Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Carma e Linearidade

Posted by Andrei Puntel em novembro 25, 2008

Um dos problemas centrais na busca espiritualista é a conciliação entre a crença intuitiva em uma Criação perfeita e o oceano de dúvida e dor que existe em nossa realidade cotidiana. Filosoficamente isso resulta em dezenas de especulações e interpretações que chegam até mesmo a negar a relação direta entre Criador e Criação (supondo que exista tal diferenciação) através de um personagem intermediário, o demiurgo gnóstico, que teria gerado o mundo corrupto que observamos.

Outra maneira de tentar conciliar essas percepções opostas é a concepção de um processo de causa e efeito tão natural e impessoal quanto a gravidade, que ajusta essas realidades aparentemente díspares. Enquanto a tradição ocidental, de raízes egípcias, fala em um julgamento final da alma humana, o oriente imagina um processo dinâmico e cotidiano, que dispensa júri e juiz (embora algumas linhas, como a teosofia, citem a figura dos Senhores do carma, essa personificação da lei não é a mais comum, mantendo seu caráter natural).

O quanto desse conceito é útil e o quanto é apenas uma fantasia egóica? Dando um passo atrás, pensemos a reencarnação e veremos o mesmo comportamento. De uma hipótese sistêmica muito interessante, ela passa a ser uma simples maneira de afagar o ego. Quantas princesas e generais não se redescobrem em centros espíritas e terapias de vidas passadas? Nunca a humanidade foi tão nobre quanto em suas pretensões…

Em sua interpretação tradicional, todo o mecanismo reencarnatório/cármico é tradicionalmente respaldado por um interpretação linear do tempo. Mas essa interpretação faz sentido de um ponto de vista do Self (vamos chamar assim uma possível dimensão maior do Ser) ou é apenas um ponto de vista raso do ego? A argentina Zulma Reyo, em seu livro Karma e Sexualidade faz uma representação interessante entre o que ela chama de tempo linear e o tempo concêntrico, a realidade vivida pelo Self. Ela considera a existência egóica, linear, como uma experiência do Self projetado na tridimensionalidade, a partir de condições absolutamente aleatórias. O mecanismo cármico existe apenas como elemento de aprendizagem dentro dessa única existência linear, não atuando como elemento de ajuste entre consecutivas experiências lineares. Do ponto de vista de uma Criação una, essa visão é absolutamente harmônica. Mas do ponto de vista do ego individualizado, a perspectiva de uma vida iniciada em condições aleatórias não difere em nada de uma visão absolutamente materialista.

A autora também define como elemento chave para entender o processo cármico aquilo que chamamos de forma-pensamento. É através dessas estruturas mentais/emocionais geradas e mantidas por nossos pensamentos e ações que se dá a atração das condições externas que caracterizam a relação de causa e efeito. E essas formas-pensamento seriam visíveis a médiuns treinados como aderências no campo causal. É praticamente a mesma interpretação, dita em termos atuais, do processo cármico tal como compreendido no Jainismo, uma das religiões mais antigas da India. Os janistas crêem que o carma é uma substância que se adere à alma, e essa quantidade e qualidade de substância aderida que define as condições atuais da vida do individuo. Essa substância pode ser eliminada através de jejuns e meditações.

Fica então a questão. É possível conciliar reencarnação, causa e efeito e uma existência não linear?

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30 Respostas to “Carma e Linearidade”

  1. maelstrom5 said

    Muito interessante, Andrei. Muito interessante mesmo.

    >>A argentina Zulma Reyo, em seu livro Karma e Sexualidade faz uma representação interessante entre o que ela chama de tempo linear e o tempo concêntrico, a realidade vivida pelo Self.

    É um bom nome, tempo concêntrico.

    O ego percebe o fluxo do tempo como um rio, que parte de um ponto de partida (nascimento) até o ponto de chegada (morte).

    Já o o Self ( digo, o ego se conscientizando do Self um pouquinho melhor) percebe o fluxo do tempo como uma fonte transbordando que não flui de um ponto a outro linearmente, mas ao mesmo tempo flui e se contém em si mesmo. Muito interessante.

  2. Prouco said

    Se eu fosse obrigado a responder à pergunta que fecha o post, eu tentaria assim:

    Ao se deparar com o Self, nossa parcela linear temporal (ainda afetada pela linear temporalidade) foge e retorna à matéria, mantendo o sistema de causa e conseqüência através das vidas (contrariando Zulma Reyo, sem considerar uma verdadeira ruptura entre as experiências lineares). Iluminação (voltar a ser não linear) é saltar fora da roda de samsara, é perceber que é uma ilusão e não existe. Iluminação é relembrar isso.

