Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Citrinitas

Posted by Sem em julho 7, 2009

saffran_crocus_sativus_moistamarelecer
adoecer
amornar

tornar velho o ocaso
gasto o usado
brando o folgado
roto o furado

reunir palha por todos os lados
desfazer o bordado
fazer pouco caso

odiar a palha
amar o vento
a obra do acaso

adoecer
fazer feriado

ajoelhar para dormir
fechar para não abrir
deitar para plantar
sair para não voltar
chorar para sorrir

amarelecer
ouro de açafrão

ir
sonhar
libertar

morrer branco
acordar vermelho

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14 Respostas to “Citrinitas”

  1. adi said

    Sem,

    Bonito o poema; eu entendi como “mudanca” interior…

    …mudar eh bom, e estamos mudando o tempo todo…. mas eh a parte mais dificil do caminho.

    ah!! como eu queria morrer branco e acordar vermelho como o rubi…

    vou continuar indo, sonhando e libertando…

    bjs

  2. Sem said

    Querida Adi, eu não sei se faz muito sentido essa poesia, mas eu gosto dela, e normalmente eu não gosto tanto assim das coisas que escrevo. Deve ser pq existe algo nela de incompreensível que ultrapassa o entendimento… Poesia é pra isso, nenhuma explicação, só pra fazer “respirar”, como disse o Quintana, que tb disse que “a poesia não se entrega a quem a define”. E o Leminski: “quem quer que a poesia sirva para alguma coisa não ama verdadeiramente a poesia”… Então é isso, poesia é essa coisa inútil como o próprio ar que respiramos.

    Queria te fazer uma pergunta, aproveitando seu conhecimento de Cabala, e eu sei que vc tb deve ter lido algo em Jung ou na von Franz de alquimia, a respeito do fazer alma, enfim, tem como relacionar, dá para cruzar os conhecimentos? e, se sim, quais as ressalvas a serem feitas e o que efetivamente uma coisa ajuda a compreender na outra?

  3. Fy said

    Sem,

    Eu só falo que lindo, então vou falar – que colorido lindo!

    Adi,

    – vou continuar indo, sonhando e libertando… – aquário …só sabe assim.

    – E para dias de chuva , aqueles meio sem cor; nem branco e nem vermelho: – uma pílulazinha azul de bom gosto:
    E eu mereço. – quem é que não?

    Por isso, outro dia saí bem cedo – na chuva – bem cinza – e fui ver a FLIP, [dá pra perceber que eu fiquei encantada, não é?] uma festa literária internacional que acontece em uma cidadezinha a beira-mar que desavergonhadamente se chama: – Parati. – até na chuva –

    De vez em quando as coisas são assim: – Pragente. – até fez sol: de repente!
    Gosto de lá.

    Um lugar que a alma se deixa fazer.

    Gosto mais ainda quando tem estas exposições, estas palestras que parecem falar para mim, de mim.- pragente – dagente –

    – e lá, – no meio de Parati – : é coisa fácil de sentir.
    Quem já foi lá, sabe do que eu falo.

    Quem não foi, corra! Nem todo os dias agente vai à um lugar que é… Parati.

    Mas vá de braços abertos, nu de esteriótipos e puro de sentimentos. Às vezes vale a pena se deixar vestir.

    Tem que ir sem sapatos: de rasteirinha ou tênis.

    Como em todos os bons caminhos, as ruas de Parati são desiguais, alguns paralelepípedos são mal encaixados, e é uma dança caminhar.

    Vá pra descobrir cantos e encantos. Vá pra se encantar.

    Nunca mais percam a palestra do Chico. Eu fui. E recomendo. Qualquer coisa ou tudo nele nunca teve medo de ser ridículo. Depois, passem para outra “mesa” – sem tropeçar e vejam Sophie Calle.

    Ria com Sophie!

    Ame o seu trabalho, o mais comentado da Bienal de Veneza em 2007 .

    E depois de muito mais, volte pra casa querendo mudar o mundo.

    No meio do caminho, o caminho …vai mudando você.

    E depois escrevam, contando.

    É também um jeito bom de fazer alma.

