Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Kurt Cobain é meu Jesus

Posted by Kingmob em dezembro 21, 2008

a Don Guakyto e Drew Hempel, pensadores de direita (cerebral).

O cineasta Pier Paolo Pasolini faz terminar sua obra-prima “Teorema” com uma das personagens correndo nua em pleno deserto cinzento e de repente a faz soltar um grito, um urro, melhor dizendo, primal, de desespero. A personagem, um burguês, dono de uma imensa fábrica, tem em decorrência dos acontecimentos do filme a sua identidade avassalada pelo poder de uma pulsão que livre de qualquer limite arrasta consigo tudo que vê pela frente. Ante a fragilidade da identidade burguesa e de sua unidade mínima fundamental, a família, o que resta depois de uma carreira desabalada da pulsão é o deserto e o urro, toda coerência passando a ser um acidente de percurso.

Perguntado sobre quem era, logo no começo do evangelho de São João, João, o Batista responde: “Eu sou a voz daquele que clama [urra] no deserto: aplainai o caminho do Senhor” (Jo 1,23). João, o Batista, foi decapitado e teve sua cabeça servida em uma bandeja.

Kurt Cobain fez da angústia do berro uma arte toda especial, com nuances, melodias e rascâncias até então kurtcobaindesconhecidas no mainstream artístico– o que Bach fez com praticamente todos os instrumentos de sua época, Cobain fez com o urro primal. Talvez o que torne as composições de Kurt únicas seja a dolorosa alternância entre uma voz terna e carinhosa, quase como a de um messias encarnado em rockstar, por um lado, e uma angústia poderosa e em volume no 10, por outro.

A carta “A Temperaça” , de número XIV do tarot de marselha mostra um ser angelical misturando o conteúdo de duas taças de cores distintas, talvez opostas, de maneira equilibrada e harmoniosa.

A união dos opostos é um tema fundamental nos escritos de Carl Gustav Jung. A tensão entre as duas polaridades (introversão/extroversão, sensualidade/intelectualidade, etc) vai crescendo enquanto o indivíduo experimenta-se suspenso e sem ação em meio a duas forças descomunais que tendem para direções e qualidades opostas. E então eis que surge por si mesma, por um trabalho da própria natureza a chamada função transcendente, o terceiro elemento, que canaliza a libido até então tensionada para novas direções. Esta função está diretamente ligada com a faculdade imaginativa da psique humana.

Kierkegaard em sua obra “O Desespero Humano” de 1849 : “Assim como talvez não haja, dizendo os médicos, ninguém completamente são, também se poderia dizer, conhecendo bem o homem, que nem um só existe que esteja isento de desespero, que não tenha lá no fundo uma inquietação, uma perturbação, uma desarmonia, uma receio de não se sabe o quê de desconhecido ou que ele nem ousa conhecer, receio duma eventulidade exterior ou receio de si próprio”. Em outro parágrafo: “O temor diz respeito a qualquer coisa de preciso, ao passo que a angústia é a realidade da liberdadetemperanca-jodo, como possibilidade frente à possibilidade, a possibilidade da liberdade. Somos angustiados por nada: a angústia tem o nada como objeto… é a vertigem da liberdade, o arrependimento em potência, a suspeita da consequência antes que ocorra. A fé é a coragem de renunciar à angústia sem angústia.”

No que arremata Fernando Pessoa psicografando a si mesmo como Álvaro de Campos: “Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo? Então sou só eu que sou vil e errôneo nesta terra?”.

Kierkegaard para muitos foi o precursor do existencialismo. Desde então numerosos escritores -Heidegger, Sartre, Camus- tomaram a angústia, a náusea, o absurdo, como topos filosóficos privilegiados em suas reflexões. O conflito interno como experiência de autenticidade do sujeito.

Um power chord plangido de uma guitarra ligada a um pedal de distorção condensa toda a expressividade explosiva dos hormônios adolescentes em ondas sonoras.

O movimento punk e a sua filosofia agregada do “faça você mesmo”, surgiu em parte para se contrapor ao ideal bicho-grilo, de paz e amor, regrados ambos a química natural e sintética.

