Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Anjos Caídos

Posted by Lúcio em outubro 17, 2008

 

Harold Bloom às vezes é um velho ranheta, sobretudo quando se mete numa de suas frequentes diatribes spenglerianas contra a decadência da civilização ocidental ou quando veste o manto do esnobe e, confundindo gosto pessoal com juízo de valor, se recusa a ver os méritos de autores populares que o desagradam, como Stephen King e J. K. Rowling. Outras vezes, confesso que tenho mais simpatia por seu mau humor, como quando ele investe sua verve sarcástica contra a praga dos estudos culturais, um filho bastardo do pós-modernismo que dominou a crítica literária nas últimas décadas, reduzindo tudo a um documento sociopolítico.

Independente de aplaudirmos ou discordarmos, ler Bloom é sempre uma experiência enriquecedora, que nos arrasta para um turbilhão de referências, provocações e idéias instigantes, uma metralhadora giratória ágil, impelida por um impulso daimônico capaz de atravessar milênios de cultura literária em um único parágrafo, às vezes uma única linha. Não bastasse sua erudição em carne viva, ele é ainda um autoproclamado “gnóstico dos nossos dias” que, ao arsenal habitual dos críticos, junta conceitos extraídos da cabala, do sufismo e do gnosticismo como ferramentas para iluminar e amplificar a nossa compreensão da experiência.

Anjos Caídos, seu último livro lançado no Brasil, é Harold Bloom em sua melhor forma, um azougue gnóstico que, a pretexto de examinar uma figura literária, interroga a essência da condição humana: “Anjos – caídos ou não caídos – para mim só fazem sentido se representam algo que foi nosso e que temos o potencial de nos tornar de novo.”

Para mim também.

Logo no início do livro, Bloom esclarece que vai se ocupar dos anjos caídos não como objeto de crença, mas como uma figura literária. “Pode-se provocar um grande sentimento de injúria”, explica, “com a observação verdadeira de que o culto ocidental a seres divinos é baseado em vários exemplos distintos, porém relacionados entre si, de representação literária.”

É uma delimitação de terreno prudente, ainda mais numa época como a nossa, de ânimos religiosos exacerbados e conservadorismo galopante, mas não é inteiramente sincera, uma vez que Bloom está menos interessado num estudo acadêmico sobre a evolução da imagem do anjo do que em questionar seu significado arquetípico – expressão que ele não usa, aliás, mas que espreita no horizonte de cada um de seus parágrafos densos e compactos:

“Pessoalmente, concordo com os gnósticos, que diziam que caímos quando nós, os anjos e o cosmos fomos todos criados simultaneamente. Segundo o relato gnóstico, que também foi adotado por cabalistas e sufistas, nunca houve anjos ou homens não-caídos, nem mulheres nem mundos não-caídos. Chegar a existir como ente definido era ter abandonado o que os ortodoxos chamavam de Abismo original, mas os gnósticos chamavam de Mãe e Pai Ancestral. O anjo Adão foi um anjo caído logo que pôde ser distinguido de Deus.”

Uma consequência direta dessa premissa, como o próprio Bloom destaca algumas páginas adiante, é despojar o adjetivo caído de qualquer conotação moral. A queda torna-se sinônimo do vir-a-ser e o orgulho luciferino que a motiva nada mais é que o impulso em direção a uma existência independente. Entendemos o quanto a ambivalência desse impulso não se deixa circunscrever por um maniqueísmo simplório se nos lembrarmos que o nome filosófico clássico para esse impulso era principium individuationis.

“Mesmo que anjos tenham sido sempre metáforas de possibilidades humanas irrealizadas ou frustradas”, diz Bloom, “precisamos entender melhor o que estas metáforas  indicam.” Para responder a essa questão, ele se volta não para o mito da queda dos anjos ou para o relato épico que Milton compôs desse evento em O Paraíso Perdido (e que levou Blake a dizer que Milton estava do lado de Satã e não sabia), mas para o episódio bíblico da luta de Jacó com o Anjo, que alguns comentaristas identificam como Samael, o Anjo da Morte.

Bloom analisa o episódio à luz das idéias de Ibn-Arabi, um dos grandes místicos da tradição sufi (e que, por algum motivo, ele grafa Harabi): “Para Harabi, que seguiu fontes místicas judaicas nessa interpretação, era melhor falar não de um combate com ou contra o Anjo, mas sim de um combate para/pelo Anjo, porque o Anjo não pode se tornar uma verdadeira pessoa como forma sem a intercessão de um agonista humano.” Dessa fábula, ele extrai a conclusão: “Anjos caídos, demônios e diabos são meramente figuras grotescas e fascinantes se não pudermos fazer nenhum uso deles para nossas próprias vidas.”

