Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Os memes e o inconsciente

Posted by Filipe Wels em julho 15, 2009

Oscar Wilde tem aquela frase cérebre que diz que viver é algo restrito para poucos; o normal é existir. O debate sobre a legalização das pesquisas sobre células-tronco procurava saber se a vida começa na concepção ou quando o óvulo passa a ter condições para se desenvolver. Mas isso leva em conta a vida apenas no aspecto biólogico. E que podemos fazer sobre um aspecto não com o frio olhar científico, mas mais filosófico, de quando, afinal, começa a vida. Para responder a essa pergunta, precisamos levar em conta dois aspectos: os memes e o inconsciente.

Memes são o equivalente cultural dos genes, segundo o biólogo Richard Dawkins em sua clássica obra O Gene Egoísta. Assim como os genes passam de gereção para geração pelo DNA, os memes passam pelo cérebro ou por outras formas de armazenar informações, com os livros. Sao padroes cognitivos que passam de geração pra geração e filtram nossa percepção da realidade – e procuram condicionar, determinar, o comportamento humano.

Exemplo de meme muito fácil de detectar no Brasil é o força que possui o futebol. Praticamente todas as pessoas têm um time – porque foram condicionadas a isso ou por parentes, ou por amigos. Mas a grande maioria dos nossos pensamentos, crenças, idéias e dogmas são frutos de um condicionamento. Como a nossa ação é condicionada pelo nosso pensamento- e o próprio pensamento é fruto, ele mesmo, de um condicionamento-  a liberdade de escolha e o livre arbítrio que julgamos ter é ilusória em grande parte. Quando ” vivemos” como fruto de um condicionamento, não há vida, de fato, porque não temos consciência nem um próposito definido naquilo que fazemos. Desde cedo, somos condicionados a muitas coisas: estudar, trabalhar, namorar, casar, para , depois, enfim, morrer. Isso é o comum entre a grande maioria da humanidade, mas o que nos diferencia como seres humanos é justamente uma motivação, um propósito único para cada indivíduo, que realmente justique sua presença nesse mundo. Que faça valer a pena o corpo maravilhoso e os bilhões de neurônios que recebemos. Para isso, é realmente necessário ter um próposito e uma consciência de que por que estar aqui; e isto requer um conhecimento interior que jamais vem automaticamente. Ninguém sabe o que quer sem conhecer a si mesmo.

A vida é um milagre em si mesmo, mas poucos param para refletir sobre isso. A maioria pensa que com o nome uma profissão já sabe de tudo. É uma maneira de pensar muito ingênua. Precisamos resgatar uma educação que já se perdeu. Atualmente, há uma cultura massificada, recebemos pacotes de verdades e dogmas prontos desde crianças, bem como as direções e caminhos que devemos tomar. E vivemos, inconcientemente, seguindo justamente essas idéias meméticas, sem saber, de fato, o que estamos buscando ou que porque estamos fazendo isso.

Por isso, tal relação que o senso comum supõe existir entre idade e experiência de vida não existe. Ela é verdadeira em sociedades que valorizam a sabedoria- o que, certamente, não é o caso da nossa, que valoriza o conhecimento meramente intelectual para fins monetários  e não a experiência. Hoje em dia, isso depende muito da pessoa que se trate, e um senhor de 70 anos pode nao ter metade da experiência de um jovem de 20- assim como pode ter muito mais , mas, neste caso, o fato de ter 70 anos será apenas um coadjuvante e não motivo de ter tal experiência. Nenhuma pessoa tem experiência mais do que outra apenas por ter mais idade. Isso se deve a um conjunto de fatores.

“Vida” é algo que nao se ganha; se conquista. Compreender o significado do vida foi algo pretendido pelos maiores sábios do mundo- e justamente pelo esforço em adquirir tal entendimento que os transformou em verdadeiros sábios. Hoje, recebemos uma carga de condicionamentos, vivemos sem saber porque vivemos, quais inclinações nos motivam, quais própositos nos animam e damos como certas muitas coisas que não são verdadeiras, que deixariam de ser certas se lhes colocássemos uma interrogação, um porquê.

O tempo, por si mesmo, não leva a nada, senão a cristalização dessas ilusões. Quando questionamos uma idéia que mantínhamos há um ano, ou meses, é fácil mudar de opinião. Agora, como vamos aceitar que estivemos errados sobre algo que acreditamos com tanta convicção há 20, 30 anos? Como nossas escolhas e decisões são baseadas em nossas crenças, admitir isso seria admitir que vivemos 20 e 30 anos no caminho errado. Isso acaba sendo algo muito duro, portanto é muito mais cômodo , depois de uma certa idade, defender ferrenhamente nossas convicções a ter a atidade mais saudável de colocar um ponto de interrogação naquilo que julgamos como ponto pacífico.A sabedoria só vem quando aprendemos a amá-la, a buscá-la, a cultivá-la, e nossa cultura ocidental não favorece  isso.

Mas, onde está a causa disso? Porque somos tão suscetíveis a tais condicionamentos?

A resposta está no inconsciente – aquilo que acreditamos como verdade consciente ( e é um meme) também está presente no nosso inconsciente. Há um paralelo entre ambos. Freud dizia que nosso inconsciente tem uma ” herança ancestral” dos nossos antepassados, que chamava de ” resíduos arcaicos”. Assim como nós somos resultados de um longo processo de evolução biológica, nossa psique também recebeu essa formação ancestral. E há justamente essa formação do inconsciente de geração para geração, tal como nos memes.

Por isso, e eu insisto com isso, a única forma de manter contato com o inconsciente é auto-conhecimento. Há várias formas disso, como a “imaginação ativa” de Jung, interpretacao dos sonhos, auto-análise ou meditação. Conhecendo-nos, percebemos as ilusões que estão enraizadas nos recônditos da psique. Ilusão compreendida é ilusão desintegrada. Assim, com um longo processo de auto-conhecimento- que é o único caminho para a sabedoria- vamos, aos poucos, começando a viver- pois morremos para a fantasia presente na nossa psique para viver a realidade. Tiramos as travas nossos olhos, presentes na nossa psique, e começamos , gradualmente, a enxergar de fato a realidade.  E assim que se adquire experiência real, que é certamente o mais importante na vida de uma pessoa. Que não vem com a idade, com o tempo, com mera reflexão filosófica ou conhecimento intelectual.

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29 Respostas to “Os memes e o inconsciente”

  1. adi said

    Oi Filipe,

    Bem interessante o post sobre os memes, e claramente podemos interpreta-lo como o sistema, ou a matrix que nos condiciona.

    Eu soh nao entendi direito no final do post, vc diz:

    “A resposta está no inconsciente – aquilo que acreditamos como verdade consciente ( e é um meme) também está presente no nosso inconsciente. Há um paralelo entre ambos. Freud dizia que nosso inconsciente tem uma ” herança ancestral” dos nossos antepassados, que chamava de ” resíduos arcaicos”. Assim como nós somos resultados de um longo processo de evolução biológica, nossa psique também recebeu essa formação ancestral. E há justamente essa formação do inconsciente de geração para geração, tal como nos memes.”

