Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Mysterium Coniunctionis (Casamento Sagrado) – segunda parte

Posted by adi em dezembro 7, 2008

Os alquimistas com razão conceberam a união mental na superação do corpo apenas como a primeira etapa da união, ou respectivamente da individuação. Na sua totalidade os alquimistas procuraram alcançar (simbolicamente) “uma união total dos opostos” e a consideravam indispensável para a cura de todos os males. Procuravam encontrar os meios e o caminho para preparar aquele ser que une em si todos os opostos.
Ele devia ser espiritual e material, vivo e não-vivo , masculino e feminino, velho e jovem, e como se supõe moralmente neutro.
Ele devia ser criado pelo homem, mas simultaneamente como um “não criado”, devia ser a própria divindade (Deus terrestre).
Como o segundo passo no caminho para a produção desse ser se entendia a reunião da posição espiritual com a esfera corporal.
Para esse processo a alquimia conhece muitos símbolos. Um dos símbolos principais é o “casamento alquímico” que se realiza na retorta.

A PRODUÇÃO DA QUINTA ESSÊNCIA

A grande dificuldade da segunda etapa consiste no fato de não se saber como se poderá realizar um dia a imagem paradoxal da totalidade no homem. Esta é a cruz da individuação.
A argumentação do alquimista Dorneus se movimenta na maior parte na esfera dos símbolos e caminha de pés alados sobre as nuvens. Isso, contudo, não impede que seus símbolos indiquem um sentido oculto por trás deles, o qual se apresenta mais ou menos compreensível a nossa psicologia.
Assim é de conhecimento dele que o sábio não poderia reconciliar os opostos, se não lhe viesse em socorro “certa substância celeste que está oculta no humano”, a saber, o bálsamo, a quinta essência, o vinho filosófico, um “poder e uma força celeste”, ou simplesmente a “verdade”, entretanto, somente de modo indireto está oculta no corpo, porque ela realmente consiste na imago Dei (imagem de Deus) impressa no homem.
Esta é na verdade a quinta-essência, e a virtude, força do vinho filosófico.
O vinho filosófico constitui um sinônimo adequado, sob a forma de um líquido físico, representa o corpo, mas como álcool indica o espírito.

Mercúrio: Alberto Magno, mais de 300 anos antes de Dorneu, descreve a substância celeste, o bálsamo da vida, a verdade oculta, uma substância transcendental, a prata viva, como sendo o mercúrio.
O mercúrio é a matéria prima. No inicio da obra esta deve ser dissolvida, e os corpos dissolvidos devem ser transformados em “espíritos”. A transformação se efetua pela nigredo.
O mercúrio é um símbolo para uma idéia transcendental, a qual supostamente se manifesta nele. Ele constitui não apenas o material donde se parte para o processo, mas também o resultado, a saber, a pedra Filosofal. Mercúrio é espírito e matéria; o si-mesmo, como indica sua simbólica, abrange tanto a esfera psíquica como a corporal.

O Arquétipo é uma idéia viva, que sempre de novo dá impulso a novas interpretações , nas quais se desdobra. A “idéia viva” é sempre perfeita e numinosa. A formulação humana nada acrescenta e nada tira, pois o arquétipo é autônomo, e a questão é apenas se o homem é empolgado por sua plenitude.
Se ele puder formulá-lo mais ou menos, então ele poderá integrá-lo mais cedo à consciência, falar sobre ele com maior compreensão e de certo modo até explicar racionalmente o sentido dele. Mas não possuirá nem mais nem de modo mais perfeito do que aquele que não sabe formular sua comoção.

A luz, que lentamente vai surgindo para alguém, consiste em entender sua própria fantasia como um verdadeiro processo psíquico, que aconteceu a ele mesmo. Ainda que de certo modo a pessoa olhe para isso como que de fora e sem participação, no entanto ela própria também é a figura que age e sofre no drama da alma. Este conhecimento significa um processo tão importante quão imprescindível. Enquanto a pessoa apenas olhar para as imagens da fantasia, é ela como o tolo Parcival que se esquece de perguntar, porque ninguém percebe sua própria participação. Quando então cessar o fluxo das imagens, tudo parecerá como se nada tivesse acontecido, ainda que se repita mil vezes o processo.
Mas desde que a pessoa reconheça sua participação, então ela deverá entrar no processo com sua reação pessoal, como se ela fosse a figura da fantasia, ou melhor, como se fosse real o drama que se desenrola diante de seus olhos. Se a pessoa não realizar esta operação, todas as transformações ficam relegadas para as imagens, enquanto ela própria não se transforma. “Mas quem não se torna ele próprio o UM, também não poderá produzir o UM”, dizem com razão os alquimistas.

A meta é a experiência e a criação do símbolo da totalidade.

