Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Deus, de novo (Once more, with feeling)

Posted by Lúcio em outubro 31, 2008

 

Quando você afirma que Deus existe, o que você quer dizer com “Deus” e o que entende por “existir”?

Quando você afirma que Deus não existe, o que você entende por “Deus” e o que quer dizer com “não existir”?

Não é uma filigrana semântica sem importância. Como se pode afirmar ou negar alguma coisa quando não se sabe o que está sendo afirmado ou negado?

Por exemplo, o conceito de Deus existe. Nesse sentido, enquanto conceito, seria uma bobagem dizer que Deus não existe – tanto existe que falamos dele o tempo todo, travamos de discussões a guerras em nome dele, matamos ou nos deixamos matar por ele.

Deus enquanto uma realidade psicológica para aqueles que acreditam nele também é inegável. Do ponto-de-vista da realidade psíquica, é real tudo o que produz efeitos concretos na psique (positivos ou negativos) e, se você já viu ou sentiu o arrebatamento que a emoção religiosa é capaz de provocar numa pessoa verdadeiramente devota, não tem como negar que a imagem de Deus produz efeitos bastante concretos (positivos ou negativos) na psique.

Suponho, porém, que tanto crentes quanto ateus estejam de acordo: não é do conceito ou da imagem psíquica de Deus que eles falam, mas do suposto referente ao qual se supõe que essa imagem e esse conceito se referem.

(Assim, Sam Harris está errado: há mais coisas em comum entre o crente e o ateu, além da pressuposição tacanha de que, se um deles está certo, o outro está necessariamente errado.)

Jogo a pergunta, mas deixo-a em aberto por enquanto: por que é preciso supor um referente, por que o conceito e a imagem psíquica, bem como os efeitos que eles produzem, não podem se bastar em si mesmos? Por que essa obsessão concretista de achar que uma coisa só é real se for tão real quanto uma cadeira e, já que tocamos no assunto, de onde saiu essa certeza de que a cadeira é real, a convicção indemonstrada e indemonstrável de que ela é algo mais do que um conceito atado a uma imagem psíquica e compartilhado por todas as pessoas, não porque haja um referente real, mas simplesmente porque é assim que o nosso cérebro funciona? E, já que estamos em plena farta distribuição de perguntas, o que leva você a supor que o cérebro também é algo mais do que uma imagem e um conceito soldados um ao outro?

Por exemplo, Papai-do-Céu, sentado em seu trono sobre as nuvens, cofiando a barba joviana e coçando o saco disfarçadamente por baixo do camisolão branco, enquanto pondera se manda ou não um dilúvio para afogar esta humanidade perversa – não existe. Mas até aí, a Justiça, como uma mulher de vestido esvoaçante, olhos vendados, espada na mão esquerda e balança na direita, ou vice-versa – também não existe.

A Justiça, assim como a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade (ou, no outro prato da balança, a Nação, o Povo e o Estado) constituem o que alguns filósofos denominam de idéias normativas e que outros pensadores chamam pelo devido nome, ficção reguladora. Isto é, são coisas que não existem da mesma forma que uma cadeira (mas de onde saiu essa certeza de que a cadeira etc?), mas que, ainda assim – ou talvez por causa disso – cumprem uma função importante, a de fornecer um parâmetro contra o qual medimos nosso comportamento ou que usamos para botar alguma ordem nesse galinheiro que é a nossa experiência do mundo.

Suponho, porém, que tanto ateus quanto crentes estejam de acordo: não estão interessados em Deus como idéia normativa ou ficção reguladora, a eles só interessa o Deus-cadeira, no qual os crentes consigam se sentar confortavelmente e que os ateus possam chutar com desenvoltura.

(Assim, ao contrário do que Sam Harris supunha, esse é outro ponto compartilhado por crentes e ateus: enquanto estes chutam o ar, aqueles caem de bunda no chão.)

Não é uma filigrana semântica sem importância. Como se pode afirmar ou negar alguma coisa quando não se sabe o que está sendo afirmado ou negado?

