Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

ANOTHERING

Posted by Fy em maio 13, 2009

ANOTHERING

Num domingo, que já faz tempo, o Kaslu escreveu este texto :

“(…) como se uma linha de fuga, mesmo que começando por um minúsculo riacho, sempre corresse entre os segmentos, escapando de sua centralização, furtando-se à sua totalização (…) Do ponto de vista da micropolítica, uma sociedade se define pelas suas linhas de fuga, que são moleculares. Sempre vaza ou foge alguma coisa, que escapa às organizações binárias, ao aparelho de ressonância, à máquina de sobrecodificação: aquilo que se atribui a uma evolução dos costumes, os jovens, as mulheres, os loucos, etc.
” In DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Felix Mil Platôs: Capitalismo e esquizofrenia vol 3. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1996. p. 94


“Um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-se, intermezzo. A árvore é filiação, mas o rizoma é aliança (…) Entre as coisas que não designa uma correlação localizável que vai de uma para outra e reciprocamente, mas uma direção perpendicular, um movimento transversal que as carrega uma e outra, riacho sem inicio nem fim, que rói suas duas margens e adquire velocidade no meio”.
In DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Felix Mil Platôs: Capitalismo e esquizofrenia vol 3. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1996. p. 37

I

Fernando Pessoa, que não acreditava na necessidade de ser idêntico a si mesmo, e constante e coerente, e unitário, fez da escrita a mais estonteante experiência de tornar-se outro do que ele mesmo. Conseguiu, com isso, visitar universos muito diferentes, sensações muito díspares, vivências contrastantes, pensamentos muito estranhos uns dos outros. E até inventou uma palavra para essa experiência de virar outro: outrar. Não é preciso ser louco, nem poeta para fazer isso, pois fazemos esse exercício cotidianamente, diante de um raio de sol, uma brisa, um cão, um desconhecido, um conto, uma imagem, uma dança, uma paixão. Cada encontro que me afeta pode ser uma ocasião para outrar, cada força que eu cruzo pode disparar em mim um outramento. Será que eu sou outro do que eu mesmo? Ou será que eu sou a reunião de todos esses outros? Será que não sou justamente a coexistência dessas múltiplas forças, direções, outramentos? Gilles Deleuze, juntamente com Felix Guattari, batizou esse tornar-se outro de devir .

“Meu devir- mulher, meu devir- criança, o devir- girassol de Van Gogh, o devir-barata de Kafka, o devir- índio de Artaud, nosso devir-negro, o devir- esplendor de Arthur Bispo do Rosário, o devir- molécula de Juan Castaneda….”

De quantos devires sou capaz? Talvez de tantos quantas forem as forças que me rodeiam, me atravessam e me habitam. Sou o campo de batalha para essa miríade de forças, muito intensas, poderosas, minúsculas ou maiúsculas, e todas elas de algum modo refazem meu contorno, desfazem a minha forma de vida em proveito de outras tantas formas de vida. A potência criadora busca experimentar o que essas vidas inauguram de novo, e vai buscar nesse caos de forças o material para os múltiplos devires e as múltiplas vidas que ele for capaz de inventar.

II

Você entende por que resistir, por que manter o eu, por que todos os dias acordar e sempre e sempre suportar que seja hoje, você entende? Você entende?…. Estamos à espera do retorno do rei, enquanto isso, outremos sem perder a doçura, pois sabemos que debaixo de cada espreita existe a autenticidade de proteger o reino para o retorno do rei… Ah! Loucos! Loucos e brilhantes, poderosos e maravilhosos, nosso devir-esplendor Arthur Bispo do Rosário….

Preservar a capacidade de outrar é nosso objetivo aqui, nunca esquecer que através da oportunidade da espreita e se ser, assim, quem quiser, preservamos a possibilidade de ser ninguém….. Todo o esforço da nossa sociedade é um esforço para controlar esta linha de fuga…. nos entupindo de imagens possíveis, de Hollywood, de tv globos e afiliadas, para todos os gostos, para controlar nossa capacidade incontrolável de outrar….. Fernando que não é uma pessoa ensinou…. Todas as máquinas menores numa velocidade absoluta em suas capacidades de outrar… outrar tanto, que a capacidade de espreita se imponha de tal maneira que não seja possível não ser autêntico na espera pelo retorno do rei…. vamos da maneira mais insensata e desesperada… imprevisível… vamos em direção a Mordor: jogar o anel na própria fornalha ambiciosa que o quer e que o gerou…. Espreitando por um caminho insensato e desesperado, à espera do retorno do rei, que em algum momento espreitaremos e esse outramento será o devir-rosa do retorno do rei….é quando o outramento se transforma em uma linha de fuga por entre o rizoma que é a vida, que é a parte do rio que rói as suas margens em busca de novos leitos, criando novos leitos…. nosso devir-guerreiro D. Juan Castañeda….

Postado por Kaslu às 8:52 PM / Domingo, Abril 25 2004
http://fusaolatente.blogspot.com/

Anúncios

91 Respostas to “ANOTHERING”

  1. luramos said

    nooossa, que perigoso este texto…rs
    Santa sincronicidade.

  2. Elielson said

    As vezes supomos perfeição em um sistema excludente, como quando dizemos que nada é por acaso, sendo que mesmo se for por acaso, só o fato da afirmação faz a gente se sentir melhor.
    Talvez nessas tangentes nas quais passam os santos exista um abismo que não foi aceito, apenas isso.
    Quando as pessoas fazem o lado b e lado a, criam a via em que alguns passam, mas nem deveria existir tal via.
    Quando a caridade corrige a imperfeição e cobre o rastro da corrupção ou quando a corrupção neutraliza os efeitos da caridade, passamos a sentir uma ilusão de que uma coisa complementa a outra, mas se apenas uma das duas atividades param, vem a glória ou a ruina.
    Mas a fatalidade é a glória que não nos inclui.
    Pelo menos nesse formato.
    E a ruina será a ruina desse formato.
    Só ouvi falar de um Rei na raça humana, que estando ou não na fisica, permite que cada um reine com ele, e isso é servir no céu, (não sirvo ainda!)pq reinar no inferno é acatar a ordem de um rei que eu invento em mim mesmo e para mim mesmo, lacaio de mim mesmo que corre atrás do desejo somente pela sensação de desejar. Ser rei de mim sem o Rei, não, não há como. Mas minha sensação de desejar tem que ser guiada no vão, mesmo que por agora oscile, pois acabando com o vão, acaba os personagens, as fontes da metafora, o sentido da vida, acaba o que acaba e começa o começo.

    Fy

    Gostei do post.

    Anoitan.
    Não tenham piedade, bombardear com informações boas é como aquelas chuvas de petálas de rosa que vem dos apaixonados nos helicopteros.

    E quanto aos que entrarem aqui de sola, let it be tbm, e deixem eles sentirem a chuva de rosas.

  3. adi said

    Fy,

    Eh de pirar a caixola ficar pensando nas possibilidades.

    Rizoma seria como a Alma, aquela que intermedia, relaciona, estah “entre” opostos??

    Tempos atras, nao me lembro exatamente, mas gosto de me lembrar disso, foi o maximo que cheguei perto de “outrar” ou do Rei.
    Estava tentando entender espaco/atemporal, deu um tilt aqui, como se a mente abrisse, foram alguns momentos sem o “eu”, e a consciencia se percebeu alguma coisa anterior ao “eu”, no entanto todas as pessoas, porque aquilo que se eh, eh a fonte, e o motivo, a raiz…. nao dah pra explicar, soh sei que eh anterior e que dali brota os seres, mas ainda nao “eh”…. naquele momento senti a mais pura, pura liberdade que existe, e que estah em SER liberdade, qualquer sentimento como inveja, ciume, pena, deixou de existir, foi como Ser todos os “outros” em mim mesma, ao mesmo tempo que nao se sente exatamente como o “outro” mas como a fonte onde ainda nao existe o “eu”… Fy eh muito louco de explicar… soh sei que me senti livre, liberta de verdade, leve, sem nenhum sentimento que prende; as lagrimas escorriam pelo rosto, nao sei porque mas o corpo sempre chora… depois tudo passou e voltou mais ou menos como antes… sabe Fy, se continuasse naquela percepcao o tempo todo, daria tudo que tenho porque nada me pertence, o outro sou eu e vice-versa, e ao mesmo tempo que nao “eh” porque nao existe o “eu” nem o outro…

    Ler esse texto me recordou isso, gosto de trazer isso de volta, aquela sensacao, percepcao, sentimento, tudo junto… nao eh igual, mas ainda vive dentro de mim.

    Por isso o eterno retorno, porque somos tudo sempre ao mesmo momento… e nao somos livres, a nao ser que todos sejam…

    bjs
    adi

  4. Fy said

    Lu,
    …..perigoso e fascinante! Rsrsrsrs
    É um texto que invade, aumenta, questiona… O Kaslu é isto mesmo; perigoso e fascinante.
    Lucio, Kaslu, Mob, Guaco, Sem, e por aí vai. Na minha opinião, são assim: incomuns, invasivos, desestruturantes; desconcertantes, e deleuziando – : desterritorializantes. È impossível ler algum de seus textos sem se questionar, sem aumentar limites, sem ir além.
    A Sem coloca isto muito bem, qdo coloca o que mais lhe fascina em Hillman: construir Alma. > isto é muiiiiiito livre !
    O Guaco:
    Já ouviram falar dos artistas japoneses que viviam 5 vidas numa só? viviam numa vila, um estilo de pintura, e pá, quando atingiam a mestria, sumiam! outra cidade, outro estilo de pintura… e assim iam.

    O Mob:
    E o gume reluz
    em leito rochoso
    esperando, esperando
    a vida vindoura
    firme puxada
    e a morte do nada.

    E todos vcs.

    Another, Anothering > outro > outrando. É um exercício fantástico. Uma possibilidade extraordinária.

    E o Rei?

    Quem é o Rei?

    Bjs

  5. Fy said

    Elielson,

    Sei q vc gostou!

    É muito parecido com vc!

    Bjs

  6. Fy said

    Adi,

    Nossa que momento lindo!

    Parece um mergulho no mar ! Imenso mar !

    Adi, vc anda terrívelll!

    Já tô com saudades dos seus posts!

    Bjs

  7. Fy said

    Adi,

    “Ele [o rizoma] não tem começo nem fim, mas sempre um meio pelo qual ele cresce e transborda”.

    Assim também é nossa existência.

    Podemos delimitar um começo e um fim, respectivamente, no nascimento e na morte, mas não são limites precisos.

    Nossa vida cresce e transborda, e isso pode se dar a partir do presente, de cada passo, de cada dia vivido, em cada forma de existência construída, em nossa multiplicidade.

    “Uma tal multiplicidade não varia suas dimensões sem mudar de natureza nela mesma e se metamorfosear”, ou seja, cada forma de existência construída, cada variação de nosso ser, muda nossa natureza, nos coloca em movimento, nos faz ser o que somos, enquanto somos.

    Assim, essa multiplicidade nos permite um constante devir, ou melhor, todos os devires. Somos, deixamos de ser, tornamos a ser… assim podemos ser vários:

    um de cada vez, todos ao mesmo tempo, deixar de ser alguns, voltar a ser outros. Nada há de patológico nisso.

    Tal qual os heterônimos de Fernando Pessoa compunham um e vários dele, temos nossas multiplicidades e nos compomos diariamente nesses diferentes eus, que se mesclam, se confundem, se interpõem, se contrapõem, se metamorfoseiam, se tornam aquilo que são em seus devires.

    Quem somos? A multiplicidade de nossos devires.

    Adi

    “Um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo” – seríamos esse intermezzo?
    O “entre” que nos permite o constante metamorfosear?

    Quando tentamos dizer quem somos de maneira estática, perdemos a dimensão do movimento da vida. Todas as nossas afirmações ficam “aquém” do que de fato somos, nosso discurso parece vazio, é como se fôssemos muito mais do que o que conseguimos pronunciar, … e o somos, somos Todas as Possibilidades de existência contidas num único ser.

    Bjs

  8. Fy said

    “…. Uma tal multiplicidade não varia suas dimensões sem mudar de natureza nela mesma e se metamorfosear”,

    Isto me lembrou uma frase que acho genial, que alguemnãoseiquem escreveu:

    “Ninguém é o mesmo, ainda que se repita”, …

  9. Bob said

    Uau! Maravilhoso texto!

    “… outrar tanto, que a capacidade de espreita se imponha de tal maneira que não seja possível não ser autêntico na espera pelo retorno do rei….”

    Isto fez-me lembra de ‘outro’…

    Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
    Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante
    A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
    Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo
    Deles não quero resposta, quero meu avesso
    Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim
    Para isso, só sendo louco
    Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças
    Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta
    Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria
    Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto
    Meus amigos são todos assim:
    metade bobeira, metade seriedade
    Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos
    Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem,
    mas lutam para que a fantasia não desapareça
    Não quero amigos adultos nem chatos.
    Quero-os metade infância e outra metade velhice
    Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto;
    e velhos, para que nunca tenham pressa
    Tenho amigos para saber quem eu sou.
    Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que “normalidade” é uma ilusão imbecil e estéril.

    (Loucos e Santos por Oscar Wilde)

    …e ainda outro…

    Nego submeter-me ao medo,
    Que tira a alegria de minha liberdade,
    Que não me deixa arriscar nada,
    Que me torna pequeno e mesquinho,
    Que me amarra,
    Que não me deixa ser direto e franco,
    Que me persegue,
    Que ocupa negativamente a minha imaginação,
    Que sempre pinta visões sombrias.
    No entanto, não quero levantar barricadas por medo do medo.
    Eu quero viver, não quero encerrar-me.
    Não quero ser amigável por medo de ser sincero.
    Quero ser firme porque estou seguro,
    E não porque encobri meu medo.
    E quando me calo, quero fazê-lo por amor,
    E não por temer as conseqüências de minhas palavras.
    Não quero acreditar em algo só por medo de acreditar.
    Não quero filosofar por medo de que algo possa atingir-me de perto.
    Não quero dobrar-me só porque tenho medo de não ser amável.
    Não quero impor algo aos outros pelo medo de que possam impor algo a mim.
    Por medo de errar não quero tornar-me inativo.
    Não quero fugir de volta para o velho, o inaceitável, por medo de não me sentir seguro no novo.
    Por convicção e amor, quero fazer o que faço e deixar de fazer o que deixo de fazer.
    Do medo quero arrancar o domínio e dá-lo ao amor.
    E quero crer no reino que existe em mim.

    (Forjando a Armadura por Rudolf Stainer)

    Outremos então…amén
    🙂

  10. Bob said

    Ei, e este texto foi postado em 13 de Maio!! Dia da abolição!!

    “Todo o esforço da nossa sociedade é um esforço para controlar esta linha de fuga…. nos entupindo de imagens possíveis, de Hollywood, de tv globos e afiliadas, para todos os gostos, para controlar nossa capacidade incontrolável de outrar….

    Outremo-nos então para sermos livres…almas livres…até conseguirmos amar, de fato, sem medos 🙂

  11. adriret said

    Fy,

    >> Adi, vc anda terrível!!!<
    Obrigado pelo elogio, quanto ao post vai demorar (tah enrolado neh?) um pouquitinho, mas eh que ainda por cima perdi tudo no word e vou ter que comecar do zero, mas a idéia jah estah pronta.

    >””Um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo” – seriamos esse intermezzo? O “entre” que nos permite o constante metamorfosear?””<<

    Eu entendo tudo isso que vc falou como o fazer Alma, alma que pra mim também eh consciência. Eh o que somos, eh o que podemos ser; consciência eh que conecta/liga ambos os lados de tudo que eh oposto, de tudo que eh contraditório.
    Se faz nos relacionamentos, nas experiências, na própria existência.
    Fy, por isso que hoje entendo que nesse caminho espiritual, essa busca pelo Rei ou Rainha, soh mudam os nomes, no mais estah intrínseco no ser-humano, e nem poderia ser diferente, jah que a raiz ou essência de todas as coisas eh uma e mesma coisa, infinita que seja.
    Mudar eh bom, muito bom, e a cada dia jah nao somos os mesmos, como a agua do rio, uma agua sempre nova em movimento desaguando no mar. Talvez as experiências da vida, não nos torne o outro “eu”, mas faz com que possamos ao menos nos colocar no lugar do outro, sentir como ele sente, compreender sua visao do mundo. Muitas vezes podemos dizer: -nossa!! jah passei por isso, ou jah senti a mesma coisa, posso compreender o proximo, em suas alegrias ou dores quando conseguimos nos colocar em seu lugar…

    Talvez seja dessa forma ser o “outro”… e isso a gente vai aprendendo com a vida mesmo, aprendendo a ter Alma, a ser Alma, a ver com a Alma – Alma também eh amor, e o amor “descomplica” todas as coisas, torna branda e leve nossas atitudes e acoes; eh a tal da gentileza do seu outro post… e com certeza a gente nao nasce com isso, mas se torna no dia-a-dia, como a “transformacao” que vc falou.

    Ai, ai!! eu gosto tanto de conversar com voces….

    bjs e bjs a todos
    adi

  12. Fy said

    É verdade, Adi, tudo o que vc falou.

    Mas eu acho que no texto, o Kaslu vai mais além…. Ele sugere que vivamos tb estes outros lados de nossa personalidade, que são tão diferentes entre si, que praticamente nos “oferecem” – de qdo em qdo – uma pessoa, em nós, que mal conhecíamos. Vc nunca se estranhou? ….eu já.

    Vou colocar um texto da Larinha mto bom e engraçado sobre isto: – uma daquelas noites solitárias em que agente sem-querer tem um encontro marcado com as “gentes” mesma. Parece um capítulo de Sex and the City; onde, em meu entender, o brilhantismo do autor deve-se à tentativa de reunir em 4 mulheres as diversidades de uma única. E, o que mais me tocou nesta série, que quando vista de uma forma mais profunda, é que mesmo diante de tamanha diversidade, diante de tanta diferença, as 4 se respeitavam com um carinho e uma atenção extraordinários. – Que é como devíamos considerar e, reservar a mesma e importante atenção a cada expressão de nós mesmas, por mais estranhas que possam nos parecer as “personagens” incorporadas por cada uma, pq eu acho que cada uma tem o seu recado.

    Isto que a Larinha escreve é um “fenômeno” capaz de acontecer em uma única noite; – acredito que todos tenham noites assim – é mto engraçado; mas é uma experiência completamente curiosa,caso se mergulhe dentro dela e ouça, e converse, e observe, e se divirta e se espante e até se escreva sobre todas estas “companias”, dividindo com elas um bom vinho, quando elas acontecem em alguma noite meio esquisita em que estejamos por demais sós:

    – Somos vários? Sim! Somos os vários que nossa multiplicidade nos permite ser, somos vários diante de nossas constantes metamorfoses, somos vários de acordo com nossos processos de significação, mas também somos vários de acordo com os papéis que escolhemos exercer na vida. Assim, a questão que se coloca não é mais: quem sou eu? A questão colocada agora é: “como convivo comigo mesmo”? –

    Eu X Eu

    Cada vez mais eu me conformo que sou um ser na contramão. Contramão de pensamentos, de sentimentos e de atitudes. Se penso, não coloco em prática. Se faço alguma coisa, geralmente foi sem pensar. O que sinto fica aqui guardado só pra mim. Se fizessem um raio X de corpo inteiro hoje, minha cabeça estaria mais povoada que um campo de concentração nazista. Meu coração? A távola redonda da era moderna, com todos os cavaleiros bradando ao mesmo tempo de modo que um não escuta o outro e ninguém se entende. As muitas eu que me habitam estão em conflito intenso. Coisa de pré-guerra. Com a ceifadeira assobiando o tempo todo no meu ouvido não posso esperar que todas as minhas eu se entendam, mesmo. Querem todas realizar suas vontades e desejos imediatos simultaneamente. Uma eu quer correr a cavalo pelos prados, enquanto a outra quer o silêncio da mata e uma rede preguiçosa. Uma eu quer dançar a noite toda até não sentir mais os pés, enquanto a outra clama por uma cama quentinha e uma noite de sono com qualidade. Uma eu quer se trancar em uma masmorra e nunca mais olhar pra cara de ninguém, enquanto a outra prefere uma noite de amar eternamente até perder os sentidos. Uma eu quer sair correndo daqui e largar tudo enquanto a outra fala p.a.u.s.a.d.a.m.e.n.t.e. que tem algo muito melhor à minha espera, basta ter paciência. Uma eu quer passar a tarde fazendo arte, pintando e bordando, enquanto a outra quer permanecer grudada na internet, mesmo que seja pra fazer nada, as usual. Uma eu quer ser uma pessoa mais expansiva e feliz independente de qualquer outra coisa ou pessoa, enquanto a outra quer apenas poder abrir as cortinas do coração e contar toda a verdade escondida atrás dos pequenos milagres que lhe roubam sorrisos diariamente. Uma eu quer ser pé no chão, mulher madura, consciente de seus atos, responsável, enquanto a outra quer andar descalça, conversar com fadas, caminhar sobre nuvens e voltar para Neverland, de onde nunca deveria ter saído…. Uma eu quer parar no primeiro drive thru do Mc Donalds e morrer de comer um Big Mac. 2….. A outra fica martelando sobre a necessidade de um regime antes que todos os botões das calças percam de vista suas casas. Uma eu cala e chora. A outra grita e esperneia.

    O fato é que ainda espero o dia em que todas as eus venham a se entender.

    É.
    Durma com um barulho desses.

    MURMÚRIOS DE LARINHA

    Bjs

  13. Fy said

    Hey Bob,

    Qta coisa bonita!

    Outremo-nos então para sermos livres…almas livres…até conseguirmos amar, de fato, sem medos !

    Sem medo!

    Vc precisa vir mais vzs: dar seu palpite aqui pra nós.

    Trazer este coração-de-leão pra vibrar aqui com agente.

    I loveyourHeart, baby

    Bjs

  14. Fy said

    E pra dançar com nossos vários eus…..

    Pra provar que alguns eus – da alma – nunca envelhecem…… [ olhem o rock do velhoherói11desetembro: mto bom ! ]

    E pq já é 5ª feira, e meus eus já estão me olhando de cara feia…. cansadinhos…. de trabalhar!

    – I felt a little like a dying clown
    With a streak of Rin Tin Tin –

    Eu me sentia um pouco como um palhaço agonizante
    Com um quê do Rin Tin Tin…. kkkkkkk

    vamos, sim, em direção a Mordor: jogar o anel na própria fornalha ambiciosa que o quer e que o gerou…. enquanto o Rei não vem….

    Who are You?….here, inside me….

    Bjs

  15. adriret said

    Ah, tah!

    E nesse caso Fy, pelo que entendi se trata de “personificação”.
    Segundo Jung, um conteúdo psíquico que tem suficiente intensidade ou magnitude para separar-se da personalidade como um todo pode ser percebido somente quando objetivado ou personificado. Assim, a personificação capacita ao individuo ver o funcionamento da psique como uma serie de sistemas autônomos. Ela despotencializa o poder ameaçador da parte que se separou e torna uma interpretação possível.

    São partes de nossa psique que devem ser integradas a consciência, pra justamente parar esse cabo de guerra interior.

    Sim, somos seres fragmentados, e a idéia de ser um ser unico, unido ( o Rei), eh justamente juntar esses cacos (obvio), cessar essa luta interior entre esses “opostos”. Esse relacionar “opostos” eh sim um processo de fazer Alma.

    Jogar o anel na fornalha de mordor significa justamente derreter os poderes “autônomos” (os devires) e traze-los a consciência, eh assim que o Rei vai retornando.

    A Larinha falou que ainda espera o dia em que todas as eus venham a se entender. Esse “a se entender” soh eh possível gerando uma terceira coisa, essa coisa eu chamo de Alma ou consciência.

    … mas eu sei, sao somente nomes…

    bjs
    adi

  16. adriret said

    Fy,

    Eh que de forma alguma eh uma alegria ser varios, muito pelo contrario, eh uma angustia, uma dor dilacerante, como se o Ser estivesse amarrado pelos membros em cordas sendo puxadas por cavalos opostos…

    Nao eh tao simples dar vazao aos “eus” porque sempre ha um outro eu oposto lhe requerendo atenção, cobrando… por isso a necessidade de “unificar”, liberar essas energias/forcas dos complexos autônomos e integrar a consciência.