    Pra o teu post colorido: um pouquinho de azul: [e do genial Fred G.]

    Bjs

  4. adi said

    Oi Sem,

    Sobre sua poesia, foi assim que li, senti que eh sobre aquela mudanca de dentro, aquela coisa de alma mesmo que busca a mudanca a qualquer preco a pagar, sacrificando sempre alguma coisa…. claro, assim foi como ela se mostrou pra mim, e acho que poesia eh assim, eh como um espelho que mostra o interior daquele que a le.

    “…deve ter lido algo em Jung ou na von Franz de alquimia, a respeito do fazer alma, enfim, tem como relacionar, dá para cruzar os conhecimentos? e, se sim, quais as ressalvas a serem feitas e o que efetivamente uma coisa ajuda a compreender na outra?”

    Tem sim, tem muita similaridade Sem. Na verdade esse processo de espiritualizacao da Cabala, ou iniciacao, ou a individuacao de Jung, eh o mesmo processo da Alquimia de transformar o chumbo em ouro, ou de criar a Pedra Filosofal. E esse processo de “relacionamento” dos Sephiroth que se encontram nos pilares da Arvore, conforme Regardie (grande Magista da G.Dawn) falou e que citei no post; Sephiroth esses que sao os proprios Arquetipos ou inconsciente, ou a Anima Mundi; e que de certa forma tem como simbolos os proprios elementos da Alquimia, e que tambem estao representados na Arvore da Vida. Bom, desse relacionamento entre os Sephirot opostos surge uma terceira coisa em “conciliacao”, como um Filho que une. Bem isso estah de acordo com o processo de fazer Alma, onde forcas inconscientes arquetipicas entram em atrito com o consciente e eh solucionado o conflito numa conscientizacao de uma terceira “coisa” que engloba em concordancia a ambas questoes opostas. Enfim, dessa mistura dos elementos, vai surgindo o Quinto Elemento ou a Quinta Essencia dos Alquimistas. As fases do processo alquimico tambem podem ser comparadas as iniciacoes dos Chacras na sequencia da subida da Kundalini, que tambem eh o mesmo processo da Arvore da vida, onde se dah pelo pilar do meio a subida da energia.

    Eu gostaria de abordar tudo isso em detalhes no post sobre Daath, mas estah ficando muito extenso, e afinal eh sobre a travessia do abismo o assunto e nao sobre o processo iniciatico 🙂 . Apesar de que tudo estah relacionado, e pra entender o Daath tem que entender o processo que levou ateh a Sephirah Daath… enfim vai sobrar assunto pra posts futuros, melhor assim, nao eh mesmo?

    Espero que tenha ficado claro, e se era mesmo essa a sua questao.

    ah! adorei o querida. 🙂

    bjs
    adi

  5. adi said

    Fy,

    Que “chique” ir ver a Flip, hein!! alem de chique, tudo de bom por seu encantamento…

    Essas coisas boas acontecem mais facilmente num recanto cultural como eh Parati.

    Alias, alem de desavergonhada, Parati eh completamente altruista, como um presente que se doa Para-ti… enfim, Parati eh para todos uma acolhida.

    Conheco a cidade e eh realmente linda, um charme.

    Pena que moro longe para ir ver a Flip….

    bjs
    adi

  6. adi said

    Sem,

    Soh mais um adendo sobre Daath, eh que ficou mal colocado acima.

    Daath estah dentro desse processo, nao soh estah dentro como eh parte “fundamental”, peca chave no processo final de transcendencia do ego; Eh em Daath que o microcosmo se liga ao Macrocosmo e vice-versa, onde a dualidade deixa de existir.

    bjs
    adi

  7. Fy said

    Verdade, Adi.

    E, antes de mais nada, está feito o convite – claro que pra Sem tb – : eu moro a menos de 2 horas de Parati; e o acesso entre minha casa e e este recanto é através de um dos caminhos mais bonitos do mundo: a Rio-Santos; permeando um litoral que, realmente é um beijo de mtos deuses, estalando a vida em natureza, abrindo caminho entre a serra e o mar. É tanta cor, que parece o post da Sem.