    Deu a entender que os memes se originaram no inconsciente, ou que o inconsciente eh a causa dos memes? Eh isso? ou entendi errado?

    bjs
    adi

  2. Lex said

    Repostei teu texto em uma comunidade de Budismo e foi muito discutido.

    Eu concordo que a auto-análise e/ou meditação é o instrumento mais feliz para a realização de tal clareza de vivência.

    Desculpe se publiquei sem pedir – deixei o endereço de sua postagem (daqui) como referência – mas era totalmente contextualizado com nossos temas de debate, e cortar teu texto pareceu incorreto, assim virão alguns anônimos simpatizantes budistas visitar o “Anoitan” em busca de outras boas pérolas…

    Gasshô!!

  3. Fy said

    Filipe,

    Super legal esta relação entre Daath e a Mimética – Inconsciente e Inconsciente Coletivo.
    Podíamos ir mais longe: Memória Genética, a ressonância morfológica de Sheldrake e por aí vai.

    … só falta colocarmos um pouquinho de Deleuze , rizomas e devires pra desconstruir um pouco este lance de herança mimética ou mimetismos [ que me parece um pouco “pronta” demais no sentido de minimizar a infinita capacidade de criação e devir implícita na natureza humana], e remexer tudo isto com Hillman e a nossa “fazeção” de alma,

    – e principalmente com esta tua observação que eu gostei muito:

    “mas o que nos diferencia como seres humanos é justamente uma motivação, um propósito único para cada indivíduo, que realmente justique sua presença nesse mundo. Que faça valer a pena o corpo maravilhoso e os bilhões de neurônios que recebemos. Para isso, é realmente necessário ter um próposito e uma consciência de que por que estar aqui; e isto requer um conhecimento interior que jamais vem automaticamente. Ninguém sabe o que quer sem conhecer a si mesmo.”

    – esticando ela um pouquinho:

    Bandler afirma haver uma irredutível diferença entre o mundo e a nossa experiência sobre o mesmo. O pensamento, em seu desenvolvimento espontâneo, tem uma necessidade imperiosa de emancipar-se da realidade dos fatos apresentados pelos nossos sentidos.

    Seria este, o mais importante e brilhante mecanismo responsável por nossa capacidade de abstração e de criação. Sem ele, a espontaneidade e a liberdade estariam irremediavelmente comprometidas.

    Existir como pessoa significa ultrapassar o verídico e o cultural, desenvolver uma concepção interior do mundo com características próprias, porém, mantendo-se sempre razoavelmente ligado à uma realidade recomendada pela concordância cultural. Como diz o ditado, “a aventura pode ser louca, o aventureiro, porém, necessariamente dever ser lúcido”.

    A capacidade da pessoa ser ela mesma está em seu esforço (e em seu sucesso) em compatibilizar o seu mundo interior com a realidade externa, controlar seu mundo de forma a viver nele dominando-o de maneira realística.

    Existe uma parcela de nossa consciência que é emancipada da objetividade exclusiva dos fatos e do mundo dos sentidos, uma parte que nos torna únicos na maneira de ser e sentir o mundo.

    Existe também, uma outra parcela da consciência que nos identifica a todos como membros de um mesmo sistema sócio-cultural, compatível com uma concordância coletiva e consensual. Allport facilita esta situação ao sugerir a Procepção Individual e a Procepção Cultural.

    Esta última, representa o depositário das respostas culturalmente atreladas em nossa personalidade, respostas culturais a determinados fatos vividos. A poligamia, por exemplo, é diferentemente representada pela cultura cristã ocidental e pela cultura islâmica oriental.

    Resumindo, podemos dizer que todo ser humano tem uma maneira peculiar e muito pessoal de representar a sua realidade, e faz isso com um arbítrio suficiente para libertá-lo do estreito mundo dos sentidos. Por causa disso ele é capaz de criar, abstrair, pensar além do real e sonhar.

    Bjs

  4. Fy said

    Adi,

    “Deu a entender que os memes se originaram no inconsciente, ou que o inconsciente eh a causa dos memes? Eh isso? ou entendi errado?”

    Aqui tem uma explicação pra tua pergunta:

    Em português, temos o prefixo mimeo, do grego miméomai (imitar por gestos). Mimeografar é tirar cópias com o mimeógrafo, máquina que antecedeu as copiadoras “xerox”. Mimese é uma figura de retórica que consiste no uso do discurso direto e principalmente na imitação do gesto, voz e palavras de outrem.

    Mimetismo é o fenômeno consistente em tomarem animais a cor e configuração dos objetos em cujo meio vivem, ou de outros animais de grupos diferentes. Ocorre no camaleão, em borboletas, etc. Mimetizar é adquirir por mimetismo, camuflar-se (Novo Dicionário Aurélio).

    Mimética é o nome de um novo campo da ciência, que analisa as transferências culturais. Sabe-se que o comportamento humano é determinado pela hereditariedade e pela cultura. A transmissão dos caracteres hereditários é hoje explicada pela genética.

    Com a mimética, trata-se de explicar a transmissão dos caracteres culturais. Aos genes, que explicam a transmissão hereditária, correspondem os “mimes”, que são unidades de informação intelectual ou cultural que passam de pessoa a pessoa.

    Mime é, assim, uma unidade de cópia. Idéias, melodias, comportamentos, valores, modas, invenções, modos de fazer ou de dizer, tudo são mimes, que podem ser copiados com certo grau de fidelidade.

    A evolução da cultura é explicada a partir dos mimes, assim como a biológica o é a partir dos genes. A mente humana é assim visualizada como um campo de desenvolvimento de mimes. Eles a infetam como parasitas e propagam-se por contágio.

    A expressão inglesa mime, que estamos a traduzir por “mime”, foi cunhada por Dawkins (The selfish gene, 1976), por analogia com “gene”. Uma idéia ou informação somente assume a natureza de mime quando replicada, isto é, quando copiada ou repetida por outrem. Todo conhecimento transmite-se mimeticamente.

    Os memes tramitem-se verticalmente, de geração para geração, ou horizontalmente, entre contemporâneos. O mime é transmitido de um para outro indivíduo. A transmissão é vista como replicação: uma cópia do mime é transladada para outro indivíduo.

    O mime como que se auto-reproduz, espalhando-se por um crescente grupo de indivíduos.
    Alguns propagam-se mais facilmente do que outros ou têm maior longevidade. Para os homens podem ser bons ou maus. A propagação do hábito do fumo é um bom exemplo de transmissão de mimes perniciosos para seus portadores.

    A evolução da cultura, inclusive a do saber, é apresentada como obediente aos mesmos princípios de variação e seleção descritos na evolução biológica. A língua e a religião constituem conjuntos de mimes: mimes complexos.

    Nem todos os mimes têm igual capacidade de reprodução. Dawkins aponta três características para que um mime seja um bem sucedido:

    a) a fidelidade, isto é, a aptidão para serem fielmente copiados, de modo que seja possível reconhecer o original nas cópias que vão sendo feitas;

    b) a fecundidade, que envolve a maior ou menor facilidade com que ocorrem as cópias.

    c) longevidade, que diz respeito à duração do mime. O poema que Anchieta escreveu na areia desapareceu com o primeiro vento que soprou.