    Ai sim, integrados, essas forcas/poderes se tornam “criatividade”, tem o poder de criação poética, artística, onde se cria beleza e graca… como Fernando Pessoa se utilizou disso como ninguém, mas ele era um grande iniciado e jah tinha essas forcas integradas…

    bjs
    adi

  17. Elielson said

    Ser ou ser mais do que sou?
    Esta é a questão.

    Enquanto houver não-seres, ninguém é.

    Pensei que a reunião era em Valfenda, mas tô vendo que é por aqui.

    Eu tenho um arco e uma flecha, mas é miniatura, comprei de um menininho que se dizia índio, e que aparentava ser.

    Os eleitos se elegem, o reis se coroam, e os eus não dominados são d´eus, mas seguem reis de fora, seguem eus de outros, que não te fazem rei, pois espalham seus eus, e não espaplham o Rei.

  18. Sem said

    Anoitar e outrar, dois verbos que precisam ser conjugados e entrar para o novo dicionário da nova língua portuguesa.

    Para Drummond o Rei foi a palavra mágica:

    “Certa palavra dorme na sombra
    de um livro raro.
    Como desencantá-la?
    É a senha da vida
    a senha do mundo.
    Vou procurá-la.
    Vou procurá-la a vida inteira
    no mundo todo.
    Se tarda o encontro, se não a encontro,
    não desanimo,
    procuro sempre.
    Procuro sempre, e minha procura
    ficará sendo
    minha palavra.”

  19. Sem said

    Adi,

    >>Eh que de forma alguma eh uma alegria ser varios, muito pelo contrario, eh uma angustia, uma dor dilacerante, como se o Ser estivesse amarrado pelos membros em cordas sendo puxadas por cavalos opostos…

    Assino embaixo.

    Não sei se já coloquei essa poesia por aqui, mas não mal mal se repetir, para não esquecer dos perigos pelo caminho, onde tantos bons já se perderam:

    “Tudo cai! Tudo tomba! Derrocada
    Pavorosa! Não sei onde era dantes.
    Meu solar, meus palácios, meus mirantes!
    Não sei de nada, Deus, não sei de nada!…

    Passa em tropel febril a cavalgada
    Das paixões e loucuras triunfantes!
    Rasgam-se as sedas, quebram-se os diamantes!
    Não tenho nada, Deus, não tenho nada!…

    Pesadelos de insônia, ébrios de anseio!
    Loucura a esboçar-se, a enegrecer
    Cada vez mais as trevas do meu seio!

    Ó pavoroso mal de ser sozinha!
    Ó pavoroso e atroz mal de trazer
    Tantas almas a rir dentro da minha!”

    (Loucura – Florbela Espanca )

  20. Fy said

    Adi,

    Estava eu cácomigo elaborando uma resposta. E pensei o seguinte: estamos , as duas, falando sobre Integração. Mas, sob pontos de vista diferentes e também sobre processos diferentes.

    Vou expor minha opinião; que tb pode ser uma interpretação maluca, falha, mas é a que melhor se adapta dentro da minha possível lógica.

    Vou começar com um parágrafo de Hillmam:

    “O pensamento psicológico é deliberadamente infantil.

    Alimenta a fantasia de expansão criativa, ampliação, engrandecimento, tão essencial para o temperamento romântico, segundo Georges Poulet.

    E sem dúvida o romantismo é muito importante em nosso meio – este mesmo ocidente que prega um racionalismo em todas as atitudes que “considera” características do fenômeno da consciência -,
    pois sem ele [ sem o racionalismo ] não é possível prosseguir no processo criativo, seja para lançar luzes sobre as obscuridades do inconsciente, seja para “integrar” as “multiplicidades da psique” procurando alcançar uma unidade-totalidade.

    “Contudo”…, algo nos assombra, como um Fantasma às portas do romantismo psicológico.

    Então: este “Contudo” permanece…. exatamente igual, ele é pré, e pós todas as elucidações fornecidas pelos freudianos, junguianos, etc e tal.”

    – Agora vou “adaptar” o mito à minha tentativa de explicar meu pointofview: – em seguida: a Sem me estrangula rsrsrsrsrs

    – Qdo nos reportamos ao Mito do Andrógino*, de Platão, – graças a Sem – podemos perceber que ele nos conta sobre um tempo em que havia um ser esférico de conformação e constituição em duplicata > como se houvesse naquele corpo a fusão de dois seres humanos e que em determinado momento, por inveja e medo do confronto das forças e poder, os deuses decidiram separá-los, tornando-os, então, frágeis e “partes” daquilo que antes era o todo.

    – De onde se deduz que o tal do Todo, nada mais era que a reunião de “partes”.

    Psicologicamente, como entendemos esta situação?

    o Mito do Andrógino que Platão nos apresenta demonstra que a verdadeira carência que temos na vida é do ‘Outro’, que se deu através daquele corte divino.

    E eu lembro que: não é “outro” e sim várias partes que poderíamos chamar de “outros”. – “by me”

    Jung nos demonstra através de sua teoria que: essa sensação de falta, que vivemos, na verdade, é a falta das qualidades inconscientes, e que temos dentro de nós – “suprimidas e reprimidas” no desenvolvimento da consciência/inconsciência – corte, divino e necessário, para a formação da Individualidade e da Personalidade (reforçada e estimulada pela educação, por nossos pais e educadores).

    Voltando a Platão: Aquela conformação e constituição dava ao Andrógino* a sensação de completitude e onipotência, a ponto de se sentir como deus, com força e poder de desafiar os próprios deuses do Olimpo, não é?

    Com a separação houve um desequilíbrio – a leitura psicológica nos faz entender que houve um desequilíbrio psíquico – dividiu-se, o que antes era único, em dois. Este desequilíbrio psíquico foi decorrente desta sensação de perda da Totalidade. O que acontece, então?…

    – se entendermos aopédaletra: piramos.

    Eu acredito, Adi, que nesta busca pela Totalidade ou pelo Self; incorremos em vários erros de interpretação de métodos.

    Vc mesma reconhece que existem várias facetas em nossa personalidade, às quais torna-se torturante dar vasão devido a alteridade entre uma e outra.

    Mas aí é que mora o perigo entre os métodos de se lidar com isto, em busca ou em nome da integridade do self ou alma, ou eu …..

    Qdo vc diz:

    Nao eh tao simples dar vazao aos “eus” porque sempre ha um outro eu oposto lhe requerendo atenção, cobrando… por isso a necessidade de “unificar”, liberar essas energias/forcas dos complexos autônomos e integrar a consciência.

    Primeiro: eu deduzo que vc os está reconhecendo.

    Segundo: esta não-facilidade, é na minha opinião uma profunda desarmonia entre eles, pelo fato de nos vitimarmos na tentativa de castrá-los usando uma metodologia equivocada, na expectativa angustiante de tentarmos incorporar um “único” arquétipo: algum arquétipo ideal; que não existe. E, exatamente isto, é o que explica a sempre-crescente fila e presença nos consultórios de psicólogos ou psiquiatras. E a repressão, o não-reconhecimento, a supressão destes eus é o que cria os “maus” complexos autônomos.

    É uma espécie de concretização que fazemos sobre os arquétipos; como se criássemos um modelo. É o que nos obriga a “cortar os excessos da massa da torta”.

    E, na minha opinião, mesmo que seja difícel; e vc tem razão: mts vzs o é; é necessário sim, reconhecer para conhecê-los, – libertá-los, conviver, buscar a harmonia ou respeitar a alteridade de nossos vários eus, pra que formulemos decisões, conclusões e, mesmo definições, temporais ou não – pra mim, esta busca pelo consenso ou quase-consenso é o trabalho da mente, qdo despreocupada em “servir” ou incorporar – no sentido de caber-dentro – de um único modelo ou arquétipo – tentativa esta aliás que necessita de um big esvaziamento psíquico:

    ainda um raciocínio de Hillmam que pode dar uma idéia mais clara sobre a minha opinião:

    Crescer não é apenas ir para cima ou mesmo para os lados, segundo a piada dos adultos. Ao matar a criança e comê-la, o adulto, esse que não cresce mais, engorda.

    Somos vários? Sim! Somos os vários que nossa multiplicidade nos permite ser, somos vários diante de nossas constantes metamorfoses, somos vários de acordo com nossos processos de significação, mas também somos vários de acordo com os papéis que escolhemos exercer na vida. Assim, a questão que se coloca não é mais: quem sou eu? A questão colocada agora é: como convivo comigo mesmo > ou: como “convivo” comigo[s] mesmo.

    Bjs

  21. Fy said

    Sem,

    Lindas poesias!

    “Não sei se já coloquei essa poesia por aqui, mas não mal mal se repetir, para não esquecer dos perigos pelo caminho, onde tantos bons já se perderam:”

    Te pergunto:

    – Os Perigos são tão reais quanto o Caminho. Acredito que os dois perfazem uma única realidade.
    Não foram só os bons que se perderam; os maus também. Mas isto não é porque estão vivos? E porque trilhar o Caminho é a única forma de estar vivo?

    Entendendo ou não…..

    “Como” trilhá-lo é a eterna busca do homem. procurando, encontrando, distraindo-se em eternas procuras, satisfazendo-se ou não,…etc Mas: evitá-lo: o que corresponde a evitar os Perigos – exime a necessidade desta busca ; corresponde a não-viver. Ou não?

    Bjs

  22. Fy said

    Ó pavoroso e atroz mal de trazer
    Tantas almas a rir dentro da minha!”

    – sim, é uma forma de reconhecer as diversas alteridades do eu.

    Ou dos eus que povoam a alma.

    Considerá-los genéricamente como um mal, ou reconhecê-los como uma explicação de não-alegria , é o que enriquece os psicólogos e afins – simplesmente porque: é fato. E é o que explica a frase da Adi: Eh que de forma alguma eh uma alegria ser varios, muito pelo contrario, eh uma angustia, uma dor dilacerante, como se o Ser estivesse amarrado pelos membros em cordas sendo puxadas por cavalos opostos…

    A busca pela harmonização destas “almas” ou “eus” , ao meu ver: não é diferente do que a arte do convívio com o outro “literalmente” falando; é uma conquista. – Necessária – E assim como é mto complicado conviver com quem não se conhece, torna-se necessário o conhecimento destes nossos personagens interiores. …se superarmos alguns medos, espantos e temores.

    Talvez desta forma possamos perceber que nem sempre eles estão contra nós, ao contrário; eles podem ser ricos, curiosos, criativos, fortes, heróicos, e uma série de outros potenciais, que nos surpreendem e nos auxiliam… de repente…. sem q tivéssemos noção de sermos capazes disto daquilo ou de determinadas atitudes.

    Incluindo os destrutivos, que tb precisam ser reconhecidos pra não tornar a sombra obesa e nos sentirmos dilacerados.

    Pra mim, quase como substituir a dramática situação humana pela simplicidade profundíssima do Osho; que incita à tal da Aceitação. E que sómente conquistada interiormente nos predispõe à Aceitação do outro: o próximo, ou da vida.

    È um exercício, sem dúvida. Mas não carrego culpas por optar pela simplicidade no tratar desta diversidade interior. Ao contrário: recorro ao carinho, à compreensão e à luz do conhecimento qdo algum eu, meu, me parece obscuro, desconhecido, confuso. Mas, procuro liberá-los; para que se expressem.. e eu saiba o que fazer ou como agir com eles ou… eles comigo.

    Bjs

  23. adi said

    Fy,

    Eu entendo o seu ponto, sim, eh tudo isso que voce estah falando, e concordo, porem, ha um porem (rsrsrs)…

    Em nenhum momento eu falei em repressão. E segundo pelo que te entendi o seu modo de “integracao” eh viver ou dar vazao aos eus, ou deixa-los se expressar, viver todos os outros.

    Sim, somos multiplos, claro, e aqui estah o x da questão; nao se trata de “reprimir” essas forcas, e nao se trata de solta-las como um cavalo desgovernado, sem direcao, puxando o individuo de um lado a outro, e onde nao vai a lugar algum.

    Primeiro porque “reprimidas” jah estao, por isso o complexo se torna autônomo, e isso faz parte sim do amadurecimento da personalidade pra poder lidar melhor com essas energias. São complexos que constituem a “sombra” e o “animus/anima”. Esses complexos sao poderosos, tanto que se tornaram outros dentro da própria pessoa. Acontece que esses complexos precisam se “integrados” a consciência, ou melhor, sua energia precisa ser devolvida ao lugar de origem.
    Nao se trata de “matar” a criança, mas aceitar sua parte negada, traze-la de volta para si.
    Somente reconhecer que essas partes existem dentro de si, e deixa-las se expressar livremente, eh como o estouro da boiada… como ser possuído pelos complexos, e ai eh que mora o perigo. Igual a ter personalidade múltiplas e tornar real as fantasias; as prisões estao cheias de assassinos que dizem que “foi o demônio” quem fez, ou deram vazão para uma certa voz na cabeça… fora os montes de pessoas nos hospícios porque perderam a identidade.

    >>Como convivo comigo mesmo??<<

    O ponto que defendo eh a “integração” dessas forcas na consciência; ou seja, nao basta saber que esses outros existem dentro de mim, mas a consciencia tem que ir “lah no fundo da alma escura” vasculhar os “motivos” que deram origem ao outro, entender porque o ego “reprimiu” o complexo, reviver aquele momento passado, aquela dor, aceita-la, ama-la, e pegar de volta pra si… ou seja, tirar aquela parte de si-mesma da escuridão da sombra e traze-la para a luz e calor da consciência, isso pra mim eh “reintegração” ou liberação da energia psíquica autônoma para a consciência, e sim, eh um esvaziamento do complexo, onde ele jah nao atua mais “inconscientemente” dentro do ser, mas agora eh forca “criativa” que pode ser direcionada pras artes, poesia, etc…

    Ou seja, agora as fantasias do inconsciente podem ser escritas, desenhadas, pintadas, esculpidas, idealizadas…

    Sei lah, acho que esse eh o propósito da unidade, isto eh, uma unidade com consciência.

    Esta eh a grande diferença, que pra muitos eh difícil de entender. A energia “primordial” basica da criacao, aquela da primeira separacao como voce citou, ou instinto, ou Mae ctonica, eh forca bruta “inconsciente”, sem domínio, pedra bruta sem lapidação, desgovernada dentro de nohs nos torna como animais ou piores. Todo o processo do auto-conhecimento eh justamente levar “consciencia”, luz, ou seja, ser consciente e integrar essas forcas, sendo assim ela deixa de ser bruta pra se tornar em diamante…

    esse assunto eh muiiittto complexo, assunto pra um post, pois tem haver com a dualidade em nohs, a Alma, enfim o processo de individuacao… e nao eh nada simples dizer tudo isso em poucas linhas…

    bjs
    adi

  24. Sem said

    Bom, Fy, minha querida, não adianta me perguntar nada, eu não tenho respostas, tenho dúvidas – ou melhor, abismos, falando mais francamente. Posso dividir meus abismo e assombros e se este for o caso, sei que bons e maus são conceitos subjetivos, mudam conforme o olhar que temos da realidade. No final tudo é só uma amálgama-deus que comporta uma única grande unidade e é por ela que vivemos e morremos, e só ela é que poderia nos dizer um dia para quê ou qual o sentido disso tudo. Mas ela não pode, está muito além de nossa natureza.
    Bons e maus, justos e injustos, belos e feios, pobres e ricos, alegres e tristes, são apenas perspectivas de um breve momento de tempo e lugar; todos afinal estamos enredados no mesmo destino que no final deve ser abdicar de nossa identidade em prol desse amálgama-deus. Um Rei que se faz no fogo? Talvez. Mas é que é vida é tão dolorosa, como já disse a Cecília, e quando temos “consciência” disso, talvez perder seja o grande júbilo de tudo. Quem sabe por isso seja a morte tão atraente para a alma, e não estou falando só das pequenas mortes prazenteiras ou exasperantes, mas da grande definitiva. O desespero pode ser o prenúncio do prazer, e quanto maior o desespero, maior o prazer, ou pelo menos parece que esse dois estão para sempre vinculados.

    Não há como evitar os perigos do caminho. De olhos fechados ou abertos estamos todos nos encaminhando para o mesmo destino, nos perder por e para Deus. Estar de olhos fechados ou abertos para os perigos é só uma questão de contingência do caminho; cada um vai como pode e, em sã consciência, não dá pra acusar quem vai de olhos fechados, ou dar conselhos para que ele abra seus olhos, porque a gente nunca sabe o horror que aqueles olhos espreitam e as coisas que viram de onde vieram… (lembra do poema do Gibran a respeito do bem e do mal? “Vós sois bons quando sois unos dentro de vós. No entanto, quando não sois unos dentro de vós, não sois maus. Pois uma casa dividida não é um tugúrio de ladrões, é só uma casa dividida. E um navio sem leme pode vaguear sem destino por entre ilhas perigosas, e no entanto não se afundar.” Mesmo que afunde, ainda assim é barco cumprindo com um dos destinos possíveis a uma embarcação.)

    A essência do ser é uma só – de todos nós; a existência é que varia, porque a existência é constituída de tempo, de momentos, de perspectivas, de subjetividades… Existem momentos que é muito difícil falar de subjetividades, outros que estamos mergulhados nela e qualquer fuga do particular é encarado como uma violência ao ser. Mas acho que assim como devemos nos respeitar, o momento que estamos vivendo, devemos também respeitar o outro, seja ele quem for, porque ele também tem os seus momentos.

    Hoje eu não sei se posso dizer quem sou, o que eu sei é que nesses momentos o outro sempre me salva, simplesmente por não ser eu. Por isso eu não consigo ver o inferno no outro, mas só o bem que ele me traz por me libertar de um egocentrismo. (?) Se eu tenho um desejo é só um: poder unir ser e existência. Mas não os conceitos, na vida. Isso pra mim é que é ser grande, como eu não consigo, realmente não, eu sei que não sou.

  25. adi said

    Fy: “Talvez desta forma possamos perceber que nem sempre eles estão contra nós, ao contrário; eles podem ser ricos, curiosos, criativos, fortes, heróicos, e uma série de outros potenciais, que nos surpreendem e nos auxiliam… de repente…. sem q tivéssemos noção de sermos capazes disto daquilo ou de determinadas atitudes.”

    Exato Fy, os personagens que compõe a sombra, esses outros dentro nos, nao necessariamente sao nocivos, estar na sombra significa ser “inconscientes”, nao fazer parte da personalidade consciente.

    Quando crianças, e quando da formação da personalidade, essa vai filtrando aspectos de si mesma, que por algum motivo lhe trouxe algum desconforto, ou que lhe chamaram atencao em alguma atitude, etc… isso ficou registrado, cada vez que a pessoa sente aquele sentimento que por algum motivo estah reprimido no inconsciente pessoal, ela torna a reprimi-lo, reprimindo mais energia psiquica naquele complexo, i.e. doando mais forca pra que aquele complexo se torne vivo, autonomo, uma outra pessoa dentro do ser…

    Esses complexos alem de psíquicos, tende a tencionarem o corpo, tendem a se cristalizar no corpo físico, dai a origem das doenças psicossomáticas . A sombra também eh conhecida com “sistase”. A sombra se cria pelo reprimido moldado pelos comportamentos que se eh exigido pela familia e pela sociedade, ou seja, pelo sistema de controle que estah em todo lugar, e em nohs, que tambem podemos chamar de ego.

    Se libertar de tudo isso nao significa reprimir mais, ou matar suas partes, ou deixa-las viver em voce, muito pelo contrario, eh traze-las de volta para a unidade do ser inicial ainda que na epoca bebe/criança inconsciente, soh que agora eh a consciência quem “resgata” suas próprias partes do “umbral” ou inferno interior, e isso significa despersonificar, ou esvaziar esses “eus” que soh existem porque estao separados da consciência. Na medida que se libera energia da sombra recompondo a consciência, se esvazia o “ego”, eh um processo muito interessante, porque vai surgindo um novo SER, esse ser eh o Self, ou simbolo de uma outra totalidade que nao a personalidade, um algo alem, mais forte e poderoso, pode ser chamado o Arquetipo da totalidade do Ser, ou Individuacao, ou o Retorno do Rei (no meu caso eh Rainha) 😀 😀

    Se libertar dessas angustias atraves do auto-conhecimento, eh saber depois de algum tempo caminhando, que essas prisoes estao na nossa mente, que sao camadas e camadas de ilusoes que como um veu distorcem a realidade. Desfazer esse massaroca toda significa esvaziar as projecoes, esvaziar as personificacoes, esvaziar as ilusões, e ir transferindo a consciência pra uma outra realidade alem de nossa compreensão de terceira dimensão… isso eh desfazer o “mundo”, eh o apocalipse bíblico, eh o kali yuga…

    Nohs vivemos mitos, nohs vemos por símbolos… mas ateh eles sao ilusoes…

    bjs
    adi

  26. Fy said

    Sem,
    Pois é:
    Veja como estamos, talvez, falando de uma mesma coisa, eu vc e a Adi, e apenas a interpretando de uma forma diferente.
    Qdo vc diz: Não sei quem sou,
    Eu entendo como premissa ou quesito básico, ou condição essencial enquanto nos dispusermos a construir alma.
    Eu tb não sei quem sou; – o máximo que posso dizer é que ainda estou construindo quem sou. E quero estar construindo sempre. Acho que eu não quero nunca ficar pronta. – até pq, particularmente não creio nisto.
    Vou usar este parágrafo do Kaslu: [ fantástico na minha opinião]
    Fernando Pessoa, que não acreditava na necessidade de ser idêntico a si mesmo, e constante e coerente, e unitário, fez da escrita a mais estonteante experiência de tornar-se outro do que ele mesmo.
    Conseguiu, com isso, visitar universos muito diferentes, sensações muito díspares, vivências contrastantes, pensamentos muito estranhos uns dos outros.
    E até inventou uma palavra para essa experiência de virar outro: outrar.
    Não é preciso ser louco, nem poeta para fazer isso, pois fazemos esse exercício cotidianamente, diante de um raio de sol, uma brisa, um cão, um desconhecido, um conto, uma imagem, uma dança, uma paixão.
    Cada encontro que me afeta pode ser uma ocasião para outrar, cada força que eu cruzo pode disparar em mim um outramento. Será que eu sou outro do que eu mesmo? Ou será que eu sou a reunião de todos esses outros? Será que não sou justamente a coexistência dessas múltiplas forças, direções, outramentos? Gilles Deleuze, juntamente com Felix Guattari, batizou esse tornar-se outro de devir .

    Pois é:
    Eu entendo isto perfeitamente.
    Qdo F Pessoa escreveu seus poemas, assim como Chico Buarque; – tai um outro ex- ele não usou de codinomes para determinar momentos, corrija-me se interpreto errado; ele liberou as varias facetas de seu eu, que sim, vivenciaram e interpretaram situações de uma mesma vida, de formas diferentes. E que só não se tornaram antagônicas pq todas tiveram expressão. Foi esta a experiência que ele se permitiu.
    Vc leu ou assistiu “6 personagens à procura de um autor” – ? do Pirandello?
    É uma das melhores demonstrações de que somos uma miríade de eus. Não de momentos. Uma miríade de eus interpretando fatos e momentos. A capacidade de reunir estes eus, e seus possíveis paradoxos é que determina se vamos pro hospício ou não.
    Vou citar um ex de conflito e de tentativas de se abafar um dos eus: S João da Cruz: – um João, talvez lógico, com suas dúvidas e um João com a fé que “precisava”ter > um em contraponto ao outro: o que gerou uma depressão terrível, que hoje nós lemos com – credo – prazer, pela qualidade poética…: a do João escritor e poeta – mas deve ter sido mto sofrido – . > o João Poeta com certeza foi um João-recurso pra que ele não sucumbisse. Hoje em dia, Prozac seria pouco, caso a presença de um eu, lógico, não admitisse ou quisesse matar um eu crente ou vice versa. Pq não foi possível a coexistência dois, pra João da Cruz. Ou um ou outro.