Quando você afirma que Deus não existe, o que você entende por “Deus” e o que quer dizer com “não existir”?

Quando você afirma que Deus existe, o que você quer dizer com “Deus” e o que entende por existir?

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31 Respostas to “Deus, de novo (Once more, with feeling)”

  1. luramos said

    “Mas até aí, a Justiça, como uma mulher de vestido esvoaçante, olhos vendados, espada na mão esquerda e balança na direita, ou vice-versa – também não existe.”

    existe sim, nao tem olhos vendados e se chama Iansa.
    EPAHEEEEEEEEEEEEEIIIIII.

  2. luramos said

    brincadeira, nao eh isso sobre isso que quero palpitar:

    o problema eh a logica humana,

    ela nao pode explicar o inexplicavel. Todas as suas perguntas nos fazem falar por horas ou nos emudecem.

    e se voce considerar o silencio como a ausencia do pequeno-self, todo esse questionamento eh uma experiencia enriquecedora.

  3. sem mais said

    Show de texto!

    Se Deus existe não sei, mas sei que quando uma verdade é dita, nunca é desprovida de humor.

    Mas então, se Deus-cadeira não existe, o que importa se para muitos é o único lugar de sentar no chão, ou, para outros, alvo de exercitar a raiva onde supostamente não se fira ninguém? O problema é que toda mentira um dia se revela e acaba sempre ferindo alguém…
    Já no caso do Deus-ficção-reguladora, a vantagem aqui pelo menos é que é a ficção regula. Só que regras também expiram…
    Resumindo a situação do homem: se ficar o bicho come, se correr o bicho pega…

  4. Filipe Wels said

    Seria simples se a discussao se limitasse só ao Deus cadeira. Acontece que assim como muitos crentes e ateus nao entendem algo além dessa idéia literal de Deus, é muito comum no ateu a rejeição a qualquer idéia simbólica dessa palavra.

    Sua aceitação se limita a você chamar Deus algo como a beleza da natureza ou mistérios do universo que só ainda não conhecemos porque temos ciencia há pouco tempo. Mas além disso, existe o conceito de Deus como a representação simbólica do transcendente, a realidade além do que pode ser percebido pela nossa cabecinha de primata: da mesma forma que o peixe não vê a realidade além da água em que ele vive, o ser humano também não percebe essa realidade transcendental além dos nossos sentidos.

    A rejeição da existência dessa realidade e a fé inabalável que a razão e o empirismo podem saber tudo está entre as bases dos dogmas do ateísmo. É algo que vai bem mais longe de simplesmente rejeitar a idéia do Deus-cadeira .

  5. adriret said

    Ficam na negação ou afirmação somente da imagem vazia e se esquecem que Deus pode ser sentido e que esse sopro de inspiração renova.

    De fato o que explicar do Espírito Divino ou do Espírito humano, o que falar de algo que nao pode ser visto, nem tocado, nem medido, nem cheirado, e que ao mesmo tempo eh a própria vida vivente em cada ser.

    Sim, vao ambos dizer que eh a imagem psicológica, construída por nosso cérebro, etc… e ateh ai, tudo bem, uma boa explicação pra parte concreta do Espírito e seus efeitos no físico e na Alma humana, mas nao conseguem ir alem, ultrapassar essa barreira física, do concreto, e continuam batendo na mesma tecla.

    Interessante que o homem jah consegue ateh mesmo medir materia invisível(ou escura) no Cosmo, mas nao consegue fazer associacoes, ou tem muito receio do comprometimento da ciência, o contrario também.

    Enquanto isso, vamos continuar nessa briguinha boba.

    Adi

  6. andreisc said

    Salve, L. Pelo tom, andou tropeçando noutro mala daqueles, não? 🙂

    A grande confusão e a incompreensão ocidental a respeito de realidade trancendental é o resultado contracíclico da obrigação de acreditar, pois durante séculos misturou-se política e religião como norma única da condução da sociedade. A história de erros grosseiros contra a ciência, como Galileu e Giordano Bruno; de crimes contra a humanidade, como a escravidão; ou contra o senso de ridiculo, como a venda de indulgências, armam o observador contra a abordagem metafísica.

