Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

A Noite Escura da Alma (Primeira parte)

Posted by aldhabaran2 em outubro 28, 2008


Há algum tempo quero postar alguma coisa sobre o Caminho das Trevas. Fico um pouco receoso de ser mal compreendido: afinal, existe toda uma simbologia negativa associada às trevas que acaba por obnubilar o raciocínio e leva a conclusões errôneas sobre o objetivo de analisar tal Caminho.

San Juan de La Cruz já falava sobre a “noite escura da alma”, numa poesia que achei lindamente musicada por Lorenna McKennitt (há vários anos ouço-a para inspirar-me em certos momentos). Jung nos fala sobre o trabalho com a sombra, e na alquimia um dos processos mais importantes na obtenção da pedra filosofal é justamente o nigredo. Nada mais justo então e condizente com esse blog – que, não por acaso, mas por uma série de sincronicidades se chama Anoitan – do que falar sobre esse Caminho das Trevas que já mencionei.

Existe um fenômeno que não deixa de ser paradoxal na experiência humana com a noite: o medo do escuro é verificado desde o nascimento em nossa espécie, embora como mamíferos tenhamos evoluído de animais adaptados à hábitos noturnos. Os primatas, entretanto, são predominantemente diurnos, e algumas análises sobre seus hábitos alimentares e de locomoção nos esclarecem em parte o porquê dessa inversão. O consumo de frutas, raízes, insetos e pequenos animais exige um uso mais apurado do sentido da visão do que de outros como o olfato. Daí que, durante o dia, quando há mais luz, é mais eficiente a busca por esses recursos, bem como diminui as chances de encontrar um predador de hábitos noturnos como uma pantera.

Até aqui tudo bem, mas o que isso tem a ver com a Noite Escura? Justamente nesse ponto é que as coisas começam. Nossa ligação com a noite é de que nela existem perigos, mas nela é que há o descanso. E é durante o sono, majoritariamente noturno, que ocorrem os sonhos.

Olhar um céu durante o dia nos dá a idéia de que há um limite numa abóboda azul, mesmo que seja muito longínquo; afinal, toda superfície tingida de azul É um limite. O negro da noite, muito pelo contrário, dá uma noção de profundidade infinita, onde pontos luminosos se instalam, criando um efeito de espaço circundante vasto e indefinível.

Estamos apenas na análise ambiental e física da noite ainda, sem entrarmos no que quero discutir, mas penso que essa introdução é necessária para o entendimento da experiência da Sombra.

A Noite, ou as Trevas, em praticamente todas as culturas humanas, é o princípio de todas as coisas, onde tudo começa; é no ventre de Nuit que são gerados os deuses e o mundo; é o Vazio, onde habita a Chama Imperecível que dá existência à criação no mito de Tolkien (ver O Silmarillion); para que brilhe a luz, é necessária uma escuridão preexistente. Mas também é seu oposto: é a treva onde se extingue a luz da vida, o Pralaya onde os Mundos infindáveis se dissolvem; às trevas também se associam a ignorância, o Mal (o primeiro Senhor do Escuro de Tolkien), a loucura. É o Fim de tudo e de todos.

Diante de um paradoxo tão profundo, não deixa de ser natural o temor e a incompreensão desse fenômeno. Mas, temerária ou corajosamente, sempre me propus entendê-lo. Pois assim como medo e temor, a noite nos inspira admiração e reverência. E é nela que os amantes se encontram, tanto os literários shakesperianos quanto aqueles que amam sua Amada Imortal, a Mônada, Alma, Anima.

Vou pedir um pouco de paciência aos caros leitores; sei que estou me alongando em uma arenga aparentemente desnecessária, mas esse assunto não se esgota em um post apenas. Esse é o primeiro. Seguirão outros, espero, e que eu não seja o único autor a falar sobre Anoitan.

Fiat lux ex tenebras.