    Qto ao rei, no caso do post, pra mim é a morte. É definitiva. O que existe atrás da porta que ela nos abre? se é que nos abre? – eu creio q sim, mas e quem não crê? – só saberei qdo acontecer: pois quando mortos, viramos hipótese, como diz Lobato, através de Emília. Mas tb considero a vida definitiva. – ninguém morre qdo precisa ou qdo quer – . Acho viver tão definitivo qto morrer. Por isto buscamos.

    Enfim, :

    Da semente germina uma raiz, depois um broto, as folhas embrionadas; das folhas folhas o caule, os ramos, no topo a flor…

    Não podemos dizer que a semente ou o solo causam o crescimento.

    Podemos dizer que as potencialidades para o crescimento encontram-se no interior da semente, no misterioso principio vital que, quando convenientemente alimentado –[só qdo convenientemente alimentado] – , assume determinadas formas.

    Centering in Pottery, Poetry and the Person
    M.C. Richards

    Seria impossível atribuir ao caule as qualidades da flor, ou da semente ou dos ramos, etc…. mas o caule não rejeita as diferentes flores; as mais fracas, as mais fortes, as mais coloridas, etc…. Mas, juntos: são a árvore.

    Bjs

  27. Fy said

    Adi,

    – Exato Fy, os personagens que compõe a sombra, esses outros dentro nos, nao necessariamente sao nocivos, estar na sombra significa ser “inconscientes”, nao fazer parte da personalidade consciente.

    Acho que peguei… Adi, acho que entendi o que esta diferenciando nossas opiniões:

    A proposta de Deleuze, penso eu, muito bem traduzida pelo Kaslu, – veja bem, assim é como “eu” entendo, tanto o Deleuze como o Kaslu; – é justamente “tirar” estas personagens da sombra. Permiti-las, defini-las como devires, não territorizá-las.

    E, mesmo que desconstruindo algum conceito junguiano, q: tb talvez não esteja totalmente compreendido por nós, não considerá-los tão inconscientes ou populando o inconsciente, assim.

    – Quando crianças, e quando da formação da personalidade, essa vai filtrando aspectos de si mesma, que por algum motivo lhe trouxe algum desconforto, ou que lhe chamaram atencao em alguma atitude, etc… isso ficou registrado, cada vez que a pessoa sente aquele sentimento que por algum motivo estah reprimido no inconsciente pessoal, ela torna a reprimi-lo, reprimindo mais energia psiquica naquele complexo, i.e. doando mais forca pra que aquele complexo se torne vivo, autonomo, uma outra pessoa dentro do ser…-

    Sim: isto mesmo: até aí estamos falando a mesma coisa.

    – Esses complexos alem de psíquicos, tende a tencionarem o corpo, tendem a se cristalizar no corpo físico, dai a origem das doenças psicossomáticas . A sombra também eh conhecida com “sistase”. A sombra se cria pelo reprimido moldado pelos comportamentos que se eh exigido pela familia e pela sociedade, ou seja, pelo sistema de controle que estah em todo lugar, e em nohs, que tambem podemos chamar de ego.

    idem.

    – Se libertar de tudo isso nao significa reprimir mais, ou matar suas partes, ou deixa-las viver em voce, muito pelo contrario, eh traze-las de volta para a unidade do ser inicial ainda que na epoca bebe/criança inconsciente, soh que agora eh a consciência quem “resgata” suas próprias partes do “umbral” ou inferno interior, e isso significa despersonificar, ou esvaziar esses “eus” que soh existem porque estao separados da consciência.

    aí é que há uma forma diferente de compreensão, Adi.
    Eu por exemplo nunca saberia, em mim, identificar o ser-principal: ou como vc entendeu: o rei com exatidão. Qto aos vários eus, todos eles vem a tona, cedo ou tarde, e, a seu tempo; –quando se encara isto, como um processo natural, de auto-conhecimento: tranqüilo, e, como vc disse: produtos de boas ou más experiências, ou mesmo os que são naturalmente inerentes ao que somos: fazendo parte: constituindo a própria personalidade. Qdo abafados, ignorados ou despersonificados é que se tornam os tais complexos.

    – Na medida que se libera energia da sombra recompondo a consciência, se esvazia o “ego”, eh um processo muito interessante, porque vai surgindo um novo SER, esse ser eh o Self, ou simbolo de uma outra totalidade que nao a personalidade, um algo alem, mais forte e poderoso, pode ser chamado o Arquetipo da totalidade do Ser, ou Individuacao, ou o Retorno do Rei (no meu caso eh Rainha)

    Sim tudo certo, – mas, continuando a nossa diferente interpretação: não acho que neste novo Ser, as coisas sejam diferentes. Acho sim que ele é a reunião de vários eus, e das lembranças dos eus que se diluíram em outros, modificando-os.

    Eu tb não acredito que o novo Ser represente algum tipo de perfeição, de pureza ascéptica. Acredito q ele vá adquirindo poder, firmeza, sim, ou não, mas perfeição: jamais. E talvez esta Totalidade, assim descrita, me pareça muito arquétipica demais, e não acredito que ela seja possível..

    – Se libertar dessas angustias atraves do auto-conhecimento, eh saber depois de algum tempo caminhando, que essas prisoes estao na nossa mente, que sao camadas e camadas de ilusoes que como um veu distorcem a realidade.

    Claro: outra conclusão comum a nós duas.

    – Desfazer esse massaroca toda significa esvaziar as projecoes, esvaziar as personificacoes, esvaziar as ilusões, e ir transferindo a consciência pra uma outra realidade alem de nossa compreensão de terceira dimensão… isso eh desfazer o “mundo”, eh o apocalipse bíblico, eh o kali yuga…
    Nohs vivemos mitos, nohs vemos por símbolos… mas ateh eles sao ilusoes…

    Aí é que entendemos diferente novamente:

    Eu não diria que vivemos mitos. Eu diria que nos identificamos ou identificamos nossos comportamentos com mitos. E vice-versa. Como nasceram os mitos? Através das diferentes vivências dos homens.

    Em relação aos mitos: esta diferença entre vivê-los e identificar-se com eles, é muito grande. E, na minha opinião:vivê-los é restritivo. É preciso que haja uma escolha: vc não pode pensar que está vivendo o mito do Cristo e o mito do Diabo ao mesmo tempo sem entrar em parafuso.

    Isto se chama percepção enfocada. É como uma luz nitidamente focalizada, intencionalmente dirigida, um intenso raio de luz que ilumina apenas o que é focalizado, deixando tudo o que está fora de seu raio no escuro ou nas sombras.

    E, numa forma mais concentrada, a percepção enfocada pode se tornar tão efetiva quanto um raio laser, tão penetrante ou cortante em sua habilidade de analisar que pode ser tão precisa quanto destrutiva, dependendo da intensidade e no que ela é focalizada.

    A minha visão de desfazer o mundo, tb não está focalizada neste ou naquele mito. Eu creio em metamorfoses: meio-mito e meio-realidade.

    bjs

  28. Fy said

    Adi,

    Sorry: lá em cima: territorializá-las. [!!!]

    Bjs

  29. adriret said

    Ah Fy,

    Vivemos o mito sim. Quando somos mae, quando nos casamos, quando fazemos sexo, quando somos filhos rebeldes, quando envelhecemos e nos tornamos mais brandos e sabios, mas principalmente quando seguimos o caminho rumo ao desconhecido de nohs mesmos, esse eh o mito do heroi, ou do filho prodigo, ou de Hercules,…

    Pra mim o completamente outro eh o “SELF”, e de forma alguma isso representa perfeicão, simplesmente representa TOTAL, ou Unidade no Ser, onde nao se estah mais dividido em miríades de quereres, em diversidade de poderes, onde nao ha dualidade, onde consciente e inconsciente sao um soh, materia e espírito idem, corpo alma….

    E o símbolo dessa união estah estampado em muitas coisas que se ve, o mito também. O casamento, matrimônio, o sexo, sao símbolos e mitos dessa união. E nao vivemos isso em nossas vidas??

    Eu parto de um pre-suposto de que nao copiamos a natureza, nohs somos a natureza em expressão, …

    Voce diz : E, na minha opinião:vivê-los é restritivo. É preciso que haja uma escolha: vc não pode pensar que está vivendo o mito do Cristo e o mito do Diabo ao mesmo tempo sem entrar em parafuso.

    Fy, e essa luta constante dentro de nos, essa dualidade e guerras de quereres e poderes?? o que acha que eh??
    Cristo e o Diabo sao o símbolo dessa luta.

    Vc diz: “não acho que neste novo Ser, as coisas sejam diferentes. Acho sim que ele é a reunião de vários eus, e das lembranças dos eus que se diluíram em outros, modificando-os.

    Eu tb não acredito que o novo Ser represente algum tipo de perfeição, de pureza ascéptica. Acredito q ele vá adquirindo poder, firmeza, sim, ou não, mas perfeição: jamais. E talvez esta Totalidade, assim descrita, me pareça muito arquétipica demais, e não acredito que ela seja possível..”

    Fy, a consciencia do Self nao eh pessoal, nem personificada, nao existe um eu, ou eus. Ha uma “forca” impessoal, ao mesmo tempo Eh todas as coisas, nao ha divisao, por isso nao ha dualidades de natureza alguma, por isso ela nao eh perfeita nem imperfeita, a “forca” ou vida, ou arquetipo, ou Deus, ou totalidade, infinito, ou Tao, simplesmente EH.
    Eh dificil imaginar, quanto mais descrever. Por isso falam do incognoscivel, onipresente, oniabarcante, sem nome… etc, etc. Porque simplesmente palavras sao insuficientes pra descrever esse tipo de Consciência. Possível eh, ha muitos relatos sobre isso. Mas tem seus perigos sim.

    ===============
    Agora tenho que sair, mas depois continuo nosso papo.

    bjs
    adi

  30. Fy said

    Adi,

    Analisar Deleuze, é muito desconstrutor.

    Tanto a Filosofia como a Psicologia e a Religião, são fatores que tem muito a ver com a essência de cada um. – até por isto eu considero as essências mto diferentes -.

    Eu não sou budista e nem católica. Qdo medito, não parto em busca do incognoscível ou do onipresente ou do impronunciável e nem do benéfico nada. Talvez eu pense que tenha a eternidade inteira pra me distrair com tudo isto, que não sabemos o que é. Ou, quem sabe, eu até, de repente tenha uma experiência tão indescritível assim, e caso consiga retornar, a associe a estas palavras. Pode ser até que eu considere isto desumano demais, o que me remete a algo divino e pra variar inatingível; ou a um estado vegetativo do qual, ao contrário, talvez eu seja produto de alguma metamorfótica evolução.

    E, não, não tenho esta atração pelo Incognoscível e nem a meu ver poderia: porque ele jamais poderá ser Cognoscível. Estará além de qualquer coisa que eu possa atingir, tanto que está além do nosso possível raciocínio colocá-lo em alguma idéia ou lugar, mesmo que seja não-lugar; talvez ela me soe como uma subversão ou algum inconformismo em relação à minha natureza ou à Natureza e seu potencial ainda imensurável.. Não em relação à minha capacidade; mas, em relação mesmo à minha natureza. Talvez isto soe catastroficamente humano; mas é o que eu sou. É o que tenho que viver e aprimorar… e conhecer. É a Natureza, ao meu ver. E a Natureza é minha jornada.

    Eu não acredito neste nada do não-ser; acredito na conectividade do ser, que é a Natureza. Não se conecta a algo que não-é. Tudo em mim, que reconheço como sendo, tem q estar conectado; não abolido. Trabalhar em busca de uma conexão, universal, não é dissolver-se; deixar-de-existir; é, ao contrário: estar conectado: fazendo parte de.

    Concretizando: meu coração é capaz de bater em outro corpo, e estamos caminhando para transferir memórias de cérebro para cérebro.

    Campbell disse algo assim:

    Não somos nós que vivemos os mitos, são eles que vivem em nós.

    De acordo com o que, de dentro de nós, a experiência do viver, solicita.

    Eu seria incapaz de me submeter a um mito e segui-lo à risca. Nem os mitos mãe, ou esposa, ou avó, como vc falou. Em qual deles, em qual mito-mãe vc se enquadraria? Mesmo na Natureza eles são inúmeros. A própria Natureza como mãe, não segue nenhum script: ela nos surpreende.

    O pensamento deleuzo-guattariano trata o pensamento como experimentação, criação, viagem. Filosofar é criar .

    Tratar o pensamento como criação é uma forma de conceber a vida como processo de criação constante, uma “obra de arte” constantemente vinculada à produção de singularidades e diferenças. – eu chamo isto de realidade.-

    “Explodir” a estratificação do conhecimento, bem como liberar intensidades criativas é uma maneira de dissolver o pensamento reduzido às convenções autoritárias, para a busca do conhecimento.

    O projeto filosófico de Deleuze e Guattari é o de uma filosofia da diferença, do nomadismo, das multiplicidades. Talvez até de invocar Arquétipos, criá-los ou ser invocada por eles; muitos…

    O plano de imanência-imagem do pensamento- é, no dito de Pelbart, o “pensamento sem imagem”, “sem modelo” e “sem forma”; ou seja, para usar o estranho conceito de Deleuze e Guattari, o “espaço liso- vetorial”, “cortado” por intensidades, por forças criativas de atualização da “diferença múltipla” que passam pelo virtual: com um corte que retira dele: consistência.

    O plano é a possibilidade de orientação do pensamento, o terreno “pré”-filosófico que vai traçar coordenadas para a construção conceitual. Ou seja: não há nenhuma edificação filosófica pré-construída:cuja planta tenhamos que seguir. O conhecimento de todas, sim; mas não podemos considerá-lo como um mapa ou um programa.

    E isto talvez pareça um tanto quanto ameaçador. Porque me parece o livramento total de uma característica extremamente humana, contra qual o homem há séculos luta por refrear, abafar, porque a teme; pq talvez ela o levasse de encontro a novos arquétipos, a novos paradigmas… [ não-orientar: não poderia: mal a conhece: não a liberta ] que é a tal da Criatividade.

    Santa quando nos socorre, na ausência de recursos contidos no Arquétipo tal ou tal, mas temida qdo nos retira de alguma zona de conforto.

    Eu não acredito que haja erro na forma como vc procura esta unificação; ou como a Sem a procura ou cada um de nós. Mas, continuo achando que não haja uma fórmula única. O que evidencia as várias diferenças entre os eus ou outros, muito embora estejamos conectados, enriquecendo-nos sem nos abolir.

    Bjs

  31. adriret said

    Fy,

    Dah uma lida aqui no que o Lamed escreveu, achei bem interessante, e claro explica como ninguem o “mito” em nossas vidas.

    https://anoitan.wordpress.com/2008/11/19/tudo-e-mito/

    bjs
    adi

  32. Fy said

    Adi,

    Este post é um dos momentos mais alucinantes do Anoitan.

    Os coments, tudo.

    Vou colocar aqui, um devir: – aliás, o Lucio é um devir:

    Btw, por que Peter Pan deveria se transformar em Ulisses? Peter Pan é Dionísio menino, Ulisses é o bisneto de Hermes, precisamos de ambos e de muitos mais, quanto mais deuses, melhor.

    Mais um devir:

    Não é bem isso. As estruturas arquetípicas precedem a experiência (qualquer experiência), elas são a “precondição”, “e não o resultado”, tanto da experiência quanto da percepção da realidade.
    (De qualquer forma, a nossa percepção da realidade só é “a mesma” em linhas gerais. No detalhe, os túneis de realidade variam loucamente de pessoa para pessoa.)

    “túneis de realidade variam loucamente de pessoa para pessoa”.

    Como eu explicaria o que escrevi:

    O Arquétipo seria o rizoma:

    Um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-se, intermezzo. A árvore é filiação, mas o rizoma é aliança (…) Entre as coisas que “não designa uma correlação localizável que vai de uma para outra e reciprocamente, mas uma direção perpendicular, um movimento transversal que as carrega uma e outra, riacho sem inicio nem fim, que “rói suas duas margens e adquire velocidade no meio”.

    Qdo ele diz:

    precisamos de ambos e de muitos mais, quanto mais deuses, melhor.

    Ele vai de encontro à nossa natureza; sem tropeçar na mesmice, ele expande, ele vai além, é como aquela gota d’água; que não respeita uma programação: ela explode na água sem se preocupar ou respeitar uma direção pré-definida. Nossa alma é assim; por isto precisamos de mts deuses.

    Sim, Cada um deles é um arquétipo;

    precisamos de ambos e de muitos mais, quanto mais deuses, melhor:

    “Meu devir- mulher, meu devir- criança, o devir- girassol de Van Gogh, o devir-barata de Kafka, o devir- índio de Artaud, nosso devir-negro, o devir- esplendor de Arthur Bispo do Rosário, o devir- molécula de Juan Castaneda….”

    – Não há um modelo estático ou pré-estabelecido que satisfaça nossa natureza: – qdo forçamos esta satisfação, estamos cortando os excessos de massa pra que caiba no formato da forma: nos mutilando.

    De quantos devires sou capaz?

    Talvez de tantos quantas forem as forças que me rodeiam, me atravessam e me habitam.

    [ – muitos deuses, mts arquétipos… porque, na realidade:

    Somos vários – “Somos os vários que nossa multiplicidade nos permite ser, somos vários diante de nossas constantes metamorfoses, somos vários de acordo com nossos processos de significação, mas também somos vários de acordo com os papéis que escolhemos exercer na vida.”

    Sou o campo de batalha para essa miríade de forças, muito intensas, poderosas, minúsculas ou maiúsculas, e todas elas de algum modo refazem meu contorno, desfazem a minha forma de vida em proveito de outras tantas formas de vida.

    A potência criadora busca experimentar o que essas vidas inauguram de novo, e vai buscar nesse caos de forças o material para os múltiplos devires e as múltiplas vidas que ele for capaz de inventar.

    Veja este pedacinho entre o Lucio e a Lu:

    1. e porque todos temos comportamentos correspondentes aos arquetipos?

    2 Porque os arquétipos são os alicerces sobre os quais a nossa psique é construída. No entanto, os mesmos arquétipos podem ser atualizados de maneira totalmente diferente em contextos culturais, sociais, históricos e pessoais diversos.

    1 todas as pessoas tem as mesmas experiencias e portanto percebem a realidade do mesmo jeito?

    2 Não é bem isso. As estruturas arquetípicas precedem a experiência (qualquer experiência), elas são a precondição, e não o resultado, tanto da experiência quanto da percepção da realidade.

    ————–

    Os resultados são imprevisíveis: são devires.

    Neste post, o Kaslu vai além, embora pudéssemos dizer que o ensaio do Lúcio fosse o “rizoma” que o inspirou: rsrsrsrs – pq ele sugere que, mesmo dentro de nós, as estruturas arquetípicas são percebidas de várias maneiras, em inúmeros contextos, em “inúmeros …- pessoais – diversos”. Pq é “natural” em nós esta multiplicidade.

    Pra que não haja confusão entre “momentos da vida” e os mts eus [ que tb são originados por eles; mas que não necessariamente se mantém estáticos, ou seja, tb participam do nosso processo evolutivo, podendo até mesmo ser assimilados por outros] vou novamente usar um parágrafo de Hillman, que vai de encontro a um parágrafo seu em relação à criança – interior.

    Eu compreendi isto, como a desnecessidade de um resgate: – como a “integração deste “outro” eu, respeitando sua originalidade e seus devires naturais, espontâneos inside us:

    Crescer não é apenas ir para cima ou mesmo para os lados, segundo a piada dos adultos. Ao matar a criança e comê-la, o adulto, esse que não cresce mais, engorda.

    Hillman propõe que nos atenhamos não apenas ao crescimento da criança, mas à sua forma arquetípica, porque o arquétipo da criança “não morre”; – há sempre uma criança dentro de nós – que demanda atenção, cuidado, com constante abandono e necessidade de resgate, características “que não evoluem mesmo de maneira alguma, mas que integram, como contingências, a personalidade amadurecida e plena” . Hillman,James. Estudos de Psicologia Arquetípica.

    Qdo ele diz: integram como “contigências”: nós poderíamos chamar de :outro.

    -Qdo ele diz que devemos considerá-la como um arquétipo é pq não há como despersonalizá-la –

    – Qdo ele diz que: não evoluem de maneira alguma, é pq não podemos modificá-la: não podemos desintegrá-la em nosso eu – qdo ressalta que ela demanda atenção – cuidado constante abandono e necessidade de resgate: é pq “não há” como resgatá-la – esta necessidade é constante.Ela é um outro que habita em nós.

    Qdo vc “convive” com ela, a acalenta a protege e a abraça : vc está exercitando sua Imaginação Ativa – vc está “outrando” – e qq diálogo, será um devir impossível de se programar ou, digamos, pré-adjetivar: se bom ou ruim. Como descreve com muito humor a jornalista Lara, lá em cima. – [super jornalista].

    Sem, me acuda se eu entendi o Hillmam errado. Estou engatinhando neste território.

    Bjs

  33. Fy said

    Sem,

    …eu não tenho respostas, tenho dúvidas – ou melhor, abismos, falando mais francamente. Posso dividir meus abismo e assombros e se este for o caso…

    …pode me empurrar pro precipício
    não me importo com isso
    eu adoro voar.
    B Lombardi

    Bjs

  34. Fy said

    Um outramento também da Bruna:

    Dentro de mim existe
    um deus e um demônio
    que são tão amigos
    mas tão terrivelmente amigos
    que ficam juntos
    tomando porre
    e dizendo besteira

    Bjs

  35. Sem said

    Fy,

    >>>Veja como estamos, talvez, falando de uma mesma coisa, eu vc e a Adi, e apenas a interpretando de uma forma diferente.

    Eu acho. Tudo do mesmo, apenas variando as perspectivas. Não sei nem porque discutimos, se é pelo prazer da companhia ou para informar a outra de nossa posição ou para descobrir a nossa mais exata.

    >>>Sem, me acuda se eu entendi o Hillmam errado. Estou engatinhando neste território.

    Eu tb estou engatinhando em Hillman, então, vamos combinar assim, vamos juntar nossos tropeços, nossos engatinhamentos, e quem sabe desta maneira nos apoiamos para seguir em frente mais firmes em direção ao próximo devir, que pode ser um pra vc, outro pra mim, e ainda outro pra Adi, mas enquanto estamos aqui caminhando, faz de nós companheiras.

    >>>Hillman propõe que nos atenhamos não apenas ao crescimento da criança, mas à sua forma arquetípica, porque o arquétipo da criança “não morre”; – há sempre uma criança dentro de nós – que demanda atenção, cuidado, com constante abandono e necessidade de resgate, características “que não evoluem mesmo de maneira alguma, mas que integram, como contingências, a personalidade amadurecida e plena” .

    O que vc cita do Hillman eu não li, mas esse trecho é como uma marca registrada dele e o que o distingue dos junguianos clássicos, porque enquanto estes pretendem “solucionar” o problema do encontro arquetípico – composto sempre no mínimo de uma dualidade tensionante – rumo a uma integração no Self, Hillman vem nos dizer quase o oposto, que esses conflitos são insolúveis, que nós somos precisamente a não-solução.

    Outra maneira de analisar o problema seria recorrendo a sabedoria popular “o que não tem remédio, remediado está”, ou a poesia “nada mais a fazer senão dançar um tango argentino”, ou a música “tragar a dor, engolir labuta”… ou ao teatro – não assisti Seis Personagens do Pirandello, infelizmente.

    Voltando ao Hillman, é neste ponto que a psicologia imaginal se distingue da junguiana clássica (não confundir com o pensamento de Jung, que é a matriz comum a ambas), já que ela não é mais uma psicologia direciona ao Self, mas para o fazer alma, cujo espaço não se encontra no além ou na cabeça, mas no coração do homem.
    Na alquimia (estou me arriscando em um campo que conheço muito pouco), aparentemente, os que pretendem o Self como objetivo último da individuação, consideram a Albedo a fase mais bonita do processo – o alfa e ômega a ser conquistado, mas, talvez, fazendo-lhes maior justiça, considerem todas as fases do processo importantes sem se fixar em nenhuma. Para a psicologia imaginal o objetivo é declaradamente alcançar a Rubedo, onde há sangue, paixão rubra, vida anima-da.

