Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

O fazedor de chuva taoísta

Posted by Kingmob em abril 23, 2009

Este conto que transcrevo abaixo resolve para mim na prática todas as questões relativas a livre-arbítrio e destino. Quando fui procurar no Google observei que há este conto no Franco-Atirador. Mas essa aqui é uma versão diferente.

A grande oposição entre filosofia ocidental e prática espiritual oriental parece ser que esta última tem seus pilares nas diversas práticas meditativas e corporais que dão acesso direto a estados de consciência diferenciados dos usuais ( sono, sonho e vigília). Estados nos quais, segundo os grandes professores espirituais,  as maiores questões da filosofia ocidental clássica (tais como livre-arbítrio e destino, dualidade e unidade entre sujeito e objeto, etc) caem por terra.  Não que a razão filosófica perca totalmente seu sentido de ser – mas ela por si só é incapaz de superar as próprias questões que coloca.

Segue o conto do “fazedor” de chuva:

Esta história foi muitas vezes contada, mas Jung, que portanto nos dava

poucos conselhos diretos, disse-me um dia: «Nunca faças seminários (nem

conferências) sem contar às pessoas esta história».

Num dos seus últimos Natais, pouco tempo antes da sua morte, quando nós

assistíamos ao Jantar do Clube , ele contou-a para nós de novo.

Não havia certamente ninguém na sala que não conhecesse já a história e

portanto, depois que ele a contou, toda atmosfera mudou. Eu fiz, como tinha

feito antes, porque ele me tinha dado instruções para a repetir assim tantas

vezes.

Houve uma terrível seca, na parte da China, onde vivia Richard Wilhelm

de Jung e tradutor do I Ching. Depois das pessoas ter tentado em vão os meios

conhecidos para obter a chuva, decidiram mandar buscar um fazedor de chuva.

Isto interessou muito a Wilhelm que se preparou para estar lá quando o fazedor

de chuva chegasse. O homem veio numa carroça coberta, um pequeno velho ressequido,

que fungava com uma repugnância evidente quando saiu da carroça e que pediu que

o deixassem sozinho numa pequena cabana em frente da aldeia; mesmo as suas

refeições deviam ser deixadas no exterior diante da porta.

Não se ouviu falar mais dele durante três dias, pois, não somente choveu,

mas houve uma grande caída de neve, o que nunca se tinha visto nesta época do ano.

Muito impressionado,Wilhelm procurou o fazedor

de chuva na cabana e perguntou-lhe como podia ter feito chuva e mesmo neve. O

fazedor respondeu: “Eu não fiz a neve; não sou responsável por isso”. Wilhelm

insistiu: havia uma terrível seca até à sua vinda e depois, passados três dias,

houve grande quantidade de neve. O fazedor de chuva respondeu: “Oh! Isso eu

posso explicar. Veja, eu venho dum lugar onde as pessoas estão em ordem; estão

em Tao; então o tempo também está em ordem. Mas chegando aqui, vi que as

pessoas não estavam em ordem e também me contaminaram. Por esse motivo fiquei

sozinho até estar de novo em Tao, e

então, naturalmente, nevou». (Hannah, 1981: pp 21)

(…) «Os alquimistas procuravam sem cessar unir os opostos, pois não é

senão quando estão unidos que se pode encontrar a verdadeira paz. Quando se

examina o estado do mundo, apercebemo-nos que por todo o lado, um dos opostos

tenta sobrepor-se ao outro. Colectivamente nada podemos fazer; Jung repetia-o

constantemente: a única forma que temos de fazer alguma coisa, é no indivíduo,

é em nós mesmos. É o princípio do fazedor de chuva: quando o indivíduo está em

Tao – local onde os opostos estão unidos – há uma influência inexplicável sobre

o ambiente (…) Há em nós um lugar onde os opostos estão unidos e nós devemos

aprender a ir visitá-lo, permitindo assim à luz voar pelo mundo. Se houvesse

gente em número suficiente que compreendesse a importância de ir até este lugar

interior, seriam capazes de suportar a tensão dos opostos no exterior. Jung

dizia que era essencial para evitar uma guerra atómica. (Hannah, 1981

pp.82 – 83)

In: Hannah, Barbara (1981): «Rencontres avec l’Âme – L’imagination

active selon C.G.Jung»; Psychologie, Collection la Fontaine de Pierre.

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55 Respostas to “O fazedor de chuva taoísta”

  1. Elielson said

    🙂

    Começo a pensar que começaremos a caducar quando faltar duvidas.

    A responsabilidade por tudo está em tudo, e a responsabilidade individual reage separadamente,… como se algo que acontecesse dentro de cada um não fosse a ação da natureza inteira.

    Uma reação individual componente do todo, é igual por ser uma parte que confere uma determinada reação, baseada na circunstância vibracional(?)do alcance das influências que encontram a vontade individual.

    O motivo pelo qual as reações diferenciam-se é a sucumbência as determinações do instinto de sobrevivência.

    Ou seja: a diferença parte de um mesmo fator inserido em todos.

    A divergência do fator é a imposição orgânica de um sobre o outro no ambiente em que o recurso é limitado.

    Más aplicações são resultantes de um direcionamento não correspondente ao equilibrio do ambiente.

    Se o ambiente em que se aplica o mecanismo da manifestação for somente o corpo, um corpo diverge com o outro até o ponto onde o estabelecimento force o confronto dos dois para garantir a sobrevivência de um. (ou de nenhum tbm, pois qual o recurso que o ganhador vai se utilizar depois? auto-consumo é uma habilidade orgância tbm).

    Na tentativa de manter ligado esse dispositivo para eventuais necessidades, as vezes nos atacamos gratuitamente. (pelo menos aparenta ser gratuitamente, mas muitas vezes é o conjunto da obra agindo acima do que pode ser racionalizado.)

    O cultivo do ambiente para quem chegar, é coração de mãe em que sempre cabe mais um.

    Quando algo que está sendo cultivado para dois e quem chegar (só um exemplo), é atacado pelo terceiro, esse dá inicio a sua própria auto-destruição.

    Té mais.

  2. Elielson said

    própria auto-destruição… será que isso faz sentido? kkk.

