Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

O aspecto moral da realidade última

Posted by Andrei Puntel em dezembro 9, 2008

A religião, como ferramenta de controle social, é sempre moral. Moral que, apesar de iniciada sobre valores positivos, quase sempre se torna perversa, justificando atrocidades e desmandos.

A maioria dos livres pensadores com um viés espiritualista vem de uma religião oficial e paulatinamente dela se afasta, por adotar uma postura crítica perante atitudes incoerentes e absurdas. Entre seu próprio juiz interno e a autoridade constituída, opta corajosamente por responsabilizar-se por seu destino. No entanto, décadas de vida sob o jugo religioso deixam marcas. A maior delas é buscar um sentido moral para a realidade.

Essa é a pedra de roseta para compreender a grande confusão em que nos encontramos. Buscar um sentido moral, um valor basicamente humano, no infinito, é como buscar justiça na gravidade ou felicidade no vento. Pode até funcionar em termos poéticos e alegóricos, mas configura-se um desastre como literariedade. Daí vem as pérolas que ouvimos em cultos televisivos, de como Deus está feliz, bravo ou, a minha preferida, decepcionado com alguém (alem d´Ele não ser onisciente, configura-Se como um péssimo avaliador de caráter).

Aqueles que buscam o fazem por sentir a realidade como manifestação de uma Inteligência una que se expressa como beleza e harmonia, na Criação atemporal e dinâmica. Quaisquer reflexos de atividade humana no céu são absolutamente fantasiosos e servem apenas para alimentar o ego do observador.

Retornando a questão apresentada no post carma e linearidade, e tendo clara a natureza absolutamente especulativa do que digo, vejo o carma como um maravilhoso instrumento de harmonia e perfeição. Mas de forma alguma como um elemento moral.

Se a realidade é uma só, um único continuum, devemos esperar que suas leis sejam coerentes. E a maior delas é a necessidade de equilíbrio. Isso ocorre na matéria. A relatividade nos diz que uma massa de alguma forma distorce o espaço-tempo ao seu redor. Outra massa, posta em seu raio de ação responderá, atraindo reciprocamente a massa original até que ambas estejam em um estado de equilíbrio dinâmico. Psicologicamente, os mecanismos de reação do individuo a estímulos externos, sendo a satisfação o estado de equilíbrio desejado, são bastante conhecidos. E espiritualmente as tendências na relação recíproca do indivíduo com o ambiente são a efetivação dessa lei do equilíbrio através do carma. Um processo que atrai as condições necessárias para que a consciência atinja a Harmonia. Não é um processo moral. Não é causa e feito de suas ações a outrem. Não há prêmio ou castigo. E só aquilo que você precisa para Ser.

E para aqueles que se aferram a uma realidade necessariamente moral, lembramos que não é um código externo que conduz o homem à virtude, mas sua capacidade de colocar-se no lugar do outro. Esse é o único valor absoluto. Um comportamento moral derivado de um deus moral é quase sempre frágil e questionável.

Além do que aquilo que entendemos por deus é só uma possibilidade.

Aliás, nós também somos.

Abraço.

Andrei Puntel

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7 Respostas to “O aspecto moral da realidade última”

  1. Sem dúvida a moral deve partir do interior do homem. “O empreendimento humano mais importante é a luta pela moralidade em nossas ações”, disse Einstein, que acrescentou: “nosso equilíbrio interno e até nossa própria existência dependem disso Só a moralidade em nossas ações pode dar beleza e dignidade à vida.”
    Nosso blogs continuam afinados…
    Parabéns ao Andrei Puntel pelo texto.
    http://cogitamundo.wordpress.com

  2. andreisc said

    Olá KingMob!

    Eu disse:

    “A maioria dos livres pensadores com um viés espiritualista vem de uma religião oficial e paulatinamente dela se afasta, por adotar uma postura crítica perante atitudes incoerentes e absurdas.”

    Você entendeu:

    “Então uma hipotética proposição de que “Se o camarada está dentro de uma tradição religiosa, então ele está petrificado no mármore do dogma” me parece furada.”

    Não sei de onde você tirou essa hipótese. Do meu texto é que não foi! 🙂 Falei sobre o processo daqueles que saem das instituições, não sobre aqueles que ficam. Se tem uma coisa que nós concordamos aqui no blog é que existe uma pluralidade de meios de se buscar o conhecimento. E essa história de “meu caminho é melhor do que o seu” é nonsense. O importante é que o caminho escolhido seja adequado a sua personalidade e que seja coerente internamente. Como eu disse no final, todas as nossas interpretações são apenas possibilidades…

    Abraço.