    Essas são características que também se encontram nos genes. Ao passo, porém, que estes se transmitem apenas verticalmente, de pais para filhos, os mimes transmitem-se também horizontalmente, o que os aproximam das infeccões e dos parasitas. Há, também, maior fidelidade na transmissão dos genes.
    Os mimes estão mais sujeitos a alterações decorrentes da mente de cada um.

    Embora apontem-se casos de cópias no mundo animal, os mimes são característicamente humanos.

    Homem é o animal que tem “capacidade” de copiar. Embora se utilize a expressão “macaquear”, para indicar pejorativamente a imitação, esta é muito mais própria dos homens do que dos macacos. É graças a essa capacidade que a cultura se desenvolve.

    A capacidade de imitar deu aos seus portadores uma vantagem transmitida aos descendentes. Assim, sobreviveram as estirpes dos que melhor sabiam imitar. Significa isso que os genes que produziram o homem foram por sua vez influenciados pelos mimes por eles criados, num movimento de causação circular.

    Podemos, enfim, definir “mimética” como a ciência que estuda a evolução dos mimes. Trata-se de estudar as mutações e recombinações de sua estrutura. Assim como os genes, os mimes competem entre si, por limitado o espaço cerebral em que podem sobreviver.
    Alguns são vencedores, outros logo desaparecem. Os estudos de mimética podem levar a previsões sobre os mimes mais vocacionados à vitória na competição com os demais.

    Bjs

  5. adi said

    Oi Fy,

    Obrigado pela explicacao, agora ficou mais claro.

    Podemos dizer entao, que os mimes sao como “veiculos” propagadores das ideias, costumes, etc.

    Os mimes nao sao a “ideia” em si, mas a capacidade de reproducao, de copia, de transferencia de alguma coisa, e a partir do momento em que “a coisa em si” eh copiada, ou transferida, esta se torna um “mime”.

    Isso explicaria o fato de que uma nova ideia pode influenciar em 10% a populacao.

    Muito interessante… e hoje entao com o evento da TV e radio e internet, do marketing, se propaga “subliminarmente” ateh, muito mais rapido qualquer coisa que se queira, coisas boas e nem tao boas assim…

    bjs
    adi

  6. Fy said

    Adi,

    Há algum tempo atrás, eu participei de uma discussão sobre Mimética. À princípio, é, sim uma teoria coerente. Tem, inclusive uma similaridade com o Inconsciente Coletivo, com os Registros Akáshicos – acho q é assim q escreve – no esoterismo, etc… e, com Daath.

    Mas à medida que fui me aprofundando mais um pouquinho, cheguei no livro da Suzan Blackmore: “The meme machine” – que é uma defensora desta teoria.

    Neste estágio, não consegui concordar exatamente com tudo o que ela afirma; pq ela nos coloca, ou coloca nossas mentes, literalmente como encubadeiras propícias – e indefesas – ao desenvolvimento de mimes. “Eles as infectam como parasitas e propagam-se por contágio.” E compromete completamente nossa capacidade ou o tal do “brilhante mecanismo responsável por nossa capacidade de abstração e de criação. Sem ele, a espontaneidade e a liberdade estariam irremediavelmente comprometidas.” – como coloquei no outro coment.

    E, alongando mais um pouquinho: “Existir como pessoa significa ultrapassar o verídico e o cultural, desenvolver uma concepção interior do mundo com características próprias,…”

    Caso vc queira, aqui tem a palestra dela sobre Mimes, senão me engano são 3 partes. A 1° é excelente, e nas 2 últimas ela já demonstra um certo fatalismo em torno da teoria:

    Bjs

  7. adi said

    Fy,

    Exatamente esse era o ponto que achei interessante, e que de uma certa forma, complicado de concordar, por isso queria entender melhor.

    Pelo que entendi memes eh como e tao somente o meio que “a coisa” se propaga, como um agente da matrix, ou do sistema de auto-perpetuacao, reproducao… enfim, mas nao chega a ser exatamente a “ideia” em si.
    Nesse sentido, tambem nao pode ser comparado ao inconsciente, pois o que emana do inconsciente eh a “ideia” original, inacessivel de certa forma, desconhecido, criativo, arquetipico, etc…

    Fy,
    Estou tentando entender “direitinho” essa parte toda, porque estou percebendo uma correlacao um pouco distorcida que entendia sobre essa natureza inconsciente, e de certa forma confundimos com o “consciente coletivo” subliminar.
    Quando comecei escrever sobre Daath, e de quando essa energia emana de Binah para esse mundo formativo, de certa forma nao eh uma energia totalmente “inconsciente”, e pode ser comparada ao registro Akashico. Segundo os esoteristas o registro Akashico eh mais ou menos como o carma individual e coletivo, ou seja eh o registro de todas as acoes cometidas pelo individuo e pelo coletivo como um todo. Sendo assim, eh inconsciente no sentido que nao podemos ter consciencia de tudo o que jah foi feito pela humanidade, mas nao no sentido arquetipico, original, novo. Ou seja sao velhas ideias se perpetuando e se fechando numa casca vazia impedindo o “novo” de se infiltrar. Como o sistema que se auto-perpetua no recalcar, controlar, filtrar, reprimir o criativo.

    Voce tem total razao em nao concordar. Ainda nao estah totalmente claro aqui comigo, estou desenvolvendo melhor, mas pra mim ha como que 3 tipos de inconsciencia, nao que podemos dividi-la de fato, mas soh estou usando dessa forma pra primeiro entender.
    1) Primeiro ha o inconsciente pessoal, aquele que eh a sombra pessoal, composta de elementos reprimidos pelo ego individual, como sendo o carma individual de cada ser humano, o que em primeira instancia ha que ser conhecido e superado. E como podemos perceber sao elementos recalcados que num primeiro momento chegaram a consciencia mas que foram reprimidos e separados colocados novamente na inconsciencia do ser.

    2) Segundo ha o inconsciente coletivo, nesse mesmo sentido, como a somatoria de todos os elementos reprimidos pela sociedade, como a sombra coletiva projetada no coletivo. Por exemplo se dah em termos de preconceito coletivo, perseguicoes coletivas como ao povo Judeu, guerras por intolerancia sejam elas religiosas, culturais, etc, tudo o que abrange o coletivo contra o proprio coletivo. Esse seria o sistema egoico coletivo que se mantem baseado na repressao dos elementos pessoais que se transformam no coletivo, se retro-alimentando. E sao inconscientes no mesmo sentido que somos inconscientes de nossa pequena sombra pessoal.
    Mas que nao sao completamente inconscientes, pois esses um dia por algum instante jah fizeram parte da consciencia, mas sao “reprimidos”.

    3) Terceiro ha o inconsciente Arquetipico, potencial, como o pleroma dos gnosticos. Sao de outra natureza, pois sao elementos impessoais, ilimitados em possibilidades. Esse seria associado ao nosso potencial mais intimo ainda nao realizado em nos, o nosso Self, ou Deus interior, por isso nao pode ser comparado ao segundo tipo de inconsciente coletivo que eh o reprimido; mas eh de uma natureza libertadora.