  3. Sem said

    Poizé…

    O Sal da Terra
    Beto Guedes
    Composição: Beto Guedes/Ronaldo Bastos

    Anda!
    Quero te dizer nenhum segredo
    Falo nesse chão, da nossa casa
    Bem que tá na hora de arrumar…

    Tempo!
    Quero viver mais duzentos anos
    Quero não ferir meu semelhante
    Nem por isso quero me ferir

    Vamos precisar de todo mundo
    Prá banir do mundo a opressão
    Para construir a vida nova
    Vamos precisar de muito amor
    A felicidade mora ao lado
    E quem não é tolo pode ver…

    A paz na Terra, amor
    O pé na terra
    A paz na Terra, amor
    O sal da…

    Terra!
    És o mais bonito dos planetas
    Tão te maltratando por dinheiro
    Tu que és a nave nossa irmã

    Canta!
    Leva tua vida em harmonia
    E nos alimenta com seus frutos
    Tu que és do homem, a maçã…

    Vamos precisar de todo mundo
    Um mais um é sempre mais que dois
    Prá melhor juntar as nossas forças
    É só repartir melhor o pão
    Recriar o paraíso agora
    Para merecer quem vem depois…

    Deixa nascer, o amor
    Deixa fluir, o amor
    Deixa crescer, o amor
    Deixa viver, o amor
    O sal da terra

  4. Elielson said

    Mais um pouco de sal.

    Sal da Terra

    Beberemos para as pessoas que trabalham duro
    Beberemos para os que nascem em pobreza
    Levante sua taça para o bem e o maligno
    Beberemos para o sal da terra

    Ore para o soldado raso
    Guarde uma lembrança para seu trabalhoso ofício
    Ore para sua mulher e seus filhos
    Que acendem as fogueiras e ficam lá até apagar

    E quando eu busco uma multidão sem rostos
    Uma multidão vertiginosa de cinza e
    Preta e branca
    Eles não parecem reais para mim
    Na verdade, aparentam tão estranhos

    Levante sua taça para as pessoas que trabalham duro
    Beberemos para as cabeças incontáveis
    Pensaremos nos milhões de andarilhos
    Que precisam de líderes mas recebem jogadores no lugar

    Pense um pouco no eleitor que fica em casa
    Seus olhos vazios observam uma beleza estranha
    E um desfile de pessoas subornadas trajadas de cinza
    Uma escolha de câncer ou poliomielite

    E quando eu procuro uma multidão sem rostos
    Uma multidão vertiginosa de cinza e
    Preta e branca
    Eles não parecem reais para mim
    Na verdade, eles aparentam tão estranhos

    Beberemos para as pessoas que trabalham duro
    Beberemos para os que nascem em pobreza
    Pense um pouco nas pessoas que vivem aos trapos
    Beberemos para o sal da terra

    Beberemos para as pessoas que trabalham duro
    Beberemos para o sal da terra
    Pensaremos nos duzentos milhões de pessoas
    Pensaremos nos humildes de nascimento

  5. Kingmob said

    Vou colocar minha pitadinha de sal também…
    Valeu, Cazuza! Fico te devendo mais essa….

    Burguesia
    cazuza
    Composição: Cazuza/ Ezequiel Neves/ George Israel

    A burguesia fede
    A burguesia quer ficar rica
    Enquanto houver burguesia
    Não vai haver poesia

    A burguesia não tem charme nem é discreta
    Com suas perucas de cabelos de boneca
    A burguesia quer ser sócia do Country
    A burguesia quer ir a New York fazer compras

    Pobre de mim que vim do seio da burguesia
    Sou rico mas não sou mesquinho
    Eu também cheiro mal
    Eu também cheiro mal

    A burguesia tá acabando com a Barra
    Afunda barcos cheios de crianças
    E dormem tranqüilos
    E dormem tranqüilos

    Os guardanapos estão sempre limpos
    As empregadas, uniformizadas
    São caboclos querendo ser ingleses
    São caboclos querendo ser ingleses

    A burguesia fede
    A burguesia quer ficar rica
    Enquanto houver burguesia
    Não vai haver poesia

    A burguesia não repara na dor
    Da vendedora de chicletes
    A burguesia só olha pra si
    A burguesia só olha pra si
    A burguesia é a direita, é a guerra

    A burguesia fede
    A burguesia quer ficar rica
    Enquanto houver burguesia
    Não vai haver poesia

    As pessoas vão ver que estão sendo roubadas
    Vai haver uma revolução
    Ao contrário da de 64
    O Brasil é medroso
    Vamos pegar o dinheiro roubado da burguesia
    Vamos pra rua
    Vamos pra rua
    Vamos pra rua
    Vamos pra rua
    Pra rua, pra rua

    Vamos acabar com a burguesia
    Vamos dinamitar a burguesia
    Vamos pôr a burguesia na cadeia
    Numa fazenda de trabalhos forçados
    Eu sou burguês, mas eu sou artista
    Estou do lado do povo, do povo

    A burguesia fede – fede, fede, fede
    A burguesia quer ficar rica
    Enquanto houver burguesia
    Não vai haver poesia

    Porcos num chiqueiro
    São mais dignos que um burguês
    Mas também existe o bom burguês
    Que vive do seu trabalho honestamente
    Mas este quer construir um país
    E não abandoná-lo com uma pasta de dólares
    O bom burguês é como o operário
    É o médico que cobra menos pra quem não tem
    E se interessa por seu povo
    Em seres humanos vivendo como bichos
    Tentando te enforcar na janela do carro
    No sinal, no sinal
    No sinal, no sinal

    A burguesia fede
    A burguesia quer ficar rica
    Enquanto houver burguesia
    Não vai haver poesia

  6. adriret said

    Mob,

    Muito bonito o conto, que pelo visto foi real…

    … oxalá algumas pessoas realizarem o Tao, traria harmonia pra muitas coisas nesse mundo lindo…

    … oxalá ter o Tao como destino, e tentar estar em Tao, já seria por si só uma grande paz..