  3. luramos said

    e eu sempre pensando no lado pratico e menos abstrato lembro a solucao para os dilemas eticos: Golden rule ou Regra de ouro, um bom exemplo do que se pode aprender e construir com um principio comum as maiores (no sentido de quantidade de adeptos) religioes do planeta e muuuitas vezes comuns a ceticos, agnosticos, ateus e outros nomes.

    http://charterforcompassion.com/

    e aqui com legendas em portugues

    http://dotsub.com/view/767c68bb-db0f-4bf3-87bb-dfce18217f68

  4. adriret said

    Ola Andrei,

    >>Buscar um sentido moral, um valor basicamente humano, no infinito, é como buscar justiça na gravidade ou felicidade no vento. Pode até funcionar em termos poéticos e alegóricos, mas configura-se um desastre como literariedade.<<

    Eh uma questao das mais dificeis de responder pra mim mesma sobre esse assunto, porque eh um paradoxo. Ao mesmo tempo que pensamos que Deus ou o infinito estah alem dos valores humanos e mundanos, nao podemos esquecer que Ele como totalidade tambem abrange tudo isso aqui. Eu fico imaginando que carma nos
    traz o conhecimento de nos mesmos, e mesmo nao sendo o fundamento do carma a moralidade, a vivencia da vida (ou do carma, pois carma eh sempre acao) nos traz a boa moral e etica tao necessarias pra vivencia tambem da espiritualidade em nos.
    O que quero dizer eh que sem uma certa moral, nao nos eh possivel experienciar o numinoso. Mesmo que no fundo o aspecto fundamental da evolucao atraves do carma seja o equilibrio, e eu concordo com isso, mesmo nao sendo o objetivo a “moral”; a moral, aquela que nao eh imposta de fora, aquela que nasce dentro do ser, ainda continua fazendo parte do processo sim.

    Penso que eh na aceitacao de nossa imoralidade que nasce a verdadeira “moral”. Enquanto vivemos a falsa moralidade, nao somos conscientes do imoral em nos.
    A questao toda, no meu entender gira em torno do tornar-se consciente de si-mesmo, em toda a sua abrangencia, quer seja do bem e mal, moral e imoral do ser-humano, e soh assim vem o equilibrio…

    Pra mim a questao eh outra. Acho que o Infinito vem imprimir valores basicamente humanos, e por que nao divinos, no finito, imagino que Ele se olha no finito como em um espelho e vai sendo consciente da sua infinitude…

    Abs
    Adi

  5. Victor said

    Andrei, perfeito o seu ‘post’. Não tiro nem retiro nada do que você falou. Realmente, a “natureza última de todas as coisas” não pode ser moralmente orientada. Trata-se daquilo que os zen-budistas chamam de “recusar-se a preferir”. A “natureza última” mantém, é e impregna todas as coisas, tanto as “más” (no nosso julgamento) e as boas (idem), então não há sentido em supor que haja uma “opção” por uma e não por outras. Só nossa perspectiva parcial consegue ver algo de bom ou mal.

    Mas, é claro, isso não significa que nós, humanos,, individualidades que são apenas uma parte de um Todo (embora cada parte também seja uma totalidade), não devamos ter alguma moral. Não é porque as morais são relativas que elas são dispensáveis. Veja, estou falando de “moral”, e não de “moralismo”. Quero dizer que é essencial à saúde psiquica de um indivíduo possuir um código de conduta ética que avalie certos comportamentos como “bons” e outros como “maus”, desde que tenha ciência do quanto há de relativo nesses dois conceitos.

    Digo isso pois já conheci pessoas que pensaram que, só porque o infinito não é moralmente orientado, nós estamos dispensados de adotarmos posturas éticas. Bem, o risco disso é justo a “hubris”: apoderar-se de um atributo do infinito, que o ser finito não pode conter.

    Abraço.

  6. Sim, concordo com o texto. A religião nos afasta justamente disso que você chamou de Harmonia. É o que Osho diz no livro “The Osho Upanishad”:
    “A religião o impede de ser religioso. Ela o envia para os mosteiros, para os templos, para as igrejas. Ela ensina você a rezar para um deus hipotético com o qual você nunca encontrou, com o qual ninguém jamais encontrou.
    O verdadeiro templo está por toda a sua volta, sob as estrelas, sob a verde folhagem das árvores, ao lado do oceano. O verdadeiro templo está por toda a volta e o verdadeiro deus nada mais é que o fenômeno vivo e consciente dentro de você.
    Onde houver vida, onde houver consciência, ali está deus.
    E quando você chegar à experiência máxima de consciência, você se torna um deus. É direito natural de todo mundo tornar-se um deus, não adorar Deus, mas tornar-se um deus.”

  7. luramos said

    Ola Murilo

    a religiao tambem pode leva-lo para dentro de voce. Varia de pessoa para pessoa. Generalizar e nao relativizar leva a uma intolerancia que nao nos acrescenta nada.

    para alguns eh mais facil conhecer-se melhor ao ar livre, para outros em templos. Uns seguindos rituais milenares, outros criando seus proprios.

    Ainda hah aqueles que nao professam nenhuma religiao em particular, mas professam o Amor e assim estao tao proximos de deus quanto qualquer crente…

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