    Outra coisa interessante que vc disse; Parati, que alem de desavergonhada, – sim, pq hoje em dia as pessoas tem uma certa vergonha, temem pelas cores; qto mais o dia-a- dia for pálido ou quaaaaase transparente, mais a sensação quebra-galho –quebragalho porque falha – de estabilidade permanece intacta na mesmice descolorida, – Parati é Acolhedora. E esta palavra é linda, cheia de cores – principalmente em uma cidade que é a “fronteira” – entre dois estados. Oh Lord: como seria maravilhoso que as fronteiras – todas – fossem assim: acolhedoras. Elas podiam chamar: “Acolhedoras” em vez de Fronteiras. – dentro dagente também –

    Mas, não sei se por narcisismo ou por medo, ou pelos dois juntos, as pessoas receiam, se envergonham do estar acessível; suscetível ao acolhimento e ao acolher. Acolher as diferenças, tão igualmente ricas em si mesmas. Narcisismo, medo e vergonha caminham misturados. E como vc disse: Parati é chic; tão chic que vc pode chegar o mais à vontade possível; como em tudo o que é realmente chic. E as pessoas, mesmo que por um momento, sentem esta atmosfera refinada da simplicidade tomar conta, de repente, de suas mesmices quase anêmicas, quando envolvidas em tanta cor. É muita arte, musica, poesia, cinema, palavras, e emoções, alem da natureza: que nunca pediu licença em sua manifestação, que é sempre colorida e total.

    A poesia da Sem, é muito “sofisticada” nesta simplicidade quase crua, – é muito corajoso morrer branco e acordar vermelho. É preciso coragem, ser herói em nome da vida, – é fazer alma, é rasgar ego.
    – Taí, Sem, as brisas que vc traz. As cores invadem.

    Talvez viver tivesse que ser: “ir se colorindo” e como vc disse, Adi, se transformando. Morrendo branco acordando vermelho, outro dia verde, e mais adiante azul. Tem tudo a ver com o processo de transformação.

    Outro dia li que alguns animais não vêem as cores. Talvez eles sintam as vibrações, assim como as plantas,talvez…. Meu cachorro, com certeza percebe as vibrações. Vibra com os tons do amanhecer, do entardecer, se atrapalha todo com as cores do mar. Corre, brinca a intensidade de cada momento, como se este mundo tão colorido fosse só dele. Quase uma arrogância!

    – Sem, adorei sua poesia. Quero mais!

    – As cores, assim como a vida, são mesmo, invasivas:

    Bjs

  8. Fy said

    Sem,

    Um pouco de mistura e integração:

    Há dez números no sistema decimal, havendo uma razão autêntica para que devam ser dez números, e somente dez, num sistema numérico que não é meramente matemático, mas filosófico.

    É necessário neste ponto apresentar o Arranjo de Nápoles. Porém, antes de mais nada, é preciso compreender a representação pictórica do universo dada pela Santa Qabalah (ver diagrama).

    Essa figura representa a Árvore da Vida, a qual é um mapa do universo.

    Deve-se começar, como o faria um matemático, com a idéia do zero, zero absoluto, que examinado se mostra significativo de qualquer quantidade que se possa escolher, mas não, como em princípio poderia supor o leigo, do nada no sentido vulgar da palavra, de ausência de alguma coisa (Ver Berashith, Paris, 1902).

    – O Arranjo de Nápoles

    Os qabalistas expandiram essa idéia do nada e obtiveram uma segunda espécie de nada, a que chamaram de Ain Sof – “Sem Limite” (idéia aparentemente não dessemelhante daquela de espaço).

    Decidiram, então, que, para interpretar essa mera ausência de qualquer modo de definição, seria necessário postular o Ain Sof Aur – “Luz Ilimitada”.

    Assim, parece que eles queriam dizer exatamente o que os homens de ciência do período vitoriano queriam dizer, ou pensavam que queriam dizer, pela expressão “Éter Luminífero” (o continuum espaço-tempo ?)

    Tudo isso é evidentemente sem forma e vazio; são condições abstratas e não idéias positivas. O passo seguinte tem que ser a idéia de posição.

