Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Dança comigo

Posted by luramos em junho 6, 2009

Porque hoje tem gira de baiano e festa junina da escola. Porque agora ainda estou aqui. Para celebrar a alegria do momento presente e pedindo licença a ele, lembrar a alegria do momento passado e invocar a alegria do momento futuro. Para quebrar a rigidez da seriedade da vida que levo. Para poder sentir-me rídícula, ouvindo e dançando com aqueles que me fazem sentir parte da Unidade. Para invocar as oitavas altas da escala musical a que pertenço. Para experienciar a polaridade da tristeza de base que me permeia desde que nasci. Para fazer uso da matéria densa que me compõe e do prazer que meus sentidos me permitem. Hoje celebro a vida e a alegria. Dança comigo!

Anúncios

24 Respostas to “Dança comigo”

  1. Kingmob said

    ôpa,
    deu vontade de dançar
    a dança é a expressão da alma no corpo….
    Ou a alma beijando o corpo….

  2. Fy said

    Beijo bom….

    derrete até estátua…

    Bjs

  3. Elielson said

    Não pude deixar de notar algo que não tinha notado no filme, aos 1:21 do video tem trigêmeos corretores?????

    Por isso que é sempre bom segundos olhares, terceiros e assim vai…

    Se vcs não assistiram happy feet, fica a dica, eu adoro o Ramón.

  4. Fy said

    – eu também, Elielson!

    Olha isto:

    A musica é mesmo uma linguagem que atinge todos os corpos, almas e mundos.
    Taí uma coisa que os homens poderiam usar com mais freqüência.

    Um momento raro:

    Assisti este filme com meu avô; não recomendo, é mto violento. Mas esta cena é impressionante.
    Bjs

  5. Kingmob said

    Eu vi esse filme quarenta e quatro vezes nos saudosos oitenta… mas dessa cena eu não lembrava. =D

    mais twist:

    Inappropriate soundtracks:

  6. Kingmob said

    Fy,
    essa cena do duelo de banjos é antológica!

  7. Elielson said

    Kingmob, Pulp fiction é demais!!!
    e por falar em duelo, ó esse aqui…

  8. Fy said

    Elielson,

    Este duelo é demais!

    Bjs

    Mob, kicking back:

    First:

  9. Fy said

    For this:

    Who can’t ?

    Bjs

  10. Elielson said

    Esse video aqui tbm é bom demais da conta.

  11. Fy said

    a dança é a expressão da alma no corpo….

    sempre !

  12. Fy said

    Para fazer uso da matéria densa que me compõe e do prazer que meus sentidos me permitem. Hoje celebro a vida e a alegria.

    Dança comigo!

    Por que dançar?

    Dançar parece ser um ato tão natural como respirar. E de fato é. Estar em movimento é estar vivo, e usar o movimento para interagir, expressar emoções – afeto, confiança, entrega, rendição,reverência, amor, temor, raiva, aprovação, recusa, emoções enfim – sem outra organização que aquela imposta pela estrutura do corpo e sem orientação além do ritmo, é uma das formas mais primitivas de comunicação.

    Com o tempo, serviu para atrair espíritos benéficos, exorcizar maldições, potencializar a energia dos astros e a fertilidade da terra.

    A mais antiga imagem da dança, datada de 8300 a.C., foi encontrada em pinturas de uma caverna na província de Lérida, na Espanha. Mostra nove mulheres em torno de um homem despido, indicando ritual de fertilidade.

    No livro World History of Dance, de Curt Sachs, o autor analisa esse desenho como registro de uma dança primitiva que já prenunciava a mítica encenação do deus Apolo cercado pelas nove musas, segundo as representações dos antigos gregos. Logo, a dança começou a ser associada com magia, ritual, cerimônia, celebração popular e, afinal, com simples diversão. Tornou-se um código sofisticado.

    Cercou-se de orquestra, cenários, iluminação e trajes de gala. Os movimentos ganharam o rigor e a disciplina de um balé clássico. Foram contestados por aqueles que defendem o instinto e a naturalidade como orientadores das respostas aos estímulos rítmicos e musicais.

    Conta-se que, quando perguntaram a Isadora Duncan (1878–1927), uma das mais célebres bailarinas do mundo, em que época começou a dançar, ela teria respondido: “No ventre de minha mãe”.

    Numa pista de dança, num ritual da umbanda ou do candomblé ou numa apresentação de orquestra sinfônica, às vezes parece impossível ficar parado. Mas o que nos faz dançar? Mais do que nas pernas, a resposta a essa pergunta está em nossa cabeça.