Os Dead Kennedys banda punk e sarcástica como só uma banda punk pode ser têm uma estrofe muito engraçada na canção California Uber Alles (Califórnia Acima de Todos):

Zen fascists will control you
100% natural
You will jog for the master race
And always wear the happy face

A nona de Beethoven é um trabalho de taumaturgia condensado em música. Ali se ouve e se vê, caso sinestesia haja, o desenrolar de forças titânicas da natureza, forças invisíveis para a consciência de vígilia usual, forças que ultrapassam o entendimento e o sentimento cotidianos do sujeito humano, forças que pisam e comprimem como a um inseto e sem pudor qualquer idéia de “Eu sou”. O gênio de Beethoven vê a beleza, e tamanha, que é um terrível horroroso e potencialmente esmagador.

Rainer Maria Rilke, na primeira elegia de Duíno: “Quem se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos/ me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia/ sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo/ senão o grau do Terrível que ainda suportamos/ e que admiramos porque, impassível, desdenha destruir-nos? Todo Anjo é terrível”.

f_retrato_kierkegaard3Conta a lenda que o discípulo de Wilhelm Reich, Alexander Lowen, tinha as paredes de seu consultório revestidas de material isolante acústico para que seus pacientes pudessem gritar a plenos pulmões, sem restrições, ou vergonhas, de modo a aliviar suas couraças musculares e emocionais.

É um brincadeira comum entre crianças submergir sob as águas do oceano ou da piscina e soltar gritos com toda a força. Um bom travesseiro também serve. Se a criança grita em meios a outras situações é prontamente repreendida pelos pais, em nome da boa ordem familiar e da saúde dos ouvidos. Daí a necessidade de submersão.

Desolador o sentimento de se estar andando no centro de uma grande cidade e sentir por baixo de todo trabalho e ordem, todas as peças aparentemente encaixadas, a insatisfação reinante com a condição humana, e ainda assim o senso “prático” de comida, casa, remédio, consumo e um morrer em paz soar mais alto que o urro fechado na caixa toráxica.

Nada que um pouco de calor humano, como bons e plácidos mamíferos sugadores de seios que somos, não remedie, até segunda ordem.

Georges Ivanovitch Gurdjieff, talvez o mais lúcido e profundo professor espiritual do século XX, recebiaqueixasdeseusalunos que reclamavam da falta da presença do amor em seus ensinamentos. Ele respondia que my-heartantes de amar de verdade o homem e a mulher precisavam deixar de ser máquinas sem consciência ou inteligência. Ressaltava a importância fundamental do conflito interno para o trabalho, pondo em evidência o que chamava de Santa Afirmação, Santa Negação e o elemento sintético, Santa Reconciliação.

Gurdjieff era para muitos um chato de galocha pois punha ênfase no esforço, no sacrifício, na disciplina e no trabalho na consecução do obetivo espiritual. Para ele o sacrifício da carne em favor do espírito que a contém era algo bem concreto e tangível e não tinha pudores em dizê-lo.

O padre Bernardo Bonowitz, OCSO, abade do único mosteiro trapista do Brasil, relata as dificuldades da convivência monástica. As mesmas picuinhas e disputas psicológicas de poder presentes no século se encontram no mosteiro. Conta que para dirigir os seus monges tem de constantemente descer de seu lugar, voltar ao ponto de início e recomeçar do zero junto com eles. Seu apelido é “o cutucador”.

O objetivo da psicanálise freudiana é curar ou diminuir os efeitos da neurose de modo a fazer com que o sujeito funcione eficientemente dentro daquelas funções a ele atribuídas dentro do corpo social. A doença deve ser extirpada e a excentricidade da individualidade aparada de modo que um certo grau mínimo de homogeneidade com o campo social permita o funcionamento da psique individual, que não vai morrer de prazeres, mas também não vai morrer de dor.

gurdjieff-de-chapeu2Tolstói: “Todas as famílias felizes se assemelham; mas cada família infeliz é infeliz a seu modo”.

O equilíbrio homeostático do organismo dos seres vivos já foi chamado, ingenuamente talvez, de “sabedoria do corpo”. Se o corpo fica quente, sua. Se fica frio, treme. A homeostase se dá através da dinâmica da retroalimentação (feedback), correções e microcorreções no rumo do devir do organismo.

O corpo sem órgãos é um conceito da criação de Antonin Artaud. O organismo (corpo orgânico) serve a um poder coercitivo, seja ele social ou biológico. Já o corpo sem órgãos em sua inutilidade histérica aparente está sujeito a intensidades e mutações totalmente inacessíveis aos organismos, experiências insuspeitadas, criativas e até revolucionárias.