    É preciso formular esta tese: se há alguma coisa exceto o nada, tem que existir dentro dessa luz ilimitada; dentro desse espaço; dentro desse Nada inconcebível, que não pode existir como nada, mas tem que ser concebido como um nada criado da aniquilação de dois opostos imaginários. Assim aparece o ponto, que não tem “nem partes nem magnitude, mas somente posição”.

    Contudo, posição não significa coisa alguma, a não ser que haja alguma coisa a mais, alguma outra posição com a qual ela possa ser comparada. Tem-se que descrevê-la, e o único modo de fazê-lo é possuir um outro ponto, o que significa que é preciso inventar o número dois, tornando possível a linha.

    Mas essa linha não significa realmente muito, porque não existe ainda medida de comprimento.

    O limite do conhecimento neste estágio é que há duas coisas, de modo que se pode falar sobre elas, mas não se pode dizer que estão uma próxima da outra ou que estão muito apartadas; é-se apenas capaz de dizer que estão distantes. Para efetivamente discernir-se entre elas, é necessário que haja uma terceira coisa. Precisamos ter um outro ponto.

    Tem-se que inventar a superfície; tem-se que inventar o triângulo. Ao fazer isto, a propósito, a totalidade da geometria plana surge. É-se capaz de dizer agora: – “A está mais próximo de B do que A está de C”.

    Mas, até agora, não há nenhuma substância em quaisquer dessas idéias. Na verdade, não há quaisquer idéias, salvo a de distância e talvez a de intermediariedade e a de medição angular, de sorte que a geometria plana, que agora existe em teoria, é, afinal de contas, completamente dispersiva e incoerente.

    Não houve nenhuma aproximação da concepção de uma coisa realmente existente. Tudo que se realizou foi a fabricação de definições, e tudo num mundo puramente ideal e imaginário.

    Agora, então, vem o abismo. Não se pode avançar mais no ideal. O próximo passo tem que ser o real; ao menos, uma abordagem do real. Há três pontos, mas nenhuma idéia de onde qualquer um deles está.

    Um quarto ponto é essencial, e este formula a idéia de matéria.

    O ponto, a linha, o plano. O quarto ponto, contanto que não esteja no plano, produz o sólido. Caso se queira saber a posição de qualquer ponto, tem-se que defini-lo pelo emprego de três eixos coordenados: – “São tantos metros da parede norte, e tantos metros da parede leste, e tantos pés do piso.”

    Assim, desenvolveu-se do nada um algo do qual se pode dizer que existe. Chegou-se à idéia de matéria. Mas esta existência é excessivamente tênue, pois a única propriedade de qualquer ponto é sua posição em relação a certos outros pontos; nenhuma mudança é possível; nada é capaz de acontecer.

    Portanto, ao se analisar a realidade conhecida, deve-se postular uma quinta idéia positiva, que é aquela do movimento.

    A idéia de movimento implica na de tempo, pois somente através do movimento, e dentro do tempo, pode qualquer evento ocorrer. Sem essa mudança e seqüência, nada é capaz de ser o objeto dos sentidos (cumpre observar que este número 5 é o número da letra Hé no alfabeto hebraico; esta é a letra tradicionalmente consagrada à Grande Mãe; é o útero no qual o Grande Pai – que é representado pela letra Yod, a qual é a representação pictórica de um ponto último – se move e gera a existência ativa).

    É possível, agora, ter-se uma idéia concreta do ponto; e, finalmente, esse é um ponto capaz de ser auto-consciente, porque pode ter passado, presente e futuro. É capaz de definir a si mesmo em termos das idéias anteriores. Eis aqui o número seis, o centro do sistema: auto-consciente, capaz de experiência.

    Neste estágio, convém afastarmo-nos por um momento do simbolismo estritamente qabalístico.
    A doutrina dos próximos três números (para algumas mentes, ao menos) não é expressa com muita clareza.

    É mister olhar para o sistema Vedanta, rumo a uma interpretação mais lúcida dos números 7, 8 e 9, embora tal interpretação corresponda muito estreitamente às idéias qabalísticas.