    Eu fico imaginando que ao mesmo tempo esses 3 tipos de energia, vamos dizer assim, estah conectado um ao outro, eh abrangente, assim como o planeta Terra estah para o Sol, e o sistema Solar estah uma constelacao de estrelas, talvez um pouco mais uma Galaxia. Sabe do menor ao maior, um estah dentro do outro.

    Vou elaborar melhor tudo isso, porque num primeiro momento, podemos dizer que memes faz parte do inconsciente sim, mas daquela forma que entendo, de material reprimido; Jah que estamos falando em Daath, podemos dizer que memes como coletivo se trata de energia de abaixo do abismo, e o inconsciente arquetipico trata do desconhecido de acima do abismo de Daath.

    bjs

  8. Fy said

    Adi,

    Muiiiito bem pela exposição, tá super bem elaborada.

    Já já eu volto.

    Bjs

  9. Filipe Wels said

    Que bom o assunto rendeu!

    “Deu a entender que os memes se originaram no inconsciente, ou que o inconsciente eh a causa dos memes? Eh isso? ou entendi errado? ”

    Eu quis dizer que há um paralelo entre os dois. Da mesma forma que herdamos idéias, crenças, dogmas, padroes de pensamento que condicionam nosso comportamento, nosso inconsciente também tem essa herença. Tal como é dentro, é fora!

    Por exemplo, é muito comum entre adolescentes de 16,17 anos irem em bordéis para perderem a virginidade. Pensam que isso é um ritual de iniciacao na vida adulta, e que agora seriam homem, adultos, só por causa disso- mesmo que a mentalidade continue a de um adolescente. Agora, mesmo que vc compreenda que isso é uma bobagem, e se livre desse conceito, ele continua presente no inconsciente, e continua , portanto, a influenciar seu comportamento, mesmo que nao se de conta disso.

    Há um parelelo no inconsciente que permite q replicacao memética. Por isso, apenas o auto-conhecimento pode nos libertar do condicionamento. Ter um comportamento crítico com tudo o que somos condicionados a pensar e a acreditar é importante, mas nao suficiente.

  10. adi said

    Oi Filipe,

    “”Que bom o assunto rendeu!””
    Eh um assunto bem interessante, muito bom de ser analisado, entendido…

    “”Eu quis dizer que há um paralelo entre os dois. Da mesma forma que herdamos idéias, crenças, dogmas, padroes de pensamento que condicionam nosso comportamento, nosso inconsciente também tem essa herença. Tal como é dentro, é fora!””

    Entao Filipe, eu entendo um pouco diferente isso. Segundo Freud sim, nos recebemos por heranca. Agora Jung elaborou melhor sobre o inconsciente e nao concordava com o mesmo conceito de Freud.
    Segundo Jung, os conteudos do inconsciente coletivo jamais estiveram presentes na consciencia e refletem processos arquetipicos, processos esses que sao de carater criativos funcionando a servico do individuo e da especie.
    Diferentemente dos memes, esses conteudos inconscientes arquetipicos esperam o momento certo de se manifestarem na vida do individuo, sao conteudos de carater universais, na maioria das vezes de carater numinoso, religioso, e tambem podem ser percebidos nos comportamentos externos, como por ex. experiencias basicas e universais da vida tais como nascimento, casamento, maternidade, separacao, etc…
    Se utilizam de linguagem simbolica e mitoligica.

    Como se percebe, eh muito diferente de um comportamento imitado, onde a informacao pronta penetra na mente.

    Por isso o meu questionamento; eu percebo, que fazemos confusao quando falamos de inconsciente, pois em relacao ao memes se refere justo ao “consciente” coletivo. Material esse que como o sistema matrix se infiltra na mente limitando o ser, se propaga de forma subliminar, como a Fy colocou acima, sao unidades de informacao e cultural, sao copias de ideias, musicas, moda… sendo assim nao sao inconscientes, mas fazem parte do “consciente” coletivo.

    Mas sem duvida um assunto bem interessante, e nao precisa concordar comigo nao, tah. 🙂

    bjs

  11. Filipe Wels said

    Oi, Adi!
    Sim, vc tem razao nesse ponto. O proprio post do F.A sob o conceito de arquetipo fala sobre isso- com a evolucao do conceito, Jung retirou a ideia de uma certa herança genética. Tanto que eu nem falei no Jung, exceto no final.

    Segundo o Freud, há uma passagem de geracao pra geracao, tal como os memes. Mas indo além de teorias e psicologos e partindo para o campo da experimentacao pessoal ( até pq meu conhecimento teorico nesse ponto é muito pequeno e nao quero me aventurar nisso 😉 ) o que podemos perceber é que há esse paralelo entre ideias que sustentamso conscientmente (e sao memeticas) e ideias que temos inconscientemente, e influenciam nosso comportamento ( que sao psicologicas). Entao, nao ha uma possibilidade de uma real transformacao sem contato íntimo com a propria psique- mesmo que haja uma postura de negacao em relacao aos valores que nos sao repassados socialmente.

  12. adi said

    Filipe,

    Mas estah otimo o post, e pra mim foi muito bom esse questionamento, porque me ocorreu um insight sobre esses assuntos de consciente e inconsciente e de Carma, olha soh, e de certa forma tem haver com “memes”.

    Voce tambem nao deixa de ter razao quanto a essa “estrutura” herdada. Voce sabe que mesmo falando em termos psicologicos estah tudo ligado com a parte fisica e espiritual, um atuando no outro.

    Vou tentar elaborar melhor essa ideia e escrever um post sobre isso.

    valeu.

  13. Luiz F (Lúdico Medieval) said

    O deus meme é realmente inexorável. Não há como livrar-se dele, pois que é onipotente/presente/sciente.

    Se estou comentando neste post (por sinal muito interessante, mesmo eu não sendo adepto do Budismo) foi porque a tag, ops, o meme filosofia me levou a clicar nela(tag)/nele(meme?) e assim me possibilitou o conhecimento deste blog.

    E indo mais além, poderíamos dizer que o teme, ou replicador tecnológico (seria isso?) teve a amabilidade de me conceder o acesso a internet.

    Viva os memes?! \o/

    Att!

  14. Fy said

    Adi e Filipe

    Por isso o meu questionamento; eu percebo, que fazemos confusao quando falamos de inconsciente, pois em relacao ao memes se refere justo ao “consciente” coletivo. Material esse que como o sistema matrix se infiltra na mente limitando o ser, se propaga de forma subliminar, como a Fy colocou acima, sao unidades de informacao e cultural, sao copias de ideias, musicas, moda… sendo assim nao sao inconscientes, mas fazem parte do “consciente” coletivo. > Adi

    -perfeito, Adi: é assim que tb compreendo.

    Entao, nao ha uma possibilidade de uma real transformacao sem contato íntimo com a propria psique- mesmo que haja uma postura de negacao em relacao aos valores que nos sao repassados socialmente. > Felipi

    – perfeito tambem.