Ele foi para o Nepal para comer haxixe e ser abduzido por aliens, e no Nepal comeu haxixe e foi abduzido por aliens. Grant Morrison, o criador dos Invisíveis, conta que estando na quinta dimensão com seus amigos alienígenas, estes lhe ensinaram que o nosso universo conhecido nada mais é que uma forma de vida ainda em estágio larval. (Não tentem isto em casa).

A alquimia muitas vezes para o leigo parece ter um caráter sombrio quase mórbido, trabalho com as energianigredos sombrias e necromânticas, um mister de capuz negro, foice e muita paciência. Uma paciência que vai de encontro aos anseios masturbatórios dos adolescentes especuladores da Rua do Muro (Wall Street). Nigredo, placenta, casulos, larvas, linfa, sangue, fezes, urina, saliva, mênstruo, sêmem, secreções, tripas, músculos, mercúrio – constituiem o capital do alquimista. E viva a usura!

Muitos dos místicos cristãos em algum momento de sua vida de oração participam interiormente das dores da paixão e morte de Jesus Cristo. Alguns deles chegam a contrair suas chagas que cheiram a perfume celestial e vertem sangue a borbotões. Chegam a relatar momentos em que não sabem diferir a dor do prazer, há por assim dizer uma união das duas sensações – a cruz mais o orgasmo da alma.

Há um diferença enorme entre o que se vive internamente e o que permitem que seja dito e ventilado as regras explícitas e implícitas de coesão social.

A Grande Obra, o Tao, O Dharma, o caminho de individuação furtam-se continuamente aos ataques e tentativas de exploração inconscientes do maquinário jornalístico e midiático da sociedade de consumo e espetáculo.

ronald-mcdonald1Boys and girls have a nice day!

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13 Respostas to “Kurt Cobain é meu Jesus”

  1. Elielson said

    olá… permita-me começar a comentar aqui.
    Adorei seu poder de síntese moça…
    Sem este poder ficamos a deriva de qualquer impulso. Então gostaria de a partir de hoje… compartilhar minha obervação com as observações postadas aqui… Muito bom seu blog.

  2. Elielson said

    só tira o br na hora de verificar link

  3. adriret said

    >A tensão entre as duas polaridades (introversão/extroversão, sensualidade/intelectualidade, etc) vai crescendo enquanto o indivíduo experimenta-se suspenso e sem ação em meio a duas forças descomunais que tendem para direções e qualidades opostas. E então eis que surge por si mesma, por um trabalho da própria natureza a chamada função transcendente, o terceiro elemento, que canaliza a libido até então tensionada para novas direções. Esta função está diretamente ligada com a faculdade imaginativa da psique humana.<<

    Muito bem colocado sobre a função transcendente = a Alma, a psique, a imaginação…. sem ela não tem como ligar Espírito e corpo.

    Então o grito vem liberar essas tensões, desfazer as couraças musculares, dissolver as sistase…. e talvez dai surja a função transcendente, ou seja ha uma brecha pra que a alma ou psique se manifeste livremente??

    Não deixa de ser uma outra alternativa pra afrouxar os grilhões do sistema que esta dentro de nossa mentalidade limitada. Com certeza, pelo menos libera a energia acumulada e da aquela sensação de alivio.

    Abs

  4. Kingmob said

    Oi Adi,

    >Então o grito vem liberar essas tensões, desfazer as couraças musculares, dissolver as sistase…. e talvez dai surja a função transcendente, ou seja ha uma brecha pra que a alma ou psique se manifeste livremente??

    =D. Exatamente .E daí o grito vai ter um paralelo com o riso, embora temamos mais um do que o outro.

    >Não deixa de ser uma outra alternativa pra afrouxar os grilhões do sistema que esta dentro de nossa mentalidade limitada.

    E quando não há outra alternativa?
    Me parece que a função transcendente, ou a novidade total, não aparece como escolha, como ato deliberado que parte de uma opção, mas sim como violência mesmo, como algo que te incorpora e não te deixa outra alternativa, algo que te força, a pensar, sentir, ser e em última análise mudar.

    Abs.
    Kingmob.

  5. Kingmob said

    >olá… permita-me começar a comentar aqui.

    Olá, Elielson, seja bem-vindo. Fique à vontade.

    >Adorei seu poder de síntese moça…
    >Muito bom seu blog.

    Obrigado. O Anoitan é um esforço e um prazer conjunto dos indivíduos listados ali no canto superior direito. Eu sou o Kingmob. Todos escrevem aqui para compartilhar sentimentos e idéias e com certeza o resto da turma também sofre as agruras irremediáveis do excesso de libido e sublimação. Portanto, watch out, vc pode nunca mais voltar a ser o mesmo! =-)

    Abs,
    Kingmob.

  6. adriret said

    Oie Kingmob,

    >>=D. Exatamente .E daí o grito vai ter um paralelo com o riso, embora temamos mais um do que o outro.<&gt
    Muito interessante isso que voce colocou Kingmob. Certa vez tive um acesso de riso descontrolado, e isso nos ocorre principalemente quando nao se eh permitido rir. Assim tambem como nossa voz se altera (se eleva) quando queremos colocar mais energia e enfase em determinada fala, ou mesmo empolgacao; e isso tambem foge ao nosso controle, jah nao eh mais o ego travado e controlador, mais sim, esse energia que brota do inconsciente (pois nao sabemos de onde vem), irrompe no cerebro e como que nos possui. Me parece mais um artificio do proprio inconsciente pra quebrar essas barreiras que fazem essa dualidade tao real em nosso ser.

    >>não aparece como escolha, como ato deliberado que parte de uma opção, mas sim como violência mesmo, como algo que te incorpora e não te deixa outra alternativa, algo que te força, a pensar, sentir, ser e em última análise mudar.<&lt

    Eh; eh uma coisa que sempre foge do controle do ego, como um possuir ao ego, alem de suas forcas e vontades de ser possuido. Esta feito. E acho que dai eh que surge o relacionar os aspectos opostos. A funcao transcendente serve para unir esses opostos e contrarios em nos mesmos, eh justo pra isso mesmo que ela vem. E nos cabe somente a entrega egoica, nada mais podemos fazer, somente a entrega. Como disse o Cristo; – Pai, em suas maos me entrego, que seja feita a tua vontade.-

    Abs
    Adi

  7. luramos said

    entao enquanto a gente nao se expande (transcende), ou ficamos neuroticos, ou gritamos, – e milhoes de outras ocupacoes humanas- , ou compomos uma ode to joy, para dar vazao aos nossos paradoxos.

    cada um dentro das suas possibilidades, direcionando a energia que une os opostos dentro de nohs- nao eh o Amor essa energia?- para o que conseguirmos criar.

    na minha modestissima compreensao musical, a Nona Sinfonia de Beethoven, nos faz sentir muito da angustia de pertencer a este mundo, mas explode num orgasmo, constatando o prazer em ser humano e ser capaz de amar o outro.

    sao necessarios os kurt kobains do mundo, que dao a vida para cantar a angustia de ser humano. Sao a voz da angustia que nao se pode calar.

    Mas eu quero por a luz na alegria, mesmo sabendo que existe uma palestina, porque eh o melhor que posso fazer agora.

  8. Kingmob said

    Aloha Adi,
    >e isso tambem foge ao nosso controle, jah nao eh mais o ego travado e controlador, mais sim, esse energia que brota do inconsciente (pois nao sabemos de onde vem), irrompe no cerebro e como que nos possui.

    Os momentos mais criativos ou dolorosos são aqueles em o ego afrouxa cede e espaço e a energia do inconsciente nos possui. Daí o Carlos Gustavo insistir tanto na autonomia dos conteúdos inconscientes. Eles tem personalidade própria.

    Mob.

  9. […] ação em meio a duas forças descomunais que tendem para direções e … Veja o post completo clicando aqui. Post indexado de: […]

  10. João said

    Gostei muito especialmente da parte referente ao vocalista dos nirvana kurt cobain.

  11. Kingmob said

    Salve João,
    Thanks. Tb sou fã e suspeito para falar =D.

  12. Samy-ra_ahmed said

    Mano vcs tem razao o Kurt erá Jesus cristo encarnado mesmo
    Evidencia
    1-Aparecencia ‘cara de um fucinho do outro’
    2-Mesmo mes da morte
    3-Se matou para nos livra de nosso pecados

    É OBVIO QUE KURT COBAIN SE DESFASSAVA DE JESUS

  13. Nirvana forever said

    N duvido + q o Kurt é Cristo rsrsrsrs
    O cara moreu com a mesma idade E no mesmo mes d Jesus
    O rosto é igualzinho
    A prostituta da cortney love sexo é praticamente a maria madalena
    O Kurt ja beijou um integrante do Nirvana da mesma forma q Jesus beijou S Judas

    KURT COBAIN É JESUS CRISTO
    KURT IS SON GOD IS SON OF SAINT MARY

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