    Ao longe, a bateria da escola de samba ensaia. O som da batucada ecoa na sala do apartamento no 20º andar do edifício. O morador, sentado em sua poltrona, bate o pé no chão ao ritmo do batuque, enquanto as mãos acompanham involuntariamente, com movimentos discretos, a melodia entoada pelo puxador do samba. Sem perceber, o morador está dançando.

    É sempre assim: toda vez que uma música ou um ritmo são percebidos pelo cérebro, o corpo começa automaticamente a se mexer. A não ser que a mente ordene, não há quem consiga ficar totalmente parado em uma pista de dança na qual se toca música eletrônica a todo volume ou mesmo ao assistir à apresentação de uma orquestra sinfônica.

    A explicação para essa compulsão ao movimento está no cérebro, mais especificamente na sua parte central, onde se localizam o tálamo e o hipotálamo, e também no lobo parietal (região lateral do córtex), que reage à música e ao ritmo modulando o caminho dos estímulos (impulsos elétricos) do som.

    Essa alteração se reflete com maior intensidade nas áreas responsáveis pelos chamados movimentos de atenção involuntária, ou seja, que independem do controle do córtex. Essas áreas, diretamente relacionadas à memória e à expressão das emoções, estão localizadas no chamado sistema límbico, que envolve a parte mais central do cérebro.

    Estabelecida a supremacia do instinto sobre o controle, o corpo passa a se movimentar “sem querer”. Ou, como prefere o neurologista Mauro Muszkat, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), “somos arrastados para um estado não-controlado”.

    Mesmo confessando-se um mau dançarino, Muszkat estuda o movimento e, segundo ele, as músicas mais rítmicas provocam essa reação com mais intensidade – daí a incapacidade de o indivíduo impedir o corpo de dançar mesmo quando ouve algo que não lhe agrada.

    Enquanto a música mais contínua leva o cérebro ao relaxamento, diz o neurologista, a mais melódica provoca o estado de atenção.

    O bem que ela faz:

    A capacidade de a atividade motora e o ritmo estimularem regiões do cérebro levou vários profissionais a usarem a dança como terapia. E com enorme eficiência, para pacientes com alguns tipos de deficiência física e sensorial.

    O objetivo é aproveitar o potencial da dança de trabalhar com os cinco sentidos e, dessa forma, ajudar o cérebro a encontrar um novo “caminho” para os estímulos se traduzirem no corpo.

    “Pacientes com mal de Parkinson muitas vezes conseguem fazer movimentos, durante atividades com música e ritmo, que não conseguiriam em situações comuns”, afirma o neurologista Mauro Muszkat, da Universidade Federal de São Paulo.

    Por sua vez, a professora Ieda Maria Maia, de Educação Física, relata os bons resultados obtidos com a dança entre portadores de deficência física e neurológica das Casas André Luiz, em Guarulhos, Grande São Paulo. O grupo já fez várias apresentações. “Pacientes retomam o controle de movimentos e muitos melhoram a postura”, conta Ieda .

    Umbanda,Candomblé e Raves:

    A reação individual à música, no entanto, está associada à cultura do indivíduo. Cada povo dança de forma diferente.

    Nota-se, por exemplo, que os ocidentais tendem a reprimir muito mais o instinto de se movimentar, resumindo a sua dança involuntária a uma discreta marcação do ritmo com pés e mãos.

    Os hindus preferem dançar com o corpo todo, saltando, girando e executando movimentos mais soltos com os braços.

    Mesmo assim, há algumas reações em comum. Repetir movimentos compassados, por exemplo, produz o mesmo efeito instintivo, qualquer que seja a música. “É por isso que a dança rítmica da umbanda, do candomblé, etc; leva ao estado de catarse”, explica Mauro Muszkat.

    Pode explicar também a fascinação dos jovens por discotecas e raves. Em meio à multidão em movimento, até mesmo os mais retraídos conseguem esquecer a timidez e deixam de lado a sensação de estranheza. Passam a interagir, a se comunicar em outra linguagem.

    Essa reação se aplica até mesmo a bailarinos profissionais que treinam para ter controle total sobre os movimentos e confessam se sentir fora de si sobre o palco.

    O estudo dos primórdios da civilização mostra a ligação entre a dança e a busca do espiritual, como se pode ver nas primeiras representações do homem dançando em cerimônias rituais, segundo as pinturas rupestres espalhadas em várias partes do mundo.

    A maior parte dessas pinturas mostra homens vestidos com peles e máscaras de animais, alternando-se entre saltos e giros que deveriam provocar a sensação de vertigem ou de êxtase.

    Mesmo hoje, grupos étnicos de várias partes do mundo mantêm essa espécie de dança participativa em manifestações religiosas ou rituais. Como interpreta Graziela Rodrigues, coordenadora do curso de dança da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e pesquisadora dos rituais brasileiros e ameríndios, “nesses momentos, o corpo torna-se um meio de entrar em contato com o sagrado”.

    A história da dança no Ocidente mistura o caminho do sagrado e do profano. Na Grécia Antiga, por exemplo, as coreografias rituais, realizadas em homenagem a Dionísio, deus da fertilidade e do vinho, tornaram-se uma cerimônia popular, depois incorporadas ao teatro e transformadas em diversão.

    Bem mais tarde, por volta do século 10, na Idade Média, a Igreja Católica baniu todas essas manifestações de origem ritualística, separando a dança da religião, no mundo ocidental. É claro que não conseguiu extinguir as manifestações dos costumes populares e muitas vezes teve que acomodar-se ao inevitável, como as danças de aleluias executadas diante das portas das igrejas.

    Com o Renascimento, a dança passa a ser codificada por mestres a serviço da corte. “A dança era usada para mostrar poderio econômico”, afirma a professora Eveline Borges, do curso de dança da Unicamp. “As coreografias e ritmos praticados por cada grupo evidenciam seu status na sociedade.” O exemplo mais significativo está no balé clássico e nas grandes danças cênicas, nascidas da necessidade de ostentar luxo, opulência e de uma etiqueta rigorosa durante o reinado de Luís 14 na França.

    Está aí, dizem os especialistas, a diferença entre o ato de dançar protagonizado pelos humanos e os movimentos ritmados que integram a rotina de diferentes espécies, de insetos a mamíferos, na aproximação para o acasalamento. “No homem, o pensamento simbólico se sobrepõe ao concreto”, afirma o neurologista Mauro Muszkat. Novamente, ele localiza essa diferença na atividade cerebral durante a dança.

    Os movimentos ritmados são resultantes de uma ação motora complexa, explica Paula Viana, neurologista do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, interior de São Paulo.

    Os estudos da anatomia e da fisiologia do cérebro mostram que ele é quase totalmente acionado quando o corpo se movimenta de forma ritmada e intencional.

    Segundo Paula Viana, são estimuladas as áreas motoras (na região pré-frontal), as relacionadas com os movimentos voluntários (região frontal) e movimentos rápidos dos olhos (occipital), as áreas ligadas ao tato (pós-central), à audição e à orientação espacial (região temporal), além do cerebelo, de maior importância na coordenação dos movimentos.

    Compreensão do mundo:

    Mas a maior atividade neural provocada pela dança ocorre nas áreas associativas, ou seja, na integração das funções motoras e de sensibilidade, que dão significado a cada movimento praticado ou percebido.

    Desta forma, a dança deixa de ser simples movimento, pois serve para ampliar a capacidade sensorial e de compreensão do mundo, ao mesmo tempo que aumenta o repertório comunicativo de cada pessoa. Explica-se assim a motivação mais primitiva do homem para dançar. “O homem, desde os tempos primitivos, sentiu a necessidade de interagir pelo movimento”, resume a professora do curso de dança da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Juçara Pinheiro.

    Sua colega da Unicamp, Graziela Rodrigues, acrescenta que a relação entre os sentidos promovida pela dança também ajuda o cérebro a construir a auto-imagem do corpo e esta seria uma outra razão para o homem dançar. “É uma forma de entrar em maior contato com o próprio corpo e se perceber melhor”, afirma a professora.

    Outro motivo está relacionado ao prazer proporcionado pela dança.
    A quantidade de beta-endorfina (substância produzida pelo cérebro que se transforma em endorfina e provoca a sensação de prazer) e de ocitocina (hormônio também relacionado ao orgasmo sexual) liberadas no organismo durante uma aula de balé clássico ou numa rave levam o corpo a um estado de satisfação dificilmente mensurado.
    Sua ausência chega a provocar sensação de abstinência que só desaparece quando a pessoa volta a dançar.

    Pequena História da Dança, Antônio José Faro. Ed. Jorge Zahar.

  13. Kingmob said

    Fy,
    isso aqui também é dança, porque também expressa alma e o beijo no corpo.
    bjs.

  14. Fy said

    Mto mais:

    – Isto é bj de Alma Brasileira!

    Bjs

  15. Fy said

    E mais, mto mais, ainda,

    Um beijo lindo de Deus [D]:

    É qdo “ele” pergunta: quer dançar comigo?

    Bjs

  16. Fy said

    Dancing,

    you learn how to free your soul:

    Big Film!

    Bjs

  17. Santosh said

    O “acaso” me trouxe até aqui… e magia da dança fez seu encanto.

  18. luramos said

    bem vindo Santosh, dança conosco também!

  19. Sem said

    Sobre a alma estar no mundo – anima mundi; sobre ela animar objetos, ideias, coisas, lugares, que de outra forma seriam inanimados…

    Sobre a beleza de mudar; sobre o sofrimento que é mudar; sobre essas coisas todas, mas da perspectiva da alma, que de forma alguma está associada a crescimento interior contínuo ou noção de progresso, e sim em ser verdadeiramente quem se é, na essência…

    ……………………………………………..
    Dois homens caminham pelas paliçadas do Pacífico, numa tarde em Santa Mônica. Vão na direção do que os californianos chamam de norte porque, no mapa, segue a linha da costa “para cima”; na realidade, a costa se curva abruptamente nesse local e eles estão indo para o oeste. É bom mencionar esse detalhe apenas porque é do tipo que interessa a esses dois homens e, se lhes atrair a atenção, irão falar a respeito, fazer digressões e até lhe dar grande importância – em parte por diversão e, em parte, porque é assim que eles são.

    Os dois iniciaram o passeio no cais de Santa Mônica, local de aparência festiva, onde pessoas influentes cruzam-se com os sem-teto, os sul-americanos do leste de Los Angeles e dos novos guetos da América Centra, no centro-sul; os asiáticos de Chinatow, Koreatow e os enclaves japoneses; os brancos pálidos de Culver City e do norte de Hollywood; os brancos bronzeados e esbeltos da zona oeste de Los Angeles; velhos de todas as procedências e todos os sotaques e turistas de toda parte do mundo. Os pobres tentam pescar para comer, apesar do aviso estrito em estrito e, inglês e espanhol alertando para o perigo de ingerir o que possam ter pescado. A praia está sempre interditada devido aos dejetos despejado pelos esgotos. Mas o oceano não mostra seu lixo; parece adorável, lindo como sempre. A orla é de 10 a 30 graus mais fresca que poucos quilômetros para o interior. Por isso, todos vão para lá.

    Eles subiram até o rochedo Pacific Palisades, passaram pelos outeiros de onde se avistam a rodovia costeira e o mar, e no ponto mais afastado do parque, onde as colinas são mais altas e não há tanta gente, sentam-se num banco.

    Os homens são James Hillman e Michael Ventura. Hillman tem sessenta e poucos anos, é alto e magro. Embora seja de Atlantic City e judeu por nascimento, porta-se como um velho habitante da Nova Inglaterra, com aquele senso ianque de autoridade tolerante mas sensata – de certa forma suavizada por seu penetrante interesse por tudo e por todos que estejam por perto. Ventura tem quarenta e poucos anos, é mais baixo, mais moreno e mais relaxado que Hillman. Está usando um tipo de chapéu que se vê em filmes dos anos 40 e botas de cowboy já um tanto gastas; ele dá a impressão de estar buscando equilíbrio entre tantas incongruências. Hillman é psicólogo, autor e conferencista; Ventura escreve para jornais e é roteirista de cinema.

    Ventura tem um pequeno gravador, que durante seus encontros com Hillman este sempre ligado, estejam eles andando ou no carro. A conversa tem um tema: a psicoterapia. E tem algo parecido como uma forma: um força o outro não a ser razoável, mas a ir além em seus pensamentos. Essas conversas têm uma pretensão: elas e, posteriormente, as cartas trocadas entre ambos irão se tornar um livro, um livro informal, mas (esperam) veementemente polêmico, que mexa um pouco com a psicoterapia. Isso porque ambos têm a convicção de que a psicoterapia necessita, e muito, ser empurrada para além de suas idéias já estabelecidas; precisa ganhar novo estímulo, antes que seja totalmente cooptada como mais um artifício para encaixar as pessoas numa moralidade forçada e falsa.

    Eles estão ali sentados, Ventura põe o gravador no meio dos dois e começa a falar do que, na época, era seu tema preferido.

    JAMES HILLMAN: Já se vão cem anos de análise, as pessoas estão cada vez mais sensíveis e o mundo, cada vez pior. Talvez seja a hora de encarar isso de frente. Ainda localizamos a psique dentro da pele. Você “entra” para localizá-la, examina os “seus” sentimentos, os “seus” sonhos, que só a você pertencem. Ou suas inter-relações, o intrapsíquico, entre sua psique e a minha. Estende-se um pouco aos sistemas familiares e ao ambiente de trabalho – mas a psique, a alma, ainda permanece só “dentro” das pessoas e “entre” elas. Constantemente trabalhamos nossas relações, nossos sentimentos e nossas reflexões, mas observe quanta coisa fica de fora.

    (Hillman faz um gesto amplo que inclui o petroleiro no horizonte, as pixações de uma gangue numa placa do parque e uma mendiga gorda, com tornozelos inchados e pela rachada, dormindo na grama a poucos metros de onde estão.)

    O que sobra é um mundo deteriorado.
    Por que a terapia não percebe isso? Porque a psicoterapia trabalha somente “dentro” da alma. Quando ela remove a alma do mundo e não reconhece que está também “inserida” nele, não pode mais fazer seu trabalho. As casas estão doentes, as instituições estão doentes, o sistema bancário está doente, as escolas, as ruas… a doença está “aqui” fora.
    A alma, sabe, é sempre redescoberta pela patologia. No século XIX não se falava em psique até aparecer Freud e descobrir a psicopatologia. Agora já se diz que nossos móveis são feitos de algo que nos está envenenando, que os fornos de microondas liberam raios perigosos. O mundo tornou-se tóxico.

    (Os dois olham o sol refletido no mar e parecem pensar a mesma coisa.)

    MICHAEL VENTURA: O mar está doente. Não podemos comer os peixes.

    HILLMAN: O mundo está cheio de sintomas. Não estaríamos começando a reconhecer aquilo que se costumava chamar de animismo?
    O mundo está vivo – meu Deus! E isso provoca alguns efeitos em nós. “Tenho que me livrar dessas latas de aerosol.” “Tenho que me livrar desses móveis feitos de aldeído fórmico.” “Tenho que ficar atento a isto, aquilo e aquilo outro.” Há muita patologia no mundo e por isso estamos começando a tratá-lo com mais respeito.

    VENTURA: É como se, por termos negado o espírito das coisas, o espírito, ofendido, voltasse para se vingar. Como se, por negarmos a alma das coisas, por dizermos como Descartes, “Vocês não têm alma”, elas se voltassem contra nós e dissessem: “Olhe aqui minha alma, imbecil!”

    HILLMAN: “Veja só o que vou fazer, Homem! Você vai agüentar esta lâmpada horrorosa em seu escritório e sofrer todas as vezes que olhar para ela. Vou produzir esta luz fluorescente que, aos poucos, deixará você maluco. E então você vai procurar um psicoterapeuta para trabalhar os seus relacionamentos, mas não saberá que fui eu que o peguei. Com aquele tubo fluorescente em cima da sua cabeça o dia todo, batendo direto no seu crânio, como um agente da KGB apontando um holofote em sua direção, em cima de você – grosseiro, cruel, sem sombras.”

    VENTURA: Apesar de sentirmos tudo o que fazemos e dizemos, e todo mundo sente, caímos em duas armadilhas: de um lado está o “progresso”, um valor que temos entranhado – se você acha que está fora disso, dê um passeio de carro pelo México e verifique que nem os americanos pobres quereriam viver como a maioria daquela gente (para os mexicanos, os americanos pobres têm vida de rico, por isso eles continuam chegando); de outro lado, sabemos que as coisas à nossa volta estão cada vez mais prejudiciais, mas não temos idéia do que fazer. Nosso senso político atrofiou, virou esse disparate que se vê nas eleições presidenciais.

    HILLMAN: O senso político decaiu sensivelmente. Não há mais sensibilidade para os problemas reais. Por que as nossas inteligentes – ao menos da classe média branca – são tão passivas hoje em dia? Por quê? Porque os mais sensíveis e inteligentes estão em terapia! Aqui nos Estados Unidos se faz terapia há trinta, quarenta anos, e nesse tempo houve uma tremenda decadência política no país.

    VENTURA: Por que acha que isso acontece?