    Na análise hindu da existência, os rishis (sábios) postulam três qualidades:

    Sat, a essência do próprio ser;

    Chit, o pensamento ou intelecção;

    e Ananda (usualmente traduzido por bem-aventurança, êxtase), o prazer experimentado pelo ser no desenrolar dos eventos.

    Esse êxtase é evidentemente a causa estimulante da mobilidade da pura existência. Explica a hipótese da imperfeição por parte da Perfeição.

    O Absoluto seria nada, permaneceria na condição de nada; portanto, a fim de ser consciente de suas possibilidades e gozá-las, precisa explorar essas possibilidades.

    Pode-se inserir aqui um enunciado paralelo dessa doutrina, encontrada no documento chamado O Livro do Grande Auk para capacitar o estudante a considerar a posição do ponto de vista de duas mentes diferentes:

    – “Todos os elementos devem, numa ocasião, ter estado separados – nesse caso, haveria intenso calor.

    Quando os átomos atingem o sol, obtemos aquele calor imenso, extremo, e todos os elementos são eles mesmos, novamente. Imagine que cada átomo de cada elemento possua a memória de todas as suas aventuras.

    A propósito, esse átomo, fortalecido com a memória, não seria o mesmo átomo; e, no entanto, ele o é, porque nada ganhou de qualquer lugar, exceto essa memória.

    Conseqüentemente, pelo lapso do tempo e em virtude da memória, uma coisa seria capaz de se tornar alguma coisa a mais do que ela mesma, tornando-se, assim, possível um desenvolvimento real.

    Vê-se, então, uma razão para qualquer elemento decidir passar por essa série de encarnações, porque assim, e somente assim, pode ele prosseguir; e sofre o lapso da memória que tem durante essas encarnações porque sabe que passará inalterado. ”

    – “Portanto, você pode ter um número infinito de deuses, individuais e iguais, embora diversos, cada um supremo e inteiramente indestrutível. Esta é, também, a única explicação de como um ser poderia criar um mundo no qual a guerra, o mal, etc. existem.

    O mal é apenas uma aparência, porque (como o bem) não é capaz de afetar a própria substância, mas somente multiplicar suas combinações. Isto é algo idêntico ao monoteísmo místico, mas a objeção a essa teoria é que Deus tem que criar coisas que são todas partes d’Ele mesmo, de maneira que a interação delas é falsa. Se pressupomos muitos elementos, sua interação é natural.”

    Essas idéias de ser, pensamento e êxtase constituem as qualidades mínimas possíveis que um ponto precisa possuir para ter uma experiência sensível e real de si mesmo. Correspondem aos números 9, 8 e 7.

    A primeira idéia de realidade, tal como conhecida pela mente, é portanto conceber o ponto como se constituído por aqueles nove desenvolvimentos sucessivos, anteriores ao zero. Aqui, então, finalmente está o número dez.

    Em outras palavras, para descrever a realidade sob forma de conhecimento é preciso postular essas dez idéias sucessivas. Na Qabalah são chamadas de Sephiroth, o que significa Números.

    Como se poderá ver na seqüência, cada número possui um significado próprio; cada um corresponde a todos os fenômenos, de uma maneira tal que sua disposição na Árvore da Vida (v. diagrama) é um mapa do universo.

    Esses dez números são representados no Tarô pelas quarenta cartas menores.

  9. Fy said

    O que são, então, as cartas da corte? Esta questão envolve um outro aspecto do sistema de desenvolvimento.
    Qual foi o primeiro processo mental ?

    Na obrigação de descrever o nada, o único modo de fazê-lo sem destruir sua integridade foi representá-lo como a união de um mais alguma coisa com um menos alguma coisa equivalente.

    Pode-se chamar estas duas idéias de o ativo e o passivo, o Pai e a Mãe.

    Mas, a despeito de o Pai e a Mãe serem capazes de realizar uma perfeita união, retornando assim ao zero – o que é um retrocesso – são eles capazes também de avançar para a matéria, de modo que sua união produza um Filho e uma Filha.

    Na prática, a idéia funciona como um método de descrever como a união de duas coisas quaisquer produz uma terceira coisa que não é nenhuma delas.