    O “x” da questão é que a verdadeira compreensão do fenômeno espiritual não parte do intelecto, mas da intuição. Sente-se ou não a realidade sutil. E a partir dessa percepção, procura-se um refinamento da compreensão. Ter que confessar uma fé não baseada na percepção intuitiva do transcendente é impossível, resultando no fanatismo ou literariedade como defesas psicológicas ou simplesmente em hipocrisia com ferramenta de controle social.

    Apenas esse alicerce intuitivo resulta em uma percepção fluída, adaptativa, humilde, da realidade trancendental, que permite a discussão de idéias, de percepções e abordagens e que leva ao crescimento e a um ponto de vista mais amplo.

    Sem essa capacidade intuitiva, a única postura intelectualmente honesta é a agnóstica, pois se Deus existe, como idéia ou objetivamente, é muito maior que nossa dimensão humana.

    Abraço,
    Andrei

  7. sem mais said

    Andrei, gosto da imagem que você usa, é “ank” e significava vida para os antigos egípcios, não?

    Bom, sei não, gente, mas não existe um modo certo de se chegar até Deus, porque, das duas uma, ou estamos em Deus e não precisamos fazer nada para chegar até Ele – já que estamos Nele o tempo todo, ou então Ele é inalcansável à nossa natureza concreta e distinta da sua que divina… Para o caso de Deus não existir, caminhar em qualquer direção será indiferente.
    Então, não existe cultura mais certa, função da personalidade mais certa, estética, crença, atitude que nos aproxime ou afaste de Deus. Estou radicalizando um tanto agora – é claro que toda prática traz sua conseqüência e nem tudo é, digamos, farinha do mesmo saco – mas para deixar claro de que não é preciso nascer ou ir ao oriente, ser um grande intuitivo ou ter um grande coração de sentimentos puros para descobrir Deus, nada disso, se Deus é encontrável, ele o é nas coisas mais próximas, corriqueiras e banais do dia-a-dia, e o varrer paciente do chão, tal qual varre um humilde monge budista de cabeça vazia, provavelmente um dos melhores exercícios espirituais.

    Ontem, depois que fiz meu comentário aqui, fiquei pensando naquela parábola budista a respeito da “verdadeira natureza humana” (já repararam como budistas gostam muito de usar a palavra verdadeiro pra tudo?). Até procurei na internet por ela, mas só o que achei foi a historinha resumida, a tal ponto de a achar distorcida, então, vou contar, resumidamente, a minha versão mais completa. Para não me alongar por outros assuntos, vou ficar somente na imagem final da história, que é o que nos interessa agora e descreve exatamente a situação “verdadeira” do homem – e eu acredito que de todos nós aqui: baseado como nos encontramos, para onde e como olhamos, como nos sentimos, como planejamos os próximos passos, é que os nossos comentários diferem um do outro, mas a situação, ela em si mesma, é igual para todos nós.
    A imagem é a de um homem agarrado a um cipó, preso a uma árvore, dependurado em um abismo; abaixo um mar de Dragões nada amistosos; em terra firme, um tigre, felinamente vigiando o homem, sua presa; roendo o cipó, dois ratinhos, um branco/dia e outro negro/anoitan, quando um descansa, o outro assume o posto, tal qual o tempo inexorável não cede e é igual para com todos. Que faz o homem? Sacode o cipó pra ver se espanta o ratinho, inadvertidamente, porém, bate com a corda em uma colméia, mas dessa colméia não saem abelhas assassinas (era só o que faltava!), caem algumas gotinhas de mel… Absolutamente doces, tão delicioso o mel silvestre, como ele nunca provou antes, que por um momento o homem esquece da sua “verdadeira” situação e, seu objetivo, a partir de agora, não será mais encontrar uma saída para seu dilema sem solução, mas, sacudir a corda para espantar o tempo e provar, quem sabe, mais uma vez do mel delicioso…
    Existe saída??
    (Na verdade [verdade entre aspas], uma boa saída para além do óbvio foi publicada em imagens uma vez no Franco-Atirador antigo: uma história zen-budista, ou taoísta, de um caçador de touros > conhecendo o touro selvagem > amansando o touro > se tornando o touro e um com a paisagem > sendo o Tao ou qualquer coisa assim. Mas haja fé e coragem para o impossível salto.)

