Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Notas sobre aula de Cláudio Ulpiano

Posted by Kingmob em outubro 26, 2008

Anotações pessoais sobre aula do filósofo fluminense Cláudio Ulpiano disponível em áudio aqui.

“Nexus 6 nos ensinou um estilo de morrer, em que o sonho de vidas superiores se mistura com lágrimas e gotas de chuva. É como se o cinema, em sua obsessão de amor e morte, repusesse a filosofia pelos afetos – e como se esta, a filosofia, já não fosse mais a voz de Deus, muito menos do homem. Já não devemos morrer como Guilherme, o Marechal, mas como uma proteína que se deixa quebrar: como os velhos poemas que sacrificam sílabas, em favor da ordem da beleza; ainda que não a alcancem. E assim desaparecem os temores pelo cadáver ultrajado”.
Cláudio Ulpiano – citação extraída do sítio Caosmos.

A prática do artista é um confronto que o artista faz consigo próprio, quebra do pessoal em nós, romper com a personalidade, com a pessoa para poder produzir a obra de arte. Todo homem que queira fazer obra de arte ou filosofia tem que se confrontar consigo mesmo, um confronto terrível, única maneira que poderia produzir o sujeito artista, histérico.[Os artistas] marcariam-se pelo deslocamento que eles fariam em relação à vida pessoal, rompimento com a estrutura psicológica, rompimento com a história pessoal, rompimento com o passado ([ver o filme] “Glória” do Cassavetes).

As atitudes e posturas não se originam numa história pessoal e começam a gerar mundos novos. Rompe-se com o passado pessoal para poder-se gerar atitudes e posturas que são conjunto de gestos. Isto marca o grande adversário do pensamento, do corpo e do tempo, o sujeito pessoal psicológico, a história pessoal. Proust rompe com tudo aquilo que gera o medo da morte, no sentido de que o medo da morte é o que produz Deus, que é o que nos paraliza, e ao nos paralizar nos impediria de produzir uma obra de arte. [Isto] é de uma radicalidade excessiva, é como se de repente o pensamento estivesse afirmando que a única saída que ele tem é um ateísmo radical, que revelaria novos mundos, mundo que não se revelaria se não houvesse o sujeito artista.

Produção de mundos possíveis, estes mundos pertenceriam ao nosso espírito, não à nossa história pessoal, e nossa função seria colocar no mundo estes mundos possíveis. Se não houvesse o artista nós seríamos forçados a viver num só mundo, sempre no mesmo mundo, quem produz os novos mundos é exatamente a arte, o que se torna primeiro para a vida de cada um de nós é a liberação das forças da psicologia para o exercicio da liberdade de pensamento. É fazer do pensamento a busca de novos mundos e a produção destes novos mundos gerando o que é inteiramente impossível fora da arte, a comunicação entre as almas. Nós todos estaríamos encerrados nas mônadas, num solipsismo, e a comunicação não seria possível nem pela amizade nem pelo amor, isto aconteceria na obra de arte, haveria a comunhão das almas na obra de arte. Proust é de uma agressividade assustadora, a aula é teórica mas é também um quadro existencial de figuras práticas, no sentido de que ouvir a aula e deixar de lado não tem sentido, a aula objetiva a modificação das subjetividades. É nós sairmos deste modelo de dominação que existe sobre nós, uma subjetividade material, construída em hábitos e sentimentos para uma subjetividade espiritual capaz de lidar com o pensamento, corpo e tempo.

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2 Respostas to “Notas sobre aula de Cláudio Ulpiano”

  1. Lamed said

    >Produção de mundos possíveis, estes mundos pertenceriam ao nosso espírito, não à nossa história pessoal, e nossa função seria colocar no mundo estes mundos possíveis.

    Santa Sincronicidade, Batman! Faz uma semana que eu comecei a pesquisar um ramo da narratologia que usa justamente o modelo dos mundos possíveis da lógica modal pra compreender os mundos ficcionais…

    (É por isso, aliás, que eu não ando postando – minha cabeça tá toda voltada pra essa pesquisa.)

  2. Maelstrom said

    >Faz uma semana que eu comecei a pesquisar um ramo da narratologia que usa justamente o modelo dos mundos possíveis da lógica modal pra compreender os mundos ficcionais…

    Acho que o caminho é por aí. Mundos possíveis, criação de mundos novos muito mais que reforma/reconstrução de mundos antigos….

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