    – Eu não consegui “só” colocar o link; copiei mesmo, pq é muito boa mesmo esta explicação do Lucio; e vem de encontro às conclusões acima:

    A consciência individual existe num estreito limiar entre as estruturas limitadoras da consciência coletiva e o abismo infinito do inconsciente coletivo, entre as forças da realidade interior que a empurram em direção à ampliação de suas fronteiras e a resistência da realidade exterior que, mais por um automatismo homeostático do que por perversidade, faz o possível para impedir esse crescimento.

    “ É entre esses dois extremos que o indivíduo precisa se virar como pode, e nossas vidas são um registro da sucessão de compromissos, alianças e movimentos que fazemos entre um pólo e outro.”

    Curiosamente, quando a maior parte das pessoas usa a expressão inconsciente coletivo no quotidiano, não é de fato o inconsciente coletivo que elas têm em mente, mas a “consciência coletiva”:

    o conjunto de representações, imagens, padrões de pensamento e comportamento (numa palavra: a ideologia) que a sociedade impõe sobre todos e que determina boa parte de nossas atitudes do instante que nascemos até o momento de nossa morte, e que, na maior parte dos casos, com não pouco prejuízo para nosso bem-estar psíquico e espiritual, nos leva a abrir mão de nossa individualidade em prol de um papel social, uma identidade construída a partir de modelos externos e à qual nos apegamos tão completamente que a confundimos com nosso ser verdadeiro. Essa máscara que pensamos ser nosso rosto é, evidentemente, o bom e velho ego.

    No esoterismo, as representações que constituem a consciência coletiva são às vezes chamadas de egrégoras, formas-pensamento compartilhadas por todo um grupo, do qual extraem a energia de que precisam para se perpetuar e em relação ao qual adquirem uma existência quase independente.

    No antigo gnosticismo, esses padrões ideológicos que determinam a percepção que temos de nós mesmos e do mundo eram representados com a figura dos arcontes, enquanto o demiurgo, o falso deus criador de um falso mundo, personificava o próprio ego, o eixo dessa perspectiva ilusória.

    O inconsciente coletivo, por sua vez, é o oposto disso tudo. Jung mesmo reconhecia que o nome foi mal escolhido e, mais tarde, tentou substituir a expressão “inconsciente coletivo” pela designação muito mais adequada de psique objetiva, mas já era tarde. “Inconsciente coletivo” mostrou-se um meme bem-sucedido e, paradoxalmente, ganhou um lugar de destaque na consciência coletiva, onde seu significado foi distorcido a ponto de se inverter.

    Enquanto as estruturas da consciencia coletiva (isto é, os arcontes) são determinadas por forças sociais, políticas e culturais, os arquétipos do inconsciente coletivo demonstram uma “independência quase total em relação à sociedade”.

    Ainda que as formas pelas quais nós os simbolizamos sejam “coloridas pela cultura”, a coisa que elas simbolizam (ou seja, o arquétipo) é anterior a qualquer sociedade ou cultura, anterior até mesmo aos seres humanos.

    De fato, se as especulações de Jung e Pauli sobre a relação entre a psicologia profunda e a mecânica quântica estiverem corretas, pode-se dizer que os arquétipos são as forças primais da realidade, exatamente como os éons no gnosticismo.

    Dessa forma, se o inconsciente coletivo é o lugar onde se situam os arquétipos, segue-se que ele corresponde, nem mais e nem menos, do que ao que os gnósticos chamavam de pleroma (“plenitude”), que é a realidade primordial da qual o nosso mundo criado pelos arcontes não passa de uma cópia distorcida.

    Autor: O Franco Atirador

    Fonte:

    http://malprg.blogs.com/francoatirador/2004/11/arqutipos_e_arc.html

    – Este post do Felipi tá excelente mesmo!

    Bjs

  15. Fy said

    – continuando:

    Como é que um arquétipo se transforma em um arconte?

    Isto é, quando é que uma imagem ou estrutura arquetípica deixa de ser uma força viva para se tornar um estereótipo coercitivo?

    – ou seja, – quando é que perdemos o contato com nosso caminho pessoal em busca do auto-conhecimento e passamos a viajar em memes auto-resistentes – ?

    Se lermos o mito gnóstico de Sophia com atenção, encontramos a resposta:

    1. Sophia, a alma/imaginação/psique/consciência, se aliena de suas raízes arquetípicas.

    2. Em seu desespero, ela projeta suas emoções para fora de si mesma. Essas emoções, bastante provavelmente, devem ser encaradas como uma manifestação emocional dos mesmos arquétipos dos quais ela se alienou. Assim, a projeção das emoções e a queda de Sophia não são dois momentos concomitantes, mas duas descrições do mesmo processo.

    3. Essas emoções alienadas se transformam primeiro na matéria e em seguida no demiurgo. Quer dizer, é a alienação de Sophia que dá origem à dicotomia sujeito (demiurgo)/objeto (matéria).

    4. O demiurgo produz os arcontes a partir de si mesmo. Quer dizer, os arcontes são imagens arquetípicas na origem, mas alienadas, projetada pelo ego sobre o mundo exterior.

    5. Em seguida, o demiurgo e os arcontes utilizam a matéria para construir a falsa realidade que habitamos.

    6.Dessa forma, podemos ver com clareza que os arcontes são imagens ou estruturas arquetípicas que perderam o contato com os arquétipos e se tornaram formas ocas, flutuando no vazio.
    Uma vez que não têm mais uma conexão direta com as forças arquetípicas que as originaram, e como não dispõem de energia própria, são obrigados, para se manter, a roubar energia da consciência. –

    – Obs: isto está bem explicado nos vídeos da Blackmore que eu coloquei lá em cima. –

    É por esse motivo que as estruturas sociais são por natureza repressivas: sua função é alimentar os arcontes com a energia desviada da consciência pela repressão.

    Conseqüentemente, a maneira de combater os arcontes não é pela oposição direta a eles. Como os arcontes são fantasmas sem substância, que dependem de energia alheia para subsistirem, quanto mais energia lhes dermos, mesmo sob a forma de oposição, mais eles se fortalecem.

    A maneira correta de transcender a dominação pelos arcontes é restabelecer a ligação entre a consciência e suas raízes arquetípicas.

    Dessa forma, os arcontes deixam de ser estruturas ocas e são novamente preenchidos pela energia dos arquétipos. Os demônios tornam-se deuses ou, parafraseando McLuhan, do clichê passa-se ao arquétipo.

    Autor: O Franco Atirador
    Fonte: http://malprg.blogs.com/francoatirador/2004/11/arqutipos_e_arc.html

    Bjs

  16. adi said

    Oi Luiz, seja muito bem vindo aqui no Anoitan.

    Eu nao sei se seria bem por ai;
    eu e a Fy estamos justamente falando sobre isso; de certa forma entendo o “meme” como o falso deus, como o demiurgo que se mantem vivo na sua replicacao de ideias e padroes de comportamento que de certa forma nos impedem de perceber a “verdadeira realidade”. Exatamente como foi colocado acima no excelente post do Franco Atirador.