  8. Marcos said

    Para quem considera que a forma material é o eu, Deus também é uma forma material.
    Para quem considera que a sensação é o eu, Deus também é uma sensação.
    Para quem considera que a percepção é o eu, Deus também é uma percepção.
    Para quem considera que a consciência é o eu, Deus também é uma consciência.
    É assim tanto para quem diz que existe, ou quanto para quem diz que não existe.

  9. tiagotroll said

    qual a lógica do existencialismo, ou ainda, como jantar sem se preocupar com a origem da comida.

    http://criticanarede.com/met_algonada.html

  10. Lamed said

    >e se voce considerar o silencio como a ausencia do pequeno-self, todo esse questionamento eh uma experiencia enriquecedora.

    My point exactly. Podemos escolher o sistema de crenças que nos parecer mais adequado, mas sabendo que crença não é experiência e que, para ter alguma experiência concreta, é preciso ir (pra roubar o título de um livro da Elaine Pagels) “além de toda crença”.

  11. Lamed said

    >Já no caso do Deus-ficção-reguladora, a vantagem aqui pelo menos é que é a ficção regula. Só que regras também expiram…

    Exato. É isso que significa a imagem do Velho Rei na alquimia: periodicamente, ele precisa ser dissolvido nas águas do inconsciente, para dar nascimento a uma nova imagem renovada.

    É a recusa desse processo que faz nascer todos os fundamentalismos (o científico inclusive): as pessoas se aferram a uma imagem obsoleta – de Deus, do mundo ou delas mesmas – e, como essa imagem tornou-se uma [i]qlippah[/i], uma casca vazia, precisam defendê-la com unhas e dentes.

  12. Lamed said

    >Seria simples se a discussao se limitasse só ao Deus cadeira. Acontece que assim como muitos crentes e ateus nao entendem algo além dessa idéia literal de Deus, é muito comum no ateu a rejeição a qualquer idéia simbólica dessa palavra.

    Como eu escrevi na resposta pra 100+, a causa disso é o apego a uma imagem defasada de Deus e do mundo (se as duas coisas não forem uma coisa só, o [i]Deus sive naturam[/i] de Espinoza). Como não conseguem ir além da letra morta, ficam digladiando em torno do cadáver – e se essa imagem fez você pensar em um bando de corvos, tanto melhor. 🙂

  13. Lamed said

    >Ficam na negação ou afirmação somente da imagem vazia e se esquecem que Deus pode ser sentido e que esse sopro de inspiração renova.

    Sim! Imagens são escadas – você precisa delas pra subir, mas precisa abandoná-las quando chegar. 🙂

  14. Lamed said

    >Salve, L. Pelo tom, andou tropeçando noutro mala daqueles, não?

    Pra falar a verdade, não. Aliás, nem estava pensando no assunto quando o texto me ocorreu. Sinal de que o assunto continua sendo elaborado no meu inconsciente… 🙂

    >A história de erros grosseiros contra a ciência, como Galileu e Giordano Bruno; de crimes contra a humanidade, como a escravidão; ou contra o senso de ridiculo, como a venda de indulgências, armam o observador contra a abordagem metafísica.

    Exato. Ninguém fez mais contra a religião e a espiritualidade do que a Igreja. No afã de garantir de que a verdade dela fosse a única Verdade, fizeram um trabalho tão bom que tornaram quase impossível pra muitos seguir uma espiritualidade alternativa – já notou como boa parte dos ateus mais acirrados são os que tiveram uma educação religiosa autoritária na infância?

    >O “x” da questão é que a verdadeira compreensão do fenômeno espiritual não parte do intelecto, mas da intuição.