O anjo é, então, um potencial que devemos lutar para realizar, a fim de que ele possa se encarnar em nossa existência individual. Em termos junguianos, que Bloom certamente recusaria, ele é o Si-mesmo que se realiza no mundo por meio da consciência e do ego. Mas, se o Si-mesmo precisa assumir as limitações de um eu para assumir uma forma concreta, se (para usar a metáfora cristã) o Verbo deve se fazer carne, ele só o faz a custa de trocar a eternidade inefável pela morte que inevitavelmente acompanha a consciência: “Em relação à morte, outrora fomos o Adão imortal, mas, assim que ficamos sujeitos à morte, nos tornamos o anjo caído, pois é isto que significa a metáfora de um anjo caído: a esmagadora consciência da própria mortalidade.”

E é aqui que as duas interpretações da luta de Jacó com o Anjo confluem: lutar pelo anjo, pela realização do anjo, é ao mesmo tempo lutar contra a morte, uma luta paradoxal, já que é quando o anjo se realiza que a morte advém: “O dilema de ser aberto a anseios transcendentais, mesmo que estejamos presos dentro de um animal mortal, é exatamente a situação do anjo caído, isto é, de um ser humano inteiramente consciente.” É desse paradoxo que brota a grandeza trágica do ser humano, sua vida que é ao mesmo tempo um ser-para-a-morte, a aceitação da finitude que é a marca de sua transcendência. A mesma coisa que faz de nós anjos caídos é o que alimenta aquilo em nós que mais nos aproxima do divino, o dom de criar: “Nossos impulsos mais criativos nos impelem para um confronto com o espelho da natureza, em que contemplamos nossa própria imagem, nos apaixonamos por ela e logo caímos na consciência da morte. Embora eu chame esse angelismo de ‘caído’, ele é a condição inevitável sempre que buscamos criar algo verdadeiramente nosso, seja um livro, um casamento, uma família, a obra de uma vida.” 

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7 Respostas to “Anjos Caídos”

  1. 123 said

    não tem nenhum lugar que dê para baixar esse livro???

  2. maelstrom5 said

    >E é aqui que as duas interpretações da luta de Jacó com o Anjo confluem: lutar pelo anjo, pela realização do anjo, é ao mesmo tempo lutar contra a morte, uma luta paradoxal, já que é quando o anjo se realiza que a morte advém.

    ah, estes paradoxos….. já fundiram a cuca de mais de um(a)!!

  3. luramos said

    eu fico entre Jorge Drexler (musica aqui , a letra eh muito bonita tambem – http://www.youtube.com/watch?v=HOd6f5W2VKI&feature=related) que define o homem como “um animal prodigioso com la delirante obsesion de querer perdurar” e o que aprendi sobre o Sagrado Anjo Guardiao, aquele que talvez encontraremos pela consciencia que temos da morte e do potencial da imortalidade, atraves da execucao da nossa Verdadeira Vontade.

    Temos consciencia da morte, mas nao da imortalidade…

  4. tiagotroll said

    interessante como a temática da morte nos fascina, e no entanto todos estamos vivos e completamente ignorantes sobre a morte… enquanto conceito, é necessário, não o teríamos criado se assim não o fosse, como nas religiões primitivas onde o homem cultuava imagens dos mesmos animais que caçava para sobreviver, portanto da morte surge a vida e até que se prove o contrário é a única coisa que temos (mesmo que talvez esta vida seja emprestada).

  5. Fy said

    Pois é, Thiago, é o nosso mistério e o nosso itinerário.

    Pra mim, a melhor versão sobre a Morte, ou Retorno é a abordagem de Kavafis, em relação às aventuras de Ulisses , neste poema:
    http://br.youtube.com/watch?v=1n3n2Ox4Yfk

    por mais q a sensação que tenhamos em relação às nossas aventuras, à nossa busca pelo conhecimento seja a de que sempre há uma nova porção de mar para além do horizonte, Ítaca será nossa chegada.
    O que tb me lembra Verstehen:
    É complicado fazer perceber ao mundo que se tem pressa de viver, que se tem vontade de esgotar todas as possibilidades de ser feliz o mais depressa possível… mas é assim que eu me sinto, como algo cujo prazo de validade se vai esgotando cada vez mais depressa e cuja ânsia de viver supera a tacanhez de esperar que algo venha até mim!
    Bjs

  6. Fy said

    Explicando: ( pq ficou meio sem sentido rsrsrs)
    …Verstehen: que implica a concepção clara de alguma coisa como um todo.

  7. podem baixar no amazon.com.br

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