Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Peter Pan e o Homem de Massa

Posted by Kingmob em fevereiro 12, 2009

O discurso filosófico ocidental oscila entre duas têndencias distintas de pensamento: realismo e nominalismo.

Realismo (em uma de suas variações) é um modo de interpretar a realidade em que as palavras que usamos para nos referirmos aos objetos que se apresentam aos sentidos possuem existência independente em um plano ideal, formal. Assim a palavra “mesa” por ter o poder de referir-se a qualquer mesa que haja no mundo teria um valor inerente, independente das existências particulares de cada mesa. Nós em nosso senso comum não duvidamos que todas as mesas tenham alguma semelhança entre si. Senso comum tem a ver com esta espécie de realismo.

No realismo conforme concebido por Platão para além das mesas individuais haveria em um mundo de essências, ou mundo inteligível, a própria essência e fundamento de realidade de todas as mesas existentes, do qual estas retirariam toda sua possibilidade de existir. Todo o ser de todos os objetos do mundo dependeria assim de Ideias ou Formas terra_do_nunca1abstratas. Haveria portando dois mundos: o mundo inteligível (porque é dele que se retira toda possibilidade de coerência e sentido dos objetos) e o mundo sensível ou de aparências (porque seus objetos não possuem realidade própria ou inerente dependendo do mundo das formas para existir, ainda que precariamente).

O nominalismo, grosso modo, vem negar a existência das formas e ideias, e até mesmo das palavras de cunho geral que permitam a comunicação ou entendimento para pôr em relevo a existência única, atual e não reproduzível dos objetos. Acontece mesmo que em algumas formas de se experimentar o nominalismo não existam objetos, mas fluxos, intensidades, sem unidade diferenciada.

Não existiria deste modo um conceito geral de cadeira, ou uma Forma que desse sentido a todas as cadeiras. O que existiria seriam cadeiras ou objetos que na sua singularidade concreta não teriam a mínima semelhança entre si que permitisse designar todas com uma única e mesma palavra – cadeira. Esta maneira de se perceber a realidade vai contra o senso comum e as comunicações que se fazem no cotidiano.

As duas visões, debates filosóficos à parte, não se excluem.

O desenvolvimento unilateral de uma destas visões leva por um lado à imersão do indivíduo em um sistema de conceitos gerais, adaptado a um universo de conceitualizações úteis, mas sem consciência da singularidade dos seres ao seu redogood-morning-lemmingsr e em última análise do seu próprio ser. É o caso do homem de massa, o homem normal ou padrão das sociedades. De outro lado o desenvolvimento unilateral levaria a uma interpretação sui generis, cheia de singularidade da realidade e dos objetos e do próprio ser do indivíduo, mas também a uma incapacidade (e rejeição) para a vida social ou em comunidade e para comunicar este universo satisfatoriamente aos demais. É que a vida social requer forçosamente um certo grau de generalização. Este seria o caso de doentes mentais, mendigos, gênios incompreendidos, Peters Pan, etc.

Antes de serem conceitos filosóficos teóricos, “nominalismo” e “realismo” são modos do sistema nervoso experimentar a realidade diretamente por meio dos sentidos. E quanto mais abrangente e harmoniosa é a experiência das realidades fundamentais, maior é a possibilidade de liberdade individual e coletiva.

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5 Respostas to “Peter Pan e o Homem de Massa”

  1. Elielson said

    A palavra é uma raiz dentro de um solo (realidade).

    A raiz da cadeira se espalha em poltrona, sofá, banco…

    Ver a particularidade é realmente prejudicial, mas somente se for incomunicável…

    A realidade é um acordo, entre os pactuantes e a genealogia que se segue, tipo aliança com Deus entende?

    Nós fazemos parte de uma aliança brasileira, sul-americana, latino-americana, portuguesa, africana, indigena, etc…

    Local de desembarque e possibilidade de ação, pra mim essa é a aliança… a partir disso, nomeio e nomeio… se alguém entrar no acordo, eis a realidade.

    Ultimamente estou parado olhando a árvore, vendo essas raizes (realidades fundamentais… como diz Kingmob.) , pensando em como me distraio dando mais valor para determinadas ramificações, tentando ficar a sombra da árvore, e não cavando buracos pra abraçar raízes.

    Existem palavras que me deixam revoltado, conjunto de palavras… Depósitos de intenções, isso é ruim… Uso desse modo? Pode ser, porém a intenção deve ser neutralidade, como manifestar neutralidade???Sendo sincero apenas comigo mesmo.

    Nossas cavernas são minas de manutenção das raízes? A utilidade se perverte no conforto e segurança de uma armadura que impede as funções orgânicas de trabalhar diretamente com os elementos do solo, raizes que nos envolvem impedem nossas mãos de tocar outra coisa que não sejam elas.

    Vou continuar no post anterior…

  2. sem mais said

    Elielson, vc vê o mundo a partir de imagens… Compreendo isso, afinal, tb sou assim, só acho que vc eleva isso a enézima… Estou pensando se isso é mais coisa de intuitivo, ou influência da psicologia imaginal ou do discurso pós-moderno?