    Uma idéia que me bateu é que a intuição talvez corresponda ao que os filósofos gregos chamavam de [i]nous[/i], que em latim se traduz como [i]intellectus[/i], mas que não tem porra nenhuma a ver com o que nós hoje chamamos de “intelecto”, depois do furacão racionalista do sec. XVIII.

    Pelo menos até a Idade Média, mas também para os neoplatônicos renascentistas, o [i]nous[/i] ou [i]intellectus[/i] era definido como a faculdade da alma capaz de perceber diretamente o Mundo das Idéias platônico, ou seja, a realidade arquetípica. Isso bate muito com a definição junguiana da intuição.

    Meu único receio de fazer essa comparação é o medo de ser ou soar chovinista. Afinal de contas, a intuição é a minha função principal, e eu sempre desconfio de qualquer noção que implique em valorizar o que eu tenho de melhor – é o tipo de coisa que tem toda a cara de armadilha do ego… 😉

  15. Lamed said

    >Então, não existe cultura mais certa, função da personalidade mais certa, estética, crença, atitude que nos aproxime ou afaste de Deus.

    Sim, foi o que me levou a escrever o post “Todos os Caminhos” lá no F-Alecido. Tudo depende da constituição de cada um. E eu estou cada vez mais convencido de que não é a tua função superior que te leva a [Deus/Realidade/Nirvana/fill_the_blank], mas a tua função inferior, o que você menos valoriza em si mesmo, aquilo com que você não sabe lidar, que você rejeita, recusa, reprime. Afinal, como dizia o bom e velho JC, o Senhor virá como um ladrão na noite… 🙂

  16. Lamed said

    Marcos, eu acho que é exatamente o contrário:

    – Para quem considera que o eu é uma sensação, Deus é uma intuição.
    – Para quem considera que o eu é uma intuição, Deus é uma sensação.
    – Para quem considera que o eu é um sentimento, Deus é um pensamento.
    – Para quem considera que o eu é um pensamento, Deus é um sentimento.

    Vide a minha resposta para a 100+. 🙂

  17. luramos said

    “E eu estou cada vez mais convencido de que não é a tua função superior que te leva a Deus. ”
    nossa funcao superior nao eh uma habilidade, um talento, que em conjunto com as nossas limitacoes (ou funcoes inferiores) nos faz unicos? Nao seria o conjunto que nos darah o metodo para alcancar a Grande Obra? – vide Riobaldo…rs

    eu sempre pensei muito neste assunto e acho que a funcao superior nao foi escolhida pelo ego, vc nasce assim e talvez ela seja o caminho mais eficiente para a experiencia mistica.

    quando penso em desenvolver o caminho mistico pela funcao inferior acho que deve funcionar , mas eh pelo caminho do sofrimento, da transmutacao, um caminho cristao que parece logico para a maioria de nos, porque aprendemos a associar sofrimento com evolucao.

    mas tambem hah o caminho da maestria, nao menos sofrido na verdade, mas que se fortalece pela aceitacao do poder com que nascemos.

  18. Marcos said

    Lamed, se for assim então ninguém se relaciona de verdade com Deus.

  19. aldhabaran2 said

    Puxando um pouco pelo coco, seguindo o que disse o L:

    -Para quem acha que Deus é tudo, Deus é nada.
    -Para quem acha que Deus é nada, Deus é tudo.
    -Para quem acha que Deus é tudo e nada, Deus é isso aí mesmo.

  20. maelstrom5 said

    Luiza,
    / quando penso em desenvolver o caminho mistico ela funcao inferior acho que deve funcionar , mas eh pelo caminho do sofrimento.

    Entendi o que vc quer dizer e concordo em parte. Ao invés de falar de função inferior eu prefiro falar em brechas, portas mais fáceis de abrir, que te dão acesso a uma prática que flui melhor do que outras. Mas tenho de concordar com o Lúcio em parte também, quando ele diz que estas brechas estão geralmente no lado que se dá menos atenção, no lado menos desenvolvido, não diria da personalidade, mas da sua existência como um todo.

    É justamente esta debilidade enevoada e incerta que te dá acesso a outras práticas mais fluidas, já que os lados mais desenvolvidos da tua existência são mais sólidos e portanto bons para ganhar a vida no cotidiano, mas não para te dar acesso a outras práticas.

  21. luramos said

    quando o Lucio falou no FA sobre as funcoes e o caminho mistico, achei que tinha muita logica pensar que a funcao inferior tem menor influencia do ego, portanto seria uma boa “brecha” para a experiencia mistica. Fez muito sentido.
    Depois de experienciar muitas coisas acho que nao existe uma relacao direta. Por exemplo se voce eh do tipo devocional, eh dificil achar que vai encontrar seu “metodo” usando a intelectualidade. Eh possivel, claro, mas nao eh natural. Vai exigir esforco, assim como passar a noite entoando mantras tambem exige esforco para o mais devocional dos seres humanos, soh que parece mais facil alcancar a experiencia mistica para o devocional entoando mantras do que para o intelectual por exemplo.
    Assim como se o sujeito eh um karma yogue, “gente-que-faz”, trabalha, passar a noite entoando mantra pode ser uma tortura sem fim e nenhuma experiencia mistica, a nao ser a expansao da paciencia…, o que nao eh pouco, mas nao eh o que traz a sensacao de plenitude.
    Entao mudei de opiniao, acho que o dificil eh descobrirmos que tipo de yogue somos, que funcoes temos como superiores e inferiores, se vc for bastante mental, como todo mundo que vem aqui eh, talvez vc resista em descobrir que eh um tipo devocional, por exemplo. E infelizmente nao eh porque fazemos o teste de personalidades que descobrimos qual eh o nosso caminho.
    Entao vou mais uma vez fazer a apologia do meu verbo preferido que eh “render-se”: Se o seu ego resistir a entregar-se a experiencia mistica usando sua funcao superior, entao talvez, o melhor caminho seja mesmo o de usar o funcao inferior.

    aqui vai o link pra quem quiser entender melhor
    http://malprg.blogs.com/francoatirador/2008/03/todos-os-caminh.html#more

  22. maelstrom5 said

    >Entao vou mais uma vez fazer a apologia do meu verbo preferido que eh “render-se”:

    “Render-se” é render-se à brecha, render-se é dificílimo . Render-se é Wu-Wei o supra-sumo de toda prática, é simplíssimo mas é díficil, nossa identidade é quase que integralmente constituída de defesas contra este render-se.

    Mas eu vou concordar com vc que dá sim pra “render-se” usando a função superior, vc está correta. Dá sim. Mas não tenho dúvida de que o esquema é muito mais rock and roll usando-se a função a inferior!!!

    Digamos então por hipótese que para o artista/poeta é mais proveitoso usar a função inferior, e para o pai/mãe de família seja mais proveitoso usar a superior. Vai das tendências de cada um.

  23. sem mais said

    Falar de Deus é a maior pretensão, mexe com o ego e toda a nossa realidade psíquica mesmo, se sente alvoroçada frente a essa promessa de encontrar enfim um significado último para a vida… ou primeiro, ou único, maior, verdadeiro, enfim… Deus é uma espécie de tudo e nada mesmo. Mas vamos lá…

    Se Deus há, ele não pode ser encontrado (significado) pela racionalidade em toda sua grandeza, simplesmente porque ele (Deus) é maior do que ela (a nossa racionalidade).

    Deus é arquétipo e nesse sentido não há mesmo como se relacionar diretamente com ele. Essa sim seria a maior pretensão de todas, o homem sentar com num café pra discutir o destino do universo com Deus como fosse o resultado da rodado do final de semana de um campeonato qualquer…

    Falar de Deus racionalmente é matar Deus porque onde ele puder ser explicado ou nomeado, vira conceito, uma idéia (normativa?) manipulável – e manipuladora de outros objetivos, muitos escusos, alguns até bem contrários ao desenvolvimento da espiritualidade da alma.

