Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Não sou mais um cachorro, querida.

Posted by Kingmob em abril 9, 2009

 

How wonderful is Death,

       Death, and his brother Sleep!
     One, pale as yonder waning moon
       With lips of lurid blue;
       The other, rosy as the morn
     When throned on ocean's wave
           It blushes o'er the world;
     Yet both so passing wonderful!"

-Shelley, “Queen Mab”

 

 

Dei os cães para uso noturno

e por baixo de saias

love-is-give-and-take

as mãos passearam.

Sob identidades plácidas

eu acreditei que era um artíficie

e meu barro era a consciência.

Doei meu sexo,

não sou homem, mulher,

e nem as gradações.

Doei a mente tacanha

e a confusão estéril:

eu poderia dizer: o clarão que existe, sou eu,

mas seria uma meia-verdade.

Poderia dizer: eu,

mas seria uma meia-verdade.

cachorro-com-flor

Poderia dizer:

não acredito nos fantoches

que faço representar

diante de mim e da alma,

mas seria uma meia-verdade.

Sou alegre, triste

mas sinto que deixo o mundo.

Não quero ressuscitar

nem em corpo, nem na mente de ninguém.

Que eu deixe a encenação

para quem tem o talento.

Queria ter o dom

de dizer o silêncio,

assim haveria algum resto de verdade.

branco-deserto

O meu coração não é mais terno,

deixou de existir como houvera:

Tela em branco onde algo

que não sei bem quem

pinta e tece o que quer.

É palimpsesto

onde as íntimas equações

do Universo operam

sua vida honesta

de geometria e fractais mirabolantes.

Nele vicejam a sacralidade

do meteoro, do tufo de terra,

vermelho-deserto

a tabula rasa, a delirante águia.

Esperava prazer e convulsões

depois da consumação do que

se chamava vida.

Mas nasceu o puro deserto,

não o deserto terrestre,

mas algo assim de outra ordem.

Há que se cumprir os destinos mais loucos:

o de ser anacoreta do deserto cósmico –

somente mais uma sina.

A multiplicidade é gritante

miller-monk-in-desert

a vitalidade incontível

sempre matando, nascendo.

Nada pessoal.

Não é hora de carinho

nem de ser macho ou fêmea,

de se lamentar

do descaso com a perfeição.

O que o bailar dos astros quer?

Quer se desdobrar

sem ter de se preocupar

com amanhã e memória.

st-sisoy-2

A união, contudo, persiste,

apesar do afeto, persiste

o contato, nada pessoal.

É justo que tudo tenha

alma e santos anjos:

esferas, matos e colinas.

É justo que toda ordemst-sisoy

de coisas dance e prospere,

tenha seu lugar e importância

no sentir do cosmo.

Eu troco minha vida

pelo deserto.

Cada coisa em seu lugar.

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10 Respostas to “Não sou mais um cachorro, querida.”

  1. fynealhns said

    Eu troco minha vida pelo deserto.

    Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:

    Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu
    havia confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: “Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”

    Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.

    E quando cheguei à praça do mercado, um rapaz no cimo do telhado de uma casa gritou: “É um louco!” Olhei para cima, para vê-lo.
    O sol beijou pela primeira vez a minha face nua.

    Pela primeira vez, o sol beijava a minha face nua, e a minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais as minhas máscaras.

    E, como num transe, gritei: “Benditos, benditos os ladrões que roubaram as minhas máscaras!”

    Assim tornei-me louco.

    E encontrei tanta liberdade como segurança na minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.

    It matters not how strait the gate,
    How charged with punishments the scroll

    I am the master of my fate:
    I am the captain of my soul.

    Bjs

  2. fynealhns said

    Esqueci:

    é do Gilbran, que às vzs é Gibran:

    Bjs

  3. Sem said

    Kingmob,

    Eu nunca consigo ler o que vc escreve uma só vez, e uma segunda leitura nunca é igual a primeira… Isso é um dom, meu amigo, sem o qual não há poesia: há que se ter profundidade e o inesperado no próximo verso para se ter poesia… Suas palavras, não preciso dizer o quanto me inspiram, são um labirinto de mercúrio, não de se perder, mas de encontrar sempre um novo caminho para a saida.
    Protegido de Hermes, vc tem o dom, mas tem tb um blog? 🙂 Não sei, mas se houver esse lugar, onde organiza seus escritos, eu gostaria de conhecer. Eu e… uma multidão de outros e outras, tenho certeza. Divulga aqui, se houver e quiser…

    No mais, eu só não fico contente porque é triste, mas não fico mais triste porque é belo. Fico nesse sentimento suspenso pela inspiração de sua poesia.