    Eh mais ou menos como o “sistema” do filme matrix.

    abs

  17. adi said

    Fy,

    Sempre grande Lucio, nao tem igual, quanta clareza que ele tem ao explanar qualquer coisa que ele queira. O Lucio eh assim, nao deixa duvidas. Saudades dos “excelentes posts” dele.

    Foi nesse sentido que quiz dizer que o “que nos parece inconsciente coletivo, na verdade eh o consciente coletivo”, e que temos uma tendendia a ver da maneira oposta.

    Ao mesmo tempo Fy, (estou tentando elaborar melhor na caixola) visto os arcontes serem produto da propria Sophia alienada, se percebe nitidamente, que a solucao eh justamente essa busca pela tal da “iluminacao”, ou pelo Espirito/Self/luz, aquela determinada “coisa” que nao “eh coisa”, mas que nao tem outra maneira de dize-lo; quer dizer, aquilo que nos impeliu a alienacao eh o que vai nos “redimir” novamente…

    Nossa alienacao, ou a queda segundo o mito gnostico, nao foi um evento catastrofico, mas um evento necessario pra “auto-consciencia”.
    Quer dizer, a separacao da consciencia/inconsciente, temporal/atemporal, foi um evento natural daquela “vida” em busca de auto-consciencia.
    Nao eh a toa que Binah representa Saturno, o senhor do tempo, ela simboliza o poder gerador de Braman o criador de toda a vida, mas tambem simboliza Maya os aspecto “ilusao” da forma. E sim, nao eh em oposição ao sistema que saimos do sistema, mas recuperando a essência, ou “aquela consciencia” que abrange tanto a forma como o espirito.

    bjs

  18. Luiz Fernando said

    Olá, Adi!

    Obrigado pela recepção. 😉

    Demorei para lhe responder porque não havia voltado mais para ler este post, algo que fiz hoje porque um amigo me enviou um texto com considerações sobre ele. Aliás, voltarei mais vezes aqui no Anoitan, gosto de entender essa concepção toda de realidade que vocês têm. E além disso, poucos blogs são tão agradáveis de ler quanto este.

    Quantos aos memes, eu acho uma idéia elegante, e penso que como do consciente se prevê o inconsciente, dos genes se preveem os memes. Li seu post com prudência, e até fiquei confuso com a idéia de um ‘demiurgo’. Veja bem, sem querer parecer contundente, pois certamente vocês sabem melhor do que eu sobre gnosticismo, contudo, essa idéia afirma que um falso deus criou uma falsa realidade, oposta à pessoa de Deus. A Cabala pensa dessa forma. Enquanto o Catolicismo – religião da qual sou adepto – vê Deus e Divindade como a mesma coisa, a Cabala separa as duas: ‘Divindade’ seria o verdadeiro divino, enquanto ‘Deus’ seria uma falsa divindade. É bem conhecida a tese gnóstica de que esse falso deus prendeu na matéria que criou as partículas da Divindade (éons, atmans), e que a Divindade tenha entrado num processo de decadência, emanando dela diversas partículas, dentre elas, o Demiurgo. Se o Demiurgo é um falso deus, e se ele foi emanado da verdadeira Divindade, então é da própria Divindade que surge o mal. Cada criatura seria divina, mas era preciso que o Demiurgo continuasse a prendê-las na limitação do seu falso mundo. Para isso, ele criou três “prisões” que mantém todas as coisas continuamente presas: a matéria, a razão e a moral. Não vou entrar no mérito de comentar cada uma delas, mas, me parece que os memes acabam entrando na terceira categoria. Com efeito, seria muito prático afirmar que a religião, a moral e tudo isso que temos assimilado da sociedade cristã seja fruto de um processo mimético, que teria nos condicionado. Mesmo o desejo do bem não seria uma característica intrínseca, mas seria desejado por um outro ser, ou melhor ‘copiado’ deste outro ser. E talvez uma das formas de libertação, ou autoconhecimento, seria justamente libertar-se desta ‘falsa realidade’ – desta moral – que nos condiciona num mundo de sombras, aliás, algo muito próximo do Mito da Caverna platônico, isso que você me falou. Eu afirmei que me deixa confuso, porque para usar uma expressão de René Guénon: “o ponto central, pelo qual se estabelece a comunicação com os estados superiores, ou «celestes», é a «porta estreita» do simbolismo evangélico: os «ricos» que não podem passar por ela, são os seres apegados à multiplicidade, e que, por conseguinte, são incapazes de elevar-se do conhecimento distintivo ao conhecimento unificado.” E eu concordo com a exposição dele. Por fim: uma possível idéia de que nossa moral seja fruto de um processo mimético que poderia ser ‘desconstruída’, por si, me suscita uma ponderação maior ao pensar sobre o tema e suas consequências.

    Att!

  19. adi said

    Olá Luiz,

    “E além disso, poucos blogs são tão agradáveis de ler quanto este.”

    Obrigado Luiz, fique a vontade, a casa é de todos.

    Muito interessante o que você colocou. Na verdade é um assunto que ando desenvolvendo e pesquisando pra um futuro post.
    Eu entendo essa “coisa” toda como várias maneiras de dizer “as mesmas” coisas de diferentes maneiras (rsrsrs). Os gnósticos contaram a criação do mundo a sua maneira, os Judeus a sua… e assim vai… mas se analisarmos a fundo, podemos perceber que é a mesma estória…
    Enfim, o post que comecei a esboçar é sobre as energias emanadas de Binah. Acima do abismo de Daath não há divisão, ainda não houve nenhuma separação, é um mundo uno. Abaixo do abismo, tudo é percebido em separado, mas que somente são nossas percepções alteradas por esses “condicionamentos”, de fato a separação e divisão está somente em nossa mente e visão.
    Parece que a “cópia” mal feita do mundo “incorruptivel” ou Pleroma tem relação com nossa herança de “padrão” cerebral (padrão que vai determinar nossas contruções mentais e por conseguinte nossa personalidade egóica) e que ao mesmo tempo esses mesmos padrões são “os meios” pelo qual podemos ter auto-conhecimento e nos libertar.
    Essa simbologia da “porta estreita” é recorrente nas diversas tradições, seja sobre Daath, Antakarana, Ponte do abismo, Porta do Umbral…
    O ponto central é a própria essência interior em cada ser, chegar a plena conscientização ou união com essa essência interior é um árduo trabalho, realmente é se desvencilhar de todos os condicionamentos que como um véu encobrem nossa visão do real…
    Interessante porque a princípio construímos um mundo (um eu, condicionamentos, comportamento) que nos possibilitará interagir com a vida na qual estamos inseridos, pra posteriormente desfazer esse mundo, destruí-lo pra poder Ser pleno e poder dizer como o Cristo, eu e o Pai somos Um…

    abs.

  20. Lúcio said

    Saravá, pessoal!

    Aproveitando um breve intervalo no olho do furacão para fazer uma visitinha – já tava devendo há tempos.