    Mas nesse ponto me volta a pergunta inicial do Lamed: o que se quer dizer e se entende por Deus?

    O dito mais famoso do Riobaldo é “viver é muito perigoso”… Esse viver entre veredas, a que se refere o Guimarães Rosa, é o que eu entendo por Deus; jornada de autoconhecimento, atendendo aos apelos de Sophia, atravessando a noite escura da alma (os anoitans da vida – no plural porque são vários ao longo da vida e num deles é quando e onde, mais do que provável, teremos o nosso fim, no bom e no mau sentido) e realizando o processo alquímico na própria carne… Tudo isso é Deus na ânsia do homem tornar a ser uno com algo que não sabe direito o que é ou de onde veio (alguns chamam Deus, outros Grande Mãe e os mais materialistas simplesmente de o útero materno) e nada, nenhum desses processos se faz sem perigo. Entre nós, desnecessário explicar o porquê.

    É verdade que Deus habita no todo de nós, pelo menos eu também acredito nisso, mas, digamos que sua porta de entrada se dê por nossa função principal, é só quando chegar na função inferior, e apenas ali, que aparecerá em toda sua magnificência, ou no quanto nos permitirmos ou nos for possível ser transpassados por Ele. Nesse sentido Deus é a transcendência absoluta, cuja finalidade não é outra senão ampliar o nosso entendimento, alargar nossos horizontes…
    Hillman fala a esse respeito, no seu trabalho “Função Sentimento”, de que na prática não há o que ser desenvolvido na função principal, visto ela já ser a função principal, maior trabalho teríamos com desenvolver a função inferior, mas só ela é que contém as respostas aos dilemas onde as outras funções falham.
    Na função inferior é onde somos abismo, ligação “direta” com Deus, onde somos subjetividade pura, cada inconsciente pessoal a seu modo peculiar de se relacionar aos arquétipos da Psique Objetiva. Então, concluo por fim, apenas através da função inferior podemos alargar nosso entendimento, “ver” Deus, em outro lugar sequer haveria “espaço”.

  24. Adi said

    “E eu estou cada vez mais convencido de que não é a tua função superior que te leva a [Deus/Realidade/Nirvana/fill_the_blank], mas a tua função inferior, o que você menos valoriza em si mesmo, aquilo com que você não sabe lidar, que você rejeita, recusa, reprime. Afinal, como dizia o bom e velho JC, o Senhor virá como um ladrão na noite… :-)’

    L., entao neste caso a funcao inferior eh analoga a “sombra”.
    E neste caso muda muita coisa, faz sentido a busca pelo caminho oposto ao que lhe eh conhecido e natural, mas que nao tem muito o que “revelar”.
    Faz sentido o porque de reconciliar as duas funcoes no ser, porque eh dessa forma que se torna inteiro, integral, unico…

    Interessante, ha muitos nomes, muitas maneiras de descrever “o caminho”, muitas maneiras de se trilhar o caminho…. mas me parece que nao ha outro meio ou caminho que nao o de “reconciliacao com o oposto”, o “casamento alquimico”, o resgate da sombra, ou que seja entao funcao inferior, descrito pela maneira psicologica…

    Percebo, ha tantas maneiras de se expor e explicar a mesma coisa, tantos olhos veem a mesma coisa de formas diferentes, e ainda continua sendo a mesma coisa em essencia.

    Essa eh a magia da vida, essa multiplicidade pipocando mesmo numa unica cor, porque ela pode ser a mais variada de acordo com o observador que a observa.

    Bjs
    Adi

  25. adriret said

    “Entao mudei de opiniao, acho que o dificil eh descobrirmos que tipo de yogue somos, que funcoes temos como superiores e inferiores, se vc for bastante mental, como todo mundo que vem aqui eh, talvez vc resista em descobrir que eh um tipo devocional, por exemplo. E infelizmente nao eh porque fazemos o teste de personalidades que descobrimos qual eh o nosso caminho.”