    óxente!! e nun é isso mesmo que todo mundo do meio aqui tá buscando…

    Ainda tenho esperanca que é possível, se não fosse por isso já teria desistido faz tempo.

    bjs
    adi

  7. Sem said

    Eliélson: Baudelaire

    Há que estar sempre embriagado. Tudo está nisto: é a única questão. Para não sentir o terrível fardo do Tempo que lhes dilacera os ombros e os encurva para a terra, embriagar-se sem cessar é preciso.
    Mas de quê? De vinho, poesia ou virtude, a escolha é sua. Mas embriaguem-se.
    E se às vezes, nas escadarias de um palácio, na verde relva de um barranco, na solidão morna de seu quarto, você acordar, com a embriaguez já diminuída ou sumida, perguntem ao relógio, ao vento, à vaga, às estrelas, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntem que horas são: e o relógio, o vento, a vaga, a estrela, as aves lhe dirão: “É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; sem cessar embriaguem-se! De vinho, poesia ou virtude, a escolha é sua”

    Il faut être toujours ivre. tout est lá: c’est l’unique question. Pour ne pas sentir l’horrible fardeau du Temps qui brise vos épaule et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve.
    Mais de quoi? De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous.
    Et si quelquefois, sur les marches d’un palais, sur l’herbe verte d’un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l’ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l’etoile, à l’oiseau, à l’horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est; et le vent, la vague, l’étoile, l’oiseau, l’horloge, vous répondront: “Il est l’heure de s’enivrer! Pour n’être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous, à votre guise.”

  8. Sem said

    Kingmob: Blues da piedade do Cazuza

    Agora eu vou cantar pros miseráveis
    Que vagam pelo mundo derrotados
    Pra essas sementes mal plantadas
    Que já nascem com cara de abortadas

    Pras pessoas de alma bem pequena
    Remoendo pequenos problemas
    Querendo sempre aquilo que não têm

    Pra quem vê a luz
    Mas não ilumina suas minicertezas
    Vive contando dinheiro
    E não muda quando é lua cheia

    Pra quem não sabe amar
    Fica esperando
    Alguém que caiba no seu sonho
    Como varizes que vão aumentando
    Como insetos em volta da lâmpada

    Vamos pedir piedade
    Senhor, piedade
    Pra essa gente careta e covarde
    Vamos pedir piedade
    Senhor, piedade
    Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

    Quero cantar só para as pessoas fracas
    Que tão no mundo e perderam a viagem
    Quero cantar o blues
    Com o pastor e o bumbo na praça

    Vamos pedir piedade
    Pois há um incêndio sob a chuva rala
    Somos iguais em desgraça
    Vamos cantar o blues da piedade

    Vamos pedir piedade
    Senhor, piedade
    Pra essa gente careta e covarde
    Vamos pedir piedade
    Senhor, piedade
    Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

  9. Sem said

    Adi: Cecília Meireles

    Hoje acabou-se-me a palavra,
    e nenhuma lágrima vem
    Ai, se a vida se me acabara
    também.

    A profusão do mundo, imensa,
    tem tudo, tudo – e nada tem.
    Onde repousar a cabeça?
    No além?

    Fala-se com os homens…E ninguém
    entende o que se está contando
    e a quem…

    Mas terra e sol, luas e estrelas
    giram de tal maneira bem
    que a alma desanima de queixas.
    Amém.

  10. Sem said

    Adizinha, copiei a poesia da net e me dei conta que estava faltando alguma coisa. Fui buscar no livro e a terceira estrofe completa é assim:

    Fala-se com os homens, com os santos,
    consigo, com Deus…E ninguém
    entende o que se está contando
    e a quem…

  11. Kingmob said

    Sem:

    Vida Louca Vida
    Cazuza

    Composição: Lobão / Bernardo Vilhena

    Vida louca vida
    Vida breve
    Já que eu não posso te levar
    Quero que você me leve
    Vida louca vida
    Vida imensa
    Ninguém vai nos perdoar
    Nosso crime não compensa

    Se ninguém olha quando você passa você logo acha ‘Eu to carente’
    ‘Eu sou manchete popular’
    Tô cansado de tanta babaquice, tanta caretice
    Desta eterna falta do que falar

    Se ninguém olha quando você passa você logo acha que a vida voltou ao normal
    Aquela vida sem sentido, volta sem perigo
    É a mesma vida sempre igual
    Se niguém olha quando você passa você logo diz ‘Palhaço’
    Você acha que não tá legal
    Corre todos os perigos, perde os sentidos
    Você passa mal

    Vida louca vida
    Vida breve
    Já que eu não posso te levar
    Quero que você me leve
    Vida louca vida
    Vida imensa
    Ninguém vai nos perdoar
    Nosso crime não compensa

    Se ninguém olha quando você passa você logo acha ‘Eu tô carente’
    ‘Eu sou manchete popular’
    Tô cansado de tanta caretice, tanta babaquice
    Desta eterna falta do que falar

    Vida louca vida
    Vida breve
    Já que eu não posso te levar
    Quero que você me leve
    Vida louca vida
    Vida imensa
    Ninguém vai nos perdoar
    Nosso crime não compensa

  12. Kingmob said

    >Mas terra e sol, luas e estrelas
    giram de tal maneira bem
    que a alma desanima de queixas.
    Amém.

    Cecília era uma titã; eu fico abismado.

  13. luramos said

    Agradeço aos céus por meu vinho ser o Amor.
    Ter vivido a embriaguez,
    a lucidez sem razão
    e o tempo sem Tempo,
    anunciado por um Anjo.

    Agora estou sã.
    A razão voltou
    e o força do Tempo impera soberana.

    Mas na embriaguez os véus caíram,
    e eu pude conhecer
    cada momento tornado único
    pela luz do Amor.

  14. adriret said

    Ahh, meus amigos queridos… todos vocês..

    Sem, Fy, Mob, Lu, Elielson, anoitans sumidos, Bob, e leitores e participantes, todos tão queridos, mesmo que desse mundo virtual…

    E hoje chorona como estou, de alegria e dor, percebi que aqui se expressa “ALMA”. Verdade, ninguém me conhece tão bem como aqui Sou, só aqueles que estão comigo há muitos anos, os mais íntimos. Mas aqui nesse mundo, que de certa forma está no meu imaginário, pois não há como negar: é concreto e não concreto, real e irreal… também um paradoxo…. e que apesar disso, temos certo relacionamento, expressamos nossa ALMA, somos verdadeiros.

    Aposto que conheco vocês muito melhor que muitas pessoas de seus próprios convívios. Aqui colocamos nossa Alma, nosso mais profundo, nosso íntimo, que só revelamos para aqueles que “gostamos” e “confiamos”.