    Agora, admitindo que causa e efeito é a experiência de vida, e que a experiência de vida seja o circular de arquétipos, a argentina pode dizer que as formas-pensamentos atraem a experiência, mas há aqueles que vão apontar a forma-pensamento, o sonho, a experiência como as várias frentes de atuação do arquétipo. Nesse sistema, as reencarnações seriam o meio pra se depurar a experiência até conseguir sair do ciclo de encarnações. Por exemplo, na “primeira” vida, toda a ânsia pela iluminação seria traduzida num impulso sexual. Todo o orgasmo seria uma pequena morte, um êxtase da carne; num “segundo” momento, esse impulso encontraria uma forma mais refinada de manifestação (o mesmo arquétipo, mas manifestado em uma “oitava superior”), e assim sucessivamente até a iluminação definitiva.

    Mas isso são especulações usadas pra justificar uma visão de mundo, óbvio! _o/

    P.S: A propósito, blog bacana! Cheguei pelo franco-atirador, que é outro blog bacana! o.o
    Estão de parabéns vocês! Aprendi/aprendo muito! =)

  3. andreisc said

    Pois é, maelstrom5. Esse livro me chamou muito a atenção por trazer alguns conceitos com os quais eu já trabalhava, mas de maneira menos elegante. O termo tempo concêntrico é um achado e a idéia de formas pensamento como elementos do processo cármico me parece muito inteligênte. Mas ainda tenho dificuldade em aceitar uma existência linear com início totalmente aleatório. Penso que talvez as existências lineares possam ser simultâneas, e o processo cármico se processar em um nível múltiplo. Pense como representação desse processo concêntrico/multilinear a forma de um apanhador de sonhos. . Puro feeling.

    Mas pode ser apenas teimosia do meu ego moribundo.

    Abraço.

    Andrei Puntel

  4. andreisc said

    Prouco, ainda estou assimilando o que você disse.
    Mais tarde parpito.
    Abraço,
    Andrei Puntel

  5. luramos said

    enquanto nao abandonarmos a perspectiva humana de compreensao ( e por acaso temos outra?), nao dah para entender nada.

    entao a gente usa conceitos como tempo, espaco justica para tentar entender os planos de deus.

    e soh hah espaco para conjecturas humanas, demasiado humanas.

    e na minha humanidade, eu “simpatizo” (rs) com a ideia que deus estah experienciando-se atraves da criacao, e nessa experiencia de deus nao tem que necessariamente existir tempo, espaco, justica, ou qqr outra coisa que nossa humanidade precise colocar nesta equacao para que ela faca sentido.

  6. maelstrom5 said

    >e nessa experiencia de deus nao tem que necessariamente existir tempo, espaco, justica, ou qqr outra coisa que nossa humanidade precise colocar nesta equacao para que ela faca sentido.

    Ou que essas coisas que vc disse possam existir, mas tão transfiguradas que já não merecessem ser chamadas pelo mesmo nome de antes.

  7. Excelente ‘post’! Parabéns!
    O tempo concêntrico é um conceito acordante com a visão que a moderna física tem do tempo: ele também é uma dimensão, assim como as dimensões que percebemos como espaço. Podemos imaginar, então, um ponto de vista fora da linha do tempo: para esse observador, o tempo seria como mais uma dimensão, como uma “linha” em que todos os pontos podem ser percebidos simultaneamente, tal como, se pegarmos uma régua, pode-se observar no mesmo instante todas as marcações de centímetros e milímetros distribuídas ao longo de sua estrutura. Esse observador distanciado, ao olhar a vida de uma pessoa, veria simultaneamente todos os estados de sua existência: não haveria causa ou efeito, porque tudo existiria simultaneamente. Apenas a pessoa que se encontra dentro da “régua do tempo” teria a impressão de que um fato se sucede ao outro. Isso, basicamente, é o que a Física do século XX disse, acrescentando, ainda, que o tempo pode ficar “curvo” dependendo das energias envolvidas. Mas imagine que mesmo a metáfora da régua seja inadequada, que todas as linhas de tempo envolvendo todos os eventos sejam concêntricos, em uma simetria que culmina numa visão total de uma realidade em que tudo acontece aomesmotempoagora, como uma obra plástica de grande beleza. Desse ponto de vista, entendemos o que significa ‘sincronicidade’ (eventos simultâneos podem apresentar as mesmas características “plásticas”, ou “simbólicas” que outros eventos na mesma coordenada dessa estrutura temporal) e o quão ingênua é a perspectiva da “causalidade”.
    Abraço

  8. Lamed said

    Belo post, Andrei, curto e denso como convém. 🙂
    A gente chegou a discutir esse tema nos comentários a um dos posts do F-Alecido, não sei se você chegou a participar. A minha opinião coincide com o que você disse na resposta ao Malestrom5 (difícil me desacostumar a chamá-lo de “Gideon” ou “KingMob”, rs): do ponto-de-vista espiritual do Self, onde o tempo linear não existe, todas as encarnações são simultâneas. Essa idéia de evolução ao longo de uma cadeia de encarnações sucessivas é a perspectiva do ego. Agora, a comparação com o apanhador de sonhos é um achado. Nunca tinha me ocorrido isso: vistas de uma perspectiva sincrônica, as encarnações formam uma mandala!

    Abs.
    L.

  9. Filipe Wels said

    Muito bom, Andrei! Legal que vc atraiu um pessoal de fora pra comentar por aqui.

    Poisé, esse é um assunto pra dar muito pano pra manga. Uma das coisas que me levou ao ateísmo na pré-adolescência é justamente essa impossibilidade de conciliação de todo esse sofrimento que vemos no mundo com a idéia do Deus benevolente.

    Mais tarde, como ja acreditei na existencia objetiva dos juízes do karma da Teosofia (que hoje nao posso mais aceitar), isso parecia uma boa explicação, mas ficaria aí uma questao: como esses juizes do karma poderiam punir alguem por erros, se tais erros sao frutos de sua ignorancia? E a frase de Jesus “perdo-os, porque eles nao sabem o que fazem?”

    Agora ja tenho uma visao um pouco diferente da anterior. Karma é causa e efeito, só isso. Nenhum juiz do karma vai te punir, mas cada acao tera uma consequencia proporcional e ponto final.

    Ainda vai demorar um pouquinho pra eu terminar de digerir o post, pois apesar de ser curto, ele é bem denso.

  10. aldhabaran2 said

    > vistas de uma perspectiva sincrônica, as encarnações formam uma mandala!

    Uma mandala multidimensional, eu acrescentaria. Onde todo o tempo e espaço coincidem consigo mesmos. Vejo a existência então – a partir do ponto de vista que está sendo tão belamente ilustrado pelo Maelstrom5 – como uma nuvem de bolhas de sabão, na qual nosso ego procura observando apenas um pequeno ponto de cor fugaz da superfície de uma única bolha conceitos que lhe expliquem o sentido de tudo…

  11. billy shears said

    Filipe Wells: “como esses juizes do karma poderiam punir alguem por erros, se tais erros sao frutos de sua ignorancia? E a frase de Jesus “perdo-os, porque eles nao sabem o que fazem?”

    Interessante abordagem sobre o mau comportamento do indivíduo que o afasta da virtude. Creio que essa ignorância diz mais respeito à consequência de seus atos do que ao erro contido neles. Por exemplo: a pessoa sabe que está cometendo uma injustiça, mas a faz assim mesmo porque não tem em mente a certeza da punição, no caso cármica.

    E o que explica a maldade – o agir injusto? Seria uma fraqueza, não ser forte o suficiente para livrar-se do instinto de produzir uma injustiça, independente de ter a certeza de que irá sofrer consequências futuras?

    Estar em paz com a consciência, eis um bom carma.

    Abraços e parabéns pelo espaço.

  12. billy shears said

    Não quero aqui fazer proselitismo religioso, mas creio ser importante fazer este novo comentário – se quiserem podem apagar:

    Hoje, logo após ler e fazer o comentário acima, fui assistir a palestra espírita que gosto de frequentar, e para minha surpresa os temas enfocados foram em sintonia com o que está dito por aqui. Sobretudo: leis cármicas, perdão, consciência, mal, virtude, etc. Inclusive, foi dito a citação de Jesus: Perdoai-os , eles não sabem o que fazem.

    Achei oportuno relatar isto e compartilhar com os demais. Pois, fiquei pensando sobre este post e seus comentários no trajeto a pé para a casa espírita e, de repente, a palestra era sobre estes temas.

    Abraços.

