Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Sopa de letrinhas

Posted by Lúcio em outubro 10, 2008

Uma nuvem de letras flutua em meio a um espaço coruscante de sinapses. É possível que formem palavras. Mas também podem se dar por satisfeitas com borboletear no espaço. Abaixo delas, há o abismo negro de onde as letras chispam. Acima delas, há o abismo negro onde as letras mergulham. Entre os dois abismos, o espaço coruscante de sinapses. E, no entanto, os dois abismos são o mesmo abismo, que engloba ainda o espaço, o coruscar e as sinapses, as próprias letras não sendo senão uma breve cintilação (no/do) abissal.

Não são, que fique bem claro, as letras do alfabeto, não as nossas letras, não do nosso alfabeto. São as cifras de uma outra linguagem, que nos precede, que nos precede necessariamente, uma vez que nós mesmos, nossos corpos, nossas mentes, isso que chamamos de nós, o que chamamos de corpo, o que chamamos de mente, tudo isso são palavras, as palavras que as letras abissais eventualmente formam em seu eterno clinamênio e que definitivamente não são nossos.

O texto prossegue. As palavras vão ficando pelo caminho, se dissolvem uma vez mais na sopa de letrinhas, formam novas palavras ou não. Mas o texto prossegue porque, no limite, o texto é tudo o que existe, o texto e o abismo, o texto que é o abismo.

Ninguém o escreve, ninguém o lê. O texto é.

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22 Respostas to “Sopa de letrinhas”

  1. Thiago de Lima said

    Wittgenstein iria gostar de ler isso. O seu blog antigo é o único no Brasil a referir-se ao Piotr Poustota, adicionei-o nos favoritos para dar uma conferida logo depois. Isso faz uns 2 anos, creio.

    ds.

  2. Malprg said

    Salve, Thiago!

    O livro do Pelevin sobre o Poustota é um achado. Merecia uma tradução mais bem-cuidada, de preferência direto do russo (a versão da Rocco é triangulada do francês). Aliás, o Pelevin é um autor que precisava ser mais editado por aqui, ele tem coisas sensacionais. Vale a pena ficar de olho no gajo.

    Abs.
    L.

  3. anaghost55 said

    Quando eu finalmente ponho a timidez de lado e resolvo comentar algo sobre um comentário, ele desaparece. ¬¬

    Alguém consiga os comentários de volta! >.<

  4. Lamed said

    Ana, alguns comentários vai dar pra recuperar a partir do email que o WordPress manda automaticamente quando alguém posta um comentário. Mas, por algum motivo, às vezes ele não manda e, nesse caso, não tem como recuperar. A gente (mais especificamente o Andrei) vai ver o que dá pra salvar. 🙂

  5. andreisc said

    Autor: Thiago de Lima
    Wittgenstein iria gostar de ler isso. O seu blog antigo era o úºnico no Brasil a referir-se ao Piotr Poustota, adicionei-o nos favoritos para dar uma conferida logo depois. Isso faz uns 2 anos, creio.

  6. andreisc said

    Autor: maelstrom5
    São as cifras de uma outra linguagem, que nos precede, que nos precede necessariamente, uma vez que nós mesmos, nossos corpos, nossas mentes, isso que chamamos de nós, o que chamamos de corpo, o que chamamos de mente, tudo isso são palavras, as palavras que as letras abissais eventualmente formam em seu eterno clinamánio e que definitivamente não são nossos.

    Pois é um alí­vio saber que a realidade é linguagem, não a linguagem-razão de todo dia, mas linguagem abissal.

  7. andreisc said

    KALI WORSHIPPER
    Como expõe Humberto Eco no seu “A Estrutura ausente” :”A psicologia estuda a percepção como fato da comunicação, a genética ocupa-se com a transmissão em CÓDIGOS dos caracteres hereditários,a neuro fisiologia explica os fenômenos sensórios como passagens de sinais de terminações nervosas periféricas á zona cortical; e essas disciplinas valem-se dos instrumentos fornecidos pela teoria matemática(poderiamos citar cabalística, grifo meu) da informação…” Isso nos possibilita vislumbrar o caráter arquetí­pico da linguagem, não só como átomo da nossa cultura, mas como cerne de tudo aquilo que chamamos de realidade, acho que poderíamos encarar o verbo como um restritor de possibilidades dentro da infinita potencialidade representada pelo grande mistério, aquilo que chamamos de Ain-sof, Parabrahman, ou pleroma. E isto é o que faria gerar as diferenças de modulações do mundo objetivo, que chamamos de mundo da criação(yethzirah). Encaro a concepção de “verbo” neste sentido,como um princí­pio que limita as possibilidades de combinação entre os elementos em jogo e o número de elementos que constituem o repertório.