Existe uma enorme diferença entre uma psicose antecipada e uma verdadeira, que entretanto no início nem sempre é percebida e reconhecida, o que pode dar lugar a uma incerteza angustiante ou até mesmo a um acesso de pânico.
No caso da verdadeira psicose, a pessoa envolvida se sente inundada por fantasias incontroláveis, por tratar-se de uma irrupção do inconsciente, ao passo que na atitude crítica se trata apenas de um enredamento voluntário naqueles acontecimentos da fantasia que compensam a situação individual e também principalmente a coletiva na consciência.
Esse enredamento ocorre com a finalidade expressa de integrar à consciência os enunciados do inconsciente por causa de seu conteúdo compensativo, e assim realizar esse sentido de totalidade que é a única coisa capaz de tornar a vida digna de ser vivida e de dar a não poucas pessoas apropria possibilidade de viver.
Que o enredamento tenha justamente a aparência de uma psicose provém do fato da pessoa integrar o mesmo material da fantasia, do qual se torna vítima o doente mental, porque este não o pode integrar mais é devorado por ele.

No mito o herói é o que vence o dragão, e não exatamente o que é devorado por ele. E no entanto os dois têm de haver-se com o mesmo dragão. O herói também não é aquele que nunca se encontrou com o dragão nem aquele que, tendo-o visto uma vez, afirma depois nada ter visto. Da mesma forma, descobre e ganha o tesouro, “aquela preciosidade difícil de conseguir”, somente aquele que ousa a confrontação com o dragão e não perece. Tal pessoa tem verdadeiro direito à autoconfiança, pois enfrentou a profundeza escura do próprio
si-mesmo e desse modo conquistou para si o seu si-mesmo. Esta experiência interna lhe dá força e confiança, a capacidade de sustentação do si-mesmo, pois tudo o que o ameaçava provindo do interior, ele o tornou coisa própria sua, adquirindo desse modo certo direito de crer que será capaz de dominar com os mesmos meios tudo o que no futuro ainda possa ameaça-lo.
Deste modo se resolve o problema da união mental com o corpo, e realiza assim o segundo grau da coniunctio. Diríamos que, com esta realização de um equivalente psíquico, a idéia do si-mesmo tomou forma.
Este passo parece ser de importância fundamental, porque somente a partir daí se pode alcançar a coniunctio completa, a saber, a “união com o unus mundus”.

C.G. Jung  – Mysterium Coniunctionis

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7 Respostas to “Mysterium Coniunctionis (Casamento Sagrado) – segunda parte”

  1. carol montenegro said

    Depois do processo de individuação, o indivíduo alcança sua totalidade em duas psiques: a consciente e o inconsciente. A sua totalidade no inconsciente, ou em seu self, corresponde ao seu par semelhante. Portanto depois desse processo na psique individual, o processo passa a ser no exterior, onde tendo os dois indivíduos totlizados em si mesmos, passam a receber sinais de sincronicidade no Tempo um do outro(o tempo verdadeiro espiral e não linear), e então a sincronicidade do tempo leva a sincronicidade no espaço.

    Gostei do blog.

    Abraços!

  2. adriret said

    Oi Carol,

    >>Portanto depois desse processo na psique individual, o processo passa a ser no exterior, onde tendo os dois indivíduos totlizados em si mesmos, passam a receber sinais de sincronicidade no Tempo um do outro(o tempo verdadeiro espiral e não linear), e então a sincronicidade do tempo leva a sincronicidade no espaço<

    Interessante isso que voce colocou. Segundo Jung, na individuacao, o individuado passa a ver o aspecto simbólico por detrás de todas as coisas concretas e materiais. O material esta junto com seu aspecto espiritual.
    Ele ve os acontecimentos da vida em sincronia com o espiritual e vice-versa. Dai o Samsara ser o Nirvana e o Nirvana ser o Samsara.

    >>Gostei do blog. <
    Seja bem vinda, a casa eh sua e fique a vontade.

    Abracos
    Adi

  3. […] Continua na segunda parte […]

  4. Eduardo said

    Adorei o blog, o casamento sagrado é realmente um assunto conversado por poucos, acredito.
    Voce só escreve sobre ou viveu essas experiências?

    manda um email.

  5. adi said

    Olá Eduardo, seja bem vindo.

    ” Adorei o blog ”

    Valeu. 🙂

  6. Maria said

    O ser humano está perdido em suas conjecturas. Há tanto querer entender, sem que haja entendimento da verdade. Carnalidade e espiritualismo são combinações antagônicas, que só funcionam quando o princípio é pervertido por uma consciência execrável. Quando a humanidade conhecer a verdade, sua psiquê será aniquilada.

  7. adi said

    Oi Maria,

    ” Há tanto querer entender, sem que haja entendimento da verdade ”

    Pois é !! e acho que é exatamente por isso mesmo essa busca por entendimento ou esse querer, quando houver compreensão da verdade essa busca cessa, nada mais é necessário. Mas… enquanto isso não acontece, é da natureza do ser humano tentar decifrar o mistério. 🙂

    Abs

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