    Vc leu o livro do Michael Ende: A História Sem Fim? Existe nesse livro um leão, senhor supremo de um deserto de cores… Sua maior desgraça é de que tudo o que ele toca, e o que o seu olhar alcança, vira areia… Ele vive só em um deserto de dunas multicoloridas e, à noite, o leão morre… Sem nunca saber porque renasce no outro dia, apenas para aniquilar tudo e todos os que estiverem ao seu alcance… Mas um belo dia surge um menino, protegido por um escudo dado pela alma… Com essa proteção pode o menino se relacionar com o leão sem ser fulminado pelo seu olhar – de luz e de razão e de espírito… O menino pode então descobrir e dizer ao amigo (eles se tornaram amigos) o motivo de sua desgraça: à noite, enquanto o leão morria, cada grão de areia por ele fabricado no dia, se transformava em semente, de onde brotavam árvores e plantas multiformes e multicolores, da morte do deserto nascia uma exuberante floresta noturna, que crescia incessantemente no frescor de uma noite sem fim… O motivo do leão existir era gerar a floresta, permitir a exuberância de formas e cores, e para que elas não sufocassem no próprio crescimento constante, precisava renascer o deserto todas as manhãs…Na floresta estava o sentido da vida do leão e o leão dava também razão à floresta, sem nunca saberem um do outro, sem nunca se encontrarem, tal qual o sol e a lua, até o dia em que o menino revelou a ambos os seus segredos.
    O nome deste leão era Graograman, o nome da floresta era Perelim, o menino chamava-se Bastian e a alma era a imperatriz menina de todo o Reino de Fantasia.
    E eu vejo esse universo de alma e espírito dentro de suas poesias.

  4. luramos said

    a consciência que se alcança depois que a verdade nos é revelada…

  5. Kingmob said

    Sem,

    >Protegido de Hermes, vc tem o dom, mas tem tb um blog?

    Como vc descobriu quem me protege?!?? =D
    Vc leu meus pensamentos. Eu já abri uma conta aqui no WordPress mas ainda não postei nada. Para fazer umas bossas mais pessoais. Eu vou reunir e organizar algumas coisas que eu escrevo para poder ter uma ideia de unidade e coesão (ou falta de) o que é sempre muito bom .

    >Vc leu o livro do Michael Ende: A História Sem Fim?

    Está na lista dos meus 10 livros mais impactantes. Este livro tem uns trechos inesquecíveis. A parte em que é explicada ao Bastian (ou Atreiú, agora não lembro) o que é e como seguir a verdadeira vontade. A parte em que o Bastian cai na floresta e a floresta começa a se desfazer. A parte em que as bruxas vão em procissão para se jogar no nada. Quando o autor sugere nas entrelinhas que a Imperatriz menina é também a bruxa malvada. Enfim é um lindo livro, e não só um livro, mas um tratado de como redimir a imaginação, e como é fundamental a imaginação.

    >E eu vejo esse universo de alma e espírito dentro de suas poesias.

    Isso me deixa contente. =)

  6. Kingmob said

    >a consciência que se alcança depois que a verdade nos é revelada…

    é… uma vontade de se aposentar das coisas que prendiam e perderam seu brilho.

  7. Kingmob said

    >Pela primeira vez, o sol beijava a minha face nua, e a minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais as minhas máscaras.
    E, como num transe, gritei: “Benditos, benditos os ladrões que roubaram as minhas máscaras!”

    =)

    Jesus disse ao ladrão na cruz:
    Lucas 23, 42-43:

    42 E disse a Jesus: Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino.
    43 E disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso.

  8. Sem said

    >Como vc descobriu quem me protege?!?? =D

    Foi “ele” que me contou. ;p

    >Quando o autor sugere nas entrelinhas que a Imperatriz menina é também a bruxa malvada.

    Super sutil! Eu acho que foi uma espécie de delicadeza do autor, afinal, nunca ele poderia, em um livro para “crianças”, revelar claramente que a “bruxa” má e a boa, são as duas, uma única pessoa…

    E a mina de imagens? e a cidade dos imperadores? e o velho da montanha errante? História Sem Fim está entre os meus 5 livros mais impactantes. 🙂

  9. Sem said

    Anima-animus, essa relação, é disto tudo o que se trata aqui, quando se fala em alma e espírito, Sol e Lua, homem e mulher.

    Na explicação clássica junguiana, primeiro ocorreria uma diferenciação clara entre consciente e inconsciente e uma identificação do consciente do homem com o masculino e do consciente da mulher com o feminino. No inconsciente, é claro, estariam o feminino reprimido do homem, e o masculino reprimido da mulher, representados sobremaneira nas figuras de Anima e Animus, respectivamente.

    Isso segundo o autor da teoria original dos arquétipos, o nosso estimado e inúmeras vezes aqui citado: Jung. Que apesar de portar qualidades atemporais em muitas de suas teorias, foi um homem do seu tempo e um dos mais dignos representantes da sociedade patriarcal que viveu. Seu conceito anima-animus não deixa de estar impregnada desta distinção, tanto que Jung acreditava que qualquer falha de identificação com o sexo que se possuía, era um processo distorcido da psique ou ainda não completamente amadurecido…

    Hillman defende uma outra idéia, que acredito ser mais correta e mais de acordo com os nossos dias, que nós portamos em nosso inconsciente tanto ‘alma’ quanto ‘espírito’, os equivalentes arquetípicos do feminino e do masculino. E os pós-junguianos, em geral, querem trazer para a pauta dessa discussão a dubiedade sexual típica da sociedade contemporânea, onde os papéis sexuais não são assim tão fixos ou claramente delineados.

    Mas, enfim, voltando ao fio condutor de milênios de diferenciação entre os dois sexos, o que não é de se desprezar nem um pouco, o apaixonar-se seria a projeção em outra pessoa da sua própria contraparte sexual inconsciente, encarnada por essa outra pessoa e reprimida em nós como sombra, desde a mais tenebrosa visão de morte e de desespero, até a mais numinosa imagem de Eros. O outro é sempre o portador daquilo que nos falta e sempre faltará, ou talvez daquilo que mais precisamos integrar.

    O Alberoni diz que cada vez que nos enamoramos (um pouco diferente de se apaixonar, mas, tb envolve paixão) é porque a outra pessoa ilumina os caminhos que ansiamos ou precisamos seguir no futuro mais imediato para nos tornarmos mais completos em nós mesmos. Não apenas o acontecimento, mas tb a duração do enamoramento, tem a ver com o projeto de vida, com a vida que se quer. O amor seria uma outra coisa, seria a continuidade de um enamoramento correspondido, na cumplicidade e no compromisso de levar adiante um projeto em comum.

    Em ambos os casos, Alberoni e Jung, quando a paixão e amor viram doença, é quando se espera que o outro faça por nós aquilo que nós mesmos precisamos fazer, ou, sem meias palavras, é integrar em nós a parte que outro encarna.

    No processo de individuação, todo ele um opus contra-naturum, como nos alerta várias vezes Jung, a parte mais dolorosa é justamente essa, o integrar anima e animus, o que equivaleria não mais projetar no outro, mas buscar em nós aquilo que o outro espelha…

    No entanto, o homem perfeitamente individuado é um objeto de teoria, não é um ser real. Ao contrário do iluminado, que seria um estado absoluto a ser atingido em realidade de uma só vez e partir dali seria eterno. O homem iluminado parece desprender-se da matéria, sua paixão seria antes o universo ou a humanidade como um todo. Já o “individuado”, esse ser que perfeitamente não existe, continuaria capaz de estabelecer vínculos individuais e pessoais e de se apaixonar por outras pessoas, talvez o único capaz de viver na alteridade mais plena, apenas não dependeria ou esperaria que o outro realizasse por ele a tarefa da integração do seu próprio inconsciente.

    Individuação é o processo que nunca acaba, porque o inconsciente não tem fim…

    A propósito desse assunto. Trago um trecho de um livro de astrologia que ainda não terminei de ler e não sei dizer o quanto é bom, mas essa parte é boa:

    …………………………………..
    Sempre que lidamos com energia vital, lidamos com o que em astrologia é basicamente representado pelo Sol e a Lua. O reino de “vida” (usando o termo no sentido mais preciso, designativo da força que constrói, sustenta e reproduz organismos vivos) é o reino de dualidade.
    (…)
    Um terceiro fator, todavia, que deve ser levado em consideração em qualquer análise fundamental, é a Terra. A Terra estabelece as posições e a importância relativa daquilo que os seres humanos percebem como o Sol e a Lua. A ‘necessidade’ destes seres humanos (e de todas as criaturas que habitam a superfície da Terra) é que força a manifestação de energia soli-lunar e, particularmente, dos ciclos da Lua. Na tradição esotérica, a Lua, embora sendo um satélite da Terra, é apresentada como sendo mais velha que a Terra. A Lua é a mãe que atende com afã as necessidades do seu filho – e assim flutua ao redor dele, envolvendo seu próprio movimento. Num outro sentido, a órbita da Lua em torno da Terra traça os limites de um “útero psiquíco-cósmico” dentro do qual toda a vida que há na Terra opera, e do qual essa vida recebe o seu sustento. Este “útero” constitui o ‘reino sublunar’ dos astrólogos medievais – o mundo cuja regência era atribuída (pelos cristãos gnósticos do segundo século d.C.) ao deus lunar Jeová.
    Este deus se ocupava com a construção do “homem astral”. Era um deus possessivo, ciumento, porém foi ele quem produziu estruturas de vida para satisfazer as necessidades das criaturas da Terra. porque estas criaturas terrenas, falando num sentido coletivo, não estão prontas para receber ‘diretamente’ a energia criativa firme e impessoal do espírito solar, esta energia é ‘reduzida e ajustada às necessidades delas’ pelo deus lunar, o ‘Demiurgo’. A energia solar é enviada à Lua em cada Lua nova, mas somente numa quantidade que a capacidade limitada das criaturas terrenas pode aceitar. Então, o deus lunar (ou deuses) constrói estruturas especializadas (de corpo e psique) através das quais a energia solar pode ser utilizada por personalidades e organismos terrenos.
    A quantidade e o tipo de energia solar liberada no início de cada ciclo de lunação são fixados por Saturno; pois, enquanto o Sol representa o centro do sistema da personalidade individual, Saturno representa os limites deste sistema – as limitações, o destino ou predeterminação particular do indivíduo. Saturno simboliza as operações da lei de diferenciação individual (o ‘karma’ do indivíduo). Ele define a estrutura orgânica permanente do corpo (o esqueleto) e ‘também’ a estrutura do ego. Enquanto o ego dominar como centro da personalidade e enquanto os planetas remotos, Urano e Netuno, não conseguirem desafiar e dissolver o domínio saturniano sobre a personalidade, Saturno irá controlando a liberação de energia solar (ou espírito universal), através de formas periodicamente construídas pela Lua (as estruturas psicológicas, regidas pelo ego, do corpo e da consciência). O desafio do inconsciente coletivo à consciência centralizada em torno do ego opera principalmente sob o poder de Urano. Mas, enquanto Urano é o desafiante, a energia liberada pelo desafio é também descarregada pela Lua. Toda a enrgia vital vem essencialmente do Sol, mas é liberada pela Lua, numa forma diferenciada.
    O desafio de Urano ao domínio do ego condicionado por Saturno significa que alguns conteúdos do inconsciente, novos e revolucionários, tornaram-se ativos – e que, em consequência disso a personalidade está prestes a enfrentar um drástico processo de metamorfose. Este processo conduz do estágio de centralização do ego (da personalidade controlada por Saturno) para aquele no qual o Eu (no sentido junguiano, o Sol) é compreendido como sendo a substãncia integrante de uma personalidade total (simbolizada pelo sistema solar inteiro). Esta metamorfose é aquilo que Jung chama de “processo de individuação”. Todavia, o homem comum ainda está muito longe de tal confronto. Nele, Urano age de uma forma ‘refletida’, como um fator de perturbação causada por condições sociais instáveis e dilacerantes. Nele, o domínio de Saturno não é realmente ameaçado de uma maneira individual.
    (…)
    Com referência a estes dois tipos de fatores inconscientes é que as funções ‘anima-animus’ operam essencialmente.
    Estas funções constituem um aspecto da Lua no simbolismo astrológico – o tipo de atividade lunar dirigida para o interior. O outro aspecto lida com o tipo de atividade lunar dirigida para fora, que, (…) está ocupada com estruturas biológicas e faculdades psicológicas, que têm por objetivo criar o melhor tipo de ajustamento ao mundo exterior. Em outras palavras, no ser humano comum, a Lua representa dois tipos distintos de atividades de polaridades opostas. As tradições antigas reconheceram claramente este fato quando deram à Lua um gênero duplo, falando do planeta como ‘Lunus-Luna’ – a Lua masculina e feminina. Na língua alemã, a palavra Lua é masculina, e em antigos livros indianos nós encontramos referências repetidas à Lua sob o nome de “Rei Soma”.

    (obs: sempre que eu uso o sinal ‘, significa que está em itálico no original)
    …………………………………..

    Pessoal, segue-se o pensamento da autora (Dane Rudhyar: A Astrologia e a Psique Moderna) na divisão da Lua em masculino e feminino, muito interessantes, interessantes mesmo! Muitas informações, que pelo menos pra mim eram novas, mas estou copiando do livro e estou cansada de digitar… amanhã ou depois trago o que faltou… ainda é grandinho o pedaço que falta.

    Só pra fechar essa parte, na astrologia antiga, tinha o conhecimento de que só o Sol e a Lua portavam características sexuais puras. Todos os demais 5 planetas visíveis tinham o seu lado diurno masculino e o seu lado noturno feminino: como o Mercúrio masculino diurno de Gêmeos e o Mercúrio feminino noturno de Virgem, ou o Marte masculino de fogo de Áries e o Marte feminino de água de Escorpião. Mas, parece que nessa vertente, nem a Lua deixou ela mesma de ter o seu “espírito”…

    Eu acho que esses assuntos todos fazem um gancho fantástico com o La Loba da Fy.

    Fiquei em dúvida se postava aqui ou lá, mas como a discussão está por aqui, resolvi dar a continuidade por aqui mesmo.

    Inclusive, Fy, não sei se vc lembra das minhas restrições a esses livros sufocantemente femininos, visões de luas e de liliths e de Grandes Mães substituindo Jeová… Parece tão atraente e libertador a princípio, nós que vivemos em uma sociedade predominantemente dominada por valores masculinos, mas, no fundo, não difere em nada de explicações de mundos angustiantemente cortados pela lógica, tiranicamente masculinos… é só o outro lado da mesma moeda.

    Meu voto vai para a fraternidade universal, isto é, se houvesse um dia essa eleição de um sistema ao qual nos submeteríamos… É um utopia…

    Bem, não quero ser mal interpretada, não consigo deixar de ser mulher e sinceramente nem há outra coisa que eu queira ser, mas não me satisfaz, se é que um dia satisfez, representar um papel de mulher, porque dentro das sociedades matri ou patri, é isso que eu acho, são só papéis delineados a cumprir, e eu queria mais é viver num mundo fatri… Isso é que eu queria discutir, será possível, um dia, isso de fraternidade universal?

  10. Kingmob said

    Poema do filme “Asas do Desejo”:

    Em português (incompleta):

    Canção da Infância

    Quando a criança era criança
    Ela caminhava com os braços balançando
    Ela queria que a ribeira fosse um rio,
    O rio uma torrente
    E uma poça d´água, o mar,

    Quando a criança era criança,
    Ela não sabia que era criança.
    Tudo era inspirado nela,
    E todas as almas eram uma só.
    Quando a criança era criança,
    Não tinha opinião sobre nada,
    Não tinha nenhum hábito
    Sentava-se de pernas cruzadas,
    E saía a correr de repente.
    Tinha um redemoinho no cabelo
    E não fazia caretas quando ia tirar fotografias.

    Quando a criança era criança,
    Era a época das perguntas:
    Por que eu sou Eu
    E não tu?
    Por que eu estou aqui e
    Por que não lá?
    Quando começou o tempo
    E onde termina o espaço?
    A vida sob o sol não é apenas um sonho?
    Não seria tudo o que eu posso ver, ouvir e cheirar
    Apenas a aparência de um mundo anterior a este mundo?
    Existe mesmo o Mal
    E pessoas que são realmente más?
    Como é que eu, o Eu que eu sou,
    Antes que eu viesse a ser, não era?
    E como é que um dia eu,
    O Eu que eu sou, não mais serei
    O eu que Eu sou?

    Em Inglês:

    Song of Childhood
    By Peter Handke

    When the child was a child
    It walked with its arms swinging,
    wanted the brook to be a river,
    the river to be a torrent,
    and this puddle to be the sea.

    When the child was a child,
    it didn’t know that it was a child,
    everything was soulful,
    and all souls were one.

    When the child was a child,
    it had no opinion about anything,
    had no habits,
    it often sat cross-legged,
    took off running,
    had a cowlick in its hair,
    and made no faces when photographed.

    When the child was a child,
    It was the time for these questions:
    Why am I me, and why not you?
    Why am I here, and why not there?
    When did time begin, and where does space end?
    Is life under the sun not just a dream?
    Is what I see and hear and smell
    not just an illusion of a world before the world?
    Given the facts of evil and people.
    does evil really exist?
    How can it be that I, who I am,
    didn’t exist before I came to be,
    and that, someday, I, who I am,
    will no longer be who I am?

