Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

O Conhecimento é Virtual

Posted by Sem em junho 2, 2009

Isto será um convite a partilhar conhecimento, reflexões, aproveitando as ferramentas que o tempo atual nos oferece.

Não é a propaganda de uma marca, mas de uma ideia, ou melhor, aproveitando a oportunidade de algumas marcas, com o seu poder de veicular e patrocinar boas ideias.

Peço desculpas se ao fazer meu convite terei de divulgar uma marca comercial. Mas boas ideias precisam ser divulgadas apesar disto, para que se alastrem e incentivem também outras iniciativas semelhantes.

E essa parceria da CPFL com a TV Cultura, de palestras com especialistas na área das ciências humanas e que vão ao ar pela televisão todo final de domingo, no programa Café Filosófico, é talvez uma das iniciativas mais interessantes que temos na mídia para divulgar filosofia ao grande público e o pensar do homem e do seu tempo por ele mesmo.

O convite não é para assistir ao programa na tevê, mas, para assistir as palestras ao vivo pela Internet, no site da CPFLCultura.

O endereço para se cadastrar ou assistir as palestras pode ser acessado por aqui – amanhã, dia 3 de junho, a partir da 20h30, o psiquiatra Rossano Lima Cabral, falará a respeito dos “Efeitos Psicológicos da Crise”, creio que ele fará uma abordagem crítica da biologização da sociedade contemporânea, como consequência buscar soluções fora para problemas que são internos :

http://www.cpflcultura.com.br/post/especial/cpfl-cultura-ao-vivo

Não posso dar maiores detalhes do funcionamento dos recursos para se assistir as palestras ao vivo, porque ainda nem fiz uso deles. Mas como a parceria é um projeto sério, de sucesso e de longa data, e que acompanho com prazer já faz alguns anos, recomendo também os vídeos, que são as íntegras dos programas que já foram ao ar, de módulos anteriores:

http://www.cpflcultura.com.br/posts/videos

Internet é uma tremenda ferramenta para produzir conhecimento.

Reflexões de uma professora a respeito de produzir conhecimento:

O quadro negro e o giz realmente estão com seus dias contados. Com eles idem o professor apegado a essas ferramentas. Sem dúvida hoje o professor não é mais aquele mestre inquestionável, detentor de um saber enciclopédico e raramente acessível. O professor hoje está mais para um mediador do processo de fabricação do saber, é mais um mestre da cognição do que de conhecimento acumulado. O que não impede de ter lá o seu saber organizado e, aliás, fundamental que o tenha. Mas não para despejar e cobrar do aluno reproduções ipsis litteris do conteúdo dado, antes está mais interessado no que os alunos vão fazer ou produzir a partir do conteúdo partilhado.

O giz anda mesmo em desuso. E meu conselho a você que pretenda abrir uma fábrica de giz é um só: desista. Assim como as máquinas de escrever entraram em desuso e hoje são peças de museu e valiosas apenas para os colecionadores, também o giz deixará de ser fabricado em médio prazo por absoluta obsolescência da ferramenta. A tendência crescente é o mouse ou o dedo – como o Tom Cruise no filme Minority Report – substituir o giz nas escolas. Anda em curso uma revolução que em pouco tempo mudará a cara das escolas. E não acredito em revoluções elitistas. Talvez principie por invadir as escolas particulares mais caras e as universidades mais importantes, mas é uma questão de tempo para que a revolução seja democratizada amplamente. Acontecerá na medida em que se fabricarem mais notebooks, mais lousas eletrônicas e quadros interativos, e ainda incrementarem o mercado com novos softwares para se lidar com tudo isso de modo mais racional. Garanto que o custo de todo este material será menor que o conjunto lápis, borracha, caderno, fichário, mochila, material apostilado e livros sempre tão caros. Os custos ecológicos, mais do que provável, também. É só uma questão de tempo, investimento e concorrência, para que as novas mídias sejam mais acessíveis e baratas que os materiais tradicionais.

