” eh o centro e eh a propria vida, manifesto e imanifesto…
    Nao eh inatingivel, EH aqui e agora tudo o que pode ser experienciado, visto, sentido, ouvido… fervilhante vida que estah em todo o canto, em cada lugar, em todo lugar…

    …soh nao percebemos isso. A busca nao eh algo fora, nem no alem de si-mesmo, mas antes eh, quanto mais conhecemos nossa propria essencia, mais nos integramos com todas as coisas, porque quanto mais nos tornamos consciente da essencia, mais a linha ilusoria da separatividade se desfaz, e nos tornamos humanos de fato, humanos totalmente plenos no mundo…

    Eh uma ilusao tambem achar que o buscar pela indiividuacao, ou pela iluminacao eh se apartar do mundo… muito pelo contrario… eh entrar nele verdadeiramente, na plenitude da existencia…

    Nao eh uma questao de trazer o divino pra vida, ou da vida se retirar para o alem e divino; mas eh simplesmente tirar ou se despir dos conceitos, crencas, daquela malha cultural que sustenta a ilusao de ser um eu, quando isso se desfaz percebe que o mundo jah eh perfeito, que o divino jah Eh aqui, sempre foi e sempre serah… o nirvana eh aqui, o Nirvana e o Samsara sao um soh, as polaridades se tornam unas novamente…

    bjs

  13. Mob said

    Sem,
    Belo texto.

    >e que o homem é desde sempre 100% biológico, 100% racional, 100% irracional, 100% emocional, 100% cultural, 100% psique, 100% loucura.

    Isso abre tantas possibilidades…. infinitas. E tem aquele poema do pessoa:

    Para ser grande, sê inteiro: nada
    Teu exagera ou exclui.

    Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
    No mínimo que fazes.

    Assim em cada lago a lua toda
    Brilha, porque alta vive.

    Mas a tendência é se identificar com a parcialidade. Fica mais fácil. Ser uma incerteza que vive, ainda que inteiramente, é mais difícil. Mas no fundo a gente sabe que não é só possível como forçoso.

    É importante a consciência do tempo em que vivemos, e que nos abre tanto quando fecha possibilidades. Tudo bem escolher uma tradição ou uma visao de mundo para contactar as realidade, os universos paralelos, o que vc chama de devires. Mas tudo isso é só um grande pretexto, e a facilidade para esquecer disso é, inicialmente, enorme. Aquela estória do dedo que aponta para a lua. Dá-se importância ao dedo e se esquece da lua. É tão simples. E o Krishnamurti é, ao meu ver, inigualável aqui: quando uma ideia/ideologia/fórmula toma lugar daquele que vive e sente, a liberdade (tão efêmera a princípio) dá lugar ao fetichismo. E o humano se reduz a objeto. Ao objeto que ele adora. Isso é o comum.

    Bjos, e belíssimo post. É do tipo que cria sementes e ensina com jeito, como nos melhores momentos do Malprg no F-A.

  14. Sem said

    Falando em lua, um clássico de nossa poesia:

    ISMÁLIA

    Quando Ismália enlouqueceu,
    Pôs-se na torre a sonhar…
    Viu uma lua no céu,
    Viu outra lua no mar.

    No sonho em que se perdeu,
    Banhou-se toda em luar…
    Queria subir ao céu,
    Queria descer ao mar…

    E, no desvario seu,
    Na torre pôs-se a cantar…
    Estava perto do céu,
    Estava longe do mar…

    E como um anjo pendeu
    As asas para voar…
    Queria a lua do céu,
    Queria a lua do mar…

    As asas que Deus lhe deu
    Ruflaram de par em par…
    Sua alma subiu ao céu,
    Seu corpo desceu ao mar…

    Alphonsus de Guimaraens

    Eu nunca tinha reparado antes, mas essa poesia pode ser interpretada de várias maneiras….

    Mob,
    grande capacidade de síntese a sua, o poema “para ser grande sê inteiro”, aliado – nem precisa muito – só a essas duas contraposições suas “Mas a tendência é se identificar com a parcialidade.” & “Ser uma incerteza que vive, ainda que inteiramente, é mais difícil.”, resumem de certa forma tudo o que eu queria dizer no post inteiro.

    E eu realmente acho que é importante viver o tempo que nos foi dado, mas, com vc disse tb, é só um pretexto e o dedo que aponta pra lua não é a lua… A existência deve ser vivida, mas esquecer da essência transforma o humano em objeto, e tudo vira objeto.

  15. […] de Demócrito. Este assunto, especificamente, foi pauta de outro post meu, pode ser lido por aqui. Neste de cá pretendo me demorar nas abordagens competitivas e/ou colaborativas que as pessoas […]

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