    Filipe, muito bom o post. Na minha opinião, existe uma analogia entre o que a Susan Blackmore chama de memeplex, que são agrupamentos de memes ligados entre si, e o complexo junguiano. Mas a noção junguiana é mais abrange, porque inclui uma dimensão afetivo-emocional que o memeplex deixa de fora.

    Adi, honestamente, pelo que eu tô vendo, os meus longos e digressivos resmungos não estão fazendo a menor falta. Textos excelentes, tanto nos posts quanto nos comentários. Não sei se eu teria alguma coisa de útil a acrescentar. E a discussão sobre a Travessia do Abismo tá pra lá de supimpa! 🙂

    Pessoal, eu continuo meio afastado não só por causa do romance (que, de qualquer forma, tive que interromper temporariamente por causa de uma avalanche de trabalho), mas porque tô com um bocado de coisas fermentando na cachola – idéias, experiências, hipóteses – que eu ainda preciso metabolizar direito antes de abrir a boca e falar besteira.

    Mas fico muito feliz de ver que o Anoitan continua firme e forte, e espero futuramente dar as caras mais vezes por aqui.

    Abs. Bjs. etC.
    L.

  21. Fy said

    Adi,

    Interessante porque a princípio construímos um mundo (um eu, condicionamentos, comportamento) que nos possibilitará interagir com a vida na qual estamos inseridos, pra posteriormente desfazer esse mundo, destruí-lo pra poder Ser pleno e poder dizer como o Cristo, eu e o Pai somos Um…

    – Adi, tenho uma visão diferente sobre a necessidade de destruí-lo para nos tornar unos – eu diria que todo um trabalho neste sentido, teria como finalidade “reconhecermos” que o somos – : unos com a criação, integrados a ela – e com urgência – ;- além de interpretar a mensagem de Jesus não desta forma, mas sim como um convite à uma maior interação de consciência em relação a este mundo construído, (um eu, condicionamentos, comportamento) e o mundo- realidade que nos cerca; – e me identifico totalmente com esta argumentação do Jung em relação à plenitude, neste sentido, nestas suas reflexões:

    …. A meta do indiano não é atingir a perfeição moral, mas sim o estado de Nirdvandva. Quer livrar-se da natureza, e por conseguinte atingir pela meditação o estado sem imagens, o estado do vazio.

    Eu, pelo contrário, tendo a manter-me na contemplação viva da natureza e das imagens psíquicas, não quero desembaraçar-me nem dos homens nem de mim mesmo, nem da natureza, pois tudo isso representa, a meus olhos, uma indescritível maravilha.

    A natureza, a alma e vida me aparecem como uma expansão do divino. O que mais poderia desejar?

    Para mim, o sentido supremo do ser consiste no fato de que “isso é” , e não o fato de que isso não é ou não é mais.

    Para mim não há liberação à tout prix (a todo o custo).

    Não poderia desembaraçar-me de algo que não possuo, que não fiz, nem vivi. Uma liberação real só é possível se fiz o que poderia fazer, se me entreguei totalmente a isso, ou se “tomei totalmente parte nisso”.

    Se me furtar a essa participação, amputarei de algum modo a parte de minha alma que a isso corresponde. O homem que não atravessa o inferno de suas paixões também não as supera.

    Elas se mudam para a casa vizinha e poderão atear o fogo que atingirá sua casa sem que ele perceba. Se abandonarmos, deixarmos de lado, e de algum modo esquecermo-nos excessivamente de algo, correremos o risco de vê-lo reaparecer com uma violência redobrada.

    [ – No que se relaciona à “paixões” no sentido negativo: Temos aqui uma analogia sobre nossa passagem por Daaht. E, uma definição menos negativa sobre a mesma]

    Cristo também – como o Buda – é uma encarnação do si-mesmo, mas num sentido muito diferente. Ambos dominaram o mundo em si mesmos: o Buda, poder-se-ia dizer, mediante uma compreensão racional; o Cristo, tornando-se vítima segundo o destino; no cristianismo, “o principal é sofrer”, enquanto que no budismo o mais importante é contemplar e fazer.

    Um e outro são justos, mas no sentido hindu o homem mais completo é o Buda. Ele é uma personalidade histórica e, portanto, mais compreensível para o homem.

    O Cristo é, ao mesmo tempo, homem histórico e Deus, e, por conseguinte, mais dificilmente acessível. No fundo, ele sabia apenas que devia sacrificar-se, tal como lhe fora imposto do fundo de seu ser. Seu sacrifício aconteceu para ele tal como um ato do destino.

    Buda agiu movido pelo conhecimento, viveu sua vida e morreu em idade avançada. É provável que a atividade de Cristo, enquanto Cristo, se tenha desenrolado em pouco tempo.

    Mais tarde, produziu-se no budismo a mesma transformação que no cristianismo: Buda tornou-se então a imago da realização do si-mesmo, um modelo que se imita, pois, como disse ele, todo indivíduo que vence a cadeia dos nidanas pode tornar-se um iluminado, um Buda.

    Acontece o mesmo com o cristianismo. Cristo é um modelo que vive em cada cristão, expressão de sua personalidade total.

    Mas a evolução histórica conduziu à imitatio Christi, segundo a qual o indivíduo “não segue o caminho de seu “próprio destino” para a totalidade”, mas, pelo contrário, tenta “imitar” o caminho que Cristo seguiu.

    [ o que se encaixa também na teoria dos memes – No caso, qualquer noite escura da Humanidade seria tremendamente útil e não desesperadora, – e a vida, transformada em via crucis, e em contínuo processo de “depuração”, um motivo de agradecimento e êxtase para o cristão e para os memes. – Saramago tem um excelente artigo sobre isto]

    Da mesma forma, no oriente isso conduziu a uma fiel imitação do Buda. O fato de que o Buda se tenha tornado um modelo a ser imitado era, em si, uma “debilitação” de sua idéia, exatamente como a imitatio Christi é uma antecipação da “detenção fatal” da evolução da idéia cristã.

    Buda, pela virtude de sua compreensão, elevava-se acima dos deuses do bramanismo; do mesmo modo, Cristo podia gritar ao judeus: “Vois sois deuses!” (João, 10:34); mas os homens foram incapazes de compreender o sentido dessas palavras. – [ desinteresantíssimas para o “sistema”: a verdadeira incubadeira de memes ]

    – Pelo contrário: o Ocidente chamado “cristão” caminha a passos de gigante para a possibilidade de destruir o mundo, em lugar de construir um mundo novo.

    Carl Gustav Jung em Memórias Sonhos e Reflexões

    Bjs

  22. adi said

    Grande Lúcio, que bom você aqui dando um alô.

    “Adi, honestamente, pelo que eu tô vendo, os meus longos e digressivos resmungos não estão fazendo a menor falta. Textos excelentes, tanto nos posts quanto nos comentários. Não sei se eu teria alguma coisa de útil a acrescentar. E a discussão sobre a Travessia do Abismo tá pra lá de supimpa! ”

    Obrigado Lúcio, vindo de você tomo isso como um grande elogio, verdade. Mas seus “resmungos” , são como grandes ensinamentos; não tem comparação… ah! sim, sim, estão fazendo uma falta danada seus belos e elucidativos posts.