    >>>…pode me empurrar pro precipício
    não me importo com isso
    eu adoro voar.
    B Lombardi

    🙂

  36. adi said

    Fy ,

    vc diz: “Neste post, o Kaslu vai além, embora pudéssemos dizer que o ensaio do Lúcio fosse o “rizoma” que o inspirou: rsrsrsrs – pq ele sugere que, mesmo dentro de nós, as estruturas arquetípicas são percebidas de várias maneiras, em inúmeros contextos, em “inúmeros …- pessoais – diversos”. Pq é “natural” em nós esta multiplicidade.”

    Exato Fy, eu acho que depende do ponto de vista. O Lamed, na minha opiniao, foi a fundo nessa questao, na raiz arquetipica, ou seja na estrutura base que precede a propria experiencia, enquanto o seu enfoque talvez seja no resultado, ou melhor de como os “arquetipos” se tornam reais ou se personificam na psique.

    O meu ponto, e nao quer dizer que vc esteja errada, eh alem, ou no sentido de retorno, de desconstrucao de todas as formas, mas principalmente “formas pensamentos”.

    O meu ponto, e eh onde vc nao estah entendendo, eh que:
    – 1o.) Eu em nenhum momento discordei de que somos “muitos” em nossa psique.
    -2o.) Quando eu me referi a viver o mito em nossas vidas, eu quis dizer exatamente como Campbell colocou, isso jah deixei claro em outros coments, inclusive isso vem de encontro em como defino “destino” também.
    3o.) Assim como vc citou Hillman, acho que foi também como coloquei lah em cima sobre o resgate de nossas partes inconscientes pela consciência.

    Agora o meu ponto fundamental, talvez de nossa discordância ;D ;D (que nem eh tanta assim – rsrsrs), porque claro, depende de pontos de vista, e um nao exclui o outro – pronto. – eh que:

    Como compreendo isso hoje: Tomemos como exemplo a Arvore da Vida da Cabala, e tambem os chacras da Yoga, na descida da energia da propria vida de Kether ateh Malkuth atraves das Sephirot, verificamos que em cada sephira essa energia se manifesta em um aspecto seu, eh como se a energia/forca a cada ponto de descida se revestisse mais de materia, ateh chegar em Malkuth ou reino, notemos que a energia eh a mesma de Kether, mas totalmente revestida e assim nao podemos percebe-la tal qual Ela eh, mas podemos perceber os seus involucros.
    Podemos trocar as sephirot por chacras, desde a coroa/Kether ateh o basico/raiz/Malkuth – cada chacra tem uma percepcao e interpretacao do “mundo”, mas de novo notamos que a “energia/forca” eh a mesma. Essa descida eh o simbolo da construcao de um mundo, da forma.
    Falo por mim, que busco realizar a essencia, ou melhor retirar os involucros, descontruir as formas que distorcem a percepcao do real da energia ou forca.
    E novamente falor por mim, que no comeco do caminho de retorno, antes de comecar a descontruir “o mundo”, ou descontruir a forma como interpretamos nosso mundo, percebemos como tudo externo a nohs, nossos complexos sao projetados nas pessoas, tudo o que foi rejeitado em nohs percebemos no outro, tambem projetamos no outro externo a nohs as conteudos inconscientes que chamamos de qualidades. Vemos qualidades nas pessoas que sentimos nao termos em nohs. Nosso Deus interior eh projetado nos guias e gurus, nos mestres, padres, etc…
    Conforme vamos desconstruindo, ou seja, vamos resgatando a nohs mesmos, tanto nossos complexos da sombra como o nosso inconsciente divino, vamos percebendo que essas forcas nao sao externas, mas que pertencem a nohs, mas ainda elas sao “personificadas”, tem vida propria, e por isso gera imenso conflito, porque embora sejam do mesmo tipo de forca (foram emanadas de Kether) tem desejos diferentes, e lutam e se degladiam entre si, mas agora voce jah sabe que te pertence, nao projeta tanto… e assim o caminho de retorno, de subida da energia que sai de Malkuth em direcao a Kether, vai subindo atraves dos sephirot, como que degraus. A cada sephira a energia/forca de Kether eh percebida de uma maneira, e quanto mais proxima de Kether menos ” forma” tem.
    Quando voce olha para o mundo pelo olho do chacra raiz, o que se ve/sente/percebe eh desejo. Quando se olha pelo olho do chacra do coracao ou Tipharet, o que se ve eh beleza, eh amor no mundo, quando se olha para o mundo atraves do chacra na cabeca, o que se percebe eh uma totalidade, um mundo onde todas as formas tem a mesma essencia, em Kether que eh acima do mundo criado, que eh anterior a forma, nesse plano a nao ha forma, tudo eh percebido como pura luz, no entanto como potencia infinita.

    Bom, tudo isso, pra explicar que, a cada chacra de retorno, ou subida/retirada/esvaziamento da energia/atencao, eh como se a porcao de vida que ali estava contida naquela forma de percepcao(chacra/sephira/arconte) do mundo, que ao mesmo tempo aprisiona, eh liberada para a consciencia. A consciencia eh aquela parte que relaciona, que percebe, intermedia o exterior e interior de nohs, ou nos relaciona com o mundo, tanto o externo como o interno, que interpreta a vida, ela fica no centro da arvore da vida, e poe o foco em cada chacra ou sephira que se queira ou que estah presa (ela tem porcoes presas em todos os chacras, pois ela tambem eh Kether. Bom, essas forcas tem que ser liberadas do “fascinio” das formas/personificacoes. Tem que ser integradas a consciencia, soh assim elas perdem sua forca ou poder contrarios aos objetivos da consciencia, que eh o de retorno a Kether, nao se esqueca, todas essas forcas sao “kether”, se originaram de Kether, nunca deixaram de ser Kether, mas estao presas nos sistemas de percepcoes/arcontes que distorcem a compreensao da verdadeira natureza da forca criadora que emana de Kether. Quando voce desconstroi essas formas pensamentos que separam a forca, vai percebendo que tudo eh uma coisa soh, que materia eh espirito cristalizado, e que espirito eh materia desconstruida/dissolvida (nao sei como dizer cristalizacao ao contrario).

    Soh isso, simples assim. Quando voce despersonifica os eus, eh o mito que vive, porque a consciencia sabe que por tras do mito estah o arquetipo. Quando voce olha pro mundo depois da desconstrucao voce ve simbolos, que representam os arquetipos. Quando chegar em Kether serah um mundo sem forma, em potencia, sem dualidade, somente o Pleroma ou Nirvana dos budistas, totalidade.

    Eh assim que entendo por enquanto…
    ah, to indo, soh volto mes que vem.

    bjs
    adi

  37. Kingmob said

    >Será que eu sou outro do que eu mesmo? Ou será que eu sou a reunião de todos esses outros? Será que não sou justamente a coexistência dessas múltiplas forças, direções, outramentos?

    Antes de ser outro, ou um conjunto definível de outros, eu sou um caldo fértil de potências, de possibilidades surpreendentes, indefiníveis. Eu não sou coexistência eu sou antes uma quase existência que se anula e/ou se nutre no vazio inapreensível, na liberdade sempre nova.

    >não seja possível não ser autêntico na espera pelo retorno do rei  
    >vamos da maneira mais insensata e desesperada… imprevisível… vamos em direção a Mordor: jogar o anel na própria fornalha ambiciosa que o quer e que o gerou…. 

    Esperar pelo retorno do rei? Encarar a escuridão terrível de Mordor já é ser rei desde sempre. Portar “O Um Anel” já é tarefa de um rei. Não somos nós que esperamos o rei é o rei quem espera o nosso retorno.

    Fy,
    >e o somos, somos Todas as Possibilidades de existência contidas num único ser.

    >Se penso, não coloco em prática. Se faço alguma coisa, geralmente foi sem pensar.

    HaHaHaHa! Perfeito isso. A Larinha deve ter como função superior o sentimento, como yours truly.

    >mas é a que melhor se adapta dentro da minha possível lógica.

    E por favor que sua lógica nunca se consume, que seja sempre a sua possível lógica, fica mais bonito assim. =)

    Adi,
    >Talvez seja dessa forma ser o “outro”… e isso a gente vai aprendendo com a vida mesmo, aprendendo a ter Alma, a ser Alma, a ver com a Alma – Alma também eh amor, e o amor “descomplica” todas as coisas, torna branda e leve nossas atitudes e acoes;

    O “outrar” ético, se colocar no lugar do outro, tentar sentir o que o outro sente, ter empatia. Comunhão com o outro.

    Sem,

    Para Drummond o Rei foi a palavra mágica:
    “Certa palavra dorme na sombra
    de um livro raro.
    Como desencantá-la?
    É a senha da vida
    a senha do mundo.
    Vou procurá-la.
    Vou procurá-la a vida inteira
    no mundo todo.
    Se tarda o encontro, se não a encontro,
    não desanimo,
    procuro sempre.
    Procuro sempre, e minha procura
    ficará sendo
    minha palavra.”

    Brilhante, brilhante. O poeta fala o que não se fala. O rei é a palavra… Esse fazer alma é bem interessante… =)

  38. Kingmob said

    >Desfazer esse massaroca toda significa esvaziar as projecoes, esvaziar as personificacoes, esvaziar as ilusões, e ir transferindo a consciência pra uma outra realidade alem de nossa compreensão de terceira dimensão… isso eh desfazer o “mundo”, eh o apocalipse bíblico, eh o kali yuga…

    =D… para mim o momento chave da discussão……

  39. Fy said

    Se eu tenho um desejo é só um: poder unir ser e existência. Mas não os conceitos, na vida. Isso pra mim é que é ser grande, como eu não consigo, realmente não, …

    ” O desejo não é deste mundo; é para penetrar em outro mundo que se deseja” René Girard

    A vida deve continuar
    como aquela luz que não se esvai
    como aquele show que jamais findasse
    a vida deve, sim, continuar
    até se confundirem o vivido e o sonhado –
    os livros apenas escritos
    e a biblioteca dos sonhos:
    eu poderia jurar que estavas lá – …eu-mesma
    cerrando um pouco os olhos, eu
    te traria de volta; mas hoje
    as estrelas estão nervosas,
    mal cabem na pele da noite
    imantadas por páginas sem poesia;
    e eu desejo apenas voltar para casa, sozinha,
    para minha casa às margens da alegria.

    Lívia Soares

  40. Fy said

    Mob,

    >e o somos, somos Todas as Possibilidades de existência contidas num único ser.

    >Se penso, não coloco em prática. Se faço alguma coisa, geralmente foi sem pensar.

    HaHaHaHa! Perfeito isso. A Larinha deve ter como função superior o sentimento, como yours truly.

    >mas é a que melhor se adapta dentro da minha possível lógica.

    E por favor que sua lógica nunca se consume, que seja sempre a sua possível lógica, fica mais bonito assim. =) ”

    Mob,

    – Também sei brincar disto. [ my ilogical brain easily plays this game, …believe me!]

    Mas… em qualquer quebra-cabeça, sempre que tentamos montar uma tela usando peças de 2 – 3 jogos diferentes, o resultado final é sempre bizarro.

    Quando usamos as peças de um único, a tela sempre fica, assim… mais bonita.

    Mas de qualquer forma me desculpe caso tenha ferido seu “conceito de beleza em lógica.” [ …is it?]

  41. Sem said

    Fy,

    Acho que o Mob fez um grande elogio a vc…

    Desculpem, acabei de acordar e ainda nem tomei café. Ultimamente quase não tenho lembrado dos meus sonhos, mas as frases que me vem quando acordo, tenho anotado e “interpretado” como sonho. Qual a lógica dessa que me veio agora?

    Tudo cabe em Deus onde cabe o homem
    Tudo cabe no homem onde cabe a vida

    Não ficaria melhor assim?

    Tudo cabe em Deus onde acaba o homem
    Tudo acaba no homem enquanto dura a vida

    ………..

    Outra frase de efeito, falando no retorno do rei, não lembro se no livro, mas no filme tem algo que Aragorn fala para Legolas a respeito da esperança que todos depositam nele por ele ser o herdeiro de Gondor. Ele fala em élfico ao amigo, algo assim: “eu trago esperança a todos, mas eu mesmo não tenho nenhuma para mim.”

    ui… bom dia! 🙂

  42. Sem said

    >Antes de ser outro, ou um conjunto definível de outros, eu sou um caldo fértil de potências, de possibilidades surpreendentes, indefiníveis. Eu não sou coexistência eu sou antes uma quase existência que se anula e/ou se nutre no vazio inapreensível, na liberdade sempre nova.

    Seca essa poesia, quase concreta, mas é isso:

    corpo abstrato
    gera falta

    cria o vazio
    revela o frio

    espaço

    vive da falta presente
    vívido corpo ausente

    universo

    no dano
    do nada

  43. Fy said

    Oh Sem,

    Tomara,

    Pq estou apenas batendo papo entre amigos, e, como vc disse lá em cima, pretendendo que isto faça bem pra todos nós. E, gosto mto do Mob; detestaria incomodá-lo.

    Da mesma forma, sinto falta da Lu, os coments dela sempre são renovadores, estimulantes.

    Adi,

    Eu adoro qdo vc menciona a cabala. Vou esperar vc voltar pra continuar.

    Bjs

  44. Sem said

    Meu Deus, Fy, acusar alguém de ter função principal sentimento e pedir pra essa pessoa não mudar é um grande elogio, principalmente se vem da parte de um poeta.

    Um diabinho anda passando por aqui e indispondo uns contra outros, é preciso mostrar a língua pra esse diabinho, mostrar pra ele que amizade é “quase” irrestrita tolerância, confiança, empatia… mas como diz o ditado, o diabo nunca é tão feio quanto se pinta – vai ver é só uma parte dolorosa de sombra querendo vir a luz, de uma coisa muito bonita como a amizade é, e causar confusão seja apenas o seu modo de se enturmar, o jeito é cuidar pra sarar.

  45. Sem said

    Pra vc Fy, que sempre nos traz contos, artigos, e talz:

    O Amor que Acende a Lua – Rubem Alves

    – Lua Nova –

    Em Defesa das Flores

    “Quero lhe fazer um pedido”, disse a voz feminina
    do outro lado da linha. Era uma voz agradável, musical,
    firme – de uma mulher ainda jovem. “Sim?” – eu
    perguntei de forma Iacônico-psicanalítica, não sem uma
    pitada de medo. Muitos pedidos estranhos me são
    feitos. “Eu queria que o senhor escrevesse uma crônica
    em defesa das flores …” – Sorri feliz. As flores fazem
    parte da minha felicidade. Do outro lado da linha estava
    uma pessoa que amava as flores como eu. Na minha
    imaginação apareceram campos floridos: tulipas,
    girassóis, margaridas, trevos (sim, essa praga!).
    Versinho da Emily Dickinson:
    Para se fazer uma campina
    É preciso um trevo! uma abelha, um trevo, uma
    abelha e fantasia … Masfaliando abelhas
    Basta a fantasia …
    Sim, com trevos se fazem campinas floridas! –
    qualquer tipo de flor vale a pena …
    Aí ela se explicou: “Tenho dó das flores nas
    coroas funerárias. Eu queria que algo fosse feito para
    protegê-las, para impedir que aquele horror se fizesse a
    elas.”
    Minha imaginação passou das flores livres dos
    campos para as flores torturadas dos velórios.
    Concordei com a Carolina (esse era o nome da mulher –
    jovem de oitenta anos). Não conheço nada de maior
    mau gosto que os velórios. Ali tudo é feio. Tudo é
    grosseiro. As urnas funerárias – falta a elas a
    simplicidade de linhas. Parecem-se com essas mulheres
    que se cobrem ele bijuterias – pensando que assim
    ficam bonitas. Os suportes metálicos, então, são
    horrendos. O saguão elo velório do Cemitério da
    Saudade, até a Última vez que fui lá, estava cheio de
    frases graves e amedrontadoras do tipo: “Eterno e
    silencioso é o descanso dos mortos.” Que coisa horrível!
    Pior que as piores visões do inferno! No inferno pelo
    menos há movimento. Mas no tal descanso eterno tudo
    é silencioso. A música e os risos estão proibidos. Eu
    ficaria louco na hora, teria impulsos suicidas. Mas a
    desgraça é que, estando eu já morto, me seria
    impossível dar cabo de minha vida.
    Aos múltiplos horrores estéticos junta-se o horror
    das coroas de flores. Comparem a beleza de uma flor,
    uma única flor, um trevo azul de simetria pentagonal,
    com o horror de uma coroa. Olhando para a florinha do
    trevo meus pensamentos ficam leves, flutuam. Olhando
    para uma coroa meus pensamentos ficam pesados e
    feios. Numa coroa todas as flores deixam de ser flores.
    Elas não mais dizem o que diziam. Não mais são o que
    eram. Amarradas, contra a vontade, num anel artificial,
    do qual pendem fitas roxas com palavras douradas.
    São, as coroas, de uma vulgaridade espantosa. Ali as
    não-flores só servem de enchimento para os nomes.
    Eu tenho uma teoria para explicar o horror estético
    dos velórios. Quem me instruiu foi a Adélia Prado. Diz
    ela:
    No cemitério é bom de passear. A vida perde a
    estridência, o mau gosto ampara-nos das dilacerações.
    E eu que nunca havia pensado nisso, na função
    terapêutica do mau gosto! Nem Freud pensou. A gente
    vai lá, com a alma doída, coração dilacerado de
    saudade, e o mau gosto nos dá um soco. A saudade
    foge, horrorizada, por precisar da beleza para existir – e
    o que fica no seu lugar é o espanto. Pronto! Estamos
    curados! O mau gosto exorcizou a dilaceração. Foi
    precisamente isto que aconteceu com uma amiga
    minha. Foi ao velório de uma pessoa querida para
    chorar. Aí o oficiante (se foi padre ou pastor não vou
    dizer) começou a falar. E as coisas que ele disse foram
    de tão horrível mau gosto que sua alma foi se enchendo
    de raiva por ele, e a dor pela amiga morta se foi.
    Os velórios são ofensas estéticas que se fazem
    aos mortos.
    Velórios deveriam ser belos. Camus, no seu
    estudo sobre o suicídio, diz que o suicida prepara o seu
    suicídio como uma obra de arte. Não sei se isso é
    verdade. Mas sei que cada um deveria preparar o seu
    velório como uma obra de arte.
    “Beber o morto” – essa é a expressão que se usa
    em algumas regiões do Brasil para designar o ato de
    beber um gole de pinga em homenagem ao falecido.
    Costume certamente inspirado na eucaristia, que é o
    ritual no qual se bebe um copo de vinho em
    homenagem a Jesus Cristo. Acho que um velório
    deveria ser assim, uma refeição antropofágica em que
    se servem aquelas coisas que o morto mais amava.
    Poderíamos, assim, definir um velório como um ritual no
    qual se serve a beleza que o morto gostaria de servir.
    Os vivos, amigos, têm de garantir que a sua vontade
    seja realizada.
    Um conhecido, nos Estados Unidos, doou o seu
    corpo para a escola de medicina. Então, não haveria
    nem velório nem enterro. Ele – malandro – deixou uma
    soma de dinheiro para um jantar oferecido aos seus
    amigos. Eles se reuniram, comeram, beberam,
    conversaram, riram e choraram pela vida do amigo
    querido. Outro, também nos Estados Unidos, morreu no
    outono. No outono as folhas das árvores ficam
    vermelhas e amarelas, antes de caírem das árvores,
    mortas. O outono anuncia o velório do ano com uma
    beleza que não pode ser descrita. Pois ele pediu que
    seu ataúde fosse simples, rústico, tábuas nados as de
    pinheiro, que a sua esposa cobriu com um lençol branco
    em que folhas de outono, vermelhas e amarelas, haviam
    sido costuradas.
    Um velório deveria ter a beleza do outono, toda a
    beleza do último adeus. Os oficiantes teriam de ser os
    melhores amigos. Que sabem os profissionais da
    religião da beleza que morava naquele corpo? Quanto a
    mim, não desejo ser enterrado em ataúde. Sofro de
    claustrofobia. A idéia de ficar trancado numa caixa me
    causa arrepios. Acho a cremação um lindo ritual.
    Neruda declarou que os poetas são feitos de fogo e
    fumaça. As cinzas, soltas ao vento, lançadas sobre o
    mar, colocadas ao pé de uma árvore, são símbolos da
    leveza, da liberdade e da vida. Teria de haver música,
    do canto gregoriano ao Milton. E poesia. Nada de
    poesia fúnebre. Cecília Meireles para dar tristeza.
    Fernando Pessoa para dar sabedoria. Vinicius de
    Moraes para falar de amor. Adélia Prado para fazer rir.
    E Walt Whitman para dar alegria. E comida. De
    aperitivo, Jack Daniel’s. Ainda vou contar a estória do
    Jack – estória de amizade. Comida de Minas. De
    entrada, sopa de fubá com alho, minha especialidade.
    Depois, frango com quiabo, angu e pimenta, a mais não
    poder. E, de sobremesa, minhas frutas favoritas, se sua
    estação for: caqui, manga, jabuticaba, banana-prata
    bem madura.
    Coroas de flores mortas, nem pensar! Pedirei aos
    que me amam que semeiem flores em algum lugar – um
    vaso, um canteiro, a beira de um caminho. Se não for
    possível, que distribuam pacotinhos de sementes entre
    as crianças de alguma escola, entre os velhos de algum
    asilo. E, se for possível, uma árvore. Ah! Que linda
    prova de amor é plantar uma árvore para que alguém
    amado, ausente, possa se assentar à sua sombra.
    Se você for primeiro do que eu, Carolina, prometo:
    não mandarei coroa. Mas plantarei uma flor.

  46. Kingmob said

    Fy,

    >Mas de qualquer forma me desculpe caso tenha ferido seu “conceito de beleza em lógica.” [ …is it?]

    A Sem pescou. Era para ser um elogio. Gosto muito do jeito como vc faz ligações surpreendentes entre um assunto e outro. Era isso. Vc nunca me feriu em nada, ao contrário, vc cura.

    Eu não te criticaria assim sem motivo. Por que o faria?

    Bjs,
    Mob.

  47. Fy said

    Meu Deus, Fy, acusar alguém de ter função principal sentimento e pedir pra essa pessoa não mudar é um grande elogio, principalmente se vem da parte de um poeta.

    Sem,

    O Mob disse isto sobre a Lara. – e eu tb considero um elogio.

    O que ele sugeriu ao comparar uma frase minha com a dela, é que houve uma falha de concordância; – o que tb é correto. E, continuará correto e ilógico se eu fizer a mesma coisa com meus, seus, … comentários.

    Se há algum diabinho, não vou permitir que ele receba os méritos de minhas prováveis e possíveis [ rsrsrs] desatenções, e com isto se fortaleça. Então, me desculpo e pronto.

    That’s all.

    Bjs

  48. Fy said

    Mob,

    Bs pra vc,

    Já disse: loveyou!

  49. Fy said

    Mais:

    Se foi um elogio, I’msoproufofit, pq vc é uma das coisas mais importantes do Anoitan.

    Em mts lugares, como já te falei.

    Bjs

  50. Fy said

    Mob:

    sorry: proud

    Bjs

  51. Fy said

    Adi,

    vc me lembrou uma coisa engraçada.
    Eu sempre vivi em uma torre de babel: tanto em matéria de linguagem, como de convívio com etnias diversas.

    No Canadá, quase se consegue esta convivência de uma forma perfeita. E, convivi tb com mts judeus, na época da facul, alguns bastante ortodoxos, outros mais lights. De uma forma geral, a cabala está p os ortodoxos, como o esoterismo, espiritismo está p os católicos mais fundamentalistas. Existe tb, no meio científico, entre alguns estudiosos, a tese de q a cabala é uma fonte de informações científicas, codificada e protegida por uma linguagem de cunho religioso e de origem ainda não definida.