    When the child was a child,
    It choked on spinach, on peas, on rice pudding,
    and on steamed cauliflower,
    and eats all of those now, and not just because it has to.

    When the child was a child,
    it awoke once in a strange bed,
    and now does so again and again.
    Many people, then, seemed beautiful,
    and now only a few do, by sheer luck.

    It had visualized a clear image of Paradise,
    and now can at most guess,
    could not conceive of nothingness,
    and shudders today at the thought.

    When the child was a child,
    It played with enthusiasm,
    and, now, has just as much excitement as then,
    but only when it concerns its work.

    When the child was a child,
    It was enough for it to eat an apple, … bread,
    And so it is even now.

    When the child was a child,
    Berries filled its hand as only berries do,
    and do even now,
    Fresh walnuts made its tongue raw,
    and do even now,
    it had, on every mountaintop,
    the longing for a higher mountain yet,
    and in every city,
    the longing for an even greater city,
    and that is still so,
    It reached for cherries in topmost branches of trees
    with an elation it still has today,
    has a shyness in front of strangers,
    and has that even now.
    It awaited the first snow,
    And waits that way even now.

    When the child was a child,
    It threw a stick like a lance against a tree,
    And it quivers there still today.

    No original alemão:

    Lied Vom Kindsein
    – Peter Handke

    Als das Kind Kind war,
    ging es mit hängenden Armen,
    wollte der Bach sei ein Fluß,
    der Fluß sei ein Strom,
    und diese Pfütze das Meer.

    Als das Kind Kind war,
    wußte es nicht, daß es Kind war,
    alles war ihm beseelt,
    und alle Seelen waren eins.

    Als das Kind Kind war,
    hatte es von nichts eine Meinung,
    hatte keine Gewohnheit,
    saß oft im Schneidersitz,
    lief aus dem Stand,
    hatte einen Wirbel im Haar
    und machte kein Gesicht beim fotografieren.

    Als das Kind Kind war,
    war es die Zeit der folgenden Fragen:
    Warum bin ich ich und warum nicht du?
    Warum bin ich hier und warum nicht dort?
    Wann begann die Zeit und wo endet der Raum?
    Ist das Leben unter der Sonne nicht bloß ein Traum?
    Ist was ich sehe und höre und rieche
    nicht bloß der Schein einer Welt vor der Welt?
    Gibt es tatsächlich das Böse und Leute,
    die wirklich die Bösen sind?
    Wie kann es sein, daß ich, der ich bin,
    bevor ich wurde, nicht war,
    und daß einmal ich, der ich bin,
    nicht mehr der ich bin, sein werde?

    Als das Kind Kind war,
    würgte es am Spinat, an den Erbsen, am Milchreis,
    und am gedünsteten Blumenkohl.
    und ißt jetzt das alles und nicht nur zur Not.

    Als das Kind Kind war,
    erwachte es einmal in einem fremden Bett
    und jetzt immer wieder,
    erschienen ihm viele Menschen schön
    und jetzt nur noch im Glücksfall,
    stellte es sich klar ein Paradies vor
    und kann es jetzt höchstens ahnen,
    konnte es sich Nichts nicht denken
    und schaudert heute davor.

    Als das Kind Kind war,
    spielte es mit Begeisterung
    und jetzt, so ganz bei der Sache wie damals, nur noch,
    wenn diese Sache seine Arbeit ist.

    Als das Kind Kind war,
    genügten ihm als Nahrung Apfel, Brot,
    und so ist es immer noch.

    Als das Kind Kind war,
    fielen ihm die Beeren wie nur Beeren in die Hand
    und jetzt immer noch,
    machten ihm die frischen Walnüsse eine rauhe Zunge
    und jetzt immer noch,
    hatte es auf jedem Berg
    die Sehnsucht nach dem immer höheren Berg,
    und in jeder Stadt
    die Sehnsucht nach der noch größeren Stadt,
    und das ist immer noch so,
    griff im Wipfel eines Baums nach dem Kirschen in einemHochgefühl
    wie auch heute noch,
    eine Scheu vor jedem Fremden
    und hat sie immer noch,
    wartete es auf den ersten Schnee,
    und wartet so immer noch.

    Als das Kind Kind war,
    warf es einen Stock als Lanze gegen den Baum,
    und sie zittert da heute noch.

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