    Não sei escrever poemas, mas captei cada um de vocês, claro com a leitura de Alma pra Alma… e só vejo a mais linda forma de ser, pura beleza, posso dizer que vocês estão em TAO, sim em TAO; porque cada um me trouxe da maneira que lhe coube, muita harmonia, muita harmonia, muuiitttaaa haarrrmmmooonnniiiaaa.

    amo todos vocês, seis todos são lindos.

    adi

  15. adriret said

    >> E hoje chorona como estou, de alegria e de dor…<<<

    É que vasculhei minh’Alma, do fundo e profundo, desde a sombra até o contrário animus, e de certa forma, há que lhes dar alegria também, proporcionar certo prazer, interagir com aquele íntimo, bem íntimo que um dia rejeitado, agora requer atencão e cuidado… amo, amo essas partes lindas, esse lado que agora meia sombra dentro de mim…

    Aí chego aqui e vejo cada um de Alma aberta, expressando a beleza do amor….

    num aguento ler essas poesias, fico mais apaixonada pela embriaguês da vida.

    adi

  16. Kingmob said

    W. B. Yeats.

    To a Child dancing in the Wind

    I

    DANCE there upon the shore;
    What need have you to care
    For wind or water’s roar?
    And tumble out your hair
    That the salt drops have wet; 5
    Being young you have not known
    The fool’s triumph, nor yet
    Love lost as soon as won,
    Nor the best labourer dead
    And all the sheaves to bind. 10
    What need have you to dread
    The monstrous crying of wind?

    II

    Has no one said those daring
    Kind eyes should be more learn’d?
    Or warned you how despairing 15
    The moths are when they are burned,
    I could have warned you, but you are young,
    So we speak a different tongue.

    O you will take whatever’s offered
    And dream that all the world’s a friend, 20
    Suffer as your mother suffered,
    Be as broken in the end.
    But I am old and you are young,
    And I speak a barbarous tongue.

  17. Kingmob said

    Herberto Helder:

    Sobre um Poema

    Um poema cresce inseguramente
    na confusão da carne,
    sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
    talvez como sangue
    ou sombra de sangue pelos canais do ser.

    Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
    ou os bagos de uva de onde nascem
    as raízes minúsculas do sol.
    Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
    do nosso amor,
    os rios, a grande paz exterior das coisas,
    as folhas dormindo o silêncio,
    as sementes à beira do vento,
    – a hora teatral da posse.
    E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

    E já nenhum poder destrói o poema.
    Insustentável, único,
    invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
    a miséria dos minutos,
    a força sustida das coisas,
    a redonda e livre harmonia do mundo.

    – Em baixo o instrumento perplexo ignora
    a espinha do mistério.
    – E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

  18. Elielson said

    Sem, Baudellaire me fez lembrar um troço que escrevi, dai procurei em casa, e achei:

    Grande atrevimento pensar ver luzes no escuro.
    Como um talvez sobreposto,
    em outro talvez não admitido.

    Não há finalização
    do que termina de qualquer maneira.

    Não há nuvens
    além das que inventam um outro lado.

    Afirmo o que não sei
    como quem adota um corvo
    maldito e irresistivel.

    São ventos artificiais,
    liberdade ilusória
    da mais humana e rotineira.

    Uma promessa descomunal
    que eu não entendo, mesmo se eu a faço.

    Olhos preenchidos,
    consumidos pelo que apaga os traços
    e esquece o sonho.

  19. Fy said

    Um lugar longe, muito longe, num ponto bem alto.
    Estranha tarde fria de sol aberto.

    Tarde impossível, aberta de sol frio, mas estava acontecendo,
    e as coisas agoniadas se demitiram.

    Existia o arvoredo do silêncio, que às vezes falhava/farfalhava quando vinha o vento.

    Separei-me do pequeno grupo como quem vai beber água e volta já. Que certas circunstâncias exigem solidão, para que fiquemos mais receptivos aos extraordinários do mundo.

    Enfim, lá estava a construção medieval, espécie de alma material do tempo dito histórico. Toquei as pedras, pensando nos que as puseram lá, por ordem de algum rei cioso de seu território (do rei não quis saber o nome, porque basta este: rei, como nas histórias da minha infância. Era uma vez…).

    A paisagem ao redor, o lá-embaixo, vazio de outras construções. E tudo redondo, redondo.
    Depois, foi o sol descendo, feito bola que um menino chutou com força para o meio do mundo e deu as costas.

    Mas meu olho corria mesmo era para a poderosa solidão, rainha despossuída daqueles descampados, sem solfejar desejos ou memórias de domínios, livre, silenciosa, plena. Um ente aberto e sem pensamentos, fazendo companhia a si mesmo.

    E azul…

    Sim, confirmei: a solidão é azul.

    Eu já havia percebido isso quando olhava uma serra pra lá de Nova Palmeira -onde nunca nunca houve castelo mas houve rei: aquele, que é também aquele das histórias que minha avó contava.

  20. Fy said

    das polaridades…

    A criança que fui chora na estrada.
    Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
    Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
    Quero ir buscar quem fui onde ficou.

    Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
    A vinda tem a regressão errada.
    Já não sei de onde vim nem onde estou.
    De o não saber, minha alma está parada.

    Se ao menos atingir neste lugar
    Um alto monte, de onde possa enfim
    O que esqueci, olhando-o, relembrar,

    Na ausência, ao menos, saberei de mim,
    E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
    Em mim um pouco de quando era assim.

    Fernando Pessoa [óbvio!]

    Bjs

  21. Fy said

    Adi querida,

    Dizem q as pessoas sensíveis, são as cores da terra.

    Esta é pra vc sorrir : pq hoje é sábado e tá um baita sol.

    Ó que bonitinho:

    Bjs

  22. - said

    uma pessoa que não está no Tao não pode fazer nada que preste

  23. luramos said

    “uma pessoa que não está no Tao não pode fazer nada que preste”

    Leo, aqui exercitamos a tolerância e o respeito com aqueles que pensam diferentemente de nós….

  24. Fy said

    .
    THE CHIMNEY SWEEPER
    .
    A little black thing among the snow,
    Crying “weep! weep!” in notes of woe!
    “Where are thy father and mother, say?”–
    “They are both gone up to the Church to pray.

    “Because I was happy upon the heath,
    And smil’d among the winter’s snow,
    They clothèd me in the colthes of death,
    And taught me to sing the notes of woe.

