Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Carta de um amigo chinês

Posted by Kingmob em janeiro 5, 2009

Caro Kingmob,

tenho uma coisa para te dizer:

Toda sua consciência de você mesmo, dos objetos ao seu redor e de seus conteúdos mentais depende para existir de fricção. Sem fricção entre sujeito e objeto estes dois deixam de estar presentes de forma relevante, então só Deus sabe o que há.

zhuangziNa verdade a extinção do seu mundo é algo tão natural e fácil como o curso de um regato ou a explosão suave de uma bolha de sabão. Quanto mais você se ativer ao presente mais facilmente seu mundo se extinguirá e então você experimentará a radical gratuidade e inutilidade do ordenamento do real no qual você se insere. Sua vida vai derreter diante de seus olhos, as percepções mais separadas e dissonantes irão se fundir como se isto tivesse sempre sido o natural.

E então haverá a Intimidade. O cúmulo da Intimidade, mais íntima que a intimidade “com”. Com o subjetivo ou com o coletivo. Mais íntimo que sentimentos ou pensamentos. Mais íntimo que a identidade e a religião. Lá onde o estupor alógico serenamente já deixou você e seus bibelôs há muito tempo para trás.

Não é à toa que não se fala sobre certos assuntos. Porque a fragilidade da sua realidade pessoal é tamanha que não resta o que dizer – melhor curtir sua mulher, cantar seu som e beber seu vinho despreocupadamente. Com a paz resignada e alegre da falta de um amanhã, de um Tempo. E quando o Dom gratuito tiver de vir que venha. Enquanto isso, sim, friccione e deixe-se friccionar por aqueles sujeitos e objetos que dentro e fora de você te expandem e te fazem mais pleno.

Você nunca teve nada a perder porque você nunca teve nada, e por mais que não esteja preparado ainda para a liberdade total, é bom manter sempre que puder a perspectiva.

És pobre. Este é teu quinhão. Aceite. A Plenitude já é desde sempre, antes mesmo de você portar um rosto, antes mesmo de pulsar a veia da vida que chamas tua, antes mesmo de ter orgulho de suar em um corpo – A Plenitude incondicionalmente já é. Ela não precisa de você. Aceite.

Um abraço,

Chuang Li.

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3 Respostas to “Carta de um amigo chinês”

  1. luramos said

    A vida eh mesmo uma cobra mordendo o proprio rabo.

  2. kingmob said

    >A vida eh mesmo uma cobra mordendo o proprio rabo.

    All the time.

  3. Ismael said

    Mas talvez a visão taoísta de seu amigo olvide o desenvolvimento ulterior que o budismo trouxe à indiferença indiana e chinesa, expressa tanto nos Upanishades e quanto no Tao Te King. No fundo a mesma situação que surgiu no ocidente em uma configuração mais primitiva, com cores mais primárias e infantis: o “Senhor dos Exércitos” do Velho Testamento virou o “Pai Amado” dos evangelhos. Isso significa que, como assinala Jung em “Resposta à Jó”, a Plenitude contaminou-se com o particular: Deus fez-se carne em Cristo e compreendeu a perspectiva humana, a neutralidade Hindu deu lugar a compaixão budista (queira-se ou não, compaixão é uma escolha entre dois valores, em última instância, neutros). Talvez esse tenha sido um mero movimento natural e eterno da Plenitude. Talvez por ser realmente Plena, a Plenitude também abranja o que há de mais particular no particular (a subjetividade subjetivíssima de F. Pessoa): a perspectiva do “pobre” ser humano, sofredor e parcial, que se pudesse escolheria não sofrer, escolheria integrar-se ao todo. O importante é que tanto a compaixão budista quanto a encarnação do Verbo são sinais de uma nova era na evolução, em que há um imponderável contato entre os indivíduos, entre um ser humano e a Plenitude (e nem a suposta neutralidade final do Mahamudra explica porque Avalokteshvara tentou em vão salvar todos os seres do sofrimento). Uma fricção, na verdade, entre ambos. Ora, dirão: “Isso é impossível. Mais que impossível: a Plenitude friccionar-se com o individual fragmentado, a ponto de contaminar-se com ele e sentir compaixão é um absurdo.” E eu respondo, como Tertuliano, “credo quia absurdum”. Esse é o paradoxo que a mente humana não pode entender mas que se realiza hoje. Afinal, não é a toa que se dá tanto valor à conciliação dos inconciliáveis. Claro que a Plenitude é, sempre esteve e sempre será. É claro que, a rigor, ela não pode se manifestar porque já está manifesta. Mas ela não se importa com nossa compreensão linear do tempo, e nos concede um espetáculo: como um pintor ou músico, usa nossos conceitos limitados como tintas ou notas musicais, e constrói para nós uma obra de arte que se encaixa no nosso esquema passado-presente-futuro: o que nós, espectadores, testemunhamos, é que, gradualmente, a Plenitude está se apresentando à nos como nunca se apresentou antes. Em outras palavras: “A Eternidade anda enamorada dos frutos do tempo”.
    É isso. Ou não.

    Anima animaba animabapa.

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