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10 Respostas to “A Noite Escura da Alma (Primeira parte)”

  1. aldhabaran2 said

    Para não deixá-los nas trevas (desculpem o trocadilho), aqui vai a versão usada na música, seguida da versão em português.

    Upon a darkened night
    the flame of love was burning in my breast
    And by a lantern bright
    I fled my house while all in quiet rest

    Shrouded by the night
    and by the secret stair I quickly fled
    The veil concealed my eyes
    while all within lay quiet as the dead

    Chorus
    Oh night thou was my guide
    oh night more loving than the rising sun
    Oh night that joined the lover
    to the beloved one
    transforming each of them into the other

    Upon that misty night
    in secrecy, beyond such mortal sight
    Without a guide or light
    than that which burned so deeply in my heart

    That fire t’was led me on
    and shone more bright than of the midday sun
    To where he waited still
    it was a place where no one else could come

    Chorus

    Within my pounding heart
    which kept itself entirely for him
    He fell into his sleep
    beneath the cedars all my love I gave
    And by the fortress walls
    the wind would brush his hair against his brow
    And with its smoothest hand
    caressed my every sense it would allow

    Chorus

    I lost myself to him
    and laid my face upon my lovers breast
    And care and grief grew dim
    as in the mornings mist became the light
    There they dimmed amongst the lilies fair
    There they dimmed amongst the lilies fair
    There they dimmed amongst the lilies fair

  2. aldhabaran2 said

    Em uma noite escura
    De amor em vivas ânsias inflamada
    Oh! Ditosa ventura!
    Saí sem ser notada,
    ´stando já minha casa sossegada.

    Na escuridão, segura,
    Pela secreta escada, disfarçada,
    Oh! Ditosa ventura!
    Na escuridão, velada,
    ´stando já minha casa sossegada.

    Em noite tão ditosa,
    E num segredo em que ninguém me via,
    Nem eu olhava coisa alguma,
    Sem outra luz nem guia
    Além da que no coração me ardia.

    Essa luz me guiava,
    Com mais clareza que a do meio-dia
    Aonde me esperava
    Quem eu bem conhecia,
    Em lugar onde ninguém aparecia.

    Oh! noite, que me guiaste,
    Oh! noite, amável mais do que a alvorada
    Oh! noite, que juntaste
    Amado com amada,
    Amada no amado transformada!

    Em meu peito florido
    Que, inteiro, para ele só guardava,
    Quedou-se adormecido,
    E eu, terna o regalava,
    E dos cedros o leque o refrescava.

    Da ameia a brisa amena,
    Quando eu os seus cabelos afagava,
    Com sua mão serena
    Em meu colo soprava,
    E meus sentidos todos transportava.

    Esquecida, quedei-me,
    O rosto reclinado sobre o Amado;
    Tudo cessou. Deixei-me,
    Largando meu cuidado
    Por entre as açucenas olvidado.

  3. Maelstrom said

    Bonito, Mr. Deba, Bonito. =D
    Adoro essa música, esse cd é do grande caralho.

    Eu vejo a noite como a indefinição da realidade oposta a falsa clareza e ordem do dia. Na noite tudo é possível, no dia nem tanto.

  4. Maelstrom said

    será que a atual “crise” econômica é um prenúncio de noite escura????

  5. luramos said

    Que bom ler esse post.
    Eu sempre achei que pertencia ao Lado Negro da Forca (com cedilha)…rs

    mas quando li o post pensei em citar Jung e a constatacao de que se nao trouxermos luz ou consciencia a nossa Sombra, ela inexoravelmente nos aparecera na forma de nosso destino. Soh isso renderia horas e horas de muita conversa.

    mas “coincidentemente” , esta semana, li num livro sobre hermetismo (The serpent and the Sword – Ousborne and Mellita Dennings) sobre a poesia de San Juan de La Cruz .