    Mas vou te contar uma brincadeira cabalista, baseada no diagrama da árvore e no movimento ascendente e descendente entre as 10 dimensões: de Kether a Malkuth e vice versa, focalizando nossas dificuldades em relação à realização de nossos desejos.
    Ela diz que qdo formulamos um desejo, ele perfaz exatamente este caminho ou processo.

    Ou seja: depois de formulado: prontinho, ele é conduzido de Malkuth à Kether, por um caminho chamado canal de manifestação. É conduzido por anjos, ávidos de nos agradar e cujo raciocínio é absolutamente linear. Este desejo funciona como um “carimbo” na dimensão de Kether , como um pedido por escrito num magazine, – ao carimbar, ele inicia seu retorno à Malkuth pelo mesmo canal, revestindo-se de matéria.

    Qdo formulamos o pedido com clareza, começa a ascenção do mesmo, sustentado pelos anjinhos.

    Aí, nossa mente humana começa a derivar: se meu pedido original foi uma casa enorme, agradável, cheia de amigos e tal… e os anjos satisfeitos por me agradar já iniciaram seu caminho à Kether conduzindo-o, meu raciocínio começa a funcionar: – Ah…. mas uma casa mto grande vai me dar um trabalhão…. já pensou qdo todo mundo for embora, vou ter q arrumar tudo, etc…. – e os anjinhos, apavorados, rsrsrs, por nos contrariar, descem de novo.

    E ficam neste sobe e desce até que nosso desejo finalmente “aterrise” em Kether, completamente confuso e o “carimbo” esteja quase indecifrável. Se encomendei 1 mesa e 4 cadeiras: recebo 4 mesas e 1 cadeira.

    É uma brincadeira mas explica como o nível de concentração que se emprega em nossos ideais é hesitante, complexo, e diretamente proporcional com o fruto que se obtém com isso. Às vezes parecemos dispostos a efetuar empresas heróicas, e no entanto não somos capazes, por fantasmas mentais, de realizar coisas singelas que precisam de uma atitude conseqüente e perseverante.

    até a volta,

    Bjs

  52. Fy said

    Sem,

    … que coisa magnífica!

    de todo o coração: isto merece ser um post. …melhor: todos merecem que seja.

    O mundo está precisando de coisas assim.

    PS: estudei em um colégio de freiras, dos 6 aos 7 anos, aqui no Br. Foi justamente na época da 1ª comunhão.
    Pois é, na minha cabecinha – e eu acredito que em todas as cabecinhas desta idade – a “mistura” das aulas “sangrentas” de catecismo, ilustradas pelas terríveis gravuras da paixão; ocasionaram uma catástrofe, na hora que colocaram a hóstia christ’bodie
    em minha boca. Nem queira saber!

    Bjs

  53. Sem said

    Quem se interessar, um endereço para baixar o ebook d’O Amor Que Acende a Lua, do Rubem Alves:

    http://www.4shared.com/file/18100777/b1890ac8/Rubem_Alves_-_O_Amor_Que_Acende_a_Lua__pdf___rev_.html?s=1

    O livro é uma coleção de contos para ler aos poucos. Todos são bons, mas vá lá, recomendo esses pra começar: “O anestesista”; “A pipoca”; “Se eu fosse você” (deveria ter usado esse como referência quando escrevi Eros e Psique, porque fala do masculino e feminino de um modo muito bonito); o imperdível (pra quem gosta de filosofia) “Dor-de-idéia”, e tb o “Conchas ou Asas?”; e pra educador o “A aula e o seminário” – educador, taí uma palavra que o Rubem prefere a professor, como educando ao invés de aluno, mas eu acho bacana mesmo falar em professor e aluno, duas palavras que no meu modo de entender estão impregnadas de afetividade histórica, apesar de que na etimologia da palavra a-luno está ser sem-luz, mas nunca é o caso…

    Fy, mais um conto e, incrível, só agora percebi que esse aqui faz um gancho perfeito com o assunto do tópico:

    Os Moradores do Albergue

    Duas casinhas, uma é azul, a outra é rosa. Em
    cada casinha mora uma pessoa, uma única pessoa. Na
    casinha azul mora um homem. Na casinha rosa mora
    uma mulher.

    Os dois gostam de aparecer na janela. Mas nunca
    mostram o rosto. Sempre usam máscaras: risonhas,
    tristonhas, de criança, de velho, de santo, de demônio.
    Seus verdadeiros rostos ninguém jamais viu. Nem
    mesmo eles.

    Esse é o resumo de uma das mais antigas teorias
    psicológicas. As casinhas são nossos corpos. Em cada
    um mora uma pessoa, uma única pessoa. Persona, em
    latim, quer dizer máscara , as máscaras que os atores
    de teatro usavam.

    Assim, a etimologia nos diz o que somos: atores.
    Vivemos representando “papéis”. Por vezes representar
    um papel é um artifício consciente intencional e safado.
    Essa é a essência da hipocrisia, que em grego quer
    dizer “representar um papel”. O hipócrita é aquele que
    usa uma máscara com o propósito de enganar: ele
    mostra um rosto que não é o seu. Chegando em casa,
    longe dos outros, ele dá risada e tira a máscara … Mas
    mesmo tirando a máscara o que ele vê não é o seu
    rosto; é uma outra máscara.

    O fato é que as pessoas nunca tiram as máscaras.
    Usam máscaras até mesmo quando se olham no
    espelho. Você nunca teve um sentimento de estranheza
    ao se contemplar no espelho? Você nunca se viu e se
    perguntou: “quem sou?”

    Quem somos? Seres nascidos para o teatro.
    Somos, essencialmente, atores. Representamos
    “papéis” o tempo todo. A alma é o script de uma peça.
    Para conhecer a alma basta montar um palco, distribuir
    máscaras e papéis, e começar o espetáculo. À medida
    que o espetáculo se desenrola a alma vai se revelando.
    Que revela ela? Seu rosto sem máscara? Não. Ela
    revela as máscaras e os papéis de sua predileção.
    Sobre esse pressuposto se assenta a teoria do
    psicodrama, que poderia também ser chamado de
    psicomédia. “Penso, logo existo”, dizia o filósofo que
    não pensava sobre essas coisas. Comenta o poeta, que
    se sabia irremediavelmente um fingidor: “Que sei do que
    serei, eu que não sei o que sou? Ser o que penso? Mas
    eu penso tanta coisa”

    Assim diz essa teoria, mas eu tenho estado
    desconfiado de que as coisas não são bem assim. E é
    esse esboço de teoria que eu gostaria de submeter
    àqueles cujo ofício é cuidar da alma. Começo invertendo
    as coisas: a casinha não é a residência particular de um
    único morador. É um albergue que não é de ninguém.
    Aquela pessoa que se apresenta como dona é apenas
    um síndico que, a qualquer momento, pode ser
    despedido. Quando o síndico é despedido o albergue
    vira uma zorra. Além disso eu digo que aquilo que se
    parece com máscaras não são máscaras. São rostos de
    verdade, todos muito parecidos. Parecidos mas muito
    diferentes. Não têm os mesmos pensamentos. Não têm
    os mesmos sentimentos. Não se entendem. E, no
    entanto, são obrigados a viver numa mesma casa. Os
    períodos de ordem e tranqüilidade não passam de uma
    trégua. A guerra pode estourar a qualquer momento, por
    um “dá cá aquela palha”. Alguns albergados chegam a
    se odiar. Não é raro que aconteçam assassinatos: não
    suportando o ódio, um mata o outro. Quando isso
    acontece dentro da casa, do lado de fora aparece como
    suicídio. Mas essa palavra, “suicídio”, que significa
    “matar-se”, é um equívoco. Diz Benedictus de Spinoza,
    na 6ª proposição da parte III da sua Ética: “Cada coisa,
    enquanto existe em si, esforça-se por perseverar no seu
    ser”. Ninguém deseja morrer. A vida deseja continuar a
    viver. O que acontece é o seguinte: um dos moradores,
    esforçando-se por perseverar no seu ser, e vendo-se
    insuportavelmente ameaçado por um outro morador do
    mesmo albergue, não vê outra solução para tal situação
    a não ser o assassinato do seu inimigo. Acontece que,
    para matá-Ia, ele tem de destruir a casa onde ambos
    moram: o corpo.

    Essa é uma hipótese. Uma hipótese que se
    pretenda científica não pode prescindir de uma revisão
    bibliográfica do assunto. Infelizmente não encontrei
    pesquisas estatisticamente fidedignas sobre a questão
    em pauta. O pobre Freud também não encontrou
    nenhuma pesquisa que corroborasse suas loucas
    hipóteses. Encontrei referências, sim, nas superstições
    populares e na literatura. O mito popular do lobisomem
    afirma que num mesmo corpo convivem pelo menos
    dois, moradores, um deles podendo ser um filantropo
    sensível, o outro sendo um lobo feroz que sai do seu
    esconderijo nas noites de lua cheia. Esse mito,
    transposto para a literatura, tornou-se a novela sobre o
    Dr. Jeckill, médico bondoso, e o Mr. Hide, monstro cruel,
    ambos morando no mesmo albergue.

    Freud percebeu que o corpo era uma casa de três
    andares, onde moravam três moradores muito
    diferentes. No térreo mora um pacato cientista,
    professor, de hábitos tranqüilos e racionais. No porão
    mora um playboy sem juízo, que se entrega pela noite
    adentro a orgias barulhentas. No andar superior
    funciona um tribunal onde são julgados, condenados e
    freqüentemente punidos os que se desviam das leis
    impostas pelo juiz que preside o dito tribunal. Os nomes
    dos moradores são, respectivamente, Ego, Id e
    Superego.

    Fernando Pessoa não precisou elaborar teoria
    sobre o assunto. Ele era um exemplo vivo de albergue
    onde moravam os mais variados personagens, mais de
    trinta, chamados heterônimos, cada um deles com
    biografia própria, filosofia distinta, estilo peculiar e
    sentimentos específicos: Alberto Caeiro não pensa, não
    sente e não escreve como Ricardo Reis, que não pensa,
    não sente e não escreve como Álvaro de Campos, que
    não pensa, não sente e não escreve como Bernardo
    Soares – e assim por diante. Não se trata de
    pseudônimos. Pseudônimo é uma máscara que um
    escritor pode usar para se esconder ou se identificar. O
    caso de Fernando Pessoa era outro: ele era literal e
    literariamente “possuído” pelos heterônimos. Sua
    identidade civil era definida por sua carteira de
    identidade: um único indivíduo, Fernando Pessoa. Mas
    nesse corpo de um nome só moravam muitos e
    diferentes outros que se alternavam. Tanto aprovaria
    minha teoria que chegou a confessar: “Meu coração é
    um albergue.”

    Tenho estado tentando fazer um inventário das
    muitas entidades que podem morar no corpo. Freud
    sugeriu três. Fernando Pessoa, nem sei quantas. O
    demônio disse que era uma legião. Tendo a concordar
    com o demônio. Há moradores de todo tipo – e o curioso
    é que o corpo, parece, não faz uma investigação das
    credenciais do pretendente a albergado, antes de
    aceitá-Io como morador.

    Eis alguns deles: o depressivo, de poucas
    palavras; o alegrinho falador, insuportável; o sargento
    que gosta de dar ordens; a bruxa horrenda de voz
    gritada; o torturador sádico; o filósofo sábio; o místico; o
    romântico apaixonado; o invejoso, verde; o ciumento; o
    mal-humorado, que acha tudo ruim; o carrasco; o
    rancoroso, que se compraz em esgravatar o passado; o
    canalha; o moralista; a perua; o velho; a criança … A
    lista não tem fim. Com a ajuda do seu analista você
    poderá fazer um inventário dos tipos que moram no seu
    albergue, a fim de compreender as confusões que
    acontecem no seu corpo.

    Em suas origens etimológicas “demônio” não tem
    o sentido mau que lhe damos. Sócrates dizia ser
    inspirado por um agathàs daimon, um demônio bom.
    Demônio era apenas uma entidade espiritual que podia
    ser boa ou má. Ao se acreditar no demônio PhD em
    psicologia, o corpo pode ser entendido como um
    albergue que é constantemente visitado e “possuído”
    por uma variedade de demônios. “Possessão
    demoníaca” é quando o corpo, pretensamente possuído
    pelo síndico, é invadido e dominado por um daimon
    diferente dele. A gente sabe que o albergue está
    possuído porque ele começa a fazer coisas que
    comumente não faz. Se for um daimon ruim, ele vai
    fazer estragos no albergue. Se for um daimon bom – por
    exemplo, o Espírito Santo o albergue vai ser pintado e
    varrido.

    Se meus colegas psicanalistas e terapeutas
    acham muito maluca a minha teoria, recordo-Ihes o dito
    por Pairbairn:

    “É então evidente que o psicoterapeuta constitui o
    verdadeiro sucessor do exorcista. Sua missão não é
    ‘perdoar pecados’ e sim ‘desalojar os demônios’.”

  54. Fy said

    Sem,
    Fantástico.
    Eu vou lá sim. Thank’s

    Dê uma olhadinha nesta entrevista do Pirandello. [ não deixe de lê-lo: vc vai adorar. ]

    Grandes Entrevistas

    Pirandello

    Entrevistado por Sergio Buarque de Hollanda e publicado originalmente em O Jornal (RJ), 11/12/1927.
    (Extraído de: O Estado de São Paulo, 31/12/1988)

    “Eu não sou um autor de farsas, sou um autor de tragédias”, diz o ilustre escritor ao representante d’ O Jornal.

    A personalidade de (Luigi) Pirandello, o que nos sugere a sua obra admirável, tem sido, para os homens sensíveis e para os curiosos, um estímulo e quase um convite às opiniões mais desencontradas.

    Isso em parte se explica se nos compenetrarmos de que o autor do Sei personaggi é um desses indivíduos em constante fuga, que resistem energicamente a qualquer tentativa de definição.

    Se sabemos administrar os homens de seu tipo, o demônio da inteligência nos trai singularmente, desde que procuramos enquadrar a sua obra dentro de categorias invariáveis.

    A grande maioria dos críticos que estudou a mensagem pirandelliana divorciou indevidamente o artista do filósofo, o que significa não somente uma incompreensão lamentável do que representa essencialmente essa obra extraordinária, mas, o que é bem mais grave: uma ignorância desoladora do sentido profundo de toda obra de arte que mereça esse nome.

    Só o próprio Pirandello nos permitiria talvez atingir um ponto de vista legítimo através do formidável equívoco que certos críticos estabeleceram em tomo de sua obra.

    Só ele nos permitiria situar sem muito artifício a atitude que exprimem os seus dramas, como os seus romances e as suas novelas. A presença do grande escritor italiano nesta capital seria um ensejo único e inapreciável de interrogá-lo sobre o assunto.

    E Pirandello não se recusou a satisfazer nossa justa curiosidade. À nossa primeira pergunta explicou-nos ele categoricamente:

    Não sou um filósofo nem pretendo ser. Se minha obra exprime, como querem, uma concepção filosófica, essa concepção independe inteiramente de qualquer intenção consciente. Também não sei, nem me interessa saber qual seja essa intenção. Sustento que uma obra de arte não pode ser intencional e limito-me a interpretar a vida como ela me aparece e o mais diretamente possível. E não se vive com os olhos abertos, vive-se cegamente. A minha convicção de que a personalidade é múltipla não é uma conclusão – é uma constatação.

    – A idéia de multiplicidade de personalidade não acarreta também uma negação da responsabilidade e, portanto, de qualquer espécie de moral?

    Ao contrário – respondeu Pirandello quase com indignação – É preciso compreender na minha obra, que eu não sou um autor de farsas, mas um autor de tragédias. E a vida não é uma farsa, é uma tragédia.

    O aspecto trágico da vida está precisamente nessa lei a que o homem é forçado a obedecer, a lei que o obriga a ser um.

    Cada qual pode ser um, nenhum, 100 mil, mas a escolha é um imperativo necessário. E é essa escolha que organiza a nossa harmonia individual, o sentimento de nosso equilíbrio moral.

    E ela é que constitui a tragédia e que faz com que os meus dramas não sejam simples farsas. Eles apresentam uma lei de sacrifício: o sacrifício da multidão de vidas que podería¬mos viver e que, no entanto, não vivemos.

    – Parece que os críticos não frisaram muito esse ponto, o que desvirtua inteiramente o sentido de sua criação artística.

    E no entanto ele é, pode-se dizer, o ponto central da minha concepção da vida.
    É uma estupidez afirmar-se que ela destrói o senso moral. Faço questão de que se acentue bem isso. Tem-se escrito enormemente sobre a minha obra, mas infelizmente nem sempre com justiça e com inteligência. Chamo a atenção, particularmente, para o volume de Walter Starkie, publicado este ano, em Londres, pela livraria Dent & Dutton. É um estudo sério e minucioso, compreendendo cerca de 350 páginas de texto. Há, além disso, o livro recente do Sr. Ferdinando Pasini, intitulado Luigi Pirandello (come mi pare), publicado em Trieste, e o da Sra. Bergh, escrito em sueco.

    – Bernard Shaw?

    É um grande amigo meu e um escritor que admiro profundamente. É um dos autores mais vivos que têm existido. E além disso, a seu pesar, é um extraordinário poeta. Um homem que vive. Isso justifica muito de minha admiração por ele. Outro escritor de teatro de grande valor é o francês Jules Romains, que, além disso, é um extraordinário romancista. Mort de quelq’ un parece-me um dos mais belos romances da literatura contemporânea. Sinto por Jules Romains uma grande estima pessoal e um dos seus melhores dramas, La scintillante, me é dedicado. A França possui hoje uma bela plêiade de escritores de teatro. Lembro-me no momento de Charles Vildrac, de Raynal, de Cromelynck … Não posso me esquecer também de mencionar alguns expressionistas alemães como Sternheim, Georg Kaiser, Von Unruh, Tröller, bem como o norte-americano Eugene O’Neill, um dos dramaturgos mais interessantes do momento. Deu-me o prazer de sua visita quando estive em Nova Iorque. A Itália apresenta também um conjunto de autores de teatro bem significativo, dos quais posso citar, por exemplo, o nome do Rosso di San Secondo.

    E blábláblás sobre outros artistas contemporâneos.

    Bjs

  55. Fy said

    Sem,

    Em relação à morte, como eu falei, a acho tão definitiva como a vida.
    Os cemitérios não me assustam, não. Embora eu os prefira como jardins.
    Este vídeo é lindo, mas tem um toque meio lúgubre[ é assim?], pra quem não gosta.

    Se te entristece, – a mim, entristece um pouquinho em dias de chuva – não veja. Caso não, vale a pena, como arte. Outra coisa interessante: que tb é intrigante e talvez tenha a ver com esta sugetão de multiplicidade; repare [ com certeza vc já deve ter reparado] como nós humanos, humanizamos o divino e o erotizamos:

    Guardian
    Cemeteries and their Sentinels

    http://www.duirwaighgallery.com/movie.htm

    Bjs

  56. Sem said

    >Guardian
    Cemeteries and their Sentinels

    Nossa, Fy, que coisa mais linda, linda, linda… a beleza é triste, como já disse o Bandeira.

    Antigamente eu gostava de repetir uma frase atribuída a Karl Marx, de que o homem criou Deus a sua imagem e semelhança. (Eu já tive sim na minha vida uma breve, porém virulenta febre de ateísmo. Minha formação católica fez com que eu confundisse e custasse outro tanto a separar Deus da instituição religiosa, da Igreja. Já me curei disso e hoje mui raramente hoje tenho alguma recaída.) Sabe que hoje eu não tenho tanta certeza de que humanizamos deus. Eu acho que somos manifestação de… deus… e que tudo isso que a gente manifesta – multiplicidade, erotismo – são características… dele.
    Mas de todos os assuntos o que eu menos gosto de falar é de Deus. Quer dizer, descrever como Ele é, o que Ele quer, como pensa, o que almeja. Como podemos saber?

  57. Fy said

    Eu acho que somos manifestação de… deus… e que “tudo” isso que a gente manifesta – multiplicidade, erotismo – são características… dele.

    Tudo é Deus.
    Este é o respeito que devemos a ele. Respeito por este tudo.

    Bjs

  58. Fy said

    Sem:

    Ou então ele é alguma coisa assim, … como uma gota d’agua que explode em todas as direções!

    http://www.duirwaighgallery.com/inspiration_heavensrejoice.htm

    Bjs

  59. luramos said

    Fy e outros queridos

    eu leio tudo e não falo quase nada.
    eu aprendo muito com vocês. Mas eu preciso fugir da racionalização, porque para minha pessoa, isso é uma cilada, uma tentação.
    Cientistas, filósofos, psicólogos me confundem porque fico tentada a achar que eles podem me mostrar um entendimento e então minha transformação. Não estou criticando sob hipótese alguma, pois acho que este é o sistema iniciático de muitos, mas aprendi que não me serve.

    Descobri há pouco que o meu caminho é o devocional, o místico. Eu quero me render às transformações que julgo necessárias mesmo que eu não as compreenda. Eu quero me render. Eu não quero precisar entender tudo.
    Quero seguir minha intuição, minha segunda inteligência. Cansei de resistir, embora ainda tenha o vício de querer entender tudo…

    Então vocês generosamente me dão palavras novas, enriquecem meu vocabulário para expressar a mágica do universo em que se consiste a mente humana, foi muito bom aprender o que são devires, por exemplo, me ajuda em meus processos interiores.

    Mas eu quero a expansão de fato, preciso parar de teorizar e preciso agir, ser quem eu posso realmente ser. Então eu preciso rezar, rezar, rezar, acessar o Universo mágicko que me rodeia, aproximar-me do meu Eu Superior, chegar em Tipheret. Eu preciso.

    No sufismo quando se diz silêncio se está referindo à ausência do eu inferior. E tem uma frase do Corão que diz:
    “Fique em silêncio, então o Senhor que lhe deu a voz poderá falar…”

    Oxalá eu consiga alguns minutos de silêncio…
    E que cada um de nós permaneça no caminho da sua Glória.

    um beijo pra cada um de vocês.

  60. Fy said

    Lu,

    Mas eu quero a expansão de fato, preciso parar de teorizar e preciso agir, ser quem eu posso realmente ser.

    Eu compreendo, sim; mas quero dizer que vc faz muita falta.

    No antigo país de Rozenzenvóizem
    Existe um castelo todo de pedra,
    E dizem que à noite se ouvem mil vozes,
    mil vozes!

    – Vampiros conversam, e taças se quebram.
    Mas lá na outra torre, bem longe da festa
    Um outro vampiro está só pensando:
    Pensando, quem sabe, na velha floresta,
    floresta!
    Mas veste sua capa e então sai voando.

    Vampiro Luí, perdido a voar,
    Seu rosto branquinho avançando no ar…
    Vampiro Luí, só quer encontrar
    Seu mestre e amigo, o Vampiro Lestá.

    Quando ele coloca a capa de Stinj
    Recita o Feitiço das Trevas, e então
    A lua não sabe o que ali a atinge,
    atinge!

    Luí, é você? Ou será um avião?
    Vampiro Luí, vá aonde quiser,
    Quem voa nas nuvens não deve correr;

    Vampiro Luí, somente “sua” capa há de ser
    Suas asas, sua força, magia, seu mestre e poder.

    Salamandras, silfos, sereias e mais:
    Gnomos, anjos, sombras abissais!
    Poderes das trevas – Poderes da luz, último suspiro!

    Visto agora – Sózinho – a minha capa de vampiro!

    Fafael Falcón

    Que vc voe cada mais alto no caminho de sua Glória.

    We are …waiting you.