  13. aldhabaran2 said

    E porque apagar? Que bom que os assuntos estão sincronisticamente aliados ao cotidiano de vários que lêem o Anoitan – se não todos. É um sinal de que estamos trilhando o Bom Caminho.

  14. maelstrom5 said

    Salve, Billy Shears,
    >Sobretudo: leis cármicas, perdão, consciência, mal, virtude, etc. Inclusive, foi dito a citação de Jesus: Perdoai-os , eles não sabem o que fazem.

    Que apagar que nada! =)
    Bem-vindo à rede de manifestações sincronísticas… be our guest!

    ab.

  15. Islan... said

    “O verdadeiro Dharmakaya* nem aparece nem desaparece…”

    Por: Zenguetsu Suigan Daiosho, ou simplesmente Yogo Roshi , é a 90a.geração desde Buda e da 39a.geração desde Dogen, criador do Zen Japonês.

    *Dharmakaya: é a manifestação da verdade em forma absoluta, para além da necessidade de discriminação em conceitos. Representa a verdade que está além da forma e da idéia. Corresponde ao corpo do Buda.

    E o corpo de Buda somos todos.

  16. andreisc said

    Salve, Lucio!

    Lamed disse: “Agora, a comparação com o apanhador de sonhos é um achado. Nunca tinha me ocorrido isso: vistas de uma perspectiva sincrônica, as encarnações formam uma mandala!”

    Na verdade, estou com essa imagem da mandala na cabeça há tempos. Vou botar em uma tela e ver o que sai…

    Abraço!

  17. andreisc said

    Filipe Wells: “como esses juizes do karma poderiam punir alguem por erros, se tais erros sao frutos de sua ignorancia? E a frase de Jesus “perdo-os, porque eles nao sabem o que fazem?”

    Billy: “Interessante abordagem sobre o mau comportamento do indivíduo que o afasta da virtude. Creio que essa ignorância diz mais respeito à consequência de seus atos do que ao erro contido neles. Por exemplo: a pessoa sabe que está cometendo uma injustiça, mas a faz assim mesmo porque não tem em mente a certeza da punição, no caso cármica. ”

    Acho, Billy, que podem existir os dois casos: Aquele que erra por que não se importa em se afastar do Caminho e aquele que erra porque nunca O encontrou.

    Creio que é o caso a que o Felipe se refere.

    Abraço aos dois,

    A

  18. Luiza said

    vamos ver se alguem me responde agora:

    e se a justica divina for a seguinte:
    todos os seres vem aqui para experienciar algo: satanista, paraplegico, crianca com cancer, dona-de-casa, nobel, rock-star, mendigo, aborto, whatever. Aquele que experienciar plenamente, volta e se reune a deus, chegou a plenitude. Aqueles que nao exerceram os seus potencias se dissolvem no nada, na materia negra, por exemplo e brincadeira.

    entao o que vale eh ser pleno, nao bonzinho. E ser pleno porque se pode, nao porque hah um codigo moral de boa conduta. A diferenca entre dirigir devagar porque se voce correr pode matar alguem ( e isso vc nao deseja), ou dirigir devagar porque se voce for pego correndo a multa eh altissima…

    deus eh justo, quero crer, mas a seu modo inacessivel e incompreensivel a nossa logica.

    a lei do karma, (e a reencarnacao e o tempo), que alguns podem chamar de acao e reacao, mas tambem tem um que de olho-por-olho-dente-por-dente, sao as variaveis que tentamos enfiar nessa equacao para que ela seja palatavel.

    mas eh mais dificil aceitar a falta de logica e enfim render-se a deus.

  19. Luiza said

    pelo amor de deus, eu acredito na lei de acao e reacao, mas eh num sentido menos maniqueista do que a visao espirita-kardecista costuma utilizar.

  20. maelstrom5 said

    >mas eh mais dificil aceitar a falta de logica e enfim render-se a deus.

    E quantas yogas, e quantos rituais, e quantas visualizações, e quantas feitiços estão incluídos neste entregar-se – simples e puro, só Deus sabe.

    É que o só esforço de procurar comunicar e dizer ” É assim que se faz, desta e desta maneira”, já é um acréscimo, já é um a mais.

  21. Victor said

    Realmente, Luiza, o ocidente tende a ter uma visão simplificada e moralista da lei do karma, um conceito que, para os antigos brâmanes, era de tão difícil compreensão quanto a teoria quântica hoje é entre os físicos.