    “A Noite escura da alma tem seu aspecto de extase e tristeza. Ela contem a desolacao da profunda solidao e a vasta amargura de todo o oceano. Eh a experiencia de Binah (a terceira sefira) ou as forcas de Saturno.
    Hah prenuncios, mas a verdadeira Noite Escura da Alma, nao se apresenta plena antes do Abismo. Eh a paixao da mariposa pela chama, por aquela chama suprema que eh a Centelha Divina, que em sua verdadeira natureza estah velada mesmo para o Adepto.

    Mas uma vez contemplada, diretamente, mesmo que ainda como Nao-Self, aquela dissolucao na Chama eh totalmente desejada, ateh que se alcance o equilibrio. Dai em diante, se houvessem palavras para expressar, seriam apenas palavras de Amor. Mas sempre hah a consciencia da transcendencia, a desolacao (Nota da tradutora -lembre-se do que acontece com a mariposa?) e o extase. ”

    portanto a consciencia de que eh possivel transcender-se trarah o mais profundo desespero.

    Eh paradoxal porque este despero nasce do Amor ( a sagrada energia que reune) a criatura e o Criador.

    Acho isso tudo uma otima explicacao para o fato de que, se eu sei tudo isso porque continuo onde estou na minha jornada individual. Lampejos da magnitude da dissolucao em Deus nos trazem a ideia da morte e dela fugimos a qualquer preco. E a partir dai vem a interessante ideia de render-se, em ingles – surrender ou em arabe – islam.

  6. sem mais said

    O bom da noite é que ela comporta mistérios, sem a noite não teríamos noção de profundidade nenhuma… no entanto, não podemos esquecer que ela (a noite) não é a única condição do tempo e o contrário de “se há um amanhã, há um anoitã” é igualmente verdadeiro.

    Quanto à crise econômica, penso que ela não é apenas econômica, mas, uma crise generalizada que vem acontecendo a algum tempo em todas as instituições sociais, ou pelo menos no modo como o ocidente as concebeu nesses últimos séculos. Apenas a economia torna hoje esse fato mais evidente, seja porque muitos a consideram o carro chefe das outras organizações ou então porque é só quando chega ao bolso que a maioria começa mesmo a prestar atenção no que acontece. Mas as instituições como um todo já vêm sendo minadas a um bom tempo – o que não é necessariamente ruim… As sociedades vêm se adaptando como podem e fazendo as reformas necessárias, no entanto, quando uma casa está comprometida desde a base, em sua estrutura, é só uma questão de tempo para que um dia tudo venha abaixo… Nesse sentido, penso que ainda não chegamos ao auge da nossa crise, no âmbito do púbico e político com a economia, nem do particular das relações pessoais, familiares, etc. Hoje a desconfiança é generalizada, não se sabe mais em quem ou no quê confiar, tudo (arte, política, família…) está em “reforma” ou sendo questionado…
    Se a crise financeira prenuncia o anoitan da humanidade? pois já não era sem tempo! acho que é mais do que hora do homem enfrentar a própria sombra. Um dia isso teria de acontecer na história da cultura humana, mas na noite mal entrada em que nos encontramos, não há garantia nenhuma de que teremos ou chegaremos a um amanhecer melhor do que a noite… O escuro, do mesmo modo que contém todas as possibilidades, traz também a possibilidade, mesmo que remota, de engolir o dia. Eu só torço para que a humanidade não enlouqueça, pois isso seria realmente o fim.

  7. Lamed said

    Ótima lembrança, Aldhabaran – e belíssima versão da Lorenna McKennitt! Não conhecia, veio pra mim no momento certo.

    Eu já tinha feito a ligação do nome anoitan com a nigredo, mas no âmbito das minhas sincronicidades pessoais. Bom saber que vai além disso.

    Outra sincronicidade: hoje mesmo, li um texto sobre A Noite Escura da Alma – estranhamente, num livro sobre metáforas cognitivas…

    Há muitas noites escuras, de muitas almas, mas imho, em seu sentido mais elevado – no tipo de experiência que São João experimentou e descreveu – ela é o abismo entre Tiphereth e Kether, que a alma precisa cruzar para se unir a Deus.

    E que venham as demais partes!

    Abs.
    L.

  8. adriret said

    Muito bonito o texto Aldhabaran, eu tambem interpretei a Noite escura da Alma com a travessia do abismo, de Daath.

    Tenho muito respeito e admiracao pela sombra, escuridao que vela o desconhecido de nossa Alma. Ela representa o inconsciente, enorme poder de regeneracao e tambem de destruicao…
    Vou esperar as outras partes, porque eh um assunto que muito me interessa mesmo…

    Abs
    Adi

  9. Filipe Wels said

    Esse tema é uma deixa para falar sobre Abraxas, o Arconte que tem o conhecimento do bem e o do mal. Jung fala sobre ele no 3o sermão. Mas aí passo a bola pros experts no assunto daqui 🙂

  10. Acid said

    Essa música exerceu uma forte impressão em mim. Eu a ouvia direto, em certa época conturbada, e só depois de muito ouvir foi que comecei a prestar atenção à letra, e quando percebi o que ela dizia, me encantou ainda mais, pois rolou uma identificação por eu estar passando por minha noite escura da alma… Aí busquei fazer a mais perfeita tradução da música, me debruçando nos dicionários em busca das palavras antigas que ela usou. Enfim, apresento-lhes a tradução que mais preserva a beleza medieval da música:

    Em uma noite sombria
    A chama do amor estava a arder em meu peito
    E, no clarão de uma lanterna
    Fugi de casa enquanto todos dormiam

    Encoberto pela noite
    e pelo meu destino incerto rapidamente corria
    O véu ocultava os meus olhos
    Enquanto todos em casa repousavam como mortos.

    Refrão:
    Ó, noite, tu fostes o meu guia
    Ó, noite, mais adorável que o nascer do sol
    Ó, noite, que uniu o amante à amada
    Transformando cada um deles no outro.

    Adentro esta noite enevoada
    Em segredo, para além da visão mortal
    Sem um guia ou luz
    Senão a que ardia tão profundamente em meu coração.

    Esta chama que me guiava
    Com brilho mais claro que o do sol do meio-dia
    Para onde ele aguardava, imóvel
    Era um lugar onde ninguém mais podia chegar

    Refrão

    Dentro do meu palpitante coração
    Que se guardou inteiramente para ele
    Ele mergulhou no seu sono
    Debaixo do cedros, todo o meu amor eu dei
    E, pelos muros da fortaleza
    O vento roçava seus cabelos contra a sua testa.
    E com sua mão macia
    Acariciava todos os meus sentidos possíveis

    Refrão

    Eu me entreguei a ele
    E repousei minha face no peito do meu amor
    A inquietação e a tristeza turvaram-se
    Enquanto na névoa da manhã fazia-se a luz
    E lá elas dissiparam-se por entre os belos lírios.

    Loreena escreve no livrinho do CD sobre esta música:
    “Maio de 1993 – Stratford….estava eu lendo sobre a poesia Espanhola do século XV,e me sentí atraída por uma em
    particular,do escritor místico e visionário São João das Cruzes; O trabalho,sem título,é um sensível e ricamente metafórico
    poema de amor entre ele e seu Deus. Poderia passar por um poema de amor entre duas pessoas,em qualquer época…Sua
    aproximação parece mais ligada aos primeiros trabalhos Islâmicos ou Judaicos,em sua mais direta comunicação com Deus…
    Eu pesquisei em 3 diferentes traduções do poema,e me surpreendí pelo fato de como uma tradução pode alterar a
    interepretação. Me lembrei de que a maioria das escrituras sagradas chegam até nós traduzidas, resultando numa variedade de
    pontos de vista.”

    Musica de: Loreena McKennitt
    Letras de: São João das Cruzes, arranjadas e adaptadas por Loreena McKennitt
    Do CD The mask and mirror (1994).

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