    “And because I am happy and dance and sing,
    They think they have done me no injury,
    And are gone to praise God and His Priest and King,
    Who make up a Heaven of our misery.”

    Songs of Experience, 1794
    William Blake

    Bjs

  25. Sem said

    Só vcs mesmo pra trazerem novas histórias e poesias (só as músicas eu já conhecia) e eu me pergunto como é possível que a gente viva ou morra sem antes de saber daquela poesia ou daquela história – como, por exemplo, a histórinha do fazedor de chuva?

    Uma vez eu fiz uma poesia que era um convite pra falar de amor, mas faz tempo isso e eu fiz pra ninguém e eu acho que era pra vcs, como naquela valsinha do Chico “chegando assim mil dias antes de te conhecer”. Pra mim vcs são “o outro” – mas só a parte do paraíso da alteridade e não a do inferno sartriano. 🙂

    É um grande engano dizer que só o que tem carne é real e é existente. Por buscar tudo na carne o homem moderno matou deus e vive sem alma, e a realidade é o que é ou deu no que deu, um mundo doente, que busca sua “cura” nas pílulas douradas, em coisas, em regras, sistemas vindos de fora, e o sentido da vida num deus institucional… Quando tudo é dentro, pra ser inventado por dentro. Não pra fugir do real, mas pra ir pro mundo já se encontrado, inteiro.

    Tudo é metáfora, como no dito do Riobaldo, lembrado por Rubens Alves: “tudo é real, porque tudo é inventado.”

    – O que é o amor?

    O que é o amor eu não sei
    deve ser algo que está perto comigo
    quando estou junto a você

    O amor é um eco invisível
    batendo no meu ouvido o seu canto
    e me remetendo ao seu ser
    ………o amor é isso…
    ………………o amor é isso…
    ………………………..o amor é isso…

    Se é só isso eu não sei
    deve ser também seu precipício
    donde com gosto me acerco
    e vivo sempre a tremer
    livre para qualquer momento
    cair e morrer
    sem saber até quando
    vou poder renascer

    Vai ver o amor é mais
    do que isso que estou a dizer
    fugindo sempre ao papel
    com que o quero prender

    Vai ver o amor é apenas
    o mundo fazendo sentido
    brincando de ser
    girando feito pião
    rolando o universo
    dentro do coração

    bem – só – eu – estou – só – só – no – mundo – só – o – mundo – também – está – só – com – você

    O amor é esse elo indivisível
    que a fé não deixa partir
    o amor é tão simples
    quando está comigo e contigo
    quando está na chuva e no abrigo
    quando está em nós – em todos os nós
    quando estamos no mundo
    e não nos sentimos mais sós

    Mas se o amor não é isso
    que estou tentando explicar
    minha voz cala esse canto
    e vou de você precisar:

    – O que é o amor?

  26. Fy said

    Sem,

    Q coisa mais linda!

    Vc tb tem q escrever um livro.

    Deve ter mto mais……

    Bjs

  27. Sem said

    Não, Fy, eu prefiro desenhar um livro. 🙂 E que bom que vc gostou, porque nesse quesito eu sou bem insegura e um elogio sempre cai bem. 🙂

  28. Kingmob said

    Proverbs of Hell – William Blake
    […]

    Prisons are built with stones of Law, Brothels with bricks of Religion.
    The pride of the peacock is the glory of God.
    The lust of the goat is the bounty of God.
    The wrath of the lion is the wisdom of God.
    The nakedness of woman is the work of God.
    Excess of sorrow laughs. Excess of joy weeps.
    The roaring of lions, the howling of wolves, the raging of the stormy sea, and the destructive sword, are portions of eternity too great for the eye of man.
    The fox condemns the trap, not himself.
    Joys impregnate. Sorrows bring forth.
    Let man wear the fell of the lion. woman the fleece of the sheep.
    The bird a nest, the spider a web, man friendship.
    The selfish smiling fool, & the sullen frowning fool shall be both thought wise, that they may be a rod.
    What is now proved was once only imagin’d.
    The rat, the mouse, the fox, the rabbet; watch the roots; the lion, the tyger, the horse, the elephant, watch the fruits.
    The cistern contains: the fountain overflows.
    One thought fills immensity.
    Always be ready to speak your mind, and a base man will avoid you.
    Every thing possible to be believ’d is an image of truth.
    The eagle never lost so much time, as when he submitted to learn of the crow.

    […]

    E pensar que esse cara viveu nos 1700…

  29. Fy said

    Mob,

    Esta é uma das minhas frases preferidas do Blake:

    The eagle never lost so much time, as when he submitted to learn of the crow.

    Bjs

  30. Fy said

    Segue o teu destino

    Segue o teu destino,
    Rega as tuas plantas,
    Ama as tuas rosas.
    O resto é a sombra
    De árvores alheias.

    A realidade
    Sempre é mais ou menos
    Do que nós queremos.
    Só nós somos sempre
    Iguais a nós-próprios.

    Suave é viver só.
    Grande e nobre é sempre
    Viver simplesmente.
    Deixa a dor nas aras
    Como ex-voto aos deuses.

    Vê de longe a vida.
    Nunca a interrogues.
    Ela nada pode
    Dizer-te. A resposta
    Está além dos deuses.

    Mas serenamente
    Imita o Olimpo
    No teu coração.
    Os deuses são deuses
    Porque não se pensam.

    (Odes de Ricardo Reis, FP 1-6-1916)

  31. Kingmob said

    Fy,

    >The eagle never lost so much time, as when he submitted to learn of the crow.

    Quem é a águia, quem é o corvo? 😉

  32. Sem said

    Fy,

    Outro do mesmo: Pessoa.

    “Os deuses são felizes.
    Vivem a vida calma das raízes.
    Seus desejos o Fado não oprime,
    Ou, oprimindo, redime
    Com a vida imortal.
    Não há
    Sombras ou outros que os contristem.
    E, além disto, não existem…” 🙂

    Ontem eu descobri essa inédita (quer dizer, inédita pra mim). Achei linda a poesia. De quem? Pessoa again.

    “Ela canta, pobre ceifeira,
    Julgando-se feliz talvez;
    Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
    De alegre e anônima viuvez,

    Ondula como um canto de ave
    No ar limpo como um limiar,
    E há curvas no enredo suave
    Do som que ela tem a cantar.

    Ouvi-la alegra e entristece,
    Na sua voz há o campo e a lida,
    E canta como se tivesse
    Mais razões pra cantar que a vida.

    Ah, canta, canta sem razão!
    O que em mim sente está pensando.
    Derrama no meu coração
    A tua incerta voz ondeando!

    Ah, poder ser tu, sendo eu!
    Ter a tua alegre inconsciência,
    E a consciência disso! Ó céu!
    Ó campo! Ó canção! A ciência

    Pesa tanto e a vida é tão breve!
    Entrai por mim dentro! Tornai
    Minha alma a vossa sombra leve!
    Depois, levando-me, passai!”

  33. Kingmob said

    Adelia Prado:

    Corridinho

    O amor quer abraçar e não pode.

    A multidão em volta,

    com seus olhos cediços,

    põe caco de vidro no muro

    para o amor desistir.

    O amor usa o correio,

    o correio trapaceia,

    a carta não chega,

    o amor fica sem saber se é ou não é.

    O amor pega o cavalo,

    desembarca do trem,

    chega na porta cansado

    de tanto caminhar a pé.

    Fala a palavra açucena,

    pede água, bebe café,

    dorme na sua presença,

    chupa bala de hortelã.

    Tudo manha, truque, engenho:

    é descuidar, o amor te pega,

    te come, te molha todo.

    Mas água o amor não é.

  34. Sem said

    E essa do Drummond:

    O Amor Bate na Aorta
    Cantiga de amor sem eira
    nem beira,
    vira o mundo de cabeça
    para baixo,
    suspende a saia das mulheres,
    tira os óculos dos homens,
    o amor, seja como for,
    é o amor.

    Meu bem, não chores,
    hoje tem filme de Carlito.

    O amor bate na porta
    o amor bate na aorta,
    fui abrir e me constipei.
    Cardíaco e melancólico,
    o amor ronca na horta
    entre pés de laranjeira
    entre uvas meio verdes
    e desejos já maduros.

    Entre uvas meio verdes,
    meu amor, não te atormentes.
    Certos ácidos adoçam
    a boca murcha dos velhos
    e quando os dentes não mordem
    e quando os braços não prendem
    o amor faz uma cócega
    o amor desenha uma curva
    propõe uma geometria.

    Amor é bicho instruído.

    Olha: o amor pulou o muro
    o amor subiu na árvore
    em tempo de se estrepar.
    Pronto, o amor se estrepou.
    Daqui estou vendo o sangue
    que corre do corpo andrógino.
    Essa ferida, meu bem,
    às vezes não sara nunca
    às vezes sara amanhã.

    Daqui estou vendo o amor
    irritado, desapontado,
    mas também vejo outras coisas:
    vejo beijos que se beijam
    ouço mãos que se conversam
    e que viajam sem mapa.
    Vejo muitas outras coisas
    que não ouso compreender…

  35. Fy said

    Sem e Mob,

    Esta é pra brincar com vcs 2, Poetas; – 2 não, o Elielson tb está se revelando!!!!!

    Eu não conhecia, rsrsrsr: mto bom!

    …. [ O poeta e seu verdadeiro gde amor: a poesia!]

    Essa… que eu hei de amar…

    Essa que eu hei de amar perdidamente um dia
    será tão loura, e clara, e vagarosa, e bela,
    que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela,
    trazer luz e calor a essa alma escura e fria.

    …..

    E quando ela passar, tudo o que eu não sentia
    da vida há de acordar no coração, que vela…
    E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela
    como sombra feliz… – Tudo isso eu me dizia,

    quando alguém me chamou. Olhei: um vulto louro,
    e claro, e vagaroso, e belo, na luz de ouro
    do poente, me dizia adeus, como um sol triste…

    E falou-me de longe: “Eu passei a teu lado,
    mas ias tão perdido em teu sonho dourado,
    meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!”

    Guilherme de Almeida – reduzido –

    Bjsssssssssss

    oh dó, 2ª feira!

  36. Fy said

    Mob,

    Agora q eu ví.

    Peraí q eu vou achar uma poesia linda pra te responder.
    Peraí,

    Bjs

  37. Sem said

    Fy, brincadeira boa! 2ª feira ou não, não consigo parar de pensar em poesia, devo isso a vcs e, me desculpem os quem não gostam, mas, sinceramente, não sabem o que estão perdendo. Eu fiz isso ontem e coloquei no meu profile do orkut, que andava faz tempo jogado pras baratas, mas pouco importa e se o mundo acabar amanhã, a poesia é que não pode faltar.

    …………
    Não existe poesia ou palavra
    que expresse um ser
    porque um ser não se explica
    eu não sou, eu existo
    pedra azul suspensa no ar
    sem poesia nenhuma
    …………
    Bom, é meio ácido ou seco talvez… mas já é um retorno. Na verdade não me preocupa retornar, quer dizer, voltar a escrever, mas estar em contato e partilhar com vcs, eu não tenho nem como descrever o que significa, a importância que isso tem pra mim.
    Fy, existe muita, muita poesia boa, de bons poetas, falando de poesia: exaltando, brincando, xingando, brigando… Tudo é possível. Essa daqui não é nenhum Drummond, nem Adélia, nem Pessoa, nem Kingmob, =) mas é uma que namora e faz da poesia objeto de uso capacho (aos poucos, Fy, sua danadinha, eu vou colocando aqui tudo o que já fiz):

    vem poesia
    chega aqui
    senta junto
    espraia teu verso
    e deita ao papel

    vem
    quero
    trocar nossa sorte
    em teus olhos cegos
    por lágrimas minhas

    vem e fica
    preciso de ti
    sê companheira
    enquanto for dia
    aceita minha dor

    fica e
    prometo
    abandonar-te depois
    borrada tinta azul fria
    temperada de sal

    vai
    não volte mais
    leva minha dor
    do amor que se foi
    pra que eu siga em paz

  38. Kingmob said

    Sem, o Rubem Alves adora esse livro da Bíblia.

    Eclesiastes 3, 1-8

    1 Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.
    2 Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
    3 Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;
    4 Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
    5 Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;
    6 Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;
    7 Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
    8 Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.

  39. Fy said

    vem e fica
    preciso de ti
    sê companheira
    enquanto for dia
    aceita minha dor

    fica e
    prometo
    abandonar-te depois
    borrada tinta azul fria
    temperada de sal

    vai
    não volte mais
    leva minha dor
    do amor que se foi
    pra que eu siga em paz

    Oh Sem,

    …. com certeza tem mais!

    Vc não ia colocar um post?

    Bjs

  40. adi said

    >>Isso aqui tá ficando cada vez mais bonito… graças a vcs… é de marejar os olhos, é dos olhos ficarem cheios de mar, nosso pequeno jardim de sentimentos e afetos onde podemos colocar nossa alma impensável =)<<<

    É verdade!! e de repente te pega de um jeito, pela alma… difícil não se emocionar.
    Isso tudo aqui (Anoitan) está mais pra terra encantada com tudo que tem direito. É bom sonhar com a imaginacão, i.e., com a alma.

    bjs a todos
    adi

  41. Sem said

    Adi, fala a verdade, vc é uma sentimental. 🙂

  42. Fy said

    Sem,

    E a Cecília Meireles, vcs não gostam?

    CANTIGUINHA

    Meus olhos eram mesmo água,
    – te juro –
    mexendo um brilho vidrado,
    verde claro … verde escuro.

    Fiz barquinhos de brinquedo,
    – te juro –
    fui botando todos eles
    naquele rio tão puro.

    Veio vindo a ventania,
    – te juro –
    as águas mudam seu brilho,
    quando o tempo anda inseguro.

    Quando as águas escurecem,
    – te juro –
    todos os barcos se perdem,
    entre o passado e o futuro.

    São dois rios os meus olhos,
    – te juro –
    noite e dia correm, correm,
    mas não acho o que procuro.

    Cecília Meireles

    Esta eu acho tão sentida; me dá uma tristeza!

    Bjs

  43. Sem said

    Kingmob, sabe que sou fã incondicional do Rubem Alves, grande humanista e na minha opinião o maior sábio que ainda temos vivo no país. E essa parte do Eclesiastes, é a verdade nua e crua colocada de forma belíssima. Mas como é duro saber do tempo, qual é o tempo de quê… parece que só podemos falar do tempo depois que ele passou e daí sim podemos dizer: foi tempo disso. Mas o próprio Eclesiastes dá como resposta viver o presente, como é difícil…

    Do Chico, sobre o tempo… A Ostra e o Vento:

    Vai a onda Vem a nuvem Cai a folha
    Quem sopra meu no__________me?
    Raia o dia Tem sereno O pai ralha
    Meu bem trouxe um perfu____me?
    O meu ami____go secreto Põe meu coração a balançar
    Pai, o tempo está virando Pai, me deixa respirar o ven____to Ven____to

    Nem um barco Nem um peixe Cai a tarde
    Quem sabe o meu no__________me?
    Paisagem Ninguém se mexe Paira o sol
    Meu bem terá ciú_____me?
    Meu namora____do erradi___o Sai de déu em déu a me buscar
    Pai, olha que o tempo vira Pai, me deixa caminhar ao ven____to Ven____to

    Se o mar tem o coral A estrela, o caramujo, um galeão no lodo
    Jogada num quintal Enxuta, a concha guarda o mar No seu esto___jo
    Ai, meu amor para sempre Nunca me conceda descansar
    Pai, o tempo vai virar Meu pai, deixa-me carregar o ven____to
    Ven_____to, ven_____to Ven_____to Ven_____to

  44. Fy said

    Cecilia Meireles

    O cavalinho branco

    À tarde, o cavalinho branco
    está muito cansado:

    mas há um pedacinho do campo
    onde é sempre feriado.

    O cavalo sacode a crina
    loura e comprida

    e nas verdes ervas atira
    sua branca vida.

    Seu relincho estremece as raízes
    e ele ensina aos ventos

    a alegria de sentir livres
    seus movimentos.

    Trabalhou todo o dia, tanto!
    desde a madrugada!

    Descansa entre as flores, cavalinho branco,
    de crina dourada!
    Cecilia Meireles

  45. Sem said

    Fy,

    Quase tudo na Cecília é melancólico. Mas ela disse tudo de uma maneira tão bonita, elegante, quase tranquila, ela é única.

    ……………….
    LINHA RETA – Cecília Meireles

    Não tenteis interromper o pássaro que voa em linha reta de leste a oeste. Alto e só.

    Não lhe pergunteis se avista cidades, mares, pessoas ou se tudo é um liso deserto. Vasto e só.

    Ele não passa para contemplar essas coisas do mundo. Ele vem de leste, ele vai para oeste. Alto e só.

    Ele vai com sua música dentro dos olhos fechados. Quando chegar ao fim, abrirá os olhos e cantará sua música. Vasta e só.
    ……………….

    >Vc não ia colocar um post?

    Mas eu posso? Estou mais perdida que briga de cego de foice no escuro. Uma dúvida prática, eu não tenho que esperar aparecer o meu nome na lista ali do lado nos autores?

  46. Fy said

    Sem,

    Eu sou completamente Aquariana…. Agora q eu reparei q o meu tá lá. E ainda por cima com o email junto!!!!

    Eu acho q o meu não tava enquanto eu não postei pela 1 ª vez.

  47. Fy said

    Sem,

    Vc consegue entrar lá no wordpress? no lugar que posta?

    Se vc consegue, claro que pode! não é?

  48. adriret said

    Ahhh, Sem!!! voce descobriu o meu segredo. 😀 😀 😀

    Sou sim; mesmo que por muitas vezes, aprendi a usar a razão como um meio onde se pode ser “”imparcial”” , isso é muito importante nos relacionamentos, medir os fatos sem a emocão, nos faz a grosso modo “ver” melhor a realidade dos fatos que nos chegam.

    Algumas vezes me acho fria demais pra determinadas coisas, e nesse ponto acho que estou racional demais; na verdade estou buscando “esse” difícil, tão difícil equilíbrio…

    Outras vezes ainda, e essa é a melhor parte, é como se a razão e o sentimento caminhassem juntos, como se o pensamento conhecesse o sentimento dele mesmo e vice-versa, sabe quando o pensamento vem junto com o sentimento e a sensacão do corpo, ou quando o sentimento chama o pensamento que sabe a razão daquela sensacão no corpo e sentimento… pra mim esse é o ideal, porque: eu curto muito aquela sensacão de plenitude total e completa satisfacão que te faz chorar; ou se for algo pra ser ajustado, já pego na curva aquilo que poderia se transformar numa “coisa” escondida de mim….