    HILLMAN: Toda vez que temos de lidar com a agressividade em nossas rodovias, o tormento que são nossos escritórios, nossa iluminação, ES trastes que são nossos móveis, o crime nas ruas, seja o que for, sempre que tentamos lidar com tudo isso procurando uma terapia com a raiva e o medo que sentimos, estamos privando o mundo político de alguma coisa. E a terapia, na sua loucura, ao enfatizar a alma interior e ignorá-la do lado de fora, sustenta a decadência do mundo real. Contudo, a terapia segue acreditando cegamente que está curando o mundo e tornando as pessoas melhores. Há muitos anos diz-se que “se todas as pessoas fizessem terapia teríamos casas melhores, pessoas melhores, mais consciência”. Não é bem assim.

    VENTURA: Não tenho certeza se isso aconteceu por acaso mas, decididamente, é um padrão. Nosso conhecimento interior tornou-se mais sutil, ao passo que a habilidade para lidar com o mundo que nos rodeia “deteriorou”; talvez essa não seja uma palavra suficientemente forte – “desintegrou” é melhor.

    HILLMAN: Hoje em dia, a moda em psicoterapia é a “criança interior”. É a nova terapia – você retorna à infância. Mas se você está olhando para trás, não está vendo em volta. Essa viagem para trás envolve o que Jung chama de “arquétipo da criança”. Ora, por natureza, o arquétipo da criança é apolítico e impotente – não tem conexão com mundo político. Então o adulto diz: “o que posso fazer pelo mundo, se ele é maior do que eu?” Esse é o arquétipo da criança falando. “Tudo o que posso fazer é mergulhar dentro de mim, trabalhar meu crescimento, meu desenvolvimento, encontrar bons parceiros e grupos de apoio.” Isso é um desastre para o nosso mundo político, a nossa democracia. A democracia depende de cidadãos intensamente ativos, não de crianças.
    Ao enfatizar o arquétipo da criança, ao transformar nossas horas terapêuticas em rituais de evocação e reconstrução da infância, estamos bloqueando nossa vida política. Vinte ou trinta anos de terapia afastaram de nossa sociedade as pessoas mais sensíveis e inteligentes, bem como algumas das mais influentes, para cultuar a criança. Isso está acontecendo de maneira insidiosa em todas as terapias, por todo o país. Portanto, é “natural” que nossa política seja um descalabro e ninguém vote; estamos perdendo o poder através da terapia.

    VENTURA: A premissa com a qual as pessoas estão trabalhando é que o crescimento interior se traduz em poder no mundo, e muitas não percebem que vão para a terapia pressupondo isso.

    HILLMAN: Se o crescimento pessoal levasse ao mundo, nossa situação política hoje seria diferente, não seria? Considerando-se a quantidade de pessoas especialmente inteligentes que fizeram terapia? O que se aprende em terapia é, principalmente, como lidar com os sentimentos, como recordar de verdade, como deixar que a fantasia aconteça, como encontrar palavras para coisas invisíveis e ir fundo nelas…

    VENTURA: Boas coisas para se aprender…

    HILLMAN: Sim, mas você não aprende a ter habilidade política e nem fica sabendo como o mundo funciona. O crescimento pessoal não conduz automaticamente a resultados políticos. Olhe a Europa oriental e a União Soviética. A psicoanálise foi banida de lá durante muito tempo e as mudanças políticas irromperam surpreendendo a todos. Essas mudanças não resultaram de terapias e sim de revoluções.

    VENURA: Então você faz uma espécie de oposição entre poder, o poder político ou a inteligência política, e a inteligência terapêutica. Muitos dos que são terapeuticamente sensíveis são politicamente silenciosos e insignificantes; e se você observar as pessoas que exercem grande poder em qualquer esfera da vida, verá que em geral são aquelas cujo crescimento interior foi intensamente sustado.

    HILLMAN: Você acha que as pessoas fazem terapia para crescer?

    VENTURA: Por acaso a palavra “crescimento” não ocupa grande parte do projeto terapêutico? Todo mundo a usa, tanto terapeutas quanto pacientes.

    HILLMAN: Mas a própria palavra “crescimento” é apropriada para as crianças. Depois de certa idade não se cresce mais. Os dentes não crescem, os músculos não crescem. Se você começa a crescer depois dessa idade, está com câncer.

    VENTURA: Ah, Jim, por que não posso crescer “dentro de mim” durante toda a vida?

    HILLMAN: Crescer o quê? Milho? Tomates? Novos arquétipos? O que estou fazendo crescer, o que você faz crescer? A resposta-padrão da terapia é: fazer crescer a si mesmo.

    VENTURA: E o filósofo Kierkegaard voltaria para dizer: “A natureza mais profunda não muda, transforma-se cada vez mais nela própria.”

    HILLMAN: Jung diz que individuação é ser cada vez mais si mesmo.

    VENTURA: E ser cada vez mais si mesmo implica coisas desagradáveis. Jung também afirma que nada é mais terrível que conhecer a si mesmo.

    HILLMAN: E ser cada vez mais o que se é – a real experiência disso é um encolhimento, quase sempre no sentido de um ressecamento, de perda de gorduras, de perda de ilusões.

    VENTURA: Isso não parece nada agradável. Por que alguém desejaria isso?

    HILLMAN: Porque mudar é uma coisa linda. É claro que não é o que diz o consumismo, mas mudar é bom. É um grande estímulo.

    VENTURA: Mudar o quê?

    HILLMAN: Mudar as falsas peles, perder a matéria incrustada que se acumulou. Soltar a casca seca. Essa é uma das grandes mudanças. Coisas que não funcionavam mais, que não sustentam mais, que não o mantêm vivo. Um conjunto de idéias que se tem há muito tempo. Pessoas das quais, “na verdade”, você não gosta, pensamentos viciados, hábitos sexuais. Estes últimos são pontos muito importantes: se aos 40 anos a pessoa faz sexo como fazia aos 18, estará perdendo algo; e se aos 60 fizer amor como fazia aos 40, também estará perdendo. Tudo muda. A imaginação muda.
    Dizendo de outro modo, “crescimento é sempre perda”.
    Sempre que você cresce, perde alguma coisa. Perde aquilo a que se agarrava para se preservar. Perde hábitos confortáveis, perde o senso de familiaridade. Isso é importante: começar a se mover para o desconhecido.
    ……………………………………………..

    Cem anos de psicoterapia e o mundo está cada vez pior; James Hillman e Michael Ventura; ed Summus.

    Retirado daqui:
    http://books.google.com.br/books?id=S2BY_Dtf2CkC&printsec=frontcover&dq=cem+anos+de+psicoterapia+james+hillman#PPA14,M1

    Apesar de não ter autorização para reprodução, o texto foi retirado exclusivamente da parte legível e disponível ao público em geral, no Google Books.
    Fica o incentivo para quem se interessou que procure o original e leio o livro na íntegra.

  20. adi said

    Sem,

    James Hillman foi fundo na alma. Achei perfeito isso que ele falou:

    – Jung diz que individuação eh ser cada vez mais si-mesmo.
    – Mudar eh uma coisa linda. (…) mudar eh bom. Mudar as falsas peles, … soltar a casca seca. (…) Tudo muda, a imaginação muda.
    -Dizendo de outro modo, “crescimento eh sempre perda”.

    A vida eh assim, uma constante transformacao, uma constante mudanca. Somos obrigados a crescer, a sempre soltar e deixar ir o velho, e ir de encontro ao desconhecido. Nao eh facil o desapego….
    A vida eh sofrimento, jah dizia Buda, por causa de sua natureza inconstante.

    Vou ler o livro e aprender um pouco mais de James Hillman.

    bjs
    adi

  21. Bob said

    Convenhamos, esta é legal tb! 🙂

    Abs

  22. Fy said

    Lindo Bob!

    Pra Sem e pra Adi: e pq eu devo ser uma tonta que fico meio tonta de vez em quando:

    Um bate papo entre amigos q eu tb gosto:

    Vogais / consoantes 6

    Não que se insinuem por essas parágrafos a antítese da famosa mas já não tão unânime teoria da arbitrariedade do signo.

    Mas, que essa arbitrariedade seja apenas uma ressalva que se faça em relação à impregnação afetiva a que toda palavra está sujeita quando provada por nossa língua.

    A posição impressionista parece atender melhor ao gratuito, ao variado, ao sortimento por princípio infinito que esses parágrafos buscam descrever. Afinal, trata-se de vogais, um corpo sem medula, ou só medula, coágulo que é pura potencialidade ao redor do qual a sílaba se concentra.

    A teoria é uma atividade mais dedicada às consoantes.

    As vogais são menores em número e, por isso mesmo, mais plásticas.

    A teoria requer joelhos e cotovelos, trancas e dobradiças. As vogais ventam por entre, escapam sempre.

    vogais / consoantes 7

    A diferença entre nu e nua, por exemplo. A única vogal de uma parece servir mais à consoante do que o contrário.