Eu vejo todas essas mudanças com olhos extremamente positivos. Não que seja uma panaceia o aluno ir para a escola com o notebook embaixo e tudo estará resolvido. Provavelmente outros problemas vão ser criados e se somar aos já existentes. Mas a questão por ora é pensar o que ficará do bom do que passou? Sim, porque o passado também é constituído de coisas boas que devemos lutar por preservar. Torço para que fique o humano, a relação professor aluno, que é e sempre foi verdadeira enquanto afetiva. Sim, relação de afeto, pois no fundo foi apenas o afetivo que sempre sustentou a educação, e não o saber em si mesmo. E se Deus quiser continuará sendo, porque só existe conhecimento se nos deixamos afetar pelo que nos vêm de fora, seja ele um professor, um poema, um pensamento, outra pessoa.

Então está feito de afeto o feto afeito o efeito: palavras que têm e não têm nada a ver umas com as outras. Mas eu ando achando que quando as coisas soam semelhantes, devem ter lá a sua razão de ser. No mínimo da ordem da razão poética do ser.

O conhecimento assim, feito de afeto, sem melodramas, mas com o brilho do olhar, nem que seja por uma lágrima, é um esforço conjunto e, necessariamente, é partilha. Ninguém sabe nada sozinho, é preciso ter de quem ouvir para ter para quem contar. Não é fofoca, mas é ouvir e produzir sentido e devolver e multiplicar os sentidos. Conhecimento é processo que se faz de um para o outro e tem volta, é via de mão dupla, necessariamente. Só ensinamos aquilo que ansiamos aprender, só aprendemos aquilo que podemos ensinar; esta é a dialética do conhecimento. Com a qual concordariam dois grandes mestres: Jean Piaget, defensor do processo de construir o saber; e Paulo Freire defensor da contextualização do processo de construir o saber.

Falo todas estas coisas com paixão e com algum conhecimento de causa, afinal, sou professora, e o que me sustém na profissão é mais o ideal de fazer diferença na vida do outro do que o salário no final do mês.

Pois bem, entre tantas desgraças num mundo que valoriza tão pouco o conhecimento, nasce a graça de uma revolução de costumes, de aposentar o giz e o antigo professor reprodutor, para novas mídias, outros meios, novo professor e aluno descobrindo novos modos de como se relacionar com o conhecimento. Não que o novo apenas por ser novo seja bom, é que o velho já estava morto e cheirando mal há algum tempo, então, devido às circunstâncias, dar boas vindas aos ares mais frescos é benfazejo.

Claro que nosso tempo é confuso, é só espichar o pescoço e ver que o mundo antigo está logo ali, na curva da esquina que mal acabou de dobrar. Pois bem, neste fantasma presente do tempo que malemal acabou de passar, tínhamos a impressão que o conhecimento estava guardado nas estantes das bibliotecas, nas palavras impressas de algum jornal, em algumas cabeças privilegiadas, que se deram ao trabalho de publicar ou alguém publicou em seus nomes só por acreditarem brilhantes. Acreditava-se que palavras publicadas, só por estarem publicadas, deveriam ser verdadeiras. Mas nada disso foi algum dia verdade. O conhecimento desde sempre nunca esteve alocado em um lugar concreto, seja ele um ambiente, um objeto ou um cérebro. O conhecimento está por aí, no ar. O conhecimento é real. E não vamos cometer o erro de tomar como sinônimos as palavras “concreto” e “real”, isso foi apenas a velha lição que um professor caquético nos fez crer e decorar. Foi o que quiseram que acreditássemos, que só é real o que é concreto, mas se é justo o contrário. E concreto e real raramente coincidem, na maioria das vezes, inclusive, discordam violentamente. Concreto é o físico. Mas o real está além do físico, e está mais para a ordem do divino do que do humano. Talvez a proposição XV da Ética I do Espinosa possa nos esclarecer melhor o que seja o real: “Tudo o que existe, existe em Deus, e sem Deus nada pode existir nem ser concebido.”

Inclusive o conhecimento, concluo.

Da realidade mais nua e crua, o que as novas tecnologias vêm nos provar é que o novo modo de nos relacionar nos vem comprovar, de que o conhecimento não está em um lugar concreto, de que não pertence a uma única pessoa, mas está entre tudo isso, no ar… O conhecimento é virtual, sempre foi, e uma coisa boa do nosso tempo é descobrir que o saber não está nas cabeças, nem na minha, nem na sua, nem nos livros, nem na lousa, mas no espaço que se faz entre os agentes afetados. Cabe a nós captar do ar, de Deus, do outro, dos demônios, dos duendes e de nossa demência, fazer nossa parte, como agentes produtores de conhecimento e não pacientes reprodutores.

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14 Respostas to “O Conhecimento é Virtual”

  1. Elielson said

    Uau, cliquei em ler mais e fiquei de cara 😀

    Revolução na educação é mais do que necessária, é a salvação! Mas já dizia Alexandre Garcia, que num País em que candidatos que propõem revolução na educação ganham 3% de votos, não há muita o que se fazer pelo povo.
    E a educação é tão ridicularizada nesses guetos da vida, talvez por ser confundida com desenvolvimento de tecnologia.
    Pois sempre foi assim, quem toma iniciativas de qualquer aspecto tende a montar linhas de produção de suas idéias.
    Se a gente der uma boa olhada ao nosso redor enxergamos os frutos do pensamento, mas e aí, qual o motivo de estarmos falando de educação?
    A aplicação no sentido evolutivo, não é a aplicação moral.
    A aplicação moral da educação resulta na necessidade de retrocesso.
    A intocabilidade, inviolabilidade seriam muito lindas se existissem, mas estas não existindo, insistem em aplicar a moral. Estes dispositivos de controle ficticios inseridos no desenvolvimento educacional, fazem da educação um clipe de another brick in the wall.
    Educação mesmo é desenvolvimento dos sentidos, igual vcs fazem aqui, conjecturando todos os sentidos no pensamento, e verbalizando.
    No lugar de inserir e tirar, apenas manter o estado natural do ser até que ele mesmo ao seu tempo perceba-se, just it.
    Daí é preciso uma estrutura de apoio para todos os seres que são re-paridos, que se trazem ao mundo, em espanto, em despertar solitário…
    Daí vem a ação, que atualmente caduca e não educa ( pois é Sem, a-d-o-r-e-i, esse lance de no minimo da ordem da razão poética do ser).
    Toda educação atual é como um preparo que só diz: SELVA, SELVA, SELVA.
    Daí é como se tudo fosse irrevogável, como se tudo fosse irreversível, bastando apenas ao aluno, aprender a extrair, e assim o patriarcado já está fazendo o melhor pela sua cria, cria que mantém e não cria.
    Muitos que se fazem educados dentro deste sistema, investem o pensamento na manutenção… mas é esta a manutenção que destrói todo o resto.
    Um ou outro fulano mais apercebido mesmo, o máximo que pode fazer é reciclar estes delirios, desconviccioná-los.
    Ecologizá-los é bom, mas a nivel pessoal insuficiente, mas não aceitando a ecologização como ferramenta discursiva e vendo que os profundamentes arrependidos estão mais preocupados com economia monetária, a criança se manterá na verdade.

    Até 🙂

  2. Sem said

    Elielson,

  3. Fy said

    Mto bom, Sem,

    Meio correndo, eu lembrei de alguém q eu queria mto ter conhecido, mas q não me esperou. Eu acho que foi o 1° livro que me fascinou; eu devo ter lido com uns 13 – 14 anos… por aí.

    Ao lado de Piaget, de Paulo Freire, coloco este grande reformador; idealista, que foi Neill, o criador de Summerhill. – Meu 1° livro grosso…. bem grosso: Summerhill – Liberdade sem Medo.

    Só um pouquinho dele tb:

    Em 1917, Neill conheceu Little Commonwealth, uma escola reformatório coordenada por Homer Lane, psicanalista estadunidense.

    O que lhe chamou mais atenção foi que os próprios jovens internos, presos por cometerem delitos, geriam o espaço. Outro psicanalista que teve forte influência sobre Summerhill foi Wilhelm Reich, amigo pessoal e também analista de Neill. Nota-se a presença de suas idéias em especial na defesa de uma educação coletiva em substituição à educação burguesa e estratificada.

    Reich elaborou alguns escritos sobre educação, em que discute quais seriam as formas de educar adequadas e as não adequadas, tendo em vista a felicidade das pessoas. Para ele, uma educação que frustre demais ou que satisfaça demais está fadada ao fracasso.

    Frustrar demais significa criar uma pessoa encolhida, incapaz de satisfazer suas próprias vontades, por outro lado satisfazer demais significa criar uma pessoa incapaz de conviver socialmente.

    A educação tradicional defende e estimula a repressão dos instintos e das vontades na infância e a psicanálise vai influenciar fortemente Neill ao acrescentar que essa repressão é responsável por muitas das neuroses que se manifestam na pessoa, tanto quando ela ainda é criança quanto ao longo da vida adulta.

    – Elielson: super lembrança.

    Bjs

  4. Kingmob said

    >Cabe a nós captar do ar, de Deus, do outro, dos demônios, dos duendes e de nossa demência, fazer nossa parte, como agentes produtores de conhecimento e não pacientes reprodutores.

    =D. Eu adoro isso!

  5. Kingmob said

    Sem,

    o conhecimento no sentido de cognição é amor.
    Em um nível nós somos amados porque somos conhecidos e este ato de conhecer-amar é revolucionário, porque o ato de conhecer se basta não tem como querer pedir nada em troca.

    A revolução da cognição (conhecimento) é a verdadeira revolução e o verdadeiro amor.

    Sem, na busca por desmistificar o amor e a cognição de emocionalismos que prendem, e jogos de poder
    conscientes ou inconscientes essa, até agora, foi a melhor resposta que eu encontrei.

    Vou citar Gurdjieff:

    “O amor consciente desperta o mesmo em resposta.
    O amor emocional provoca o contrário.
    O amor físico depende do tipo e da polaridade.”

    Essa consciência seria cognição. O ato de conhecer com amor. Aliás o ato de conhecer já é amor.

  6. Sem said

    Mob,

    Será que dá para amar algo que não se conheça? Sem conhecer, o que se ama, não é? Seria o amor incondicional, que ama a essência do ser, um tudo e nada e, então, amor não teria no fundo nada de pessoal? Ou seriam meras projeções, de outros que nos servem de espelhos e no fundo o que amamos e é nosso eu distorcido ou o vir-a-ser que o outro espelha de nós – como os lacanianos acreditam ser o único tipo de amor que existe? Todo amor vale a pena? Tudo é amor, será?

    Mais perguntas que respostas, mas tb nem sei se quero respondê-las hoje ou se vale a pena
    algum dia se dar ao trabalho de alguma resposta, pois minha certeza está mais para que o amor é inconclusivo. Um pássaro que voa quando tentamos agarrar e que pousa do nosso lado quando não mais prestamos nele atenção, como na linda Habanera de Carmen, de Bizet.

    Sabe que nunca tinha ouvido falar em Gurdjieff, foi aqui com vcs meses atrás que ouvi esse nome pela primeira vez. Até pesquisei na internet para saber quem era ou que movimento era e na biblioteca pública daqui até encontrei aquele seu livro Encontro com Homens Notáveis. Eu li o que deu, mas claro que conheço muito pouco dele e nem sei mesmo se é um movimento, uma doutrina, uma ideia, prática ou o quê, mas eu acho que concordo com ele, se é que isso concoda, que só podemos amar verdadeiramente aquilo que conhecemos. Pois o amor só nos toca, verdadeiramente, quando é pessoal. Conclusão que eu tirei da prática, da vida pessoal e da profissional e social também, que em termos afetivos é uma vida só… O amor enquanto essência pode ser impessoal – “porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo” nas sem-razões do amor do Drummond -, é impessoal porque é da alçada de eros, mas só nos toca realmente quando é pessoal. Cristo pode ter amado a humanidade, mas seu amor só nos alcança e comove quando sentimos que ele morreu por nós, pessoalmente, com e apesar ou por causa de todos nossos defeitos e humanidades, é só aí que seu amor nos alcança e transforma. E todos os grandes mestres – sejam eles espirituais, intelectuais, afetivos, qualquer um – só quando sentimos que eles olham no fundo de nossos olhos e não os atravessam, mas reconhecem quem somos, é que nos descobrimos e somos tocados pelo amor. Então é bonito. Como naquele seu comovente post dos monges sufis.

  7. Sem said

    Hoje tem o Pondé ao vivo, 19h:

    http://www.cpflcultura.com.br/aovivo/

    (Fy, se puder assista para depois comentarmos, nem que seja discordar :))

  8. Elielson said

    Amor, é um termo para termos sem termos.

    O Amor habita onde as pessoas veem umas as outras, nuas, em verdade, em companhia correspondente, em voos altos e rasantes destemidos.

    A medida de amar é amar sem medida… , nem sei se essa frase é do humberto gessinger mesmo… , mas é linda.

    Realmente, conhecer, estar disposto a isso, sem julgamento ou intenção de posse, este conhecer é Amor, é desconhecer-se através do que eu conheço em vc e do que vc conhece em mim, como ir acordando por partes tudo que queremos ser, e outro te ajuda a despertar o que vc quer despertar e assim por diante.

    Amar o desconhecido é torna-lo dissemelhante ao que é desperto em nós, observá-lo sem conhecê-lo, e começar vendo aquilo que conhecemos como bem e lutando contra o sono das partes que favorecem o despertar.

    Uma vez acessada a esfera, a volta é mais abissal, mas voltar é um risco para quem mente.

    Amar a si é conhecer suas trilhas entre o espaço.

    E quando conhecer, lembrar, que conhecer também é uma escolha, mas que para conhecer em verdade é preciso se desconhecer, e na coerência animal proceder nu, então tudo que vc conhece será seu pouco poder de fazer as coisas conhecerem-se em vc, ou você se conhecer nas coisas.

    Coisas que te interrogam com base no conhecimento que somos, para que seja complementada toda a convenção da verdade humana. Coisas que vc interroga com base no que vc conhece do seu ser.

    Então, quando eu vejo alguém e digo que há algo de mim, ou quando alguém me ve e diz que tenho algo dele, o que é esse algo? É a escolha de conhecer.

    Todo o espaço em que esta escolha é mantida, as suas trilhas neste espaço, as pessoas que te observaram sem conhecer, e que te acompanharam conhecendo. Tudo isso é Amor.

    O Amor há de ser cuidado, e quando não for mais, vida pra inventar Amor não existirá.

    Mas quem Ama, por ter Amado, não será dependente de Amor.

  9. Sem said

    Muito boa a palestra do Pondé, não sei se mais alguém aqui viu. Com ceticismo e o humor costumeiro ele defendeu com unhas e dentes a função da tragédia como a condição básica do ser humano, quer dizer, dos corajosos, em contraponto com a utopia, que considerou uma fuga da verdadeira condição humana, coisa para fracos, por acenar com falsas esperanças de um futuro melhor em nome de uma ilusão. “Revolução”, então, nem pensar… é palavra que não faz parte do dicionário de um cético. 🙂 E eu concordo com cada vírgula do que ele falou a respeito do trágico e da tragédia humana, e todo o seu radicalismo é muito bom como exercício da defesa de uma ideia pura. Mas eu sou uma otimista incurável, não consigo viver sem uma “utopiazinha”, e sem cultivar a função ‘e’ no humano. Na realidade eu penso que a condição humana é trágica sim, sendo a utopia inclusive uma das condições deste trágico, sem ela o quadro não se completa, mas não banal e bobinha como o Pondé a quer resumir.

    No começo da palestra ele deu a raiz grega da palavra tragédia: “tragos”, que quer dizer bode. O bicho bode. Lembrei na hora dessa poesia, uma “feliz” combinação de bode e destino trágico. Será que o poeta fez de propósito?

    “Os melhores cordeiros da fazenda
    seguirão para o abate na cidade. Os
    carneiros mais fracos do rebanho
    serão sumariamente degolados.

    O bode velho vai pro sacrifício,
    por mais que seu olhar peça clemência.
    Nem mesmo as cabritinhas inocentes
    terão misericórdia ou esperança.

    As carnes assarão ao sol: fogueira.
    As peles secarão ao sol: curtume.
    As vísceras suarão ao sol: carniça.
    Os ossos sumirão ao sol: poeira.

    Somente a ovelha negra fica impune
    …enquanto o bom pastor toca sua flauta.”

    PANTOMIMA – Luis Antonio Cajazeira Ramos

  10. Fy said

    Sem,
    – Eu jamais ignoraria um convite seu. Vc sabe que suas idéias realmente me despertam interesse e atenção;
    e eu fiquei preocupada em discordar de vc baseada em uma primeira impressão.- Até peço desculpas se pareceu grosseiro. Mas, fui mesmo movida pelo espanto no que especifiquei.

    Então, – demorei a responder pq viajei, mas mesmo meio atrapalhada entre compromissos e tempo; achei uma fresta pra pesquisar o tal do Pondé.

    E, Sem querida; desta vez… meu espanto se justificou: não só me reservo a atitude de criticá-lo, como a de afirmar q suas opiniões são contrárias a tudo em que acredito.- minha busca pela espiritualidade é bastante aberta e livre, mas consistente em suas referências e eu não me sinto provocada e nem suscetível a este discurso ; – Detesto parecer decepcionante, – Mas, its me!

    Sabe, Sem, eu sou absolutamente contra qualquer regime fascista; seja religioso ou político. Sou radicalmente contrária à eugenia; sou a favor [completamente] das diferenças e do respeito entre elas, desconheço o significado de idéias puras; e sou contrária à religiões instituídas, mesmo respeitando-lhes a existência; respeito que, em minha opinião, elas desconhecem. – Verdades não tem patentes.

    E o tal do Pondé é propagandista do Josemaria Escrivá….- Argh…- e isto me lembra Goebbels assim como mais uma porção de idéias que considero doentias.

    Em uma de suas frases – preferidas – ele diz:

    “Os pilares da minha visão filosófica foram Freud e o Necrotério”

    – Eu descartaria Freud; …apesar de que sobre tudo e qualquer coisa existe a visão subjetiva, sem dúvida, e, na realidade, isto implica em uma compreensão diferente sobre qq verdade ou mentira. Mas, em relação ao necrotério – achei genial, inclusive, esclarece bastante seus pontos de vista e a vertente filosófica que escolheu.

    Não sou da tribo da Opus Dei; e meu deus pagão considera tudo isto doentio.

    Fazendo um antagônico paralelo, literalmente fico com Hillman e similares, sem esquecer os celtas, a umbanda, o candomblé, os budistas, os taoístas, etc – e, sobretudo a alegria saudável de estar viva, vivendo um corpo saudável sem culpas por isto. Honrando e respeitando este maior presente do meu deus e deuses pagãos: minha vida, este paraíso aqui e as vidas que dele brotam. Acho q isto está fazendo mta mta mta falta no nosso mundo. – Mas é apenas minha opinião.

    Repito: Aiaiai, – pode ser decepcionante – de verdade – Mas, its me!

    Bjs

    Ooops:

    …mas não banal e bobinha como o Pondé a quer resumir.

    – …e o que mais poderia trazer êxito e… “fiéis” ovelhas dispostas a sublimar e sacrificar a Vida em prol de um hipotético e puro [?] “paraíso celeste”? [ celeste? …só se for p/ as ovelhas …. :- “necrotérico” isto… – pra mim: manjadíssimo]

    “ > Cabe a nós captar do ar, de Deus, do outro, dos demônios, dos duendes e de nossa demência, fazer nossa parte, como agentes produtores de conhecimento e não pacientes reprodutores.

    =D. Eu adoro isso!

    Eu também.

    Bjs

  11. Fy said

    uma canção Cheyenne

    Viva sua vida de forma que o medo da morte nunca possa entrar em seu coração.

    Nunca incomode ninguém por causa de sua religião:

    Respeite os outros em seus pontos de vista, e exija que eles respeitem os seus.

    Ame sua vida, aperfeiçoe sua vida,embeleze todas as coisas em sua vida.

    Busque fazer sua vida longa e de serviços para seu povo.

    Prepare uma canção fúnebre nobre para o dia quando você atravessar a grande passagem.

    Sempre dê uma palavra ou sinal de saudação quando encontrar ou cruzar com um estranho em um local solitário.

    Demonstre respeito a todas as pessoas, mas não se rebaixe a ninguém.

    Quando você se levantar de manhã, agradeça pela luz, pela sua vida e força.

    Dê graças por seu alimento e pela alegria de viver.
    Se você não vir nenhuma razão para dar graças, a falha se encontra em você mesmo.

    Não toque o aguardente venenoso que transforma os sábios em tolos e rouba deles suas visões. Quando chegar sua hora de morrer, não seja como aqueles cujos corações estão preenchidos de medo da morte, e que quando a hora deles chega eles choram e rezam por um pouco mais de tempo para viverem suas vidas novamente de uma forma diferente.

    Cante sua canção de morte, e morra como um herói indo para casa.

    Tecumseh – Chefe Cheyenne

  12. Sem said

    Fy,

    Obrigada pela confiança. 🙂 Não fique preocupada em discordar de mim não, e prometo que do meu lado vou fazer o mesmo. Pois se ficarmos nós aqui com receio de questionar o outro, achando que podemos magoá-lo, discordando do seu pensamento ou qualquer coisa assim, vamos começar a nos censurar e a partir dai só falar meias verdades, e nos escondermos e cobrarmos que os outros se escondam também. Tudo em nome de um consenso bobo e artificial que nunca existirá de fato.
    Acredito que não exista nada pior para um fórum como este que temos aqui no Anoitan, do que a busca do consenso bobo nos assuntos espinhosos como os que estamos acostumamos a lidar… Sei que vc gosta das diferenças, mas é preciso saber também que com as diferenças vêm as inevitáveis polêmicas, que devemos sustentar e suportar – são elas que fazem diferentes os nossos encontros dos outros de cunho mais ameno e exclusivo trato social. Nada contra a polidez e o bom trato, mas se este fosse nosso único objetivo por aqui, estaríamos pecando pela superficialidade com que trataríamos dos assuntos e eu tenho certeza que esse não é o objetivo de ninguém por aqui. O que não quer dizer que em nome da verdade precisamos brigar a ponto de nos desrespeitarmos. A questão é que podemos pensar diferente, violentamente diferente por vezes, e jamais nos desrespeitarmos. Porque se formos ver do que discordamos, são somente das ideias, nunca da pessoa. Lembrar disso e em nome desse exercício do saber não querer povoar o mundo apenas com nossas crenças, nossas esperanças e pensamentos. O Elielson disse um tempo atrás algo parecido como: “se eu puder respeitar o homem sem respeitar o seu jogo”. Isso resume essa parte da questão e nós duas concordamos com ele, não é? Fy, discorde frontalmente de mim e ponto. 🙂 E Fique tranquila que vc jamais foi indelicada comigo, ao contrário – depois eu acho que já conheço esse seu jeitinho de defender apaixonadamente um ponto de vista, entendo, avalio como interessante e aceito como parte do pacote Fy. 🙂

    Essa é uma questão, agora, quanto ao Pondé, não sei de onde vc tirou os vínculos entre ele, eugenia nazista e Opus Dei. Não conheço pessoalmente o Pondé, mas até onde sei, ele é meio judeu e não é praticante de nenhuma religião. O Hillman parece-me ter mais vínculos reais com o protestantismo do que o Ponde com o catolicismo. Agora, estudioso do cristianismo é outra história, e radical das idéias ele é mesmo. E foi isso que eu quis dizer com idéias puras, ser radical de ir até a raiz e permanecer no cepo em nome da clareza dos argumentos e nunca de uma eugenia.

    Sou a favor dos pensamentos radicais e, não sei se vc já percebeu, mas todos os grandes nomes que fizeram diferença na história, inclusive estes que admiramos e ficamos citando aqui o tempo todo, todos eles são ou foram radicais nas suas ideias. Quem é “mais ou menos” nunca tem nada a contribuir com a evolução do pensamento humano, talvez seja o melhor exemplo do bon vivant, da pessoa agradável, mas não do que batalha e dialoga com o seu contrário e faz assim surgir novas idéias e outros modos de ver a vida. Este radical é o herói trágico do Pondé, o super-homem de Nietzsche…

    Vou dizer exatamente o que conheço e me agrada no pensamento do Pondé: o fato de ele ser um crítico feroz do modernismo. Basicamente é isso o que gosto nele. Temos outros intelectuais brasileiros que também criticam o modernismo, mas nunca tão contundentes e que façam críticas com tanta veemência ou com tanto acerto quanto o Pondé. Enfim, essa coisa de que a ciência dá conta de tudo, a noção de progresso e desenvolvimento contínuo, a negação do irracional, do imponderável e da falha no humano, a obrigação de ser e aparentar felicidade o tempo todo, de superar a natureza, tudo isso é o modernismo que tem nos matado, e vai nos matar se não houver uma contra corrente que forneça outro modo de pensar e viver no mundo. Não é que a pós-modernidade seja “a” solução, mas pelo menos é algo que se contrapõe à modernidade e faz uma crítica do modo insano de viver do homem moderno que além de tudo se quer hiper racional…
    Nós precisamos construir uma outra coisa e eu acho que necessariamente esse vir-a-ser urgente passa pela crítica de autores pós-modernos como Bauman, Morin e afins. Aqui eu me desligo do Pondé, porque ele, como cínico que é, não acredita nesse devir, quer dizer, na possibilidade de construir um futuro melhor que o presente. Isso, essa esperança, ele chama de fuga do covarde, de ilusão do modernismo. Afinal ele é coerente em ser um intratável pessimista da natureza humana. Isso é ele, ou melhor, não necessariamente ele “é” assim, sabemos que ele “pensa” assim. É diferente. Percebe que pode haver diferença entre como um intelectual pensa, trabalha, escreve e defende sua obra do que ele é como pessoa? Esse negócio de ser uma coisa só, um todo coerente, é reservado apenas para os santos e grandes sábios, não é coisa de humanos – e é claro que entre os humanos estão os intelectuais, não importa quão brilhantes possam ser ou tenham sido… Sábios foram Jesus, Buda, Maomé, e até mesmo Gandhi, que disse que felicidade é quando o que você pensa, fala e faz estão em harmonia… Porém é claro que não deve haver um abismo entre construção teórica e vida pessoal, mas em princípio são duas coisas distintas. Sabe aquela coisa de não literalizar uma fantasia? o quanto isso pode ser doentio, então, se o Ponde não uiva para lua, quem perde: a lua, o lobo, nós ou ele? Acho que se é bom uivar pra lua, é ele, não é? E ele é culpado por ser infeliz ou fazer escolhas erradas? Erradas pra quem? Sabe-se lá as razões estéticas, racionais, morais, reais, pelas quais ele acha que não é válido ou é proibido uivar pra lua… vai ver nem é proibido, vai ver ele vira lobisomem na lua cheia e o dito foi só uma metáfora poética que ele usou para deixar patente a inconstância com que alguns procuram sua religiosidade – como quando a Julieta não quis que o Romeu jurasse pela lua por sua inconstância.

    Só pra concluir, quando ele disse que suas influências mais marcantes foram Freud e o necrotério, eu tenho absoluta certeza que ele estava sendo irônico. Como é seu costume brincar sempre e principalmente com as coisas mais sérias. Não dá para tomar ao pé da letra uma ironia, dá? Não dá pra literalizar uma metáfora, uma fantasia, sem perder o brilho e o sentido poético do que foi dito. Prosa não é poesia. E claro que Freud e o necrotério tem muito a dizer de quem espera sempre pelo pior… foi uma metáfora pessimista. Mas pense comigo, quem perde por não esperar o melhor? Eu, você, ele, a verdade? É importante, isso nos separa?

    Bom, não sei se me fiz clara, não no sentido de defender o Pondé, mas das ideias que eu mesma acredito, em como as coisas são ou como deveriam ser. Este assunto rende muito e poderia fazer outros comentários, mas tb não sei se vale a pena me estender mais do que já me estendi. Só quis te dar uma resposta a altura do tom de sua revolta. E só pra concluir definitivo agora mesmo, numa espécie de resumão de tudo o que acredito: as pessoas estão aí para serem aceitas e não para serem julgadas, e a única coisa que podemos fazer por elas é aceitá-las, o pacote inteiro e não apenas as partes que nos convém; e todas as pessoas e não apenas aquelas que nos convém; já o pensamento da pessoa podemos sim discutir com ele, discordar dele, trabalhar com ele; as atitudes também podemos questionar, censurar; mas nunca a pessoa que é o que é. Na essência todo ser merece respeito, em última instância até Hitler, que é a pessoa mais asquerosa que consigo atinar no momento que já existiu na face da terra e muito mal fez.

  13. Fy said

    Sem,

    “mas das ideias que eu mesma acredito, em como as coisas são ou como deveriam ser”

    e eu adoro suas idéias!
    Vc sabe disto.

    Vou falar uma coisa pra vc rir: [ depois vc fica brava comigo, não faz mal: é uma opinião pessoal]
    Este necrotérico não tem nada nada a ver com vc!!!!
    [ For me ]

    Mas entendi sim, tudo o q vc escreveu.

    Caso vc queira te passo as fontes que consultei, as várias entrevistas [ dele ] que li, e opiniões sobre ele tb.

    Depois eu volto e coloco um artigo do Hillman – é polêmico – mas é muito …Hillman!

    Bjs

  14. Elielson said

    http://www.piraidigital.com.br

    E o futuro chega.
    Nessa cidade todo aluno está recebendo seu laptop.
    E daqui um semestre poderá levar pra casa.

    Wow.

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