  8. andreisc said

    autor: luramos
    Quem nos cria, além de nós mesmos?
    Quem nos interpreta, além de nós mesmos?
    Quem nos toca, sente, sonha ou ama, além de nós mesmos?
    Quem são os deuses que nós criamos, além de nós mesmos?
    Quem são os deuses que nos criam, além de nós mesmos?
    Quem somos,além de nós mesmos?

    Trabalho duro pra acreditar que alem de nos mesmos, Deus.

  9. andreisc said

    autor: aldhabaran2
    Ahh… desculpe a interferência sob a forma de gibi, mas em “A Guerra de Luz e Trevas” há um trecho fantástico da Escritura da Libertação Estelar dos Menteps que diz o seguinte:

    “Mais do que a própria realidade, nós somos o sonho, e o sonhador de tudo que existe.

  10. andreisc said

    Autor: Paulo

    Somos metaforas?
    Quem nos cria e interpreta?

  11. andreisc said

    Autor: Paulo
    Fausto, preso entre o escuro de dentro, de onde lhe chegam imagens e ideias, e o escuro de fora, que examina atrapalhado com seus cinco ou seis toscos instrumentos, busca o “sentido”.
    E o busca tentando “entender/explicar/encaixar/digerir/adaptar” o escuro de fora, com o material que lhe deu o escuro de dentro. Cria entao a religiao/ciencia/arte (que sao obviamente uma unica obra), mas o sentido…nao lhe vem…continua buscando, trocando velhas por novas metaforas.

    “Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
    à Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
    E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro”
    Fernando Pessoa

    Paulo

  12. Ana said

    Houve uma pequena confusão nos comentários, Andrei. O comentário da luramos veio imediatamente depois do do aldhabaran2, pois ele é o autor do trecho “Quem”.
    Aliás, era sobre este trecho que eu ia comentar, e o farei agora:

    > Quem nos cria, além de nós mesmos?
    Quem nos interpreta, além de nós mesmos?
    Quem nos toca, sente, sonha ou ama, além de nós mesmos?
    Quem são os deuses que nós criamos, além de nós mesmos?
    Quem são os deuses que nos criam, além de nós mesmos?
    Quem somos,além de nós mesmos?

    Ninguém, apenas nós mesmos, deuses.

  13. nathália said

    cuidado com esta afirmação “nós somos deus”…
    atualmente, no estado em que nos encontramos nós NÃO somos deuses, mas temos grande possibilidade de VIR A SER.

    através na alquimia, nos ligamos com nosso mestre interno(nosso deus) e então assim nos tornamos deus, mas não o somos enquanto tivermos essa percepção LIMITADA da realidade que hoje todos temos.

    primeiro, o ego, os defeitos que carregamos em nossa psique devem morrer, para que então assim o nosso “deus” , ou mestre interno nasça de verdade.

  14. nathália said

    através da* alquimia (refiro-me a alquimia interior, transformar o chumbo em ouro 😉 )

  15. Ana said

    > atualmente, no estado em que nos encontramos nós NÃO somos deuses, mas temos grande possibilidade de VIR A SER.

    Concordo com você, Nathália.
    Fiz meu comentário daquela forma como uma forma de resposta ao comentário da luramos, “Trabalho duro pra acreditar que alem de nos mesmos, Deus.”

    Talvez eu tenha me precipitado. =P

  16. Filipe Wels said

    Natália,

    Na verdade, todas as coisas, incluindo eu, você , o cachorro vira-lata ou até a Marta Suplicy são manifestações da grande mente universal que é Deus.