    “…e espero futuramente dar as caras mais vezes por aqui.”

    Que este futuramente seja em breve.

    bjs e té mais.

  23. adi said

    “Adi, tenho uma visão diferente sobre a necessidade de destruí-lo para nos tornar unos – eu diria que todo um trabalho neste sentido, teria como finalidade “reconhecermos” que o somos – : unos com a criação, integrados a ela – e com urgência –”

    É uma maneira metafórica de dizer que pra mim há a necessidade de como que esvaziar o “ego”, ou noção de um “eu” ; no meu entender, são os condicionamentos agregados que direcionam a certos comportamentos e ações que geram mais condicionamentos, e assim por diante. Não é tão simples assim “reconhecermos” que somos, e somos. Por exemplo eu reconheço intelectualmente a unidade e integração da Vida, no entanto esse “reconhecimento” não basta, ainda há os condicionamentos, ainda há um eu que me separa dos outros, que me separa do mundo além de meu mundinho pessoal… e é nesse sentido que falo em destruir o mundinho pessoal pra ir além na percepção de uma outra realidade.

    ” Se me furtar a essa participação, amputarei de algum modo a parte de minha alma que a isso corresponde. O homem que não atravessa o inferno de suas paixões também não as supera.”

    Aqui Jung se refere a negação da sombra, aos recalques daquela parte da alma que não é aceita pelo ego vigil, e que é essa parte que de certa forma desmascara ou desconstrói o ego.

    Fy,

    Essa desconstrução de uma visão do mundo, essa destruição dos condicionamentos, essa desconstrução do ego que “aparentemente nos parece” como uma negação ao mundo e as imagens, como um abandono a vida, um virar as costas e recolhimento no nirvana de luz branca sem imagens; é uma interpretação errada sobre esse assunto.
    Na verdade, quando o sujeito se desvencilha do “ego” e consequentemente quando as egrégoras mentais, e memes não exercem mais influencia, quando o sujeito está livre dos condicionamentos que distorcem sua visão, como se o indivíduo tivesse destruído suas “cadeias”, ou amarras… essas que dão a noção de um “eu”, “eu” que indiscutivelmente nos separa dos outros, ou seja, nos separa do mundo; enfim, quando isso tudo se desvanece, nos integramos conscientemente a “totalidade” da vida, a consciência transcende o sentido de “eu” limitado, separatista, individualista, egoísta; e se integra a um estado de ser que inclui todas as coisas, todo o mundo, como sendo ele mesmo, com a ressalva que não existe mais “eu”, “ele”, “meu”, “dele”, mas há algo anterior a essa separação, esse “algo” agora consciente…

    Sim, ambos Jesus e Buda são o símbolo de realização do Si-mesmo, cada qual a sua maneira…. acontece que o símbolo que a princípio está pleno da energia arquetípica se esvazia, e se torna “casca”, o arquétipo tem a necessidade de se atualizar a cada época, e a cada época há a necessidade de um novo símbolo arquetípico. Todo o sistema se perpetua se utilizando de idéias e conceitos que um dia foram arquétipos, aliás o sistema é o próprio arquétipo esvaziado da Essência… o que copiamos já está desprovido de essência…
    O mundo recupera sua plenitude no momento em que dentro de nós recuperamos a nossa própria plenitude impessoal.

    bjs

  24. Fy said

    Adi,

    …aliás o sistema é o próprio arquétipo esvaziado da Essência…

    – Genial, Adi: adorei cada palavra.

    Bjs

  25. Fy said

    sorry,

    da resposta inteira!

    Bjs

  26. Luiz Fernando said

    Olá, Adi!

    Lerei seu texto sobre Daath para compreender melhor isso tudo que você escreveu, mas, em uma primeira leitura me pareceu parecido com a teoria das formas de Platão.

    Detalhe: Cristo e Deus são Um, de forma unívoca; enquanto nós recebemos o ser de Deus por analogia.

    Att!

  27. Mob said

    >Detalhe: Cristo e Deus são Um, de forma unívoca; enquanto nós recebemos o ser de Deus por analogia.

    O Jaguadarte
    (Lewis Carroll)

    Era briluz.
    As lesmolisas touvas roldavam e reviam nos gramilvos.
    Estavam mimsicais as pintalouvas,
    E os momirratos davam grilvos.
    “Foge do Jaguadarte, o que não morre!
    Garra que agarra, bocarra que urra!
    Foge da ave Fefel, meu filho, e corre
    Do frumioso Babassura!”
    Ele arrancou sua espada vorpal e foi atras do inimigo do Homundo.
    Na árvore Tamtam ele afinal
    Parou, um dia, sonilundo.
    E enquanto estava em sussustada sesta,
    Chegou o Jaguadarte, olho de fogo,
    Sorrelfiflando atraves da floresta,
    E borbulia um riso louco!
    Um dois! Um, dois! Sua espada mavorta
    Vai-vem, vem-vai, para tras, para diante!
    Cabeca fere, corta e, fera morta,
    Ei-lo que volta galunfante.
    “Pois entao tu mataste o Jaguadarte!
    Vem aos meus braços, homenino meu!
    Oh dia fremular! Bravooh! Bravarte!”
    Ele se ria jubileu. Era briluz.
    As lesmolisas touvas
    Roldavam e relviam nos gramilvos.
    Estavam mimsicais as pintalouvas,
    E os momirratos davam grilvos.
    (Tradução do “Jabberwacky” por Augusto de Campos)

    Jabberwockky
    (by Lewis Carroll)
    ‘Twas brillig and the slithy toves
    Did gyre and gimble in the wabe.
    All mimsy were the borogroves
    And the mome raths outgrabe.
    “Beware the Jabberwock my son!
    The jaws that bite, the claws that catch!
    Beware the Jubjub bird
    And shun the frumious Bandersnatch!”

    He took his vorpal sword in hand
    Long time the manxome foe he sought
    So rested he by the Tumtum tree,
    And stood awhile in thought.

    And, as in uffish thought he stood,
    The Jabberwock, with eyes of flame,
    Came whiffling through the tulgey wood,
    And burbled as it came!

    One, two! One, two! And through and through
    The vorpal blade went snicker snack!
    He left it dead, and with its head
    He went galumphing back.

    And hast thou slain the Jabberwock?
    Come to my arms my beamish boy!
    O frabjous day! Callooh! Callay!
    He chortled in his joy.

    ‘Twas brillig, and the slithy toves
    Did gyre and gimble in the wabe.
    All mimsy were the borogroves,
    And the mome raths outgrabe.

    Ainda Lewis Carroll: “Tudo tem uma moral se você conseguir simplesmente notar”.

  28. Sem said

    Mob, que poema mais louco, divertido, maravilhoso! Não conhecia e nem consigo lembrar de nada que seja o mínimo semelhante. Mas não é isso, que a linguagem do inconsciente precisa se inventar, necessariamente original, sempre única, mas ao mesmo tempo universal? 🙂

  29. […] (memeplex é um conjunto de memes ou formas-pensamentos). Tem um post interessante sobre isso, aqui, onde verificamos que memes são o equivalente aos […]

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