    Kingmob, achei perfeita a sua análise e concordo muito com sua conclusão. Só achei estranho falar no idealismo de Platão como um realismo… Mas é só uma questão de nomenclatura, eu não sou especialista na área de filosofia, e o que vc chama de realismo, conheço por idealismo, e nominalismo por materialismo… Deixando esses “ismos” de lado, podemos mesmo, grosso modo, separar as correntes da filosofia ocidental em duas vertentes e, como vc, tb penso que o entendimento do homem seria mais completo se não negasse as suas duas origens.

    Good morning lemmings! 🙂 Essa imagem é bem representativa do homem de massa, que recebe um comando de fora e o executa às expensas de qualquer contradição interna. Nesse caso, o livre-arbítrio é um paradoxo. Como na máxima: a natureza para ser comandada, precisa ser obedecida! Pode tanto ser uma fuga como um ir de encontro a si mesmo, indo em direção aos outros – afinal, a liberdade é sempre uma questão de escolha e a única liberdade que temos é cumprir o nosso destino… condenados a ser aquilo que somos.
    O fato é que o homem tanto é um ser social quanto individual, e a escolha do homem de massa se realiza ao obedecer seu ser social acima do individual. Como regra, penso que nascemos individuais e nos tornamos sociais, à medida que crescemos somos cada vez mais capturados pelo encontro com o outro e pela rede do sistema, para o bem e para o mal, e só vamos voltar à nossa origem individual na morte. Mas toda regra tem exceções…

    Quem assistiu ao “O Curioso Caso de Benjamin Button”? Eu ainda não vi, mas a sinopse é essa… Será que foi isso que o Jung quis dizer quando falou que nascemos originais e morremos cópias?

    A respeito de Peter Pan, que é uma representação do espírito humano indomado, nunca ele deve mesmo deixar a Terra do Nunca, como foi sugerido pelo Lúcio no outro tópico, a respeito da necessidade de multiplicar e não subtrair os deuses. Peter não deve abandonar a Ilha da Fantasia, sob pena de, se o fizer, ser descaracterizado, deixar de ser o espírito que é: que insufla, inspira, transcende… seu lugar é voando e não comportado em uma sala de visitas escutando histórias. Como arquétipo do puer aeternus, estou pensando nisso agora, Peter Pan faz par com a Terra do Nunca e não com Wendy… Da menina ele deve abrir mão, como Hermes alado que é, mas imaginem que lugar desolado seria a Terra do Nunca sem Peter?

    Existem dois livros, de dois junguianos, que trazem uma abordagem completamente distinta do assunto. Um é o clássico da Marie-Louise von Franz, “Puer Aeternus”, e o outro é o do James Hillman, “O Livro do Puer”… Não posso dizer que um está certo e o outro errado, mas prefiro a abordagem de Hillman, que vê o ‘puer’ (leia-se espírito) não como uma doença ou um sintoma infantil a ser eliminado e ajustado para uma existência social adulta mais adequada, mas como um polo arquetípico para o ‘senex’, para a ‘Grande-Mãe’, para a psique (leia-se alma).

    No final acho que podemos nos dar por satisfeitos se ficarmos mais ou menos equilibrados entre os Lemmings e o Peter…

  3. Elielson said

    Oi Sem Mais,

    Que bom seria se fossem só imagens…
    Mas tem tbm as interferências que usam do invisivel para obter o visivel.
    Talvez Platão pirou nisso.
    Pra não ficar na particularidade incomunicável e virar um mendigo, passo minha visão utilizando imagens, mesmo que na maioria das vezes a ideia fique vaga, a imagem vai estar lá. (isso é psicologia imaginal???)

  4. sem mais said

    Elielson,

    O mundo das idéias de Platão? Sou uma grande admiradora das idéias de Platão, mas não radical… acho que a única maneira de tornar Platão viável é mesclar com algum materialismo, que não precisa ser dialético, nem marxista, mas mergulhar literalmente em um idealismo puro, acho inviável… afinal, onde entra o ceticismo nessa história? Não que prefira os céticos, porém… Mas voltando às imagens, o mito da caverna de Platão, bastante conhecido, é uma senhora imagem-idéia, pois quando se visualiza um grupo de homens acorrentados, olhando para o fundo de uma caverna, vendo sombras de coisas que se movem fora, tomando as sombras por realidade, essa imagem, por si só, ela já diz tudo… É como a poesia, outro tipo de linguagem estética que fala e sintetiza sigificado mais à alma do que a lógica. Embora a lógica tb seja estética e, para quem gosta, é tb poesia.
    Psicologia imaginal vem de psicologia arquetípica, que vem de James Hillman, que vem de Carl Gustav Jung, que vem de Platão, dentre outros, pois Jung foi um grande erudito, influenciado, infelizmente, desde Kant e, afortunadamente, até filosofia oriental… se quiser saber mais a respeito de psicologia imaginal, pesquise James Hillman e pós-junguianos em geral.

  5. BoB said

    Tvz melhor fosse caracterizar a diferença entre o mundo dos Lemmings e do Peter Pan da seguinte forma: a ‘realidade’ dos primeiros é o mundo sem sonhos …a ‘realidade’ do segundo é o mundo dos sonhos!

    Será que precisamos nos submeter a uma lobotomia ou a tirania do “OU” isto “OU” aquilo? hmmm…não creio. Sem sonhos não há futuro, só pesadelos travestidos de ‘realismo’.

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