    Agora, eu entendo o que você ta querendo dizer. Com todos os defeitos que nos temos, ou, pra falar em tom mais claro, com o ego, nao podemos ser chamados de “deuses” e esse tipo de afirmação levaria ao orgulho místico. OK, mas nao esqueça de uma coisa: no meio de todo o caos da nossa personalidade, que faz com que nao sejamos indivíduos mas sim um conjunto de complexos, existe algo Uno, uma essencia, que as religioes chamam de Atham, Real Ser, Deus, Self, Brahma. Essa essência é o que nome diz: essência. É o que realmente nós somos, uma luz nas trevas da nossa personalidade.

    Na meditacao você pode perceber a consciência livre do eu, e aí você descobre que o eu pessoal é uma ilusao- o que resta de verdadeiro dentro de nós mesmos é isso, Deus. Quer meditar? Detenha o caos.

    Fica complicado explicar por palavras- na verdade há uns 2 anos e eu nao entendia nada disso e tentavam me explicar e eu ficava boiando 🙂 Mas é mais ou menos por aí.

  17. nathália said

    sim gente, é exatamente isso que eu quis dizer auhauahuah

    que bom que conseguiram entender, pq qndo vc fala isso para pessoas que leram “the secret” elas não entendem, e continuam achando que elas mesmas são deuses imortais… aushaihsai

    abraços

  18. KALI WORSHIPPER said

    “KALI WORSHIPPER
    Como expõe Humberto Eco no seu “A Estrutura ausente” :”A psicologia estuda a percepção como fato da comunicação, a genética ocupa-se com a transmissão em CÓDIGOS dos caracteres hereditários,a neuro fisiologia explica os fenômenos sensórios como passagens de sinais de terminações nervosas periféricas á zona cortical; e essas disciplinas valem-se dos instrumentos fornecidos pela teoria matemática(poderiamos citar cabalística, grifo meu) da informação…” Isso nos possibilita vislumbrar o caráter arquetí­pico da linguagem, não só como átomo da nossa cultura, mas como cerne de tudo aquilo que chamamos de realidade, acho que poderíamos encarar o verbo como um restritor de possibilidades dentro da infinita potencialidade representada pelo grande mistério, aquilo que chamamos de Ain-sof, Parabrahman, ou pleroma. E isto é o que faria gerar as diferenças de modulações do mundo objetivo, que chamamos de mundo da criação(yethzirah). Encaro a concepção de “verbo” neste sentido,como um princí­pio que limita as possibilidades de combinação entre os elementos em jogo e o número de elementos que constituem o repertório.”

    realmente houve uma confusão com a autoria dos comentários, esse por exemplo é meu e não de andreisc…

  19. Fy said

    Filipe:

    Na meditacao você pode perceber a consciência livre do eu, e aí você descobre que o eu pessoal é uma ilusão- o que resta de verdadeiro dentro de nós mesmos é isso, Deus. Quer meditar? Detenha o caos.

    Isto mesmo, deter o caos, deter os mecanismos que apagam a consciência e nos escravizam, impedindo-nos de atingir a luz. O Sol interno, o ser divino em nós, a essência, o contato com a eternidade.
    E conseguir atravessar todos os véus que escondem este ser divino q sempre fomos, é sim um processo de natureza alquímica; um grande salto qualitativo de consciência; comparável a um renascimento.
    Bjs

  20. Filipe Wels said

    um grande salto qualitativo de consciência; comparável a um renascimento.

    Exatamente! Alias, o termo renascimento foi muito bem empregado aqui. É bem isso ainda. Mas seria ainda precisamente um nascimento, afinal, é quando começa a vida genuína.

    É preciso morrer para o eu para começar a viver.

  21. nathália said

    e esse renascer e morrer dos defeitos psíquicos seria a libertação da matrix, quando nós percebemos que somos apenas um coração livre que pulsa… livre

  22. Fy said

    quando nós percebemos que somos “apenas” um coração livre que pulsa… “livre”
    Nathália

    Isto pra mim é meditar, Nathalia; só qdo mergulhamos nesta percepção é q contatamos este “euverdadeiro” em nós e conseguimos ouvir este coração:

    “I am Wolf. It is my cry you hear in the night, My eyes that gaze at you from the shadows. It is my heart that beats in your Soul, My strength that makes you whole. I am Wolf. I am in you. You are in Me. We Are Wolf.” –WolfDreamer
    Bjs

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