    A mais simples ilustração disso se encontra na química.

    Se tomamos os gases hidrogênio e cloro e passamos uma faísca elétrica através deles, ocorre uma explosão, produzindo-se ácido hidroclórico.

    Temos aqui uma substância positiva, que nos é possível chamar de o Filho do casamento desses elementos, sendo um avanço para a matéria.

    Mas, também, no êxtase da união, liberam-se luz e calor, fenômenos que não são materiais no mesmo sentido em que o ácido hidroclórico é material; esse produto da união é, portanto, de uma natureza espiritual, correspondendo à Filha.

    Na linguagem dos alquimistas, por uma questão de conveniência, tais fenômenos foram classificados sob a figura de quatro elementos:

    O fogo, o mais puro e mais ativo, corresponde ao Pai;

    a água, ainda pura, porém passiva, é a Mãe;

    da união de ambos resulta um elemento que participa das duas naturezas, sendo distinto, entretanto, tanto de uma quanto da outra, elemento ao qual deram o nome de Ar.

    É preciso lembrar constantemente que os termos empregados pelos filósofos antigos e medievais não significavam em absoluto o que significam atualmente.

    Água não significa para eles o composto químico H2O; trata-se de uma idéia extremamente abstrata e existe em toda parte.

    A ductibilidade do ferro é uma qualidade aquosa.(*)

    A palavra elemento não quer dizer elemento químico. Significa um conjunto de idéias, resumindo certas qualidades e propriedades.

    (*) Sua virtude magnética (similarmente) é ígnea; sua condutividade, aérea; e seu peso e dureza, terrestres.

    Contudo, o peso é apenas uma função da curvatura do continuum espaço-tempo: “A terra é o trono do espírito”.

    Aleister Crowley

  10. Sem said

    Fy, Adi, o conteúdo todo do que foi dito por vcs é meio enlouquecedor… vou demorar um tempo para digerir tudo, é muita informação de uma vez só para mim, mas, ao mesmo tempo, existe uma clareza muito grande de minha parte que absolutamente tudo o que aqui foi dito tem a ver com tudo o que tenho pensado e estudado nesses últimos tempos.

    Será que consigo? tomara, espero, que eu consiga colocar em palavras de modo sintético e compreensível o que ainda está embaralhado em meu íntimo e com algumas lacunas… Mais tarde pretendo transformar isso em posts, se Deus quiser, na medida em que os pensamentos forem amadurecendo, mas, sabem, toda a base desse conhecimento – místico, psicológico e tb racional – pode já ser encontrada nos pré-socráticos (estou me referindo ao conhecimento filosófico, porque da parte simbólica, ou espiritual mesmo, eu sei é anterior aos gregos e remonta aos egípcios ou mesmo ao oriente distante no tempo).

    Mas é nos pré-socráticos que encontramos o esboço de nossa cultura, como ela veio a ser forjada, é lá que está a nossa raiz e por isso o meu interesse que a princípio era insipiente, na medida em que descobria ali cada vez mais fundamentos, foi se transformando em estudo insistente e sistemático…

    Para vcs terem uma ideia do que estou falando, vou passar brevemente duas imagens, que são de duas escolas pré-socráticas consideradas “inimigas”, e mesmo excludentes uma da outra. Não acredito que sejam, mas, que seria uma revolução para o pensamento se as duas escolas, sem se contrapor, explicassem ambas a realidade, lá isso seria. Bom, seria um devir fantástico, mas, assunto para outra ocasião…

    Por ora vamos às imagens… Primeira: da escola atomista, de Demócrito (sou fã de Demócrito e de Heráclito, sabem?), ele disse “por convenção há a cor, por convenção há o doce e o amargo, há o quente e o frio; mas na realidade há somente átomos e vazio”. Demócrito constrói um mundo onde o vazio permite o movimento da matéria, ou mais, permite a mutabilidade plástica da matéria pela combinação diversa que podem assumir os átomos.