    Bjs

  61. Sem said

    Ainda a respeito de outramentos, alteridade, erotização de Deus, unidade na multiplicidade… estava hoje pesquisando polaridades na net, e naturalmente busquei por Morin (o seu homo sapiens/demens/faber/ludens), e dei de cara com esse magnífico monumento em defesa da poesia e verdadeiro tratado ao amor… Segue, de Edgar Morin, um trecho do seu livro “Amor Poesia Sabedoria”. É longo, mas acho vale muito a pena, pois a meu ver sintetiza de modo contundente muito do que aqui foi falado e de certa forma faz uma junção com tudo o que está sendo discutido nos outros tópicos recentes também.

    Com a palavra o octogenário francês mais simpático:

    “No momento em que aflora o desejo, os seres sexuados são submetidos a uma dupla possessão, que se situa muito além deles e que os ultrapassa.

    O ciclo de reprodução genética, que nos invade pelo sexo, é algo que nos possui subitamente e que, simultaneamente, possuímos: o desejo. Esta é a primeira possessão.

    A outra é a que nasce do sagrado, do divino, do religioso. A possessão física que decorre da vida sexual reencontra a possessão psíquica oriunda da vida mitológica. Aí reside o problema do amor: somos duplamente possuídos e possuímos o que nos possui, considerando-o, física e miticamente, como nosso próprio bem.

    A questão da selvageria do desejo e da fascinação do amor se relaciona à ordem social. As sociedades animais não possuem instituições, mas obedecem a regras.

    Por exemplo: os machos dominantes se apoderam da maioria das fêmeas e os outros machos são excluídos da copulação. Tudo isso decorre de regras hierárquicas, mesmo na ausência da regra institucional. A humanidade cria instituições, institui a exogamia, as regras de parentesco, prescreve o casamento, proíbe o adultério. Mas é extremamente notável que o desejo e o amor ultrapassam, transgridem normas, regras e interditos: ou bem o amor é muito endógamo e torna-se incestuoso, ou é muito exógamo e torna-se adúltero, traidor do grupo, do clã, da pátria. A selvageria do amor o conduz à clandestinidade e à transgressão.

    O amor, mesmo que decorrente de um desenvolvimento cultural e social, não obedece à ordem social: quando aparece, ignora barreiras, despedaça-se nelas ou simplesmente as rompe. O amor é filho de ciganos, é “enfant de bohème”.

    Além disso, o mais interessante na civilização ocidental é a separação que, por vezes, é uma verdadeira disjunção entre o amor vivido como mito e como desejo.

    É necessário que nos apercebamos dessa bipolaridade: de um lado, um ardente amor espiritual, que justamente tem medo de se degradar no contato carnal e, de outro, uma “bestialidade”, que poderá encontrar sua própria sacralidade nesta parte maldita assumida pela prostituta. Se a bipolaridade do amor pode aquartelar o indivíduo entre o amor sublime e o desejo infame, pode também efetivar-se em diálogo, em comunicação: há momentos muito felizes, momentos em que a plenitude do corpo e da alma se encontram.

    O verdadeiro amor se reconhece naquilo que sobrevive ao coito, enquanto que o desejo sem amor se dissolve na famosa tristeza pós-coital: “homo triste post coitum”. Aquele que é sujeito do amor é “felix post coitum”.

    Assim como tudo o que é vivo e humano, o amor encontra-se submetido ao segundo princípio da termodinâmica, que se define como um princípio de degradação e desintegração universais. Mas os seres vivos vivem de sua própria desintegração, combatendo-a pela regeneração.

    O que significa viver?

    Heráclito dizia: “Morrer de vida, viver de morte.”

    Nossas moléculas se degradam e morrem, sendo substituídas por outras. Vivemos utilizando o processo de nossa decomposição para nos rejuvenescer, até o momento em que isso não é mais possível. Acontece o mesmo com o amor, que só vive renascendo incessantemente.

    O sublime encontra-se sempre no estado nascente do enamoramento. O amor implica a regeneração permanente do amor nascente.

    Tudo aquilo que se institui na sociedade, e também tudo que se instala na vida começam a ser afetados pelas forças de desintegração ou de insipidez.

    O problema da ligação amorosa é que ela é, freqüentemente, trágica, porque se consolida, também, com freqüência, em detrimento do desejo.

    Uma ligação longa e constante torna o laço mais íntimo, mas tende a desintegrar a força do desejo que seria mais exógama, voltada para o desconhecido e para o novo.

    Pode-se supor que a longa ligação que consolida o casal, que o enraíza e cria uma afeição profunda, tenda a destruir exatamente aquilo que o amor continha em seu estado nascente. Mas o amor é paradoxal como a vida e, por isso, há amores que duram, do mesmo modo que dura uma vida. Vive-se de morte, morre-se de vida. O amor poderia, potencialmente, regenerar-se, operar em si mesmo uma dialógica entre a prosa que se espalha na vida cotidiana e a poesia que fornece a seiva a essa mesma vida.

    O que é verdadeiramente notável é que a união do mitológico e do físico realiza-se no rosto. Há algo no olhar amoroso que, tendencialmente, poderia ser descrito em termos magnéticos ou elétricos, algo que se origina na fascinação, que pode ser recíproca, mas também aterrorizante. Nesses olhos que contêm uma espécie de poder magnético que a tudo subjuga, a mitologia humana identificou uma das localizações da alma.

    O mesmo acontece com a boca! A boca não se limita somente ao que come, absorve, dá (lamber, salivar). É também a via de passagem da respiração, que corresponde a uma concepção antropológica da alma. O beijo na boca, que o Ocidente popularizou e mundializou, concentra e concretiza o singular encontro de todos os poderes biológicos, eróticos e mitológicos da boca. De um lado, ele é um analogon da união física e, de outro, representa a fusão de duas respirações, que é também uma fusão de almas.

    A boca é algo verdadeiramente extraordinário, algo aberto para o mitológico e o fisiológico. Esquecemos que esta boca fala, e o que há de muito belo é que as palavras de amor são seguidas de silêncios de amor. Nosso rosto permite cristalizar, em si mesmo, todos os componentes do amor. Com o aparecimento do cinema, os grandes planos do rosto tornaram-se grandiosos e isso porque nele se concentra a totalidade do amor.

    Como considerar o complexo de amor? A categoria do sagrado, do religioso, do mítico e do mistério penetrou no amor individual e nele enraizou-se de modo extremamente profundo.

    Há uma razão fria, racionalista, crítica, nascida no século das Luzes, que coloca o ceticismo diante de qualquer religião. De fato, a razão fria tende não somente a dissolver o amor, mas também a considerá-lo como ilusão e loucura.

    Em contrapartida, na concepção romântica o amor transformou-se na verdade do ser. Será que existe uma razão amorosa, do mesmo modo que há uma razão dialética, que ultrapassa os limites da razão congelada?

    Sob o ângulo da razão fria, o mito foi sempre considerado como um epifenômeno superficial e ilusório. Para o século XVIII, a religião representava uma invenção dos padres, uma fraude feita para iludir os povos. Esse mesmo século não soube compreender as raízes profundas da necessidade religiosa e, muito menos, da necessidade de salvação.

    Incluo-me entre aqueles que acreditam na profundidade antropossocial do mito, ou seja, em sua realidade. Acrescento a isso que, entre o homo sapíens e o homo demens, ou entre a loucura e a sabedoria, não existe fronteira nítida. Não se sabe quando se passa de uma para outra, e isso porque sempre há reversibilidades; por exemplo, uma vida racional pode ser pura loucura.

    Uma vida que se ocuparia unicamente em economizar seu tempo, a não sair quando faz mau tempo, a querer viver o máximo possível e, portanto, não cometer excessos alimentares e amorosos.

    Levar a razão a seus limites máximos conduz ao delírio.

    Mas, então, o que é o amor? É o ápice da união entre loucura e sabedoria. Como destrinchar esse fato? Parece evidente que se trata de um problema com o qual nos defrontamos em nossa vida, e que não há nenhuma chave que permita encontrar uma solução exterior ou superior. O amor contém justamente esta contradição fundamental, esta co-presença da loucura e da sabedoria.

    Eu diria sobre o amor o que em geral digo sobre o mito. Desde que um mito é reconhecido como tal, ele deixa de sê-lo. Atingimos esse ponto da consciência em que nos damos conta de que mitos são apenas mitos. Mas percebemos também que não podemos passar sem eles. Não se pode viver sem mitos, e eu incluiria, entre os “mitos”, a crença no amor, um dos mais nobres e poderosos e, talvez, o único mito ao qual deveríamos nos apegar. E não apenas o amor interindividual, mas o amor, num sentido muito mais amplo, sem, evidentemente, macular o amor individual. Efetivamente, enfrentamos um problema de convivialidade com nossos mitos, e isso não implica uma relação de compromisso, e sim uma relação complexa de diálogo, antagonismo e aceitação.

    A seu modo, o amor põe em questão o problema do desafio de Pascal, que havia compreendido não haver nenhum meio para provar logicamente a existência de Deus. Não se pode provar, empírica e logicamente, a necessidade de amor. Pode-se apenas apostar nele e sobre ele. Adotar para o nosso mito de amor uma atitude de desafio implica sermos capazes de nos entregar a ele, dialogando com ele de modo crítico.

    O amor faz parte da poesia da vida. Devemos viver esta poesia que não pode espalhar-se pela vida como um todo, e isso porque, se tudo fosse poesia, não haveria espaço para a prosa. Da mesma maneira que o sofrimento deve existir para que se conheça a felicidade, deverá também haver prosa para que haja poesia.

    Diante da idéia de desafio, é bom saber que há o risco do erro ontológico, da ilusão, e que o absoluto é, simultaneamente, o incerto. É preciso que tenhamos claro que, em dado momento, engajamos a nossa e outras vidas, na maioria das vezes, sem querê-lo ou sabê-lo.

    O amor contém um risco terrível porque não é somente um que se engaja nele. Engaja-se a pessoa amada, engajam-se também os que nos amam sem que nós os amemos, ou os que amam a pessoa amada sem que ela os ame.

    Como dizia Platão acerca da imortalidade da alma, trata-se de um belo risco que se deve correr. O amor é um mito muito belo. Evidentemente, encontra-se condenado à errância e à incerteza. Estará se referindo a mim, a ela, ou a todos nós?

    Possuímos uma resposta absoluta para essa questão? O amor pode transitar da fulminação à deriva. Contém em si um sentimento de verdade, que é também fonte de nossos erros mais graves. Quantos infelizes iludiram-se com a “mulher de sua vida” ou o “homem de sua vida”?

    Nada é mais pobre do que uma verdade sem sentimento de verdade. Constatamos a verdade que dois e dois são quatro, que essa mesa é uma mesa e não uma cadeira, mas não temos o sentimento da verdade desta proposição. Possuímos apenas a intelecção a respeito delas. É certo que, sem sentimentos de verdade, não há verdade vivida. Mas, justamente, o que é a fonte da maior verdade pode, ao mesmo tempo, ser a fonte do maior erro.

    Por isso, o amor talvez represente nossa religião e nossa doença mental mais verdadeira. Oscilamos entre esses dois pólos, tanto um quanto o outro muito reais. Mas o que é extraordinário nessa oscilação é a nossa verdade pessoal revelada e percebida pelo outro. Em resumo, o amor nos faz descobrir, igualmente, a verdade do outro.

    A autenticidade do amor não consiste apenas em projetar nossa verdade sobre o outro e, finalmente, ver o outro exclusivamente segundo nossos olhos, mas sim de nos deixar contaminar pela verdade do outro. Não é necessário sermos como os crentes, que acreditam naquilo que procuram, porque projetaram a resposta que esperavam. É aqui que consiste a tragédia. Carregamos conosco uma necessidade tão grande de amor que, por vezes, um encontro, num momento propício – ou mesmo num momento mau – deslancha o processo da fulminação e da fascinação.

    Nesse momento, projetamos sobre o outro nossa necessidade de amor, fixamo-lo e o endurecemos, ignoramos o outro, transformando-o em nossa imagem e totem. Efetivamente, aqui reside uma das tragédias do amor: a incompreensão de si e do outro. Mas a beleza do amor, que reside na interpenetração da verdade do outro em si, implica encontrar sua verdade através da alteridade.

    Concluo. A questão do amor resume-se a essa possessão recíproca: possuir o que nos possui. Somos indivíduos produzidos por processos que nos precederam; somos possuídos por coisas que nos ultrapassam e que irão além de nós, mas, de certo modo, somos capazes de possuí-Ias.
    Em qualquer lugar, a dupla possessão constitui sempre a trama e a experiência de nossas próprias vidas.

    Terminarei fornecendo à pesquisa sobre o amor a fórmula de Rimbaud, a da pesquisa de uma verdade que se situe, simultaneamente, numa alma e num corpo.”

  62. Fy said

    Sem,

    Oh Sem…. isto tb tem que ser um post.

    Vou escrever uma historia do Osho que me lembrei, mas com as minhas palavras… pode ser q seja um pouquinho diferente:

    – Passei toda uma vida procurando a mulher ideal. [ o amor ideal]

    – Puxa, e voce não encontrou?

    – Encontrei, claro!

    – E não ficaram juntos?

    – Pois é, não ficamos. Ela também procurava o homem ideal.

    Bjs

  63. Sem said

    Fy,

    A impressão que eu tenho é que desde que estou aqui no Anoitan não fiz outra coisa senão defender a inseparabilidade entre vida concreta e ideal. Precisa separar?

    Vamos lá por outra fonte, o que o Morin defende é que não existe essa separação brutal e antagônica entre ideal e vivência, entre teoria e prática. Que isso, quando existe, é uma meta construída artificialmente pelo homem na cultura e, justo o contrário, na natureza tudo é tramado junto, misturado, formando o tecido complexo que é a vida.
    “Temos idéias que são capazes de nos possuir”; “construímos a realidade que nos constrói”; somos feitos de ideal e vivência e uma se interpenetra na outra gerando novas possibilidades e concretizações que, sucessivamente, são filhas e mães de si mesmas; somos poesia e prosa, loucura e racionalidade. A pureza é um estado apenas conquistado artificialmente e nem é saudável permanecer muito tempo ali (parece-lhe familiar?).

    O mundo de hoje é muito louco porque nos faz acreditar que as coisas são separadas, e esse é um dos grandes, senão o maior, sofrimento do homem moderno: ter de um lado o culto ao corpo e só dar por real aquilo que for concreto, e de outro disciplinas espirituais que antagonizam e negam a realidade do mesmo corpo. Parece que o nosso tempo exige de nós uma opção: de um lado a negação do corpo e de outro o culto exclusivo a ele, as expensas da alma e do espírito. Precisa ser assim excludente? Impor-nos uma escolha absurda e exigir dos outros a mesma postura?

    Hillman também é crítico dessa separação, que afirma ser artificial e histórica, e toda sua defesa da alma não é outra coisa senão a proposição da junção corpo e espírito.

    Mas como polos (arquetípicos), acredito que exista sim a possibilidade da separação, e talvez um dia, sendo radicais no caminho, tenhamos que escolher entre um e outro. Talvez os santos tenham feito essa escolha, e os grandes libertinos também. E talvez exista uma tênue ligação entre os dois extremos e buscar uma meta vá dar na outra (o que está em cima é o que está embaixo?). Mas nada é garantido que exista a redenção apenas pela radicalidade da escolha, no final pode ser que só o que se encontre seja o engano e a doença. Seja como for, ser radical é sempre uma opção latente ao homem. O mais seguro, saudável, inteligente, bom, eu acho, parece ser mesmo seguir o conselho budista do caminho do meio.

  64. Fy said

    Hillman também é crítico dessa separação, que afirma ser artificial e histórica, e toda sua defesa da alma não é outra coisa senão a proposição da junção corpo e espírito.

    Sem, esta é uma das coisas que mais me encantou no Hillman.

    Eu vou procurar mais tarde, um ensaio dele que li, – talvez vc conheça – em que ele inicia esta crítica mencionando o Concílio de Nicéia – … vou procurar.

    Eu estou meio maluca agora, com tudo o que existe… na minha mesa….
    Mas, lembrei de uma coisa que tem muito a ver com tudo o que se tornou artificial, e que, em minha opinião, adoeceu nossas saudáveis almas separando-as dos nossos corpos. Aiaiai – [ até a morte, se tornou artificial e esquisita. Mais tarde eu vou estar mais tranqüila, pra elaborar uma resposta.]

    Gosto disto:

    Se partires um dia rumo à Ítaca
    Faz votos de que o caminho seja longo

    repleto de aventuras, repleto de saber.

    Nem lestrigões, nem ciclopes,

    nem o colérico Posidon te intimidem!

    Eles no teu caminho jamais encontrarás

    Se altivo for teu pensamento

    Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito, tocar

    Nem lestrigões, nem ciclopes

    Nem o bravio Posidon hás de ver

    Se tu mesmo não os levares dentro da alma

    Se tua alma não os puser dentro de ti.

    Faz votos de que o caminho seja longo.

    Numerosas serão as manhãs de verão

    Nas quais com que prazer, com que alegria

    Tu hás de entrar pela primeira vez um porto

    Para correr as lojas dos fenícios

    e belas mercancias adquirir.

    Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos

    E perfumes sensuais de toda espécie

    Quanto houver de aromas deleitosos.

    A muitas cidades do Egito peregrinas

    Para aprender, para aprender dos doutos.

    Tem, todo o tempo, ítaca na mente.

    Estás predestinado a ali chegar.

    Mas, não apresses a viagem nunca.

    Melhor muitos anos levares de jornada

    E fundeares na ilha velho, enfim.

    Rico de quanto ganhaste no caminho

    Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.

    Uma bela viagem deu-te Ítaca.

    Sem ela não te ponhas a caminho.

    Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

    Ítaca não te iludiu

    Se a achas pobre.

    Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.

    E, agora, sabes o que significam Ítacas.

    Constantino Kabvafis (1863-1933)
    in: O Quarteto de Alexandria – trad. José Paulo Paz.

    Bjs

  65. Fy said

    Heráclito dizia: “Morrer de vida, viver de morte.”

    ” Tem, todo o tempo, ítaca na mente. ”

    Estás predestinado a ali chegar.

    Mas, não apresses a viagem nunca. [!!!]

    [quem passou pela vida… e não viveu….]

    – Morrer de vida!!! – Saravá Heráclito!

    Bjs

  66. Fy said

    Sem,

    Este ensaio do Morin é ma-ra-vi-lho-so !
    Eu já li umas 3 vzs e não canso.

    A autenticidade do amor não consiste apenas em projetar nossa verdade sobre o outro e, finalmente, ver o outro exclusivamente segundo nossos olhos,
    mas sim de nos deixar contaminar pela verdade do outro.

    “- que outro sentido poderia haver?” – em qualquer situação de amor?

    Não é necessário sermos como os crentes, que acreditam naquilo que procuram, porque projetaram a resposta que esperavam.
    É aqui que consiste a tragédia.

    Carregamos conosco uma necessidade tão grande de amor que, por vezes, um encontro, num momento propício – ou mesmo num momento mau – deslancha o processo da fulminação e da fascinação.
    Nesse momento, projetamos sobre o outro nossa necessidade de amor, fixamo-lo e o endurecemos, ignoramos o outro, transformando-o em nossa imagem e totem.

    E-fe-ti-va-men-te, aqui reside uma das tragédias do amor: a incompreensão de si e do outro.

    Mas a beleza do amor, que reside na interpenetração da verdade do outro em si, implica encontrar sua verdade através da alteridade.

    Concluo. A questão do amor resume-se a essa possessão recíproca: possuir o que nos possui.
    Somos indivíduos produzidos por processos que nos precederam; somos possuídos por coisas que nos ultrapassam e que irão além de nós, mas, de certo modo, somos capazes de possuí-Ias.

    Em qualquer lugar, a dupla possessão constitui sempre a trama e a experiência de nossas próprias vidas.

    Terminarei fornecendo à pesquisa sobre o amor a fórmula de Rimbaud,
    a da pesquisa de uma verdade que se situe, simultaneamente, numa alma e num corpo.”

    Il y a un espace
    Hors de l’ espace
    Un temps
    Hors du temps
    Ou celui
    Qui a perdu la memoire,
    Le contact,
    Na perdu
    Ni l’un ni autre. – Até mesmo quando a alma se perde do corpo e o corpo se perde da alma.

    Vamos lá por outra fonte, o que o Morin defende é que não existe essa “separação brutal e antagônica” entre ideal e vivência, entre teoria e prática.

    Que isso, quando existe, é uma meta construída artificialmente pelo homem na cultura e, justo o contrário,

    “na natureza tudo é tramado junto, misturado, formando o tecido complexo que é a vida.”

    “Temos idéias que são capazes de nos possuir”; “construímos a realidade que nos constrói”; somos feitos de ideal e vivência e uma se interpenetra na outra gerando novas possibilidades e concretizações que, sucessivamente, são filhas e mães de si mesmas; somos poesia e prosa, loucura e racionalidade.

    A pureza é um estado apenas conquistado artificialmente e nem é saudável permanecer muito tempo ali (parece-lhe familiar?).

    – E como ! Que graça teria viver se a vida não fôsse “de verdade”?

    Sem, este ensaio do Morin, teu comentário, são textos que vão ganhando velocidade, vão correndo dentro dagente. São daqueles textos que agente lê, pra sempre !

    É mto ruim eles ficarem aqui, escondidos; – de verdade, isto deveria muito, ser um post. É um presente raro. É de verdade!

    Bjs

  67. Sem said

    Fy,

    Estou escrevendo dois posts a respeito de polaridades, um deles está praticamente pronto e nele falo bastante do Morin. Assim que tiver tempo para revisar eu publico. O outro vai demorar outro tanto, pois é a respeito das minhas próprias idéias no assunto, aquelas de quando as polaridades se aproximam por colaboração ou competição. Já discuti bastante a respeito, já li um bocado, já comprovei na prática muita coisa, mas ainda não tinha colocado pra valer nada no “papel” e é incrível como escrever é diferente de falar, não é? até parece que são duas linguagens completamente distintas…

    A histórinha que au acabei de publicar tb tem a ver com dualidades, foi uma sincronicidade com o post da Lu, pois já vinha pensando em geometria há alguns dias… aquela coisa dos arquétipos e estou lendo pré-socráticos… tudo está intimamente relacionado, pelo menos pra mim.

    Fiquei bem contente que tenha gostado do Morin. Neste caso vc vai adorar isso aqui, o que ele tem a dizer sobre poesia, tão ou “mais” melhor de bom que sobre o amor:

    Ensaiarei sustentar a seguinte tese: o futuro da poesia reside em sua própria fonte. Mas que fonte é essa? É difícil perceber. Ela se perde nas profundezas humanas tanto quanto nas profundezas da pré-história, onde surgiu a linguagem, nas profundezas dessa embalagem estranha que é o cérebro e o espírito humano. Gostaria de adiantar algumas idéias preliminares para falar de poesia.

    Inicialmente, é preciso reconhecer que, qualquer que seja a cultura, o ser humano produz duas linguagens a partir de sua língua: uma, racional, empírica, prática, técnica; outra, simbólica, mítica, mágica. A primeira tende a precisar, denotar, definir, apóia-se sobre a lógica e ensaia objetivar o que ela mesma expressa. A segunda utiliza mais a conotação, a analogia, a metáfora, ou seja, esse halo de significações que circunda cada palavra, cada enunciado e que ensaia traduzir a verdade da subjetividade. Essas duas linguagens podem ser justapostas ou misturadas, podem ser separadas, opostas, e a cada uma delas correspondem dois estados. O primeiro, também chamado de prosaico, no qual nos esforçamos por perceber, raciocinar, e que é o estado que cobre uma grande parte de nossa vida cotidiana. O segundo estado, que se pode justamente chamar de “estado segundo”, é o estado poético.

    O estado poético pode ser produzido pela dança, pelo canto, pelo culto, pelas cerimônias e, evidentemente, pelo poema. FERNANDO PESSOA dizia que, em cada um de nós, há dois seres. O primeiro, o verdadeiro, é o dos nossos sonhos, que nasce na infância e que continua pela vida toda. O segundo ser, o falso, é o das aparências, de nossos discursos, atos, gestos. Não diria que um é verdadeiro e o outro, falso, mas, efetivamente, a cada um desses dois estados correspondem dois seres em nós. A esse estado segundo corresponde o que o adolescente Rimbaud percebeu muito claramente, principalmente em sua famosa Carta do vidente: esse estado não é um estado de visão, mas um estado de vidência.