    Oi Luiza,

    Concordo com voce, tambem acho que o mais dificil eh descobrir que tipo de iogues somos, nossas facilidades e dificuldades, e a partir dai usar os metodos que mais podem nos auxiliar em nossa busca.
    Mas esse “descobrir que tipo somos” recai novamente no “conhece a ti mesmo”.
    A fim de encontrar nossa luz temos de busca-la no mais escuro de nossa Alma, remexer no que foi negado, na honestidade brutal consigo mesmo, e sem duvida eh um caminho arduo e doloroso. Essa nao eh a via mais facil.
    A funcao superior nos leva onde jah estamos, jah sabemos e conhecemos, dificilmente ela mostrara o desconhecido de nos mesmos/

    Eu entendo que podemos sim utilizar a funcao superior ateh um certo momento, ela serah util, mas soh te levarah ateh um ponto do caminho, como se o metodo se esgotasse, e ainda nao foi o suficiente, a busca continua, e entao nao resta alternativa, o sujeito tem que mudar o metodo, buscar o nao natural, pela via do sofrimento mesmo.
    Mas eh nesse nao gostar, no exercer algo novo, diferente, desafiador, oposto, que se encontra uma nova brecha, como descreveu o Kingmob.
    Jah utilizei tanto metodos da funcao superior como inferior, e ambos trouxeram bons resultados, por isso acho que depende mais do momento do caminhante do que a funcao predominante. Porque mudamos junto com o caminhar. ;-))

    Abs
    Adi

  26. barbara said

    É obrigatório?
    Negar ou afirmar?
    Isto é inflexibilidade.
    Não nego e não afirmo.
    Apenas isso.
    Prá que mais?

  27. Fy said

    Como se pode afirmar ou negar alguma coisa quando não se sabe o que está sendo afirmado ou negado?
    Lamed

    Não nego e não afirmo.
    Apenas isso.
    Prá que mais?
    Bárbara

  28. maelstrom5 said

    Sehr schön.
    =D

  29. Ives said

    O problema apresentado é o fundamental da lógica humana. Como Kant brilhantemente demonstrou, nossa razão ‘trava’ diante daquilo que não podemos processar empiricamente. Deus está além e acima do que é real e humano, então como compreendê-lo (ou negá-lo?). Todas as religiões tentam dar forma a essa idéia divina, algo palpável, mas incompreensível, enquanto o ceticismo “científico” trata de negá-la, mas ambas são respostas ao nosso medo. O fanático se lança desesperadamente a seus dogmas para esquivar-se de seus temores, enquanto o ateu nega tudo que transcende essa existência por medo de confrontar algo maior que a si próprio (e se decepcionar, caso nada encontre). Mas a grande realidade é que todos os grandes avanços da Biologia, da Antropologia, da Psicologia e da Filosofia nos dizem: Existe algo maior. Esse ‘algo’ misterioso e indecifrável nos assusta, nos machuca, e diante dele acabamos nos debatendo como ondas contra um rochedo. Eu não sei explicar Deus, nem adoto nenhuma religião espefícia. Mas quando fecho os olhos e sinto o vento, deixando minha tristeza, minha pequenez humana de lado, abandonando a fé cega e também o medo da fé, eu sinto em cada fibra do meu ser: Há algo. E buscar vivenciar essa Força Estranha, como bem colocaria Caetano Veloso, de forma pacífica, tranquila e positiva só nos fazer bem, a nós e a esse estranho épico tragicômico que chamamos de Humanidade.

  30. Ives said

    E parabéns pelo Blog!
    O conheci a partir da crítica a Dawkins feita no Franco-Atirador (excelentíssimo texto, por sinal).

  31. Kali Worshipper said

    Como diria Belzebu a seu neto:
    “Hassan, disputas epistemológicas acerca da existência ou não existência esseral do supremo administrador do sol central, é uma mais uma característica do peculiar psiquismo dos seres tri-cerebrais deste desafortunado planeta.”

    Digam o que disserem a variante “deus” anida não pode ser descartada da equação ontológico-étnico-neuro-semântica, persisite como efeito de perspectiva da incompletude do processo que Jung chamou de individuação.

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