    Não se trata de “você praticou o mal, então sofrerá o mal”, porque isso é pressupor um universo orientado axiologicamente (para não dizer moralista) e a existência daquilo que Campbell, rejeitando a idéia, denominava de um “Deus pessoal”, coisa que era absolutamente estranha ao hinduismo.

    Infelizmente, os espíritas kardecistas, “submersos” na moral cristã tradicional, deturparam o conceito de karma. Na verdade, rigorosamente não existe, em última instância, um comportamenteo “mau/errado” e outro “bom/certo” – e seria absurdo imaginar um universo que “julga” automaticamente, com critérios morais, a conduta humana (claro, isso não impede que, de um ponto de vista relativo, adotemos critérios morais, desde que saibamos que são nossos critérios, construídos culturalmente, e não uma lei de fundamento metafísico).

    O conceito de “plenitude”, no entanto, também não é adequado, porque ainda pressupõe um universo que “pensa” e “valora” como nós. Na verdade, mesmo eu acreditando que o universo é bem mais que o mundo material, resisto em acreditar que ele seja, de uma ou outra forma, guiado por alguma forma de mentalidade sequer semelhante à humana – e conceitos como “pleno” e “limitado” são, na verdade, tão “humanos” como “bom” e “mau”.

    Na verdade, Karma é um conceito que, se fôssemos definir com o respeito e a exatidão que sua sofisticada construção intelectual exige, precisaríamos bem mais do que o espaço de um comentário a um post. Mas, se há uma palavra que bem o define, não é “ação e reação”, e sim “condicionamento” – e mais: “condicionamento recíproco e simultâneo”. Porque “ação e reação” pressupõe uma linha de tempo, uma relação de causalidade (eu ajo, e depois há algo que reaje) e uma seta relacional de um só sentido. Porém, “condicionamento” é um termo que dispensa a causalidade, e harmoniza-se muito melhor com visão de um “tempo concêntrico”, referida no post: as coisas condicionam-se umas às outras simultaneamente, numa seta relacional de duplo sentido, assim como os alicerces de uma abóbada exercem pressão un sobre os outros para manter a estrutura coesa e estável. Esse condicionamento de tudo por tudo é a base do Karma. Visto sob o aspecto limitado de um sujeito inserido numa linha de tempo, esse condicionamento parece ser uma lei de “ação e reação”, e alguém mais simplório pode deduzir que “aquilo que reaje” está guiado por alguma espécie de lei moral. Mas tal sujeito está equivocado, principalmente porque não há relação de causa e efeito, e seu destino não é condicionado pelo que fez no passado, mas sua vida, em um determinado momento, é condicionada não só pelos fatores evidentes como o meio ambiente presente, mas também por fatores menos óbvios como sua vida “passada” que, sob certo ponto-de-vista “fora” da linha do tempo, existe simultaneamente com sua vida “presente”, e assim a condiciona (mas um condicionamento amoral).

    A pergunta que fica no ar é a seguinte: se tudo existe aqui-ao-mesmo-tempo-agora, e por isso nossa vida “passada” condiciona nesse mesmo momento nossa vida “presente”, é possível o contrário? Ou seja: nossa vida “futura” pode também estar condicionando nossa vida “presente”?

    Abraço,

    Victor

  22. Victor said

    Aliás, só um adendo: na Física, a lei da ação e reação não possui esse conteúdo linear que os kardecistas inseriram. Em outras palavras, mesmo a Física Newtoniana não concebe que primeiro uma coisa pratica a ação para, posteriormente, na linha do tempo, essa mesma coisa receber a reação. Para a Física, ação e reação são forças simultâneas: uma surge imediatamente quando a outra nasce e, a rigor, apenas por conveniência, chamamos uma de “ação” e a outra de “reação”: se eu empurro uma mesa, a rigor essa mesa também está me empurrando, imediatamente/simultaneamente, com igual força mas no sentido oposto – isso é a lei da ação e reação física (claro, depois, se eu consigo vencer a inércia da mesa, ela se move, mas isso não invalida a lei da ação e reação ainda atuante).

    O equívoco é, a rigor, de nomenclatura, pois se falamos “ação e reação” parece que entre as duas palavras há uma relação de prioridade. “Condicionamento” é mais adequado, porque dispensa a idéia de que “há uma coisa” E, depois, “há outra coisa”.

    Compreendido isso, é possível perceber que a lei do Karma dispensa a linha temporal que trespassa o passado e vai para o futuro. O Karma tem sua base na existência simultânea de todas as coisas.

  23. billy shears said

    Parece-me lógico acreditar que se existe o bem, logo também existe o mal. O discernimento da coisa em si é que vai fazer com que um seja diferenciado do outro. Por exemplo: o que estou fazendo é correto ou não? Isto vai causar o mal a outrem? Há um desequilíbrio causado pela minha ação?

    São perguntas que encontrarão respostas na ética que pauta a ação de cada indivíduo, além é claro da ética na polis, a qual todos nós somos subordinados acima de nossos interesses individuais.

    Victor: “Ou seja: nossa vida “futura” pode também estar condicionando nossa vida “presente”?

    Creio que sim, na medida em que ao projetarmos uma situação futura, estejamos agindo, no presente, de maneira a facilitar ou preparar a execução de nosso objetivo. Nesse sentido, o futuro está de alguma maneira inserido no presente. Tem uma frase que ilustra bem isso: o futuro é agora.

    Muito bem explicado, o fato da ação e reação se darem num mesmo momento. Toda ação gera um desequilíbrio no universo, que no mesmo momento desencadeará uma força contrária, a fim de reequilibrá-lo. Caos e ordem são o combustível que movem o universo.

    “Estou do lado do bem e você de que lado está?
    Estou do lado do bem
    Com a luz e com os anjos”
    Renato Russo

    Abraços

  24. adriret said

    Gostei muito do post Andrei, tambem achei otimo o termo “tempo concentrico”.

    Ola Victor,

    Achei interessante o que vc escreveu:

    >>Mas, se há uma palavra que bem o define, não é “ação e reação”, e sim “condicionamento” – e mais: “condicionamento recíproco e simultâneo”.<<

    O Lucio fez um post no F-Alecido exatamente sobre isso, karma eh sempre condicionamento comportamental. Interessante porque visto por essa nova perspectiva, muda muita coisa em nossos conceitos sobre o assunto.

    Abs
    Adi

  25. Luiza said

    Billy

    o que vc chama de universo, eu chamo de Deus, (apesar que isso nao muda nada). E acredito que Deus existe dentro e fora de mim. E a parte dele que estah em mim quer se manifestar, se minha estrutura psiquica (enfim desestruturada) e meu corpo fisico assim o permitir. Entao ser pleno eh sim oposto de ser limitado. Eh manifestar o divino que hah em vc, em qualquer forma que ele apareca: satanista, paraplegico, crianca com cancer, dona-de-casa, nobel, bla-bla-bla.

    O bem e o mal, claro, sao polaridades, assim como o limite e a plenitude, e eh nesse mundo que vivemos.

    O dogma que tento quebrar eh relatividade do conceito de bem e mal. Se o ladrao entrou na minha casa pra roubar minha TV, porque vai vende-la e comprar pinga ou leite para os filhos que nao teve como evitar porque nao teve educacao, etc, etc e dai eu chamo a policia e a policia vem e mata o ladrao porque ele estah me ameacando com uma faca. O policial fez o bem, me defendeu e para o ladrao fez o mal , o matou. O ladrao mereceu? Tem coisas que justificariam o gesto do ladrao? Um filho com leucemia me faria roubar, matar, me prostituir. E a vc? Matar estah certo, em que condicoes? E (na perspectiva kardecista) se na outra vida fiz o mesmo a ele e se eh soh um ajuste carmico?
    Nao quero que vc responda a minhas perguntas, quero soh mostrar que temos que julgar cada fragmento da vida e seria otimo se houvesse um consenso humano sobre o que eh justo ou nao. Mas nao hah. Entao o que eh certo fazer? Estah parecendo que estou do lado do mal a vc?

    Nao hah lado, hah o bem e o mal, hah a luz e a escuridao, e nohs estamos ora aqui, ora ali, depende da perspectiva, ou para os amantes da semantica, estamos nos dois lugares ao mesmo tempo.

  26. […] Carma e Linearidade […]

  27. Vhein said

    Muito complexo e denso texto e extremamente instigante !
    Acompanhei vorazmente os comentários que muito contribuiram para a desconstrução de conceitos.
    A elaboração de um novo já estava sendo por mim solicitada mas a leitura deste texto foi fundamental.
    Abraços

  28. […] Texto fantástico do Andrei, do Anoitan. […]

  29. […] Retirado de Anotain […]

  30. […] Retirado de Anotain […]

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