    Sabe, gostaria de estar sempre assim, a flor da pele, a flor da pele…

    bjs

  49. Kingmob said

    Sem , o seu rosto só vai aparecer depois que vc publicar o primeiro post. Portanto se vc já abriu sua conta no wordpress já pode postar sim.

  50. Sem said

    Falando em cantigas, olhos marejados, maresia. Da Cecília:

    O Olho é uma espécie de globo,
    é um pequeno planeta
    com pinturas do lado de fora.
    Muitas pinturas:
    azuis, verdes, amarelas.
    É um globobrilhante:
    parece cristal,
    é como um aquário com plantas
    finamente desenhadas: algas, sargaços,
    miniaturas marinhas, areias, rochas, naufrágios e peixes de ouro.

    Mas por dentro há outras pinturas,
    que não se vêem:
    umas são imagens do mundo,
    outras são invetadas.

    O Olho é um teatro por dentro.
    E às vezes, sejam atores, sejam cenas,
    e às vezes, sejam imagens, sejam ausências,
    formam, no Olho, lágrimas.

    Pessoal, boa noite! amanhã preciso acordar cedíssimo.

  51. Sem said

    Amanhã então… 🙂

  52. Sem said

    Ainda sobre o tempo, ter tempo pra tudo, fazer poesia, viver o presente, dar nome pras coisas… lembrei dessas duas:

    A enchente de 1941. Entrava-se de barco pelo corredor da velha casa de cômodos onde eu morava. Tínhamos assim um rio só para nós. Um rio de portas a dentro. Que dias aqueles! E de noite não era preciso sonhar: pois não andava um barco de verdade assombrando os corredores?
    Foi também a época em que era absolutamente desnecessário fazer poemas…

    REMINISCÊNCIAS – Mario Quintana

    O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
    era a imagem de um vidro mole que fazia uma
    volta atrás de casa.
    Passou um homem depois e disse: Essa volta
    que o rio faz por trás de sua casa se chama
    enseada.
    Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
    que fazia uma volta atrás de casa.
    Era uma enseada.
    Acho que o nome empobreceu a imagem.

    Manoel de Barros

    Adi, obrigada! Mas eu já tenho acesso a pg. de postar no wordpress, vou ter tempo hoje no começo da tarde para ver como funciona, se por acaso não der tempo, no mais tardar à noite eu publico um texto que tenho já pronto. Bjos pra vcs!!!!!!! Bom dia! 🙂

  53. Fy said

    Sem,

    Este é o Neruda de bom humor; – muito bom -:

    Muchos somos –

    Muchos somos
    De tantos hombres que soy, que somos,
    no puedo encontrar a ninguno:
    se me pierden bajo la ropa,
    se fueron a otra ciudad.

    Cuando todo está preparado
    para mostrarme inteligente
    el tonto que llevo escondido
    se toma la palabra en mi boca.

    Otras veces me duermo en medio
    de la sociedad distinguida
    y cuando busco en mí al valiente,
    un cobarde que no conozco

    corre a tomar con mi esqueleto
    mil deliciosas precauciones.

    Cuando arde una casa estimada
    en vez del bombero que llamo
    se precipita el incendiario
    y ése soy yo. No tengo arreglo.
    Qué debo hacer para escogerme?

    Cómo puedo rehabilitarme?
    Todos los libros que leo
    celebran héroes refulgentes
    siempre seguros de sí mismos:
    me muero de envidia por ellos,
    en los filmes de vientos y balas
    me quedo envidiando al jinete,
    me quedo admirando al caballo.

    Pero cuando pido al intrépido
    me sale el viejo perezoso,
    y así yo no sé quién soy,
    no sé cuántos soy o seremos.
    Me gustaría tocar un timbre
    y sacar el mí verdadero
    porque si yo me necesito
    no debo desaparecerme.

    Mientras escribo estoy ausente
    y cuando vuelvo ya he partido:
    voy a ver si a las otras gentes
    les pasa lo que a mí me pasa,
    si son tantos como soy yo,
    si se parecen a sí mismos
    y cuando lo haya averiguado
    voy a aprender tan bien las cosas
    que para explicar mis problemas
    les hablaré de geografía.

    Pablo Neruda

    Bjs

  54. Fy said

    Para os Poetas e para os Poemas:
    “For no thought of man made Gods to love and honour
    Ere the song within the silent soul began,

    Nor might earth in dream or deed take heaven upon her
    Till the word was clothed with speech by lips of man.“

    “Pois nenhum pensamento humano criou deuses para amar e honrar
    Senão depois que a canção vibrou no silêncio da alma,

    E nem em sonhos pôde a terra unir-se aos céus
    Antes que a palavra se vestisse de fala pelos lábios do homem“.]

    http://rpo.library.utoronto.ca/poem/2091.html

    Algernon Charles Swinburne (1837-1909)

    Bjs

  55. Sem said

    Adi,

    Queria ter te respondido antes, mas isso que vc disse é uma espécie de iluminação. Pra quem tem como função principal pensamento, usar o sentimento, que é necessariamente a função inferior, é como dar um mergulho vertical e puxar pra cima o que estava embaixo. Dá medo, com certeza. É como cair no chão, aliás, é cair no chão… pode ser perigoso, mas pode ser também revelador. A loucura e a iluminação podem não estar tão distantes assim uma da outra.

    Sabe que desde que conheci vc aqui no blog, eu poderia jurar que a sua função principal é o sentimento, pra mim vc não faz o tipo seco e frio de quem é pensamento. Olha lá, hein, as duas funções são funções racionais…

    Tem um ensaio maravilhoso do Hillman a respeito: A Função Sentimento. Está num livro verdinho da Cultrix, onde ele divide o espaço com a von Franz que vai falar sobre a função inferior. O nome é A Tipologia de Jung. Não se vc já leu, o trabalho da von Franz está disponível fácil para baixar da net, mas o bom mesmo é o trabalho do Hillman, talvez a coisa mais tocante que eu já li dele até hoje.

    Viu que escevi pra vc, né? Não sei se vc tem alguma coisa a ver com o aparecimento da carinha agora quando falo, em todo caso obrigada. 🙂

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