    Poesia-prosa constituem, portanto, o tecido de nossa vida. Hölderlin afirmava: ” O homem habita a terra poeticamente.” Acredito ser necessário dizer que o homem a habita, simultaneamente, poética e prosaicamente. Se não houvesse prosa, não haveria poesia, do mesmo modo que a poesia só poderia evidenciar-se em relação ao prosaísmo. Em nossas vidas, convivemos com essa dupla existência, essa dupla polaridade.

    Nas sociedade arcaicas, injustamente chamadas de primitivas, que povoaram a terra e formaram a humanidade, e que estão sendo massacradas na Amazônia e em outras regiões, havia uma relação estreita entre esses dois estados, que se encontravam entrelaçados. Na vida cotidiana, o trabalho era acompanhado por cantos e ritmos, e enquanto preparava-se a farinha nos pilões, cantava-se ou utilizava-se esse mesmos ritmos.

    Tomemos como exemplo a preparação da caça, testemunhada pelas pinturas pré-históricas, principalmente as da gruta de Lascaux, na França.

    Essas pinturas indicam que os caçadores realizavam ritos de encantamento sobre a caça, pintados depois na rocha. Mas não se satisfaziam apenas com eles: utilizavam flechas reais, estratégias empíricas, ou misturando as duas. Em nossas sociedades contemporâneas ocidentais operou-se uma disjunção entre os estados da prosa e da poesia.

    Houve duas rupturas. A primeira ocorreu a partir da Renascença, quando se desenvolveu uma poesia cada vez mais profana. Ocorreu, igualmente, a partir do século XII, uma outra dissociação entre uma cultura dita científica e técnica e uma cultura humanista, literária, incluindo a poesia. Foi a partir dessas duas dissociações que a poesia autonomizou-se e tornou-se estritamente poesia.

    Separou-se da ciência, da técnica e, evidentemente, separou-se da prosa.
    Separou-se dos mitos e, com isso, quero dizer que ela é mais mito, embora se nutra de sua fonte, que é o pensamento simbólico, mitológico, mágico. Em nossa cultura ocidental, tanto a poesia quanto a cultura humanista foram relegadas. Relegadas no lazer e no divertimento, relegadas por adolescentes e por mulheres, transformaram-se, de algum modo, num elemento inferiorizado em relação à prosa da vida.

    Houve duas revoltas históricas da poesia. A primeira foi a do ROMANTISMO, principalmente, o de origem alemã. Representou a revolta contra a invasão da prosaidade, do mundo utilitário, do mundo burguês, que se desenvolveu no início do século XIX.

    A segunda revolta foi a do SURREALISMO, cuja ocorrência pode ser situada no início do século XX. O surrealismo representou a recusa da poesia em se deixar reduzir ao poema, quer dizer, a uma pura e simples expressão literária. Não se trata de uma negação do poema, porque Breton, seguido por Péret, Eluard e outros, fizeram poemas admiráveis; mas a idéia surrealista é a de que a poesia extrai sua fonte da vida, com seus sonhos e acasos. Todos sabemos a importância que os surrealistas atribuíam ao acaso. O que ocorreu, então, foi uma desprosaização da vida cotidiana, que começou com Arthur Rimbaud, quando este se maravilhou com as tendas militares estrangeiras e com o latim das igrejas. Os surrealistas dignificaram os cinemas e foram os primeiros a admirar Charlie Chaplin. Em resumo, a primeira mensagem surrealista foi desprosaizar a vida cotidiana, reintroduzir a poesia na vida. Havia também uma revolta com aspirações revolucionárias, não apenas contra o mundo prosaizado, mas contra os horrores produzidos pela Primeira Guerra Mundial. Breton pretendeu associar a fórmula política revolucionária “mudar o mundo” à fórmula poética surrealista “mudar a vida”. Mas essa aventura acarretou muitos equívocos, inclusive a autodestruição dos poetas, quando os mesmos pretenderam subordinar a poesia a um partido político. E aqui se encontra um dos paradoxos da poesia. O poeta não precisa se fechar no território restrito e confinado dos jogos de palavras e símbolos. O poeta possui uma competência total, multidimensional, que concerne à humanidade e à política, mas não se deixar submeter à organização política. Sua mensagem política implica ultrapassar o político. Localizamos, portanto, duas revoltas de poesia. E agora, qual é a sua situação neste fim de século e de milênio?

    Inicialmente, podemos nos referir a uma grande expansão da hiperprosa, que se articula à expansão de um modo de vida monetarizado, cronometrado, parcelarizado, compartimentado, atomizado e de um modo de pensamento no qual os especialistas consideraram-se competentes para todos os problemas, igualmente ligados à expansão econômico-tecnoburocrática. Diante dessas condições, penso que esta invasão da hiperprosa cria a necessidade de uma hiperpoesia.

    Há outro fato que marca este final de século: a destruição, ou melhor, a autodestruição da idéia de salvação terrestre. Acreditou-se que o progresso estava automaticamente garantido pela evolução histórica. Acreditou-se que a ciência seria sempre progressiva, que a indústria sempre traria benefícios, que a técnica só traria melhorias. Acreditou-se que as leis históricas garantiriam o desenvolvimento da humanidade e, tomando por base esse argumento, acreditou-se ser possível atingir a salvação na terra, ou seja, o reino da felicidade que as religiões prometiam no céu. O que se constata hoje é o abandono da idéia de uma salvação na terra, o que não significa ser necessário renunciar a idéia de aperfeiçoar as relações humanas e civilizar a humanidade. O abandono da idéia de salvação encontra-se ligado à compreensão de que não existem leis históricas, que o progresso não é automático e nem se encontra garantido. O progresso deve não apenas ser conquistado, mas, uma vez conquistado, pode regredir, tornando-se sempre necessário regenerá-lo.

    Hoje, como afirma o filósofo tcheco Patocka, ” o futuro encontra-se problematizado e ficará assim para sempre.” Situamo-nos nessa aventura incerta e, a cada dia, os acontecimento que se produzem no mundo indicam que nos encontramos na noite e na neblina. E porque é assim? Porque ingressamos plenamente na era planetária, uma era na qual ações múltiplas e incessantes encontram-se em todas as partes da Terra, e no que concerne aos poços de petróleo do Iraque e do Kuwait diz respeito à humanidade como um todo. Ao mesmo tempo, devemos compreender que nos encontramos nesse pequeno planeta, nessa comum, perdidos no cosmos, e que nossa missão deve ser efetivamente a de civilizar as relações humanas sobre o nosso planeta. As religiões e política salvacionistas reiteram: sejamos irmãos, porque seremos salvos. Acredito que hoje seja necessário dizer: sejamos irmãos porque estamos perdidos num planeta suburbano, de um sol suburbano, de uma galáxia periférica, de um mundo desprovido de centro. Mesmo assim, possuímos plantas, pássaros, flores, assim como a diversidade de vida, as possibilidades do espírito humano. Doravante, aqui residirão nosso único fundamento e nosso único recurso possível.

    A descoberta de nossa situação de perdição num gigantesco cosmos adveio das descobertas da astrofísica. Isto significa que, atualmente, é possível um diálogo entre ciência e poesia, e isso porque a ciência nos revela um universo fabulosamente poético ao redescobrir problemas filosófico capitais: “O que é o homem?” “Qual é o seu lugar?” ” Qual é o seu destino?” “O que se pode esperar dele?” Com efeito, o antigo universo de ciência era um máquina perfeita, inteiramente determinista, animado por um movimento perpétuo, um relógio permanente no qual nada ocorria, nada era criado, nada se alterava. Esta máquina, lamentavelmente pobre em sua perfeição, desintegrou-se. E o que vemos agora? Sabemos que o universo nasceu, talvez, há 15 bilhões de anos, de uma fantástica explosão, de onde bruscamente brotaram o tempo , a luz, a matéria, como se esse início fosse uma espécie de explosão desorganizadora a partir da qual o universo organizou-se. Encontramo-nos numa incrível aventura. A vida nos parecia banal, evidente, mas descobrimos que uma bactéria, com seus milhões de moléculas, é mais complexa do que todas as usinas do Ruhr reunidas. Demo-nos conta de que o real, que parecia tão sólido e evidente, dissipou-se sob o olhar da microfísica, e que, do ponto de vista do cosmos, o tempo e o espaço, que pareciam tão distintos, se misturaram. Muitos astrofísicos pressentem que esse mundo de separação do espaço e do tempo é como uma espuma consituída por algo diferente em que as separações do espaço e do tempo não existem mais.

    Onde se encontra a poesia hoje? Na poesia e em outros domínios adquirimos a idéia de que não existe vanguarda, no sentido de que a vanguarda traz algo melhor do que aquilo que havia antes. Talvez a idéia pós-moderna consista em afirmar que o novo não é necessariamente o melhor. Fabricar o novo pelo novo é estéril. O problema não reside não produção sistemática e forçada do novo. A verdadeira novidade nasce sempre de uma volta às origens. Por que Jean-Jacques Rousseau é tão prodigiosamente novo? Por que pretendeu debruçar-se sobre a fonte da humanidade, a origem da propriedade e da civilização e, no fundo, toda novidade deve passar pelo recurso e pelo retorno ao antigo. Pode ser que essa idéia seja pós-moderna, ou mesmo pós-pós-moderna, mas tudo isso é secundário. O objetivo que permanece fundamental na poesia é o de nos colocar num estado segundo, ou, mais precisamente, fazer com que esse estado segundo converta-se num estado primeiro. O fim da poesia é o de nos colocar em estado poético.

    Fonte: MORIN, Edgar. Amor, poesia, sabedoria. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998. (pp.35-43)

  68. Fy said

    Sem,
    Fui dar uma olhada na biografia do Edgar Morin. Os livros devem ser maravilhosos. Alem do que é um revolucionário. Adorei as teorias dele, o Pensamento Complexo; genial. Este artigo sobre Poesia, o do Amor: corpo e alma. Depois vou procurar mais coisa.

    Quero muito que vc leia esta poesia abaixo. É impressionante como o Guaco descreve este momento; – momento que acredito que todos nós tenhamos.
    É quando por alguma razão a alma se afasta do corpo ou o corpo da alma, e agente sente uma necessidade enorme de estar só, de se buscar, de possibilitar a reunião dos dois.

    – Il y a un espace – hors de l’espace – un temps – hors du temps…

    Aquela musica: Away with the fairies é também uma alusão à busca deste momento – espaço.

    Perdoe-me, – adeus.
    Os segredos lhe põe medo.
    por isso não posso ficar.
    Entende?
    A pressão do prédio, concreto, pessoas, familias e televisores.
    Entende?
    Ganhei asas. mas não quero voar.
    Quero nadar. afundar no som de meu coração
    com a pressão nos ouvidos aparando o mundo,
    expelindo todo o mal pelo umbigo
    (nanquim petrolífico de sacrifício).
    Adeus terra, firmamento, ó céu,
    mergulho longe de ti.
    Frágil no oceano feito feto outra vez.
    Eu me quero.
    Eu me devolvo.
    Além do meu tempo,
    davagar eu acordo.
    E no deserto eu sou rei. sozinho eu sou comigo.
    Ali líder e seguidor aqui dentro estou.
    Sem deus, senhor, governo ou corporações.
    (a burocracia deixo no reflexo do espectro)
    Estou pronto para libertar minha sinoidal.
    E que a sinoidal me leve.
    Se a sinoidal não me levar, à puta que pariu,
    eu mesmo ao oceano me lanço.
    Com ou sem sua ajuda, que a sinoidal cobre o preço.
    (cansado mas justo)
    Nada possuo além dum espírito roubado, mesmo assim
    contente eu pago.
    Entende?
    Qual o preço por estar longe disso?
    Entende?
    A pressão das pessoas, concreto, televisores, familias e prédios.
    Entende?
    Este mundo quadrado machuca minha vontade redonda.
    Este mundo, do artifício, das funções, das oposições, roubou meu espírito.
    Só me resta o mar. quero nadar.
    Amigo, fique com minhas asas também.
    Não quero voar. nem ao sol brilhar. quero silêncio. ouvir meu coração.
    Frágil no abraço do oceano. quero-me feto no ventre da mãe-terra.
    Nascer de novo. dessa vez peixe.
    (gigante e herbívoro, por favor)
    no escuro da mente.
    No breu dos segredos.
    Na água.
    Onde posso voar.
    Entende?

    by Guacobey 09/02/07

    http://malprg.blogs.com/francoatirador/2007/02/casa_de_orates.html

    Bjs

  69. Kingmob said

    Eu não sei francês, mas vou traduzir o Rimbaud mesmo assim.

    >IIl y a un espace
    Hors de l’ espace
    Un temps
    Hors du temps
    Ou celui
    Qui a perdu la memoire,
    Le contact,
    Na perdu la memoire,
    Le contact,
    Na perdu
    Ni l’un ni autre

    tradução anarquista:

    Ela, eu e um Espaço
    As horas do Espaço.
    Uns tempos.
    As horas dos Tempos.

    E a célula
    que perdeu a memória.

    Mas o contato
    não se perdeu
    nem em um nem no outro.

    =D

  70. Fy said

    Mob,

    Poeta não traduz, faz poesia…da poesia…da poesia
    A sua ficou mais bonita:

    Há um espaço
    fora do espaço

    um tempo
    fora do tempo

    onde quem
    perdeu a memória
    o contato

    não perdeu
    nem um e nem outro.

    Bjs

  71. Sem said

    Puxa que puxa tudo!

    e concordo com a Fy: “Poeta não traduz, faz poesia…da poesia…da poesia
    A sua ficou mais bonita:”

    ………………..

    Diálogo entre poetas:

    “Não foste apenas um segredo
    De poesia e de emoção
    Foste uma estrela em meu degredo
    Poeta, pai! áspero irmão.

    Não me abraçaste só no peito
    Puseste a mão na minha mão
    Eu, pequenino – tu, eleito
    Poeta! pai, áspero irmão.

    Lúcido, alto e ascético amigo
    De triste e claro coração
    Que sonhas tanto a sós contigo
    Poeta, pai, áspero irmão?”

    (Vinicius de Moraes)

    “Poeta sou; pai, pouco; irmão, mais.
    Lúcido, sim; eleito, não.
    E bem triste de tantos ais
    Que me enchem a imaginação.

    Com que sonho? Não sei bem não.
    Talvez com me bastar, feliz
    – Ah feliz como jamais fui! –
    Arrancado do coração
    – Arrancando pela raiz –
    Este anseio infinito e vão
    De possuir o que me possui.”

    (Manuel Bandeira)

  72. Sem said

    Drummond:

    Em verdade temos medo.
    Nascemos escuro.
    As existências são poucas:
    Carteiro, ditador, soldado.
    Nosso destino, incompleto.

    E fomos educados para o medo.
    Cheiramos flores de medo.
    Vestimos panos de medo.
    De medo, vermelhos rios
    vadeamos.

    Somos apenas uns homens
    e a natureza traiu-nos.
    Há as árvores, as fábricas,
    Doenças galopantes, fomes.

    Refugiamo-nos no amor,
    este célebre sentimento,
    e o amor faltou: chovia,
    ventava, fazia frio em São Paulo.

    Fazia frio em São Paulo…
    Nevava.
    O medo, com sua capa,
    nos dissimula e nos berça.

    Fiquei com medo de ti,
    meu companheiro moreno,
    De nós, de vós: e de tudo.
    Estou com medo da honra.

    Assim nos criam burgueses,
    Nosso caminho: traçado.
    Por que morrer em conjunto?
    E se todos nós vivêssemos?

    Vem, harmonia do medo,
    vem, ó terror das estradas,
    susto na noite, receio
    de águas poluídas. Muletas

    do homem só. Ajudai-nos,
    lentos poderes do láudano.
    Até a canção medrosa
    se parte, se transe e cala-se.

    Faremos casas de medo,
    duros tijolos de medo,
    medrosos caules, repuxos,
    ruas só de medo e calma.

    E com asas de prudência,
    com resplendores covardes,
    atingiremos o cimo
    de nossa cauta subida.

    O medo, com sua física,
    tanto produz: carcereiros,
    edifícios, escritores,
    este poema; outras vidas.

    Tenhamos o maior pavor,
    Os mais velhos compreendem.
    O medo cristalizou-os.
    Estátuas sábias, adeus.

    Adeus: vamos para a frente,
    recuando de olhos acesos.
    Nossos filhos tão felizes…
    Fiéis herdeiros do medo,

    eles povoam a cidade.
    Depois da cidade, o mundo.
    Depois do mundo, as estrelas,
    dançando o baile do medo.

  73. Fy said

    Sem,

    Isto é mto lindo tb; – só que é mto comprido, então coloquei o link pra vcs terminarem. Vc conhece?

    [ as letras maiúsculas e a pontuação estranha são originais do texto]

    NUM SENTIMENTO de febre de ser para além doutro oceano

    Houve posições dum viver mais claro e mais límpido

    E aparências duma cidade de seres

    Não irreais mas lívidos de impossibilidade, consagrados em pureza e em nudez

    Fui pórtico desta visão irrita e os sentimentos eram só o desejo de os ter

    A noção das coisas fora de si, tinha-as cada um adentro

    Todos viviam na vida dos restantes

    E a maneira de sentir estava no modo de se viver

    Mas a forma daqueles rostos tinha a placidez do orvalho

    A nudez era um silêncio de formas sem modo de ser

    E houve pasmos de toda a realidade ser só isto

    Mas a vida era a vida e só era a vida.

    http://www.bibvirt.futuro.usp.br:8080/content/view/full/17625

    – Clike no “texto integral”

    Bjs

  74. Kingmob said

    Borges:

    UM CEGO

    Não sei qual é a face que me mira
    quando miro essa face que há no espelho;
    e desconheço no reflexo o velho
    que o escruta, com silente e exausta ira.
    Lento na sombra, com a mão exploro
    meus traços invisíveis. Um lampejo
    me alcança. O seu cabelo, que entrevejo,
    é todo cinza ou é ainda de ouro.
    Repito que perdi unicamente
    a superfície vã das simples coisas.
    Meu consolo é de Milton e é valente,
    porém penso nas letras e nas rosas.
    Penso que se pudesse ver meu rosto
    saberia quem sou neste sol-posto.

    Rilke:

    DANÇARINA ESPANHOLA

    Como um fósforo a arder antes que cresça
    a flama, distendendo em raios brancos
    suas línguas de luz, assim começa
    e se alastra ao redor, ágil e ardente,
    a dança em arco aos trêmulos arrancos.

    E logo ela é só flama, inteiramente.

    Com um olhar põe fogo nos cabelos
    e com arte sutil dos tornozelos
    incendeia também os seus vestidos
    de onde, serpentes doidas, a rompê-los,
    saltam os braços nus com estalidos.

    Então como se fosse um feixe aceso,
    colhe o fogo num gesto de desprezo,
    atira-o bruscamente no tablado
    e o contempla. Ei-lo ao rés do chão, irado,
    a sustentar ainda a chama viva.
    Mas ela, do alto, num leve sorriso
    de saudação, erguendo a fronte altiva,
    pisa-o com seu pequeno pé preciso.

    Emily Dickinson: (que saudade, que saudade!)

    245

    Tive uma jóia nos meus dedos —
    E adormeci —
    Quente era o dia, tédio os ventos —
    “É minha”, eu disse —

    Acordo — e os meus honestos dedos
    (Foi-se a Gema) censuro —
    Uma saudade de Ametista
    É o que eu possuo —

    Tradução: Augusto de Campos

    245

    I held a Jewel in my fingers —
    And went to sleep —
    The day was warm, and winds were prosy —
    I said “‘Twill keep” —

    I woke — and chid my honest fingers,
    The Gem was gone —
    And now, an Amethyst remembrance
    Is all I own —

    Mário de Sá-Carneiro: isso que é língua portuguesa

    QUASE

    Um pouco mais de sol — eu era brasa.
    Um pouco mais de azul — eu era além.
    Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
    Se ao menos eu permanecesse aquém…

    Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
    Num baixo mar enganador d’espuma;
    E o grande sonho despertado em bruma,
    O grande sonho — ó dor! — quase vivido…

    Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
    Quase o princípio e o fim — quase a expansão…
    Mas na minh’alma tudo se derrama…
    Entanto nada foi só ilusão!

    De tudo houve um começo… e tudo errou…
    — Ai a dor de ser-quase, dor sem fim… —
    Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
    Asa que se elançou mas não voou…

    Momentos de alma que desbaratei…
    Templos aonde nunca pus um altar…
    Rios que perdi sem os levar ao mar…
    Ânsias que foram mas que não fixei…

    Se me vagueio, encontro só indícios…
    Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
    E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
    Puseram grades sobre os precipícios…

    Num ímpeto difuso de quebranto,
    Tudo encetei e nada possuí…
    Hoje, de mim, só resta o desencanto
    Das coisas que beijei mas não vivi…

    …………………………………….
    …………………………………….

    Um pouco mais de sol — e fora brasa,
    Um pouco mais de azul — e fora além.
    Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
    Se ao menos eu permanecesse aquém…

    (Paris, 13 de maio de 1913)

    Ana Crisinta César:

    SONETO

    Pergunto aqui se sou louca
    Quem quer saberá dizer
    Pergunto mais, se sou sã
    E ainda mais, se sou eu

    Que uso o viés pra amar
    E finjo fingir que finjo
    Adorar o fingimento
    Fingindo que sou fingida

    Pergunto aqui meus senhores
    quem é a loura donzela
    que se chama Ana Cristina

    E que se diz ser alguém
    É um fenômeno mor
    Ou é um lapso sutil?

    -x-

    Bom dia!
    Pace e Bene.
    Mob.

  75. Sem said

    Desculpem a sequência longa e meio tétrica, mas é a que me ocorre (andei lendo Borges… :))

    AS COISAS

    A bengala, as moedas, o chaveiro,
    a fechadura dócil, as tardias
    notas que não lerão os poucos dias
    que me restam, o naipe, o tabuleiro,
    um livro e dentro dele a emurchecida
    violeta, monumento de uma tarde
    por certo inesquecível já esquecida,
    o rubro espelho ocidental em que arde
    uma aurora ilusória. Quantas coisas,
    atlas, limas, umbrais, taças e cravos
    nos servem como tácitos escravos –
    cegas e estranhamente sigilosas.
    Durarão muito mais que nosso olvido,
    não saberão quando tivermos ido.

    LAS COSAS

    El bastón, las monedas, el llavero,
    la dócil cerradura, las tardías
    notas que no leerán los pocos días
    que me quedan, los naipes y el tablero,
    un libro y en sus páginas la ajada
    violeta, monumento de una tarde
    sin duda inolvidable y ya olvidada,
    el rojo espejo occidental en que arde
    una ilusoria aurora. Cuántas cosas,
    limas, umbrales, atlas, copas, clavos,
    nos sirven como tácitos esclavos,
    ciegas y extrañamente sigilosas
    durarán más allá de nuestro olvido;
    no sabrán nunca que nos hemos ido.

    Jorge Luis Borges

    As coisas que te cercam, até onde
    alcança tua vista, tão passivas
    em sua opacidade, que te impedem
    de enxergar o (inexistente) horizonte,
    que justamente por não serem vivas
    se prestam para tudo, e nunca pedem

    nem mesmo uma migalha de atenção,
    essas coisas que você usa e esquece
    assim que larga na primeira mesa —
    pois bem: elas vão ficar. Você, não.
    Tudo que pensa passa. Permanece
    a alvenaria do mundo, o que pesa.

    O mais é enchimento, e se consome.
    As tais Formas eternas, as Idéias,
    e a mente que as inventa, acabam em pó,
    e delas ficam, quando muito, os nomes.
    Muita louça ainda resta de Pompéia,
    mas lábios que a tocaram, nem um só.

    As testemunhas cegas da existência,
    sempre a te olhar sem que você se importe,
    vão assistir sem compaixão nem ânsia,
    com a mais absoluta indiferença,
    quando chegar a hora, a tua morte.
    (Não que isso tenha a mínima importância.)

