Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

O Sonho da Insônia

Posted by Kingmob em junho 2, 2009

Os grupos que tanto se interessam pelo sonho, psicanálise e surrealismo, prontificam-se também na realidade a formar tribunais que julgam e punem: repugnante mania, frequente entre os sonhadores. Em suas reservas ao surrealismo, Artaud ressaltava que o pensamento não se choca contra um núcleo do sonho, mas que os sonhos ricocheteiam sobre gwendavies_theonlyonewhoknows1um núcleo de pensamento que lhes escapa. Os ritos do peyotl, segundo Artaud, os cantos da floresta mexicana, segundo Lawrence, não são sonhos, porém estados de embriaguez ou sono. Esse sono sem sonhos não é daquele em que dormimos, mas ele percorre a noite e a habita com uma claridade assustadora que não é o dia, mas o Relâmpago: “No sonho da noite vejo os cães cinzas, que se arrastam para vir devorar o sonho”.  Esse sono sem sonho, quem que não se dorme, é Insônia, pois só a insônia é adequada à noite e pode preenchê-la e povoá-la. Por isso reencontra-se o sonho, já não como um sonho de sono ou sonho desperto, mas como sonho de insônia. O novo sonho tornou-se guardião da insônia. Como em Kafka, já não é um sonho que se faz no interior do sono, mas um sonho que se faz ao lado da insônia: “Envio (ao campo) meu corpo vestido… Enquanto isso eu estou deitado em minha cama sob uma coberta marrom”. O insone pode permanecer imóvel, enquanto o sonho tomou para si o movimento real. Esse sono sem sonho onde no entando não se dorme, essa insônia que todavia arrasta o sonho até os confins da insônia, tal é o estado de embriaguez dionisíaca, sua maneira de escapar ao juízo.

(“Para dar um fim ao juízo”, In: Crítica e Clínica, Gilles Deleuze, Ed. 34).


Dois

Abraçava-me à noite nítida
à alta, à vasta noite estrangeira,
a aos seus ouvidos sucessivos murmurava:
“Não quero mais dormir, nunca mais,
[noite, esparsas
nuvens de estrelas sobre planíciesgrateful-insomniac
[detidas
sobre sinuosos canais, balouçantes e frios,
sobre os parques inermes, onde a bruma e
[as folhas ruivas
sentem chegar o outono e, reunidas,
[esperam
sua lei, sua sorte, como as pobres figuras
[humanas.”

E aos seus ouvidos sucessivos murmurava:
“Não quero mais dormir, nunca mais,
[quero sempre
mais tempos para os meus olhos, – vida,
[areia, amor profundo…-
conchas de pensamentos sonhando-se
[desertamente.”

E noite dizia-me: “Vem comigo, pois, ao
[vento das dunas,
vem ver que lembranças esvoaçam na
[fronte quieta do sono,
e as pálpebras lisas, e a pálida face, e ocecilia-meireles
[lábio parado
e as livres mãos dos vagos corpos
[adormecidos!”
“Vem ver o silêncio que tece e destece
[ordens sobre-humanas,
e os nomes efêmeros de tudo que desce à
[franja do horizonte!
Oh! os nomes… – na espuma, na areia,
no limite incerto dos mundos,
plácidos, frágeis, entregues à sua data
[breve,
irresponsáveis e meigos, boiando, boiando
[na sombra das almas,
suspiro da primavera na aresta súbita dos
[meses…”

E a linguagem da noite era velhíssima e
[exata.
E eu ia com ela pelas dunas, pelos
[horizontes,Pablo_Amaringo-Beings_of_the_Vegetation
entre moinhos e barcos, entre mil infinitos
[noturnos leitos.

Meus olhos andavam mais longe do que
[nunca
voavam, nem fechados nem abertos,
independentes de mim,
sem peso algum, na escuridão,
e liam, liam, liam o que jamais esteve
[escrito,
na solidão do tempo, sem qualquer
[esperança,
– qualquer.

(Doze Noturnos de Holanda e outros poemas, Cecília Meireles, Ed. Nova Fronteira).

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14 Respostas to “O Sonho da Insônia”

  1. franci23 said

    Interessante tudo isso…

  2. Sem said

    >O insone pode permanecer imóvel, enquanto o sonho tomou para si o movimento real.

    Não seria esse sonho de insônia, esse sono sem sonho, escutar os deuses e o chamado do daimon, como eu acabei de te responder lá no Anothering da Fy? E real pra mim é isso que eu penso o Deleuze está chamando “insônia”, esse mundo de deuses ou como se o queira chamar, mais real que o mundo físico concreto, que pode ser bem ilusório comparado ao da alma e do espírito.
    Difícil esse texto, difícil Deleuze, pelo menos pra mim que conheço bem pouco dele.

    E obrigada pelo poema da Cecília que eu não conhecia. 🙂

  3. Fy said

    Sem,

    – mais real que o mundo físico concreto, que pode ser bem ilusório comparado ao da alma e do espírito.-

    O Mob fez uma observação lá no Anothering bastante relevante neste sentido, qdo falou sobre a distinção que fazemos entre o real e ao que chamamos de irreal, ou alma. Justamente sobre a tendência de nos refugiarmos na razão à qq proximidade do duende, daimon, ou como queiramos chamar. – E, realmente é um comportamento quase mecânico uma censura interna, um movimento quase autônomo que com certeza corresponde a algum aculturamento condicionador.

    Voltando ao outramento, vc lembra a posição do Hillman em relação à criança interior? Neste ensaio, ele ainda é mais renovador ou revolucionário; – eu fiz uma associação imediata com o Puer e o duende interior. Este que tememos e fomos condiconados a “superar”; a abafar ou forçá-lo a se dissolver em prol da purificação derradeira da alma; algo assim como uma missão.

    Eu separei um trecho; é meio longo, mas vale a pena: [ inclusive pra q vc avalie minha interpretação] – talvez seja melhor dividir em 2 coments.

    O mais importante sobre a anima é o que sempre se disse da psique : é insondável, inapreensível. Pois anima. “o arquétipo da vida “conforme Jung a denominou, é aquela função da psique que constitui sua verdadeira vida, a embrulhada na qual está metida hoje , seu descontentamento, suas desonestidades, e eletrizantes ilusões, junto com suas reabilitadas esperanças de uma realização melhor.

    As contradições em que se debate são tão intermináveis quanto é profunda a alma, e talvez estes mesmos “problemas” labirínticos infindáveis constituem sua profundeza.

    A anima nos embrulha e retorce e comprime a ponto de ruptura, realizando a “função do relacionamento”, outras das definições de Jung, uma definição que se torna convincente só quando nos damos conta de que relacionamento significa perplexidade.
    A consciencia do Puer necessita casar-se com a mixórdia da psique, a fim de empreender “a luta dos sexos”.

    Os oponentes do espírito são, antes de tudo, as rixas sob sua própria pele : o mau humor de manhã, os sintomas, as prevaricações nas quais se enreda e a vaidade. O Puer precisa combater a irritabilidade desta “mulher ” interior, sua indiferente preguiça, seus caprichos pôr doces e lisonjas – Tudo quanto a análise chama de “auto-erotismo”.

    Trata-se de luta com a alma em vez de luta contra, e abraço apertado, tenso, afetuoso, em muitas posições de cópula sexual, um abraço em que a loucura do puer defronta-se com a confusão e os desvios da psique, sua loucura a refletir-se em deformado espelho .

    Não é uma luta franca nem clara. Nem mesmo sei que armas usar ou onde o inimigo se encontra, pois o inimigo parece ser minha própria alma e coração, e minhas mais queridas paixões.

    O Puer é deixado sozinho com sua doidice e durante o combate ele recorre a ela tão freqüentemente que aprende a dela cuidar como preciosidade, como aquilo de ímpar que ele realmente é, sua singularidade e limitação. O refletir-se no espelho da alma permite ao homem ver a demencia de seu impulso espiritual , e a importância desta demência.

    Toda a luta com a alma resume-se precisamente nisto, sendo a psicoterapia a ocasião desta luta : descobrir sua loucura, seu espírito singular, perceber a relação entre seu espírito e sua loucura, constatar a loucura em seu espírito e o espírito em sua loucura.
    O espírito precisa de testemunha para sua demência.

    Ou, para dizê-lo com outras palavras, o espírito encara seu impulso e objetivo literalmente, a não ser que o veja refletido, o que possibilita a compreensão metafórica desse impulso e objetivo.

    Testemunhando as ações do espírito, a alma, como a experimentadora imagem delas, pode conter, nutrir e elaborar em fantasia o impulso do puer, dar-lhe sensualidade e profundeza, envolvê-lo nas ilusões da vida e zelar pôr ele, aceitando todas as conseqüências .

    Então, casando-se estes dois componentes no indivíduo, ele começa a carregar consigo seu próprio eco e espelho refletor. Ele se conscientiza do significado de suas ações espirituais em termos de psique.

    O espírito que se volta para a psique, em vez de abandoná-la em troca das alturas e do amor cósmico, encontra possibilidades ulteriores de ver através das opacidades e ofuscações do vale. A luz solar penetra no vale . O verbo participa da tagarelice e dos mexericos.

    O espírito solicita à alma que o ajude, não que o despedace ou o subjugue ou o afaste como uma peculiaridade ou uma insanidade. E pede ao analista atuante em nome da psique que não ponha a alma como antagonista da aventura do puer, mais que prepare o desejo de ambos, um pelo outro.

    Infelizmente, boa parte do cosmo psicoterapêutico é dominado pela perspectiva da adaptação social de Hera (e de seu amante favorito, o forte ego do competitivo Hércules). Hera vai buscar o renegado espírito do puer para “fazer” dele algo de razoável.
    Sacerdotes e sacerdotisas de Hera, os psicólogos do aconselhamento, esforçam-se pôr esclarecer os problemas, oferecer apoio terapêutico, enquanto procuram compreender o que transforma as pessoas. O aconselhamento psicológico, então, torna literais os problemas e, matando a possibilidade de ver através de sua loucura, mata o espírito.

  4. Fy said

    Psicólogos que não prestam suficiente assistência ao espírito esquecem-se de que ele é um dos componentes essenciais da conjunção e de que ele é um dos componentes essenciais da conjunção e de que não pode ser dispensado como uma viagem de consciência alterada, como intelecto, como teologia ou metafísica, ou como vôo de puer.

    O espírito neglicenciado entra em psicologia pela porta de trás, sob o disfarce de sincronicidade, magia, oráculos, ficção científica, auto-simbolismo, mandalas, tarô, astrologia, e outras indiscriminações, igualmente proféticas, mas, não históricas e desprovidas de humor. Pois a necessidade do espírito é discernir entre os espíritos.

    A própria diakrisis é dom do espírito e os psicólogos que recusam o espírito velejam ao ronco dos motores doutrinários de mestres mortos, suas próprias velas imaginativas descambadas ou nunca içadas, traçando círculos nas calmarias da humildade de perfil baixo, horizonte baixo : a prática da psicoterapia.

    Tendo o espírito se voltado para a alma, esta pode encarar de um ângulo novo suas próprias necessidades que, então, já não constituem tentativas de adaptar-se às exigências civilizadas de Hera, ou à insistência de Vênus de que deus é amor, ou às curas médicas de Apolo, ou até mesmo à obra de Psiquê , tecelã da alma.

    A Psique não apresenta seus sintomas e reclamos neuróticos apenas no interesse de aprender o amor, ou pela comunidade, ou pôr melhores casamentos e melhores famílias ou pôr independência, ao contrário estas demandas reclamam inspiração, visão a longa distância, eros ascendente, vivificação em intensificação ( não relaxação ), radicalismo, transcendência e significado _ em suma, a psique tem necessidades espirituais que podem ser preenchidas pela metade Puer de nós.

    A Alma pede que suas preocupações não sejam despedidas como trivialidades, mais assistidas até o fim em termos de perspectivas mais altas e mais profundas, as verticalidades do espírito.

    Quando nos conscientizamos que nosso mal-estar psíquico indica uma fome espiritual transcendente às ofertas da psicologia e que nossa secura espiritual indica uma necessidade de águas psíquicas transcendentes às ofertas da disciplina espiritual, começamos, então, a remover ambas, terapia e disciplina.

    O casamento Puer-Psique resulta, antes de mais nada de interiorização crescente.

    Constrói um espaço murado, o tálamo ou câmara nupcial, nem pico nem vale, mais um recinto onde ambos sejam vistos através de janelas de vidro ou sejam fechados atrás de portas.
    Esta crescente interiorização significa dar condição psíquica a cada nova inspiração do Puer, a cada idéia quente, em qualquer época da vida, em qualquer um de nós.

    Essa inspiração ou idéia será , de início, impelida através dos caminhos labirínticos da alma, que lhe dará morada e a retardará e nutrirá de muitos lados ( as “muitas “armas e “bacantes”), desenvolvendo o espírito, desde a unilateral mania pelas alturas até polytropos , a multilateralidade do antigo herói hermético, Ulisses.
    A alma executa o serviço das indiretas para a flecha do puer, trazendo seu duradouro sal às compulsões sulfúricas do espírito.

    Pôr sua vez, a alma tira proveito : a câmara nupcial intensifica a incubação, dá-lhe calor e pressão, a alma constrói desde nuvens amorfas até necessidades impulsionadoras. E estas, graças ao puer formulam-se em linguagem.

    Há um senso de processo, direção, continuidade, na vida interior de sonhos e desejos. O sofrimento começa a adquirir sentido.

    Em vez das repetitivas e comuns uniões Efebo-Ninfa de virginal inocência acasalada com sêmen desperdiçado pôr toda parte, tem lugar a concepção psíquica e começa a tomar forma o opus de uma vida.
    Finalmente, o casamento puer-psique implica retinir nossos complexos tanto do mundo quanto da esfera dos sistemas espirituais.

    Significa que a busca e a inquirição passam pôr uma busca e inquirição psicológicas, uma exploração da alma pelo espírito para a fecundação psíquica.

    O movimento messiânico, liberador, transcendente liga-se primeiro à alma e diz respeito, primeiro, ao movimento dela: – não: “o que isto significa?” – a pergunta feita ao espírito pelo espírito – mas: “o que isto move em minha alma?” —a interiorização da pergunta.

    Isto basta para dar corpo psíquico à viagem e à mensagem do puer, acrescentando-lhe valores psíquicos, de modo que a mensagem do puer toque a alma e lhe dê o sangue da vida.

    Pois exatamente neste reino da alma – tão perdida, esvaziada e ignorante – é que os dons do espírito do puer são necessários em primeiro lugar. São alma, psique e psicologia que precisam da atenção do espírito.

    – Desçam da montanha, monges! – e como o belo John Keats, venham ao vale onde se elabora a Alma!

    Hillman

    Bjs

  5. Sem said

    Fy,

    Sim, sim, é tudo uma coisa só.

    O que é puer senão eros? e eros, deus? e deus, demônio? e demônio, daimon? e daimon, duende? e duende, trickster? e trickster, sanidade? e sanidade, loucura? e loucura, poesia? e poesia, alma? e alma, dionísio? e seu oposto e complemento de um lado apolo e de outro senex?

    Na linguagem alquímica todos os “espíritos” são dragões… e a “alma” é o vaso alquímico que contém o dragão em que ele será “cozido” na noite escura da alma… = sofrimento.

    Temos uma bela salada aqui… quer dizer, eu fiz uma salada danada resumindo mitos que não podem ser resumidos nem em mil vidas inteiras.

    Só acho que duas coisas nessas misturebas caóticas precisamos saber: o que é alma e o que é espírito? e o mito que “vivemos” faz o casamento dos dois ou a separação? conforme a resposta que demos a essas questões, nosso destino será um ou outro.

  6. Sem said

    Alguém que se torna presente, que morreu?
    e ainda não sei? que vive? que vai chegar?
    que abre de repente a porta, que senta à minha mesa,
    que folheia meus papéis, que come do meu jantar,
    que me chama por um nome que eu não uso, mas entendo.
    Entendo e sinto que é meu.
    E fala sem ter palavras, com a sua pura presença,
    de um mundo e tempo velados, e do que aí aconteceu,
    e se levanta e se move, e me abraça ternamente – etéreos braços de gelo
    e caminha pela casa, pelas paredes e pelo corredor, e mira o mar,
    e se vai sem despedida, sem sofrimento, sem pena, sem me explicar de onde vem, quem é,
    se torna voltar, porém pensa: “há quanto tempo!”
    Que tempo? Não sei.
    Respondo a coisas que dormem longe, que não podem despertar.
    É um parente? um conhecido? é alguém?
    Não será somente meu costume de sonhar?
    Os fantasmas que compensam a falta de companhia?
    Meu desdobramento no ar?
    O que pareceu possível, simples, comum, e foi perdido exercício… – disciplina de chorar?
    Dou-te a sala, a mesa, os livros, a varanda sobre as águas, as coisas que o mundo tem.
    Dou-te perguntas, respostas na tua própria linguagem.
    Eu sou fantasma, também.

    Cecília Meireles

  7. Fy said

    Só acho que duas coisas nessas misturebas caóticas precisamos saber: o que é alma e o que é espírito?

    e o mito que “vivemos” faz o casamento dos dois ou a separação?

    conforme a resposta que demos a essas questões, nosso destino será um ou outro.

    That’s it.

    Sem, – Hillman é mto bom mesmo, não é?

    Bjs

  8. Sem said

    Fy,

    > – Hillman é mto bom mesmo, não é?

    Muito. 🙂

    Só mais uma coisa, conforme a resposta que demos viveremos uma vida ou outra – é só uma escolha, né?não que uma conduza ao paraíso e a outra ao inferno, afinal felicidades e infelicidades fazem parte de todos os caminhos.

    Fy, acabei de ler um artigo do Pondé para a Folha, hiper provocativo. (vou postar por aqui apesar de não ter nada com o assunto do Mob) Adorei a crítica que ele faz dos exoterismos inconsequentes, do tipo que junguianos de Grandes Mães fazem e que o próprio Jung criticaria. É uma provocação boa:

    Uivando para a lua

    Caro leitor, caso queira buscar uma religião, evite aquelas que têm menos de mil anos.

    por Luiz Felipe Pondé, para a Folha

    Não sou contra a religião. Ser religioso não implica ser menos inteligente, informado ou ético. Tem muita gente “inteligente” que comete erros ridículos como esse. Nem todo religioso uiva para a Lua. Tampouco os religiosos detêm o monopólio do apetite por matar seus semelhantes. Religiosos ou não, gostamos de matar e odiar. O século 20 destruiu qualquer ilusão quanto à doçura ou autocrítica dos ateus ou dos que creem na “história” ou na ciência.

    Mas de fato há riscos específicos na crença religiosa, ainda mais em tempos de indústria cultural. Caro leitor, caso queira buscar uma religião, evite aquelas que têm menos de mil anos. Em matéria de religião, quanto mais velha, melhor. Outra coisa: se passou pela Califórnia, a chance de a religião ficar boba aumenta muito.

    Mas existem umas “novas” religiões por aí, que Deus me perdoe. Pegue o exemplo do tal neopaganismo da deusa-mãe. Pessoas de boa-fé simpáticas aos paganismos antigos devem tomar cuidado com a literatura barata que é comum nessa área. Procurem trabalhos de historiadores da Antiguidade e da Idade Média reconhecidos, e não livros de auto-ajuda espiritual escritos por picaretas quânticos. Infelizmente, muitos dos neopagãos soam como adolescentes mal-informados e de idade um pouco passadinha.

    O termo “paganismo” aqui normalmente quer dizer religião celta, mas às vezes pode ser uma salada mista com a Isis egípcia e o Odin escandinavo. Percebe-se que a atitude é basicamente a mesma de quem escolhe uma calça jeans, um CD ou uma praia “cabeça”. Na falta de informação arqueológica significativa sobre essas religiões “celtas” (fato que os neopagãos desconhecem), filmes ruins e literatura barata entram no lugar, compondo o imaginário “histórico” acerca do passado celta, que é sempre visto como harmonioso e sábio como se houvesse algum passado harmonioso e sábio em nossa história.

    Um dos exemplos da visão adolescente nesse caso é achar que o cristianismo destruiu uma religião (das bruxas celtas) que vivia em paz com o mundo. Não existe religião na história que não tenha tido seu quinhão de sordidez, mas “crianças” não entendem isso. Segundo algumas fontes romanas (não cristãs), há suspeita de que alguns dos cultos “celtas” praticavam sacrifícios humanos, o que para os romanos era um pouco fora dos limites. Os romanos eram conhecidos por sua tolerância religiosa (Roma não foi um desfile de Neros), se eles destruíram alguns desses cultos, é porque coisa boa não era.

    O imaginário adolescente é claro: o cristianismo, este perverso, patriarcal, destruiu uma sociedade onde homens e mulheres viviam em comunhão sem opressão. Para eles, queimaram-se milhares de mulheres e homens inteligentíssimos na Idade Média. A verdade é que provavelmente a maior parte dessas infelizes vítimas era gente boba mesmo. Pergunta: como seria o mundo se o paganismo tivesse vencido?

    Responderiam os “adoradores da deusa”: viveríamos num mundo sem classes, sem machismo, sem ódio, sem guerras, mas, ainda assim, rico, com antibióticos, internet, sexo aos montes, aviões e baladas.

    As bobagens também aparecem no uso absurdo de referências advindas de sistemas religiosos que ainda existem. Por exemplo, alguns neopagãos afirmam que a cabala (mística judaica medieval) foi uma criação egípcia pré-era cristã! A tal “árvore da cabala”, onde aparecem os atributos de Deus, é uma das coisas que mais sofrem com o besteirol neopagão. A culpa do mau uso da cabala é, em parte, infelizmente, de alguns “cabalistas” judeus atuais que a vendem como receita barata de conseguir dinheiro, amor e sexo. Jung também vira bobagem nas mãos dos neopagãos: tudo é “arquétipo” a serviço de qualquer ideia besta que você tenha.

    O neopaganismo é em grande parte invenção de caras ingleses esquisitos e suas namoradas mal-amadas do século 20 mesmo. Junte-se a isso um pouco de física quântica (aquela que, segundo alguns “entendidos”, faz acontecer tudo o que você quiser contanto que se diga a palavra mágica “energia!”), a mania incontrolável de falar sobre si mesma, uma pitada de feminismo místico, e você será uma neobruxa.
    Tenho um critério para levar religiosos a sério: se usar a palavra “energia” e disser que posso fazer tudo o que eu quiser porque tudo o que preciso saber está em meu inconsciente, pulo fora. O próximo passo dele será uivar para a Lua.

  9. Fy said

    Sem,

    Eu concordo literalmente com uma única coisa: a escassez de informação é literalmente venenosa, principalmente qdo ferramenta de opção ou escolha.

    Mas, eu não concordo com “provocação”, Sem, ele sim, deu um show de besteirol,

    Ele ia indo bem até o parágrafo:

    – Um dos exemplos da visão adolescente…..

    Daí em diante, aiaiai…

    O parágrafo da cabala então é um show de ignorância “ofensiva” sobre o assunto.

    “cabala (mística judaica “medieval”) – medieval?

    A sabedoria milenar da Cabala — inicialmente transmitida “apenas de forma oral e a pouquíssimas pessoas” — apresenta uma forma de interpretar as Sagradas Escrituras de forma a revelar conhecimentos ocultos nas palavras e que não podem ser compreendidos a partir de uma interpretação literal dos textos.Através da cabala , o “Velho Testamento” [completamente pré-cristão e continua sendo até hoje: porque os judeus não são cristãos….!!!] – não é entendido simplesmente como um relato de acontecimentos ocorridos há milhares de anos, mas como uma das formas mais bem elaboradas e herméticas de transmissão de informações, que podem estar ao alcance daqueles que estudarem a decodificação dos símbolos.–

    – Ela passou “a ser – formalmente – escrita” na idade média [Sefer Yetzirah ou Bahir , não lembro, pouco antes ou…. mto antes – tb não lembro com certeza – do seculo XIII]

    – Qto à controversa origem da cabala, temos 4 séculos de escravidão dos hebreus pelos egípcios; o q francamente influenciaria qq cultura.

    – uma idéia sobre a antiguidade da cabala – não importando o nome que ela recebia – :

    Formas iniciais de misticismo esotérico existem já há 2.000 anos. Ben Sira alerta sobre isto ao dizer: “Você não deve ter negócios com coisas secretas” (Sirach) ii.22; compare com o Talmud Hagigah 13a; Midrash Genesis Rabbah viii.

    Literatura Apocalíptica pertence aos séculos II e I do pré-Cristianismo contendo alguns elementos da futura Kabbalah e, segundo Josephus, tais escritos estavam em poder dos Essênios, e eram cuidadosamente guardados por eles para evitar sua perda, o qual eles alegavam ser uma antiguidade valiosa (veja Fílon de Alexandria, “De Vita Contemplativa”, iii., e Hipólito, “Refutation of all Heresies”, ix. 27).

    Estes “muitos livros” contém tradições secretas mantidas ocultas pelos “iluminados” como declarado em IV Esdras xiv. 45-46, onde Pseudo-Ezra é chamado a publicar os vinte e quatro livros canônicos abertamente, de modo a que merecedores e não merecedores pudessem igualmente ler, mas mantendo sessenta outros livros ocultos de forma a “fornece-los apenas àqueles que são sábios” (compare Dan. xii. 10); pois para eles, estes são a primavera do entendimento, a fonte da sabedoria, e a corrente do conhecimento.

    Instrutivo ao estudo do desenvolvimento da Cabala é o Livro dos Jubilados, escrito no reinado do Rei João Hircano, o qual refere a escritos de Jared, Cainan, e Noé, e apresenta Abraão como o renovador, e Levi como o guardião permanente, destes escritos antigos. Ele oferece uma cosmogênese baseada nas vinte e duas letras do alfabeto hebraico, e conectada com a cronologia judaica e a messianologia, enquanto ao mesmo tempo insiste na Heptade como número sagrado ao invés do sistema decádico adotado por Haggadistas posteriores e pelo “Sefer Yetzirah”. A idéia Pitagórica do poder criador de números e letras, sobre o qual o “Sefer Yetzirah” está fundamentado, era conhecido no tempo da Mishnah (antes de 200DC).

    “Os romanos eram conhecidos por sua tolerância religiosa (Roma não foi um desfile de Neros), se eles destruíram alguns desses cultos, é porque coisa boa não era.”

    Os cristãos… diziam isto sempre p/ os leões…. – e eu nunca ouvi uma besteira igual. Eles eram tolerantes com tudo que não “ameaçasse” seu Poder. Hipácia com certeza concorda comigo:

    http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/martir-do-paganismo

    Eu recomendaria que ele lêsse por ex: O Romano de Mika Waltari – [ e aproveitando o impulso: O Egípcio – o Etrusco > do mesmo autor] e concluísse que Nero, nada mais foi que um “fruto” romano ou uma conseqüência de costumes romanos; não muito mais louco que os outros.

    Este parágrafo me arrepiou:

    Para eles, [ para os “desinformados”] queimaram-se milhares de mulheres e homens inteligentíssimos na Idade Média. A verdade é que provavelmente a maior parte dessas infelizes vítimas era “gente boba” mesmo.

    – esse cara deve achar Hitler um amor! – foram mesmo milhares de “gente-boba”!

    Um dos exemplos da visão adolescente nesse caso é achar que o cristianismo destruiu “uma” religião…

    –A visão adolescente ainda desinformada talvez; mas uma visão informada sabe q não foi isto…. o cristianismo exterminou povos e povos e povos, não religiões.

    “namoradas mal-amadas do século 20 mesmo” > nada foi mais nocivo e “desamado” à mulher do que a religião cristã. – [ diga-se de passagem: “religião”]

    Qto à ameaça da ciência; – é a velhíssima história; é sempre uma ameaça ao “Poder” das “Religiões”: vide a história de Hipácia… – Galileu… como ex de tantas outras – inclusive os absurdos atuais.

    Sem… me admira a Folha publicar este ,sim, besteirol. Caso ele tenha tentado fazer uma crítica, deveria ter se informado melhor. Péssimo embasamento.

    “Caro leitor, caso queira buscar uma religião, evite aquelas que têm “menos de mil anos”. Em matéria de religião, quanto mais velha, melhor.

    Qts anos ele acha que tem a civilização celta, etc…???

    Enquanto ele “não” uiva pra lua: “não” falando em energia, eu fico com estas palavras tão atemporais em matéria de religiões institucionalizadas:

    “ Todas as religiões dogmáticas formais são falaciosas e nunca devem ser aceitas como palavra final por pessoas que respeitam a si mesmas.” Hipácia há 2000 anos atrás.

    Bjs

  10. Sem said

    Poxa, Fy. será que o Pondé merece todas as suas críticas? Além de filósofo e psicanalista, ele é teólogo, dá aula na PUC SP, podemos acusá-lo de tudo, menos de mal informado. Tá certo que ele adora sustentar uma polêmica, mas é tb um dos intelectuais atuantes mais bem humorados e ponderados que temos por aí. Não vou entrar no mérito do conhecimento religioso, porque não tenho embasamento nenhum para argumentar, eu só acho que no artigo da Folha ele fez uma bela crítica aos exoterismos baratos que sabemos graçam em toda esquina, e defende mais consistência no cultivo do religioso, não vou além disso…
    Do que eu gosto do Pondé é sua crítica da modernidade, e toda a crítica de uma sociedade baseada na razão, no progresso e na ciência, que é super afim com tudo o que estamos aqui defendendo também, inclusive vc. E ele gosta do Dostoiévski e, convenhamos, alguém que gosta de Dostoiévski não pode ser mau. 🙂
    Nos vídeos do Café Filosófico tem uma análise que ele faz do Bauman que é certeira, visão poética da passagem da modernidade para a pós-modernidade. Aqui tenho certeza que poderá se reconciliar com o pensamento do Pondé. Vou deixar o link, mas é palestra para mais de 2 h:

    http://www.cpflcultura.com.br/video/torre-de-babel-luiz-felipe-ponde

  11. Fy said

    Sem,

    Com certeza ele não merece, rsrsrsrs

    Eu nunca li o Pondé, e prometo q vou assistir; – mas convenhamos, eu coloquei o que critiquei; e até onde concordei.

    Criticar exoterismos baratos, é uma coisa; os argumentos q ele usou é outra.

    Qualquer religião que não suporte o avanço da ciência; ou a palavra energia, não é digna de crédito ? – …pra mim é… – Ele propõem que nós deixemos de usar a palavra energia ou ignoremos seu sentido para que alguma religião de mais de mil anos [ atrás] se sustente ?

    Sem, eu não sou contra a ciência; sou contra a má ciência. Não sou contra o progresso, e sim contra o mau progresso.

    Ele fez declarações absurdas na minha opinião, e, isto não é pq minha forma de crer em deus seja minha religião e não se enquadre no cristianismo. Até pq – eu, mto particularmente nunca consegui enquadrar Jesus em cristianismo milenar nenhum. Foi o garoto propaganda mais mal pago do mundo!

    Ele afirma que os mal-informados ignoram q sómente “os bobos”, foram trucidados pelos cristãos. E que:sendo bobos não faz mal? – Vc tem idéia, Sem do n° de vítimas da “instalação” desta doutrina?

    E que sómente religiões com mais de 1000 anos mereciam respeito. – Jesus, ouviu exatamente a mesma coisa, … foi trucidado por isto. –Ele tb transgrediu uns bons mil anos de tradição engessada, q continua engessada até hoje, com resultados cada vez mais catastróficos. Basta ler as razões pelas quais os judeus – com milhares de anos de tradição – embazam sua literal descrença em Jesus e no cristianismo.

    Em relação à Grande Mãe, e à Ciência; aos crimes, genocídios religiosos ,ou mesmo em relação à história, o ponto de vista dele é extremamente esquisito, pelo menos pra mim. – ou talvez ele não tenha sido mto feliz neste discurso. E eu não condeno nenhuma busca, nenhuma tentativa de contemporização por mais q pareça falha; desde q não se transforme em tragédias. A história da humanidade é uma busca, nossa atenção deveria estar concentrada e alerta em não cometer os mesmos repetidos milenares erros .

    Olha esta frase:

    O século 20 destruiu qualquer ilusão quanto à doçura ou autocrítica dos ateus ou dos que creem na “história” ou na ciência.
    ?
    É profundamente preconceituosa.

    Sabe Sem, a “maior” autoridade em Teologia…. esteve a pouco tempo na África, e promoveu um desastre. Ou mais um desastre.

    Minha opinião sobre a Ciência, incluindo a história, é que são atividades investigativas, que se renovam, se auto-corrigem; – são e podem ser condenáveis, julgadas, etc . Nada está mumificado.

    O fato de um ateu condenar um crime, não o torna suspeitável por ser ateu. O que é ser ateu? Não ser católico, judeu ou muçulmano? Um cientista não pode ser religioso? Um ateu não pode ser alguém digno?

    Sem, acho q ele estava de mau-humor e teve uma crise de proselitismo!

    Não gostei dele não!

    Bjs

  12. Fy said

    Sem,

    Um pouquinho de Ciencia – Religião e Transitoriedade:[ melhor explicando meu ponto de vista]:

    Um Símbolo, diz Jung, “pressupõe sempre que a expressão escolhida constitui a melhor designação ou a melhor fórmula possível para um estado de coisas relativamente desconhecido, mas que se reconhece como existente ou como tal é reclamado”(!).

    É o próprio Jung quem se encarrega de aplicar essa definição de Símbolo às teorias científicas: “Na medida em que toda “teoria” científica comporta uma hipótese, quer dizer, a caracterização antecipada de uma ordem de coisas cuja essência ainda se desconhece, pode ser considerada como Símbolo.”

    Essa maneira de abordar as teorias científicas tem a grande vantagem da flexibilidade. “Enquanto um Símbolo se mantém vivo”, explica Jung, “É porque se constitui a melhor expressão de uma coisa.”

    O símbolo só se conserva vivo enquanto estiver repleto de significado. Mas logo que o seu sentido se esclarece, quer dizer, quando se encontra a expressão que formula melhor do que o símbolo a coisa procurada, esperada ou pressentida, pode-se então afirmar que o símbolo morre.”

    Dessa forma, evita-se o risco de um apego excessivamente literal às teorias e hipóteses e científicas, uma vez que os símbolos são sempre dinâmicos e estão constantemente sendo substituídos por novos símbolos, mais adequados ao contexto atual. Até porque é provável que a natureza última da realidade permaneça para sempre como “um estado de coisas relativamente desconhecido”(!).

    No século XIX, o éter e os fluídos magnéticos eram a melhor expressão possível para esse estado. Atualmente, e até prova em contrário, a melhor expressão para esse mesmo estado de coisas encontra-se na mecânica quântica e na teoria da relatividade. Amanhã, quem sabe que novo símbolo virá a substituí-las?

    Assim, quando eu identifico a superposição coerente ao que as religiões e doutrinas esotéricas chamavam de espirito ou aproximo o diasparagmós(*1) órfico do colapso da função de onda, seria um erro acreditar que eu estou explicando essas coisas à luz da mecânica quântica. O que eu estou fazendo é tentando traduzir um sistema simbólico nos termos de outro sistema simbólico.

    Quando as teorias contemporâneas derem lugar a outras teorias, a outras expressões simbólicas, e a superposição coerente vier a fazer companhia ao éter universal no cemitério dos símbolos mortos, será hora de buscar novas aproximações.
    A realidade continuará sendo, como sempre, outra coisa completamente diferente.

    Nem a ciência nem as religiões contém a resposta definitiva para a questão sobre as origens da humanidade ou totalidade do(s?) universo(s?), ambas ainda sustentam-se ou por hipóteses e teorias de um lado ou crenças de outro.

    Tentar impor/escolher uma OU outra como resposta definitiva para explicar nossas origens ou a própria ‘realidade’, é parar no tempo. O resultado disto seria a morte de ambas, ciência e religiões! AMBAS devem estar à serviço da humanidade e não o oposto, como querem alguns. O passado ainda não foi desvendado por completo e o futuro, ainda está por vir…enquanto isso, o tempo não para e a adaptação é crucial para a sobrevivência da própria humanidade (bem como das instituições por ela criadas).

    Como conclui Stephen W. Hawking em “Uma Breve História do Tempo”, tudo o que temos são modelos explicativos do comportamento das leis da universo.

    Os povos primitivos acreditavam que uma torre infinita de tartarugas sustentava a terra, nós referendamos a teoria da supercordas. “As duas descrevem o universo, ainda que a última o faça de maneira muito mais matemática e precisa do que a primeira. A ambas, entretanto, falta a evidência empírica: ninguém jamais viu uma torre gigante de tartarugas com a terra em seu topo; mas tampouco ninguém jamais viu uma supercorda”

    Reflexões finais:

    -Não precisamos nos submeter à tirania do ‘ou’ isto ‘ou’ aquilo, muito melhor, é a genialidade do ‘e’ isto ‘e’ aquilo.

    -Às vezes, a revelação divina significa simplesmente adaptar seu cérebro para escutar o que seu coração já sabe.

    Malprg

    http://malprg.blogs.com/replay/metafsica_quntica_e_relativstica/index.html

    Bjs

  13. Sem said

    Bom isso, hein, Fy.

    Então, transportando a conversa sobre mosaicos para cá. Eu não acredito nisso de existir certos de um lado e errados do outro. Sou partidária da genialidade do ‘e’ do Lúcio; a operação é somar para multiplicar e não dividir para subtrair.

    Mas, existem escolhas, e algumas composições nos agradam mais do que outras, por isso mesmo nós as escolhemos. Claro que existem tb condutas mais adequadas ou convenientes conforme a ocasião, mas nunca existirá aquela composição perfeita, se nem nós concordamos conosco mesmos em tempo integral. O ser real é sempre contraditório, ou melhor, é paradoxal quando visto para além do aparente. Aliás, se é “real” é porque está sendo visto para além do aparente… Não é só razão, não é só emoção. E nem sendo assim, não existiria mais civilização, estaríamos extintos, por absoluta unilateralidade da consciência e falta de adaptação ao novo que só nossa parte mutante possibilita. Essa parte vem do nosso lado mais profundo, do inconsciente – a parte que acredito faz ligação direta com Deus.

    Desde Freud não se faz mais filosofia sem incluir o inconsciente…

    O Pondé é filósofo desta estirpe. Dos que acreditam que a verdade é insônia. Dos que não acreditam em respostas fáceis. Aliás, respostas definitivas não existem – como os símbolos, as respostas tb transmutam assim que são compreendidas – o que existe então são perguntas insolúveis na noite insone… Sei que vc tb é desse mesmo time. Não estou equivocada, estou? Por outro lado, é claro que existem nuances que nos distinguem a todos, cada um com suas idiossincrasias. E o bacana é isso, aí é que está toda a beleza, e vou voltar lá no mosaico e na pergunta: será que estamos prontos para ver o caco impensável – nos outros é até fácil, principalmente se mantemos esse “outro” bem longe, mas em nós? Porque se a gente não estiver, além de nos destruirmos, vamos destruir toda a beleza do mundo possível de Deus, e viver num mundo irreal… O que quero dizer com irreal? não é a boa ficção poética que une os contrários (o ‘e’) e nos traz tantos sentidos, essa é Real, mas é a ficção que afasta os contrários e por isso nos adoece, nos fende, na loucura do mal sentido. Afinal o mundo de Deus é real e sua beleza é múltipla.

  14. Ivan said

    F, eu andei pensando em você mesmo… me deu vontade de escrever uma ópera, pelo menos o ponto de partida eu já tenho. Depois a gente se fala.

    Quanto aos improvisos oníricos, logo que li seu post comecei a pensá-los como sono insone. E que os psicanalistas guardem a interpretose pra si mesmos.

    Abraço

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