    Nu é cru, direto ao assunto, vertical e reto.
    Nua acentua a curva, o contínuo, a consoante quase some de nossa lembrança de tal modo nos detemos no sinuoso hiato.

    Sim, pode-se pensar a diferença por esses termos binários, vogais fêmeas, consoantes machos.

    PRECIPITADO POR MARCELO DINIZ

    – 1ª galanteria para vogais

    que as vogais consoantes perdurem até não poderem mais….. [ please: by Fy]

    alaga a vaga da boca
    voz sem véu na vão da fala
    alarga o nó da palavra
    vagabunda língua oca

    ventos de gozo sem pausa
    pautas de pele sem roupa
    vôos de flauta com asa
    sopros guardados em gaita

    PRECIPITADO POR FRED.GIRAUTA

    BJS

  23. Fy said

    Sem,

    Repetir que o Hillman é genial, não me canso.
    Ou talvez sua filosofia combine mto com minha maneira de ser.

    Mas, de tudo isto, fazendo um paralelo com a dança; sempre fica a impressão de que a Vida – tem um papel tão definitivo em nossas almas qto a dança.
    A vida de cada um.

    A forma como ela vai desenhando, convidando, moldando, preenchendo.

    Às vzs com suavidade, às vzs com severidade; como se tivesse “vida” própria, não é? – mas como ela é importante; como ela desenha!

    Esta frase, do Lorca me lembra mto a Vida:

    O Duende opera sobre o corpo da bailarina como o vento sobre a areia.

    A Vida faz isto com a Alma. E é preciso saber dançar esta dança. Ouvir esta melodia. – Eu acho q o Hillman, manda bem: – ele dança.

    Bjs

  24. Fy said

    Uma dica deliciosa: lindo blog. – vale a pena.

    http://amagiadoballet.blogspot.com/

    A Dança ou a arte de libertar o corpo.

    À muito que ando fascinado com esta arte de dançar. Não sei porquê.
    Para além da sensualidade e a arte de fazer balancear o corpo, o ballet tem muito de espirituoso como qualquer outra arte.

    Corpos perfeitos que deambulam como se tratassem de ramos de arvores verdes ao sabor do vento. Assim eu vejo as bailarinas.

    Como é possível não ficar siderado com a delicadeza, a sublime faculdade de poder executar os mais belos passos de dança. Que nos leva a imaginar pedaços de vida irreais. O que ela está realmente a sentir? Provavelmente está em êxtase, absorvida no seu trabalho que é ao mesmo tempo um dom.

    È verdade que sempre tive a fantasia de namorar com uma bailarina porque acho que ela me conseguiria fazer sonhar, vaguear ao sabor das brisas. Isto para alguém que tem total ausência de “swing” seria um grande “achievement “.

    Mas tudo está condensado na arte de sonhar e acreditar. Estarmos esclarecidos é o fundamental na sociedade de hoje. Não adianta “ser inteligente” se não dominamos a ferramenta do dia a dia. Respirar, trabalhar, divertir são situações banais. Será?

    Será que temos feição com a maneira de viver? Tudo o que é supostamente banal nós não damos o devido valor! Então como sabemos respirar? Apenas sabemos que é uma necessidade, até ao dia que nos fará falta e aí sim lhe vamos dar o devido respeito.

    Assim relacionamos com tudo o resto. Acreditar é viver. Duvidar é desfalecer aos poucos. Mas se sabemos a equação porque não a traduzimos no quotidiano? Afinal ser feliz não é assim tão difícil. Porquê que tendencialmente nos retrairmos em fobias e estereótipos.

    Mas para além de dominarmos as ferramentas do dia a dia é imperioso que as saibamos utilizar sempre. Não adianta num dia as manipular correctamente se no dia seguinte nos fazemos de esquecidos.

    O quotidiano é uma arma tão poderosa como acutilante.
    Dá nos as forças para vencer batalhões, derrotar o invencível como é passível dos nos dilacerar sem a mínima piedade.

    Libertar o corpo e a mente. Se não acreditarmos no que seja, nunca seremos felizes, porque estaremos sempre a duvidar.

    “Seize the day” é um conceito mais abrangente do que viver o momento. È chegar ao final do dia e quando estivermos deitados na cama à espera de dormir. Pensarmos o que fiz neste dia? Valeu a pena? O que de relevante eu fiz. O que fiz que não poderá ser repetido. Onde posso melhorar para ser uma pessoa?

    por: Castanheira Maia

    (Respeitando os direitos autorais)

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: