Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Em poucos segundos

Posted by Kingmob em novembro 14, 2008

I

E muito embora haja candores e o que dizer
neste vidro moído no cérebro
há fumaça demais na genética mutacional
e enquanto não se decide o que se é ou não é
neste intervalo o eu desfaz-se em sexos transvestidos
e papa assombroso faz em ouro e santidade
a porralouquice apenas pressentida
que os antros e cascas tornem-se, com ou sem sombras
o sanctum sanctorum da realidade,
esta é a gratidão e o alento e o mistério
ritual valoroso cuja testemunha
de momento a momento faz-se libertação.

II

o acontecer limpo e raro dos milímetros de segundo
a solenidade grave e rascante do tordo mergulhando
e por trás, amando, o regente, o devasso, o puto, o traveco cósmico,
o cara que fez essa porra toda
e mostrou: – Filho agora tu te vira,
brinca com a massa, mas não engole
confia, que o mundo é você, mas nada além disso.
Pode doer mas passa, pode cantar mas passa,
e o véu é você que põe.

III

E em cada pequeno rancho, um canto
e em cada pequeno canto, a casa,
de cujo paradeiro, o dono, nunca soubemos.
Talvez um marulhar de asas ao relento
ou as goteiras delirantes da primeira primavera,
mas não, nunca soubemos.

IV

Estas manchas e migalhas de eternidade
que vez ou outra vislumbra-se (que susto)
no macro e no microponto fútil do perceber

celebram cavalinhos coloridos de carrossel,
e os algodões doces do firmamento e do palito
e uma vez mais aqui estamos
para doer e criar, tirar e colocar.
      Será tão importante assim?

O quinhão de tudo e nada
e a matemática das estações
a lascívia virulenta (amém) do núcleo celular
não há quem acrescente uma parte de sangue à natureza
– derramar, mais fácil.
     Será tão importante assim?

Afirmar o inafirmável, o evanescente, o irreal
seguir a rota, o norte, o porto
modelar a massa informe
da vida, da escuridão,
em forma, em gládio, em ser humano
      Será tão importante assim?

Fazer da existência um eu
e do eu uma alma imortal
a super identidade indestrutível
um mesmo espelho, a mesma imagem
na miríade indefinível de universos possíveis e impossíveis
-nem Sísifo nem Tântalo gozaram
pesadelos tão desastrosos
      Será tão importante assim?

V

Por que não sonhar junto aos
nossos deuses suicidas com
a redenção cômica na tragédia
do nascimento recorrente?

Que a maquiagem dos tontos
e dos belos cadáveres de ocasião
destilada a quarenta por cento
vire-se em mel delícia
e massagem derradeira
que noite não é
senão bordel.
      Será tão importante assim?

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