    Claro que essa imagem vazio-átomo deve ser entendida como uma metáfora de concepção do universo, que gerará um tipo de postura estética, um tipo de racionalidade e um tipo de espiritualidade completamente diversa da segunda imagem…

    Quem nos fornece a segunda imagem é Parmênides, o fundador da escola eleata (Parmênides de Eléia, o segundo nome faz referência a sua cidade natal, ao sul da Itália, na época uma colônia grega), quando ele diz “o ser ‘é’ e não pode ‘não ser'”, além de estar negando o “vazio” atomista, a realidade seria para Parmênides uma espécie de bloco único de “massa” amalgamada, onde teoricamente inexistiria o movimento e só haveria inclusive tempo presente. Só existiria o “ser”, eis tudo, pois até o passado e o futuro pertenceriam ao inconcebível não-ser.

    A imagem varia então do “0 – 1” dos atomistas para o “1” isolado dos eleatas.

    Esse “ser” de Parmênides é muito afim ao pensamento oriental. Mas eu não sei bem se o Tao se deixaria prender por ele, a mim parece que o Tao continua indefinível e tanto pode ser concebido por uma escola de pensamento quanto por outra…

    Uma das coisas mais bacanas de se estudar os pré-socráticos é que só nos restam deles fragmentos, então, em nossa leitura, há muito espaço para ser preenchido, muitas pausas e lacunas a serem completadas com nossos próprios pensamentos e imaginação… Ficamos assim meio entregues ao reino de “doxa” (da opinião), embora os pré-socráticos sejam mesmo considerados os filósofos da physis por excelência, do arché primordial.

    Sem dúvida que em uma leitura de um texto filosófico clássico, com tese e antítese, ficaríamos mais sujeitos ao pensamento do autor e sem poder divagar tanto. Bom, considero ambas as abordagens válidas da “verdade”.

    Pois é, tenho pensado essas coisas malucas, e vejam na continuidade, se não…
    Chego por fim a conclusão de que Deus é (também) Tempo. Eu que até hoje concebi Deus como Espaço – aquela coisa de Deus ser o Universo. Não é maluco isso? vamos ver, para explicar como é isso vou fazer uma analogia com a viagem de volta ao mundo do Fernão de Magalhães, quando ficou então provado a todos que a Terra era realmente redonda. Partindo dessa experiência, e tomando hoje um homem comum, que hipoteticamente dispusesse de todos os recursos materiais e de tempo para, partindo em linha reta daqui até o infinito, saísse de nossa órbita, do Sistema Solar, da Via Láctea, em direção ao Universo conhecido, minha tese é de que esse homem retornaria ao mesmo ponto de partida tal qual o navegador português retornou no séc quinze – isso porque não apenas o tempo e o espaço são curvos, em concordância com a teoria da relatividade geral de Einstein, mas também ao que tudo indica o universo é um sistema coeso e deve ter portanto um ponto central de equilíbrio em torno do qual todas as galáxias do universo conhecido se organizam ou equilibram as órbitas.

    Pode-se ainda fazer um paralelo entre essa teoria do universo ser “redondo” e o Eterno Retorno de Nietzsche. Nietzsche que foi totalmente inspirado por Heráclito, como é sabido, o q pode ser ilustrado por esses fragmentos desse que é um dos mais geniais filósofos gregos da antiguidade: “na circunferência, o princípio e o fim se confundem” e, guardem essa frase, “o caminho da espiral sem fim é reto e curvo, é um e o mesmo”.

    Uma pérola nietzscheniana que pesquei por aí, do seu A Gaia Ciência. Quase poesia:

    “E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!“ Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?” (aforismo 56)

    Mas vou tb discordar de Nietzsche, pois do seu Eterno Retorno temos de conceber o universo como finito, fechado, para haver afinal o “retorno” – e eu acho que esse mundo-fechado é a parte que nos cabe conhecer ou conceber do universo enquanto seres finitos. Mas quem garante que não exista um além, ou um além do além, como universos dentro de universos. E, querem saber, esse giro em torno do universo para “provar” que ele é “redondo”, acredito mesmo que podemos retornar ao mesmo ponto, mas, jamais será realmente o mesmo ponto, pois o tal feito, sendo possível, implicaria voltar exatamente ao preciso registro da matéria naquele ponto onde tudo estava na partida, mas, tanto a Terra, como todo o Espaço, estão em movimento contínuo… “Tudo é fluxo”, como diz Heráclito. Sendo Real, desde o movimento de saída e retorno à Terra, do ponto de vista do astronauta viajante, ele descreveria uma linha reta infinita; mas, da perspectiva de quem permaneceu na Terra, essa “reta” se transformaria num círculo; e da perspectiva ainda do universo, ou do Tempo e Espaço como Todo ou Deus, descreveria antes uma espiral. Quanto maior o espaço a ser percorrido, maior seria esta espiral…

    O que é o tempo? O tempo é o registro da matéria no espaço. Concebemos o passado como o registro da matéria naquele momento que uma “massa” passou por ali e já não está mais ali, e futuro é o estado que estará a matéria por onde uma massa ainda vai passar mas ainda não chegou lá. Vou fechar com a seguinte concepção de tempo: o tempo é imóvel, apenas é percebido por nós como corrente porque o que percebemos na verdade não é o tempo, mas a matéria q se desloca por ele – tempo. A matéria sim está sempre em movimento. Conclusão final: o tempo está parado, o espaço está parado, a única coisa que se move é a matéria. :p

  11. adi said

    Fy e Sem,

    Realmente tudo muito, muito abstrato, eh por isso que se usa da linguagem simbolica e metaforica pra descrever “algo” impossivel de descrever em liguagem falada; esse algo “imaginario”, arquetipico soh pode ser experimentado mas quase impossivel descreve-lo…

    E sabe o que eh lindo, Fy, do processo que o Crowley descreveu, eh que a Filha eh a propria Mae projetada na materia, ou melhor a Filha eh a forma da Mae quando esta se contrai e se limita/se torna o espaco/tempo… O Filho da mesma forma eh a imagem do proprio Pai convertido em espaco/tempo… por isso se diz na Cabala que a Mae eh a esposa e irma do Filho; os simbolos… fazer alma tambem eh ver sempre em sentido metaforico…

    Sem,
    “Pois é, tenho pensado essas coisas malucas, e vejam na continuidade, se não…Chego por fim a conclusão de que Deus é (também) Tempo. ”

    Nao eh a toa que os esoteristas simbolizam Binah como Saturno e Cronos.
    Segundo os esoteristas, o tempo eh uma dimensao do espaco infinito; o Todo se contrai em seu proprio Ser, criando assim essa dimensao em si mesmo pra gerar o mundo que conhecemos.

    Voce disse:” o tempo estah parado, o espaco estah parado, a unica coisa que se move eh a materia.”

    E ai nos leva a fazer uma outra reflexao, se o tempo nao existe, eh soh uma percepcao pra identificar esse movimento da materia atraves do espaco; alem do que, a visao do proprio Self eh atemporal; entao nos leva crer que sao nossas percepcoes, ou nossos processos cognitivos que constroem o tempo, porque estamos vivenciando nossa propria dimensao temporal/espacial num corpo/massa em movimento…

    conclusao: nada do que vemos, experienciamos, vivemos eh a coisa real em si… sao sempre percepcoes, interpretacoes de uma parte da coisa “toda”…

    bjs
    adi

  12. Mob said

    Sem,
    muito bom ler seus poemas… tudo fica leve.

    Bjs,
    Mob.

  13. Bob said

    Sem, saudades …

    Linda poesia!

    :))

    Abs

  14. Bob said

    Lembrei-me desta:

    AH! OS RELÓGIOS

    Amigos, não consultem os relógios
    quando um dia eu me for de vossas vidas
    em seus fúteis problemas tão perdidas
    que até parecem mais uns necrológios…

    Porque o tempo é uma invenção da morte:
    não o conhece a Vida – a verdadeira –
    em que basta um momento de poesia
    para nos dar a eternidade inteira.

    Inteira, sim, porque essa Vida eterna
    somente por si mesma é dividida:
    não cabe, a cada qual, uma porção.

    E os Anjos entreolham-se espantados
    quando alguém – ao voltar a si da Vida –
    acaso lhes indaga que horas são…

    (Mario Quintana – A Cor do Invisível )

    🙂

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