    Paulo Henriques Britto

    Uma Arte (tradução de Paulo Henriques Britto)

    A arte de perder não é nenhum mistério;
    tantas coisas contêm em si o acidente
    de perdê-las, que perder não é nada sério.

    Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
    a chave perdida, a hora gasta bestamente.
    A arte de perder não é nenhum mistério.

    Depois perca mais rápido, com mais critério:
    lugares, nomes, a escala subseqüente
    da viagem não feita. Nada disso é sério.

    Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
    lembrar a perda de três casas excelentes.
    A arte de perder não é nenhum mistério.

    Perdi duas cidades lindas. E um império
    que era meu, dois rios, e mais um continente.
    tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

    — Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
    que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
    que a arte de perder não chega a ser mistério
    por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

    One Art

    The art of losing isn’t hard to master;
    so many things seem filled with the intent
    to be lost that their loss is no disaster.

    Lose something every day. Accept the fluster
    of lost door keys, the hour badly spent.
    The art of losing isn’t hard to master.

    Then practice losing farther, losing faster:
    places, and names, and where it was you meant
    to travel. None of these will bring disaster.

    I lost my mother’s watch. And look! my last, or
    next-to-last, of three loved houses went.
    The art of losing isn’t hard to master.

    I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
    some realms I owned, two rivers, a continent.
    I miss them, but it wasn’t a disaster.

    — Even losing you (the joking voice, a gesture
    I love) I shan’t have lied. It’s evident
    the art of losing’s not too hard to master
    though it may look like (Write it!) like disaster.

    Elizabeth Bishop

    CATANDO OS CACOS DO CAOS

    Catar os cacos do caos
    como quem cata no deserto
    o cacto
    ………… – como se fosse flor.

    Catar os restos e ossos
    da utopia
    ………… como de porta em porta
    o lixeiro apanha
    detritos da festa fria
    e pobre no crepúsculo
    se aquece na fogueira erguida
    com os destroços do dia.

    Catar a verdade contida
    em cada concha de mão,
    como o mendigo cata as pulgas
    no pelo
    ………… – do dia cão.

    Recortar o sentido
    como o alfaiate-artista,
    costurá-lo pelo avesso
    com a inconsútil emenda
    à vista.

    Como o arqueólogo
    reunir os fragmentos,
    como se ao vento
    se pudessem pedir as flores
    despetaladas no tempo.

    Catar os cacos de Dionísio
    e Baco, no mosaico antigo
    e no copo seco erguido
    beber o vinho
    ou sangue vertido.

    Catar os cacos de Orfeu partido
    pela paixão das bacantes
    e com Prometeu refazer
    o fígado
    ………… – como era antes.

    Catar palavras cortantes
    no rio do escuro instante
    e descobrir nessas pedras
    o brilho do diamante.

    É um quebra-cabeça? ………… Então
    de cabeça quebrada vamos
    sobre a parede do nada
    deixar gravada a emoção

    ……Cacos de mim
    ……Cacos do não
    ……Cacos do sim
    ……Cacos do antes
    ……Cacos do fim

    Não é dentro
    ………… nem fora
    embora seja dentro e fora
    ….. no nunca e a toda hora
    que violento
    …..o sentido nos deflora.

    Catar os cacos
    do presente e outrora
    e enfrentar a noite
    com o vitral da aurora

    Affonso Romano de Sant’Anna

    Como a noite descesse e eu me sentisse só, só e
    ……………..[ desesperado diante dos horizontes
    ……………..[ que se fechavam,
    gritei alto, bem alto: ó doce e incorruptível
    ……………..[ Aurora! e vi logo que só as estrelas
    ……………..[ é que me entenderiam.
    Era preciso esperar que o próprio passado
    ………………………………….[ desaparecesse,
    ou então voltar à infância.
    Onde, entretanto, quem me dissesse
    ao coração trêmulo:
    — É por aqui!

    Onde, entretanto, quem me dissesse
    ao espírito cego:
    — Renasceste: liberta-te!

    Se eu estava só, só e desesperado,
    por que gritar tão alto?
    Por que não dizer baixinho, como quem reza:
    — Ó doce e incorruptível Aurora…
    se só as estrelas é que me entenderiam?

    Emílio Moura

    Já te despedes de mim, Hora.
    Teu golpe de asa é o meu açoite.
    Só: da boca o que faço agora?
    Que faço do dia, da noite?
    Sem paz, sem amor, sem teto,
    caminho pela vida afora.
    Tudo aquilo em que ponho afeto
    fica mais rico e me devora.

    Rainer Maria Rilke

    O SUICIDA

    Não restará na noite uma estrela.
    Não restará a noite.
    Morrerei, e comigo a soma
    do intolerável universo.
    Apagarei as pirâmides, as medalhas,
    os continentes e os rostos.
    Apagarei a acumulação do passado.
    Transformarei em pó a história, em pó o pó.
    Estou mirando o último poente.
    Ouço o último pássaro.
    Deixo o nada a ninguém.

    Jorge Luis Borges

  76. Fy said

    O Duende de que falo, obscuro e estremecido, é descendente daquele alegríssimo demônio de Sócrates, mármore e sal que o arranhou indignado no dia em que tomou a cicuta, e do outro melancólico demoniozinho de Descartes, pequeno como amêndoa verde, que, farto de círculos e de linhas, saiu pelos canais para ouvir cantarem os marinheiros bêbados.

    Para buscar o Duende não há mapa nem exercício.

    Só se sabe que ele queima o sangue como uma beberagem de vidros, que esgota, que rechaça toda a doce geometria aprendida, que rompe os estilos, que faz com que Goya, mestre nos cinzas, nos pratas e nos rosas da melhor pintura inglesa, pinte com os joelhos e com os punhos com horríveis negros de betume; ou que desnuda Mosén Cinto Verdaguer com o frio dos Pirineus, ou leva Jorge Manrique a esperar a morte no páramo de Ocaña, ou veste com uma roupa verde de saltimbanco o corpo delicado de Rimbaud, ou põe olhos de peixe morto no conde Lautréamont na madrugada do boulevard.

    Os grandes artistas do sul da Espanha, Ciganos ou Flamengos, quer cantem, dancem ou toquem, sabem que não é possível nenhuma emoção sem a chegada do Duende.

    A virtude mágica do poema consiste em estar sempre Enduendado para batizar com água obscura a todos os que o vêem, porque com Duende é mais fácil amar, compreender, e é certeza ser amado, ser compreendido, e essa luta pela expressão e pela comunicação da expressão adquire às vezes, em poesia, caracteres mortais.

    Dissemos que o Duende ama a orla, o limite, a ferida, e se aproxima dos lugares onde as formas se fundem em um anelo superior a suas expressões visíveis.

    O Duende opera sobre o corpo da bailarina como o vento sobre a areia.

    Transforma com mágico poder uma garota em paralítica da lua, ou enche de rubores adolescentes um velho roto que pede esmola pelas tendas de vinho, dá aos cabelos um cheiro de porto noturno, e em todo momento opera sobre os braços com expressões que são mães …da dança de todos os tempos.

    E é impossível que ele se repita, isso é muito interessante de sublinhar. O Duende não se repete, como não se repetem as formas do mar na tempestade.

    Sons negros por trás dos quais estão já em terna intimidade os vulcões, as formigas, os zéfiros e a grande noite apertando a cintura com a Via Láctea.
    Lorca

    ————————-

    Como um fósforo a arder antes que cresça

    E logo ela é só flama, inteiramente.

    Com um olhar põe fogo nos cabelos
    e com arte sutil dos tornozelos
    incendeia também os seus vestidos
    de onde, serpentes doidas, a rompê-los,
    saltam os braços nus com estalidos.

    So ,

    El Duende Andaluz:

    Bjs

  77. Kingmob said

    Keats, o autor de Endymion:

    A Bela Dama Sem Piedade

    John Keats
    (1795–1821)

    #

    Oh! O que pode estar perturbando você, Cavaleiro em armas,
    Sozinho, pálido e vagarosamente passando?
    As sebes tem secado às margens do lago,
    E nenhum pássaro canta.

    Oh! O que pode estar perturbando você, Cavaleiro em armas?
    Sua face mostra sofrimento e dor.
    A toca do esquilo está farta,
    E a colheita está feita.

    Eu vejo uma flor em sua fronte,
    Úmida de angústia e de febril orvalho,
    E em sua face uma rosa sem brilho e frescor
    Rapidamente desvanescendo também.

    Eu encontrei uma dama nos campos,
    Tão linda… uma jovem fada,
    Seu cabelo era longo e seus passos tão leves,
    E selvagens eram seus olhos.

    Eu fiz uma guirlanda para sua cabeça,
    E braceletes também, e perfumes em volta;
    Ela olhou para mim como se amasse,
    E suspirou docemente.

    Eu a coloquei sobre meu cavalo e segui,
    E nada mais vi durante todo o dia,
    Pelos caminhos ela me abraçou, e cantava
    Uma canção de fadas.

    Ela encontrou para mim raízes de doce alívio,
    mel selvagem e orvalho da manhã,
    E em uma estranha linguagem ela disse…
    “Verdadeiramente eu te amo.”

    Ela me levou para sua caverna de fada,
    E lá ela chorou e soluçou dolorosamente,
    E lá eu fechei seus selvagens olhos
    Com quatro beijos.

    Ela ela cantou docemente para que eu dormisse
    E lá eu sonhei…Ah! tão sofridamente!
    O último dos sonhos que eu sempre sonhei
    Nesta fria borda da colina.

    Eu vi pálidos reis e também príncipes,
    Pálidos guerreiros, de uma mortal palidez todos eles eram;
    Eles gritaram…”A Bela Dama sem Piedade
    Tem você escravizado!”

    Eu vi seus lábios famintos e sombrios,
    Abertos em horríveis avisos,
    E eu acordei e me encontrei aqui,
    Nesta fria borda da colina.

    E este é o motivo pelo qual permaneço aqui
    Sozinho e vagarosamente passando,
    Descuidadamente através das sebes às margens do lago,
    E nenhum pássaro canta.

  78. Kingmob said

    John Donne:

    MEDITAÇÃO 17

    (trecho)

    Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido um promontório, ou perdido o solar de um teu amigo, ou o teu próprio. A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes indagar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.

    Tradução: Paulo Vizioli

    MEDITATION 17

    (excerpt)

    No man is an island, entire of itself; every man is a piece of the continent, a part of the main; if a clod be washed away by the sea, Europe is the less, as well as if a promontory were, as well as if a manor of thy friend’s or of thine own were; any man’s death diminishes me, because I am involved in mankind, and therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee.

  79. Kingmob said

    >Catar a verdade contida
    em cada concha de mão,
    como o mendigo cata as pulgas
    no pelo
    ………… – do dia cão.

    Belo poema. Belo não. Isso é uma obra de arte.

    >Catar os cacos
    do presente e outrora
    e enfrentar a noite
    com o vitral da aurora

    O poeta expressou o que eu vinha querendo dizer há tempos, mas não consegui, por um motivo ou outro. Rs. Acontece. Ele libertou o “não-libertável” em mim. Um poema e um estrofe dessas ou é psicografia (improvável) ou vem de um grande poeta.

    >Catar os cacos de Dionísio
    e Baco, no mosaico antigo
    e no copo seco erguido
    beber o vinho
    ou sangue vertido.

    Beber o sangue vertido, não há outro jeito, aquela “integridade” aquela “unidade” de identidade não resta mais. Talvez esse seja o paraíso perdido, e há quem passe a vida lamentando e querendo voltar, mas ao gênio poético em nós resta

    >Catar os cacos do caos
    como quem cata no deserto
    o cacto
    ………… – como se fosse flor.

    o que era maldição tem a possibilidade de ser vocação e benção, basta um pouquinho de vontade.

    >É um quebra-cabeça? ………… Então
    de cabeça quebrada vamos
    sobre a parede do nada
    deixar gravada a emoção

    A emoção sem cabeça lógica ou pensante, a emoção solta de pela menos algumas amarras é o ouro. A entrega, a entrega. Não a entrega a alguém porque restam os cacos no deserto e as cabeças quebradas, mas a entrega. Só a entrega.

    Mob.

  80. Fy said

    He who binds to himself a joy
    Does the winged life destroy;

    But he who kisses the joy as it flies
    Lives in eternity’s sun rise.

    Eternidade

    Aquele que amarra a si mesmo uma alegria,
    Não faz mais que destruir as asas da vida;

    Aquele que beija a alegria que esvoaça,
    Vive no sol nascente da eternidade.

    Blake, in “Eternity”

    bJS

  81. Sem said

    Kingmob,

    Muito interessante tudo o que disse, eu concordo e mais ainda, gosto desse seu ponto de vista. E não é bonito fazer do maldito um mosaico vitral? É mais que bonito, é verdadeiro, porque a Beleza e a Verdade (e bondade etc.) são compostos e nunca uma coisa só homogênea e pasteurizada. Fazer vocação? nem sei… daimon, demônio, demens, demente, diabólico, deus: sonoramente soam semelhantes, e apesar das diferenças etimológicas, entre as entidades talvez não exista tanta distância assim.

    Queria só fazer um comentário sobre algo que me deixa perplexa. Como todos tendemos a cair feito patinhos em falsos julgamentos levados pelo sentimento quando esquecemos da razão… As pessoas são realmente cacos, multiplicidades que talvez nossa herança racional (maldita) teime em querer não ver, e toda a irracionalidade (bendita, nesse caso), a gente joga para debaixo do tapete… Quer dizer, eu nem sei como dizer isso, uma coisa é dizer que a sombra existe, falar racionalmente sobre ela, fazer planos de integração, e outra bem diferente é deixar que ela exista de fato em nossas vidas e tenha direito de expressão… Consequência desse temor, eu acho, tendemos a generalizar e rotular as pessoas por medo de encontros reais – principalmente tememos o encontro com a gente mesmo, porque todos os outros fantasmas são fichinhas perto desse primeiro encontro com nosso esqueleto gigante. Claro que tudo isso afasta as pessoas de si próprias e umas das outras, de suas realidades, de suas “reais” identidades, ou do quanto elas poderiam se aproximar do “real” (não sei se real é uma boa palavra, mas eu não consigo achar outra melhor). Rotular é extremamente ruim e nocivo, tanto para quem rotula, porque generaliza e perde a sutileza dos detalhes e a própria beleza da vida da outra pessoa, como para quem é rotulado, porque deixa de ser um ente vivo, com todas as suas possibilidades latentes, para virar um conceito aos olhos da outra pessoa. Objeto etiquetado engaverado morto. Por isso eu farei coro sempre que vc disser “boa vontade” “empatia” “vamos ser sinceros, é assim que funciona”… é assim que deveria funcionar. 🙂

    Mas é mais adiante ainda o que eu queria comentar, da perplexidade e da dificuldade que temos em ver o mosaico completo. O mosaico real e não o falso.

    Eu acho mesmo o Affonso Romano um poeta fantástico. Tudo o que eu li dele me faz apreciar seu estilo, que ele genialmente inventou, com conteúdo, sabedoria e humor. Mas além de poeta e professor, ele é crítico literário e de arte. Já li um ensaio seu maravilhoso a respeito de Drummond, para quem tece elogios muito apropriados e merecidos. Mas vou colocar uma entrevista dele que é pra não assistir, ou pra assistir e assombrar-se com tamanhas barbaridades que ele faz como crítico de arte. Ele critica passionalmente Duchamp e a arte conceitual, supondo-se racional. Duchamp é praticamente o papa da arte contemporânea e que afirmou que uma obra de arte se faz inclusive do seu entorno, por isso um urinol assinado no museu é uma obra de arte. Ele desmistifica a arte e, enfim, Duchamp é sensacional. Mas o Affonso Romano não vê isso. Nesse caso ele deixa o humor e a grandeza do poeta para se tornar um crítico conservador da arte – supõe a arte completamente classificável…

    Para complementar ainda a mesma ideia, lembrei de um documentário sobre a Marlene Dietrich que passou faz algum tempo na tv. A filha dela disse que pela mãe ter sido uma boa atriz, as pessoas confundiam e generalizavam, achando que ela foi uma boa mãe, mas, naquele jeito duro como só os alemães sabem ser, a filha disse que uma coisa era ser boa atriz e outra muito diferente ser boa mãe… Muito sábio isso de separar e não confundir as instâncias, e mesmo assim ainda amar o outro pelo que ele é, e não por uma imagem idealizada que o cristaliza e aliena.

    Aqui é que eu queria chegar, nós tendemos a idealizar as imagens que fazemos de nós próprios e dos outros. Vemos um caco do mosaico, achamos bonito e por gostarmos dele, tendemos a preencher o quadro só com aquele caco preferido e com isso empobrecemos o quadro. Enfim, o que eu queria dizer é que idealizar nesse sentido é uma praga, porque nos amarra a uma só imagem. Mas será que temos olhos para ver em nós e nos outros as cores impensáveis? É assim que deveria funcionar…

    Ah, a entrevista para não assistir:

  82. Sem said

    Poesia: Aurora, linda palavra.

    Uma das melhores poesias sobre aurora que eu conheço é essa imagem do Drummond que ele constrói e revela só ao fim desse longo e humano poema. Todo o poema é a construção dessa imagem complexa: verdadeiro mosaico de aurora.

    MORTE DO LEITEIRO

    Há pouco leite no país,
    é preciso entregá-lo cedo.
    Há muita sede no país,
    é preciso entregá -lo cedo.
    Há no país uma legenda,
    que ladrão se mata com tiro.

    Então o moço que é leiteiro
    de madrugada com sua lata
    sai correndo e distribuindo
    leite bom pra gente ruim.
    Sua lata, suas garrafas,
    e seus sapatos de borracha
    vão dizendo aos homens no sono
    que alguém acordou cedinho
    e veio do último subúrbio
    trazer o leite mais frio
    e mais alvo da melhor vaca
    para todos criarem força
    na luta brava da cidade.

    Na mão a garrafa branca
    não tem tempo de dizer
    as coisas que lhe atribuo
    nem o moço leiteiro ignaro,
    morador na Rua Namur,
    empregado no entreposto,
    com 21 anos de idade,
    sabe lá o que seja impulso
    de humana compreensão.
    E já que tem pressa, o corpo
    vai deixando à beira das casas
    uma apenas mercadoria.

    E como a porta dos fundos
    também escondesse gente
    que aspira ao pouco de leite
    disponível em nosso tempo,
    avancemos por esse beco,
    peguemos o corredor,
    depositemos o litro…
    Sem fazer barulho, é claro,
    que barulho nada resolve.

    Meu leiteiro tão sutil,
    de passo maneiro e leve,
    antes desliza que marcha.
    É certo que algum rumor
    sempre se faz: passo errado,
    vaso de flor no caminho,
    cão latindo por princípio,
    ou um gato quizilento.
    E há sempre um senhor que acorda,
    resmunga e torna a dormir.

    Mas este acordou em pânico
    (ladrões infestam o bairro),
    não quis saber de mais nada.
    O revólver da gaveta
    saltou para sua mão.
    Ladrão? se pega com tiro.
    Os tiros na madrugada
    liquidaram meu leiteiro.
    Se era noivo, se era virgem,
    se era alegre, se era bom,
    não sei,
    é tarde para saber.

    Mas o homem perdeu o sono
    e todo, e foge pra rua.
    Meu Deus, matei um inocente.
    Bala que mata gatuno
    também serve pra furtar
    a vida de nosso irmão.
    Quem quiser que chame médico,
    polícia não bota a mão
    neste filho de meu pai.
    Está salva a propriedade.
    A noite geral prossegue,
    a manhã custa a chegar,
    mas o leiteiro
    estatelado, ao relento,
    perdeu a pressa que tinha.

    Da garrafa estilhaçada,
    no ladrilho já sereno
    escorre uma coisa espessa
    que é leite, sangue… não sei.
    Por entre objetos confusos,
    mal redimidos da noite,
    duas cores se procuram,
    suavemente se tocam,
    amorosamente se enlaçam,
    formando um terceiro tom
    a que chamamos aurora.

  83. Kingmob said

    >Fazer vocação? nem sei… daimon, demônio, demens, demente, diabólico, deus: sonoramente soam semelhantes, e apesar das diferenças etimológicas, entre as entidades talvez não exista tanta distância assim.

    Não captei. Captei a semelhança e tal. Mas não a relação disso com a vocação.

    Mob.

  84. Kingmob said

    >Aquele que beija a alegria que esvoaça,
    Vive no sol nascente da eternidade.

    Difícil, mas não impossível.

  85. Sem said

    Mob,

    É que vocação pra mim tem a ver com o chamado do daimon. Está em potencial na semente de carvalho antes de ela se tornar árvore. Como em O Código do Ser do Hillman. A semente pode receber cuidados e se desenvolver exuberante, ou não, pode até não germinar… Muita coisa pode acontecer com a semente, mas, seja lá o que for que aconteça, sua única vocação é ser carvalho.
    No meu entender tem tudo a ver com destino e com sensibilidade para escutar o que os deuses nos dizem, que foi como também entendi o sentido que vc deu para vocação. Claro que não tem nada a ver com o que a sociedade quer de nós. As vocações (do mundo e da alma) podem até se aliarem, mas acho que o mais comum é elas se chocarem mesmo…
    O meu “não sei” ali no meio é que talvez tenha tornado o sentido confuso.

  86. Kingmob said

    Sem,
    entendi. Obrigado pela explicação.

    >daimon, demônio, demens, demente, diabólico, deus: sonoramente soam semelhantes, e apesar das diferenças etimológicas, entre as entidades talvez não exista tanta distância assim.

    É isso. E tem a ver também com o duende da Fy. Essa mistura paradoxal de diabólico, divino, demente, daimon. Ao ponto que vc as vezes nao sabe o que é sina e o que é benção. Não mesmo. Tudo isso fere, desloca nossa “pequena razão”, nossa lógica. Acostumados a definir o que é real do que não é unicamente com a razão, quando sentimos alguma proximidade com os “daimônios ” a tendência é querer se refugiar em algo mais perfeito, puro, lógico. Onde o bem está destilado do mal e vice-versa. A razão admite este tipo separação total entre uma coisa e outra, entre os elementos, entre os seres, entre os objetos. E aí? O paradoxo fulmina com isso. Abraxás, o daimon, o duende fulminam com isso.

  87. Fy said

    Mas será que temos olhos para ver em nós e nos outros as cores impensáveis?

    … só quem tem este encanto, Sem: só quem escreve coisas assim!

    Embora muitas pessoas digam que não [ pq não nasceram com “encanto” – com magia – nasceram “sem-vocação” : como medo de daimon… mts sofrem de medodedaimon ] – mas embora… muitas digam mesmo que não; sempre houve e sempre haverá reinos maravilhosos neste mundo. [ cores impensáveis também ].
    O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original; e… que o coração….. depois… não…. hesite. [!] – Torga

    Bjs pq eu to chegando de Sampa congelada de serra gelada; vou tomar banho e depois volto.

  88. Fy said

    Mob,

    Amor que só é bom qdo dói táqui; mas não sei pq, não saiu aí.

    Como é q libera?

    Drumond disse assim:

    ….a dor é inevitável, – o sofrimento … opcional.

    Bjs

  89. Kingmob said

    Fy,

    >Amor que só é bom qdo dói táqui; mas não sei pq, não saiu aí.

    The question: pq que taí mas não saiu aqui? =)

    >Como é q libera?

    Eu não tenho a menor ideia como libera, deve ser birra. 😉

    >….a dor é inevitável, – o sofrimento … opcional.

    Drummond era Zen.
    Someday i’ll get there, hopefully.

    Bjs,
    Mob.

  90. Kingmob said

    >Por entre objetos confusos,
    mal redimidos da noite,
    duas cores se procuram,
    suavemente se tocam,
    amorosamente se enlaçam,
    formando um terceiro tom
    a que chamamos aurora.

    Aurora de leite e sangue.

  91. Sem said

    >Aurora de leite e sangue.

    Uma aurora cor de rosa; um paradoxo como a violência pôde gerar essa cor.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: